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Kawaii!

Elas s√£o fofas, amam cultura japonesa, vestem roupa de boneca, capricham na maquiagem, tiram muita foto fazendo “V” com os dedos e d√£o um show de confian√ßa e auto express√£o. As adeptas do universo kawaii s√£o as pessoas mais fofas poss√≠veis.¬†Seja vestida de boneca ou de cosplay de Sailor Moon, todo mundo tem seu destaque na Mimi Party, evento que reuniu os adoradores da cultura kawaii japonesa em S√£o Paulo.

Kawaii significa “fofo” em japon√™s e virou uma express√£o para definir a cultura em torno da adora√ß√£o da “fofura”. Que o Jap√£o √© apaixonado por coisas fofas todo mundo sabe. Essa fixa√ß√£o pela fofura surgiu h√° muito tempo no pa√≠s, desde os anos 20, quando a maionese Kewpie, que tem um bebezinho com asas na embalagem, esgotou das prateleiras japonesas. Consequentemente, os amantes da cultura japonesa no Brasil acabaram aderindo ao movimento kawaii atrav√©s dos animes, mang√°s e cosplay.

Sob a organiza√ß√£o da embaixadora kawaii no Brasil, Akemi Matsuda, a Mimi Party est√° em sua segunda edi√ß√£o e al√©m de ser um ponto de encontro para lolitas e cosplayers, tamb√©m √© um ambiente para celebrar o amor e a auto express√£o. Vestida de rosa da cabe√ßa aos p√©s, Akemi nos conta que o kawaii √© uma cultura cujo objetivo √© espalhar a paz pelo mundo. ‚ÄúSer kawaii √© expressar quem voc√™ √© no interior atrav√©s das roupas”, disse Medore Ruiz, umas das apaixonadas pelo estilo.

Após comermos uns sanduíches cor-de-rosa e uns sushis em formato de coração, batemos um papo com algumas das meninas mais kawaiis da Mimi Party sobre aceitação e Sailor Moon. E, no melhor estilo Harajuku, tiramos as polaroids mais fofas do evento.

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Sei, 37 anos
Se monta desde 1998. Seu look é a Sailor Moon com um kimono misturado com lolita.

‚ÄúEu comecei sendo cosplay, at√© que criei confian√ßa suficiente pra me aceitar. Hoje sou Lolita.‚ÄĚ


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Stephanie de Paula, 20 anos
Se veste kawaii h√° 3 anos.

‚ÄúEu me visto assim em eventos e tamb√©m aos finais de semana. As pessoas ficam olhando, ou vem falar que eu pare√ßo uma boneca e √†s vezes me tratam mal. Hoje mesmo o motorista do √īnibus n√£o abriu a porta pra mim.‚ÄĚ


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Jeniffer, 17 anos e Thain√°, 18 anos


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Akemi Matsuda, embaixadora kawaii no Brasil


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Tamara, 24 anos
Lolita desde 2010.

‚ÄúSempre fui apaixonada pela cultura japonesa e sempre amei bonecas. Foi a√≠ que decidi ser Lolita. (…) Eu me visto assim¬†apenas em eventos porque, infelizmente, ainda tem muito preconceito no Brasil, as pessoas olham feio.‚ÄĚ


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Juliana, 18 anos

‚ÄúEu comecei a me vestir assim pra me sentir bonita. Todo mundo quer se sentir como¬†uma princesa, n√©.‚ÄĚ


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Miki e Kuma, 20 anos

‚ÄúEu amo maquiagem e amo anime. Por que n√£o juntar os dois?‚ÄĚ (Miki)

‚ÄúEu fui juntando v√°rias refer√™ncias que eu gostava e montei meu estilo. Esse, por exemplo, √© um vestido que uso pra ir a faculdade. √Äs vezes a gente vai pra Augusta de lente de contato e brilho na cara.” (Kuma)


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Zakuro (25 anos) e Haruka (23 anos)

‚ÄúMe vestir assim √© uma liberta√ß√£o. √Č uma maneira de expressar quem eu sou por dentro atrav√©s do exterior.‚ÄĚ (Zakuro)


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Hana, 25 anos

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Zubat forte o tambor:
Pokémon Go e o Brasil

Na cal√ßada, no meio de uma pequena multid√£o, tr√™s s√≥sias do Michael Jackson rodopiavam ao som de ‚ÄúBad‚ÄĚ. Dois Michaels adultos de regata branca dominavam a coreografia caracter√≠stica, mas era um terceiro Michael, de cerca de 6 anos, que roubava a cena com movimentos ainda mais en√©rgicos. A poucos metros da performance, √īnibus passavam correndo e pedestres andavam mais devagar que o habitual, olhando atentamente para a telinha brilhante de seus celulares. Anoitecia na Avenida Paulista. ‚ÄúOlha, acabei de pegar um Grimer de CP 240 ali na frente da Renner‚ÄĚ ‚ÄĒ uma voz desconhecida interrompeu o tumulto, se gabando da conquista e ao mesmo tempo alertando a reportagem, que, por sua vez, tinha acabado de capturar um monstro id√™ntico, s√≥ que com mais CP ‚Äď “combat power”. Pok√©mon Go chegou ao Brasil.

Quem come√ßou a se familiarizar com o jogo entende a situa√ß√£o do jovem que se empolgou com o tal do Grimer, esse monstrengo imenso, provavelmente feito de chorume e piche. N√£o custa nada avisar quando um aparece. √Č que no dia 3 de agosto, quando Pok√©mon Go finalmente foi lan√ßado aqui, sua produtora, a Niantic, revelou outra novidade incr√≠vel: uma enorme infesta√ß√£o de Zubat, o pok√©mon em forma de morcego. Ele est√° em todos os lugares, ele est√° no meio de n√≥s, cora√ß√Ķes ao alto! Desde ent√£o, a rotina dos ca√ßadores consiste em andar pelas ruas com expectativa, reagir √† vibra√ß√£o do smartphone e encarar quase chorando o nonag√©simo s√©timo voo de um Zubat selvagem. E, se n√£o √© Zubat, √© Pidgey ‚ÄĒ uma pombinha ‚ÄĒ, se n√£o √© Pidgey, √© Weedle ‚ÄĒ aquela lagarta n√£o t√£o simp√°tica quanto o Caterpie.

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Zubats √† parte, Pok√©mon Go entrega mais ou menos o que a internet tinha encomendado: tira o jogador de casa e o convida para uma gincana imprevis√≠vel pelo mapa do mundo real, agora povoado pelos simp√°ticos monstrinhos de bolso ‚ÄĒ desde que seu plano de dados colabore. Se a inova√ß√£o da realidade aumentada j√° deixa qualquer um meio perdido, a interface com poucas instru√ß√Ķes e os recursos inacabados ajudam, mesmo que por acidente, a criar um clima de hist√≥ria em constru√ß√£o, uma mistura de futuro caricato com o passado em que os videogames n√£o vinham com tutorial ou setinha de ‚Äúv√° por aqui‚ÄĚ. A sensa√ß√£o √© de desbravar um terreno em que tudo pode acontecer, mas talvez voc√™ esteja no transporte p√ļblico e acabe perdendo o Pok√©Stop.

Os Pok√©Stops, ali√°s, s√£o as estruturas mais importantes no mapa da dimens√£o paralela. Representados por √≠cones azuis espalhados pela cidade, oferecem pok√©bolas, po√ß√Ķes e outros acess√≥rios necess√°rios para a jornada. J√° os Pok√©Gyms s√£o os gin√°sios em que treinadores mais experientes enfrentam outros times. O segredo fitness √© que n√£o adianta escolher apenas uma dessas √°reas. Cada regi√£o de uma cidade guarda tipos espec√≠ficos de pok√©mons, alguns gerados de acordo com seu terreno. Em S√£o Paulo, dizem que a valiosa Eevee anda pelos arredores de Pinheiros e o cl√°ssico Pikachu tem aparecido com mais frequ√™ncia na Barra Funda. Pok√©mons de √°gua, como o pato Psyduck, a tartaruguinha Squirtle e o Magikarp ‚ÄĒ uma carpinha aparentemente in√ļtil que evolui e vira Gyarados, um dos pok√©mons mais fortes ‚ÄĒ, se escondem em √°reas como as margens do lago do Parque do Ibirapuera.

Piquenique de Pokémon

O famoso parque paulistano foi um dos locais visitados pela reportagem do Risca Faca no primeiro fim de semana de Pok√©mon Go no Brasil. Na manh√£ do s√°bado, o Planet√°rio era uma das √°reas mais povoadas: normalmente vazia, a pequena pra√ßa de 50 m¬≤ em frente ao pr√©dio ‚ÄĒ inaugurado em 1957, trata-se do primeiro planet√°rio da Am√©rica Latina, mas ningu√©m dava uma pok√©bola para isso ‚ÄĒ concentrava mais ou menos 300 jogadores. Alguns preferiam ficar sentados em grupo no gramado, como em um p√°tio de escola, ignorando qualquer proposta de atividade f√≠sica.

Por algum motivo que s√≥ a Niantic sabe, calhou de essa √°rea contar com quatro Pok√©Stops grudados um no outro, o que garante apari√ß√Ķes e muni√ß√£o infinitas. Para dar uma dimens√£o, h√° munic√≠pios inteiros com a mesma oferta: ‚ÄúL√° na cidade da minha fam√≠lia, Santa Isabel, a 50 minutos de S√£o Paulo, quase n√£o tem Pok√©Stops. Tem um numa pra√ßa cheia de moradores de rua¬†que agora dividem o espa√ßo com um monte de nerd com celular; tem outro na frente de um lava-r√°pido e um no topo de um morro alt√≠ssimo. O pessoal l√° j√° criou at√© uma hashtag para pedir mais no Facebook‚ÄĚ, conta o consultor em sa√ļde coletiva Augusto Mathias, de 33 anos, que tinha acabado de capturar um Magmar.

O assunto no Planet√°rio do Ibirapuera deixou de ser a Via L√°ctea, os pulsares ou as constela√ß√Ķes: agora, os frequentadores s√≥ querem saber ‚Äúonde diabos est√° esse Tangela que n√£o apareceu para mim?‚ÄĚ. Nesse tipo de ambiente, um monstro mais poderoso costuma ser recebido com gritinhos irracionais como ‚Äútem um Jigglypuff aqui!‚ÄĚ, ‚ÄúPinsir! Pinsir‚ÄĚ, ‚ÄúWeepinbell!‚ÄĚ e por a√≠ vai. Pode parecer um fen√īmeno meio idiota para quem n√£o conheceu os pok√©mons do desenho ou do jogo de Game Boy da d√©cada de 90, mas as interjei√ß√Ķes adolescentes do passado voltaram ao vocabul√°rio de crian√ßas e adultos. E n√£o pega mal.

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J√° o Parque Trianon, na frente do MASP, agora rima com Parque Pok√©mon. O restinho de √°rea verde na regi√£o da Paulista foi agraciado com seis Pok√©Stops bem pr√≥ximos uns dos outros. No domingo, quando a Avenida Paulista fica aberta aos pedestres, a maioria dos transeuntes ‚ÄĒ possivelmente mais que o dobro do usual ‚ÄĒ se reunia por l√° em busca de uma boa safra. Pena que ali, ao contr√°rio do Parque do Ibirapuera, s√≥ tinha ‚ÄúZubat, filho da puta‚ÄĚ, nas palavras dos envolvidos. Entre centenas de jogadores que se enervavam com a invas√£o de morcegos, deu para observar um casal de meia idade protagonizando uma cena ‚Äúpok√©m√īnica‚ÄĚ: enquanto ela contava que o Trianon era um dos √ļnicos remanescentes de Mata Atl√Ęntica virgem na cidade, ele segurava o celular com uma m√£o e usava o dedo indicador da outra para tentar arremessar uma pok√©bola e capturar um‚Ķ Zubat, claro.

Como sugerem a tela inicial do app e outros avisos, a desaten√ß√£o pode ser um efeito colateral da novidade. Conversas ficam para depois. Belezas naturais, produtos √† venda e caminh√Ķes cruzando a avenida s√£o perigosamente ignorados. √Č nesse cen√°rio que surge a lenda urbana brasileira com direito a trocadilho, o ‚Äúbulbassalto‚ÄĚ. E faz sentido: com tanta gente circulando pelos mesmos pontos azuis e perdendo o medo de andar com o celular nas m√£os, j√° que o jogo precisa estar sempre aberto para computar qualquer coisa, um assaltante em potencial (e talvez jogador de Pok√©mon Go, como todos n√≥s) ganha v√°rias oportunidades. Mas os treinadores n√£o se preocupam e seguem viagem. Perto da galeria Top Center, uma Clefairy virtual dividia espa√ßo com um Pikachu guitarrista, ou melhor, um artista de rua que usava uma roupinha do personagem para surfar no zeitgeist.

Otaku de boné

‚ÄúO jogo √© med√≠ocre. Como game mesmo, eu daria nota cinco. No modo de realidade aumentada, os pok√©mons ficam grudados na tela como um adesivo. Os caras da Niantic poderiam ter mais cuidado com esses detalhes. Outra coisa: n√£o duvido que vai ter Pok√©Stops em lugares como Auschwitz, por exemplo. Eles v√£o ter que resolver esses problemas enquanto o jogo estiver no ar‚ÄĚ, diz Gustavo Petr√≥, editor do portal de games IGN Brasil. De fato, exceto pelas telas dos personagens, o design de Pok√©mon Go n√£o chama a aten√ß√£o. Desde o momento em que o jogador monta seu avatar, todo mundo usa bon√© e fica com jeit√£o de otaku (termo que define os f√£s de anime). Uma vez que seu bonequinho avan√ßa pelo mapa, a tela do celular mostra uma esp√©cie de ‚Äúmundo invertido‚ÄĚ da s√©rie Stranger Things, da Netflix: um lugar id√™ntico ao mundo real, mas um pouco mais feio.

No canto inferior direito, h√° um radar que supostamente indica os monstrinhos mais pr√≥ximos. H√° poucos dias, se voc√™ resolvesse se guiar por essa b√ļssola desmagnetizada, poderia acabar andando quil√īmetros e quil√īmetros atr√°s ‚Äúdaquele Alakazam‚ÄĚ e terminar sua jornada ca√ßando tr√™s Spearows e 20 Zubats. No dia 9 de agosto, por√©m, a primeira atualiza√ß√£o lan√ßada no Brasil introduziu o que parece ser o in√≠cio de um novo sistema, a se√ß√£o ‚Äúsightings‚ÄĚ. Ser√° que agora vai?

crianças

Nos Estados Unidos e na Austr√°lia, meses atr√°s, esse recurso funcionou de forma mais ou menos eficiente, mas a Niantic resolveu dificultar um pouco a jornada de ca√ßa aos pok√©mons e descalibrou o radar ‚ÄĒ a ponto de torn√°-lo um item decorativo ‚ÄĒ e baniu apps de terceiros que ajudavam na ca√ßada, como o Pok√©vision, uma tipo de Google Maps que escaneava todos os pok√©mons pr√≥ximos. Desde ent√£o, o p√ļblico estrangeiro tem reclamado bastante. Na p√°gina oficial do jogo no Facebook, h√° relatos dram√°ticos: ‚ÄúN√£o tenho mais vontade de jogar Pok√©mon Go. Minha cidade √© pequena, e o radar era a √ļnica chance de eu pegar um monstro que n√£o fosse um maldito Pidgey‚ÄĚ. Tudo indica que os Pidgey s√£o os Zubats dos EUA.

Os brasileiros, no entanto, j√° aprenderam a jogar no ‚Äúlevel hard‚ÄĚ e t√™m se virado bem sem esses mimos. Aqui, √© preciso caminhar em √°reas com muitos Pok√©Stops perfumados com as tais das ‚Äúlures‚ÄĚ, que atraem os monstrengos, e esperar, com muita paci√™ncia, pela apari√ß√£o de algum pok√©mon um pouco mais raro, como, por que n√£o, um Grimer de Combat Power 240. E justi√ßa seja feita: quem jogou no Game Boy sabe qu√£o repetitiva pode ser a vida de um mestre pok√©mon.

Coliseu de monstrinhos

Na Paulista, √† noite, a jogatina se intensifica e pequenos grupos se aglomeram nas √°reas em que a Niantic escolheu para instalar os gin√°sios ‚ÄĒ talvez o elemento mais social do game, que ainda n√£o possibilita outras intera√ß√Ķes entre os usu√°rios. Enquanto um tel√£o no outro lado da avenida mostrava os Jogos Ol√≠mpicos do Rio, um trio de jovens concentrava-se em matar um Exeggcutor do time azul, que guardava o gin√°sio na frente da loja de eletr√īnicos FNAC. Um dos jogadores, com jeito de l√≠der, falava para o outro: ‚ÄúFica na conten√ß√£o para quando o gin√°sio cair. Esse Seaking est√° me dando trabalho‚ÄĚ. A princ√≠pio pode ser complicado entender a l√≥gica dos gin√°sios, por isso Vinicius Matos Aguiar, de 26 anos, d√° uma pequena aula: ‚ÄúQuando voc√™ derruba um gin√°sio, pode colocar um pok√©mon seu para guardar l√°. Conforme outros jogadores do seu time v√£o brigando com o seu pok√©mon e ganhando, seu gin√°sio ganha prest√≠gio e vai aumentando de level, e a√≠ pode ter mais pok√©mons para defender. Voc√™ perde o dom√≠nio do gin√°sio se algu√©m de outra equipe vence de todos os pok√©mons guardi√Ķes, entendeu?‚ÄĚ.

Vinicius, que aprendeu essas t√°ticas em uma viagem para os Estados Unidos, estava perdendo a batalha: ‚ÄúAchei estranho que os brasileiros j√° t√™m pok√©mons muito fortes em pouco tempo. Tem um pessoal que diz que t√° rolando um cheat (trapa√ßa no jogo)‚ÄĚ. Sim, algu√©m deve estar trapaceando, mas tamb√©m tem outra explica√ß√£o que se apresentou para n√≥s num encontro fortuito a caminho do Parque do Ibirapuera. Em um dos gramados da rua Ab√≠lio Soares, em uma Pok√©Gym pouco concorrida, nossos pok√©mons foram derrotados ‚ÄĒ ao lado, a wild Luis Felipe appeared. ‚ÄúFui eu, sim. Sou do time amarelo‚ÄĚ, comemorava discretamente o amigo de 12 anos, talvez por saber que a pr√≥pria Niantic s√≥ recomenda o jogo para maiores de 13.

turminha

Embora Luis Felipe seja um forte concorrente com seu Scyther e suas tardes livres, Pok√©mon Go parece se encaixar muito bem na vida de quem tem de 20 a 35 anos. Primeiro por raz√Ķes √≥bvias, como a aus√™ncia de pais e o que chamam de maturidade para atravessar as ruas com a m√≠nima seguran√ßa e saber quando √© hora de parar ‚ÄĒ ou, pelo contr√°rio, n√£o parar nunca e perder o emprego, solucionando o problema da falta de tempo. Por coincid√™ncia, tamb√©m √© essa gera√ß√£o que sabe de cor o nome dos personagens, seus poderes e peculiaridades. Al√©m disso tudo, √© dif√≠cil pensar em outra faixa et√°ria que possa sucumbir √† aquisi√ß√£o de pok√©bolas e acess√≥rios virtuais com dinheiro real, j√° que o game n√£o escapa da maldi√ß√£o dos joguinhos de celular: vantagens gratuitas s√£o oferecidas s√≥ para seduzir, mas o sistema espera que mais cedo ou mais tarde voc√™ compre alguma coisinha.

Ingresso pra divers√£o

Uma das maiores dificuldades no desenvolvimento de Pok√©mon Go deve ter sido distribuir Pok√©Stops e Pok√©Gyms no mapa do mundo inteiro. Para piorar a trabalheira, cada um desses checkpoints tem nome, foto e uma pequena descri√ß√£o. No Brasil, foram encontradas v√°rias paradas batizadas de maneira criativa, como ‚ÄúM√°rio Maconha‚ÄĚ ‚ÄĒ com uma imagem de um grafite em que o Super Mario est√°, cof cof, fumando um baseado ‚ÄĒ, ‚ÄúSereia Mono-teta‚ÄĚ, ‚ÄúToquei e Sa√≠ Correndo‚ÄĚ e ‚ÄúGato Louco por M√ļsica‚ÄĚ e toda a sorte de Pok√©Stops em l√°pides de cemit√©rios.

O cemit√©rio S√£o Paulo, em Pinheiros, √© um cap√≠tulo √† parte. Com nada menos do que 17 Pok√©Stops ‚ÄĒ cada um devidamente nomeado em homenagem √†s tumbas, como ‚ÄúT√ļmulo da Fam√≠lia Issa‚ÄĚ ‚ÄĒ, esse talvez seja o espa√ßo mais relaxante da cidade para uma sess√£o com os amigos. Na segunda-feira estivemos l√° e encontramos um Haunter ‚ÄĒ pok√©mon do tipo fantasma ‚ÄĒ em cima de uma l√°pide, no que foi a experi√™ncia mais m√≥rbida de realidade aumentada misturada com a vida real. Por l√° tamb√©m atra√≠mos, com uma lure aplicada num Pok√©Stop, um casal que estava faltando no trabalho para jogar um pouco. Anda se sentindo sozinho? Jogue uma lure em um Pok√©Stop vazio e sinta-se com um poder de atra√ß√£o digno de um Flautista de Hamelin.

cemiterio

H√° uma raz√£o para essa distribui√ß√£o ca√≥tica e impr√≥pria para menores. Pok√©mon Go √© o herdeiro direto do primeiro jogo de realidade aumentada da Niantic, o Ingress, lan√ßado no come√ßo de 2013. Nele, o mundo se divide entre duas equipes, a azul (‚ÄúResistance‚ÄĚ) e a verde (‚ÄúEnlightened‚ÄĚ), e a miss√£o do her√≥i √© capturar portais distribu√≠dos pelo mundo para o seu time. Te lembra alguma coisa? Os portais s√£o os Pok√©Stops, sem tirar nem por. √Č como se Ingress tivesse sido criado para que os jogadores fizessem o trabalho sujo de distribuir, nomear e fotografar √°reas do mundo, tudo para que a Niantic lan√ßasse depois o jogo que realmente importava. ‚ÄúPok√©mon Go √© muito melhor. O Ingress era bem mais complicado, era preciso entrar em contato com os jogadores de seu time a toda hora e o objetivo n√£o parecia muito claro. Pok√©mon Go √© mais l√ļdico, d√° para jogar mais sozinho e a interface √© bem mais convidativa‚ÄĚ, diz Bianca Castanho, jornalista que escreveu uma mat√©ria sobre o Ingress e j√° se rendeu aos monstrinhos de bolso.

Os assinantes daqueles planos de dados mais humildes podem pensar que ficaram de fora da ‚Äúfebre do momento‚ÄĚ, mas Pok√©mon Go √© democr√°tico e gasta menos 3G do que aplicativos como o Facebook ou o Instagram. Com mais ou menos 50 MB, d√° para ca√ßar pok√©mons por mais de quatro horas sem se desesperar. A bateria dos celulares, no entanto, n√£o aguenta tanto tempo. Pode observar: os jogadores que ficam perto dos Pok√©Gyms em geral t√™m o aparelho conectado a um fiozinho na mochila ‚ÄĒ √© a bateria port√°til. Agora, at√© os vendedores ambulantes perceberam o mercado emergente e est√£o vendendo ‚Äúbaterias com carga completa por R$ 15‚ÄĚ. Ou voc√™ acha que √© f√°cil conseguir um Dragonite com CP 2000?

O dia ensolarado de inverno vai chegando ao fim e a mochila virtual de Pok√©mon Go vai ficando cheia. A solu√ß√£o √© jogar no lixo as frutas que os pok√©mons adoram. Caminhadas de dez quil√īmetros parecem mais acess√≠veis do que nunca, mas o conte√ļdo dos ovos, incubados √† medida que o jogador anda, quase sempre decepciona ‚ÄĒ o que inspirou um meme em que os personagens de O Senhor dos An√©is andam bastante e o Frodo olha chocado para o Rattata que nasceu. De vez em quando, os Pok√©Stops desaparecem e o mapa se esvazia, num bug que alguns usu√°rios vinculam a uma operadora de telefonia m√≥vel.

Al√©m de todas as mudan√ßas de comportamento nas cal√ßadas da cidade, os primeiros dias de Pok√©mon Go no Brasil foram marcados por outras inevit√°veis manifesta√ß√Ķes virtuais. O morceguinho do momento ocupa o posto que foi de Gl√≥ria Pires no Oscar 2016 e o Pikachu, coitado, virou garoto propaganda de an√ļncios sensuais. Muita gente garante que a realidade aumentada vai mesmo mudar o mundo e as redes sociais noticiam casos em que o jogo virou aliado contra a obesidade, a depress√£o e o autismo. Por outro lado, a imagem de um garoto corcunda com um pok√©mon montado no pesco√ßo se transformou em √≠cone da aliena√ß√£o crescente a que essas inven√ß√Ķes podem nos sujeitar. Seja o come√ßo de uma revolu√ß√£o cultural ou s√≥ o meme da semana ‚ÄĒ ou uma evolu√ß√£o das duas coisas misturadas ‚ÄĒ, Pok√©mon Go conseguiu a proeza de trazer verdadeiras interfer√™ncias de divers√£o ao caminho di√°rio para o trabalho. Nem que seja para que todas as suas pok√©bolas acabem desperdi√ßadas naquele Zubat.

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A invas√£o do K-Pop

 

‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!‚ÄĚ

Se tem uma coisa que voc√™ precisa saber sobre K-pop, a m√ļsica pop produzida na Coreia do Sul, √© que o fanatismo obcecado dos f√£s se expressa em gritos. √Č in√≠cio de noite da quinta-feira, 21 de julho, e o Teatro Gazeta, na avenida Paulista, est√° lotado de adolescentes, sobretudo meninas, segurando um mar de varinhas de neon.

No palco, sucedem-se 17 grupos covers de dan√ßa e canto selecionados para o 3¬ļ Korean Pop Festival. O pr√™mio geral √© cinco mil reais e o de cada categoria, tr√™s mil. Mais importante: os vencedores poder√£o disputar uma vaga para competir na final mundial na Coreia do Sul.

Cada artista que pisa no palco, ‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!‚ÄĚ, cada grupo, ‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAA!‚ÄĚ, cada mensagem dos apresentadores ‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!‚ÄĚ, √© respondida com uma manifesta√ß√£o ululante das f√£s.

No palco tem uma menina que, meu Deus!, o que √© isso? √Č a Pammie interpretando Arirang Alone, da cantora So Hyang, com uma voz t√£o imponente que se imp√Ķe sobre¬†o grito da plateia, atingindo uns agudos l√° pra cima na escala. Gente, ela √© tudo! Canta em coreano, apesar de n√£o ter completado nem o primeiro m√≥dulo do idioma. Ela¬†n√£o¬†√© nem¬†cantora profissional, mas auxiliar administrativa em uma empresa que vende doces e salgados. Se n√£o fosse o K-pop, o nome dado ao fen√īmeno cultural coreano, ela n√£o estaria cantando. E esse pr√™mio √© importante, porque ela ganhou o geral do ano passado, mas n√£o foi pra Coreia, embora merecesse muito!¬†Todos ali sabem quem √© Pamella Raihally.

Sabia que o¬†Brasil j√° teve uma banda que tentou imitar o pop coreano? Era a Champs, que apareceu na Ana Maria Braga (ela chamou de Champers, ai…), ganhou 600 mil likes no Facebook, mas acabou e um integrantes do grupo virou YouTuber e j√° tem 70 mil seguidores. O Iago, lindo!, virou ex-Champs, seguiu dan√ßando e tem uma banda cover chamada Allyance, que est√° agora reunida nas coxias de teatro. A apresenta√ß√£o da cantora M√īnica Neo, que veio depois da Pammie, est√° acabando. Eles est√£o ali h√° um minuto abra√ßados e, de repente… o ‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA‚ÄĚ invade¬†as coxias. O nome da banda est√° no tel√£o. Todos sabem que √© a banda de Iago Aleixo.

O grito, aqui, n√£o √© o s√≠mbolo do desespero, mas da tomada de assalto da cultura coreana em segmentos dos jovens brasileiros, num fen√īmeno chamado Hallyu ‚ÄĒ a nova onda avassaladora que veio da √Āsia e abocanhou os jovens da classe C.

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Crédito: Anna Mascarenhas

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A infiltra√ß√£o do K-pop no Brasil pode estar √† margem da sua rede de contatos e at√© da sua timeline, mas ela √© a parte mais expressiva do soft power sul-coreano por aqui. Pelo leste da √Āsia, os produtos culturais do pa√≠s se espalharam com a for√ßa de uma pol√≠tica de Estado que deu certo. O termo Hallyu precisou ser criado por jornalistas chineses para explicar a influ√™ncia cultural do Estado vizinho.

Por falta de acesso aos mercados dominados pelas grandes gravadoras e incapazes de enfrentar a pirataria na China, as empresas coreanas abdicaram do CD e apostaram no que acabou por se tornar a MTV dos anos 2010, o YouTube. Deu certo? Bom, lembra do Psy? A m√ļsica Gangnam Style, que explodiu em 2012, n√£o passava de uma piada interna, uma ironia a uma cultura musical bem estabelecida ‚ÄĒ at√© hoje nenhum v√≠deo superou sua marca de dois bilh√Ķes de visualiza√ß√Ķes.

Os clipes das bandas mais famosas entre os f√£s costumam ter um ar mais rom√Ęntico, a um s√≥ tempo atrativo e infantil, no qual a beleza dos artistas parece ter sa√≠do de um anime. Existe um grau de sexualidade latente, mas sublimada nas atitudes dos m√ļsicos jovens: sempre educadinhos e fofos; nunca machos alfa pegadores.

Pouco a pouco, via YouTube e bordas da cultura anime, o K-pop começou a fincar raízes bem no momento em que a classe C se expandia no Brasil e procurava novas referências culturais. Mesmo exóticas, elas se acomodaram a valores mais conservadores, evangélicos, acompanhadas por sonhos de luxo e glamour. Alessandra Vinco começou como fã em 2011 e agora pesquisa o tema pela Universidade Federal Fluminense. Para ela, K-pop é um gênero híbrido: se apropria de elementos globais, mas preserva valores confuncionistas, como a preservação da família, o respeito ao próximo e o resguardo da vida sexual.

Uma pesquisa do centro cultural coreano apontou que o n√ļmero de f√£s no Brasil era 220 mil pessoas. A sensa√ß√£o √© que o n√ļmero √© bem maior. A maior prova, para al√©m dos diversos sites e festivais que cultivam o nicho, √© que o programa do Raul Gil vai estrear um quadro chamado ‚ÄúQuem sabe, dan√ßa K-pop‚ÄĚ no dia 13 de agosto. ‚ÄúNesta nova atra√ß√£o‚ÄĚ, diz o locutor do v√≠deo promocional, ‚Äúatravessamos o planeta para trazer um g√™nero musical repleto de batidas emocionantes e coreografias absolutamente viciantes‚ÄĚ. Grupos cover podem se inscrever no site do SBT. O pr√™mio ser√° de 10 mil reais.

Já os aspectos demográficos têm dados um pouco melhores. Em 2015, Tiago Canário, um doutorando no departamento de Cultura Visual da Korea University, fez uma pesquisa online na qual 2.764 pessoas responderam a um questionário sobre o cultura corena no Brasil. Dessas, 91,3% se identificaram como mulheres, 8,36% como homens. No total, 95% dos fãs de K-pop tinham entre 10 e 29 anos. Apenas 18 pessoas se identificaram como descendentes de coreanos.

Ricardo Pagliuso Regatieri, um pesquisador brasileiro do departamento de sociologia da Korea University, escreveu em artigo ainda n√£o publicado que os f√£s paulistas v√™m de regi√Ķes perif√©ricas e semiperif√©ricas da cidade e arredores. Resultados preliminares de outra pesquisa online feita com 635 pessoas mostra que 37% dos f√£s t√™m renda familiar entre R$1.751 e R$3.500 por m√™s e 26% t√™m renda familiar mensal de at√© R$1.750. Ou seja, boa parte se enquadra dentro da nova classe C brasileira.

No artigo, Regatieri oferece uma interpreta√ß√£o do fen√īmeno: o K-pop se conecta ao processo de mobilidade social, usando a popularidade da internet no pa√≠s como principal combust√≠vel. No processo, os f√£s do estilo no pa√≠s buscam¬†uma ruptura com os modelos culturais de seus pais e av√≥s. A f√°brica de sonhos do K-pop, ele escreve, oferece um repert√≥rio de modernidade centrado nos prazeres do consumo, da moda e do glamour da vida na cidade.

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Pammie em ação. Crédito: Anna Mascarenhas

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Pammie e Iago ‚ÄĒ a cantora e o youtuber ‚ÄĒ s√£o parte dos dois mundos. Moradora do limite entre S√£o Paulo e Diadema, ela come√ßou a cantar pequena, nos cultos da Igreja Universal do Reino de Deus. Logo, o talento foi reconhecido e come√ßou a ser chamada para se apresentar, de gra√ßa, em casamentos dos fi√©is. Em 2010, no √ļltimo ano da escola, viu o primeiro clipe de K-pop pela internet ‚ÄĒ era GARAGARA GO!!, da BIGBANG.

‚ÄúO K-pop foi natural pra mim. Cheguei a mostrar para algumas amigas, mas elas n√£o ficaram t√£o f√£s como eu. A gente ensaiava numa sala vazia para se apresentar nas festas da escola‚ÄĚ, me disse por telefone durante o seu intervalo do almo√ßo na empresa onde trabalha como auxiliar administrativa, no Morumbi.

Pamella, 23, √© um tipo de talento natural. Chegou a fazer aulas de canto depois que alguns professores elogiaram sua performance ao interpretar uma m√ļsica da Rihanna em coreano. N√£o chegou a concluir o curso, contudo. Eram tempos de IPI reduzido. ‚ÄúNa √©poca, meu pai queria comprar um carro. Como era ele que pagava pra mim, e a escola era muito boa e cara, eu sacrifiquei a minha aula para podermos comprar. Depois, n√£o voltei mais.‚ÄĚ

Uma das juradas do 3¬ļ K-pop Festival, a cantora l√≠rica Cec√≠lia Massa, acha que Pammie tem potencial para ser uma cantora de jazz. ‚ÄúVejo nela um alt√≠ssimo n√≠vel vocal, capaz de fazer varia√ß√Ķes muito r√°pidas na voz. A primeira vez que a escutei ela me lembrou da Whitney Houston‚ÄĚ, me disse numa tarde do final de julho em um caf√© em Santa Cec√≠lia.

Para ela, Pamella est√° escutando um repert√≥rio com melodias simples e harmonia b√°sica. ‚ÄúEla tem um material maravilhoso, mas √© uma escolha dela‚ÄĚ, disse sem nenhum tom professoral. ‚ÄúSeguir cantando √© uma felicidade que ela pode ter e dar ao outros‚ÄĚ.

Acontece que Pammie fica num cruzamento em termos de mercado e talento. √Č boa demais para o que faz sucesso na televis√£o, mas tem poucas refer√™ncias de caminhos a seguir e cantoras em quem se inspirar. ‚ÄúVoc√™ n√£o consegue viver da m√ļsica aqui no Brasil”, me disse Pammie. “J√° pensei em seguir mas √© dif√≠cil. Acho que se eu n√£o tivesse conhecido o K-pop, hoje n√£o estaria cantando.‚ÄĚ Uma vit√≥ria no concurso √© o est√≠mulo para faz√™-la seguir o que lhe d√° mais prazer.

As empresas coreanas conseguiram criar uma tecnologia cultural capaz de criar boys e girls bands em uma sequ√™ncia quase industrial. Os futuros artistas entram como trainees por volta dos 15 anos e saem capazes de atuar, cantar, dan√ßar etc. Existe o V-pop (Vietn√£), o T-pop (Tail√Ęndia) e J-pop (Jap√£o). E por pouco n√£o vingou por aqui um B-pop.

Iago Aleixo, hoje com 20 anos, foi uma cobaia da tentativa de reproduzir o modelo no Brasil. Aos 17, foi selecionado por um produtor coreano e passou a morar com mais cinco pessoas no centro de S√£o Paulo. Nascido no Rio, hoje ele mora com a m√£e em Osasco.

Nos encontramos no café do Centro Cultural São Paulo, que se tornou o ponto de encontro dos k-poppers, um pouco antes de um ensaio da sua banda, a Allyance, para o festival que ocorreria na semana seguinte. Antes da conversa, ele entrou no bar e saiu com uma garrafa de 600ml de refrigerante. Tentou abri-la; não conseguiu. Deixou-a sobre a mesa e contou sobre sua experiência no processo de se tornar um b-popper em 2013.

[olho]”As meninas t√™m que te querer e os meninos t√™m que querer ser voc√™”[/olho]

‚ÄúEra um projeto da JS Entertainment, empresa coreana com foco no Brasil. Depois da sele√ß√£o, tive que deletar as redes sociais e criar novas como se eu fosse uma nova pessoa. Praticamente, nascer de novo. Eu tinha muitos tweets antigos, ent√£o, tipo, se a pessoa fosse nos arquivos poderia ver alguma poss√≠vel besteira que falei quando era pequeno. Da√≠ isso pesaria agora. Eles excluem toda nossa vida passada, s√≥ deixam a mostra o que querem.‚ÄĚ Tentou abrir novamente a garrafa. N√£o conseguiu.

‚ÄúNa Champs, eu era o mais novo, por isso tinha que mostrar uma pureza. Tinha que ser um fofinho, sem barba, meu cabelo tinha que ser liso, jogado √† Justin Bieber. N√£o podia usar √≥culos, pra visualmente ficar mais bonito, e tinha que ser um corpo definido pra criar mais interesse. Ou seja, tinha que ser um menino perfeito. A empresa cria a ideia do desejo. Eu fiz parte disso, desse meio. Nosso empres√°rio falava ‚Äėvoc√™s t√™m que fazer a menina desejar voc√™s para se elas se tornarem f√£s. As meninas t√™m que te querer e os meninos t√™m que querer ser voc√™‚Äô‚ÄĚ. Mais uma tentativa com a garrafa. Nada.

De √≥culos, com uma barba ruiva de poucos dias, ele fala com empolga√ß√£o do treinamento. De seus l√°bios saem palavras que relembram a antiga rotina com um leve sotaque carioca: de segunda a domingo, da manh√£ √† noite, muscula√ß√£o, canto, coreografias, aulas de hip-hop, ballet e jazz. S√°bado era dia de treino livre e teatro. Domingo o ensaio era at√© as 15h, depois vinha a folga. Fora moradia, n√£o recebia nada. ‚ÄúQuerendo ou n√£o, ele [o empres√°io] tava gastando bastante dinheiro.‚ÄĚ

Por fim, gravaram o clipe na Coreia e estrearam no Brasil. Receberam boa cobertura da imprensa, mas a Champs n√£o deu certo naquele momento. Iago acha que foi m√° administra√ß√£o. Por√©m, o sistema do K-pop se baseia em baixas margens de lucro. Como a m√ļsica √© distribu√≠da de gra√ßa pelo YouTube, o sistema de v√≠deos do Google fica com a maior parte do dinheiro da publicidade online. Se a base de f√£s n√£o dispara, os shows e outros produtos n√£o compensam o investimento.

Quando viu que não daria certo, fez o que boa parte dos jovens deseja hoje em dia: criou um canal no YouTube. Começou com duas mil pessoas e agora tem 70 mil seguidores. Espera acabar o ano com 100 mil. Diz que não está mais vendendo um personagem, mas o Iago real.

‚ÄúO Iago do Champs era uma pessoa para ser desej√°vel e eu n√£o quero ser desej√°vel. Quero ser admirado. Quero que as pessoas olhem pra mim e falem ‚Äėcaraca, olha o que ele t√° fazendo com estilo que eu gosto’. N√£o quero ser o estrelinha, o famosinho. Quero ser uma pessoa que √© parada na rua por algu√©m dizendo que gosta do meu trabalho.‚ÄĚ Ele pega a garrafa, crava os dentes molares na tampa verde. Contrai os olhos, gira a garrafinha com as m√£os e tssssss. Consegue abri-la. Toma um gole e vai encontrar os colegas para o ensaio da m√ļsica Fly, da banda GOT7.

Para ele, vencer o festival significa, além do gosto do prazer de se sentir um k-popper e do prêmio para pagar os custos figurino, faz parte de uma estratégia para voltar à Coreia do Sul e ajudar a turbinar seu canal no YouTube.

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Iago (à frente, de óculos) e sua trupe do Allyance. Crédito: Anna Mascarenhas

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Na longa fila que se forma nos arredores do Teatro Gazeta, centenas de adolescentes aguardam para entrar no festival de covers de K-pop. Um dos poucos adultos, o guarda civil H√©lio Marques, 52, acompanha as tr√™s filhas. ‚ÄúVim por causa da minha menina, que escuta muito, muito. Ela sabe at√© o que o menino come”, diz sem brincar.

Antes do show, encontro com Pamella e Iago. Ela, bem maquiada, de vestido longo floreado e Havaianas, est√° insegura, com um pouco de medo por causa da dificuldade da m√ļsica. Ele, mais profissional, ainda est√° sem o figurino. Conta que no √ļltimo ensaio, dois dias antes, repetiram toda a dan√ßa 25 vezes. Eles tiram fotos e voltam para acabar de se arrumar.

O teatro está lotado. Os cerca de 50 competidores ficam no mezanino, à esquerda de quem encara o palco. Dá pra sentir a expectativa e a tensão. Iago, já com o figurino, fica filmando e tirando fotos com os amigos. Há grupo de cinco meninas vestidas com o que parece ser um uniforme das paquitas. Duas delas ensaiam alguns passos juntas. Pamella está sentada com o celular na mão, de cabelo solto. Está ao lado de outra cantora, com a qual troca algumas palavras. Fala com outras pessoas, mas a vida de cantora parece mais solitária.

N√£o s√≥ pela m√ļsica, mas todos est√£o agitados, afinal √© o principal momento pelo qual esperaram e treinaram. A recompensa √© grande. Pelas regras do evento, h√° duas vagas para disputar a chance de ir pra Coreia. Se, por exemplo, o canto vencer o pr√™mio principal, a outra vaga √© de quem vencer na dan√ßa.

Os participantes têm camarins, garrafas de 1,5 litro de água e esfihas do Habibs à vontade.

O primeiro competidor, Davi Nogueira, senta num banquinho e com viol√£o em m√£os, apresentada uma m√ļsica de Roy Kim.

‚ÄúBoa noite‚ÄĚ, diz. A plateia responde: ‚ÄúAAAAAAAAAA!‚ÄĚ

Antes de come√ßar a tocar, uma menina atr√°s de mim grita: ‚ÄúArrasa, viado!‚ÄĚ

Na sequ√™ncia, v√°rias bandas e competidores tomam o palco. Os momentos mais sexualizados das coreografias s√£o os que arrancam mais gritos. Por vezes, os berros s√£o t√£o fortes, constantes e esgani√ßados que se sobrep√Ķem √† voz das apresentadoras.

Os artistas se sucedem até que às 20h14 chega a vez de Pammie.

Perto dos demais, ela parece uma cantora de √≥pera. Das coxias, d√° pra ver que ela transpira presen√ßa de palco, segura o microfone com uma m√£o e despeja toda sua pot√™ncia sonora. √Č uma apresenta√ß√£o elegante ‚ÄĒ recebe mais aplausos do que gritos. Ao sair, bebe tr√™s copos d’√°gua. As m√£os tremem. N√£o consegue dizer muito al√©m de ‚Äút√ī nervosa‚ÄĚ.

Em seguida, h√° outra apresenta√ß√£o. O grupo de Iago fica na lateral do palco e se prepara para entrar. Todos os membros se abra√ßam e formam um c√≠rculo. Iago fala algumas palavras de motiva√ß√£o. Ficam assim por mais ou menos um minuto. A cantora que est√° no palco, M√īnica Neo, encerra a apresenta√ß√£o. Iago est√° sem √≥culos. O c√≠rculo se desfaz e eles se d√£o uns tapinhas de apoio. O nome do grupo aparece no tel√£o e eles entram no palco para atender ao chamado da orquestra de berros. Do backstage, de uma vis√£o lateral, a coreografia parece perfeita. Ao final, os gritos, sempre eles, invadem a coxia. Os integrantes saem em duplas em sil√™ncio. Recebem elogios dos grupos que esperam para se apresentar. Iago p√Ķe os √≥culos.

Longe do palco, depois de um longa escadaria que leva a um espa√ßo atr√°s no mezanino, um dos dan√ßarinos, Paulo Fraga, chora muito. Toma √°gua tremendo. Iago re√ļne todos, formam um novo c√≠rculo e ele diz: ‚ÄúA galera n√£o parou de gritar! N√£o importa quem errou. T√ī muito orgulhoso desses quatro meses de trabalho‚ÄĚ.

Crédito: Anna Mascarenhas
Allyance no palco. Crédito: Anna Mascarenhas

Eu volto para a plateia e sento em outro lugar. A menina ao meu lado, de blusa e meia calça preta, saia rosa um palco acima do joelho, usa óculos redondo de acetato. Ela pula na cadeira, chacoalha a varinha de neon, grita com força, descansa e se abana.

O an√ļncio dos pr√™mios sai pouco tempo depois da √ļltima apresenta√ß√£o. No palco, est√£o reunidos todos os competidores. Das coxias, o √°udio fica abafado, mas descubro que a Pammie √© a n√ļmero um do canto. O Allyance ganha na dan√ßa. Venus, um cover de dan√ßa de 10 meninas, √© o primeiro geral. Iago ganha o dinheiro, mas n√£o ter√° a chance de competir na Coreia. Todos se abra√ßam, perdedores e vencedores. Mas quem fica para a foto s√£o s√≥ os vencedores.

Mais calma, Pammie diz que o retorno do √°udio estava distante e por isso n√£o conseguia saber se tinha ido bem. No olho escuro, negro, quase sem diferen√ßa entre √≠ris e pupila, s√≥ se v√™ o brilho do reflexo das luzes. V√°rias pessoas a parabenizam. Algu√©m comenta: ‚ÄúAgora tem que deixar as amiguinhas ganharem‚ÄĚ. Ela sorri amarelo ‚ÄĒ √© uma menina t√≠mida, n√£o uma artista.

Conversa com Cec√≠lia Massa, uma das quatro juradas. Ela est√° dizendo que a m√ļsica √© muito dif√≠cil, mas que existem caminhos profissionais, com mais consci√™ncia vocal. Fala de um jeito educado, preocupado.

‚ÄúVoc√™ faz aula?‚ÄĚ, pergunta a jurada.

‚ÄúN√£o.‚ÄĚ

‚ÄúVoc√™ canta m√ļsica brasileira?‚ÄĚ

‚ÄúN√£o, mais internacional.‚ÄĚ

‚ÄúVoc√™ tem presen√ßa, mas tem que ouvir grandes int√©rpretes internacionais e nacionais.‚ÄĚ

‚ÄúSe n√£o fosse o K-pop, eu n√£o estaria cantando.‚ÄĚ

‚ÄúMas tem um mercado, sim. N√£o √© o da TV ou que aparece na grande imprensa, mas existe um outro mercado. Na internet, em editais…‚ÄĚ

A seguir, encontro com Iago. Est√° s√©rio, mas age como um profissional. Elogia as concorrentes, fala do esfor√ßo do grupo do pr√™mio, mas sabe que n√£o ganhou o que queria. Assim que para de falar comigo diz a um colega: ‚ÄúNossa!, que raiva, velho. V√≠deo filho da puta!‚ÄĚ Ele atribui a derrota ao v√≠deo enviado na pr√©-sele√ß√£o dos competidores.

Os demais integrantes do Allyance refor√ßam que ficaram felizes pelas concorrentes da Venus, o que parece sincero. Mas h√° uma melancolia no ar. Iago est√° com o esp√≠rito desinflado, o olho abaixou, o sorriso ficou mais profissional. √Č uma vit√≥ria manca.

Todos saem do mezanino e v√£o para o sagu√£o do teatro, onde artistas e p√ļblico se misturam. Dezenas de jovens est√£o chupando Melona, aquele picol√© retangular verde, que √© coreano, vendido na Liberdade, e que foi distribu√≠do de gra√ßa no final do evento. No sagu√£o, Iago tira fotos com v√°rias f√£s sempre da mesma maneira. Sem sorrir, faz um gesto comum entre coreanos ‚ÄĒ um V lateral com a m√£o esquerda, a mesma que segura um pacote de salgadinhos.

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Comportamento

A língua de lugar nenhum

‚ÄúComo voc√™ ouviu falar do esperanto?‚ÄĚ, questiona¬†meu entrevistado, antes que qualquer pergunta sobre o idioma seja feita. Respons√°vel pelo curso Estudo da L√≠ngua Internacional Esperanto e sua Cultura na Unicamp, o professor de f√≠sica Jos√© Joaqu√≠n Lunazzi continua: ‚ÄúVim da Argentina e l√°, quando se fala [do esperanto] na m√≠dia, se fala com muito respeito. √Č positivo. Aqui no Brasil, se aparece o tema, √© pra falar contra. A l√≠ngua que n√£o deu certo, l√≠ngua artificial, coisas assim‚ÄĚ.

Criado pelo m√©dico polon√™s L√°zaro Zamenhof em 1887 para ser um segundo idioma para todos, o esperanto √© uma l√≠ngua misteriosa. Quem escolheria aprender um idioma que n√£o √© de nenhum pa√≠s? Quantas oportunidades voc√™ teria de us√°-lo? Mas ao contr√°rio do que se pensa, o esperanto n√£o √© uma l√≠ngua morta nem in√ļtil. Cerca de 2 milh√Ķes de pessoas no mundo falam o idioma, formando uma comunidade t√£o pr√≥xima quanto entusiasmada.

‚ÄúA maioria das pessoas n√£o sabe o que √© o esperanto, ou, se sabe, sabe tudo errado. Ouviu falar que o esperanto √© uma l√≠ngua morta, que o esperanto √© a l√≠ngua que Jesus falava. Um monte de maluquice. Que o esperanto quer acabar com todas as l√≠nguas do mundo e que todo o mundo s√≥ fale esperanto. Coisas absurdas. √Č o contr√°rio disso, ali√°s‚ÄĚ, diz, rindo, Emilio Cid, primeiro secret√°rio da Liga Brasileira de Esperanto, que divulga a l√≠ngua no Brasil.

Zamenhof, o criador, cresceu numa Pol√īnia dominada pela R√ļssia, onde falava-se diferentes l√≠nguas e havia dificuldades de comunica√ß√£o. Achava que esse problema poderia ser diminu√≠do e as dist√Ęncias entre pessoas encurtadas se houvesse um idioma simples que todos pudessem falar. ‚ÄúA√≠ ele criou uma l√≠ngua usando elementos comuns das l√≠nguas que existem e regularizou as regras. Tamb√©m procurou sons f√°ceis de pronunciar, bem definidos‚ÄĚ, diz Lunazzi. ‚ÄúO esperanto tem muito do latim, os radicais s√£o bem parecidos. A gram√°tica parece mais com a do chin√™s — por incr√≠vel que pare√ßa √© uma gram√°tica muito simples, as palavras s√£o muito derivadas. Quando voc√™ conhece um radical, como a palavra amor, transforma isso em 30, 40 palavras. Ele √© feito de uma maneira que √© f√°cil pra todo o mundo‚ÄĚ, completa Emilio.

Facilidade de aprendizado e neutralidade lingu√≠stica s√£o dois dos principais argumentos utilizados pelos esperantistas para explicar por que resolveram estudar¬†a l√≠ngua — escolha que seus conhecidos estranhavam no come√ßo (‚Äún√£o seria mais pr√°tico aprender logo o ingl√™s?‚ÄĚ). ‚ÄúAprendi em quatro meses, estudando apenas uma vez por semana. Em compara√ß√£o, fiquei minha inf√Ęncia inteira aprendendo ingl√™s, com a ajuda da escola e de um cursinho particular, e meu ingl√™s s√≥ ficou perfeito mesmo porque fui morar nos Estados Unidos. Isso √© normal de acontecer‚ÄĚ, conta a escritora Renata Ventura.

‚ÄúO ingl√™s √© uma l√≠ngua linda, sensacional, mas, como todas as l√≠nguas nacionais, possui v√°rias exce√ß√Ķes gramaticais, al√©m de diversas complexidades de pron√ļncia e escrita, de modo que, se voc√™ n√£o morar por alguns anos em um pa√≠s que fale ingl√™s, seu ingl√™s dificilmente ser√° t√£o bom quanto o de um nativo da l√≠ngua”, diz.¬†“E¬†isso deixa as rela√ß√Ķes internacionais muito desiguais. Sempre americanos e ingleses v√£o ter mais vantagem, por terem aprendido o ingl√™s desde beb√™s.‚ÄĚ

interna

No caso do esperanto, h√° poucas regras gramaticais e n√£o h√° exce√ß√Ķes. Se a palavra termina em ‚Äúas‚ÄĚ, por exemplo, √© um verbo no presente. Se termina em ‚Äúo‚ÄĚ, √© substantivo. Em ‚Äúa‚ÄĚ, √© adjetivo. E por a√≠ vai. Aprender a pronunciar √© simples tamb√©m, j√° que cada letra √© sempre dita da mesma forma e cada som corresponde a apenas uma letra.

‚ÄúDesde a primeira aula, o aluno j√° consegue pronunciar qualquer palavra que l√™, e consegue escrever corretamente qualquer palavra que escuta. Os tempos verbais tamb√©m s√£o aprendidos todos em um dia s√≥: presente, passado, futuro, infinitivo e imperativo. Em cinco minutos se aprende‚ÄĚ, diz Renata. Tamb√©m √© uma l√≠ngua bastante est√°vel, sem termos que existem num pa√≠s e n√£o no outro. ‚ÄúNo ingl√™s todo dia eu encontro uma palavra nova, e nunca vai acabar. No esperanto n√£o tem isso. Se algu√©m em um canto do mundo cria uma palavra nova, o resto vai reagir. N√£o pode. Todas as l√≠nguas evoluem, se transformam. Mas o esperanto n√£o se transforma, ou se transforma minimamente, porque tem uma comunidade ciente disso, de que √© uma l√≠ngua para todos‚ÄĚ, conta Lunazzi.

Saber falar esperanto pode, inclusive, ajudar a aprender outras l√≠nguas — algo como a flauta doce no aprendizado de m√ļsica: uma vez que voc√™ sabe toc√°-la, passar para outro instrumento √© mais simples. ‚ÄúA grande dificuldade de falar ingl√™s, franc√™s, ou mesmo espanhol, √© conseguir pensar fora da l√≠ngua materna. Com o esperanto √© muito mais r√°pido‚ÄĚ, diz Cid. ‚Äú√Č r√°pido de conseguir flu√™ncia, de conseguir pensar fora do portugu√™s. Uma vez que voc√™ domina essa t√©cnica, consegue adaptar pra outra l√≠ngua. Se voc√™ dominou o ingl√™s facilmente voc√™ aprende franc√™s. O problema √© que come√ßar com o ingl√™s d√° mais trabalho que com o esperanto.‚ÄĚ

Segundo Rafael Zerbetto, que trabalha na China no site de not√≠cias em esperanto ‚ÄúEl Popola ńąinio‚ÄĚ, no pa√≠s algumas escolas usam o esperanto como l√≠ngua para ajudar a aprender o ingl√™s com bons resultados. Na Inglaterra h√° um projeto parecido, o Springboard to Languages, que ensina esperanto em escolas para que as crian√ßas entendam como¬†a linguagem funciona. ‚ÄúO pedagogo alem√£o Helmar Frank fez estudos sobre experimentos realizados em dezenas de pa√≠ses com o uso do esperanto como l√≠ngua proped√™utica: estudantes foram separados em dois grupos, um que estudava esperanto e depois outra l√≠ngua estrangeira e outro que estudava somente a l√≠ngua estrangeira ao longo de todo esse tempo e percebeu-se, em todos os experimentos, que o grupo que aprendia primeiro o esperanto dominava melhor a outra l√≠ngua, mesmo tendo-a estudado por menos tempo‚ÄĚ, diz Rafael.

L√ćNGUA SEM ESTADO

Aprender esperanto n√£o significa deixar de lado outras l√≠nguas, como o ingl√™s — o esperanto n√£o foi criado para ser o √ļnico idioma do mundo todo, e sim um segundo (ou terceiro, quarto‚Ķ) que todos soubessem falar. ‚ÄúPra quem est√° interessado, tento mostrar como o esperanto pode ser √ļtil em viagens, por exemplo, mas nunca desmere√ßo a import√Ęncia de aprender ingl√™s tamb√©m, √© claro. Por estar no meio acad√™mico, sei que o conhecimento do ingl√™s √© essencial, mas o problema √© parar o aprendizado de l√≠nguas por a√≠. Aqui no Brasil a gente tem muito pouco conhecimento lingu√≠stico sobre a diversidade, e, como linguista, eu valorizo o aprendizado da maior quantidade de l√≠nguas poss√≠vel‚ÄĚ, opina¬†Karina Oliveira, mestranda na USP sobre esperanto e p√≥s-graduanda em Interligu√≠stica na Universidade Adam Mickiewicz, na Pol√īnia, que d√° aulas em esperanto.

‚ÄúHoje, aprender ingl√™s √© certamente muito importante, especialmente do ponto de vista profissional, e seu aprendizado n√£o deveria ser exatamente desestimulado, pois aprender qualquer l√≠ngua √© extremamente enriquecedor. Por isso mesmo, a atual realidade do ingl√™s n√£o precisa ser vista como uma barreira ou um desest√≠mulo √† realidade do esperanto‚ÄĚ, concorda Fernando Maia Jr., diretor financeiro da Liga Brasileira de Esperanto, para quem √© necess√°rio, por√©m, que se fa√ßa alguns questionamentos. ‚ÄúEvidentemente, h√° um interesse pol√≠tico e econ√īmico para o dom√≠nio da l√≠ngua inglesa, que foi alavancado por um pequeno n√ļmero de pa√≠ses interessados nisso, uma vez que h√° poucas d√©cadas a l√≠ngua francesa j√° funcionava como l√≠ngua franca internacional.‚ÄĚ

Para os esperantistas, a l√≠ngua √© tamb√©m uma forma de domina√ß√£o e o ingl√™s √© uma mercadoria, cuja dissemina√ß√£o favorece os pa√≠ses que o t√™m como idioma. ‚Äú√Č a neutralidade do esperanto a maior qualidade do idioma. √Č uma l√≠ngua que n√£o tem dono. O esperanto n√£o √© dos norte-americanos, nem dos espanh√≥is, nem dos franceses, nem dos russos. O esperanto √© de quem o aprende. N√£o d√° vantagem a nenhuma cultura sobre as outras, nem coloca as pessoas de uma na√ß√£o acima das pessoas de outras na√ß√Ķes. Nenhuma l√≠ngua nacional pode ser verdadeiramente internacional, porque sempre vai oferecer vantagens para um lado, favorecer um lado, em detrimento do resto do mundo‚ÄĚ, opina Renata.

O dom√≠nio do ingl√™s faz, por exemplo, com que exista uma desigualdade entre falantes nativos e n√£o nativos, ou mesmo nativos de fora dos Estados Unidos — segundo Rafael Zerbetto, na China professores de ingl√™s das Filipinas, onde o ingl√™s √© uma das l√≠nguas oficiais, ganham metade do que um americano. Tamb√©m faz com que os outros pa√≠ses do mundo estejam mais propensos a receber a cultura angl√≥fona, aumentando seu consumo de filmes, programas de televis√£o e m√ļsica em ingl√™s — mais lucro para pa√≠ses em que se fala a l√≠ngua.

[olho]”Quem teria controle pol√≠tico sobre as negocia√ß√Ķes internacionais feitas em esperanto?”[/olho]

‚ÄúEm 2005, a Universidade de Genebra liderou uma pesquisa sobre qual seria o impacto da ado√ß√£o de uma l√≠ngua neutra, como o esperanto, na Uni√£o Europeia. A conclus√£o √© de que a UE poderia economizar cerca de 25 bilh√Ķes de euros por ano‚ÄĚ, diz Fernando Maia Jr. sobre o ‚ÄúRelat√≥rio Grin‚ÄĚ, elaborado pelo professor su√≠√ßo Fran√ßois Grin. Se todos falassem esperanto, por exemplo, n√£o se gastaria nada com tradu√ß√£o. Ainda segundo o estudo, a Inglaterra ganha 17 milh√Ķes de euros ao ano com o ingl√™s — gra√ßas a pessoas que v√£o l√° estudar, venda de livros e economia nas escolas por n√£o terem que ensinar uma l√≠ngua estrangeira. ‚ÄúO que poderia explicar o lobby t√£o forte pela manuten√ß√£o da l√≠ngua inglesa como atual l√≠ngua franca e, de algum modo, um lobby contra a ideia do esperanto‚ÄĚ, afirma Fernando.

Para Karina, por outro lado, o esperanto √© e n√£o √© uma l√≠ngua completamente justa — j√° que isso talvez seja imposs√≠vel. ‚ÄúAo longo dos √ļltimos anos, estudando um pouco mais sobre ci√™ncias sociais, fico me perguntando se, de fato, o esperanto seria neutro… Digo, a l√≠ngua em si e a ideia como um todo s√£o √≥timas, mas se ela conquistasse sucesso, quem controlaria sua evolu√ß√£o? Quem teria controle pol√≠tico sobre as negocia√ß√Ķes internacionais feitas em esperanto, por exemplo? Em resumo, concordo que o esperanto √© uma solu√ß√£o lingu√≠stica melhor do que o ingl√™s para a comunica√ß√£o, mas n√£o vejo como poderia haver uma l√≠ngua internacional sem domina√ß√£o pol√≠tico-ideol√≥gica‚Ķ‚ÄĚ

Bandeira do esperanto
Bandeira do esperanto

VOLTA AO MUNDO EM UMA L√ćNGUA

Por ser uma comunidade pequena, os esperantistas s√£o bastante pr√≥ximos — v√°rios entrevistados se conheciam, embora tenham sido localizados por meios diferentes. ‚Äú√Č meio inadmiss√≠vel eu ir pra algum lugar, por exemplo, e n√£o levar o contato de pessoas que falem esperanto¬†l√°. Se voc√™ vai pra Munique — fui recentemente –, chegando l√° voc√™ tem uma recep√ß√£o, um sujeito que mora l√° e vai ter satisfa√ß√£o em te encontrar, vai te levar pra passear‚ÄĚ, conta Em√≠lio. Existe um site, chamado Pasporta Servo que √© como um couchsurfing para esperantistas — se voc√™ vai a algum lugar do mundo, consegue encontrar algu√©m que fale esperanto para sair com voc√™ ou mesmo te hospedar. ‚ÄúIsso √© extraordin√°rio porque, desse jeito, os esperantistas acabam conhecendo pessoalmente a vida cultural e familiar das pessoas do pa√≠s que est√° visitando‚ÄĚ, diz Renata. H√° inclusive casos em que organiza√ß√Ķes esperantistas pagam passagens, providenciam itiner√°rios e hospedagens para os visitantes.

Karina, por exemplo, conta que tudo que aconteceu em sua vida nos √ļltimos cinco anos foi por causa do esperanto. ‚ÄúParece hist√≥ria hollywoodiana, mas eu sou literalmente uma menina do interior que teve a sorte grande de viajar de gra√ßa pra outro pa√≠s. Minha fam√≠lia n√£o tem muito dinheiro, e por mais que eu tenha conseguido passar no vestibular e estudar numa universidade p√ļblica, n√£o tinha muitas perspectivas de fazer viagens internacionais‚ÄĚ, diz, sobre seu curso na Pol√īnia. ‚ÄúMinhas viagens s√£o todas subsidiadas por doa√ß√Ķes financeiras de outros falantes de esperanto, e o curso em si (que custa cerca de 800 reais por semestre), √© pago por uma institui√ß√£o dos EUA, chamada Esperantics Studies Foundation.‚ÄĚ

Na faculdade de Letras da USP, onde faz o mestrado, Karina diz que o esperanto n√£o √© visto com bons olhos. ‚ÄúEu ouvi muitas vezes, ao longo da gradua√ß√£o, que n√£o valia a pena estudar uma l√≠ngua planejada — e morta, porque muita gente p√Ķe a m√£o no fogo pra afirmar que ningu√©m fala esperanto hoje em dia… Tive alguns obst√°culos pra conseguir ser levada a s√©rio como pesquisadora‚ÄĚ, conta. Hoje, diz que a aceita√ß√£o √© maior que em 2014, quando come√ßou o mestrado, mas que ainda v√™ olhares descrentes em suas apresenta√ß√Ķes em congressos na universidade. ‚ÄúApresentei meu trabalho algumas vezes em outras universidades e a recep√ß√£o foi boa, o que fez com que eu ficasse com a impress√£o que na USP os linguistas s√£o mais avessos ao assunto do que em outros lugares, mas n√£o tenho dados suficientes pra afirmar isso com certeza absoluta.‚ÄĚ

Embora a l√≠ngua ainda seja pouco conhecida no Brasil, os esperantistas s√£o otimistas. ‚ÄúCada vez mais os jovens est√£o se empolgando com a ideia de mudar o mundo, e o esperanto aparece cada vez mais como uma iniciativa moderna e entusiasmante, que eles querem muito aprender. Eu costumo postar sobre o esperanto uma vez por semestre em meus perfis no Facebook, por exemplo, e sempre que posto, consigo pelo menos 500 e-mails de jovens interessados no curso. J√° mandei o curso por e-mail para mais de 4 mil jovens e adultos, em poucos anos‚ÄĚ, conta Renata, que usou o esperanto em seu livro ‚ÄúA Arma Escarlate‚ÄĚ.

No site Duolingo, que d√° cursos de l√≠nguas, o esperanto para ingl√™s tem mais de 470 mil adeptos (ainda n√£o h√° vers√£o para portugu√™s). Para falantes de l√≠nguas latinas, o curso online √© realmente bem simples — em alguns dias j√° se tem boas no√ß√Ķes de como o esperanto funciona.

Na opini√£o de Renata, toda mudan√ßa importante leva tempo para ser implementada — as pessoas demoraram anos para come√ßar a colocar cinto de seguran√ßa no banco de tr√°s dos carros, ela diz como analogia. ‚ÄúA humanidade √© assim. Demora para reconhecer boas ideias, que facilitariam a vida de todos. √Č normal. Isso atrasa um pouco o avan√ßo da humanidade, mas fazer o qu√™?‚ÄĚ, afirma. ‚ÄúAqui no Brasil mesmo h√° um projeto de lei a respeito de incentivar que o esperanto seja ensinado, para quem quiser, nas escolas… Enfim, est√° mudando. Aos poucos est√° mudando.‚ÄĚ

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Comportamento

Muito prazer, Lorna Washington

No banheiro de uma boate em Copacabana, o artista Celso Maciel esfrega o rosto com sab√£o. Batom, delineador e a cera que usa para encobrir as sobrancelhas por baixo da maquiagem escoam ralo abaixo. Pouco sobra de sua apar√™ncia de cinco minutos atr√°s. O que permanece ‚ÄĒ e n√£o sai nem com √°gua, nem com a incans√°vel passagem dos anos ‚ÄĒ s√£o os trejeitos teatrais, a sagacidade e o timing humor√≠stico que fazem de Lorna Washington uma figura marcante na noite carioca desde os anos 1980.

Conversar com Lorna √© um show √† parte. Mesmo fora do personagem, ou ‚Äúdesmontada‚ÄĚ em seu vern√°culo, suas frases s√£o proferidas cheias de entona√ß√£o e, n√£o raro, ela declama afinadamente trechos de m√ļsicas ou faz imita√ß√Ķes pontuais de amigas c√©lebres, como a cantora Alcione e a atriz Rog√©ria. Em seu indiv√≠duo, criador e criatura se misturam. ‚ÄúMeu nome √© Celso, mas ningu√©m me chama assim. Todo mundo me conhece como Lorna Washington.‚ÄĚ

Sua vida virou narrativa do document√°rio ‚ÄúLorna Washington ‚ÄĒ Sobrevivendo a Supostas Perdas‚ÄĚ. A obra dos diretores estreantes Leonardo Menezes e Rian C√≥rdova foi lan√ßada neste m√™s ap√≥s quatro anos de pesquisa¬†sobre a carreira do transformista. ‚ÄúConheci Rian depois de uma apresenta√ß√£o‚ÄĚ, ela relembra sobre o amigo, que tamb√©m √© cantor. ‚ÄúPerguntei se algu√©m queria dizer algo no microfone. Ele subiu e disse estar l√° por causa da m√£e. Estou pulando gera√ß√Ķes, √© isso?‚ÄĚ

O filme lembra¬†epis√≥dios de sua vida, como os shows na boate Papagaio e suas viagens pelo Brasil e Estados Unidos, intercalando-os com depoimentos da colega Isabelita dos Patins, do carnavalesco Milton Cunha e, mais uma vez, da atriz Rog√©ria. A amizade surgiu nos bastidores do teatro Alaska, na √©poca do espet√°culo Rio Gay, dirigido por Jorge Fernando. No come√ßo, eram apenas cumprimentos informais. Quando Lorna perdeu a m√£e, Rog√©ria a chamou em seu camarim. ‚ÄúSente-se. Soube que voc√™ perdeu sua m√£e. Essa √© uma dor que morro de medo de ter‚ÄĚ, imita Lorna com a voz inconfud√≠vel da atriz. Viraram amigas. Em sua primeira interna√ß√£o, Rog√©ria foi visit√°-la no hospital. ‚ÄúEla chegou achando que eu estava nas √ļltimas, me encontrou sentada lendo um livro: ‚ÄėEu achei que ia me deparar com a Dama das Cam√©lias e voc√™ est√° bem!‚Äô O pessoal do hospital ficou doido, queriam tirar fotos. De repente, ela para e diz: ‚ÄėA ac√ļstica daqui √© √≥tima!‚Äô E foi embora pelo corredor cantando em franc√™s.‚ÄĚ

Sentada em uma maca no Hospital Federal de Ipanema enquanto seu p√© √© examinado pela enfermeira, Lorna relata que a doen√ßa que a deixou internada por quatro meses surgiu¬†pela primeira vez h√° onze anos, quando voltava de¬†uma viagem a Nova York. Um machucado em seu p√© direito evoluiu para um edema, piorado pela infec√ß√£o bacteriana da osteomielite e pela diabetes. H√° dois anos, essa jun√ß√£o de fatores quase levou sua perna embora. As quatro cirurgias para recuper√°-la fizeram com que ela tivesse de descer do salto. Os curativos precisam ser refeitos todos os dias e, quinzenalmente, ela visita o hospital. Na mais recente visita, a enfermagem lhe entrega gaze e pomadas, que ela guarda em uma sacola junto ao figurino que usar√° em uma apresenta√ß√£o √† noite. Traz sempre em sua bolsa comprimidos de √°cido f√≥lico para a press√£o, sulfato ferroso para a anemia e faz aplica√ß√Ķes di√°rias de insulina em sua casa nos sub√ļrbios da cidade.

Apesar de morar longe do centro, o t√≠tulo de ‚Äúface of Rio‚ÄĚ muito bem poderia ser seu j√° n√£o fosse de Narcisa Tamborindeguy. Celso nasceu em Copacabana, um dos cinco filhos de um porteiro. Seu quarto ficava na garagem do edif√≠cio, onde ‚Äúdormia no seco e acordava no molhado‚ÄĚ quando a mar√© subia para al√©m da avenida Atl√Ęntica, muitas vezes na companhia de ratazanas. Mas foi naqueles andares que se educou, ora tendo aulas de etiqueta √† mesa com uma prima de Santos Dumont, ora frequentando a biblioteca de um intelectual da Academia Brasileira de Letras. ‚ÄúFazer a pobre coitada n√£o √© minha cara. Eu nunca me senti √† margem das coisas.‚ÄĚ

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Lorna circula pela cidade recontando hist√≥rias sobre pontos tur√≠sticos, apontando casas de famosos e indicando quais caminhos pegar para fugir do tr√Ęnsito. Seu condutor √© um ex-gogo boy que trabalha como motorista de Uber ‚Äď talvez por isso encare com naturalidade uma drag queen paramentada em seu banco do passageiro. Ele lhe faz descontos nas viagens e, como sua cliente se locomove apenas com o andador, busca-a em domic√≠lio no bairro do Engenho da Rainha. As janelas de Lorna d√£o vista para o telef√©rico que sobe o morro do Alem√£o. A irm√£ Neide mora nos fundos, enquanto seu quarto fica estrategicamente posicionado √† frente para que consiga tomar seu banho de sol da cama. Nas paredes, retratos de suas performances e estatuetas religiosas esp√≠ritas e cat√≥licas.

Quase despercebida, no canto da sala de estar, h√° uma porta ao lado de uma B√≠blia aberta e encabe√ßada por um leque chin√™s. Este √© o ‚Äúquarto de Lorna‚ÄĚ. A salinha abafada de poucos metros quadrados √© apinhada de vestidos costurados por amigos estilistas, bijuterias da rua 25 de Mar√ßo e acess√≥rios de cabe√ßa bordados com paet√™s a uma condi√ß√£o na qual caminhar √© imposs√≠vel. Para escolher o figurino, Lorna se debru√ßa por sobre a bagun√ßa e alcan√ßa os cabides com sua bengala. Foi pelo vestu√°rio que assumiu sua homossexualidade para a fam√≠lia, quando uma sobrinha descobriu seu guarda-roupa com trajes femininos. Da m√£e Aurora n√£o ouviu serm√£o, mas conselho: ‚ÄúTome cuidado e seja feliz‚ÄĚ.

Enquanto ajeita uma peruca castanha no espelho, ela ri sozinha: ‚ÄúEstou parecendo uma vi√ļva indo receber o pec√ļlio do falecido marido‚ÄĚ. Sua personagem est√°¬†no meio-termo entre uma Elizabeth Taylor e aquela tia desbocada no almo√ßo de fam√≠lia. Um equil√≠brio entre a eleg√Ęncia midi√°tica, o escracho e a crueza de figuras femininas reais. Seu nome, por exemplo, tem inspira√ß√£o em Lorna Luft, filha de Judy Garland, mas tamb√©m em uma amiga norte-americana com quem nunca mais teve contatos. Em busca de um sobrenome, batizou-se com a cidade natal da amiga estrangeira.

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Seus n√ļmeros seguem a escola do esc√°rnio e o improviso de Dercy Gon√ßalves ‚ÄĒ ela tamb√©m abandonara os saltos gra√ßas a um problema de sa√ļde. √Č comum que, no palco, repita tiradas bem humoradas que tivera em conversas no camarim poucos minutos antes de subir ao tablado. Lorna dubla m√ļsicas e mon√≥logos com perfei√ß√£o e sua voz canta bem em portugu√™s e ingl√™s, sem trope√ßar nas palavras gra√ßas √† √©poca em que era professora da l√≠ngua. Seu prop√≥sito, no entanto, n√£o √© s√≥ a divers√£o: ao mesmo tempo em que solta palavr√Ķes para falar de sexo anal e ‚Äútrucar a neca‚ÄĚ (esconder o p√™nis para que n√£o marque nas roupas), tamb√©m critica a bancada evang√©lica e o Ve√≠culo Leve sobre Trilhos implementado pela prefeitura de Eduardo Paes para as Olimp√≠adas.

‚ÄúEu imagino quantas pessoas n√£o deixaram de morrer de AIDS¬†nos anos 1980 s√≥ por causa das piadas dela‚ÄĚ, diz¬†o diretor Leonardo Menezes. O trabalho de Lorna sempre esteve ligado √† conscientiza√ß√£o sobre a seguran√ßa sexual. Por seu ativismo, j√° ganhou t√≠tulo de benem√©rita pela Assembleia Legislativa do estado. Atualmente, faz parte do grupo Pela VIDDA ‚ÄĒassim com dois d√™s mesmo, significando ‚ÄúValoriza√ß√£o, Integra√ß√£o e Dignidade do Doente de Aids‚ÄĚ. A organiza√ß√£o √© fundada por portadores de HIV e se volta a pessoas que convivem com o v√≠rus. ‚ÄúMuita gente acha que sou soropositivo. Chegam a me dizer: ‚ÄėVoc√™ √© uma guerreira por ter aids e estar trabalhando at√© hoje‚Äô. Eu n√£o desminto.‚ÄĚ

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√Č mais que natural que sua imagem tamb√©m desempenhe papel importante na luta contra a homofobia e o preconceito contra travestis e transexuais. ‚ÄúS√£o os paradoxos da vida. Tem eventos de senhoras idosas em que elas n√£o passam sem um n√ļmero de drag. Mas vai ver se elas querem ter um neto viado.‚ÄĚ Diversas vezes, Lorna gosta de lembrar que √© uma prestadora de servi√ßo tendo de lidar com o p√ļblico. ‚ÄúEu trabalho como qualquer outra pessoa. N√£o sou estrela: estrela est√° no c√©u. Depois que voc√™ fica presa em um leito de hospital dependendo de gente at√© para limpar sua bunda, voc√™ tem uma outra vis√£o sobre a vida.‚ÄĚ

Extravag√Ęncias √† parte, Lorna n√£o leva uma vida desregrada. N√£o bebe e diz ter horror a cigarro. Suporta com inc√īmodo a barulheira das boates quando seus n√ļmeros se estendem madrugada adentro. Afinal de contas, √© de uma √©poca onde os shows de drag queens eram as atra√ß√Ķes principais da noite. Hoje, nem todos na plateia entendem os¬†coment√°rios bem humorados que faz enquanto interpreta a can√ß√£o ‚ÄúCabaret‚ÄĚ, eternizada na voz de Liza Minnelli em filme hom√īnimo de 1972. A can√ß√£o menciona a amizade da protagonista Sally Bowles com uma amiga festeira de nome Elsie. Era ela quem lhe havia ensinado que a solid√£o √© desnecess√°ria enquanto h√° m√ļsica para ouvir e divers√Ķes l√° fora. Em verso, Sally tamb√©m canta sobre a morte de Elsie: o defunto mais feliz que ela j√° vira. Afinal, ela havia aproveitado a vida como em um cabar√©.

Apesar de sua perna, Lorna n√£o aparenta a m√≠nima debilita√ß√£o. N√£o geme, n√£o reclama de dores, n√£o encara sua condi√ß√£o de sa√ļde com caretice. No entanto, a morte √© tema frequente de suas conversas pessoais e mon√≥logos perform√°ticos. ‚ÄúEu sempre digo: me d√™ flores em vida, porque depois que eu morrer, s√≥ quero ora√ß√£o‚ÄĚ, ela declama no palco e na vida. ‚ÄúMas fiquem tranquilos que eu n√£o vou morrer agora.‚ÄĚ O que se pode afirmar com certeza √© que, quando Lorna for, ela n√£o ir√° como Celso. Ir√° como Elsie.

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Comportamento

Para sempre Winona

‚ÄúMalditos filmes!¬†Eles acabam com¬†a gente. T√ī falando s√©rio.‚ÄĚ

Aos 17 anos de idade, Winona Ryder sublinhou as palavras de Holden Caulfield em uma das duas c√≥pias de “O Apanhador no Campo de Centeio” que carregava consigo. ‚ÄúHolden e eu somos uma esp√©cie de equipe‚ÄĚ, disse ela. Desde ent√£o, Ryder j√° se referiu, mais de uma vez, √† obra-prima de ansiedade¬†de J.D.¬†Salinger como sua b√≠blia, e n√£o cansa de repetir¬†que leu o romance cerca de 50 vezes. Quando ela tinha 19 anos, no Natal, seu namorado, Johnny Depp, a presenteou com um cart√£o assinado por Salinger. Aos 20, ela ainda levava uma c√≥pia do livro¬†aonde quer que fosse. Ela at√© escreveu uma cartinha para o autor, mas nunca a enviou. ‚ÄúEu dizia algo como, ah, que o livro significava muito para mim, e agradeci‚ÄĚ, ela contou √† Premiere. Contudo, ela chegou a enviar, de fato, um recado a ele, em 1994, junto com o¬†cart√£o de Natal. ‚ÄúCaro Sr. Salinger‚ÄĚ, dizia. ‚ÄúRecebi isto de presente pois sou muito sua f√£, mas pretendo devolver pois respeito a sua privacidade.‚ÄĚ O √ļnico deus em que ela acreditava enviou de volta uma notinha de agradecimento. ‚ÄúFoi incr√≠vel‚ÄĚ, Ryder contou √† Esquire. ‚ÄúDigo, se bobear, foi o editor dele que digitou ‚Äėobrigado‚Äô e s√≥ pediu para ele assinar, ou algo assim, mas significou muito para mim.‚ÄĚ

Aos 27, Ryder ainda se ajoelhava no altar de seu her√≥i colegial. Naquele ano, ela mostrou √† revista Vogue¬†um porta-retrato da Tiffany, presente de um amigo. De um lado da moldura, estava uma foto dela em 1990, com 19 anos, vestida de preto, √≥culos escuros, estatelada em um sof√°, mostrando o dedo do meio. Do outro, uma p√°gina de “O Apanhador no Campo de Centeio”,¬†na qual Holden l√™ ‚ÄúFoda-se‚ÄĚ no muro da escola de sua irm√£ de 10 anos de idade (‚ÄúAcho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemit√©rio, com uma l√°pide e tudo, vai ter a inscri√ß√£o ‚ÄėHolden Caulfield‚Äô, mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, algu√©m vai escrever ‚ÄėFoda-se‚Äô‚ÄĚ). Dois adolescentes ic√īnicos, com uma diferen√ßa de 40 anos de idade, lado a lado. ‚ÄúEu estava em Paris, promovendo o filme ‘Minha M√£e √© uma Sereia’, morrendo de ins√īnia, enlouquecendo. Foi o pior momento da minha vida‚ÄĚ, explicou. ‚Äú√Č uma vers√£o minha bem adolescente, mas me identifico tanto…‚ÄĚ

Para muitos de n√≥s, no entanto, Winona Ryder √© uma mem√≥ria acolhedora. ‚ÄúAs pessoas esperam que atores mirins n√£o s√≥ interpretem pap√©is mirins, como representem com afinco os dramas de sua gera√ß√£o, em sintonia‚ÄĚ, diz Timothy Shary, cr√≠tico de cinema que j√° publicou in√ļmeros livros sobre filmes adolescentes, incluindo os t√≠tulos “Generation Multiplex: The Image of Youth in American Cinema Since 1980” e “Teen Films: American Youth on Screen”. ‚ÄúPara as garotas exc√™ntricas da minha gera√ß√£o, Winona Ryder era uma semelhante, um √≠cone aspiracional‚ÄĚ, escreveu¬†Alana Massey no¬†BuzzFeed. Embora costumassem descrever Ryder como ing√™nua, isso implica uma passividade que Ryder evitou¬†em todos os seus filmes adolescentes ‚ÄĒ em “Ciranda de Ilus√Ķes”,¬†ela bate em uma mulher que tira vantagem de um deficiente mental; em “Os Fantasmas se Divertem”,¬†ela se sacrifica para salvar dois fantasmas; em “Atra√ß√£o Mortal”,¬†encoraja o namorado a se explodir (e ent√£o usa o corpo dele para acender um cigarro); em “Edward M√£os de Tesoura”, ela se apaixona por um anti-her√≥i g√≥tico; em “A Volta de¬†Roxy Carmichael”,¬† desdenha do bonit√£o da cidade; e em “Minha M√£e √© uma Sereia”, ela o seduz. Nesses filmes, √© como se ela n√£o interpretasse¬†pap√©is, mas sim atuasse¬†como ela mesma. ‚ÄúWinona √© uma atriz que trabalha com seu instinto primitivo, acima de tudo‚ÄĚ, disse o diretor de “Alien: A Ressurrei√ß√£o”, Jean-Pierre Jeunet. ‚ÄúEssa maneira instintiva de trabalhar √© uma qualidade rara, comum entre crian√ßas.‚ÄĚ

A atua√ß√£o pueril ‚ÄĒ e sua pr√≥pria natureza pueril ‚ÄĒ √© bem compreens√≠vel, visto que ela reverencia Caulfied, personagem que, por sua vez, reverencia crian√ßas.

Assim como ele, Ryder era uma garota exc√™ntrica, inteligente e ambivalente em busca de um lugar na sociedade contr√°rio a tudo o que est√° a√≠. Mesmo com vinte e poucos anos, em “Caindo na Real” e “Garota, Interrompida”, ela atuou mais como uma adolescente tardia do que como adulta de fato. Ryder n√£o conseguia seguir em frente por conta do que seguir em frente significava. N√≥s tamb√©m n√£o. Nossa nostalgia¬†at√© hoje a mant√©m enclausurada na adolesc√™ncia, junto ao namorado da √©poca, o Johnny Depp pr√©-excentricidades. No entanto, apesar das nossas tentativas de ressuscitar o passado ‚ÄĒ “Os Fantasmas se Divertem 2”, “Atra√ß√£o Mortal: O Musical”, Marc Jacobs ‚ÄĒ, por mais jovem que Ryder pare√ßa, ela j√° n√£o √© mais aquela garota ing√™nua dos anos 90. Nesse sentido, ela e Holden formam mesmo um time. ‚ÄúO dilema central [de Caulfield] √© que ele quer reter a inoc√™ncia, o solipsismo e a lucidez de uma crian√ßa‚ÄĚ, escreveu Harold Bloom, ‚Äúmas, por conta da biologia, ele precisa seguir em frente, rumo √† idade adulta ou √† loucura‚ÄĚ.

***

A atriz foi batizada em homenagem √† Winona, Minnesota ‚ÄĒ sua cidade natal ‚ÄĒ que, por sua vez, emprestou o nome de uma lenda do povo Dakota, em que a deusa Winona prefere saltar em um abismo a se casar com um homem que n√£o ama. Os amigos a chamam de Noni, isto √©, ‚Äúno knee‚ÄĚ [sem joelhos]. Seu sobrenome √© Horowitz (quer dizer, Tomchin na verdade, mas √© uma longa hist√≥ria). Ela achava que o nome n√£o soava bem para a carreira, e seu pai escolheu Ryder no lugar (talvez enquanto escutava um disco de Mitch Ryder), depois de considerarem October (seu m√™s de nascen√ßa) e Huxley (um de seus escritores favoritos). Seus pais s√£o intelectuais da contracultura ‚ÄĒ fundaram a Bilblioteca Fitz Hugh Ludlow, a maior cole√ß√£o de livros sobre drogas psicoativas do mundo ‚ÄĒ e a criaram em uma comuna, na Calif√≥rnia. Sua inf√Ęncia foi inundada de filmes antigos e livros mais antigos ainda. Com sete anos, ela viu Greer Garson no filme¬†‚ÄúNa Noite do Passado‚ÄĚ. ‚ÄúQueria ser como ela‚ÄĚ, Ryder contou √† Seventeen. ‚ÄúN√£o havia nada como o rosto de Garson, as express√Ķes […] Esses filmes antigos mexeram comigo; eu ficava com borboletas no est√īmago quando assistia. Queria fazer parte deles, mesmo daqueles com fins tr√°gicos.‚ÄĚ Mas ela s√≥ foi estudar no Teatro do Conservat√≥rio Americano (ACT), em S√£o Francisco, quando j√° tinha 12 anos, depois que¬†um punhado de colegas da escola a viram¬†num terno ‚ÄĒ ela estava numa fase de filmes de g√Ęngster ‚ÄĒ, chamaram-na de ‚Äúsapat√£o‚ÄĚ e bateram nela. Ela se matriculou no ACT para conhecer pessoas parecidas com ela, e foi aceita depois de apresentar um mon√≥logo que ela mesma adaptou do livro Franny & Zooey, de J.D. Salinger. ‚ÄúEstou √≥tima. Nunca, em toda minha vida, me senti t√£o inst√°vel, √© fant√°stico.‚ÄĚ

Um ano depois, ela fez um teste para o diretor David Seltzer. Ele estava selecionando atrizes para seu novo filme, “A Inoc√™ncia do Primeiro Amor”, para o papel de Rina, uma jovem adolescente completamente apaixonada pelo personagem do t√≠tulo (Corey Haim), que por sua vez est√° completamente apaixonado por uma cheerleader (Kerri Green), que est√° completamente apaixonada pelo capit√£o do time de futebol americano (Charlie Sheen). Seltzer elaborou o teste em torno de uma cena em particular, do lado de fora de uma festa da escola, onde Lucas¬†foi rejeitado pela cheerleader. Sentado √† beira de um rio, enquanto Lucas¬†contempla uma ninfa de lib√©lula engarrafada, Rina junta-se a ele e observa a fei√ļra do bicho.

Lucas: Vai virar um belo inseto, Rina.‚Ä®

Rina: Mas isso é possível?


Lucas: Dá para imaginar? Transformar algo feio em algo belo?


Rina: N√£o, francamente, n√£o d√°.

‚ÄúLi a cena com ela, e ela partiu meu cora√ß√£o, pois parecia falar uma verdade profunda mesmo‚ÄĚ, contou Seltzer. ‚ÄúImaginei que Winona seria relegada ao papel de amiga desajeitada pelo resto de sua carreira.‚ÄĚ Ao ver a cena, fica dif√≠cil chegar a essa conclus√£o. Embora tivesse apenas 13 anos, Ryder, com sua quietude, sua entrega serena e a capacidade de encantar em sil√™ncio, era uma ilha de carisma. Talvez tenha sido m√©rito da dire√ß√£o de Seltzer ‚ÄĒ ‚ÄúA c√Ęmera vai ler os seus pensamentos‚ÄĚ ‚ÄĒ, ou talvez fosse o jeito dela mesmo. De qualquer forma, ela domina as poucas cenas em que aparece, e sua desenvoltura contrabalanceia a juventude agitada de Haim. (Seltzer admite: ‚Äún√£o rolou muita qu√≠mica entre os dois, ela parecia t√£o mais velha que ele‚ÄĚ.) No fim dos expedientes de filmagem, os jovens atores discutiam o que haviam aprendido com Seltzer, vangloriavam-se de sua t√©cnica ‚ÄĒ menos¬†Ryder. ‚ÄúDavid me ensinou a descascar laranjas de uma s√≥ vez‚ÄĚ, disse ela, e Seltzer se lembra disso com um sorriso estampado. ‚ÄúEla estava disposta a jogar o jogo. Isso √© Winona pura.‚ÄĚ

Seu primeiro papel central foi logo em seu segundo filme. Tamb√©m foi a primeira de muitas personagens mais novas que sua idade de fato. No drama familiar “Ciranda de Ilus√Ķes”, Ryder, com 14 anos, interpreta Gemma, de 13, garota do interior que se apaixonada por um deficiente mental de 21 anos de idade (Rob Lowe) depois de deixar o av√ī (Jason Robards) para morar na cidade com a m√£e (Jane Alexander). Alexander, tamb√©m coprodutor executivo do filme, conta que o diretor Daniel Petrie avaliou centenas de garotas, ‚Äúat√© Winona aparecer‚ÄĚ. Ela havia trabalhado em apenas um filme, mas sua presen√ßa era retumbante. ‚ÄúEla tinha uma personalidade forte bem singular ‚ÄĒ era muito aut√™ntica, observadora, incisiva‚ÄĚ, descreve Alexander. ‚ÄúEla irradiava uma naturalidade, e n√£o s√≥ em cena, como fora das telas.‚ÄĚ Ryder creditou Alexander por ensin√°-la a ter paci√™ncia entre tomadas, e Robards, por ensin√°-la a ser mais natural. ‚ÄúSe eu n√£o tivesse trabalhado com pessoas como Jane e Jason, provavelmente teria bombado diversos pap√©is‚ÄĚ, disse ela. Ela se referia a Robards e Alexander como seus mentores, embora o segundo¬†negue ter ensinado qualquer coisa a Ryder. ‚ÄúSe tive algum m√©rito, foi incentiv√°-la a acatar suas emo√ß√Ķes‚ÄĚ, conta Alexander. ‚ÄúEla tirava emo√ß√Ķes da manga.‚ÄĚ

Tim Burton farejou esse dom logo que a viu em um filme pela primeira vez. E se lembrou dela na hora de selecionar os atores para seu novo projeto, um filme sobre dois fantasmas que assombram uma fam√≠lia e fazem amizade com sua filha, Lydia Deetz, uma esp√©cie de Vandinha. ‚ÄúPerguntei da Winona Ryder porque havia visto ela em ‘A Inoc√™ncia do Primeiro Amor’, e ela tinha uma presen√ßa muito forte‚ÄĚ, o diretor explicou no livro “Burton on Burton”.¬†Ela tamb√©m se parecia com a personagem, fisicamente. ‚ÄúV√°rias pe√ßas de roupa eram minhas mesmo‚ÄĚ, Ryder contou √† Vogue¬†em 1989. ‚ÄúMinha pele era p√°lida daquele jeito.‚ÄĚ E desde a primeira cena, recostada no sof√°, ela emerge como uma Cle√≥patra an√™mica no olho do furac√£o. ‚ÄúMinha vida √© um quarto escuro‚ÄĚ, Lydia diz sob um v√©u negro. E ent√£o: ‚Äúpessoas vivas ignoram tudo que √© esquisito e diferente. E eu sou esquisita e diferente.‚ÄĚ Ryder sentiu uma afinidade com Burton, que era exc√™ntrico como ela (‚Äúestou absolutamente s√≥‚ÄĚ, Lydia escreve no di√°rio, em sua primeira narrativa Salingeresca, primeira de muitas). ‚ÄúTim fala a minha l√≠ngua, sabe?‚ÄĚ, disse ela na √©poca. ‚ÄúCompartilhamos a mesma sensibilidade.‚ÄĚ

Aparentemente, o mundo todo compartilhava. “Os Fantasmas se Divertem” estreou no Dia da Mentira, em 1988, e rendeu US$ 32 milh√Ķes nas primeiras duas semanas, al√©m de um Oscar por Melhor Maquiagem. Conforme Mark Salisbury escreveu no livro “Burton on Burton”, ‚Äúser esquisito era bom, aceit√°vel, um triunfo‚ÄĚ. Bem como Winona Ryder.

A esquisitice de Winona Ryder n√£o tinha o mesmo apelo fora das telas. ‚ÄúEla prestava muita aten√ß√£o na crueldade das garotas adolescentes‚ÄĚ, conta Alexander. ‚Äú’Atra√ß√£o Mortal’ era uma hist√≥ria real, se pararmos para pensar nas coisas que Noni nos contou sobre sua vida escolar.‚ÄĚ Mas esse filme s√≥ saiu dois anos depois. O roteirista de primeira viagem Daniel Waters vendeu sua obra de humor negro, repleta de jarg√Ķes, sobre quatro adolescentes ‚ÄĒ tr√™s Heathers e uma Veronica, grupinho popular do col√©gio Westerberg ‚ÄĒ, aos est√ļdios New World. Com a ajuda de Jason Dean ‚ÄĒ varia√ß√£o homicida do jovem transviado ‚ÄĒ, Veronica Sawyer assassina a Heather mais popular do grupo e arma para parecer suic√≠dio, desencadeando uma s√©rie de imitadores¬†na escola. Waters escreveu o roteiro inspirado no n√ļmero crescente de adolescentes que se matavam na Am√©rica dos anos 80. ‚ÄúO filme veio da canoniza√ß√£o do suic√≠dio adolescente, e da adolesc√™ncia em geral‚ÄĚ, disse ele. Segundo o livro de John Ross Bowie, “Heathers”, Waters via Veronica Sawyer como ‚ÄúTravis Bickle revestido de Molly Ringwald‚ÄĚ. Ele queria a Jennifer Connelly para o papel. O est√ļdio queria Justine Bateman. Ningu√©m queria Winona Ryder.

‚ÄúLi o roteiro¬†e, pela primeira vez, pensei, ‚Äėpreciso desse papel‚Äô‚ÄĚ, Ryder contou √† revista brit√Ęnica¬†The Face¬†em 1989. ‚ÄúN√£o era uma quest√£o de querer ou achar que deveria, era que ningu√©m entenderia aquilo como eu.‚ÄĚ O roteirista de “Os Fantasmas se Divertem” deu uma c√≥pia do roteiro a ela, mas seu agente implorou para ela n√£o tentar o papel. Ela n√£o deu ouvidos. A produtora Denise Di Novi se lembra da atriz sentada em seu escrit√≥rio na New World (com a m√£e), dizendo: ‚Äúeu aceito o papel por um d√≥lar. Fa√ßo de tudo, n√£o importa o quanto vou ganhar‚ÄĚ. Mas embora Waters considerasse ela uma ‚Äúgrande atriz‚ÄĚ, n√£o achava que era ‚Äúatraente o bastante‚ÄĚ. E n√£o era a primeira vez que Ryder, cujos primeiros quatro personagens costumavam ser descritos como ‚Äúfamiliares‚ÄĚ, ouvia isso.

Ent√£o, ela entrou numa loja de departamento, renovou o arm√°rio e, segundo Waters, ‚Äúchegou a amea√ßou se matar caso n√£o conseguisse o papel‚ÄĚ.

[olho]‚ÄúEstou procurando algu√©m no mundo com quem possa me identificar‚ÄĚ[/olho]

Ela praticamente era a personagem: Veronica era uma g√≥tica suave, Ryder tamb√©m. Veronica era menos feminina do que as amigas de cabelo volumoso, Ryder tamb√©m (ela s√≥ n√£o usava um mon√≥culo). E ambas pensavam al√©m da din√Ęmica das panelinhas, e escreviam sobre isso no di√°rio (‚Äúeu queria me aprofundar nessa tradi√ß√£o de di√°rios femininos‚ÄĚ, disse Waters). Ryder tamb√©m tinha uma conex√£o pessoal com a hist√≥ria: a menina exc√™ntrica, a g√≥tica da escola, passou a ser venerada ap√≥s o suic√≠dio, pelas mesmas pessoas que a alienaram quando era viva. ‚ÄúA hist√≥ria me pegou de jeito, porque eu ficava enojada com os comportamentos na escola‚ÄĚ, disse Ryder. E tamb√©m tinha uma liga√ß√£o com¬†J.D.¬†Salinger. No rascunho original do roteiro do filme,¬†Heather Duke escrevia sua nota de despedida em uma c√≥pia de “O Apanhador no Campo de Centeio”. Mas Salinger ‚Äútitubeou com a ideia‚ÄĚ, ent√£o trocaram por “Moby Dick”. Holden passou a colorir a hist√≥ria de uma maneira mais sutil e abstrata, atrav√©s do distanciamento entre Veronica e os pais (e adultos em geral), e da equa√ß√£o adolesc√™ncia e conflitos: ‚Äúo que os jovens inflingem uns aos outros no col√©gio √© t√£o ruim quanto o que os adultos inflingem uns aos outros em guerra‚ÄĚ.

No fim das contas, Waters transformou Veronica Sawyer¬†em ‚Äúo Albert Speer do col√©gio Westerberg‚ÄĚ, isto √©, uma nazista arrependida. Ele disse a John Ross Bowie que ‚Äúsuavizou‚ÄĚ a personagem por conta da postura ‚Äúvol√ļvel‚ÄĚ de Ryder (palavra que, sem d√ļvidas, ele aprendeu com a resenha de Pauline Kael na¬†New Yorker: ‚ÄúWinona Ryder tem uma apar√™ncia ador√°vel, mas seu papel √© vol√ļvel e ‚Äėreal‚Äô demais para as atrocidades de mentirinha que acontecem a seu redor‚ÄĚ). Ryder e sua personagem eram uma s√≥, e sua atua√ß√£o transcendeu o mero carisma. Em uma cena em particular, ela gargalha com¬†J.D.¬†no funeral de dois jogadores de futebol americano ‚ÄĒ Veronica matara ambos a tiros ‚ÄĒ, at√© que uma garotinha, provavelmente ca√ßula de um dos falecidos, vira-se para eles com um olhar de reprova√ß√£o. A maneira como o riso de Ryder se dissolve lentamente, como ela vira o rosto, como um filhotinho de cachorro cheio de amores para dar, arremata a s√°tira. Ela √© o condutor moral da trama. ‚Äú√Č como se eu trabalhasse com essas pessoas, e o nosso trabalho fosse ser popular e tal‚ÄĚ, Veronica fala para¬†J.D., e n√≥s acreditamos nela. Ela n√£o pretendia matar as Heathers, s√≥ queria ser mais madura que elas. Conforme ela mesma diz, ‚Äúest√° na hora de crescermos, virarmos adultas e morrermos‚ÄĚ.

“Atra√ß√£o Mortal” acatou sua atua√ß√£o e chafurdou nas bilheterias, recebendo em retorno¬†apenas um ter√ßo dos custos de produ√ß√£o. O cr√≠tico Timothy Shary observou que o lan√ßamento do filme em 1989, depois de suic√≠dios em s√©rie no pa√≠s, foi como lan√ßar um filme sobre tiroteios em escolas um ano ap√≥s o epis√≥dio de Columbine. Ent√£o, surgiu o VHS (e a TV a cabo), e de repente o filme virou um cl√°ssico cult. ‚ÄúAcho que ‘Atra√ß√£o Mortal’ mexe com os jovens, faz eles refletirem sobre a hipocrisia‚ÄĚ, disse Shary. ‚ÄúInstiga debates sobre as ironias do comportamento colegial e, claro, √© um dedo na cara dos c√≠rculos sociais e sistema de castas das escolas, formalidades que muitos adolescentes detestam, mas aceitam, de qualquer forma.‚ÄĚ At√© hoje, Veronica Sawyer √© a personagem favorita de Ryder.

N√£o havia mais outro caminho se n√£o o decl√≠nio. No final dos anos 80, Karen Leigh Hopkins escreveu um filme obscuro, m√°gico e realista sobre iconografia, que ela costuma equiparar a “A Noite Americana”, de Fran√ßois Truffaut. O roteiro original de “A Volta de Roxy Carmichael” n√£o tinha um papel para Winona Ryder, mas Hopkins resolveu criar Dinky Bossetti para ela, uma garota de quinze anos que acredita ser a filha renegada de uma celebridade local desaparecida. Dinky tinge as roupas com carv√£o, cerca o quarto de arame farpado, escreve poemas ranzinzas e, assim como Ryder, √© desprezada pelos colegas da escola, que a usam de alvo. Ela prefere ‚Äúlivros a bonecas, botas a sapatilhas de bailarina‚ÄĚ, e proclama ‚Äúquem √© que entende os outros, afinal? Quem quer entender? J√° √© dif√≠cil o bastante entender a si pr√≥prio‚ÄĚ. Assim Hopkins descreve Ryder: ‚Äúela era muito parecida com a personagem. T√£o inteligente e diferente e ousada‚ÄĚ.

Lan√ßado em outubro de 1990, perto do d√©cimo nono¬†anivers√°rio de Ryder, “Roxy Carmichael”¬†foi v√≠tima de uma dire√ß√£o insossa ‚ÄĒ salvo o floreio burtonesco ‚ÄĒ e teve pouco retorno. Mas foi um filme intrigante, sim, a ponto de uma empresa de financiamento sondar Hopkins recentemente sobre uma poss√≠vel refilmagem. ‚ÄúAcho que precisamos desse filme agora, mais do que precis√°vamos 20 anos atr√°s‚ÄĚ, disse ela. Hopkins se refere especificamente ao tema intimista do filme, o isolamento. ‚ÄúPara mim, o filme era sobre n√£o se identificar com ningu√©m‚ÄĚ, contou. ‚ÄúEstou procurando algu√©m no mundo com quem possa me identificar‚ÄĚ, Ryder admitiu √†¬†Premiere,¬†em 1989. ‚Äú[Dinky] at√© que √© bem parecida comigo‚ÄĚ, embora Hopkins n√£o tivesse se dado conta da semelhan√ßa logo de cara. ‚ÄúAcho que ela captou a intelig√™ncia de Dinky, e a diferen√ßa entre quem era Dinky e o resto do mundo‚ÄĚ, disse Hopkins. ‚ÄúN√£o √© que ela queria ser diferente, ela era diferente de fato e merecia o papel.‚ÄĚ

O papel seguinte de Ryder foi bem diferente. Em¬†‚ÄúEdward M√£os de Tesoura‚ÄĚ,¬†ela interpreta o tipo de garota que sempre desprezou: a cheerleader loirinha. ‚ÄúKim era parecida com as garotas que me chamavam de esquisitona e tacavam Cheetos em mim na oitava s√©rie‚ÄĚ, contou ela. A ideia da sinopse ‚ÄĒ um homem com tesouras no lugar das m√£os aparece¬†em uma comunidade suburbana ‚ÄĒ surgiu de um desenho antigo de Tim Burton, do alto de sua adolesc√™ncia. ‚ÄúNa √©poca, imperava a sensa√ß√£o de que a minha imagem e a percep√ß√£o que os outros tinham de mim divergiam da minha ess√™ncia‚ÄĚ, ele declarou em “Burton on Burton”.¬†O diretor notou que Johnny Depp ‚ÄĒ √≠dolo adolescente por dentro, hippie por fora ‚ÄĒ vivia no mesmo limbo. E embora Ryder n√£o fosse como Kim, ela conseguiu se identificar um pouco com a personagem. ‚ÄúEm termos f√≠sicos, meu papel no filme¬†era tudo que eu havia repudiado a vida inteira‚ÄĚ, Ryder contou √† revista¬†brit√Ęnica¬†Select¬†em 1991. ‚ÄúMas ela se apaixonou por Edward porque se sentiu diferente.‚ÄĚ A peruca clarinha de Hayley Mills fez os olhos de Ryder ‚ÄĒ o atributo que todos que a conhecem n√£o param de louvar ‚ÄĒ se sobressa√≠rem ainda mais, transformando-a em uma obra viva de Margaret Keane. ‚ÄúAmbos os atores t√™m um qu√™ de cinema mudo, sabe? Ambos dizem muito com os olhos, sem precisar emitir uma palavra‚ÄĚ, diz Burton nos coment√°rios do¬†DVD.

Na √ļltima vez que Winona Ryder interpretou uma adolescente, ela voltou a ser a boa e velha garota exc√™ntrica. Em “Minha M√£e √© uma Sereia”,¬†ela √© Charlotte Flax, a filha religiosa de uma m√£e solteira e sacr√≠lega. Baseado no romance de Patty Dann, de 1986, √© mais um drama nost√°lgico de forma√ß√£o, passado em 1963. ‚ÄúSereias sempre me intrigaram, essa coisa de ser meio peixe, meio mulher‚ÄĚ, Dann explicou via email. ‚ÄúAs mulheres da fam√≠lia Flax parecem sereias ‚ÄĒ todas elas s√£o meio infantis, meio crescidas.‚ÄĚ Ao passo que a m√£e usa vestidos de bolinha coladinhos, Charlotte veste uma t√ļnica e um ter√ßo, e tenta expurgar, com ora√ß√Ķes, os pensamentos impuros sobre o zelador do convento local (Michael Schoeffling, famoso por interpretar Jake Ryan, o cara dos sonhos em “Gatinhas e Gat√Ķes”,¬†antes de largar Hollywood e seguir carreira como marceneiro). O comportamento dela lembra o velho testamento de Ryder, “O Apanhador no Campo de Centeio”. ‚ÄúA ambival√™ncia, a presen√ßa simult√Ęnea de sentimentos positivos e negativos em grau equivalente, domina Holden no decorrer do livro‚ÄĚ, escreveu Harold Bloom. Era um tema que Ryder ainda revisitaria em “Caindo na Real” e “Garota, Interrompida”, e em “Minha M√£e √© uma Sereia”,¬†foi real√ßado pela narra√ß√£o de Charlotte. ‚ÄúAdoro como ela era completamente inconsistente‚ÄĚ, disse Ryder. ‚ÄúEu sou completamente inconsistente.‚ÄĚ

***

Winona Ryder apareceu na hora certa. O cr√≠tico de cinema Timothy Shary caracteriza o g√™nero adolescente como ‚Äúc√≠clico‚ÄĚ. O primeiro filme de Ryder, “A Inoc√™ncia do Primeiro Amor”, foi lan√ßado no fim da era super-hormonal de “Porky‚Äôs” (a AIDS¬†e a gravidez adolescente acabaram com a festa) e cinco anos antes da estreia de “Os Donos da Rua”.¬†No per√≠odo entre 1986 e 1990, durante sua carreira adolescente, pipocaram cerca de 250 filmes americanos sobre adolescentes, sendo os mais memor√°veis aqueles sobre a nost√°lgica perda da inoc√™ncia, como “Dirty Dancing” (1987), “Hairspray” (1988)¬†e “A Sociedade dos Poetas Mortos” (1989).¬†Tr√™s filmes de Ryder ‚ÄĒ “A Fera do Rock”, “1969”, “Minha M√£e √© uma Sereia” ‚ÄĒ aderiram √† moda. Ela estava na crista da onda: p√≥s-sexomania, pr√©-moda da viol√™ncia ‚ÄĒ a pista de pouso ideal para uma alien√≠gena de olhos grand√Ķes.

‚ÄúEra dif√≠cil dizer qual garota era o rosto dos filmes adolescentes no fim dos anos 80‚ÄĚ, conta Shary. Os Brats j√° tinham ficado para tr√°s, bem como John Hughes (seu √ļltimo filme adolescente, “Algu√©m Muito Especial”, saiu em 1987), embora ningu√©m se esque√ßa deles. ‚Äú[Hughes] mostrou que era poss√≠vel fazer filmes adolescentes sens√≠veis sem nudez e sem apelar para a √Ęnsia sexual adolescente‚ÄĚ, acrescenta. Ele acredita que isso foi ‚Äúum fator favor√°vel para atrizes como Winona Ryder se estabelecerem, atrizes que deram as caras no fim dos anos 80 e foram levadas a s√©rio enquanto adolescentes.‚ÄĚ Mas, enquanto a musa de Hughes, Molly Ringwald, corria atr√°s de caras ricos, Ryder cuidava da pr√≥pria vida. ‚ÄúMolly Ringwald era uma esp√©cie de queridinha da Am√©rica‚ÄĚ, explica Shary, “e acho que Winona Ryder, por outro lado, dedicava-se a pap√©is mais c√≠nicos, mais calejados‚ÄĚ. E ela n√£o tinha papas na l√≠ngua. ‚ÄúEsses filmes s√£o t√£o piegas‚ÄĚ, disse Ryder a respeito do c√Ęnone de Hughes. ‚ÄúComo os adolescentes deixam colarem esses r√≥tulos em suas costas?!?‚ÄĚ “Atra√ß√£o Mortal” foi um contraponto ‚ÄĒ Waters disse √†¬†Entertainment Weekly¬†que ‚Äúh√° toda uma ala colegial que ningu√©m estava explorando‚ÄĚ ‚ÄĒ e Ryder se orgulhava disso. ‚ÄúTem uma garotada muito esperta por a√≠, que n√£o quer ser insultada por John Hughes‚ÄĚ, disse ela. N√£o por acaso, provavelmente, em “Edward M√£os de Tesoura”, Tim Burton transformou o xod√≥ de Hughes, Anthony Michael Hall, em um psicopata, ao passo que, em “Minha M√£e √© uma Sereia”, Ryder transou com o modelete dos anos 80 Jake Ryan depois de Molly Ringwald ousar apenas beij√°-lo.

[olho]‚ÄúEla tem o rosto mais perfeito que j√° vi‚ÄĚ[/olho]

Embora a maioria de seus filmes n√£o tenha sido um estouro, Ryder foi agraciada pela cr√≠tica, e chegou a receber um pr√™mio do Independent Spirit¬†por “Atra√ß√£o Mortal” e um Globo de Ouro por “Minha M√£e √© uma Sereia”. ‚ÄúQuando chegou aos vinte anos, no in√≠cio dos anos 90, ela j√° era influente o bastante para fazer filmes como ‘Dr√°cula’ e ‘A √Čpoca da Inoc√™ncia’ e ser levada a s√©rio‚ÄĚ, conta Shary. Mas n√£o √© por isso que¬†ela¬†virou um √≠cone. De acordo com o livro “Gods Like Us”, de Ty Burr, essa tamb√©m foi a d√©cada das revistas para f√£s.¬†Entertainment Weekly,¬†Premiere,¬†InStyle,¬†People¬†e¬†Us Weekly¬†‚Äúrevitalizaram o interesse pelo tri√Ęngulo mulheres, fama e estilo‚ÄĚ, escreveu Burr. ‚ÄúAs revistas validavam as personas, criavam narrativas p√ļblicas, julgavam os esc√Ęndalos em nome do povo e dissipavam o mist√©rio em torno dos filmes, substituindo-o por uma ilus√£o de acessibilidade e conhecimento‚ÄĚ. Apesar de admitir que as revistas de fofoca ‚Äúmantiveram a visibilidade p√ļblica [de Winona]‚ÄĚ, Shary observa que Ryder recebeu as ‚Äúmelhores cr√≠ticas de todos os tempos‚ÄĚ nos anos 90 (sua primeira indica√ß√£o ao Oscar aconteceu¬†em 1993, por “A √Čpoca da Inoc√™ncia”,¬†com direito a uma indica√ß√£o consecutiva no ano seguinte, por “Ador√°veis Mulheres”). Mas n√£o √© o que costumamos recordar. A maior lembran√ßa da √©poca √© a Winona eterna. A “Winona Forever”.

***

Johnny Depp e Winona.
Johnny Depp e Winona.

Eles sa√≠ram juntos pela primeira vez dois meses ap√≥s a estreia de “Atra√ß√£o Mortal”, dia 16 de junho de 1989, no Teatro Ziegfeld, em Nova York. Ela tinha 17 anos, e ele, 26. Era a premiere de “A Fera do Rock”, e Winona chegou em um Cadillac cor-de-rosa, vestindo um Giorgio di Sant‚Äôangelo colado cor-de-fantasma. Ela mudou do preto rebelde para o branco rebelde (‚Äúapesar de ‘Atra√ß√£o Mortal’ n√£o dar muito dinheiro, as pessoas passaram a acreditar que eu poderia interpretar pap√©is atraentes por causa do filme‚ÄĚ). Com um batom cor-de-framboesa e olhos cor-de-p√™ssego, ela comp√īs um look suculento. Johnny Depp, protagonista do seriado “21 Jump Street”, apareceu de jaqueta de camur√ßa marrom, jeans e camisa preta (um ano depois, ele ostentou o exato mesmo look no filme “Cry Baby”, de John Waters), igualmente sedutor. Eles tinham cabelos iguais ‚ÄĒ curtinho, escuro, bagun√ßado ‚ÄĒ e eram bem parecidos em outros aspectos. Depp tamb√©m era pouco convencional, um disc√≠pulo dos beatniks e f√£ do padrinho de Ryder, Timothy Leary, sem falar em Salinger. A beleza dele era at√≠pica, como a dela. ‚ÄúO tipo Johhny Depp de beleza era quase uma afronta a Tom Cruise‚ÄĚ, explica Elaine Lui, do blog¬†Lainey Gossip.

No fim de 1989, eles j√° estavam noivos, e em dezembro do ano seguinte, Depp fez a famosa tatuagem ‚ÄúWinona Forever‚ÄĚ. Ryder n√£o era mais a virgem santinha. ‚ÄúRecebi muitos pedidos de casamento ano passado‚ÄĚ, disse ela antes de conhecer Depp. ‚ÄúSou muito ing√™nua com essas coisas.‚ÄĚ Depp, divorciado j√° aos 22 anos de idade, a iluminou. ‚ÄúFoi uma mudan√ßa dr√°stica de identidade‚ÄĚ, descreve Lui. ‚ÄúDe garota esquisitinha √† garota mais linda do mundo com o namorado mais lindo do mundo, vivendo o amor mais lindo do mundo.‚ÄĚ E o casal vivia bradando o amor aos quatro ventos. ‚ÄúAmo essa garota. ‚ÄúAmo muito‚ÄĚ, declarou Depp na √©poca. ‚ÄúAcho que amo mais ela do que a mim mesmo.‚ÄĚ Ryder era menos emotiva, mas n√£o menos franca. ‚ÄúQuando conheci Johnny, era virgem‚ÄĚ, disse. ‚ÄúEle mudou isso. Ele foi o meu primeiro em tudo. Meu primeiro beijo de verdade. Meu primeiro namorado de verdade. Meu primeiro noivo. O primeiro cara com quem transei. Ent√£o, ele estar√° para sempre em meu cora√ß√£o. Para sempre.‚ÄĚ A imprensa nunca se fartava. Os paparazzi os cercavam em aeroportos, os tabl√≥ides n√£o paravam de falar deles. Em maio de 1991, passaram a morar juntos, e a imprensa ficava de tocaia na vizinhan√ßa. ‚ÄúN√≥s dois √©ramos muito jovens e bem abertos quanto aos nossos sentimentos‚ÄĚ, Ryder contou ao¬†Daily Beast¬†em outubro do ano passado. ‚ÄúAinda n√£o t√≠nhamos aprendido a n√£o compartilhar tudo com todo mundo.‚ÄĚ Mas ela entendeu r√°pido. ‚ÄúQuando eu era novinha, era a queridinha da imprensa‚ÄĚ, ela contou √†¬†Harper‚Äôs Bazaar¬†em 1990. ‚ÄúAt√© que noivei o Johnny. Foi de mau a pior.‚ÄĚ

D√° para tra√ßar a evolu√ß√£o dela pela¬†Vogue. Em junho de 1989, pela primeira vez, Ryder apareceu na b√≠blia da moda usando um terno masculino ‚ÄĒ caracterizada como ‚Äúmeio Annie Hall, meio Holly Golightly‚ÄĚ. Seis meses depois, estampou sua segunda edi√ß√£o com fotos topless na cama. Mais ou menos na mesma √©poca, Ryder leu um artigo ‚Äúnojento‚ÄĚ em outra revista, que a listava entre uma s√©rie de atrizes que tinham seios surpreendentemente grandes. ‚ÄúFoi a primeira vez que li um texto assim sobre mim, e pensei, ‚Äėnossa, n√£o me veem mais como uma atriz infantil!‚Äô‚ÄĚ, contou. ‚ÄúEu me senti violada.‚ÄĚ Ainda assim, Ryder, que j√° fora considerada feia demais para Hollywood, virou hit das capas de revista de moda. Ela, no entanto, n√£o abra√ßou o papel. Evitava desfiles de moda, n√£o fazia penteados nem maquiagem para os eventos, vestia (e repetia) modelitos vintage no tapete vermelho, e √†s vezes at√© combinava o look com Depp ‚ÄĒ camisetas largonas, jaquetas de couro, jeans.

Ela tinha o estilo perfeito na hora perfeita. O grunge estava fazendo por onde, e a inconformada Noni, mi√ļda apesar das curvas, caiu como uma luva para a d√©cada do heroin chic. Mas, oficialmente, ela s√≥ se tornou √≠cone do estilo em 1993 ‚ÄĒ quando adotou o cabelo pixie. ‚ÄúO novo corte pixie de Winona Ryder lembra a eleg√Ęncia gamine de Audrey Hepburn‚ÄĚ, anunciou a Vogue. Para perpetuar a tend√™ncia, a revista ainda publicou um artigo sobre a volta do gamine. ‚ÄúO pessoal da moda ama essas coisas‚ÄĚ, disse Lui a respeito da chancela da haute couture. ‚ÄúMas, s√©rio mesmo, √© aquele rosto. Aqueles olhos. Aquele rosto ossudo.‚ÄĚ Para dar uma ideia, o finado maquiador Kevyn Aucoin contou √†¬†Allure¬†em 2000 que nunca gastou mais que 15 minutos na maquiagem de Ryder. ‚ÄúEu nunca tinha visto um rosto t√£o perfeito‚ÄĚ, disse ele. ‚ÄúParecia uma boneca de porcelana.‚ÄĚ

[olho]‚ÄúH√° uma obriga√ß√£o em¬†comercializar algo quando h√° uma celebridade envolvida‚ÄĚ[/olho]

Ela, no entanto, n√£o se sentia linda assim. Aos 17, Ryder come√ßou a ter ataques de ansiedade ‚Äúterr√≠veis‚ÄĚ. Um ano depois, largou as filmagens de “O Poderoso Chef√£o: Parte¬†III” ¬†por conta do furor dos tabl√≥ides com a crise aguda de sinusite e bronquite que ela enfrentou no set de “Minha M√£e √© uma Sereia”.¬†‚ÄúN√£o tirei f√©rias‚ÄĚ, ela contou √†¬†Vogue. ‚ÄúQuando finalmente tirei, estava muito estressada.‚ÄĚ Aos 19, piorou. ‚ÄúEu agia como se estivesse tudo bem ‚ÄĒ simplesmente sorria‚ÄĚ, disse ela. ‚ÄúEstava sempre sob os holofotes.‚ÄĚ Contudo, tinha problemas para dormir de novo (ela sofria com ins√īnia desde crian√ßa) e estava bem jururu nas filmagens de “A Casa dos Esp√≠ritos”. Ela admitiu que a imprensa ‚Äúpesou‚ÄĚ no relacionamento com Depp, mas n√£o foi o √ļnico problema. ‚ÄúEu vivia uma vida que n√£o me deixava confort√°vel, tentando ser a pessoa que descreviam nas revistas e jornais‚ÄĚ, ela contou √†¬†Rolling Stone. ‚ÄúEu era a Winona! Era preciosa! Ador√°vel! Sexy!‚ÄĚ Ela descreve o momento como uma crise de identidade. ‚ÄúQuando voc√™ passa os principais anos da adolesc√™ncia sendo observada e criticada por milh√Ķes de pessoas que acham que sabem o que √© bom ou ruim para voc√™, voc√™ perde o senso de identidade‚ÄĚ, explicou Ryder. Ela se consultou com uma terapeuta que a diagnosticou com ‚Äúansiedade antecipat√≥ria‚ÄĚ ‚ÄĒ pavor ao antecipar eventos ‚ÄĒ e com a bizarra condi√ß√£o denominada ‚Äúnostalgia antecipat√≥ria‚ÄĚ. (No¬†New York Times, a psic√≥loga Constantine Sedikides recentemente descreveu essa ‚Äúcondi√ß√£o‚ÄĚ pouco conhecida, que poderia muito bem ser a raison d‚Äô√™tre da era atual, dado o √≠mpeto de ‚Äúconstruir mem√≥rias para serem nost√°lgicas‚ÄĚ.) A terapeuta prescreveu p√≠lulas para dormir, e ela acabou viciando. Em seguida, ela tentou “bancar a alco√≥latra por duas semanas‚ÄĚ, mas desencanou depois de dormir com um cigarro aceso. Ent√£o, em abril de 1993, dois anos depois de canonizar o romance em um artigo da¬†Vogue, Winona Ryder e Johnny Depp terminaram.

***

A certa altura, Winona Ryder tinha 12 guitarras. ‚ÄúNunca me senti fisicamente bonita, mas sempre senti que era √ļnica, e isso importava mais para mim‚ÄĚ, ela contou √†¬†Vogue¬†em 2007. ‚ÄúCurtir a m√ļsica que eu curtia era muito mais uma quest√£o de individualidade do que beleza.‚ÄĚ A casa dela era repleta de p√īsteres¬†das bandas The Clash, Patti Smith, The Runaways e The Replacements, e em 1990 ela contou √†¬†Seventeen que Paul Westerberg, l√≠der da √ļltima, era seu maior √≠dolo, declara√ß√£o que, aparentemente, determinou seus relacionamentos futuros. Os Replacements s√£o considerados um dos pioneiros do rock alternativo, e o hist√≥rico de namorados de Ryder √© uma enciclop√©dia do g√™nero. Era como se, paradoxalmente, estivesse tentando estabelecer uma individualidade atrav√©s dos relacionamentos.

Em menos de um m√™s ap√≥s terminar com Depp, que originalmente queria ser m√ļsico, ela come√ßou a sair com Dave Pirner, da banda de grunge Soul Asylum. Al√©m de Pirner (que aparentemente comp√īs ‚ÄúJust Like Anyone‚ÄĚ para ela), Ryder j√° foi associada aos seguintes m√ļsicos (a lista n√£o segue nenhuma ordem espec√≠fica): Ryan Adams (ao que parece, ‚ÄúCry on Demand‚ÄĚ √© sobre ela), Beck (supostamente, ‚ÄúLost Cause‚ÄĚ √© sobre ela), Conor Oberst, Pete Yorn, Blake Sennett, do Rilo Kiley, e Dave Grohl. Ela tamb√©m inspirou a refer√™ncia a “O Apanhador no Campo de Centeio” na can√ß√£o ‚ÄúRollerskate Skinny‚ÄĚ, da banda Old ‚Äô97s ‚ÄĒ Rhett Miller contou √†¬†Nerve¬†que comp√īs a faixa quando Ryder terminou com Matt Damon e se apaixonou por ele, com quem ela vivia falando do ex. ‚ÄúEscrevi a can√ß√£o para mandar um recado do tipo, ‚Äės√©rio mesmo que voc√™ est√° reclamando da vida? Pelo amor!’‚ÄĚ, disse ele. Tamb√©m tem a m√ļsica ‚ÄúWinona‚ÄĚ, de Matthew Sweet, t√≠tulo sugerido por um amigo porque Sweet adorava o filme “Atra√ß√£o Mortal”.

N√£o demorou muito para virar piada. Segundo a¬†Rolling Stone, em um show, Courtney Love brincou que ‚ÄúKurt a trocaria por Winona‚ÄĚ, ao ponto¬†de¬†um rep√≥rter da¬†Sassy especular que homens passaram a montar bandas alternativas s√≥ para conhecer Ryder. Mas a maior chacota de todas foi “Caindo na Real”.¬†O filme de Ryder, de 1994, glamurizou a moda grunge, as refer√™ncias liter√°rias e o estilo roqueirinho que ela vivia. Foi uma vers√£o adolescente tardia de seus filmes de forma√ß√£o que a tornaram famosa. Ela interpretou Lelaina Pierce, uma oradora da turma da faculdade que, de repente, se v√™ como uma ‚Äúgarota indie desempregada‚ÄĚ, tenta ganhar a vida com document√°rios independentes e acaba virando mainstream. ‚Äú√Č sobre pessoas tentando encontrar a pr√≥pria identidade sem modelos e √≠dolos reais‚ÄĚ, Lelaina disse sobre o pr√≥prio filme, descri√ß√£o que tamb√©m define bem “O Apanhador no Campo de Centeio” e a pr√≥pria Ryder. N√£o por acaso, Helen Childress escreveu o roteiro com a atriz em mente. ‚ÄúN√£o havia ningu√©m como ela‚ÄĚ, disse. E Ryder adorou. ‚ÄúFoi a primeira vez que sorri e gargalhei e me diverti de fato com um roteiro engra√ßado assim desde ‘Atra√ß√£o Mortal’‚ÄĚ, disse ela.

Quem diria que o filme concederia a trilha sonora da gera√ß√£o X? Um pastiche com refrigerante de m√°quina, cabelos oleosos, roupas vintage, refer√™ncias da cultura pop e caf√©s esfuma√ßados! Ryder contou ao¬†The San Francisco Examiner que ‚Äúo roteiro de ‘Caindo na Real’ era bem diferente do resultado final do filme. Deu a impress√£o de que o document√°rio da minha personagem ditava a narrativa‚ÄĚ. Ela assumiu a culpa, e declarou √†¬†Life: ‚Äúh√° uma obriga√ß√£o em¬†comercializar algo quando h√° uma celebridade envolvida‚ÄĚ.

***

Ryder era uma celebridade relutante, mas estava prestes a se tornar amiga de uma estrela e tanto. No come√ßo, a favorita para o papel de Janeane Garofalo em “Caindo na Real” era Gwyneth Paltrow. Contudo, tr√™s anos ap√≥s o lan√ßamento do filme, a revista¬†People relatou que, √† √©poca, Paltrow estava se recuperando da separa√ß√£o com Brad Pitt no apartamento de Ryder, em Manhattan. Teoricamente, Veronica detestava toda e qualquer Heather, mas √†quela altura, ela ficou muito amiga de uma ‚ÄĒ Paltrow era a estrela convencional, loirinha, prestes a ganhar um Oscar por “Shakespeare Apaixonado”. Ryder e Paltrow apareceram de m√£os dadas na premiere de “Cidade de Tiras”¬†em¬†1997 e, apesar de j√° estar saindo com Ben Affleck meses depois,¬†ela foi flagrada de m√£os dadas com Ryder mais uma vez durante a cerim√īnia do Globo de Ouro, em janeiro. Foi ela que apresentou Ryder ao melhor amigo de Affleck.

Matt Damon e Winona Ryder formavam um par esquisito. √Äs v√©speras da vit√≥ria do Oscar por ‚ÄúG√™nio Indom√°vel‚ÄĚ, Damon n√£o fazia muito o tipo de Ryder. Elaine Lui acredita que essa seja justamente a quest√£o. ‚ÄúFoi o √ļnico momento em que ela foi mainstream‚ÄĚ, disse. ‚ÄúMatt Damon foi a chance dela se tornar uma Heather… Acho que, para uma garota como Winona, que nunca foi normal, e nunca se viu como normal‚ÄĚ, explicou Lui, ‚Äúseria muito t√≥xico ser normal‚ÄĚ.

O relacionamento dela com Damon durou dois anos, e com Paltrow, menos ainda. Como uma mancha de batom persistente no colarinho de uma camisa branca, correram as m√°s l√≠nguas que Paltrow roubara o roteiro de Ryder para “Shakespeare Apaixonado”.

[olho]‚ÄúPenso nela como uma atriz do cinema mudo‚ÄĚ[/olho]

Mas a carreira de Paltrow como guru em estilo de vida inevitavelmente levaria o duo √† ruptura. Filha do diretor Bruce Paltrow e da atriz Blythe Danner, Paltrow tinha pedigree de Hollywood, assim como Angelina Jolie, que tamb√©m levaria um Oscar em breve, depois de atuar com Ryder em “Garota, Interrompida”. Jolie hoje √© uma das mulheres mais famosas do mundo, mais do que Paltrow, embora ambas sejam igualmente ativas fora das telas, o que as protege do machismo hollywoodiano √† medida que envelhecem. ‚ÄúElas estavam muito mais preparadas para existir diante da fama, e deram um jeito de prosperar‚ÄĚ, descreveu Lui. ‚ÄúWinona nunca conseguiu encontrar seu caminho na fama, acho que ela n√£o tem esse dom… N√£o adianta atuar e produzir, tem que jogar o jogo. E a diferen√ßa entre Winona e Gwyneth ou Winona e Angelina √© que ela n√£o sabe jogar. Nunca soube e nunca vai saber.‚ÄĚ

Foi assim desde o come√ßo. ‚ÄúFui a algumas festas em¬†Los Angeles¬†e tentei curtir‚ÄĚ, Ryder contou √†¬†Premiere¬†em 1989, tr√™s anos ap√≥s seu primeiro filme. ‚ÄúMas fiquei assustada, enojada. Era puro estrelismo, a galera fazendo de tudo para aparecer. √Č meio triste.‚ÄĚ Ela tinha s√≥ 17 anos na √©poca e, aos 18, os sentimentos n√£o mudaram. ‚ÄúAgora que tive minha primeira experi√™ncia com os tabl√≥ides‚ÄĚ, ela contou ao New York¬†Times, ‚Äútenho receio de conversar com algu√©m numa limousine por conta do motorista‚ÄĚ. Em geral, ela n√£o falava muito. Interagia o m√≠nimo poss√≠vel com a imprensa ‚ÄĒ seu primeiro bate-papo com plateia foi com a Oprah, para promover “Minha M√£e √© uma Sereia” ‚ÄĒ, e durante um bom tempo sua √ļnica entrevista depois do hor√°rio nobre foi com Charlie Rose. Quando abria a boca para falar, reclamavam que ela divagava. Ela estava familiarizada com o ‚Äúprotocolo‚ÄĚ, mas achava tudo muito ‚Äútosco‚ÄĚ, e¬†resolveu priorizar a vida, e n√£o a carreira. ‚ÄúUm artista de verdade n√£o liga para essas coisas de carreira‚ÄĚ, disse ela. ‚ÄúMas √© importante para muitas pessoas que se denominam atores e que na verdade s√£o apenas posers.‚ÄĚ Essa distin√ß√£o era importante, estava na b√≠blia dela. ‚ÄúSe tem uma coisa que detesto, √© o cinema. Nem ouse falar disso comigo‚ÄĚ, diz Holden. Ryder estava dividida ‚ÄĒ ambivalente como sempre ‚ÄĒ entre amar o cinema e amar Salinger. ‚ÄúPor muito tempo, quase tive vergonha de ser atriz‚ÄĚ, contou. ‚ÄúEu achava que era uma profiss√£o superficial.‚ÄĚ N√£o era uma quest√£o de exibicionismo, mas uma asser√ß√£o. Depois de uma s√©rie de patacoadas (“Colcha de Retalhos”, “Boys”, “Celebridades”) e um hit (“Alien: A Ressurrei√ß√£o”), ela declarou √†¬†Vogue¬†em 1999: ‚Äúsou t√£o famosa quanto sempre serei. Jamais serei mais famosa do que agora‚ÄĚ.

***

‚ÄúEstou com o pressentimento de que voc√™ est√° caminhando para uma queda terr√≠vel.‚ÄĚ ¬†‚Ä®¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† ‚ÄĒO Apanhador no Campo de Centeio

Certa manh√£, Winona Ryder acordou ‚ÄĒ ela tinha uns¬†21 anos na √©poca ‚ÄĒ e se sentiu ‚Äúsens√≠vel demais para viver no mundo‚ÄĚ, ent√£o deu entrada em um hospital psiqui√°trico, onde passou uma semana. Ningu√©m falava com ela (a n√£o ser para medic√°-la). Mas, ao menos, ela come√ßou a fazer terapia. E abriu as portas para “Garota, Interrompida”.¬†‚ÄúQuando atuam como se fossem ‚Äėnormais‚Äô, fica a quest√£o: qual √© a diferen√ßa entre essa pessoa e eu? O que leva ainda a outra quest√£o: poderia ser eu no pin√©u‚ÄĚ, Susanna Kaysen escreveu acerca da pr√≥pria institucionaliza√ß√£o. Esse livro¬†era justamente o que o m√©dico havia receitado (ou deveria ter receitado) para Ryder, que lamentou n√£o saber dele na adolesc√™ncia. ‚ÄúPercebi que o que aconteceu comigo n√£o era incomum‚ÄĚ, ela contou √†¬†Vogue. ‚ÄúFoi tipo, ‚ÄėMeu Deus, tentei dizer isso a vida inteira e nunca consegui‚Äô.‚ÄĚ

A adapta√ß√£o do best-seller, publicado em 1993, demorou seis anos, e Winona interpretou um papel de 18 anos de idade aos 27. Kaysen conversou bastante com o diretor e co-roteirista James Mangold, mas s√≥ foi conhecer seu alter ego quando come√ßaram a filmar, em¬†1998 (30 anos ap√≥s os eventos descritos no livro). Ela foi at√© a Pensilv√Ęnia assistir a um dia de grava√ß√£o, e √† noite passou duas horas¬†com Ryder, que estava faminta e exausta. A autora achou que o encontro foi muito r√°pido para despir a estrela da fama. ‚ÄúN√£o me encontrei com uma pessoa, parecia mais um artefato‚ÄĚ, diz Kaysen. ‚ÄúAchei que n√£o passamos tempo o bastante juntas, n√£o consegui abstrair o fato de estar conhecendo algu√©m que n√£o era exatamente uma pessoa para mim.‚ÄĚ Entretanto, ela compreendeu que Ryder n√£o visava ‚Äúmimetizar‚ÄĚ o comportamento de Kaysen, mas atentar para a pr√≥pria experi√™ncia. ‚ÄúCreio que ela fez um excelente trabalho tentando entender como interpretar uma garota confusa e desesperada, e acho que √© porque ela havia passado por isso‚ÄĚ, disse Kaysen. ‚ÄúEla n√£o precisou conversar comigo para entender o papel.‚ÄĚ

[olho]‚ÄúPara n√≥s, Winona Ryder √© um √≠cone aut√™ntico‚ÄĚ[/olho]

“Garota, Interrompida” costuma ser o √ļltimo filme associado a Ryder. Tamb√©m √© o √ļltimo filme em que ela deu vida √† persona que a tornou famosa: obscura, inteligente, herm√©tica ‚ÄĒ persona pela qual foi celebrada na juventude, por√©m institucionalizada enquanto adulta. Apesar de j√° ter vivido sua fase de forma√ß√£o h√° bastante tempo, l√° estava ela de novo, nas telas, tentando descobrir onde se encaixava, e compreendendo que, na verdade, encaixava-se em lugar nenhum. Assim como Susanna e Holden, Ryder mais uma vez estava presa em um limbo, algo¬†que Mangold notou no set de filmagens. Ao observar sua inaptid√£o para tomar decis√Ķes, ele a chamou de ‚Äúambivalente‚ÄĚ, ao que ela respondeu: ‚Äúsou mesmo, n√£o sou?‚ÄĚ Ela sempre estava fora do lugar, tanto em cena quanto fora das telas, mas em 1999, quando o filme foi lan√ßado, todo mundo j√° tinha seguido em frente. E Mangold sabia disso. ‚ÄúPenso nela como uma atriz do cinema mudo‚ÄĚ, disse ele, ‚Äúe acho que ela √© uma raridade, talvez at√© um anacronismo, no cinema falado de hoje‚ÄĚ. No fim das contas, a sociopata de Angelina Jolie eclipsou Ryder e sua fala inicial prof√©tica: ‚Äúalguma vez, voc√™ j√° confundiu um sonho com a vida real e roubou qualquer coisa, mesmo com dinheiro no bolso?‚ÄĚ

***

‚Ä®Dois anos depois, a resposta foi ‚Äúsim‚ÄĚ. Dia 12 de dezembro de 2001, Ryder foi presa por furto na loja Saks, na Quinta Avenida, em Beverly Hills. Ela havia quebrado ambos os bra√ßos dois meses antes e estava sob o efeito de oxicodona. Depois do incidente, ela contou √†¬†Vogue¬†que andava ‚Äúesquisita‚ÄĚ e tomava o rem√©dio mesmo sem saber se ainda precisava. ‚ÄúVoc√™ j√° tomou analg√©sicos?‚ÄĚ, perguntou. ‚Äú√Č pura confus√£o.‚ÄĚ Ryder achava que as coisas estavam sob controle, visto que muitas pessoas cometiam furtos do tipo e se safavam. Ela chegou a esquecer o cart√£o de cr√©dito no balc√£o. ‚ÄúEla desligou. Foi isso que aconteceu‚ÄĚ, disse o pai. ‚ÄúEm vez de barr√°-la e simplesmente dizer, ‚Äėolha, voc√™ esqueceu de passar o cart√£o‚Äô, quando ela saiu da loja com mais de 5.500 d√≥lares em roupas e acess√≥rios, chamaram a pol√≠cia.” Detida no escrit√≥rio da loja, Ryder concordou em reembols√°-los. Mesmo assim, foi presa. ‚ÄúEu n√£o disse uma palavra‚ÄĚ, contou ela um tempo depois. ‚ÄúN√£o fiz nenhuma declara√ß√£o. N√£o fiz nada. S√≥ queria que aquilo tudo acabasse logo.‚ÄĚ Ela buscou ref√ļgio em S√£o Francisco, seu lar, e ‚Äúconscientemente‚ÄĚ optou por largar o trabalho. Um ano depois, em um julgamento coberto pela m√≠dia, ela foi condenada por furto e vandalismo a tr√™s anos de liberdade condicional e 480 horas de servi√ßos comunit√°rios. Tamb√©m foi multada e instru√≠da a fazer terapia.

Mesmo sem ‚Äúo incidente‚ÄĚ, o termo que¬†Ryder se refere ao epis√≥dio, Elaine Lui acredita que o decl√≠nio da carreira da atriz seria¬†inevit√°vel. E depois do lan√ßamento de “Alien: A Ressurrei√ß√£o”,¬†em 1997, ela mal conseguiu trabalho. ‚ÄúS√≥ me chamavam para interpretar¬†pap√©is tipo¬†policial novata!‚ÄĚ Ryder contou √†¬†Vogue. ‚ÄúE eu respondi, ‚ÄėN√£o tenho nada a ver com isso. N√£o vou fazer papel de pol√≠cia!‚Äô‚ÄĚ

Na √©poca do crime, ela tinha acabado de fazer 30 anos. ‚ÄúEra um momento em que eu estava tentando me entender. Estava tentando entender como levar a vida fora do trabalho e dos relacionamentos‚ÄĚ, disse ela. Ningu√©m deu a m√≠nima. Foi tr√™s meses depois do 11 de Setembro, e o mundo s√≥ tinha olhos para isso. ‚ÄúEla encapsulou todos os sentimentos daquele momento‚ÄĚ, diz Lui. ‚ÄúMas √© claro que uma celebridade n√£o faz a menor ideia de tudo de bom que tem em m√£os e precisa entrar numa loja e levar tudo embora.‚ÄĚ Ainda faltavam quatro anos para a¬†TMZ¬†nascer, mas o desenrolar minuto a minuto do julgamento de Ryder foi um estouro na internet.

***

Depois do caos, Winona Ryder se reergueu aos poucos, quase que impercept√≠vel (um papel sem gra√ßa em “A Heran√ßa de Mr. Deeds” aqui, uma ponta n√£o creditada como psic√≥loga em “Maldito Cora√ß√£o” acol√°). Ela recebeu mais aten√ß√£o por sua primeira grande campanha de moda, em partes porque era uma s√°tira de sua infra√ß√£o. O designer de moda Marc Jacobs, famoso por fazer mashups de cultura pop em suas pe√ßas, est√©tica que domina a internet, curtiu o look do julgamento e optou por ela como um dos rostos da campanha de primavera/ver√£o de 2003. ‚ÄúConvidei a Winona para participar da campanha porque ela estava lind√≠ssima nas fotos recentes‚ÄĚ, ele contou √†¬†Hello!, ‚Äúmesmo no tribunal‚ÄĚ. Os an√ļncios retratam uma Ryder hist√©rica, cercada de itens rec√©m-comprados, e um par de tesouras ao lado (uma mat√©ria relatou que ela havia cortado as etiquetas durante o incidente). Ryder figurou mais uma vez na campanha de outono/inverno de Jacobs, em um aparente revival de “Os Fantasmas se Divertem”, com uma franja escorrida e uma saia preta de tart√£ (o desfile de primavera de 2016 de Wes Gordon tamb√©m fez alus√£o ao filme, segundo a¬†Vogue, por meio de uma reprodu√ß√£o ‚Äúobscura e pantanosa‚ÄĚ do estilo de Lydia).

Em dezembro de 2015, Jacobs revelou que a primeira campanha de Ryder no mundo dos cosm√©ticos seria a cole√ß√£o de primavera de 2016 para a Marc Jacobs Beauty. Ele a anunciou no Instagram, ve√≠culo que, nas palavras da¬†New Yorker,¬†destaca a ‚Äúfotografia como uma arte eleg√≠aca e sombria, uma arte que acelera e falsifica a emo√ß√£o das fotos antigas ao eliminar o peso da hist√≥ria e aplicar, em dois segundinhos, uma textura de tempo.‚ÄĚ √Č a resposta da internet √† nostalgia do presente descrita por Fredric Jameson, em que pautamos as nossas vidas por filtros e molduras para compor¬†uma falsa vida digna de lembran√ßa. Na campanha de Jacobs, os olhos de Ryder foram delineados com uma pincelada monocrom√°tica, e ele escreveu: ‚Äúisto me lembra um dos meus filmes favoritos de todos os tempos: ‘O Ano Passado em Marienbad’. A eleg√Ęncia cool, indefect√≠vel, e o glamour atemporal da atriz Delphine Seyrig h√° tempos s√£o refer√™ncias para mim‚ÄĚ. A homenagem moderna de Alain Resnais √† era silenciosa apresenta Seyrig como uma Louise Brooks tardia, uma mem√≥ria que n√£o passa de um sonho, porque nada est√° muito claro ‚ÄĒ nem fato, nem fic√ß√£o; nem tempo, nem espa√ßo. Tudo isso √© t√£o fluido quanto as imagens que emergem na tela, t√£o fluido quanto o delineador que contorna os olhos de Ryder. Mas a fluidez de Seyrig n√£o √© como a de Ryder. Em 2014, Ryder figurou na campanha de outono/inverno da Rag & Bone, com um cabelinho bagun√ßado que lembra a √©poca de “Caindo na Real”. ‚ÄúPara n√≥s, Winona Ryder √© um √≠cone aut√™ntico‚ÄĚ, disse o designer Marcus Wainwright. ‚ÄúEla tamb√©m tem uma beleza atemporal.‚ÄĚ E √© essa atemporalidade que lhe confere valor ‚ÄĒ ela √© a personifica√ß√£o da nostalgia dos anos 90.

√Č imposs√≠vel pensar em Ryder sem pensar na era grunge. Na revista do¬†New York Times,¬†em 2011, Carl Wilson cantou a bola do ‚Äúciclo da ressurrei√ß√£o cultural de 20 em 20 anos‚ÄĚ, anunciando que finalmente havia chegado √† nostalgia da gera√ß√£o X. ‚ÄúEm termos mais suaves, a nostalgia √© a cola que refor√ßa os la√ßos da solidariedade e experi√™ncia compartilhada‚ÄĚ, escreveu. ‚ÄúE √© um lembrete de que n√£o nos importamos apenas com a cria√ß√£o de uma ideia ou imagem, mas tamb√©m com a data ‚ÄĒ as coisas ganham mais significado quando est√£o em sintonia e contraponto com outros eventos e conceitos da mesma era.‚ÄĚ Conforme Tavi Gevinson contou √†¬†Entertainment Weekly¬†em 2014, ‚Äúo que eu sinto quando vejo as fotos da Winona Ryder adolescente de m√£os dadas com Johnny Depp, eles de jaqueta de couro, nossa, n√£o tem nada igual‚ÄĚ. A √ļnica pessoa que chega perto disso √© a Winona Ryder de hoje, porque cravada na Winona Ryder de hoje est√° a Winona Ryder de outrora. Ela carrega o passado consigo. A atriz adolescente que tentou transformar a pr√≥pria vida em nostalgia, antes mesmo de chegar ao √°pice da carreira e se tornar a mulher que Marc Jacobs hoje enquadra em nostalgia. Ela √© uma matrioska de nostalgia. A imagem de Winona Ryder impacta mais do que suas √ļltimas atua√ß√Ķes ‚ÄĒ em “Dez Mandamentos Muito Loucos”, “The Last Word”, “E se o Amor Acontece…” ‚ÄĒ, e isso apazigua o desejo cr√īnico da nossa cultura por preservar o passado, em vez de aceitar o presente.

***

De volta a 1991, quando Ryder sequer havia completado 20 anos, a¬†Rolling Stone¬†a elogiou por selecionar ‚Äúpap√©is fortes para mulheres‚ÄĚ, coisa que muitas outras atrizes n√£o conseguiam fazer. ‚ÄúAinda n√£o passei por esse problema, porque ainda n√£o interpretei nenhuma mulher de fato‚ÄĚ, ela observou, perspicaz. Al√©m do c√Ęnone da ang√ļstia adolescente, Ryder enfrentou tantas intemp√©ries quanto todo mundo. Ano passado, um artigo da publica√ß√£o acad√™mica The Journal of Management Inquiry revelou que as celebridades femininas atingem um pico salarial aos 34 anos de idade. Para os homens, √© 51. ‚ÄúO semblante vivido dos homens √© visado pois transmite maturidade, car√°ter e sabedoria‚ÄĚ, dizia o artigo. ‚ÄúO rosto feminino, em contrapartida, √© valorizado pela sua juventude.‚ÄĚ Isso explica por que, aos 52 anos, Johnny Depp, antigo par de Winona Ryder, est√° no leme de uma franquia e ganha US$ 30 milh√Ķes por filme, enquanto todos os bens de Winona Ryder, 44, est√£o estimados em metade disso, e a m√≠dia lhe presenteia com migalhas de elogios por n√£o aparentar a idade que tem. ‚ÄúEle ainda √© um poss√≠vel candidato a Oscar, aos cinquenta e poucos, e ela provavelmente nunca mais vai concorrer, infelizmente‚ÄĚ, diz Shary, lembrando que o papel mais chamativo de Ryder nos √ļltimos anos foi de uma ‚Äúcoroa‚ÄĚ em “Cisne Negro”.¬†‚Äú√Č um sintoma da maneira como a ind√ļstria trata homens e mulheres.‚ÄĚ H√° quem culpe ‚Äúo incidente‚Äô, mas seu colega de profiss√£o Robert Downey Jr., nascido em 1969, j√° foi preso muito mais vezes que ela e hoje √© o ator mais bem pago do mundo (ah, e pouco tempo atr√°s, foi perdoado por uma senten√ßa de posse de drogas, de 1999). As mulheres n√£o podem cometer erros, que dir√° as mais velhas.

N√£o √© √† toa que¬†J.D.¬†Salinger, celebrado pela descri√ß√£o realista do inconformismo, quase sempre escrevia sobre ‚Äúpessoas bem jovens‚ÄĚ. Enquanto Johnny Depp lucra com os caprichos de pap√©is principais mais velhos ‚ÄĒ “Piratas do Caribe”, “Sweeney Todd”, “Alice no Pa√≠s das Maravilhas” ‚ÄĒ, Ryder fica para tr√°s. Mulheres n√£o podem errar, n√£o podem ser diferentes, e mulheres mais velhas em geral sequer s√£o toleradas. Cabem √†s mulheres mais velhas, conforme Ryder j√° √© classificada, os pap√©is de esposas (“O Homem de Gelo”, “Experimentos”), namoradas (“Homefront”) e m√£es (“Stranger Things“, nova s√©rie¬†do Netflix). Resta a Ryder se conformar com pap√©is coadjuvantes, fato que nos traz ainda mais saudade de Lydia Deetz, Veronica Sawye e Charlotte Flax. Conforme ela contou √†¬†Interview, ‚Äúvoc√™ se acostuma com certo rumo das coisas, at√© que, de repente, cresce‚ÄĚ.

Mas n√≥s n√£o nos lembramos dela adulta. ‚ÄúA verdadeira hero√≠na Ryder √© uma doce alma bamba, em transi√ß√£o rumo √† maturidade‚ÄĚ, escreveu Richard Corliss em um artigo de 1994 da revista¬†TIME, sobre a gera√ß√£o vigente de vinte e poucos anos, a ‚ÄúGera√ß√£o Winona‚ÄĚ. E embora ano passado a¬†Vogue tenha proclamado uma Winonascen√ßa, a pr√≥pria atriz reconheceu que era um resgate do passado, que as imagens do Instagram retratavam uma ‚Äúgarota fr√°gil de olhos grand√Ķes‚ÄĚ. ‚ÄúA nostalgia est√° agarrada √† nossa juventude, ao que curt√≠amos quando √©ramos novos, e tamb√©m √†s pessoas que viveram essa juventude conosco‚ÄĚ, Shary disse. ‚Äú√Č preciso ter uma mem√≥ria real da √©poca para sentir nostalgia. Daqui a uma ou duas gera√ß√Ķes, o que os pap√©is de Winona Ryder do fim dos anos 80 tinham de assertivos e acolhedores se dissipar√°.‚ÄĚ ¬†Nossa mem√≥ria de Winona Ryder √© uma jovem silenciosa, um rosto gentil, uma voz remota, uma atua√ß√£o paciente. Winona Ryder agora √© mais mordaz, com um rosto anguloso, voz penetrante e postura mais agressiva. ‚ÄúAssustados‚ÄĚ √© como Lui descreve os olhos que a tornaram c√©lebre. √Č como se, por n√£o conseguir mais pap√©is semelhantes a ela, ela estivesse encenando tudo. Recentemente, Ryder contou ao¬†Daily Beast¬†que, quando foi convocada para a s√©rie “Show Me a Hero”, da HBO, o criador David Simon alertou: ‚Äúmelhor n√£o mostrarmos esses olhos de Winona‚ÄĚ. Foi o oposto do que sua b√≠blia pregava: seja honesto, inocente, puro. Em resposta, Ryder ‚ÄĒ que jamais conseguiu ser falsa ‚ÄĒ cortou os c√≠lios. √Č praticamente imposs√≠vel n√£o compar√°-la com Sans√£o, o her√≥i b√≠blico cuja fonte de poder eram as madeixas. √Č como disse Holden: ‚Äúh√° coisas que deviam ficar do jeito que est√£o. A gente devia poder enfi√°-las num daqueles mostru√°rios enormes de vidro e deix√°-las em paz.‚ÄĚ


Publicado originalmente em Fevereiro de 2016 na Hazlitt. Republicado com autorização. Tradução por Stephanie Fernandes.

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Comportamento

Largar tudo e ir morar no mato

‚ÄúAno que vem eu quero estar na praia, vendendo minha arte… das coisas que a natureza d√° pra gente.‚ÄĚ Foi com essa resposta meio desconexa que uma jovem atriz disfar√ßada de atrasada do ENEM 2013 ganhou a simpatia dos internautas brasileiros e virou √≠cone de uma juventude, digamos, pouco ambiciosa. Mesmo desmascarada, a personagem Milena ainda aparece na foto de perfil da p√°gina ‚ÄúAjudar o povo de humanas a fazer mi√ßanga‚ÄĚ ‚ÄĒ criada pela curitibana Dominique Vargas, que trocou de faculdade sete vezes antes de descobrir que sabia fazer humor no Facebook.

Em 2012, Eric Barone morava em Seattle e tinha acabado de terminar o curso de Ci√™ncia da Computa√ß√£o quando se candidatou a algumas vagas de emprego. Ningu√©m telefonou. Desanimado com as press√Ķes da vida adulta, mas acolhido pela namorada e amigos ‚Äúbo√™mios‚ÄĚ, resolveu fazer sua pr√≥pria vers√£o do colar de mi√ßangas do povo de Humanas: um joguinho simples que serviria como exerc√≠cio de programa√ß√£o e nada mais. O passatempo acabou se transformando em quatro anos de autoex√≠lio de apartamento, busca pelo sentido da vida e, gra√ßas a uma rotina de trabalho de at√© 10 horas di√°rias, no maravilhoso jogo Stardew Valley. Lan√ßado em fevereiro de 2016, o RPG conquistou uma das comunidades mais empolgadas da hist√≥ria do indie e vendeu mais de 1 milh√£o de c√≥pias s√≥ nos dois primeiros meses.

Embora at√© o horroroso Farmville j√° tenha explorado a vida no campo, Stardew Valley √© uma criatura bem diferente. Com seu jeito amig√°vel, parece ter encontrado o terreno perfeito no cora√ß√£o de uma gera√ß√£o que conhece bem a insatisfa√ß√£o profissional e as perguntas que levam ao caminho da simplicidade. Seria Stardew o jogo terap√™utico feito sob encomenda para o novo mil√™nio? Para entender esse fen√īmeno, conversamos com seu criador, Eric Barone, com desenvolvedores brasileiros que acompanham a comunidade indie e com jovens que decidiram viver mais perto da natureza sem o aux√≠lio de computadores.

Mel√£o, trigo, flor.
Mel√£o, trigo, flor.

Um lugarzinho chamado nostalgia

O protagonista de Stardew Valley tem um privil√©gio que o pr√≥prio Eric Barone, os atrasados do ENEM e milh√Ķes de moradores do Brasil em crise n√£o tiveram: uma resposta f√°cil. Quem oferece a sa√≠da de emerg√™ncia √© o av√ī, numa carta planejada para um futuro em que o ‚Äúfardo da vida moderna‚ÄĚ se tornaria insuport√°vel. A praga ‚Äúdo bem‚ÄĚ se concretiza j√° na cena seguinte, quando encontramos o neto, agora adulto e deprimido, em um dos cub√≠culos de uma grande empresa chamada Joja Corporation. Entre seus colegas de escrit√≥rio est√° um cad√°ver em decomposi√ß√£o que ningu√©m recolheu da mesa de trabalho ‚ÄĒ uma simp√°tica gravura do capitalismo.

[olho]Entre seus colegas de escrit√≥rio est√° um cad√°ver em decomposi√ß√£o que ningu√©m recolheu da mesa de trabalho ‚ÄĒ uma simp√°tica gravura do capitalismo[/olho]

Na conveniente cartinha, nosso her√≥i ou hero√≠na descobre que herdou uma fazenda na cidade de Pelican Town, na regi√£o fict√≠cia que d√° nome ao jogo. E o remetente j√° avisa que essa hist√≥ria n√£o tem nada de original: ‚ÄúA mesma coisa aconteceu comigo muito tempo atr√°s. Tinha perdido de vista o que mais importa na vida‚Ķ conex√Ķes reais com as pessoas e com a natureza. Ent√£o larguei tudo e fui para o lugar a que eu realmente pertencia‚ÄĚ. De maneiras que talvez s√≥ a psican√°lise explique, Eric Barone tamb√©m parece ter buscado ref√ļgio no universo em que se sentia mais √† vontade: o exerc√≠cio que decidiu fazer naqueles dias de desemprego come√ßou como um clone capenga de um dos jogos de videogame que mais assombraram sua inf√Ęncia, o simulador de fazenda Harvest Moon.

Em uma conversa por e-mail e DMs pelo Twitter, em meio √† fama rec√©m-adquirida e √† falta de tempo, Eric conta que foi o gameplay ‚Äúsimples, dom√©stico e pac√≠fico‚ÄĚ que o atraiu no primeiro t√≠tulo da franquia, lan√ßado em 1996 para Super Nintendo. ‚ÄúA maioria dos RPGs leva o jogador a uma aventura grandiosa e cheia de perigos. Em compara√ß√£o, ‚ÄėHarvest Moon‚Äô era seguro e reconfortante‚ÄĚ, relembra. ‚ÄúE tem a ideia rom√Ęntica de que a vida no campo √© mais real, mais natural. Acho que uma parte de mim tamb√©m buscava isso.‚ÄĚ

Gente como a gente. Crédito: Arquivo pessoal
Gente como a gente. Crédito: Arquivo pessoal

√Č tudo t√£o familiar que n√£o d√° para saber onde as semelhan√ßas entre Stardew Valley e Harvest Moon¬†come√ßam e terminam. A sensa√ß√£o de perder tempo demais com uma atividade ing√™nua e constrangedora, mas estranhamente prazerosa, √© uma delas. Outra est√° nos ciclos da natureza que regem a planta√ß√£o de frutas e legumes, a cria√ß√£o de animais e o relacionamento com a comunidade. Cada dia prop√Ķe um espa√ßo aberto para que o jogador possa planejar seus objetivos como quiser, apenas aceitando que o fazendeiro, trabalhador que √©, dorme cedo e acorda com as galinhas. Cada m√™s equivale a uma das quatro esta√ß√Ķes do ano e traz sementes exclusivas, comemora√ß√Ķes sazonais e oportunidades imperd√≠veis de fazer neg√≥cio. Por mais idealista que seja, o personagem precisa vender o que produz para sobreviver (ou para ficar rico, mesmo, nada contra).

[olho]Para a gera√ß√£o que cresceu com SNES e Mega Drive, o jogo √© a pr√≥pria carta do vov√ī, mas seu presente √© o agrad√°vel ref√ļgio da nostalgia[/olho]

Parece natural, tamb√©m, que as fitas do passado tenham influenciado diretamente a est√©tica da homenagem. Os gr√°ficos de Stardew Valley ‚ÄĒ que Eric refez v√°rias vezes enquanto suas t√©cnicas evolu√≠am ao longo do tempo ‚ÄĒ trazem o que a era 16-bit tinha de mais vistoso. S√£o cores vivas, folhas pequeninas voando com o vento e seres humanos com um rostinho que voc√™ n√£o enxerga direito, mas simpatiza¬†bastante. Para a gera√ß√£o que cresceu com SNES e Mega Drive, o jogo √© a pr√≥pria carta do vov√ī, mas seu presente √© o agrad√°vel ref√ļgio da nostalgia.

Quem acompanhou o trabalho dos desenvolvedores independentes nos √ļltimos anos sabe que o ‚Äúretr√ī‚ÄĚ n√£o √© uma escolha t√£o incomum: j√° tinha acontecido em sucessos como FEZ, Braid e Terraria, para citar s√≥ alguns. Eric explica que a op√ß√£o vai al√©m do impacto emocional: ‚ÄúEnquanto a gente envelhece e as novas gera√ß√Ķes chegam aos 20¬†anos, o per√≠odo que chamamos de ‚Äėretr√ī‚Äô tamb√©m vai mudando. Mas tem uma coisa: alguns estilos de arte envelhecem melhor que outros. Gr√°ficos em pixel art 2D, por exemplo, ainda t√™m uma cara √≥tima para os jovens de hoje, mas os gr√°ficos 3D da era do Playstation 1 ficaram horr√≠veis‚ÄĚ.

Thais Weiller, pesquisadora e game designer que fez parte da equipe dos jogos nacionais Oniken e Odallus, ambos com gr√°ficos 8-bit, v√™ a tend√™ncia tamb√©m como um caminho necess√°rio para que equipes indie sobrevivam. ‚ÄúUm jogo em pixel art, apesar de ser muito trabalhoso, pode ser feito por uma ou poucas pessoas, como o pr√≥prio Stardew Valley. Um jogo 3D ou com pintura digital j√° envolve mais horas de trabalho e diferentes habilidades, o que torna tudo mais dif√≠cil para uma equipe pequena.‚ÄĚ

As coisas que a natureza d√°

Em Pelican Town, o primeiro contato com a planta√ß√£o tende a ser modesto e at√© desastroso: o jogador mais descuidado corre o risco de demorar para entender algumas das mec√Ęnicas, j√° que n√£o h√° nada parecido com um tutorial. Conversar com os moradores da vizinhan√ßa pela primeira vez n√£o √© l√° grande coisa, embora o personagem possa, se cultivar uma paix√£o com muito esfor√ßo, casar e ter filhos. Pescar tamb√©m n√£o relaxa ningu√©m ‚ÄĒ o minigame dif√≠cil rendeu muita reclama√ß√£o. Nas minas, o her√≥i, munido de espadinha e picareta, pode tanto encontrar tesouros e riquezas quanto sucumbir ao ataque de insetos e morcegos. Muitas dessas experi√™ncias meio truncadas, meio vida real, s√≥ come√ßam a fazer sentido com a pr√°tica e mostram a intelig√™ncia do design do jogo.

Pescando ilus√Ķes.
Pescando ilus√Ķes.

Chamar o protagonista de Stardew Valley de ‚Äúfazendeiro‚ÄĚ, na verdade, n√£o faz jus a seus talentos. Com os ingredientes que se multiplicam j√° nas primeiras esta√ß√Ķes, nasce um artes√£o. N√£o basta plantar, regar (√† exaust√£o) e colher. Uva e morango v√£o para os potes de geleia, rabanete e berinjela fazem √≥timos picles, leite fresco se transforma em queijo, ovos em maionese ‚ÄĒ itens que o menu chama de ‚ÄúArtisan Goods‚ÄĚ. Peixes, vegetais, farinha e a√ß√ļcar tamb√©m se misturam em receitas na cozinha da casa ‚ÄĒ s√≥ n√£o vale carne: Eric √© vegetariano e disse n√£o se sentir √† vontade com o abate dos animaizinhos. Com recursos como madeira, pedra e fibra, √© poss√≠vel fazer an√©is, espantalhos e objetos de decora√ß√£o. Encontrando diferentes minerais, o personagem se torna um colecionador exc√™ntrico e colaborador frequente do museu da cidade.

A variedade impressionante de flores, frutos e surpresas que Eric Barone criou, sozinho em casa, faz com que ele tamb√©m ganhe ares de colecionador ou artes√£o. ‚ÄúD√° pra ver o quanto cada coisinha foi feita com carinho‚ÄĚ, diz Thiago ‚ÄúBeto‚ÄĚ Alves, game designer da produtora Black River Studios.

H√° objetivos maiores que organizam o invent√°rio e guiam as conquistas. Um deles √© a reconstru√ß√£o do Community Center, um espa√ßo comunit√°rio que promete trazer uma vida melhor √† pequena popula√ß√£o. Mas nem o amor ao pr√≥ximo √© obrigat√≥rio: no come√ßo da hist√≥ria, o jogador mais incoerente tem op√ß√£o de entregar o casar√£o abandonado √† mesma Joja Corporation que o fazia infeliz. J√° os festivais e comemora√ß√Ķes, inspirados em datas como Natal e Dia das Bruxas, se espalham pelo calend√°rio e levam a comunidade √†s ruas, √†s vezes para fazer nada em conjunto, como na ap√°tica ‚ÄúFlower Dance‚ÄĚ. Na ‚ÄúStardew Valley Fair‚ÄĚ, feira em que produtores locais exp√Ķem sua produ√ß√£o, d√° vontade sincera de mostrar o melhor da fazendinha aos visitantes.

[olho]Eric Barone diz ser um defensor dessa fuga controlada que os videogames oferecem[/olho]

Como acontece em aventuras pouco lineares, que deixam o destino √† sua escolha e costumam durar mais, Stardew Valley tem muita chance de inaugurar um per√≠odo de isolamento, o famoso ‚Äúadeus, vida social!‚ÄĚ. Na vers√£o atual, a narrativa principal chega ao fim no come√ßo do terceiro ano de tempo do jogo, mas h√° registros de jogadores que investiram mais de 400 horas de vida real. Beto conta, rindo, que completou 66 horas em dez dias. Na √ļltima vez que chequei, eu estava com 55 horas de jogo.

Entre gamers um pouco compulsivos, parece haver um acordo silencioso: o exagero est√° permitido quando, no fundo, se entregar a uma jornada como a de Stardew Valley tamb√©m √© um jeito de realizar o sonho de ‚Äúlargar tudo e ir morar no mato‚ÄĚ sem sair do conforto da cidade. Eric Barone diz ser um defensor dessa fuga controlada que os videogames oferecem: ‚ÄúComo jogador, gosto muito de jogos imersivos que me tirem da rotina. N√£o √© que eu esteja tentando evitar minhas responsabilidades, mas gosto de tirar uma folga da consci√™ncia normal‚ÄĚ.

Selfie nas profundezas da mina.
Selfie nas profundezas da mina.

Menos sarcasmo, mais carinho

Stardew Valley tem a seu favor o charme do passado e as armadilhas do v√≠cio, mas esses n√£o s√£o os √ļnicos motivos por tr√°s de seu sucesso instant√Ęneo. Na opini√£o do game designer Beto Alves, a proximidade entre criador e p√ļblico √© uma das vantagens da cena independente. Pela internet ‚ÄĒ que ironicamente n√£o existe em Pelican Town, um lugarejo movido a papel de carta e TV de tubo ‚ÄĒ, Eric Barone conseguiu se manter muito pr√≥ximo dos futuros f√£s. Na fase de desenvolvimento, recheou o blog oficial com novidades redigidas sem cerim√īnia e seu perfil no Reddit com anedotas e respostas amistosas √†s perguntas de an√īnimos. Como se n√£o bastasse, Eric tem usado o Twitter para divulgar novidades, fazer enquetes sobre novos conte√ļdos e at√© ajudar jogadores com bugs ou arquivos danificados.

Wizard ‚úď
Wizard ‚úď

Toda essa generosidade despertou uma rea√ß√£o igualmente generosa na comunidade virtual. Tamb√©m no Reddit, f√£s chegaram a enviar c√≥pias originais para usu√°rios com menos recursos financeiros ou uma vers√£o falsificada no HD, numa corrente de √≥dio √† pirataria e amor ao desenvolvedor. Em poucos meses, a p√°gina no Steam ‚ÄĒ que tamb√©m vende a √≥tima trilha sonora, feita adivinha por quem? ‚ÄĒ registrou mais de 18¬†mil¬†resenhas positivas, enquanto os votos negativos n√£o passam de 400.

Voltando √† fic√ß√£o, alguns dos personagens de Pelican Town falam de forma t√£o gentil, t√£o direta, t√£o despida do humor ir√īnico da internet que parecem um pouco anestesiados, meio fora do ar. Seria heran√ßa da Nintendo ou apenas um jeito econ√īmico de escrever? ‚ÄúFoi uma escolha consciente. Acho que meu jeito acabou aparecendo”, diz Eric. E aproveita para alfinetar: ‚ÄúNa vida real, n√£o sou muito f√£ de sarcasmo e piadas internas. Acho que geralmente s√£o uma forma de diminuir os outros‚ÄĚ.

Essa abordagem t√£o pessoal ainda √© rara mesmo na cena indie, opina Beto. ‚ÄúHoje h√° uma receptividade maior para esse tipo de jogo. Vejo isso pelo impacto que ‚ÄėFirewatch‚Äô, ‚ÄėHer Story‚Äô, ‚ÄėLife is Strange‚Äô, por exemplo, tiveram. Na minha opini√£o todos eles atingem, cada um √† sua maneira particular, quest√Ķes sens√≠veis aos jogadores e, por isso, geram um engajamento muito grande.‚ÄĚ

Cenas quentes.
Cenas quentes.

H√° estere√≥tipos, como o adolescente atl√©tico, o m√©dico hipocondr√≠aco e a m√£e preocupada, que aparecem em Stardew Valley para tentar driblar as expectativas do jogador, revelando aos poucos uma personalidade mais rica. Imperfeitos, Pam e Linus mostram elementos sombrios que ajudam a equilibrar o clima alegre da cidade. Ela, que mora num trailer e trabalha como motorista de √īnibus, √© uma mulher de meia-idade com problemas com o alcoolismo. Ele, que vive em uma barraca de acampamento ‚ÄĒ √ļnico ambiente privado da cidade em que o protagonista consegue entrar a qualquer momento ‚ÄĒ e √†s vezes vasculha o lixo dos vizinhos, um dia revela o inesperado: ‚ÄúO ar l√≠mpido do campo √© tudo que preciso conhecer. Vivo aqui porque escolhi‚ÄĚ.

[olho]‚ÄúO ar l√≠mpido do campo √© tudo que preciso conhecer. Vivo aqui porque escolhi‚ÄĚ[/olho]

Ao contr√°rio do que os mais humanit√°rios pensariam, Eric Barone apoia as decis√Ķes de Linus: ‚ÄúEle est√° feliz de verdade com a vida que tem. √Č um lembrete para que a gente n√£o tire conclus√Ķes sobre as pessoas antes de tentar entender de onde vieram‚ÄĚ. Diante desse conflito, o desafio do jogador √© n√£o se sentir c√ļmplice do inimigo, a pr√≥pria Joja Corp: se o protagonista tem tanta terra, por que n√£o divide um pouco com o novo amigo que passa frio em sua tenda no inverno rigoroso ‚ÄĒ vestindo apenas um traje amarelo de homem das cavernas sem cal√ßas por baixo?

Linus, me ajude a te ajudar.
Linus, me ajude a te ajudar.

Viver de amor e geleia caseira

At√© o come√ßo de 2016, Eric Barone era um desenvolvedor com um curr√≠culo vazio que n√£o se imaginava vivendo o dia a dia de um escrit√≥rio ou trabalhando em equipe ‚ÄĒ comportamentos que, para muitos, ainda est√£o ligados a uma carreira s√≥lida. Em seu perfil no Reddit, ele conta que o momento ‚Äúfundo do po√ßo‚ÄĚ veio mais ou menos um ano antes do lan√ßamento de Stardew: em uma reuni√£o de fam√≠lia, sua av√≥ comentou que n√£o acreditava mais que o neto um dia terminaria aquele tal joguinho de videogame.

Hoje, Eric e sua produtora de um homem s√≥, a ConcernedApe, t√™m propostas de trabalho e projetos para o futuro. ‚ÄúEncontrei meu ‚Äėemprego dos sonhos‚Äô, com certeza. Sei que sou muito privilegiado por estar nessa posi√ß√£o e que isso √© imposs√≠vel para muita gente. A verdade cruel √© que sempre ser√° necess√°rio que existam pessoas fazendo o pior trabalho para que o mundo continue girando‚ÄĚ, pondera.

[olho]”A verdade cruel √© que sempre ser√° necess√°rio que existam pessoas fazendo o pior trabalho para que o mundo continue girando‚ÄĚ[/olho]

Eric conta que a narrativa de Stardew Valley, al√©m da √≥bvia inspira√ß√£o em ‚ÄúHarvest Moon‚ÄĚ, surgiu quando notou em si mesmo e nos amigos uma dificuldade de lidar com o ‚Äúvazio da vida moderna‚ÄĚ. Ele n√£o costuma enumerar os elementos que comp√Ķem esse vazio, talvez intuindo que o p√ļblico j√° o conhe√ßa bem. ‚ÄúAcho que √© uma hist√≥ria com que muitas pessoas podem se identificar‚ÄĚ, diz. Thiago ‚ÄúBeto‚ÄĚ Alves concorda que essa √© uma das qualidades do jogo: ‚Äú√Č um momento bem apropriado, em que muitas pessoas est√£o buscando a fuga da rotina ca√≥tica. Eu mesmo j√° pensei em largar tudo e viver no mato, mas ainda tenho coisas que gostaria de fazer. Ainda n√£o √© o momento (risos)‚ÄĚ.

A ideia de um estilo de vida mais consciente ou menos sujeito ao vazio a que Eric se refere parece guiar muitos dos jovens nascidos entre 1970 e 1990. O emprego est√°vel, t√£o importante para outras gera√ß√Ķes, n√£o tem mais o mesmo apelo. No lugar do fast food, do fast fashion e do carro do ano, ressurgem a bicicleta, o consumo sustent√°vel e um jeito mais cuidadoso de tratar a comida. Escolhas a que alguns atribuem o termo ‚Äúhipster‚ÄĚ s√£o, para outros, experi√™ncias de pertencimento e cidadania.

Apetitosos e lucrativos ‚ÄĚArtisan Goods‚ÄĚ.
Apetitosos e lucrativos ‚ÄĚArtisan Goods‚ÄĚ.

No Brasil, se a crise aumentou o desemprego, tamb√©m pode ter encorajado o esp√≠rito empreendedor de quem tem condi√ß√Ķes m√≠nimas para abrir o pr√≥prio neg√≥cio. Com o maior¬†interesse na alimenta√ß√£o saud√°vel, o setor dos org√Ęnicos vem crescendo h√° alguns anos. Nesse cen√°rio, o fasc√≠nio por ideias¬†‚Äúmenos urbanas‚ÄĚ parece ganhar espa√ßo.

Caio Tavares queria encontrar uma vida ‚Äúmais conectada √† natureza‚ÄĚ quando saiu de S√£o Paulo, onde trabalhava com planejamento em ag√™ncias de publicidade, para morar na Chapada Diamantina. ‚ÄúDurante um per√≠odo de descontentamento com minhas escolhas profissionais, esbarrei em uma coisa chamada permacultura. Isso mudou minha forma de olhar e pensar o mundo‚ÄĚ, explica. Hoje, numa esp√©cie de Stardew Valley realista, Caio se dedica ao cultivo de alimentos, mas diz buscar um meio-termo para seguir a transi√ß√£o do urbano para o rural.

[olho]Nesse cen√°rio, interesses ‚Äúmenos urbanos‚ÄĚ parecem ganhar espa√ßo[/olho]

Em sintonia acidental com Eric Barone, Caio ‚ÄĒ que desativou seu perfil no Facebook h√° poucos dias ‚ÄĒ se refere ao cotidiano nas grandes cidades e sua ‚Äúl√≥gica do capital‚ÄĚ como ‚Äúa m√°quina de amassar gente‚ÄĚ. Para ele, a vontade de fugir da m√°quina n√£o aumentou, as ferramentas √© que evolu√≠ram. ‚ÄúO que vejo, sim, √© uma busca por alternativas, mesmo que nos ambientes urbanos. Composteiras e minhoc√°rios de apartamento, por exemplo, t√™m gerado discuss√Ķes nos papos de bar.‚ÄĚ E completa: ‚ÄúO √™xodo urbano √© a onda‚ÄĚ.

Para quem n√£o pode viver integralmente esse novo fugere urbem, uma das alternativas √© levar um pouco da ideia de natureza para casa ‚ÄĒ seja em forma de samambaia, compota, bordado ou roupa produzida de forma artesanal. Em S√£o Paulo, a Jardim Secreto Fair re√ļne pequenos produtores e suas cria√ß√Ķes em ‚Äújardins escondidos‚ÄĚ por v√°rios bairros. Em tr√™s anos e 12¬†edi√ß√Ķes, os 15 expositores do come√ßo se multiplicaram: hoje s√£o 120. No in√≠cio circulavam pelo evento 300 pessoas, na √ļltima edi√ß√£o foram 5 mil.

Compras e divers√£o em Pelican Town.
Compras e divers√£o em Pelican Town.

Criadoras do projeto, as amigas Claudia Kievel e Gladys Tchoport veem um ‚Äúlance de consci√™ncia coletiva‚ÄĚ na busca que une expositores ‚ÄĒ que t√™m de 18 a 50 anos ‚ÄĒ e visitantes ‚ÄĒ de 25 a 40. E uma mudan√ßa de comportamento na crise: ‚ÄúAs pessoas est√£o n√£o s√≥ dando mais valor a quem faz com cuidado, mas tamb√©m est√£o percebendo que produzir suas pr√≥prias coisas faz muito mais sentido. Comprar do pequeno produtor funciona melhor‚ÄĚ, conta Claudia.

Como acontece na ‚ÄúStardew Valley Fair‚ÄĚ da fic√ß√£o, a insatisfa√ß√£o com os empregos tradicionais motivou muitos dos artes√£os que participam da feira paulistana. ‚ÄúA maioria dos expositores tinha trabalhos tradicionais e resolveu mudar. Alguns ainda t√™m e levam os dois caminhos juntos. Quem tem medo de abandonar a vida segura em um emprego acaba levando como hobby‚ÄĚ, explica Gladys.

‘Achievements’ da realidade

Enquanto o trabalho de escrit√≥rio e o sucesso profissional ficam cada vez mais impopulares, o buzz em torno de Stardew Valley mostra que ainda h√° espa√ßo para jogos de videogame que convidam o jogador a, vejam voc√™s, trabalhar por horas a fio. Nas √ļltimas d√©cadas, quem aprecia o¬†g√™nero talvez j√° tenha acumulado experi√™ncia na administra√ß√£o de cidades, zool√≥gicos, hospitais, pris√Ķes e restaurantes. Mas ser√° poss√≠vel que o ser humano possa gostar mais de trabalhar de mentira do que quando h√° dinheiro real envolvido? O que fizemos com nossas vidas?

Um dia normal na Joja Corporation.
Um dia normal na Joja Corporation.

A pesquisadora Thais Weiller tem uma explica√ß√£o: ‚ÄúO ‚Äėtrabalho‚Äô do jogo √© uma experi√™ncia que foi feita para ser prazerosa. Tem dura√ß√£o certa, com intervalos para feedbacks e bonifica√ß√Ķes. Se toda atividade laboral tivesse um pouco mais desse cuidado, com certeza o trabalho ‚Äėreal‚Äô poderia ser bem mais divertido‚ÄĚ. Eric Barone concorda, observando que as pessoas gostam de trabalhar quando h√° ‚Äúprop√≥sito real‚ÄĚ naquilo que fazem, n√£o quando se sentem presas a fun√ß√Ķes ‚Äúchatas e repetitivas‚ÄĚ.

Em busca de prop√≥sito e prazer, uns voltam para o campo, outros para o campo pixelado do videogame da inf√Ęncia ‚ÄĒ e o que poderia ser ‚Äúegotrip‚ÄĚ improdutiva ganha mais sentido quando alcan√ßa o outro. Quem se dedica a Stardew Valley na solid√£o no computador compartilha o esp√≠rito do tempo, as boas inten√ß√Ķes e a m√° postura com Eric Barone. Em resposta a uma pergunta meio c√≠nica sobre seus sentimentos naqueles quatro anos em que aperfei√ßoava o jogo, ele resume seu objetivo ao mesmo tempo humild√£o e ambicioso: ‚ÄúTrazer mais alegria para o mundo‚ÄĚ.

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A política dos trenzinhos

A poucos dias da votação parlamentar do processo de impeachment da presidente Dilma Roussef, o Movimento Brasil Livre (MBL) anunciou que levaria o trenzinho Carreta Furacão para uma manifestação neste domingo, 17 de abril, na avenida Paulista, em São Paulo. Em uma só cartada a organização pretende mobilizar mais apoiadores para sua causa sem deixar escapar o bom humor inerente aos jovens dançarinos com fantasias mal-ajambradas. Quem prefere o Capitão América rebolando aos discursos do grupo político teve, então, de se indagar: seguir em frente ou olhar para o lado?

Propriet√°ria da Dominium, a empresa por tr√°s do mais famoso dos trenzinhos, Fabiana Cardoni se limitou a dizer que o Carreta Furac√£o estar√° na avenida Paulista nesse domingo. “J√° fechamos contrato”, disse ela, ap√≥s cinco tentativas de contato. Ela n√£o deu mais informa√ß√Ķes sobre o caso ao ser questionada a respeito dos contratantes para essa ocasi√£o ou quanto a presen√ßa do Fof√£o ‚ÄĒ a participa√ß√£o de um dos personagens mais queridos dos trenzinhos teria sido vetada pelo seu criador.

Uma esp√©cie de casamento entre fen√īmeno da internet e um estridente grupo pol√≠tico¬†parece bizarro √† primeira vista, mas isso √© uma impress√£o superficial. O MBL √© uma das organiza√ß√Ķes mais articuladas em prol do impeachment da presidente Dilma Roussef, realizando manifesta√ß√Ķes em todo o Brasil h√° pelo menos um ano. E os trenzinhos, como mostramos aqui no Risca Faca, comp√Ķem um fen√īmeno cultural do interior do Brasil de caracter√≠sticas e nuances pr√≥prias ‚ÄĒ especialmente em Ribeir√£o Preto. O mundo da pol√≠tica e o mundo dos trenzinhos est√£o mais pr√≥ximos do que podemos¬†imaginar.

[olho]”A gente faz muita festa universit√°ria, comitiva. Impeachment da Dilma a gente tamb√©m faz muito”[/olho]

“A gente j√° fez muito protesto, a gente sempre procura ajudar”, diz Danilo Gabriel. Ele e o irm√£o Daniel Cirilo s√£o donos¬†da Trenzinho dos G√™meos, apenas uma dentre cerca de vinte empresas que fazem girar o mercado de divers√£o de Ribeir√£o Preto. Assim como a concorr√™ncia, os irm√£os trabalham segundo a demanda. Fazem festas de anivers√°rio, comitivas de rodeio, festas universit√°rias e, por que n√£o, eventos pol√≠ticos. “A gente trabalha muito com vereador”, diz ele. “Em √©poca de elei√ß√£o o pessoal pega bastante.¬†Tem muita doa√ß√£o pra bairros carentes.”

Uma das participa√ß√Ķes do Trio Sensa√ß√£o em um protesto contra o governo. Cr√©dito: Divulga√ß√£o
Uma das participa√ß√Ķes do Trio Sensa√ß√£o em um protesto contra o governo. Cr√©dito: Divulga√ß√£o

Propriet√°rio dos trenzinhos Sensa√ß√£o e Barulh√£o, Adriano Mancilha tem trabalhado mais devido aos recentes acontecimentos pol√≠ticos. “A gente faz qualquer tipo de evento”, diz ele. “A gente faz muita festa universit√°ria, comitiva. Impeachment da Dilma a gente tamb√©m faz muito.” Por tr√™s ocasi√Ķes o show de cores e luzes dos seus trenzinhos deu lugar a faixas com dizeres contr√°rios ao governo federal ou placas de grupos de oposi√ß√£o como o “Vem Pra Rua”. Os dan√ßarinos compareceram em toda e¬†qualquer ocasi√£o. “Eles est√£o em todas, mas nas pol√≠ticas eles v√£o sem se vestir”, afirma Adriano.

[olho]”Os dan√ßarinos est√£o em todas, mas nas pol√≠ticas eles v√£o sem se vestir”[/olho]

Assim como seus concorrentes g√™meos, ele n√£o especifica os contratantes dos eventos pol√≠ticos. Quando questionado, mastiga algumas palavras. “Partido, promotor, tem muita gente envolvida”, afirma ele. Advogados e empres√°rios tamb√©m entram nessa lista, mas os contratos s√£o firmados por terceiros na v√©spera das manifesta√ß√Ķes. Por isso Adriano ainda tem esperan√ßa de que v√° trabalhar durante o final de semana que marcar√° mais um epis√≥dio da hist√≥ria recente. “O pessoal contrata em cima da hora”, diz ele. “Se for ter [algum evento] a gente vai ficar sabendo entre hoje e amanh√£.”

O poder p√ļblico √© uma sa√≠da vi√°vel para contratar trenzinhos, especialmente para a popula√ß√£o carente. “Como n√£o tem dinheiro, eles v√£o na c√Ęmara municipal e pedem ajuda para os vereadores”. Tamb√©m n√£o √© raro que prefeituras contratem as equipes para animar eventos p√ļblicos. O Carreta Furac√£o, por exemplo, participa de eventos em outras cidades com certa frequ√™ncia. Wellington Cardoni me contou, no ano passado, que certa vez o grupo se apresentou em Betim, Minas Gerais, a mais de 500 quil√īmetros de Ribeir√£o Preto. “A gente faz eventos bacanas com prefeituras, com estrutura.”

Naquele ano, a Associa√ß√£o dos Trenzinhos de Ribeir√£o Preto mostrava que pol√≠tica n√£o √© um assunto estranho dentro desse mercado. O grupo liderou os debates para uma lei para a categoria que regesse, entre outros itens, a circula√ß√£o mediante cadastro oficial e a m√ļsica dos ve√≠culos. L√≠der do poder p√ļblico na discuss√£o, a vereadora do Gl√°ucia Berenice (PSDB) lembra que houve at√© uma carreata de trenzinhos at√© a sede legislativa da cidade.

[olho]”A internet mais ajudou que prejudicou: com ela veio o auge”[/olho]

A essa √©poca o grupo j√° dava sinal de fraqueza devido a disputas internas. Sem saber dessa situa√ß√£o nem tampouco da sua oposi√ß√£o, a internet continuou seu servi√ßo de manter a cultura circulando enquanto meme. O site da Associa√ß√£o n√£o est√° mais no ar, mas n√£o faltam v√≠deos e imagens de garotos fantasiados correndo pelo YouTube, Facebook e Whatsapp. “Com isso come√ßou a ter mais trenzinhos em Ribeir√£o Preto e as m√ļsicas evolu√≠ram tamb√©m, porque antes era m√ļsica de crian√ßa, mas agora tem que ter funk”, diz Danilo, do Trenzinho dos G√™meos. “A internet mais ajudou que prejudicou: com ela veio o auge.”

Enquanto a popularidade n√£o cai como o Popeye trombando em um ciclista, os trenzinhos aproveitam. Danilo quer aumentar a frota com pelo menos mais duas carretas para esse ano. Dono dos trenzinhos Sensa√ß√£o e Barulh√£o, Adriano Mancilha afirma que o sucesso na internet n√£o trouxe mudan√ßa na sua rotina de trabalho. “A molecada comenta mais agora, n√©”, diz ele. O Carreta Furac√£o ainda est√° tateando a segunda onda de sucesso seis anos depois da primeira explos√£o na internet. Procurada diversas vezes, Fabiana Cardoni conversou com o Risca Faca delegando a maior parte das perguntas √† assessoria de imprensa.

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Praise the Lord!

 

‚ÄúPraise the Lord!‚ÄĚ, pede o pastor.

‚ÄúHallelujah!‚ÄĚ

‚ÄúPraise the Lord!‚ÄĚ, ele pede mais uma vez.

‚ÄúHallellujah!‚ÄĚ, cem pessoas respondem com mais for√ßa.

‚ÄúPraise the Lord!‚ÄĚ, comanda Fabian Nwezay, mais intenso, em um terceiro pedido que quase estoura as quatro caixas de som do sal√£o.

‚ÄúHallellujah!‚ÄĚ, dizem todos os presentes, alto, forte e com f√©, na manh√£ de um domingo qualquer de ver√£o ‚Äď no centro de S√£o Paulo.

S√£o 10h43. A missa √© em ingl√™s. Os fi√©is s√£o quase todos imigrantes africanos, na maioria nigerianos. V√°rias cadeiras est√£o vazias na primeira parte da cerim√īnia da igreja pentecostal Assembleia Crist√£ Dia de Primavera, na rua Guaianases, ao lado da Pra√ßa Princesa Isabel. H√° cerca de 50 pessoas em p√© dan√ßando no sal√£o.

Todos v√™m bem-vestidos, muitos com o que os antigos chamariam de roupa de domingo. Alguns poucos vestem aquelas batas e t√ļnicas bem coloridas, que poder√≠amos chamar de roupa-de-africano-do-centro.

Uma m√ļsica alegre, solar e ritmada embala a todos. √Č um hino de louvor a Deus, cheio de aleluias e Jesus Christs, comandado por um casal de vocalistas, bateria, duas percuss√Ķes, teclado e baixo. A m√ļsica sempre foi usada para estabelecer alguma conex√£o com o divino, mas aqui parece que o ritmo √© t√£o¬†importante quanto a f√©. Poderia ser uma festa √©tnica n√£o fossem termos religiosos presentes na m√ļsica.

A pessoa que parece ter menos coordena√ß√£o √© o pastor Jair Santos, o √ļnico brasileiro vis√≠vel at√© o momento. Est√° no palco √† esquerda do p√ļlpito e em seguida vai dar in√≠cio √† cerim√īnia. √Č branco para os padr√Ķes brasileiros, mas talvez um barbeiro racista no sul dos Estados Unidos se recusaria a fazer sua barba.

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O pastor Fabian Nwezay, da da igreja pentecostal Assembleia Cristã Dia de Primavera. Crédito: Gabriela Di Bella
O pastor Fabian Nwezay, da da igreja pentecostal Assembleia Cristã Dia de Primavera. Crédito: Gabriela Di Bella

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As bandeiras da Nigéria, de Israel e do Brasil decoram o fundo do palco. O pastor Fabian, de terno e gravata, também dança, embora de modo mais contido. Elegante, veste um terno cinza chumbo, camisa verde e branca com listras verticais. A gravata alterna verde escuro e preto em listras grossas inclinadas em diagonal. No pulso, um relógio grande prata, algo comum em muitos outros pulsos masculinos do salão.

A m√ļsica dirige a todos, o ritmo cresce, as pessoas dan√ßam ao ritmo da percuss√£o. O som, forte, sai um pouco distorcido pelas caixas de som. O esp√≠rito √© de alegria, uma maneira de existir religiosamente bem menos s√≥bria dos que os cultos aos quais os brasileiros est√£o acostumados. Depois de quase cinquenta minutos de m√ļsica, o pastor, j√° no palco, posiciona-se em frente ao p√ļlpito. Come√ßa a missa bil√≠ngue.

O pastor pede que todos se sentem mais a frente. J√° s√£o setenta homens ‚Äď s√≥ cinco mulheres. Na busca do El Dorado brasileiro, s√£o os homens que partem primeiro do continente africano.

Todos sentam.

J√° s√£o 11h20. Ap√≥s poucas palavras de Fabian, quem abre a cerim√īnia √© Jair. Do p√ļlpito, fala em portugu√™s, que em seguida √© traduzido para o ingl√™s. Ele conclama os presentes a darem seu testemunho. Cinco pessoas chegam √† fila para dar o depoimento. N√£o sobem ao palco, ficam na mesma altura dos presentes.

Uma delas, ao microfone, diz em primeiro lugar aleluia. Veste cal√ßa branca, cinto vermelho, camisa preta estampada com bolinhas brancas e cavalos de corrida, al√©m de um rel√≥gio grande no pulso. √ďculos de aros grossos, cabelos bem curtos com uma forte entrada na testa, embora n√£o aparente ter mais de 30 anos. Como quase todos tem a barba feita e um pequeno cavanhaque. Um ar de cantor pop.

O pastor Jair fala da pr√≥pria sa√ļde brevemente. Sobre como est√° saud√°vel, d√° os cr√©ditos de seu bem estar a Deus ‚Äď a cura pela f√© √© um elemento constante nos cultos pentecostais. O poder de Deus √© um conforto ao fiel e ao imigrante africano.

Uma crian√ßa ‚Äď das duas presentes ‚Äď pede para cantar uma can√ß√£o. √Č uma menina cheia de trancinhas, de uns cinco anos. Todos se levantam e batem palmas para acompanh√°-la.

Pr√≥ximo do meio-dia o pastor nigeriano retorna ao p√ļlpito. Agradece aos testemunhos e come√ßa a entoar uma can√ß√£o em um dialeto de algumas regi√Ķes da Nig√©ria chamado Edo. Diz algo como ‚ÄúBabai√™, casherebere…‚ÄĚ. Todos cantam em p√©.

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Os fiéis. Crédito: Gabriela Di Bella
Os fiéis. Crédito: Gabriela Di Bella

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Na rua, o term√īmetro no meu celular marca 23 graus, mas no escrit√≥rio do pastor Fabian Chukwubuikem Nwezay, 45 anos, em uma sala anexa ao templo, a sensa√ß√£o de calor √© bem maior. Sentado numa dessas cadeiras t√≠picas de escrit√≥rio, Fabian estuda para o serm√£o do grupo de estudos b√≠blicos das quartas-feiras com cinco b√≠blias ‚Äď duas nas m√£os, tr√™s dispostas sobre um m√≥vel branco do escrit√≥rio. H√°¬†um computador na sua¬†frente, desligado.

Um ar-condicionado portátil desbotado pela idade não dá conta de refrigerar o local. Do chão, um ventilador aponta na direção do pastor sem que a força do jato de ar mova as páginas leves das bíblias.

As paredes, o teto e a luz s√£o brancos. √Äs costas de Fabian, ao lado de uma foto antiga da igreja, um mapa mostra a divis√£o da zona leste profunda de S√£o Paulo. Aparecem bairros como Guaianases, Lajeado e Cidade Tiradentes. √Č um desses mapas comuns, cheios de quadradinhos de propagandas de pequenos com√©rcios, mas h√°¬†um sentido estrat√©gico se pensarmos que a sala √© tamb√©m o QG central da expans√£o da igreja. J√° existe um templo em Osasco, um no bairro Cidade Tiradentes e outro ser√° inaugurado em Guaianases, com prega√ß√£o em franc√™s, para atender a comunidade haitiana. Um quarto local est√° sendo planejado ‚Äď na Nig√©ria. √Č o resultado de 18 anos como pregador e de uma trajet√≥ria irregular na qual nem Deus nem o Brasil estavam em primeiro plano.

‚ÄúMeus pais eram cat√≥licos e eu era apenas uma pessoa que frequentava a igreja. Eu n√£o ia a procura de Deus, ia a procura de status”, diz.

Nascido em Nkerefi, no Estado de Enugu, no sul do pa√≠s da costa Oeste da √Āfrica, o pastor conta que, embora seus pais fossem ricos, teve uma inf√Ęncia e adolesc√™ncia dif√≠ceis. ‚ÄúApanhei. Meus pais me batiam muito. Eu era teimoso demais.”

Como seu pai era uma esp√©cie de l√≠der local, sua pretens√£o inicial era ser advogado e depois se tornar um pol√≠tico. Mas a vida mundana cheia de bebida, cigarro, pequenos roubos, mentiras e “fornica√ß√£o” o desviavam de qualquer caminho que fosse. Sua vida religiosa se resumia a ir √† igreja para mostrar roupas novas √†s mulheres.

Como é comum na biografia de muitas pessoas que tiveram experiências religiosas transformadoras, o auge da queda é o que precipita o momento do Grande Encontro com Deus. Foi o caso de Fabian, então com 24 anos, no dia 14 de abril de 1994.

“Eu entrei em uma igreja onde tinham umas 30 pessoas. O serm√£o do pastor era sobre o que pode impedir voc√™ de ir para o c√©u. ‘O qu√™, o qu√™?, eu me perguntava’. Sa√≠ de l√° e algo havia mudado. Naquela noite, sozinho, pedi a Deus para que entrasse e mudasse a minha vida. N√£o queria mais viver daquela maneira. Daquele dia em diante, minha vida nunca foi a mesma.”

Ato cont√≠nuo, Deus se tornou uma obsess√£o para Fabian. “Evangelize, me disse Deus no segundo dia.” Suas ambi√ß√Ķes morreram e a paix√£o pelo Senhor s√≥ crescia. Pouco tempo depois, partiu para estudar em uma escola b√≠blica na cidade de Benin, mais para o Oeste, sob os ausp√≠cios do Arcebispo Benson Idahosa. “Eu amo Deus, n√£o o dinheiro. Se voc√™ me disser, ‘aqui pastor, tome as Casas Bahia para voc√™’. Vou responder que n√£o quero. Eu estou feliz com o que fa√ßo aqui.”

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A igreja pentecostal Assembleia Cristã Dia de Primavera, na rua Guaianazes, em São Paulo. Crédito: Gabriela Di Bella
A igreja pentecostal Assembleia Cristã Dia de Primavera, na rua Guaianazes, em São Paulo. Crédito: Gabriela Di Bella

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A experi√™ncia de renascimento, de aceita√ß√£o de Jesus na vida, faz parte do padr√£o do religioso pentecostal. “O batismo com o Esp√≠rito Santo √© um revestimento de poder. A convers√£o seria o¬†momento do novo nascimento”, diz Clayton Guerreiro, pesquisador de religi√Ķes pentecostais do Cebrap (Centro Brasileiro de An√°lise e Planejamento).

Quando o pentecostalismo chegou ao Brasil, em 1910 e 1911 (os estudiosos, como sempre, divergem na data), tinha como marca a glossolalia, que é a capacidade de falar línguas desconhecidas durante o transe religioso. A partir dos anos 1950, o pentecostalismo começa a ter como foco a cura divina e os milagres, o que tornou o movimento mais competitivo na disputa por fiéis. Deus é Amor, Assembleia de Deus, Evangelho Quadrangular, entre outras, são exemplos de igrejas do período.

H√° mais uma importante mudan√ßa que precisa ser mencionada. Nos anos 1980, um novo movimento religioso assentado no trip√© cura, prosperidade e exorcismo ganhou for√ßa. √Č o neopentecostalismo, ou terceira onda pentecostal, cujo expoente √© a Igreja Universal do Reino de Deus e que guarda pouca semelhan√ßa com o movimento dos anos 50. Exceto pelo foco na cura.

“Eu ia morrer, mas fui curado pela igreja”, me diz Iyke Chukwu, que tamb√©m est√° na sala conversando com o pastor. H√° cinco anos no¬†Brasil, ele frequenta a igreja h√° quatro. Mora no bairro S√£o Mateus, na zona leste. ‚ÄúFiz muitas opera√ß√Ķes no est√īmago na Nig√©ria, fui a v√°rios hospitais, mas nada adiantou.‚ÄĚ Ele levanta as duas camisetas que veste ‚Äď uma cinza mais larga por fora das cal√ßas e uma branca e justa por dentro ‚Äď e mostra uma cicatriz em ‚ÄúS‚ÄĚ, de quase dois palmos, que serpenteia sua barriga. ‚ÄúEu amo essa igreja‚ÄĚ, diz.

A vinda de Fabian ao Brasil foi err√°tica. “Eu estava servindo uma igreja na Nig√©ria de um pastor que morava nos Estados Unidos. Preguei l√° por dois anos, mas quando ele voltou s√≥ achava defeitos no nosso trabalho, embora a comunidade tivesse crescido.”

Fabian conta que partiu para trabalhar em uma igreja que tinha 10 membros. Depois de oito meses, o n√ļmero de fi√©is foi para quase 70 pessoas. O novo templo era filial de uma igreja fundada por um mission√°rio nigeriano no centro de S√£o Paulo em 2001, a Comunidade Crist√£ Internacional. Da√≠ para o convite de pregar no Brasil foi r√°pido.

[olho]”Depois de um ano, o inimigo veio. Houve novas disputas dentro da igreja e decidi sair”[/olho]

No pa√≠s, trabalhou por um ano na igreja na Avenida Rio Branco, a primeira do g√™nero na cidade. Em seguida, foi servir um novo minist√©rio na rua dos Timbiras, tamb√©m no centro. “Depois de um ano, o inimigo veio. Houve novas disputas dentro da igreja e decidi sair”, lembra Fabian. Sem poder voltar para a Nig√©ria, em junho de 2011 ele decidiu fundar o pr√≥prio minist√©rio.

O pastor mexe no celular Motorola e ao mesmo tempo conversa com Iyke, segura duas b√≠blias no colo e faz anota√ß√Ķes sobre o serm√£o com uma caneta azul em umas folhas brancas de rascunho. O som das mensagens chegando √© constante.

Dentro da sala, há oito sacos de arroz de cinco quilos e dois refrigerantes da marca Tubaína, que serão usados no almoço coletivo de domingo que sempre ocorre depois da missa.

H√° uma porta dentro da sala com dois avisos escritos em pap√©is brancos separados no ter√ßo superior. Um, escrito com canetinha hidrocor azul, manda ‚ÄúManter a porta fechada‚ÄĚ; o outro, em preto impressora, avisa em caixa alta ‚ÄúBANHEIRO QUEBRADO‚ÄĚ. Ambos na mesma porta marrom sem ma√ßaneta.

Antes de come√ßar o serm√£o, o pastor abre a porta, acende uma luz azul neon, fecha a porta, faz xixi. Puxa a descarga e sai para falar com os 16 fi√©is presentes no grupo de estudos b√≠blicos. O serm√£o da noite ser√° sobre L√ļcifer e o pecado do orgulho.

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Uma das cinco mulheres presentes no culto recebe a benção de Fabian. Crédito: Gabriela Di Bella
Uma das cinco mulheres presentes no culto recebe a benção de Fabian. Crédito: Gabriela Di Bella

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“PRAY, PRAY, PRAY”, pede o pastor na missa de domingo.

“Ora, ora, ora”, tenta acompanhar a tradutora, uma mulher muito bem vestida vinda de Camar√Ķes.

Fabian conclama todos a encontrar pares e rezar junto. Ecoa pela sala uma esp√©cie de murm√ļrio geral na qual s√≥ poss√≠vel identificar por vezes uma palavra: Jesus Christ.

Não sou ignorado. Dou as mãos a alguém que ficou sem par e me convida a rezar. Isso acontece três vezes.
“Pray, pray, pray, pray”, repete o pasto com rapidez e intensidade.

Todos rezam, movimentam-se, como se expressassem fisicamente a palavra divina. H√° duas brasileiras no templo. Mais contidas, elas pouco se movem. Rezam paradas, quietas.

A capacidade das cordas vocais do pastor parece um milagre. Do p√ļlpito, ele fala com for√ßa e intensidade constante. Gesticula, sobe e desce do palco, altera o andamento do serm√£o, brinca, faz piadas e pede para os fi√©is recitarem vers√≠culos da B√≠blia.

Em um momento de humor, ele abençoa a tradutora que tem um português muito fraco e grande dificuldade em acompanhá-lo.

Dois homens cuidam das duas portas da igreja que d√£o para os dois corredores paralelos desenhados pelas disposi√ß√£o das cadeiras em tr√™s fileiras. Eles ficam nas portas, mas circulam pelo ambiente com uma manta azul celeste no pesco√ßo onde se l√™ “International Assembly”.

Um deles, alto e gordo, tem uma cicatriz de uns bons dez cent√≠metros na parte direita do rosto. Come√ßa no centro da bochecha e corre pela lateral at√© o encontro do pesco√ßo com o queixo. Ele circula conferindo se algu√©m est√° no celular, mas tamb√©m leva √°gua a quem pede. √Č s√©rio, mas de modo algum amea√ßador. Conversei com ele uns dias mais tarde, mas n√£o quis me dizer seu nome. Est√° h√° dois anos no Brasil, agora sem emprego. Deixou a fam√≠lia na Nig√©ria e se pudesse voltaria o quanto antes. Tem saudades de casa.

O tema do serm√£o √© a maldi√ß√£o da pobreza. Em parte, o sucesso das igrejas pentecostais ocorreu por oferecer aos fi√©is respostas mais diretas aos dilemas imediatos do cotidiano. A salva√ß√£o e a prosperidade podem e devem ser durante a vida terrena, que pode ser operada pela entrega total a Deus. As quest√Ķes do esp√≠rito depois da morte nem s√£o mencionadas.

‚ÄúSe voc√™ √© um jogador, voc√™ n√£o pode ser bem sucedido, voc√™ n√£o pode prosperar‚ÄĚ, diz o serm√£o.

Fabian passa os olhos em um papel no p√ļlpito ao lado da B√≠blia, que o auxilia na condu√ß√£o do serm√£o. O jogo de apostas √© condenado por ser a mentalidade de um homem pobre.

Ele cita a B√≠blia. Prov√©rbios cap√≠tulo 23, vers√≠culo 21: “Porque o beberr√£o e o comil√£o acabar√£o na pobreza; e a sonol√™ncia os faz vestir-se de trapos”.

Assim, entre cita√ß√Ķes e prega√ß√Ķes, ele vai construindo sua mensagem sobre os riscos da queda que, em outro contexto, poderia ser uma conversa sem base religiosa. Drogas, bebida, ressentimento com quem possui mais e arrog√Ęncia de quem tem mais s√£o temas, enfim, que habitam o universo de todos, mas s√£o mais sens√≠veis a uma popula√ß√£o de imigrantes que chega ao Brasil sem estrutura e constr√≥i seus la√ßos a partir da igreja.

O que ele faz é reforçar os valores que ajudam no desenvolvimento de uma pequena comunidade. Em um certo sentido, a função da igreja é ministrar doses de um controle social interno.

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Fiéis na igreja pentecostal Assembleia Cristã Dia de Primavera. Crédito: Gabriela Di Bella
Fiéis na igreja pentecostal Assembleia Cristã Dia de Primavera. Crédito: Gabriela Di Bella

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“Um abismo chama o outro”, me diz a pastora da igreja da Cidade Tiradentes, Monica Almeida, depois de uma missa celebrada por ela na igreja da rua Guaianases, no centro. Ela acha que a popula√ß√£o da favela sofre preconceito pelo local onde vive e que o imigrante sofre em dobro.

Monica, 33, conheceu o pastor Fabian cinco anos atr√°s no Monte da Luz, uma esp√©cie de ponto de devo√ß√£o de evang√©licos em Embu das Artes, regi√£o metropolitana de S√£o Paulo. Desde ent√£o, abandou a igreja Deus √© Amor, onde seus pais s√£o pastores, para se dedicar ao projeto do p√°stor¬†‚Äď ela usa a mesma pron√ļncia dos imigrantes. Foi sua assistente pessoal para resolver os v√°rios tr√Ęmites burocr√°ticos de abrir uma igreja e h√° um ano comanda as missas na Cidade Tiradentes.

[olho]”Na cultura deles, a mulher n√£o tem tanta voz. Ela n√£o trabalha. Mulher cuida da casa e dos filhos”[/olho]

Ela n√£o se incomoda que algumas pessoas v√£o aos domingos apenas para comer ou que nem sequer professem a f√© crist√£ ‚Äď na Nig√©ria metade da popula√ß√£o √© crist√£, a outra √© mu√ßulmana.¬†“Meu papel nessa hist√≥ria √© pregar a palavra de Deus, que √© forte e √© universal. Quando eu estou pregando sinto que est√° todo mundo ali como um ser humano, sem cor, religi√£o ou ra√ßa.”

N√£o que n√£o existam problemas. Para a pastora, a tradi√ß√£o dos imigrantes √© bastante machista. “Na cultura deles, a mulher n√£o tem tanta voz. Ela n√£o trabalha. Mulher cuida da casa e dos filhos.”

Ela diz que nunca teve problemas em rela√ß√£o a sua autoridade e que acha que muitos dos fi√©is a enxergam como uma figura masculina por ser uma autoridade espiritual.¬†“Quando eles viajam e voltam, muitos me trazem um presente. O engra√ßado √© que eles me trazem sempre um perfume masculino.”

Uma das raras brasileiras presentes, a cabeleireira de 40 anos Fab√≠ola Roos acha que os homens nigerianos s√£o “um pouco est√ļpidos”. Ela sabe. Conheceu o ex-marido em outra igreja africana ‚Äď existem sete no centro ‚Äď, mas agora est√° separada. O marido voltou para a Nig√©ria, onde tinha outra fam√≠lia. Fab√≠ola cuida da filha de dois anos que teve com ele e de outra menina de 10 que o pai deixou com ela quando saiu do Brasil.

A rela√ß√£o entre homens nigerianos e mulheres brasileiras √© delicada. A tese do pastor Fabian √© que na Nig√©ria a cultura √© de que homem seja o chefe da casa, enquanto no Brasil ocorre o contr√°rio. Quando decidiu casar, ele disse a uma irm√£ que queria uma esposa nigeriana. Em uma esp√©cie de Tinder do compromisso definitivo, ele e a futura esposa, Jeniffer, se conheceram por fotos. Gostaram do que viram e deu match ‚Äď por arranjo das fam√≠lias, casaram-se. Em dezembro de 2011, Jeniffer desembarcou no Brasil para conhecer o marido.

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Fabian Nwezay em um de seus momentos performáticos no sermão. Crédito: Gabriela Di Bella
Fabian Nwezay em um de seus momentos performáticos no sermão. Crédito: Gabriela Di Bella

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O volume √© muito alto. S√£o quatro caixas de som preenchendo o templo com decib√©is religiosos. O sal√£o est√° praticamente cheio, todos os ventiladores est√£o desligados, mas os quatro splits d√£o conta do recado. Os homens de len√ßo azul distribuem aos presentes envelopes para a doa√ß√£o. Fabian refor√ßa a import√Ęncia da doa√ß√£o repetidas vezes. A justificativa: precisam de recursos para a nova igreja em Guaianases.

Ao mesmo tempo, o serm√£o passa a falar mais sobre a prosperidade. Pulam frases como “aquele que n√£o gosta de trabalhar vai enfrentar a pobreza” ou “se voc√™ bebe, √© pregui√ßoso ou descuidado, voc√™ n√£o vai prosperar” e ainda “outra maneira de ser pobre √© estar desesperado para ser rico”. O tempo da tradu√ß√£o fica sempre em descompasso com a fala do pastor.

Recebo um envelope e recuso os demais. Coloco R$ 20 dentro. Todos colocam o dinheiro com discri√ß√£o. √Č totalmente an√īnimo.

A¬†ora√ß√£o acaba por volta das 14h. Come√ßa a m√ļsica e o momento da entrega das doa√ß√Ķes. As pessoas v√£o saindo dos lugares at√© formar uma fila em um corredor no qual na ponta est√° o pastor. A m√ļsica segue e as pessoas v√£o dan√ßando at√© ele para depositar os envelopes em uma caixa de pl√°stico e receber a ben√ß√£o individualmente.

Fabian coloca as m√£os na cabe√ßa dos fi√©is e diz algumas palavras. Em seguida, molha uma das m√£os em alguma subst√Ęncia l√≠quida, aparentemente √°gua com mel, e passa sobre a testa de cada um. Ao mesmo tempo, a m√ļsica embala o sal√£o. Todos cantam e dan√ßam.

A esposa do pastor e mais uma mulher comandam a cantoria. Dan√ßam juntas. Depois da ben√ß√£o do d√≠zimo, o pastor dan√ßa tamb√©m. Ergue os bra√ßos para cima e leva-os para esquerda e para direita, fazendo uma paradinha de um tempo em cada lado. Os demais o copiam, como naquele hit do padre Marcelo do final dos anos 90 que dizia ‚Äúerguei as m√£os e dai gl√≥ria a Deus‚ÄĚ.

Por detr√°s do p√ļlpito, o pastor Fabian Nwezay puxa seis hallelujahs fortes. Todos respondem.¬†E¬†assim acaba a missa africana.

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Comportamento Especial

Bem-vindo ao inferno do Presídio Central

O rel√≥gio na parede do luxuoso hotel Plaza S√£o Rafael tinha acabado de marcar 21h30 naquela sexta-feira de julho, quando um estrondo surpreendeu h√≥spedes e funcion√°rios. Um t√°xi vermelho havia colidido com a porta da frente do estabelecimento, cobrindo o tapete xadrez com cacos de vidro. O ve√≠culo avan√ßou lobby a dentro e s√≥ parou quando alcan√ßou o balc√£o do hall de entrada. Ap√≥s alguns segundos, um homem quebrou uma janela lateral do t√°xi e come√ßou a atirar com uma arma de fogo em dire√ß√£o √† entrada do hotel. Policiais que seguiam o carro de perto atiraram de volta. No meio do fogo cruzado, pessoas que estavam no lobby entraram em p√Ęnico. Os seus gritos abafaram o jazz suave que sa√≠a dos alto-falantes.

Para entender como um hotel luxuoso virou alvo de bandidos, voltemos¬†ao dia anterior, 7 de julho de 1994. Por volta das 15h30, o presidi√°rio Vladimir Santana da Silva, de 28 anos, caminhava por um dos corredores √ļmidos do Pres√≠dio Central, ou ‚ÄúCasar√£o‚ÄĚ, como os presos chamam o complexo prisional localizado em Porto Alegre, um dos maiores do Brasil. Sarar√° da V√≥, como era conhecido, havia se submetido a uma sess√£o de fisioterapia para o seu cotovelo, na ala do Hospital Penitenci√°rio. No caminho de volta para a sua cela, cruzou com uma freira amiga dos presos e implorou para que ela marcasse uma reuni√£o entre ele e o diretor do hospital, Claudinei dos Santos. ‚ÄúTenho um assunto urgente para tratar com ele‚ÄĚ, disse. A religiosa acatou o pedido. E assim que Sarar√° da V√≥ entrou no escrit√≥rio do diretor, sacou uma arma de fabrica√ß√£o artesanal de dentro da tipoia que cobria o seu bra√ßo e pressionou-a contra o peito de Santos.

‚ÄúO padrinho t√° rendido! Ta rendido!‚ÄĚ, disse.

Em seguida, outro preso adentrou o escrit√≥rio, arrastando um guarda penitenci√°rio sob a mira de uma arma. Era Fernando Rodolfo Dias, o Fernandinho, que com apenas 22 anos cumpria pena por roubo, tr√°fico de drogas e estelionato. Portador de HIV, Fernandinho j√° era conhecido dos m√©dicos e enfermeiros do Hospital Penitenci√°rio. Mas, naquele dia, surpreendeu a todos ao roubar a arma de um guarda distra√≠do e faz√™-lo de ref√©m. A dupla n√£o tinha tempo a perder. Deixaram o diretor e o guarda penitenci√°rio de lado e come√ßaram a retirar as almofadas do sof√° do escrit√≥rio, at√© encontrarem duas armas de fogo e v√°rias muni√ß√Ķes socadas na lateral do m√≥vel. O diretor n√£o conseguia acreditar na cena que se desenrolava na frente dos seus olhos. Como que os presos sabiam sobre o seu esconderijo?

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Crédito: Daniel Marenco
Crédito: Daniel Marenco

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Ao mesmo tempo, na sala de triagem do Hospital Penitenci√°rio, Pedro Ronaldo In√°cio, o Bugig√£o, recebia atendimento m√©dico por ter vomitado sangue dentro de sua cela. Aos 33 anos, o detento estava preso por les√£o corporal, estupro e assalto a banco. Mostrando uma vitalidade repentina, o doente levantou e sacou um trabuco da roupa, amea√ßando os profissionais de sa√ļde e assumindo o controle da sala. Outros presos aproveitaram a confus√£o para roubar as pistolas dos agentes penitenci√°rios que guardavam o local. E, sob o comando do Bugig√£o, for√ßaram os mesmos guardas a abrirem os seus arm√°rios pessoais, de onde tiraram ainda mais armas e muni√ß√Ķes. (Mais tarde, Bugig√£o confessou ter fingido o mal-estar ao encher as bochechas com sangue extra√≠do dos pr√≥prios bra√ßos.)

Ao todo, Sarará da Vó, Fernandinho, Bugigão e outros presos fizeram 27 funcionários reféns naquele dia. As vítimas foram levadas para o segundo andar do Hospital Penitenciário. O local não foi escolhido à toa. Naquele pavimento, um longo corredor ligava o Hospital Penitenciário à saída do complexo prisional. Não demorou muito para que a notícia sobre o motim se espalhasse. O promotor André Luiz Villarinho, diretor do Departamento de Estabelecimentos Penais do Rio Grande do Sul, foi o primeiro a chegar no local para avaliar a situação. Ao abordar os amotinados, ouviu deles a sua primeira exigência: queriam que dois presos de outra ala do complexo prisional fossem trazidos para o bando de amotinados. Um deles era o assaltante Carlos Jefferson Souza Santos, o Bicudo, de 23 anos. Ele havia sido escolhido porque sabia lidar com reféns. Certa vez foi surpreendido por policiais enquanto roubava uma videolocadora e ficou várias horas negociando a liberação de vítimas com policiais.

Villarinho, que sem querer se viu na posi√ß√£o de negociador, aceitou o pedido dos amotinados. Em troca, os bandidos libertaram o primeiro ref√©m ‚Äď uma secret√°ria do Hospital Penitenci√°rio, que tinha passado mal devido ao nervosismo. Entre os rebelados, Bicudo logo assumiu o comando das negocia√ß√Ķes e fez uma segunda exig√™ncia, desta vez mais audaciosa. Os criminosos queriam que dois detentos de outra cadeia fossem transferidos para o Casar√£o. Os escolhidos estavam cumprindo pena na PASC, uma pris√£o de seguran√ßa m√°xima localizada em Charqueadas, munic√≠pio a 58 km de Porto Alegre. Um deles era Dilonei Melara, um dos criminosos mais perigosos da regi√£o. Alto, magro e com cabelo grisalho, aos 36 anos era considerado um grande l√≠der pelos criminosos do Rio Grande do Sul, por ter fundado a primeira fac√ß√£o criminosa ga√ļcha, a Falange. Melara estava cumprindo 65 anos de pris√£o por assaltos a bancos e havia tentado escapar de pres√≠dios em diversas ocasi√Ķes. O outro presidi√°rio era Celestino Linn, 37 anos, amigo e parceiro de crime do Melara que cumpria uma pena de 30 anos por assalto √† m√£o armada e les√Ķes corporais. Juntos, os dois j√° tinham¬†aprontado bastante. Em 1983, libertaram um condenado enquanto ele estava sendo transferido entre pris√Ķes dentro de um √īnibus. Durante a opera√ß√£o cinematogr√°fica, mataram dois policiais.

Villarinho se deu conta que a negocia√ß√£o estava ficando complicada e resolveu consultar a c√ļpula do governo estadual. O governador da √©poca, Alceu Collares, retornou √†s pressas de uma reuni√£o em Bras√≠lia e criou uma for√ßa-tarefa para administrar o motim. √Ä noite, o grupo se reuniu no Pres√≠dio Central com autoridade para tomar decis√Ķes. Marcos Rolim, deputado estadual na √©poca e um dos membros da for√ßa-tarefa, ofereceu-se para intermediar o di√°logo com os presidi√°rios. Aos 34 anos, ele j√° tinha uma trajet√≥ria como militante dos direitos humanos e estava acostumado a conversar com encarcerados. Mas, por volta das 2h da manh√£, at√© mesmo Rolim se surpreendeu quando os amotinados articularam a sua terceira e √ļltima exig√™ncia: queriam que tr√™s carros fossem disponibilizados em frente ao pres√≠dio para que pudessem fugir assim que os colegas chegassem da PASC.

A for√ßa tarefa passou o dia seguinte considerando as op√ß√Ķes. Eles podiam ordenar que policiais de elite invadissem o local e dominassem os insurgentes¬†√† for√ßa. ‚ÄúMas n√≥s descartamos essa alternativa‚ÄĚ, Rolim me disse recentemente. Hoje o ex-deputado √© doutor em Sociologia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e especialista em jovens violentos. A a√ß√£o teria causado dezenas de mortes, acredita. N√£o apenas dos amotinados, mas tamb√©m dos ref√©ns e dos presos que estavam l√° apenas recebendo tratamento m√©dico. ‚ÄúA nossa √ļnica op√ß√£o era aceitar as condi√ß√Ķes da negocia√ß√£o.”¬†

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Crédito: Daniel Marenco
Crédito: Daniel Marenco

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No fim da tarde, Rolim se deslocou para Charqueadas com a miss√£o de buscar Melara e Linn. Melara estava animado. Ele tinha passado dois meses orquestrando o motim no Pres√≠dio Central e agora tudo corria de acordo com o planejado. Finalmente ele realizava um sonho antigo: sair da pris√£o de seguran√ßa m√°xima sem algemas e pela porta da frente. Com a chegada da noite, o ent√£o deputado escoltou a dupla de criminosos para dentro do Casar√£o, e por ter cumprido com a segunda exig√™ncia dos detentos, conseguiu negociar a liberdade de sete mulheres ref√©ns. Mais tarde, confessou que estava com medo de que os presos as estuprassem¬†como forma de pressionar as autoridades ‚Äď ou at√© mesmo por t√©dio. Afinal, eles estavam amotinados h√° mais de 24 horas.

A liberta√ß√£o das ref√©ns deu √Ęnimo para a for√ßa-tarefa, mas ainda havia a terceira e √ļltima exig√™ncia: ser√° que deveriam providenciar carros de fuga para os criminosos? Impacientes, os presidi√°rios pressionaram colocando √°lcool em colch√Ķes e amea√ßando atear fogo nos ref√©ns. Ap√≥s muitas horas de intensa discuss√£o, a comiss√£o decidiu que sim, iriam ajud√°-los a sair do Pres√≠dio Central, mas com um por√©m: secretamente iriam sabotar os autom√≥veis. O plano era mexer com a mec√Ęnica dos carros para que os fugitivos n√£o conseguissem chegar muito longe. A pol√≠cia ainda colocaria GPS nos ve√≠culos para seguir o grupo de helic√≥ptero. Assim que libertassem os ref√©ns, os policiais iriam se aproximar e prend√™-los.

[olho]Melara finalmente realizava um sonho antigo: sair da prisão de segurança máxima sem algemas e pela porta da frente[/olho]

Às 21h05, a preparação para a saída dos amotinados estava completa. Três Gols na cor verde metálico foram estacionados na frente do Casarão. Sem pressa, os fugitivos desceram o longo corredor do Hospital Penitenciário até a saída, levando junto os seus reféns. Repórteres noticiavam cada passo ao vivo no rádio. Os presos forçaram os reféns a segurar cobertores sobre as cabeças de todos, para que atiradores de elite não conseguissem distinguir quem eram os criminosos. Dez reféns entraram nos três Gols sabotados. Os outros formaram um cordão humano em volta dos carros, para que a polícia não conseguisse atirar contra grupo enquanto saíam.

Os carros arrancaram cantando pneu. Mas, em vez de seguir o plano que havia sido elaborado pela for√ßa-tarefa, policiais come√ßaram a atirar nos carros e persegu√≠-los quase imediatamente. ‚ÄúUm delegado com sede de vingan√ßa deu uma ordem para que os policiais j√° sa√≠ssem atirando atr√°s dos ve√≠culos‚ÄĚ, relembra Rolim. ‚ÄúMas foi uma p√©ssima ideia. Ele colocou em risco a seguran√ßa dos ref√©ns e de todos os cidad√£os de Porto Alegre.‚ÄĚ

Os fugitivos sa√≠ram em dire√ß√Ķes opostas, com a pol√≠cia logo atr√°s. A fuga em alta velocidade foi relatada em tempo real pelas redes de r√°dio e televis√£o. Fam√≠lias trancaram as portas, motoristas tiraram os carros das ruas, e comerciantes baixaram as grades. Todos ligados no AM.

Um dos carros foi para a zona leste, mas não chegou muito longe. Com um pneu furado, foi perdendo velocidade até parar no meio de uma rua de chão batido. Ao invés de se entregar, os fugitivos responderam com fogo. A policia revidou. No meio do tiroteio, o refém Edilei Souza dos Santos (filho do diretor Claudinei dos Santos) foi atingido por 11 balas. Ele sobreviveu, embora tenha ficado com graves sequelas. Outros dois reféns conseguiram escapar ilesos, e os três criminosos dentro do veículo foram mortos com um total de 21 tiros.

O segundo carro seguiu para a zona norte. Ap√≥s alguns quil√īmetros, o fugitivo que estava no volante, Luiz Paulo Schardozin Pereira, 29 anos, bateu o carro em um poste de luz. Depois do acidente, Chardozinho, como era conhecido, correu na dire√ß√£o do Shopping Iguatemi. Um seguran√ßa particular do estabelecimento notou o seu comportamento estranho e ordenou que se deitasse no ch√£o e se entregasse (depois dessa hist√≥ria ele virou um her√≥i no trabalho). Outros dois insurgentes¬†fugiram na dire√ß√£o de um matagal das redondezas e s√≥ foram capturados pela pol√≠cia semanas depois.

O terceiro e √ļltimo carro parou de funcionar n√£o muito longe do Pres√≠dio Central gra√ßas √† sabotagem da pol√≠cia. O motorista era Bicudo, que entrou em p√Ęnico e saiu correndo, conquistando a t√£o sonhada liberdade. Mas sua felicidade durou pouco tempo. Dez dias depois ele foi baleado e morto pela pol√≠cia ao tentar roubar um banco. Os outros tr√™s integrantes do carro, Melara, Linn e Fernandinho, ainda resistiram, trocando tiros com a pol√≠cia. O diretor do Hospital Penitenci√°rio, Claudinei dos Santos, que estava dentro do Gol, foi atingido com uma bala nas costas e foi empurrado para fora do ve√≠culo. O tiro lhe deixou parapl√©gico. Outra bala atingiu um policial que se aproximava do autom√≥vel, que morreu na hora. Desesperados, os tr√™s foragidos pegaram um carro da imprensa, que acompanhava a situa√ß√£o de perto. Eles continuaram a fugir pela cidade com tr√™s ref√©ns ‚Äď duas mulheres e um homem. Mas, devido a problemas mec√Ęnicos, ainda trocaram de carro duas vezes at√© entrar em um t√°xi vermelho. Sem saber para onde ir, Melara apontou a arma para a cabe√ßa do taxista e mandou ele acelerar at√© o hotel mais chique da cidade, o Plaza S√£o Rafael. Ao chegar em frente ao estabelecimento disse: ‚ÄúTu vai te dar mal, cara, se n√£o derrubares essa merda de porta‚ÄĚ.

Após a batida, o motorista do táxi abriu a porta do carro e correu em direção a polícia, que vinha logo atrás. Com as mãos no ar, ele implorou aos policiais que não atirassem. A balas zuniam de lado a lado pelo saguão revestido de granito. Os três fugitivos se encaminharam para o fundo do lobby, mantendo seus reféns como escudo. Naquela noite, o Plaza São Rafael sediava uma conferência sobre depressão, com a presença dos psiquiatras mais respeitados do Brasil. Após um dia de palestras, os médicos estavam jantando na sala de conferências quando foram surpreendidos pelo trio que chegava de arma em punho. Eles interromperam as garfadas e se esconderam embaixo das mesas.

Melara e Fernandinho pouco notaram os psiquiatras e subiram as escadas para o bar do mezanino, arrastando com eles duas reféns. Linn se encostou numa das paredes da sala de conferências e improvisou uma barricada com as mesas. Como ele já havia perdido o seu refém, agarrou alguns médicos que estavam ao redor. Os policiais entraram no saguão se arrastando e chegaram bem perto da barricada de Linn. Assim que teve uma oportunidade, um PM atirou no rosto do fugitivo. A bala passou de raspão, mas foi o suficiente para desnorteá-lo. Capturado, Linn foi escoltado para fora do hotel por policiais orgulhosos, como se exibissem uma presa rara. Dois dias depois, ele foi encontrado morto na sua cama de hospital com quatro tiros.

Melara e Fernandinho permaneceram no mezanino por mais 13 horas e fizeram mais uma ref√©m, uma secret√°ria do hotel. Mas, com o passar do tempo, sem √°gua, comida e muni√ß√£o, ficaram exaustos. A dupla de criminosos finalmente se entregou quando o desembargador D√©cio Ant√īnio √Črpen, que estava no comando das negocia√ß√Ķes, disse que a sele√ß√£o brasileira estava prestes a entrar em campo contra a Holanda pelas quartas de finais da Copa do Mundo dos Estados Unidos. E ele n√£o queria perder esse jogo. Melara e Linn concordaram em sair do hotel com duas condi√ß√Ķes: eles queriam sair com coletes √† prova de bala e pediram para retornar √† PASC ‚Äď a pris√£o de seguran√ßa m√°xima, onde achavam que estariam seguros de retalia√ß√Ķes. Eles temiam que os agentes penitenci√°rios do Casar√£o os executassem por terem causado tamanho dist√ļrbio. A precau√ß√£o deu certo. Melara viveu at√© 2005, quando foi assassinado, ao que tudo indica, por um criminoso rival. E Fernandinho morreu devido a uma doen√ßa desconhecida em 2008.

As 48 horas de caos deixaram¬†um grande trauma em Porto Alegre. Durante v√°rias semanas, o acontecimento estampou as p√°ginas dos jornais e serviu como tema de discuss√Ķes pol√≠ticas. Algumas pessoas criticaram os membros da for√ßa tarefa por terem concordado com as exig√™ncias dos fugitivos. Outros avaliaram que era a melhor op√ß√£o. ‚ÄúConcordando ou n√£o, a popula√ß√£o ficou apavorada com o fato que os criminosos mais perigosos da regi√£o conseguiram planejar e executar essa fuga de dentro da pris√£o‚ÄĚ, lembra Rolim. Melara se tornou uma figura pop, citado at√© em m√ļsica de bandas de rock.

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Sete meses depois, era carnaval. Mal sabiam os foli√Ķes que, enquanto dan√ßavam uma marchinha, um grupo de presidi√°rios do Casar√£o cavava pacientemente um buraco na parede da terceira galeria do pavilh√£o D, usando apenas ferramentas artesanais. Assim que o t√ļnel ficou largo o bastante, em 27 de fevereiro de 1995, segunda-feira de Carnaval, 45 presos sa√≠ram para o lado de fora do pr√©dio e escalaram at√© o telhado. O grupo, liderado pelo presidi√°rio de 24 anos Paulo Vicente Lauffer da Silva, o Porquinho, estava preparado para a fuga. Levaram consigo jiboias ‚Äď cordas tran√ßadas a partir de roupas e len√ß√≥is ‚Äď para descer o muro externo do pres√≠dio. ‚ÄúParecia um monte de homens-aranhas‚ÄĚ, disse uma testemunha, na √©poca, ao jornal Zero Hora. Pelo menos um dos fugitivos n√£o conseguiu se segurar da corda e caiu da altura de 8 metros direto na cal√ßada, quebrando as duas pernas. Os outros presos abandonaram o companheiro e fugiram na dire√ß√£o do Morro da Pol√≠cia, que fica atr√°s do pres√≠dio.

Duzentos policiais foram deslocados para ca√ßar os foragidos a p√©, enquanto um helic√≥ptero e um pequeno avi√£o patrulhavam a √°rea. Era f√°cil de identificar os presos ‚Äď as suas roupas estavam sujas e rasgadas. A pol√≠cia tinha a ordem de captur√°-los a qualquer pre√ßo, ent√£o j√° passaram a atirar nas suas pernas para que n√£o conseguissem correr. Alguns dos fugitivos portavam armas¬†e atiraram de volta, mas, no fim do dia, 23 condenados foram trazidos de volta para o pres√≠dio, e muitos outros foram capturados nas semanas seguintes.

O Pres√≠dio Central nunca havia sido considerado uma institui√ß√£o de ponta ‚Äď muito¬†pelo contr√°rio. Desde a sua constru√ß√£o, em 1959, a institui√ß√£o nunca funcionou de acordo com o plano original. A pris√£o deveria ter uma infraestrutura sofisticada, mas o governo ga√ļcho s√≥ teve dinheiro para construir metade dos pr√©dios previstos na planta. O pres√≠dio foi inaugurado mesmo assim em 1962, com cinco pavilh√Ķes de tr√™s andares cada, com a capacidade de abrigar 660 presos. Com o passar dos anos, as celas ficaram superlotadas, chegando ao ponto de superar em quatro vezes a sua capacidade. Como consequ√™ncia, os presidi√°rios foram ficando cada vez mais inquietos. E, a partir dos anos 1980, encontraram um jeito de se organizar para expressar a sua frustra√ß√£o atrav√©s de uma s√©rie de motins e tentativas de fuga. O Pres√≠dio Central virou uma panela de press√£o. ‚ÄúQuando os presos n√£o aguentavam mais as condi√ß√Ķes do pres√≠dio, eles explodiam. Isso fazia com que o governo tomasse medidas para melhorar a situa√ß√£o, e a press√£o baixava. Mas aos poucos ia subindo novamente‚ÄĚ, conta Rolim.

[olho]O Presídio Central virou uma panela de pressão[/olho]

Em 1995, depois que presos organizados conseguiram escapar duas vezes do Pres√≠dio Central em 7 meses, o sentimento geral era que o Estado tinha perdido o controle sobre o pres√≠dio. Em uma carta ao jornal Zero Hora, publicada em mar√ßo daquele ano, uma leitora chamada Silvana exigiu respostas das autoridades. ‚Äú√Č poss√≠vel que uma pris√£o com mais de mil presos tenha um s√≥ guarda externo? Como os apenados tinham armas? Como conseguiram chegar ao muro sem serem vistos?‚ÄĚ escreveu. Para piorar, Porquinho, presidi√°rio que liderou a fuga do Carnaval, deu uma entrevista aos rep√≥rteres locais quando foi capturado dizendo que ‚Äúfoi muito f√°cil escapar do Pres√≠dio Central‚ÄĚ. A popula√ß√£o ficou enfurecida.

Ant√īnio Britto sentiu a press√£o. O pol√≠tico filiado ao PMDB havia tomado posse recentemente como governador ga√ļcho e se sentiu obrigado a lidar com o problema j√° no segundo m√™s de trabalho. Britto chamou a imprensa e fez um an√ļncio: ele iria tomar medidas dram√°ticas para acabar, de uma vez por todas, com os problemas do pres√≠dio de Porto Alegre. O plano era desativar o Casar√£o. Mas antes, iria construir 10 novas pris√Ķes de tamanho m√©dio em cidades pr√≥ximas, para onde seriam transferidos os condenados. E, enquanto as novas pris√Ķes n√£o sa√≠am do papel, ao longo de seis meses, o Pres√≠dio Central passaria a ser coordenado pela Brigada Militar (a pol√≠cia militar do Rio Grande do Sul). Esses policiais, ou ‚Äúbrigadianos‚ÄĚ na linguagem regional, tinham fama de bem treinados, destemidos e de respeitar a hierarquia, o que poderia ajudar a colocar ordem no Casar√£o at√© ent√£o controlado por agentes penitenci√°rios. Inicialmente, o plano deu certo. Os novos guardas conseguiram controlar os presidi√°rios. A cidade se sentiu mais segura, e as cr√≠ticas ao governo estadual diminu√≠ram. Mas v√°rios anos se passaram, e as novas pris√Ķes nunca sa√≠ram do papel. A Pol√≠cia Militar continuou no comando do Pres√≠dio Central por tempo indeterminado, e outros problemas come√ßavam a aparecer.

O pres√≠dio estava completando 30 anos de vida, e os sinais da idade j√° apareciam nas paredes. Rachaduras, vazamentos e problemas el√©tricos precisavam de conserto. Mas, como havia a promessa de que a cadeia seria demolida em breve, o governo preferia n√£o fazer os investimentos para recuperar o Central. Enquanto isso, os presidi√°rios passaram a reclamar dos problemas de infraestrutura (como um chuveiro quebrado, por exemplo), batendo nas paredes das celas at√© os pavilh√Ķes tremerem como se um terremoto tivesse atingido Porto Alegre. Durante os protestos, a Brigada Militar temia n√£o apenas que a estrutura desabasse de vez, mas que os presidi√°rios conseguissem for√ßar as grades e escapassem. N√£o havia guardas suficientes para conter uma multid√£o enfurecida. Os policiais militares chegaram √† conclus√£o que o √ļnico jeito de manter a ordem no Central (enquanto esperavam pela demoli√ß√£o do pres√≠dio) era negociar uma tr√©gua com os presos.

[olho]Para a Brigada Militar, fazer uma parceria com os presidi√°rios era uma jogada arriscada, mas necess√°ria[/olho]

Foi assim que em 1997, Valmir Pires, um preso que sempre foi muito amigável com os policiais, foi chamado para uma reunião com um comandante da Brigada Militar do alto escalão. Ele cumpria pena de 12 anos por roubo de carros e assalto à mão armada. Sem saber do que se tratava, o preso encontrou o comandante em um andar vazio do pavilhão C, onde recebeu uma proposta. Pires poderia se mudar para o pavilhão com um grupo de presos de sua confiança. A polícia não entraria no andar sem a sua permissão e não monitoraria as suas atividades lá dentro. Ele receberia, inclusive, as chaves das celas daquele andar. Em troca, teria de prometer que os presidiários sob o seu comando não tentariam escapar da prisão e nem realizariam motins. Além disso, teriam de manter a área limpa, organizada e realizar consertos. Afinal de contas, se iriam assumir o comando também precisavam assumir algumas responsabilidades.

Para a Brigada Militar, fazer uma parceria com os presidi√°rios era uma jogada arriscada, mas necess√°ria. O acordo poderia ajudar a acalmar os √Ęnimos dentro da institui√ß√£o, j√° que criaria uma fac√ß√£o nova, amiga dos policiais. A ideia era diminuir o poder dos Manos, grupo liderado por ningu√©m menos do que Dilonei Melara, que ganhou ainda mais prest√≠gio entre os criminosos depois da fuga de 1994. O acordo tamb√©m ajudaria a manter os policiais no comando do Pres√≠dio Central. A essa altura, os PMs n√£o queriam abrir m√£o do poder e dos adicionais de sal√°rio que vinham com a atua√ß√£o dentro do pres√≠dio. Pires aceitou os termos da negocia√ß√£o. E resolveu chamar a sua fac√ß√£o de Os Brasas. Logo depois, outra fac√ß√£o nasceu de forma espont√Ęnea: os Abertos. Agora havia tr√™s grupos criminosos dentro do Pres√≠dio Central.

[olho]O Casar√£o virou um grande QG do crime organizado[/olho]

Como o plano do governador Ant√īnio Britto de demolir o Central nunca avan√ßou, a quest√£o ficou para o seu sucessor, Ol√≠vio Dutra, que assumiu o poder em 1999. Dutra escolheu fazer algumas reformas mais do que necess√°rias na infraestrutura do pres√≠dio. Para come√ßar, fechou o Hospital Penitenci√°rio, palco da fuga de 1994. A se√ß√£o foi transformada em um novo conjunto de pavilh√Ķes, o que, por um tempo, resolveu o problema de superlota√ß√£o da institui√ß√£o. Mas, como a popula√ß√£o carcer√°ria brasileira aumenta em uma velocidade impressionante, o problema voltou.

Em 2003, um novo governador, Germano Rigotto, sentiu que n√£o tinha outra op√ß√£o a n√£o ser voltar ao plano original, de aumentar o n√ļmero de vagas em outros pres√≠dios e acabar com o Central. ‚ÄúElaboramos projetos para a cria√ß√£o de 8.914 novas vagas nos pres√≠dios estaduais, com investimentos de R$ 170 milh√Ķes‚ÄĚ, ele disse em entrevista ao jornal Zero Hora em julho de 2006. ‚ÄúA meta inicial √© disponibilizar 2,6 mil novas acomoda√ß√Ķes at√© o final deste ano‚ÄĚ, prometeu. Mas o prazo n√£o foi alcan√ßado, e o problema foi deixado para a pr√≥xima governadora, Yeda Crusius. Em 2008 ela foi bem clara sobre as suas inten√ß√Ķes: ‚ÄúA decis√£o de implos√£o do Pres√≠dio Central est√° tomada‚ÄĚ. Mas ela tamb√©m n√£o cumpriu a promessa e, em vez disso, construiu mais quatro pavilh√Ķes na cadeia, aumentando o n√ļmero de vagas. Era uma solu√ß√£o muito mais barata, mas tempor√°ria.

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Crédito: Daniel Marenco
“A morte √© certa”. Cr√©dito: Daniel Marenco

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De certa forma, o acordo com os presidi√°rios deu certo. Desde 1998, nunca mais houve uma tentativa de fuga no Casar√£o. Mas o surgimento de fac√ß√Ķes rivais trouxe outro conjunto de problemas para o governo estadual. Na virada do s√©culo, aproximadamente 30 presidi√°rios apareciam mortos de forma violenta a cada ano dentro da institui√ß√£o. Eram assassinados a tiros, com facadas, apedrejados ou de tanto apanhar. ‚ÄúHavia uma guerra entre os grupos rivais‚ÄĚ, afirma Renato Dorneles, rep√≥rter que cobriu os assassinatos para o jornal Zero Hora. ‚ÄúEles brigavam pelo poder e pelo dom√≠nio das galerias.‚ÄĚ

Em 2005, com a morte de Melara, l√≠der dos Manos, o n√ļmero de assassinatos dentro do Casar√£o caiu dramaticamente para apenas dois por ano. A paz repentina n√£o foi uma coincid√™ncia. Sem o velho l√≠der, uma nova gera√ß√£o de presidi√°rios se deu conta de que era melhor parar com as rixas e focar nas vantagem do poder que a Pol√≠cia Militar tinha concedido anos antes. Seguindo o exemplo de fac√ß√Ķes criminosas que atuavam em pres√≠dios do Rio de Janeiro e S√£o Paulo, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), os criminosos resolveram usar a m√°quina do Pres√≠dio Central para manter opera√ß√Ķes criminosas do lado de fora do xadrez. ‚ÄúEles se deram conta que permanecer em estado de guerra atrapalhava os neg√≥cios. Por isso se tornaram mais organizados e come√ßaram a respeitar o espa√ßo um do outro dentro da pris√£o‚ÄĚ, afirma Dorneles. O Casar√£o virou um grande QG ¬†do crime organizado.

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Roberto Silva, 32 anos, olhou atentamente para o presidi√°rio com cara de mal encarado que lhe dava as boas vindas √† cela 39F. Em uma m√£o, ele carregava um conjunto de chaves. Na cintura, tinha um fac√£o pendurado. O homem explicou como as coisas funcionavam dentro do Pres√≠dio Central: a Brigada Militar vigiava os muros do pres√≠dio. Mas, do lado de dentro, quem ditava as regras eram os presos. Pela primeira vez, Silva criou coragem e olhou ao seu redor, para a sua nova casa. Era um longo corredor que tinha dezenas de celas, todas abertas. Cerca de 300 presos circulavam livremente dentro e fora delas. O seu cub√≠culo tinha oito camas de cimento para 20 condenados. Muitos tinham que dormir de valete (um para cada lado) ou em colch√Ķes no ch√£o. O banheiro era um buraco no ch√£o escondido atr√°s de duas pequenas divis√≥rias.

‚ÄúNada te prepara para o que voc√™ v√™ quando entra naquele lugar‚ÄĚ, ele me disse.

Roberto Silva nunca havia sido preso antes de 13 de outubro de 2014. Na verdade, esse n√£o √© o seu nome verdadeiro. Quando eu o entrevistei na sua casa na grande Porto Alegre, ele me pediu para usar um nome falso porque ainda espera julgamento e teme que uma entrevista possa prejudicar a sua imagem perante um juiz. ‚ÄúN√£o era essa a vida que eu queria para mim‚ÄĚ, justificou sentado no sof√° ao lado da mulher. Silva foi criado pelos av√≥s em uma casa de classe m√©dia baixa em Bag√©, no extremo sul do Brasil. Ele se formou no ensino m√©dio, fez um curso profissionalizante de inform√°tica e serviu ao Ex√©rcito. Aos 19¬†anos, mudou-se para Porto Alegre procurando melhores oportunidades de trabalho. Ap√≥s viver de bicos, foi contratado com carteira assinada como operador de empilhadeira em uma f√°brica da General Motors.

O que desviou a sua vida, acredita, foi o azar. Silva fumava at√© quatro baseados¬†por dia desde que tinha 14 anos de idade. E embora a pr√°tica seja ilegal, nunca teve problema de comprar a erva para o uso pessoal. ‚ÄúAt√© que um dia fui comprar um pouco mais para um amigo e, quando eu fui dar para ele a sua parte, um carro da pol√≠cia se aproximou‚ÄĚ, conta. Ele foi preso em flagrante, j√° que carregava consigo sete trouxinhas de maconha, no valor de R$ 300. E quando foi posto em frente a um juiz, foi considerado traficante de drogas. Mesmo sem antecedentes criminais, foi enviado para a pris√£o preventiva enquanto aguardava pelo julgamento, o que poderia demorar at√© um ano. ‚ÄúEu s√≥ pensei: acabou a minha vida‚ÄĚ, lembra.

Quando chegou ao Casar√£o, policiais avisaram que ele poderia escolher qual galeria gostaria de morar. Existem 24 galerias no pres√≠dio, sendo que cada uma √© comandada por um grupo ou fac√ß√£o. Desde os anos 1990, o n√ļmero de fac√ß√Ķes aumentou consideravelmente. Os Manos e os Abertos continuam fortes. Os Brasas adotaram um novo nome: Unidos pela Paz. E novas fac√ß√Ķes foram criadas com base em afilia√ß√Ķes por bairros da cidade. As galerias restantes abrigam presidi√°rios que precisam estar separados por quest√Ķes de seguran√ßa: travestis, homossexuais, agressores de mulheres, ped√≥filos, estupradores, evang√©licos, r√©us prim√°rios e aqueles presos que trabalham para os policiais militares. Presos com curso superior completo (apenas 15 homens em 2015) tamb√©m ocupam uma ala distinta.

[olho]Cada galeria √© administrada por uma ‚Äúprefeitura‚ÄĚ composta por um l√≠der, chamado ‚Äúplant√£o‚ÄĚ, e seus 30 secret√°rios[/olho]

Ao mesmo tempo, a superlota√ß√£o piorou. Hoje, aproximadamente 4.266 presidi√°rios ocupam um espa√ßo destinado a 2.069 presos. Ou seja, o pres√≠dio funciona com mais do que o dobro da sua capacidade. E n√£o existem ind√≠cios de que o problema ir√°¬†diminuir: na m√©dia, 59 presos entram o Pres√≠dio Central todos os dias, enquanto que apenas 54 deixam o local. ¬†De acordo com estat√≠sticas de dezembro de 2015 divulgadas pela Susepe (Superintend√™ncia dos Servi√ßos Penitenci√°rios), a maioria dos novos presos tem entre 18 e 24 anos, n√£o completou o ensino fundamental, identifica-se como branco, e, assim como Silva, foi enviada para a pris√£o como medida preventiva para esperar um julgamento por tr√°fico de drogas. Para tentar segurar a superpopula√ß√£o, ao longo de 2015 por diversas vezes a Justi√ßa ga√ļcha mandou interditar a entrada de novos presos no Central, especificamente aqueles que j√° cumprem ou cumpriram penas. Mas a medida nunca durou muito tempo por gerar outros problemas, j√° que os presos acabavam lotando as celas improvisadas das delegacias da capital.

Silva ficou chocado ao observar o poder que os presidi√°rios conquistaram dentro da pris√£o. Cada galeria √© administrada por uma ‚Äúprefeitura‚ÄĚ, de acordo com a linguagem do Central, composta por um l√≠der, chamado ‚Äúplant√£o‚ÄĚ, e seus 30 secret√°rios. Munidos de fac√Ķes na cintura, o grupo controla todos os aspectos da vida carcer√°ria. Definem, por exemplo, quando as luzes ficam acesas, se as celas ficam abertas ou fechadas (alguns pavilh√Ķes est√£o caindo aos peda√ßos e n√£o t√™m grades nas celas), quem tem direito de dormir nas camas, e at√© mesmo como resolver conflitos entre os presos. Os plant√Ķes tamb√©m assumiram o papel de porta-voz entre os presidi√°rios e a administra√ß√£o do Casar√£o: fazem pedidos de transfer√™ncias, solicitam assist√™ncia jur√≠dica e m√©dica e advogam para que certos bens entrem nas galerias ‚Äď como televisores, fog√Ķes a g√°s e ventiladores. ‚ÄúEles s√£o extremamente organizados‚ÄĚ, afirma.

As prefeituras tamb√©m mant√™m uma liga√ß√£o estreita com fac√ß√Ķes criminosas do lado de fora do pres√≠dio. ‚ÄúOs dois lados est√£o em contato constante atrav√©s de celulares, ou atrav√©s de visitas e agentes penitenci√°rios que levam e trazem informa√ß√Ķes e mercadorias‚ÄĚ, explica Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, professor de Direito da Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e especialista em seguran√ßa p√ļblica. ‚ÄúJ√° n√£o h√° mais uma distin√ß√£o t√£o grande entre os membros que est√£o dentro e fora. Funciona como uma rede‚ÄĚ, afirma. Para as fac√ß√Ķes, manter tent√°culos dentro do Pres√≠dio Central √© extremamente ben√©fico e serve, inclusive, como forma de angariar novos membros. Uma t√°tica infal√≠vel √© bancar os gastos dos presos dentro da pris√£o ‚Äď desde comida at√© colch√£o. A conta pode chegar a R$ 300 por m√™s, e a maioria dos presidi√°rios n√£o tem dinheiro para pagar. S√≥ que existe uma cl√°usula contratual importante que vem com esse empr√©stimo: quando os presos ganham a liberdade, precisam pagar essa d√≠vida, seja em dinheiro ou praticando crimes para a fac√ß√£o. Caso contr√°rio, s√£o mortos.

Fluxo a céu aberto

Enquanto eu esperava para entrevistar Sidinei Brzuska sobre essa liberdade conquistada pelos presos, aproximadamente 10 presidi√°rios l√≠deres de galerias estavam reunidos na sua sala localizada no Pres√≠dio Central. Brzuska, juiz da 2¬™ Vara de Execu√ß√Ķes Criminais de Porto Alegre, admite que faz reuni√Ķes frequentes com esses ‚Äúplant√Ķes‚ÄĚ, com o objetivo de manter uma rela√ß√£o pac√≠fica entre Pol√≠cia Militar e os presidi√°rios. Mas, nesse dia, os criminosos tamb√©m tinham uma reclama√ß√£o para fazer: eles n√£o estavam felizes com o tratamento que novos guardas estavam dando para os presos. ‚ÄúOs guardas estavam sendo um tanto truculentos. E isso √© inaceit√°vel para eles‚ÄĚ, ele me disse quando come√ßamos a entrevista. Em seguida, o juiz confirmou que iria pedir para que os guardas ‚Äúpegassem mais leve‚ÄĚ. O seu trabalho, admitiu, era manter os presos felizes para a panela de press√£o n√£o estourar. Ele n√£o gosta de fazer esse papel, mas acredita que √© o √ļnico jeito de manter a ordem no Casar√£o. ‚ÄúExiste um equil√≠brio fr√°gil aqui dentro, que precisa ser mantido para garantir a seguran√ßa de todos‚ÄĚ, justifica.

O equil√≠brio √© uma saia justa para o Estado. Os presos vivem de forma pac√≠fica e n√£o realizam fugas ou rebeli√Ķes. Mas, atrav√©s do poder de amea√ßa, conseguiram adquirir tanto poder dentro da pris√£o que chegam a desenvolver as mesmas atividades criminosas que praticavam antes de serem presos. Entre elas, est√° a venda e o uso de drogas. ‚ÄúEu costumava comprar maconha toda a hora‚ÄĚ, Silva revelou. ‚ÄúEles vendiam coca√≠na, maconha e crack de bandeja, inclusive nos dias de visita, e frequentemente os guardas observavam a transa√ß√£o sem interferir.‚ÄĚ A atividade se tornou p√ļblica com a divulga√ß√£o de um v√≠deo em dezembro de 2014 que mostrava dezenas de presos fazendo fila para cheirar coca√≠na dentro de uma das galerias. O v√≠deo, que virou not√≠cia nacional, foi enviado por uma fonte de dentro da pris√£o para o rep√≥rter Renato Dorneles, que hoje trabalha para o jornal Di√°rio Ga√ļcho.

Maconha, crack e coca√≠na, assim como armas e celulares, s√£o supridas pelos membros das fac√ß√Ķes que est√£o do lado de fora do Central. Para eles, o Pres√≠dio Central virou um grande mercado a ser abastecido, e os lucros das vendas s√£o divididos entre os membros que est√£o do lado de dentro e fora do muro. De acordo com Brzuska, os itens entram no¬†Casar√£o com a ajuda de familiares. Afinal de contas, uma m√©dia de 230 mil pessoas visitam os presos a cada ano ‚Äď na maioria esposas, m√£es e irm√£s. E, apesar de passarem por esc√Ęneres de seguran√ßas vestindo apenas a roupa de baixo, mulheres s√£o frequentemente flagradas trazendo pequenos pacotes de drogas ou telefones celulares dentro de peda√ßos de p√£o, t√™nis, ou brinquedos de crian√ßas ‚Äď para citar alguns dos meios mais comuns.

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Crédito: Daniel Marenco
Crédito: Daniel Marenco

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‚ÄúEu vi mulheres tirarem as cal√ßas, se abaixarem e inserirem drogas em¬†suas vaginas enquanto esperavam para passar no esc√Ęner‚ÄĚ, explica a esposa de Silva, que costumava visitar ele duas vezes por semana. Essa √© apenas uma das lembran√ßas amargas que guarda dos dias de visita√ß√£o. Ela tinha que entrar na fila por volta das 3h da manh√£ do lado de fora do pres√≠dio para garantir que conseguiria entrar na cadeia para ver o marido at√© o meio da manh√£. L√° dentro, passava o dia circulando na galeria onde Silva morava e o p√°tio adjacente, entre ratos, lixo e esgoto. Para matar a saudade do marido, se submetia a visitas conjugais controladas de perto pelos plant√Ķes. Com len√ß√≥is pendurados no teto, uma cela era transformada em dois quartos de motel onde os casais tinham 15 minutos para transar ‚Äď e nem um minuto a mais, a n√£o ser que pagassem por isso.

Em dezembro de 2014, o juiz Brzuska e a Brigada Militar fizeram uma tentativa de reconquistar um pouco de controle sobre o contrabando no pres√≠dio, introduzindo um esc√Ęner de corpo de alta tecnologia, no qual os visitantes n√£o precisavam nem tirar a roupa. Desde que o sistema foi implantado, uma grande quantidade de drogas foi apreendida na porta de entrada do pres√≠dio. Mas os itens ilegais n√£o deixaram de circular entre os presos. ‚ÄúFamiliares e membros do crime organizado agora jogam pacotes de drogas por cima dos muros‚ÄĚ, explica Brzuska. Al√©m disso, √© comum ver ratos correndo pela institui√ß√£o vestindo colares feitos de pedras de crack, e camundongos com pacotes de coca√≠na costurados na barriga.

Ao mesmo tempo, suspeita-se que guardas tenham os seus pr√≥prios acordos com os presos. Em 2013, um policial militar do Casar√£o foi preso com v√°rios celulares, meio quilo de maconha e muitas pedras de crack no seu arm√°rio. ‚ÄúOs criminosos sempre encontram um jeito, n√£o desistem nunca‚ÄĚ, lamenta Brzuska. E, depois que os itens ilegais entram para dentro do pres√≠dio, n√£o √© f√°cil detect√°-los. A Brigada Militar realiza buscas uma vez por semana nas galerias. Mas os presos t√™m tantos recursos que chegam a usar cimento para esconder os produtos nas paredes. E como as paredes s√£o sujas e manchadas, √© dif√≠cil perceber emplastros de cimento fresco. Em algumas galerias, os presos usam outro artif√≠cio: penduram len√ß√≥is coloridos nas celas, como se fossem papel de parede.

Al√©m do lucro proveniente do mercado negro, as fac√ß√Ķes criminosas tamb√©m ganham dinheiro mantendo um mercado legal dentro do Pres√≠dio Central. Eles administram cantinas dentro das galerias, onde os presos compram todos os tipos de produtos, desde sab√£o para roupas at√© bolachas. Os presos precisam desse servi√ßo, j√° que o governo n√£o oferece produtos de limpeza ou higiene e apenas o essencial de comida: arroz, feij√£o, p√£o e ovo. Comida que, segundo Silva, n√£o √© suficiente para todos e ‚Äútem um gosto horr√≠vel‚ÄĚ. S√≥ que os chefes das fac√ß√Ķes criminosas definiram que s√≥ os plant√Ķes podem comprar itens para serem revendidos nas cantinas. E eles devem revender os produtos com um acr√©scimo de 400% no pre√ßo. Parte do lucro fica com a c√ļpula das fac√ß√Ķes e parte com os plant√Ķes, o que faz do cargo uma op√ß√£o de carreira um tanto invejada l√° dentro. ‚ÄúA verdade √© que, para os presidi√°rios que coordenam as galerias, √© um bom neg√≥cio estar preso‚ÄĚ, afirma o rep√≥rter Dorneles. ‚ÄúEles ganham mais dinheiro l√° dentro do que ganhariam do lado de fora. E ainda tem direito a v√°rios benef√≠cios, como as suas pr√≥prias camas, TV de plasma, freezer e drogas √† vontade.‚ÄĚ

[olho]”Em buracos de 1 metro por 1,5 metro, dormindo em camas de cimento, os presos convivem em sujeira, mofo e mau cheiro insuport√°vel”[/olho]

Outra forma que as organiza√ß√Ķes lucram com o Pres√≠dio Central √© incentivando os presos a continuar trabalhando. Os chef√Ķes do crime ganham uma porcentagem sobre qualquer atividade econ√īmica desenvolvida nas galerias. Fernando Marques, 36 anos, que estava cumprindo pena de 104 anos por assalto a m√£o armada, era um desses ‚Äútrabalhadores‚ÄĚ. Sem nunca deixar os corredores do pavilh√£o D, ganhava pelo menos R$ 5 mil por m√™s no ano de 2014 aplicando o ‚Äúgolpe do aluguel‚ÄĚ. Ele usava um telefone celular para colocar dois an√ļncios nos jornais locais. Um anunciava uma vaga para uma secret√°ria; o outro, um apartamento para alugar. Pelo telefone, a secret√°ria era contratada e instru√≠da a ir numa imobili√°ria pegar a chave de um apartamento espec√≠fico que estava para alugar. A seguir, era orientada a mostrar o im√≥vel aos interessados.

Assim que alguma v√≠tima decidisse alugar o apartamento, a secret√°ria recolhia um valor equivalente a um m√™s de aluguel e repassava o dinheiro para uma comparsa do preso que estava em liberdade. S√≥ mais tarde, quando j√° estava planejamento a mudan√ßa, a v√≠tima se dava conta que o apartamento na verdade n√£o pertencia ao homem com quem tinha negociado pelo telefone. ‚ÄúEle enganou muita gente at√© ser preso‚ÄĚ, afirma a delegada Carmem Regio, de tr√°s da sua mesa de trabalho na 17¬™ Delegacia de Pol√≠cia de Porto Alegre. ‚ÄúE a gente s√≥ descobriu que ele estava dentro do Pres√≠dio Central porque realizamos escutas telef√īnicas, e percebemos que ele estava sempre no mesmo lugar ‚Äď bem onde fica o pres√≠dio‚ÄĚ, afirmou. Assim que o crime foi descoberto, um juiz emitiu um mandado de pris√£o para Marques ‚Äď um epis√≥dio especialmente esquizofr√™nico do sistema carcer√°rio brasileiro considerando que o suspeito j√° estava dentro da cadeia. O criminoso acabou sendo transferido para a pris√£o de seguran√ßa m√°xima de Charqueadas, onde a Justi√ßa tinha a esperan√ßa de que ele n√£o teria mais condi√ß√Ķes de praticar o golpe. Os seus advogados t√™m tentado, desde ent√£o, a sua transfer√™ncia de volta para o Pres√≠dio Central.

Para Renato Dorneles, esse √© um exemplo cl√°ssico que explica como o Pres√≠dio Central virou uma pris√£o de mentirinha. ‚ÄúN√£o existe isolamento porque os presos continuam em contato com o mundo exterior atrav√©s dos celulares. N√£o existe preven√ß√£o do crime porque eles continuam a vender drogas e cometer crimes do lado de dentro. E n√£o existe reabilita√ß√£o porque na verdade eles saem muito piores do que entraram‚ÄĚ, resume. A solu√ß√£o, segundo ele, seria investir mais na institui√ß√£o, tanto na infraestrutura quanto no n√ļmero de policiais (hoje s√£o 3 guardas para cada mil presos, sendo que a recomenda√ß√£o do Conselho Penitenci√°rio Estadual √© de 1 para cada 5). Mas o jornalista sabe que a proposta esbarra na opini√£o de muitos brasileiros que acreditam que o governo n√£o deve gastar dinheiro com criminosos. ‚ÄúO que a popula√ß√£o n√£o entende‚ÄĚ, explica, ‚Äú√© que ao n√£o investir no Pres√≠dio Central, o governo est√° ajudando a incentivar o crime organizado e as atividades criminais‚ÄĚ.

Diante da mesma suspeita, em 2009, a C√Ęmara dos Deputados conduziu uma CPI sobre o sistema carcer√°rio. Ap√≥s oito meses de investiga√ß√£o, quando os deputados visitaram a maioria das pris√Ķes no pa√≠s, a comiss√£o concluiu que o Brasil tinha 422 mil presos, n√ļmero que excedia a capacidade dos pres√≠dios em 34% (hoje excede em 38%). Os parlamentares ainda advertiram que o Pres√≠dio Central era a pior cadeia do Brasil, uma verdadeira masmorra do s√©culo 21. ‚ÄúEm buracos de 1 metro por 1,5 metro, dormindo em camas de cimento, os presos convivem em sujeira, mofo e mau cheiro insuport√°vel. Paredes quebradas e celas sem portas, privadas imundas (a √°gua s√≥ √© liberada uma vez por dia), sacos e roupas pendurados por todo lado… uma vis√£o dantesca, grotesca, surreal, absurda e desumana. Um descaso!‚ÄĚ, est√° escrito no relat√≥rio final. Os membros recomendaram que sete pessoas ligadas ao Pres√≠dio Central fossem responsabilizadas criminalmente, entre eles √Čden Moraes, ent√£o diretor da institui√ß√£o. No fim, a recomenda√ß√£o n√£o foi acatada, mas a repercuss√£o na m√≠dia nacional foi grande.

Outra den√ļncia contra o Pres√≠dio Central se tornou p√ļblica em 2012, quando uma inspe√ß√£o realizada dentro da institui√ß√£o revelou que a infraestrutura estava consideravelmente danificada. A inspe√ß√£o foi realizada pela Ordem dos Advogados do Brasil do Rio Grande do Sul (OAB-RS) e pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (CREA-RS), preocupados com o estado dos pr√©dios do complexo prisional. O relat√≥rio final apontou corros√£o e rachaduras nas paredes, fia√ß√£o el√©trica exposta, falta de esgoto encanado e a prolifera√ß√£o de diversos insetos e roedores. O pres√≠dio estava em estado cr√≠tico, conclu√≠ram, e n√£o havia manuten√ß√£o que pudesse salvar as constru√ß√Ķes.

Em janeiro de 2013, a quest√£o chegou ao conhecimento internacional. A OAB-RS uniu for√ßas com outras entidades locais, como a Associa√ß√£o dos Ju√≠zes do Rio Grande do Sul (Ajuris-RS), e fez uma den√ļncia formal para a comiss√£o de direitos humanos da Organiza√ß√£o dos Estados Americanos (OEA). O objetivo era que a organiza√ß√£o internacional pressionasse o governo brasileiro a tomar alguma atitude com rela√ß√£o ao Central. Em 2014, a OAB-RS fez outra reclama√ß√£o, desta vez para o conselho de direitos humanos da ONU (incluindo tamb√©m o pres√≠dio Pedrinhas, do Maranh√£o). ‚ÄúComo pode o Brasil pleitear um posto permanente no Conselho de Seguran√ßa da ONU quando n√£o consegue seguir as recomenda√ß√Ķes de direitos humanos desta mesma entidade?‚ÄĚ, questionou o presidente¬†da OAB-RS, Ricardo Breier, durante uma entrevista no pr√©dio da entidade em Porto Alegre. As reclama√ß√Ķes tiveram alguma repercuss√£o. Em mar√ßo de 2013, a OEA enviou uma carta ao governo brasileiro pedindo que medidas urgentes fossem tomadas para resolver a situa√ß√£o. A presidente Dilma Rousseff, por meio da sua equipe, respondeu dizendo que o governo federal estava ‚Äúrealizando melhorias‚ÄĚ. Mas pouco mudou at√© agora.

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Airton Michels, que √© n√£o √© particularmente uma pessoa atl√©tica, balan√ßou uma marreta como se fosse um p√™ndulo com a sua m√£o direita at√© bater na parede de tijolos e fazer um estrago consider√°vel. A plateia aplaudiu a cena. ‚ÄúN√£o √© mais poss√≠vel conviver com uma casa assim‚ÄĚ, anunciou, naquela ter√ßa-feira, 14 de outubro de 2014. Michels, ent√£o secret√°rio Estadual de Seguran√ßa, tinha reunido a imprensa no Pres√≠dio Central para come√ßar, finalmente, a demoli√ß√£o do velho Casar√£o. O governador ga√ļcho de ent√£o, Tarso Genro, estava no final do mandato e integrava a linhagem de l√≠deres que haviam prometido destruir o pres√≠dio. O objetivo era destruir o pavilh√£o C (que estava em pior estado) em apenas 30 dias. Logo depois, o pavilh√£o D seria demolido. O custo estimado para a opera√ß√£o era de R$ 1,1 milh√£o. Apenas ficariam de p√© pavilh√Ķes mais novos.

Tendo cumprido a sua miss√£o oficial, Michels entregou a marreta para a equipe de demoli√ß√£o e se aproximou dos rep√≥rteres para dar entrevistas. Ele explicou que, em at√© tr√™s meses, restariam apenas 500 detentos no local. ‚ÄúVamos esvaziar o Pres√≠dio Central, mandando presos para outras pris√Ķes que est√£o sendo constru√≠das nesse momento em outras cidades. Tanto que j√° retiramos 900 presos para come√ßar‚ÄĚ, anunciou.

O plano era que a maior parte dos presidi√°rios fossem transferidos para um complexo prisional moderno que seria constru√≠do em Canoas com lugar para 2.415 condenados. A constru√ß√£o da institui√ß√£o, no entanto, encontrou uma s√©rie de problemas: o processo de licita√ß√£o foi lento e conturbado, a rede el√©trica da estrutura nunca funcionou e faltou dinheiro para construir a estrada de acesso para o complexo. Outras tr√™s pris√Ķes que tamb√©m serviriam para desafogar o Central tiveram problemas semelhantes envolvendo burocracia, falta de recursos e incompet√™ncia administrativa. At√© hoje, nenhuma das pris√Ķes foi inaugurada. Como resultado, os presidi√°rios que haviam sido transferidos do Pres√≠dio Central at√© a marretada de Michels tiveram que voltar para o pres√≠dio meses depois. O problema √© que, agora, o Casar√£o tinha um pavilh√£o a menos, e a cadeia chegou a um recorde de superlota√ß√£o.

Diante do cen√°rio ca√≥tico, a administra√ß√£o do Central e os governos estadual e federal passaram a jogar a culpa um no outro. O juiz Brzuska culpou o governo estadual por precipitar a demoli√ß√£o do pavilh√£o C. ‚ÄúFoi uma jogada pol√≠tica. Estava terminando o mandato do governador Tarso Genro, e ele queria mostrar que ia cumprir com essa promessa de governo‚ÄĚ, ele me disse dentro do seu escritorio. O governo federal tamb√©m culpou o Estado, dizendo que a inst√Ęncia falhou ao n√£o conseguir construir pres√≠dios j√° aprovados e financiados. ‚ÄúEm 2012, n√≥s fomos for√ßados a cancelar o financiamento para novos pres√≠dios porque o governo estadual n√£o mostrou qualquer iniciativa para constru√≠-los‚ÄĚ, afirmou Renato Campos de Vitto, diretor do Departamento Penitenci√°rio Nacional (Depen) em uma reuni√£o que ocorreu no dia 13 de maio de 2015, em Porto Alegre. Enquanto isso, o governo estadual se defendeu na imprensa, dizendo que n√£o teve culpa dos imprevistos. Para Eug√™nio Couto Terra, presidente da Ajuris-RS, tanto o governo federal quanto o estadual t√™m culpa nessa hist√≥ria. ‚ÄúO governo federal nem sempre tem o dinheiro que diz ter. Ao mesmo tempo, o Estado √© muito lento para encaminhar os recursos que v√™m do governo federal, principalmente porque a cada quatro anos muda o governador, e portanto tamb√©m mudam as prioridades.‚ÄĚ

Escola do crime

Aos poucos, Roberto Silva, o homem que foi preso carregando sete trouxinhas de maconha, foi se adaptando ao sistema do Presídio Central e se tornou bem visto entre os presos da sua galeria. No início, Silva foi elogiado porque sabia cozinhar arroz, feijão e frango, habilidades importantes dentro de uma instituição onde a comida fornecida pelo Estado tem um gosto horroroso. Em seguida, foi apontado como um dos secretários do plantão, com a responsabilidade de coordenar a sua cela e os 20 poucos presos que moravam no cubículo. Após alguns meses, Silva passou a usar um facão na cintura e dar as boas-vindas para novos presos, explicando como as coisas funcionavam dentro do xadrez. Como parte desta promoção, ganhou alguns benefícios: podia dormir sozinho em uma cama e conseguiu comprar um telefone celular que usava para ligar para a mãe e a esposa várias vezes ao dia.

Enquanto isso, a esposa de Silva, uma professora de escola p√ļblica, ficou cada vez mais preocupada com o marido. ‚ÄúEu n√£o queria mais pisar naquele lugar. Eu n√£o queria mais olhar para a cara das pessoas que estavam l√°. N√£o queria mais passar pelo que a gente estava passando. Eu n√£o queria mais estar t√£o sem dinheiro ‚ÄĒ‚Ää por causa do custo de vida dentro do pres√≠dio. Eu nunca chorei tanto na minha vida‚ÄĚ, ela me disse. A sua √ļnica esperan√ßa era contratar Vladimir Amorim, um advogado que, de acordo com os boatos que corriam nos corredores do Casar√£o, fazia milagres ao conseguir a liberdade para condenados na mesma situa√ß√£o que Silva. E, melhor ainda, deixava os clientes pagarem pelo seu servi√ßo em presta√ß√Ķes.

Amorim era benquisto pelos presos porque ele havia sido um deles. O advogado veio de uma fam√≠lia de classe m√©dia baixa e, aos 25 anos, acabou no Pres√≠dio Central ap√≥s atirar em um conhecido. ‚ÄúTodo mundo andava armado naquela √©poca e, no meio de uma discuss√£o, eu acabei atirando no cara. Mas ele sobreviveu, gra√ßas a Deus‚ÄĚ, ele me disse quando nos encontramos em uma cafeteria. Enquanto estava preso, dividindo o ch√£o da galeria com outros presos para dormir, ele teve uma revela√ß√£o. ‚ÄúOs presidi√°rios s√£o seres humanos, muitos querem ter uma vida melhor mas n√£o tiveram oportunidade. E porque s√£o t√£o pobres n√£o conseguem ter acesso a advogados que realmente os ajudam.‚ÄĚ Quando foi solto em liberdade condicional, ele fez uma promessa para si mesmo: iria voltar um dia para o Pres√≠dio Central como advogado, para ajudar aqueles homens. Aos 28 anos, completou um supletivo de Ensino M√©dio e passou no vestibular de direito da Ulbra, uma faculdade privada situada em Canoas, na Regi√£o Metropolitana de Porto Alegre. Demorou oito anos para conseguir pagar todas as cadeiras da faculdade e finalmente se formar.

Desde que come√ßou a trabalhar como advogado, seu foco tem sido ajudar presos como Roberto Silva, pessoas simples que est√£o no Pres√≠dio Central cumprindo pena por tr√°fico, ou seja, 76% da popula√ß√£o da institui√ß√£o. ‚ÄúEm geral, estavam carregando uma quantidade pequena de drogas para uso pessoal e ainda assim foram considerados traficantes‚ÄĚ, afirma. De acordo com Amorim, os ju√≠zes est√£o acostumados a tomar essas decis√Ķes com base na cor e classe social dos acusados. ‚ÄúTu pode carregar uma certa quantidade de maconha se for rico e tiver estudado. Eles v√£o te considerar consumidor, e a pena √© m√≠nima. Mas se tu tiver a mesma quantidade de maconha e for pobre, preto e morar na favela, eles v√£o te enquadrar como traficante. E tu vai preso.‚ÄĚ Essa tend√™ncia ficou pior com a nova legisla√ß√£o de drogas do Brasil, que deixou menos clara as defini√ß√Ķes para consumidor e traficante, dando aos ju√≠zes mais poder de decis√£o com rela√ß√£o √†s senten√ßas. Os n√ļmeros s√£o impressionantes: desde 2005, quando a nova legisla√ß√£o entrou em vigor, a popula√ß√£o carcer√°ria do Brasil aumentou 66%, de acordo com n√ļmeros divulgados pelo governo federal.

Quando Amorim assumiu o caso de Silva, outros advogados já tinham tentado pedir a sua liberdade condicional, sem sucesso. Amorim resolveu levar o caso até a máxima instancia possível, o Supremo Tribunal Federal (STF). E, para a surpresa de todos, o juiz Luis Roberto Barroso não apenas decidiu a favor da sua liberdade, como usou o seu caso para exemplificar um problema ainda maior do sistema carcerário brasileiro. Ele escreveu cinco páginas justificando porque que alguém como Silva não deveria estar vivendo no Central. Em um dos parágrafos, relata:

No atual sistema prisional brasileiro, enviar jovens, geralmente prim√°rios, para o c√°rcere, em raz√£o do tr√°fico de quantidades n√£o significativas de maconha, n√£o traz benef√≠cios √† ordem p√ļblica. Pelo contr√°rio, a degrada√ß√£o a que os detentos s√£o submetidos na grande maioria dos estabelecimentos e a aus√™ncia de separa√ß√£o dos internos entre prim√°rios e reincidentes e entre provis√≥rios e condenados, transformam os pres√≠dios em verdadeiras “escolas do crime”. Presos que cometeram ou s√£o acusados de ter cometido crimes de menor potencial lesivo passam a ter conex√Ķes com outros criminosos mais perigosos, s√£o arregimentados por fac√ß√Ķes e frequentemente voltam a delinquir ap√≥s sa√≠rem das pris√Ķes.

No dia 8 de maio de 2015, o STF ordenou que Silva fosse solto imediatamente. A decis√£o foi um prel√ļdio do que viria a seguir. Vendo casos como o de Roberto Silva com frequ√™ncia, em agosto de 2015 os ju√≠zes do STF come√ßaram uma vota√ß√£o sobre a descriminaliza√ß√£o do porte de drogas para consumo pessoal. At√© agora, tr√™s ministros j√° defenderam que o consumo pr√≥prio de maconha n√£o deveria ser crime. Mas a vota√ß√£o foi interrompida quando o ministro Teori Zavascki pediu vista ao processo.

Dentro do Pres√≠dio Central, Silva foi surpreendido pela boa not√≠cia. ‚ÄúEu fiquei t√£o feliz que comecei a gritar dentro da galeria que eu estava indo embora e que nunca mais iria voltar‚ÄĚ, lembra. Silva saiu pela porta da frente e abra√ßou a mulher. Agora, relendo a decis√£o do STF na minha frente, ele se emociona. ‚ÄúO juiz estava certo. Se eu tivesse ficado no pres√≠dio um pouco mais, eu n√£o sei no que teria me tornado. Provavelmente eu sairia um dia com sede de vingan√ßa e iria atr√°s do cara que pediu para eu comprar drogas para ele naquele dia. E da√≠, n√£o teria mais volta‚ÄĚ, disse. Silva agora aguarda o seu julgamento em liberdade. Desde que saiu, conseguiu um emprego em uma lanchonete com um amigo, e depois de alguns meses voltou a trabalhar como operador de empilhadeira para uma grande empresa. Mas ele vive com o peso de saber que talvez ainda tenha de voltar para a pris√£o. E o Pres√≠dio Central talvez ainda esteja de p√©, pronto para receb√™-lo de bra√ßos abertos.

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Esta reportagem foi produzida originalmente pelo Bang e editada pela Agência Fronteira em parceria com o Risca Faca. 

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Comportamento

A confraria do pinball

A primeira coisa que Iure Gomes fez ao abrir as portas do Pinball Clube de S√£o Paulo, no bairro do Cambuci, foi dar as boas-vindas e, antes que eu¬†formulasse qualquer pergunta, disparou escada acima. Fazendo um gesto de ‚Äúvem comigo‚ÄĚ, bradou: ‚Äú√Č aqui que acontece a m√°gica‚ÄĚ, e novamente desembestou a andar entre as fileiras de m√°quinas de pinball alinhadas pelo espa√ßo. A cada dois ou tr√™s metros, sempre falante, ele parava, ligava uma ou outra m√°quina, fazia demonstra√ß√Ķes e at√© removia o tamp√£o de vidro para revelar detalhes de cada pe√ßa. Em poucos minutos percorremos todo o im√≥vel enquanto Gomes se empenhava na meta de transmitir o m√°ximo de informa√ß√Ķes poss√≠vel a respeito daquela cultura. Aos 44 anos, o diretor comercial de uma empresa de TI √© um dos s√≥cios fundadores do clube, inaugurado em 2003. Atualmente, a agremia√ß√£o conta com 25 s√≥cios e 120 m√°quinas.

‚ÄúO clube √© fechado para os s√≥cios‚ÄĚ, explica. ‚ÄúN√≥s nos encontramos todas as ter√ßas, quintas e s√°bados, e isso aqui √© como se fosse a nossa confraria. O nosso ref√ļgio.‚ÄĚ O acesso restrito ilustra o fato de que a pr√°tica do pinball, no passado h√°bito corriqueiro dos bairros populares, com seus fliperamas disputados por office boys e estudantes a matarem aula, nos √ļltimos anos virou uma esp√©cie de hobby de luxo. A maioria dos s√≥cios do Pinball Clube de S√£o Paulo, na faixa dos 40 anos, √© um pessoal t√£o empolgado quanto¬†Iure. Colecionadores de not√°vel poder aquisitivo, j√° que essas m√°quinas, bem como sua manuten√ß√£o, demandam um belo investimento. Para se ter ideia, uma m√°quina nova custa em torno de R$ 35 mil, e pode chegar at√© mais de R$ 50 mil, dependendo do modelo. J√° uma m√°quina restaurada, antiga, custa em torno de R$ 22 mil. Cada integrante do clube tem, no m√≠nimo, uma dezena delas.

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Iure Gomes entre duas de suas máquinas. Crédito: Guilherme Santana
Iure Gomes entre duas de suas máquinas. Crédito: Guilherme Santana

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Quando chega algu√©m novo querendo ser s√≥cio, espera-se que o aspirante coloque pelo menos duas m√°quinas l√° dentro. Fora isso, todos devem colaborar com os gastos de manuten√ß√£o do lugar, do aluguel ao IPTU. O uso dos equipamentos √© compartilhado livremente entre eles. Gomes, por exemplo, disponibiliza nove m√°quinas no clube. Segundo ele, a obriga√ß√£o de cada membro √© manter as suas funcionando e em bom estado, ‚Äúpara n√£o virar dep√≥sito‚ÄĚ. ‚ÄúN√£o existe inten√ß√£o de ganhar dinheiro com o clube. N√£o queremos que o lugar fique lotado, e sim reunir um grupo de pessoas com um interesse em comum para bater papo. No final das contas, vira uma fam√≠lia‚ÄĚ, observa o nosso cicerone. E complementa: ‚ÄúO perfil do pessoal √© bem heterog√™neo. Aqui voc√™ vai encontrar piloto de avi√£o, assessor de imprensa, advogado, executivo, empreendedor, engenheiro. Todos unidos por essa paix√£o em comum que √© o pinball.‚ÄĚ

O modelo do Pinball Clube de S√£o Paulo √© replicado em outras cidades. Atualmente, funcionam outras duas c√©lulas no estado do Rio de Janeiro ‚Äď uma na capital e outra em Petr√≥polis ‚Äď e mais duas no estado de S√£o Paulo, em Boituva e no ABC paulista. Gomes revela que h√° iniciativas de expandir para Belo Horizonte, Porto Alegre e Caruaru, e explica: ‚ÄúQuando falamos em filial, n√£o significa que o s√≥cio tem a chave de acesso aos outros clubes, mas existe uma pol√≠tica muito legal de boa vizinhan√ßa. S√≥ se paga para entrar quando temos as etapas do Campeonato Brasileiro, que passa por Petr√≥polis, ABC e S√£o Paulo, onde rola a final. Ou, duas vezes por ano, sem data certa, quando abrimos para o p√ļblico‚ÄĚ. Os eventos open house aos quais ele se refere s√£o anunciados nas redes sociais.

S√£o recorrentes entre os membros do clube as declara√ß√Ķes de que a nostalgia funciona como o maior atrativo da retomada do pinball. O pr√≥prio Iure Gomes teve contato com o pinball aos quatro anos de idade e nunca mais parou. ‚ÄúMeus pais me colocavam numa cadeirinha, eu botava o queixo naquela barra de metal do vidro da m√°quina, estendia os bra√ßos, e jogava completamente esticado. Eu tamb√©m pirava naqueles pequenos arcades: Space Invaders, Aster√≥ide, Bazuca, e por a√≠ afora. Tem foto minha, bem pequeno, jogando‚ÄĚ, relembra. O advogado Cid Rudis, de 41 anos, foi tragado por este universo aos sete anos. ‚ÄúEu sou carioca. Morava em Copacabana e l√° tinha um fliperama. Eu me lembro at√© hoje da primeira m√°quina que chegou com voz. Quando eles tiraram da caixa e ela emitiu o som de fala, foi um neg√≥cio inacredit√°vel‚ÄĚ, conta. Isso foi em 1981.

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Crédito: Guilherme Santana
Uma das m√°quinas de ‘Star Wars’. Cr√©dito: Guilherme Santana

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Rudis √© da gera√ß√£o das m√°quinas Taito, que dominaram o mercado nacional entre 1972-85 com franquias como Cavaleiro Negro, Fire Action e Oba Oba. ‚ÄúA Oba Oba eu jogava com meu pai, ele era amigo do [Osvaldo] Sargentelli, dono da casa de shows Oba Oba, no Rio. Meu pai j√° morreu. Me lembro at√© hoje do dia que reencontrei uma Oba Oba depois de 30 anos. Chorei. Veio aquele mar de recorda√ß√Ķes‚ÄĚ, comenta sem conseguir esconder a emo√ß√£o. ‚ÄúFoi quando senti que precisava trazer o pinball de volta para a minha vida.‚ÄĚ Treze das m√°quinas mantidas no clube paulistano s√£o dele. Fora isso, Rudis √© dono de mais cinco arcades (m√°quinas multijogos) e outras duas m√°quinas de pinball, que est√£o em sua casa.

Das 220 m√°quinas que ocupam os dois andares do clube carioca, 70 pertencem ao seu fundador, o gerente de TI M√°rio S√©rgio da Rocha, 40 anos. ‚ÄúTudo no pinball me fascina‚ÄĚ, discorre ele sobre os maiores atrativos da pr√°tica. ‚ÄúMas a nostalgia tem um peso maior. Faz eu me recordar da √©poca de inf√Ęncia e adolesc√™ncia, quando as preocupa√ß√Ķes da minha vida eram ganhar uma bola extra ou um novo cr√©dito com aquela fichinha comprada com o dinheiro suado. As economias do lanche da escola ou do √īnibus.‚ÄĚ Ele tamb√©m chama a aten√ß√£o para a jogabilidade f√≠sica das m√°quinas. ‚ÄúA bola nunca tra√ßa o mesmo caminho. Por isso, cada partida √© uma partida. Duas m√°quinas iguais, lado a lado, v√£o te oferecer um jogo totalmente diferente. Isso tem a ver com a eleva√ß√£o do playfield, o estado das borrachas, entre outros fatores.‚ÄĚ Na ativa desde 2003, o clube do Rio hoje conta com 20 s√≥cios.

A hist√≥ria de Ricardo Kobe √© menos emo√ß√£o e mais fissura. Aos 52 anos, ele √© dono de uma loja voltada ao p√ļblico geek. Como todo nerd, Kobe curte colecionar uma variedade de artigos que remetem √† cultura pop. E o pinball, para ele, √© parte desse barato. Hoje, ele √© dono de onze m√°quinas, mas conta que j√° chegou a ter 56 ‚Äď vendeu para investir na abertura da loja. A primeira aquisi√ß√£o foi em 1989, uma Fire Action da Taito. ‚ÄúO que eu mais gosto no pinball s√£o os temas das m√°quinas. Tipo a Tommy, do The Who. Essa m√°quina √© fant√°stica‚ÄĚ, comenta. ‚Äú√Äs vezes voc√™ acha algo muito raro e sabe que, se n√£o fizer a doideira de comprar, vai perder a oportunidade.‚ÄĚ Uma dessas ‚Äúdoideiras‚ÄĚ ele cometeu na feirinha da 13 de maio. ‚ÄúA certo ponto da caminhada olhei para o lado e vi uma m√°quina de 1957. Sem minha mulher perceber, dei meu cart√£o para o cara e falei: ‚ÄėAmigo, essa m√°quina √© minha. Cubra ela e me ligue amanh√£. S√≥ n√£o levo para casa agora porque minha mulher n√£o pode saber‚Äô.‚ÄĚ Por muitos anos, a mulher de Kobe achou que ele possu√≠a apenas tr√™s m√°quinas, enquanto ele j√° tinha investido em mais de trinta.

O analista de sistemas Marcelo Pereira Batista, 48 anos, √© o fundador do clube de Petr√≥polis (Imperial Pinball Clube) e acaba de faturar o t√≠tulo de Campe√£o Brasileiro de Pinball. Em abril, ele vai para os Estados Unidos disputar o mundial. Segundo MPBola, como √© chamado no √Ęmbito do pinball competitivo, ‚Äúexiste uma cena mundial forte no mundo atualmente, por√©m restrita a colecionadores, j√° que n√£o temos mais fliperamas por a√≠ como nos anos 80‚ÄĚ. Inaugurado em 2013, o clube de Petr√≥polis j√° conta com 40 m√°quinas, em sua maioria adquiridas em sites de compra na internet. ‚ÄúAlgumas n√≥s tivemos que mandar restaurar. Outras, ainda est√£o em seu estado original, mas em perfeitas condi√ß√Ķes de uso‚ÄĚ, informa. Diferente do clube de Petr√≥polis, a cole√ß√£o de m√°quinas que deu vida √†s unidades do Rio e de S√£o Paulo guarda um aventureiro hist√≥rico de ca√ßa ao tesouro.

Muitos exemplares raros funcionando em perfeito estado, como a Ace High, cria√ß√£o da Gottlieb de 1957, as eletromec√Ęnicas Drakor, lan√ßadas pela Taito em 79, a cl√°ssica m√°quina Tommy, inspirada na √≥pera rock do The Who, lan√ßada pela Data East em 90, correram o risco de virar entulho. ‚ÄúNa hora de se desfazer delas, a √ļnica op√ß√£o que o cara tinha era desmontar ou destruir. Ent√£o a gente come√ßou a fazer um resgate‚ÄĚ, explica MPBola. Nesse sentido, o conceito que deu vida aos clubes pode ser entendido como o de um museu, mesmo n√£o se tratando de uma organiza√ß√£o formal. ‚Äú√Č a gente que salva as m√°quinas‚ÄĚ, frisa Iure Gomes. ‚ÄúPegamos aquelas que est√£o para ser destru√≠das e conseguimos recuper√°-las. Tem muita hist√≥ria de resgate de m√°quina que estava para ser queimada. Em alguns casos, vimos lugares onde as m√°quinas j√° estavam queimadas, restando apenas os metais‚ÄĚ, lamenta.

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Nikolaos Mbakirtzis fuçando as entranhas de uma das máquinas. Crédito: Guilherme Santana
Nikolaos Mbakirtzis fuçando as entranhas de uma das máquinas. Crédito: Guilherme Santana

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O Brasil j√° teve diversos fabricantes de pinball. Um dos √ļltimos fabricantes foi a Taito, a marca mais bem-sucedida e dona de uma produ√ß√£o gigantesca no per√≠odo de atua√ß√£o. As atividades da empresa se encerraram no azul, sem d√≠vidas. Ela simplesmente saiu do pa√≠s e n√£o recolheu o ativo. Ent√£o, quem tinha um fliperama com m√°quinas da Taito, passou a ser dono. E foi isso que tornou as coisas interessantes para os colecionadores. As m√°quinas permaneciam nesses lugares, mas os t√©cnicos que geralmente faziam as visitas de manuten√ß√£o, deixaram de ir. ‚ÄúOs caras come√ßaram a dar um jeito de consert√°-las diretamente com os t√©cnicos que foram dispensados. Mas depois de um tempo, pararam tamb√©m, porque deixou de ser interessante‚ÄĚ, detalha Gomes. ‚ÄúSumiram as pe√ßas de reposi√ß√£o, coisas do tipo. O interessante disso tudo √© exatamente a possibilidade que foi aberta no mercado de uma hora para a outra. Alguns profissionais que existem hoje s√£o oriundos justamente desse buraco que se abriu no mercado. H√° casos antigos de m√°quinas que nos foram doadas. O cara falava: ‚ÄėTira esse neg√≥cio daqui, porque isso √© um trambolho que est√° tomando meu espa√ßo‚Äô. Era pura verdade. No fim das contas, aquilo num bar ocupa o espa√ßo de duas mesas‚ÄĚ, reflete.

Na miss√£o de resgatar m√°quinas antigas da destrui√ß√£o ou do ostracismo, os integrantes do clube do Rio conseguiram recuperar todas as m√°quinas um dia pertencentes a um antigo e gigantesco fliperama em Nova Friburgo. M√°rio S√©rgio n√£o mede esfor√ßos. Ele teve a ousadia de alugar um caminh√£o e passar em todos os dep√≥sitos recolhendo m√°quinas. Dessa vez, retornou com cerca de 20 exemplares e isso virou hist√≥ria na cidade. Mas ele tem uma extensa lista de outras hist√≥rias para contar: ‚ÄúJ√° desci m√°quina usando cordas, roldadas e a for√ßa de um caminh√£o, do segundo andar de um dep√≥sito que n√£o tinha escadas. J√° passei um carnaval em B√ļzios acompanhando o leil√£o de um exemplar raro pela internet, sem ir √† praia. Quando ainda era solteiro e morava com minha m√£e e av√≥, povoei a sala de estar com cinco m√°quinas. E j√° fiquei um dia inteiro sem comer para poder receber um lote de raridades‚ÄĚ.

Em outra ocasi√£o, eles subiram os morros das favelas correndo atr√°s de m√°quinas. Assim, conseguiram salvar duas e toparam com os destro√ßos de mais tr√™s ou quatro. ‚ÄúO sujeito disse que ateou fogo porque n√£o aguentava mais. Vimos somente os metais retorcidos e alguns vidros. O caixote de madeira e o playfield tinham virado estat√≠stica‚ÄĚ, conta Gomes. ‚ÄúUma das m√°quinas foi encontrada pelo pessoal do Rio num s√≠tio do interior, no meio de um galinheiro, sendo usada como poleiro. Uma Shock, que hoje √© rar√≠ssima‚ÄĚ, comenta Cid Rudis. E prossegue: ‚ÄúAqui, em S√£o Paulo, j√° rolou de fazer comboio pelo interior, correndo atr√°s dos s√≠tios e ch√°caras. E a√≠ voc√™ encontrava m√°quina at√© na chuva. Infelizmente a maioria dos exemplares dos anos 80 veio nesse estado‚ÄĚ.

A mania do pinball no mundo teve duas fases de ouro. A primeira foi no final da Segunda Guerra, entre 1945-55, quando dispararam as vendas e o n√ļmero de fabricantes. A segunda, foi entre os anos 1980-90. Atualmente, at√© encontra-se gente que atua na restaura√ß√£o de equipamentos de ambos os per√≠odos no Brasil, como a JSW, mas fabricante mesmo, n√£o. Nessa nova fase em que o pinball virou culto, a fabricante norte-americana Stern dominou o mercado. Apostando na tem√°tica classic rock, a marca tem investido em m√°quinas licenciadas por bandas como AC/DC, Kiss, Rolling Stones e Metallica, al√©m de s√©ries, como The Walking Dead, Game of Thrones, Star Trek, e filmes, tipo Indiana Jones e Thron. Recentemente, eles fizeram uma edi√ß√£o comemorativa aos 50 anos do carro Mustang.

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Um típico encontro da confraria. Crédito: Guilherme Santana
Um típico encontro da confraria em São Paulo. Crédito: Guilherme Santana

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A concorrente direta da Stern √© a Jersey Jack Pinball, que lan√ßou as m√°quinas do M√°gico de Oz e de O Hobbit. ‚ÄúEles deram uma sacudida no mercado‚ÄĚ, comemora Iure Gomes. ‚ÄúA Stern estava com uma qualidade muito baixa nos produtos, e isso fez com que ela arrumasse mais investidores para melhorar as m√°quinas. Aumentou muito a qualidade, para bater de frente com a Jack Jersey. E isso foi, sinceramente, maravilhoso para o pinball no mundo. Abriu portas para outros fabricantes, muito pequenos, que est√£o buscando investimento para tentar entrar no mercado‚ÄĚ, avalia.

O fetiche dos s√≥cios do clube, no entanto, continua sendo pelas m√°quinas vintage. Por isso, v√°rios colecionadores acabam aprendendo os macetes de manuten√ß√£o e restaura√ß√£o. ‚ÄúBasicamente a manuten√ß√£o das m√°quinas √© simples‚ÄĚ, explica o engenheiro eletr√īnico e s√≥cio do clube de S√£o Paulo, Nikolaos Mbakirtzis, 50 anos. Durante todo o tempo em que a reportagem esteve no local, ele n√£o jogou nem ficou de bobeira papeando, bebendo ou comendo churrasco, como os seus colegas da ‚Äúconfraria‚ÄĚ. Naquela noite, zanzava de um ambiente anexo √† garagem at√© o piso superior, onde ficam as m√°quinas. Ia e voltava repetindo o trajeto com ferramentas e pe√ßas na m√£o. Fez isso diversas vezes.

De perto, foi poss√≠vel notar que, naquele ambiente, o clube acolhe uma impressionante oficina de restaura√ß√£o improvisada. ‚ÄúEm v√°rios momentos voc√™ tem que trocar pe√ßas. Todas as m√°quinas t√™m conserto‚ÄĚ, diz Nikolaos, empenhado em fazer funcionar uma delas. ‚ÄúVoc√™ tem que botar pe√ßas novas. √Č como se fosse um carro: quebrou uma pe√ßa, tem que trocar. N√£o adianta voc√™ tentar ficar s√≥ consertando.‚ÄĚ Observando de esguelha, Gomes continua animado. Conversa com todos ao mesmo tempo e ainda joga. Ele n√£o se cont√©m. Interrompe a fala do colega e crava, no bom humor: ‚ÄúTirando os exageros √© tudo verdade! Temos aqui pessoas que pegam uma m√°quina caindo aos peda√ßos e a deixam zero bala. Tipo os Mestres da Restaura√ß√£o‚ÄĚ. J√° √© tarde da noite, a maioria dos presentes come√ßa a se despedir. Semana que vem tem mais.

 

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Comportamento

Magic: The Gathering ainda tem o poder

Quinze anos depois de entrar pela √ļltima vez em uma loja de card games, me vejo novamente rumo a um desses o√°sis perdidos de jogos anal√≥gicos, ainda t√£o escondidos do grande p√ļblico. A mochila nas costas, dessa vez, n√£o abriga uma imensa pasta cheia de cards e decks, mas a mente j√° se encontra tentando emular os mesmos sentimentos daquela √©poca. Magic: The Gathering esteve na minha vida entre 1995 e 2000 ‚Äď joguei, colecionei, troquei cards, participei de torneios e at√© mesmo tive alguns cards roubados. Tanto tempo depois o jogo continua firme e forte, mas algo mudou.

Magic: The Gathering √© um Trading Card Game (TCG), ou jogo de cartas colecion√°veis, no qual cada jogador tem um baralho de cartas, chamado ‚Äúdeck‚ÄĚ, que ele pr√≥prio constr√≥i a partir de uma cole√ß√£o imensa de cartas j√° lan√ßadas. As cartas fazem o papel de m√°gicas de diversos tipos (criaturas, encantamentos, feiti√ßos), que juntas em um deck formam uma estrat√©gia, com o objetivo de reduzir os pontos de vida do advers√°rio a zero. Pelo menos era assim h√° quinze anos, e prov√°vel que regras assim, t√£o essenciais, n√£o tenham mudado tanto. Mas os cabelos…

√Č essa a miss√£o¬†que me fez ir at√© a Bazar de Bagd√°, loja de card games na Zona Norte de S√£o Paulo. A inten√ß√£o era a de acompanhar um torneio chamado PPTQ ‚Äď Preliminary Pro Tour Qualifier, que qualifica jogadores (ou ‚Äúduelistas‚ÄĚ, bem mais legal) para os Pro Tour Qualifiers, que por sua vez d√£o vaga para os Pro Tour, torneios profissionais de n√≠vel mundial, que acontecem quatro vezes ao ano. Claro que tudo isso me foi explicado bem depois ‚Äď tudo o que eu conhecia de torneios at√© ent√£o era o sistema su√≠√ßo, ‚Äúfantasmas‚ÄĚ (quando o n√ļmero de jogadores √© √≠mpar algu√©m sempre tem a sorte de ficar de bobeira em uma rodada).

Assim que abri a porta da loja, revivi uma cena bastante comum na minha adolesc√™ncia: jovens com pastas, mochilas nas costas, todos escorados no balc√£o da loja, esperando o in√≠cio do torneio, conversando e trocando cards ‚Äď pelo menos essa √ļltima eu imaginei que estivessem fazendo, o que se provou errado logo depois. ‚ÄúVai jogar o torneio?‚ÄĚ, algu√©m sacou na minha dire√ß√£o, como um Raio (um mana vermelho, tr√™s de dano em qualquer alvo). ‚ÄúN√£o, vou s√≥ acompanhar‚ÄĚ, respondi j√° sem nenhuma aten√ß√£o voltada para mim, como se esperassem pela resposta.

Um novo mundo de Magic

Posso dizer com seguran√ßa que, na √©poca em que joguei, n√£o havia um d√©cimo da quantidade e variedade de produtos ligados a Magic que vi naquela loja. Lembro-me bem de pastas decoradas e deck shields, ‚Äúplastiquinhos‚ÄĚ individuais para proteger os cards, itens que n√£o eram f√°ceis de serem adquiridos com o dinheiro do lanche da escola convertido em nerdices. O que eu vi na Bazar foi uma mir√≠ade de pastas, cases, protetores, dados marcadores de pontos de vida, ‚Äúplaymats‚ÄĚ (um ‚Äútapetinho‚ÄĚ que se usa para cobrir um dos lados da mesa onde se joga), e v√°rias outras coisas coloridas que chamam muita aten√ß√£o.

E n√£o foi s√≥¬†no vasto universo dos acess√≥rios que Magic se transformou num¬†mundo estranho e terra de novas maravilhas. A gama de produtos oficiais aumentou muito de quinze anos para c√°, e pobre de n√≥s que compr√°vamos apenas ‚Äúboosters‚ÄĚ e ‚Äúdecks‚ÄĚ. O duelista hoje tem acesso a baralhos pr√©-montados (bons e ruins, segundo relatos), caixas promocionais com brindes, edi√ß√Ķes especiais, de colecionadores, al√©m de cards avulsos vendidos pelas lojas, chamados de ‚Äúsingles‚ÄĚ.

Magic: The Gathering foi lan√ßado em 1993 pela Wizards of the Coast, ent√£o uma empresa de garagem com poucos jogos no portf√≥lio. Uma simples e r√°pida pesquisa mostra que hoje a WotC tem hoje em suas prateleiras os dois maiores basti√Ķes quando se fala em jogos anal√≥gicos: Dungeons & Dragons, o mais famoso e jogado dos RPGs (Role-Playing Games), e Magic ‚Äď al√©m de ser uma subsidi√°ria da gigante dos brinquedos Hasbro. ‚ÄúBala na agulha‚ÄĚ √© a palavra que eu buscava e que representa bem o momento da empresa, que nos √ļltimos anos investiu pesado em marketing e desenvolvimento de novos produtos e estrat√©gias para os jogos.

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Um típico cenário de Magic nos anos 90: um joguinho para virar a noite com os amigos. Crédito: Abbamouse/Flickr
Um típico cenário de Magic nos anos 90: um joguinho para virar a noite com os amigos. Crédito: Abbamouse/Flickr

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‚ÄúAten√ß√£o, duelistas do segundo PPTQ da Bazar de Bagd√°! A lista de jogos da primeira rodada j√° est√° dispon√≠vel! Tomem seus lugares e aguardem o sinal dos ju√≠zes para dar in√≠cio ao duelo!‚ÄĚ ‚Äď soou nos auto-falantes da loja Leonardo ‚ÄúEstranho‚ÄĚ Martins, o juiz principal de um time de tr√™s √°rbitros respons√°veis pelo torneio, todos eles vestidos a rigor ‚Äď sapato, cal√ßa social e uma camisa com o bordado oficial, indicando que eram, afinal, ju√≠zes oficiais. Isso eu realmente nunca tinha visto: um n√≠vel de profissionalismo, excel√™ncia e seriedade que n√£o era comum naquele Magic que eu jogava entre amigos, ‚Äúna zoeira‚ÄĚ. N√≠tida tamb√©m era a quest√£o da idade dos duelistas ‚Äď todos certamente na fase dos ‚Äúvinte e poucos‚ÄĚ, a maioria nos ‚Äúvinte e muitos‚ÄĚ. Com vinte, ningu√©m mais da minha antiga turma ainda tinha um card sequer.

Informação é a chave

O que melhor explica as mudan√ßas em muitos (quase todos, ali√°s) setores da sociedade √© a universaliza√ß√£o da o acesso √† informa√ß√£o. Claro que o Magic se beneficiou disso e abra√ßou a causa. ‚ÄúA dissemina√ß√£o da informa√ß√£o foi o que mais mudou no Magic de quinze ou vinte anos para c√°, e com a internet, o jogo e suas estrat√©gias foram se difundindo muito mais‚ÄĚ, explica Estranho. Faz sentido: sem a internet, pouca ou nenhuma informa√ß√£o chegava at√© n√≥s, sempre por meio de informativos ou revistas que cobriam eventos e torneios internacionais, com meses de atraso. ‚ÄúHoje, d√° para acompanhar torneios de alta competitividade e em n√≠vel mundial, como o Pro Tour, em tempo real, via streaming‚ÄĚ, comenta.

Eduardo Beraldo, o ‚ÄúDud√£o‚ÄĚ, um dos s√≥cios da Bazar de Bagd√°, lembra um per√≠odo no qual a internet engatinhava e, para o Magic, as revistas eram o principal baluarte de dados para trocas. ‚ÄúNo come√ßo, nossa refer√™ncia para cartas e informa√ß√Ķes de forma geral era a Duelist, revista que s√≥ consegu√≠amos em bancas de importados‚ÄĚ, conta. A grande refer√™ncia para trocas e eventuais vendas de cards veio depois: a InQuest, com quase metade das p√°ginas dedicadas a imensas listas de pre√ßos de refer√™ncias de cards. ‚ÄúNingu√©m vendia ou trocava cards de uma cole√ß√£o nova sem antes conferir seus valores na InQuest.‚ÄĚ

A informa√ß√£o de qualidade estrat√©gica tamb√©m foi um dos grandes diferenciais que a dissemina√ß√£o digital trouxe ao jogo, melhorando a experi√™ncia dos duelistas. ‚ÄúFoi na √©poca da InQuest que come√ßaram a sair os artigos sobre arqu√©tipos (tipos de estrat√©gias de deck e de jogo), e ao mesmo tempo torneios internacionais como os Pro Tour, Mundial e Latino-Americanos come√ßaram a ter grande import√Ęncia‚ÄĚ, revela Dud√£o. A internet, ainda segundo o lojista e jogador (Dud√£o venceu o PPTQ mencionado acima), fomentou essa busca dos jogadores por informa√ß√Ķes a respeito de arqu√©tipos e estrat√©gias. ‚ÄúDias atr√°s tivemos um torneio aqui na loja e, ao mesmo tempo, passava no tel√£o o streaming do primeiro torneio oficial da nova cole√ß√£o, ‚ÄúBattle for Zendikar‚ÄĚ. Todo mundo colado na tela, vendo as novas cartas, novas estrat√©gias e os novos decks que ela trouxe‚ÄĚ, completa.

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Leonardo "Estranho" Martins. Crédito: Flávio Alfonso Jr
Leonardo “Estranho” Martins. Cr√©dito: Fl√°vio Alfonso Jr

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Embora o Magic seja um jogo de alta complexidade (a compara√ß√£o com o xadrez √© recorrente no meio), ele hoje se mostra simples e de f√°cil acesso para o iniciante, diminuindo o fator de intimida√ß√£o que a complexidade traz e, por consequ√™ncia, afasta o jogador novato. Para completar, Magic¬†j√° virou jogo para computador, tablet e celular, indo al√©m das mesas e angariando mais e mais jogadores ‚Äď que, pelas vers√Ķes de software e aplicativos, t√™m mais facilidade em entender as regras.¬†‚ÄúHoje, √© f√°cil entrar no Magic, mas domin√°-lo √© outra hist√≥ria‚ÄĚ, emenda Estranho.

A profissionalização

Torneios oficiais, mundiais, estabelecimento de estrat√©gias e um mercado (oficial e paralelo) s√≥lido s√£o elementos cruciais para a germina√ß√£o de um ambiente profissional e de duelistas profissionais. E foi o que aconteceu. Magic: The Gathering completou 20 anos em 2013 contando com¬†uma massa fiel de duelistas ‚Äúfederados‚ÄĚ de todos os n√≠veis, uma ampla rede de lojas onde se realiza torneios oficiais e n√£o-oficiais, e torneios de n√≠vel mundial nos quais se paga (muito) bem. O √ļltimo Pro Tour, que aconteceu em Milwaukee, EUA, premiou seus vencedores com a soma de 250 mil d√≥lares. D√° para viver.

Um dos melhores representantes brasileiros da atualidade nesse mundo √© Willy Edel, carioca eleito para a turma de 2015 do Hall of Fame do Magic, segundo brasileiro a conquistar o feito (o primeiro foi Paulo Vitor Damo da Rosa, em 2012). Willy foi campe√£o do Pro Tour de Toronto, em 2012, e campe√£o brasileiro no ano seguinte, tendo ainda se classificado ‚ÄúTop-8‚ÄĚ em diversos outros Pro Tour e Grand Prix. Toda essa trajet√≥ria fez com que Willy fosse indicado e conquistasse o cobi√ßado anel do Hall of Fame ‚Äď sim, √© como no Super Bowl.

Para Willy, o Magic est√° bem diferente hoje em compara√ß√£o¬†com os primeiros anos, e acabou se tornando¬†refer√™ncia para muitos outros jogos que foram surgindo ao longo do tempo. ‚ÄúMudou completamente. Antigamente, 99% do p√ļblico era casual, havia pouqu√≠ssimas lojas, poucos torneios, basicamente nada que favorecia a vertente competitiva. Hoje h√° v√°rios incentivos, e para muitos o Magic virou profiss√£o‚ÄĚ, explica.

Se o jogo se profissionalizou, podemos comprovar tamb√©m que os ambientes seguiram o mesmo caminho? Em toda a minha trajet√≥ria no Magic, tive como ‚Äúbase de atua√ß√£o‚ÄĚ uma locadora de games que vendia decks e boosters como alternativa para os jogos eletr√īnicos ‚Äď e l√° jog√°vamos de maneira bem casual, troc√°vamos cartas e muito raramente compr√°vamos um do outro. Isso tamb√©m mudou? Para Willy, sim. ‚ÄúA troca de cartas ainda existe, mas √© bastante rara nas lojas, e n√£o sem motivo: por que limitar seus ‚Äėparceiros de troca‚Äô se hoje todas as lojas t√™m um estoque bastante amplo de cards avulsos para vender? A vida hoje √© mais simples e f√°cil‚ÄĚ, esclarece.

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Um torneio de Magic em São Paulo. Crédito: Flávio Alfonso Jr
Um torneio de Magic em São Paulo. Crédito: Flávio Alfonso Jr

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Apesar do contexto profissional no qual o jogo se encontra hoje, trilhar o caminho ‚Äús√©rio‚ÄĚ n√£o √© nada f√°cil. Praticamente todos os torneios grandes s√£o fora do Brasil, e a rotina de treinos, viagens e hospedagem pode ser assustadora para a maioria dos duelistas que iniciam nessa vida. Para ajudar esses duelistas profissionais de primeira viagem, Willy presta aux√≠lio com rela√ß√£o a todos os fatores envolvidos nessas jornadas rumo aos grandes torneios. ‚ÄúQuando sou procurado, ensino os primeiros passos, desde marcar a passagem a reservar hotel. Se a pessoa est√° disposta a treinar s√©rio para o evento, eu tento inclu√≠-la no meu grupo de treinos. √Č muito dif√≠cil entrar no circuito profissional, ent√£o esta pode ser a √ļnica oportunidade desta pessoa, por isso tento ajudar no que posso e mostrar que tem que ser algo levado a s√©rio‚ÄĚ, revela Willy, conhecido no meio por essa atitude como ‚ÄúGodfather‚ÄĚ do Magic.

Magic √© um jogo de muitas possibilidades, inclusive de carreira. Leo ‚ÄúEstranho‚ÄĚ Martins √© um √°rbitro de n√≠vel 2, credenciado e graduado pela pr√≥pria Wizards of the Coast. Se ele ‚Äúapita‚ÄĚ por hobby? ‚ÄúSomente em 2015, j√° viajei quase dez vezes para o exterior para ser juiz em grandes eventos‚ÄĚ, conta. Estranho abandonou a gradua√ß√£o em Filosofia na Unifesp e um cargo p√ļblico na Secretaria Estadual da Educa√ß√£o para se dedicar apenas ao of√≠cio de √°rbitro de Magic.

O papel das lojas

Desde seu in√≠cio, a cultura do Magic esteve ligada de forma √≠ntima √†s lojas que comercializam os cards e outros produtos relacionados. A loja est√° para o Magic assim como o campinho de bairro est√° para o futebol, nas devidas propor√ß√Ķes. E se nos primeiros anos esses ambientes eram simples pontos de encontro e espa√ßo para duelos (al√©m da venda de produtos), hoje as lojas de Magic s√£o verdadeiras ‚Äúc√©lulas‚ÄĚ que agregam jogadores em um ambiente profissionalizado.

√Č nas lojas que o jogador conhece pessoas e tem contato f√≠sico, real e presencial com cartas, decks e o principal: joga Magic com diferentes pessoas. Willy emenda: ‚ÄúEm lojas o jogador faz amigos, joga torneios, compra suas cartas e tem chance de come√ßar ali uma carreira profissional‚ÄĚ.

Em uma busca no site LigaMagic, um agregador de torneios e lojas, encontrei mais de 50 lojas na cidade de S√£o Paulo e um total de 230 estabelecimentos no estado. No site √© poss√≠vel tamb√©m fazer busca por torneios a serem realizados ‚Äď localizei 49 torneios durante todo o m√™s de novembro de 2015, s√≥ na cidade de S√£o Paulo. No pr√≥prio site da Wizards of the Coast o duelista pode usar o localizador de lojas e torneios, que tamb√©m retorna dezenas de resultados para a cidade de S√£o Paulo. Ou seja: op√ß√Ķes n√£o faltam para o duelista iniciante, intermedi√°rio e experiente. ‚ÄúO jogo se chama Magic: The Gathering, e para mim o “Gathering” (‚Äúreuni√£o‚ÄĚ) √© a grande raz√£o do seu sucesso‚ÄĚ, completa Willy.

Fora do circuito

Apesar da for√ßa e relativa import√Ęncia da rede de lojas e da comunidade de jogo que as envolve, alguns duelistas de longa data preferem se manter √† parte de todo o esquema. √Č o caso do tamb√©m carioca radicado em S√£o Paulo Rodrigo Esper ‚Äď seu ambiente de jogo, na verdade, √© a sala do apartamento que divide com amigos tamb√©m duelistas na regi√£o central de S√£o Paulo.

A experi√™ncia de Esper com o jogo ‚Äď come√ßou nos prim√≥rdios, com a jur√°ssica Quarta Edi√ß√£o, que saiu no Brasil em 1995 ‚Äď sem d√ļvida o credenciaria para estar entre alguns dos mais proeminentes duelistas da comunidade. Mas, por op√ß√£o, se manteve em c√≠rculos restritos de jogo, bem no estilo ‚Äúentre amigos‚ÄĚ. ‚ÄúComecei como todo mundo, na lojinha de bairro que era meio locadora, meio loja de coisas nerds, mas logo me mantive em grupinhos mais restritos, sem me envolver muito em comunidades‚ÄĚ, conta. Esper considera que o clima de intensa disputa que permeia o ambiente do Magic de forma geral tem conota√ß√£o negativa. ‚ÄúN√£o queria competir, s√≥ jogar entre amigos mesmo. Todo mundo se conhecia e sabia das cartas e dos decks de cada um‚ÄĚ, revela.

Entendi bem o que ele quis dizer, e compartilho de certas afli√ß√Ķes que vivi quando adolescente em ambientes assim. H√° uma certa inseguran√ßa em se lidar com alguns tipos de nerds, em epecial os mais ‚Äúhardcore‚ÄĚ. ‚ÄúTem um tipo de nerd que √© bem dif√≠cil de se lidar, s√£o arrogantes, chatos, n√£o compartilham conhecimento, te desprezam. Isso faz perder totalmente o prazer na coisa‚ÄĚ, confessa.

Esper chegou a parar de jogar em determinado momento, quando viveu uma experi√™ncia traum√°tica: ‚ÄúRoubaram meu deck, o principal deck. Desanimei‚ÄĚ. Um bom deck de Magic, com 60 cartas, diversas raras, pode ser vendido de forma avulsa por boas centenas de reais (dependendo do deck, pode chegar na casa dos quatro d√≠gitos). Ao mesmo tempo, segundo ele, muitos dos seus amigos duelistas tamb√©m paravam de jogar e vendiam as cartas. Fiz a mesma coisa em 2000, quando parei e vendi minhas cartas (e recuperei quase tudo que investi), acompanhando a tend√™ncia de todos os outros da turma. Est√°vamos crescendo, indo para a faculdade e ‚Äúvirando adultos‚ÄĚ.

Claro, adultos n√£o jogam Magic ‚Äď ou pelo menos n√£o gostam muito de admitir isso. Jogam futebol, sinuca e tomam cerveja, mas n√£o jogam Magic. Como bem postulou Esper, ‚Äújogar magic n√£o √© maneiro‚ÄĚ. Eu mesmo, na √©poca em que jogava, mantinha minhas atividades em segredo dos amigos de escola, que preferiam andar na rua e jogar futebol. Duelos, trocas e papos de Magic s√≥ com quem tamb√©m jogava e via aquilo como uma coisa legal demais, mas entendia que a maioria das pessoas n√£o absorvia facilmente.

O hiato de Esper com o Magic durou bons anos, pontuados por uma ou outra aquisi√ß√£o espor√°dica. ‚ÄúN√£o contava para ningu√©m, n√£o era uma coisa bem vista, estava velho.‚ÄĚ Estamos velhos. A vida, tamb√©m conhecida como ‚Äúconven√ß√Ķes sociais absurdas‚ÄĚ, travestida de consci√™ncia/responsabilidade, nos cobra se aparecermos em casa com um deck turbinado para torneio, ou com aquele combo imbat√≠vel que inventamos. N√£o h√° espa√ßo e n√£o √© maneiro. Mas a verdade √© que o mundo mudou nas duas √ļltimas d√©cadas: o que era tido como estranho, nerd e esquisito virou cultura popular — a tal cultura pop — e jogar esse tipo de jogo, e tamb√©m jogos de tabuleiro, se transformou em uma forma de entender que podemos gostar daquilo que nos agrada sem preocupa√ß√Ķes. E isso, por consequ√™ncia, transformou o ato de gostar de Magic em algo¬†cool.

A hist√≥ria do Esper ajuda a comprovar isso.¬†Fot√≥grafo profissional e s√≥cio¬†de uma ag√™ncia, Esper cobria eventos, festas e shows no Rio. ‚ÄúFoi quando descobri uma galera que jogava escondido. Cara de banda, advogado ‚Äď e a gente ficava de cara, porque aquele cara era muito maneiro para jogar Magic!‚ÄĚ. Que ‚Äúa vida‚ÄĚ me perdoe, mas se um cara de banda joga Magic e tudo bem, n√£o sei o que eu estou fazendo da minha vida. Jogar Pok√©mon, quem sabe? J√° joguei e foi maneira√ßo.

Jogo Magic e sou maneiro, sim

A imers√£o no mundo do Magic a que me submeti nas √ļltimas semanas foi altamente revigorante, mesmo descobrindo o quanto o jogo mudou desde que o abandonei ‚Äď principalmente porque as mudan√ßas parecem mesmo ter sido feitas de forma consciente, planejada e visando a oferecer ao duelista diferentes formas de abordagem e de encarar o jogo como um todo.

Em 2015, Magic The Gathering completa 22 anos de exist√™ncia, gozando de boa popularidade (a quantidade de lojas e torneios dispon√≠veis n√£o deixa mentir), mas ainda permanece oculto de boa parte do p√ļblico, sendo para a maioria das pessoas que o conhece uma vaga lembran√ßa da adolesc√™ncia ‚Äď ou apenas ‚Äúaquele joguinho de cartas estranho que fulano brincava na escola‚ÄĚ. Essa lembran√ßa distante ajuda a manter o jogo no ‚Äúsubmundo‚ÄĚ e em n√≠veis de popularidade bem inferiores aos que o videogame, por exemplo, alcan√ßou nos √ļltimos anos.

Por outro lado, Magic parece estar em um patamar bem consolidado, com sinais claros de que n√£o vai definhar e cair no limbo dos jogos ultra alternativos ‚Äď pelo menos n√£o em um futuro pr√≥ximo. Bora, ent√£o, montar um deck e jogar uns torneios?