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A política dos trenzinhos

A poucos dias da votação parlamentar do processo de impeachment da presidente Dilma Roussef, o Movimento Brasil Livre (MBL) anunciou que levaria o trenzinho Carreta Furacão para uma manifestação neste domingo, 17 de abril, na avenida Paulista, em São Paulo. Em uma só cartada a organização pretende mobilizar mais apoiadores para sua causa sem deixar escapar o bom humor inerente aos jovens dançarinos com fantasias mal-ajambradas. Quem prefere o Capitão América rebolando aos discursos do grupo político teve, então, de se indagar: seguir em frente ou olhar para o lado?

Propriet√°ria da Dominium, a empresa por tr√°s do mais famoso dos trenzinhos, Fabiana Cardoni se limitou a dizer que o Carreta Furac√£o estar√° na avenida Paulista nesse domingo. “J√° fechamos contrato”, disse ela, ap√≥s cinco tentativas de contato. Ela n√£o deu mais informa√ß√Ķes sobre o caso ao ser questionada a respeito dos contratantes para essa ocasi√£o ou quanto a presen√ßa do Fof√£o ‚ÄĒ a participa√ß√£o de um dos personagens mais queridos dos trenzinhos teria sido vetada pelo seu criador.

Uma esp√©cie de casamento entre fen√īmeno da internet e um estridente grupo pol√≠tico¬†parece bizarro √† primeira vista, mas isso √© uma impress√£o superficial. O MBL √© uma das organiza√ß√Ķes mais articuladas em prol do impeachment da presidente Dilma Roussef, realizando manifesta√ß√Ķes em todo o Brasil h√° pelo menos um ano. E os trenzinhos, como mostramos aqui no Risca Faca, comp√Ķem um fen√īmeno cultural do interior do Brasil de caracter√≠sticas e nuances pr√≥prias ‚ÄĒ especialmente em Ribeir√£o Preto. O mundo da pol√≠tica e o mundo dos trenzinhos est√£o mais pr√≥ximos do que podemos¬†imaginar.

[olho]”A gente faz muita festa universit√°ria, comitiva. Impeachment da Dilma a gente tamb√©m faz muito”[/olho]

“A gente j√° fez muito protesto, a gente sempre procura ajudar”, diz Danilo Gabriel. Ele e o irm√£o Daniel Cirilo s√£o donos¬†da Trenzinho dos G√™meos, apenas uma dentre cerca de vinte empresas que fazem girar o mercado de divers√£o de Ribeir√£o Preto. Assim como a concorr√™ncia, os irm√£os trabalham segundo a demanda. Fazem festas de anivers√°rio, comitivas de rodeio, festas universit√°rias e, por que n√£o, eventos pol√≠ticos. “A gente trabalha muito com vereador”, diz ele. “Em √©poca de elei√ß√£o o pessoal pega bastante.¬†Tem muita doa√ß√£o pra bairros carentes.”

Uma das participa√ß√Ķes do Trio Sensa√ß√£o em um protesto contra o governo. Cr√©dito: Divulga√ß√£o
Uma das participa√ß√Ķes do Trio Sensa√ß√£o em um protesto contra o governo. Cr√©dito: Divulga√ß√£o

Propriet√°rio dos trenzinhos Sensa√ß√£o e Barulh√£o, Adriano Mancilha tem trabalhado mais devido aos recentes acontecimentos pol√≠ticos. “A gente faz qualquer tipo de evento”, diz ele. “A gente faz muita festa universit√°ria, comitiva. Impeachment da Dilma a gente tamb√©m faz muito.” Por tr√™s ocasi√Ķes o show de cores e luzes dos seus trenzinhos deu lugar a faixas com dizeres contr√°rios ao governo federal ou placas de grupos de oposi√ß√£o como o “Vem Pra Rua”. Os dan√ßarinos compareceram em toda e¬†qualquer ocasi√£o. “Eles est√£o em todas, mas nas pol√≠ticas eles v√£o sem se vestir”, afirma Adriano.

[olho]”Os dan√ßarinos est√£o em todas, mas nas pol√≠ticas eles v√£o sem se vestir”[/olho]

Assim como seus concorrentes g√™meos, ele n√£o especifica os contratantes dos eventos pol√≠ticos. Quando questionado, mastiga algumas palavras. “Partido, promotor, tem muita gente envolvida”, afirma ele. Advogados e empres√°rios tamb√©m entram nessa lista, mas os contratos s√£o firmados por terceiros na v√©spera das manifesta√ß√Ķes. Por isso Adriano ainda tem esperan√ßa de que v√° trabalhar durante o final de semana que marcar√° mais um epis√≥dio da hist√≥ria recente. “O pessoal contrata em cima da hora”, diz ele. “Se for ter [algum evento] a gente vai ficar sabendo entre hoje e amanh√£.”

O poder p√ļblico √© uma sa√≠da vi√°vel para contratar trenzinhos, especialmente para a popula√ß√£o carente. “Como n√£o tem dinheiro, eles v√£o na c√Ęmara municipal e pedem ajuda para os vereadores”. Tamb√©m n√£o √© raro que prefeituras contratem as equipes para animar eventos p√ļblicos. O Carreta Furac√£o, por exemplo, participa de eventos em outras cidades com certa frequ√™ncia. Wellington Cardoni me contou, no ano passado, que certa vez o grupo se apresentou em Betim, Minas Gerais, a mais de 500 quil√īmetros de Ribeir√£o Preto. “A gente faz eventos bacanas com prefeituras, com estrutura.”

Naquele ano, a Associa√ß√£o dos Trenzinhos de Ribeir√£o Preto mostrava que pol√≠tica n√£o √© um assunto estranho dentro desse mercado. O grupo liderou os debates para uma lei para a categoria que regesse, entre outros itens, a circula√ß√£o mediante cadastro oficial e a m√ļsica dos ve√≠culos. L√≠der do poder p√ļblico na discuss√£o, a vereadora do Gl√°ucia Berenice (PSDB) lembra que houve at√© uma carreata de trenzinhos at√© a sede legislativa da cidade.

[olho]”A internet mais ajudou que prejudicou: com ela veio o auge”[/olho]

A essa √©poca o grupo j√° dava sinal de fraqueza devido a disputas internas. Sem saber dessa situa√ß√£o nem tampouco da sua oposi√ß√£o, a internet continuou seu servi√ßo de manter a cultura circulando enquanto meme. O site da Associa√ß√£o n√£o est√° mais no ar, mas n√£o faltam v√≠deos e imagens de garotos fantasiados correndo pelo YouTube, Facebook e Whatsapp. “Com isso come√ßou a ter mais trenzinhos em Ribeir√£o Preto e as m√ļsicas evolu√≠ram tamb√©m, porque antes era m√ļsica de crian√ßa, mas agora tem que ter funk”, diz Danilo, do Trenzinho dos G√™meos. “A internet mais ajudou que prejudicou: com ela veio o auge.”

Enquanto a popularidade n√£o cai como o Popeye trombando em um ciclista, os trenzinhos aproveitam. Danilo quer aumentar a frota com pelo menos mais duas carretas para esse ano. Dono dos trenzinhos Sensa√ß√£o e Barulh√£o, Adriano Mancilha afirma que o sucesso na internet n√£o trouxe mudan√ßa na sua rotina de trabalho. “A molecada comenta mais agora, n√©”, diz ele. O Carreta Furac√£o ainda est√° tateando a segunda onda de sucesso seis anos depois da primeira explos√£o na internet. Procurada diversas vezes, Fabiana Cardoni conversou com o Risca Faca delegando a maior parte das perguntas √† assessoria de imprensa.

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Cultura

Um trenzinho de doido

Durante a persegui√ß√£o a um caminh√£o colorido, cheio de luzes e personagens, um garoto de bicicleta aborda o fot√≥grafo Felipe Larozza. Papo vai, papo vem, ele descobre que somos de S√£o Paulo e, com um olhar curioso, indaga: “Como s√£o os trenzinhos de S√£o Paulo?”. Em S√£o Paulo n√£o tem disso, n√£o, mas em Ribeir√£o Preto, onde vive o pequeno, todo mundo tem uma hist√≥ria com trenzinho. Contarei algumas das que ouvi e todas que vivi ao desbravar o mundo de reluzentes colossos mecatr√īnicos, seres antropozoom√≥rficos, casamentos entre profano e sagrado e confrontos de todos os tipos em uma cidade rodeada por um denso cintur√£o de cana de a√ß√ļcar no interior de S√£o Paulo.

Distantes do centro da cidade, nas quebradas onde as classes se confundem, jovens de m√°scaras e corpos vestidos com roupas malucas dan√ßam, pulam, correm, brincam. Ve√≠culos imensos arrastam pequenas multid√Ķes ao som dos √ļltimos lan√ßamentos musicais em meio a uma erup√ß√£o de cores. O povo admira, interage, para ou vira a esquina. Correm luzes como as das aparelhagens de Bel√©m, gambiarras de baile funk, sistemas de som de trio el√©trico, refer√™ncias carnavalescas, s√≠mbolos infantis e del√≠rio adolescente.

A nossa bandeira foi investigativa e nossa entrada, pac√≠fica. A ideia plat√īnica de trenzinho da alegria estava em nossa mente: um ve√≠culo mais ou menos comum que reboca vag√Ķes coloridos seguido por pessoas fantasiadas formando um pitoresco comboio cuja √ļnica fun√ß√£o √© circular pelos pontos tur√≠sticos de cidades pequenas ‚ÄĒ a orla, o coreto, a igreja, a ponte mais bonita. Sab√≠amos, contudo, que em Ribeir√£o Preto havia alguma coisa diferente por causa do trenzinho mais famoso do Brasil, o Trenzinho Carreta Furac√£o.

Ele foi o primeiro tipo exporta√ß√£o da cidade. No v√≠deo que correu a internet em 2010, Homem-Aranha, Fof√£o, Palha√ßo, Capit√£o Am√©rica e Popeye marcam a cultura popular do pa√≠s ao deturpar nosso imagin√°rio l√ļdico com molejo, su√≠ngue e mistura que s√≥ um Brasil brasileiro √© capaz de oferecer. “Samba do Mesti√ßo”, na trilha do v√≠deo original, canta para seguir em frente e olhar para os lados. E nessa toada o Carreta Furac√£o chegou aos canais de TV aberta naquele ano.

Os trenzinhos hoje s√£o marco na internet brasileira em novos cl√°ssicos como Fof√£o sobe o muro, mas eles tamb√©m s√£o parte fundamental de Ribeir√£o Preto h√° pelo menos trinta anos. E isso n√£o fica evidente na piada do meme ou do programa de audit√≥rio. A cidade tem a √ļnica organiza√ß√£o exclusiva da classe no pa√≠s, a Associa√ß√£o de Trenzinhos, com 14 empresas. Esse √© apenas mais um detalhe de um fen√īmeno cultural interessante e de muita festa.

[olho]”Tem que fazer por merecer pra ser o Fof√£o”[/olho]

Seus protagonistas s√£o garotos como Renan e Andr√© Luiz “Sheyck”. Os irm√£os de 17 anos, com apenas meses de diferen√ßa de idade, vivem na periferia de Ribeir√£o Preto. Eles estudam e trabalham de dia. √Ä noite, saem de casa com uma fantasia remendada e um capacete de isopor embaixo do bra√ßo. De 20h a 23h, s√£o estrelas do Trio Big Folia, trenzinho da empresa Dominium ‚ÄĒ tamb√©m propriet√°ria do Carreta Furac√£o. Um dos maiores da cidade, o mastod√īntico duplex ambulante de luminosos e som potentes √© palco para Renan, o Palha√ßo, e Andr√©, o Fof√£o.

“Tem que fazer por merecer pra ser o Fof√£o”, diz Andr√©. O cruzamento de esp√©cies que resultou no personagem original n√£o previa a apari√ß√£o de uma linhagem h√°bil nas perip√©cias que ele faz. O Fof√£o de Andr√© sobe um muro e posa sob a luz em seu topo ao som de MC Sap√£o, d√° um mortal apoiado na parede como Jackie Chan e treme os quadris freneticamente como uma integrante do Bonde das Maravilhas ‚ÄĒ tudo em cinco minutos. “Tem que ser louco!”, completa Renan. “Tem que passar dos limites!”

Encarnar o Fof√£o √© atingir o mais alto n√≠vel no plano de carreira dos trenzinhos. O Palha√ßo vem a seguir. “√Č como qualquer empresa: quer subir?”, me perguntou Renan. “Tem que fazer por merecer.” Os personagens com as cabeleiras vastas s√£o os mais cobi√ßados entre os dan√ßarinos. Com trejeitos femininos, eles jogam as madeixas de l√£ de um lado para o outro. Nasce um novo g√™nero com uma dan√ßa que mistura passinhos do funk paulista, breakdance e footwork.

A coreografia √© liderada pelo dan√ßarino que dispara √† frente. “Trenzinho √© um pouco de tudo: ax√©, sertanejo, funk, arrocha, eletr√īnica”, explica Renan. Tem tamb√©m parkour aplicado aos obst√°culos pr√≥prios de uma cidade do interior, destreza de pixadores na escalada de muros e acrobacias circenses e humor pastel√£o de grupos como Os Trapalh√Ķes ou Os Tr√™s Patetas ‚ÄĒ ainda n√£o tenho certeza se um cachorro realmente mordeu a bunda de um dos dan√ßarinos que rebolava junto ao port√£o de uma casa.

Os garotos pouco ensaiam e de vez em quando v√£o a um parque para tentar uns passos. Quedas e acidentes s√£o frequentes, mas a m√°scara dos personagens n√£o cai. Enquanto d√£o voltas pelas quadras, os trenzinhos disputam espa√ßo com carros e motos acostumados √† festa itinerante. Entendi por que o Popeye √© atropelado enquanto o Fof√£o sobe o muro quando eu mesmo corria ao lado dos trenzinhos. “Eu j√° fui atropelado por bike, moto, carro”, diz Renan. “Teve uma moto que me jogou pro alto, mas nem me machucou.”

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Leandro Wesley e os irm√£os Renan e Andr√© Luiz “Sheyck”. Cr√©dito: Felipe Larozza

Garotos com suas bicicletas tamb√©m disputam o espa√ßo durante a noite nas ruas de Ribeir√£o Preto. No decorrer do trajeto do trenzinho, aumenta a quantidade de moleques sobre duas rodas naquela carreata pela cidade. Uma senhora descontente sai de casa. “Eu acho isso horr√≠vel. Tem at√© consumista a√≠ no meio”, diz ela, sobre o uso de drogas. Uns garotos baforam lol√≥, outros fumam cigarro artesanal. A maior parte s√≥ passa em alta velocidade ao lado dos dan√ßarinos. “Eles trombam na gente e falam: voc√™ est√° na minha quebrada!”, explica Andr√©.

Contei trinta desses garotos em uma das voltas do Trio Big Folia numa noite de sexta no entorno da desleixada pra√ßa R√īmulo Morandi. Do ch√£o, eles observam o espet√°culo com rever√™ncia e desprezo por um motivo evidente: garotas, cujos olhares se voltam para os dan√ßarinos. Mais de vinte meninas comp√Ķem o p√ļblico. De roupas de festa e maquiagem pesada, elas gritam, batem palmas e rebolam at√© o ch√£o. Enquanto m√£es e filhos pequenos ficam no t√©rreo, as adolescentes desfilam pela cidade no topo do trenzinho.

GALERIA: Veja mais fotos dos trenzinhos em Ribeir√£o Preto

O andar de cima parece acessível somente a quem está na puberdade. Vitória Teodoro comemora seu aniversário de 15 anos naquela noite. Passa das 22h. Sua irmã pequena, Sofia, acompanha o cortejo bocejando vez ou outra, mas suas amigas aproveitam o passeio como quem vai a uma animada festa de aniversário. Dançando, elas chamam a atenção dos garotos de bicicleta; esgoelando-se, elas chamam a atenção dos dançarinos que correm no chão.

Vit√≥ria diz que sempre acompanha o Trio Big Folia. Os grandes trenzinhos da cidade t√™m seu s√©quito fiel. No Facebook existem p√°ginas dos f√£-clubes formados exclusivamente por garotas, como as Trenzetes. As Dominiunzetes, por exemplo, adoram os trenzinhos da Dominium ‚ÄĒ Carreta Furac√£o incluso. Como qualquer grupo do tipo, seu √°lbum online tem fotos e v√≠deos dos √≠dolos, os personagens.

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Vermelho é a cor mais quente. Crédito: Felipe Larozza

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Fama, mulheres e brigas

Alguns dan√ßarinos me falaram que em Ribeir√£o Preto existe at√© o apelido de “Maria Trenzinho”, dado √†s garotas que t√™m prefer√™ncia pelos personagens de trenzinho. “Tem uns caras que zoam a gente, mas a gente pega muita mulher!”, diz Jo√£o Victor Urbines, dan√ßarino do Trio Trem Balada. Propriedade da Tony Leme Eventos, esse trenzinho de dois andares, som potente e muitos luminosos disputa o t√≠tulo de maior da cidade com o Trio Big Folia da Dominium.

Jo√£o tem 21 anos, seis deles dedicado a dan√ßar como personagem. H√° pouco tempo ele se tornou pai, ent√£o arranjou um emprego comum para os dias da semana. Nos fins de tarde de quinta a domingo, contudo, ele vai at√© o bairro Planalto Verde para encontrar seus amigos de equipe. Muitas vezes ele tem de ajudar na manuten√ß√£o do trenzinho do qual faz parte, carregando alto-falantes, ou soldando alguma pe√ßa com os olhos fechados ‚ÄĒ n√£o h√° m√°scara para proteg√™-lo das fa√≠scas. Quando a noite chega, √© hora de sair.

O Trio Trem Balada tinha uma agenda cheia a cumprir naquele sábado. A bordo, os moleques na faixa dos vinte anos estão mais acostumados ainda. Eles bebem uma mistura alcoólica no andar debaixo. Em cima, seguram uma caixa de som atentos a árvores e fios elétricos que passam rentes à cabeça.

Pouco a pouco eles entram no personagem. Trocam as camisas do Barcelona e bermudas da Hollister por panos pu√≠dos sobrepostos em camisetas velhas, meias longas de cores berrantes, cal√ßas largas de material leve e t√™nis baixos de sola aderente. Eles enfiam a cabe√ßa nos elmos depois de vestir as armaduras de tecido. Quando pisam no asfalto, os garotos formam uma gangue de m√°scaras: Mario, Luigi, Patolino, Patati, Patat√°, Mickey, Cebolinha e Fof√£o ‚ÄĒ personagem encarnado por Jo√£o.

O primeiro compromisso √© em um buffet a quinze minutos do centro. Francieli Esteves, recepcionista de 33 anos, tinha contratado o Trio Trem Balada para a festa de anivers√°rio do filho, Rafael Lopes, de 2 anos. “A gente √© mais chegado nesse trenzinho”, diz ela ao descer do ve√≠culo. “Toda quinta-feira a gente vai pra pra√ßa ver esses personagens.” Astros da festa, os dan√ßarinos abrem o espet√°culo com apresenta√ß√Ķes individuais. Dali em diante se v√™ um rebuli√ßo, uma zona, um alvoro√ßo vistos em poucos lugares do mundo.

Um outro trenzinho cruza o caminho logo na primeira esquina. Trata-se do Carreta Tremendão, com cinco dançarinos. Um veículo dá preferência ao outro, mas no chão os garotos disputam o espaço como guerreiros tribais. Cercada por meninos de bicicleta, a aglomeração com mais de dez personagens parece um círculo aberto para bate-cabeça em um show de death metal. Pisando com força no asfalto, ficando cara a cara a poucos centímetros das máscaras e simulando chutes e socos, os dançarinos quase partem pra porrada.

Jo√£o j√° tinha me mostrado um v√≠deo em que est√° prestes a brigar com outro personagem. Vestido como Fof√£o, ele toma um soco do Mickey de outra equipe. “A gente sabia que a gente tinha treta, ele acha que √© bonz√£o”, diz. “Eu estava dan√ßando, a√≠ ele veio e eu fiquei bravo”. A confus√£o foi evitada pelos seus companheiros, mas nem sempre √© assim. No YouTube √© poss√≠vel encontrar v√≠deos de tensos encontros entre trenzinhos ‚ÄĒ outro sinal da ocorr√™ncia dos conflitos.

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De dia, os dançarinos também trabalham na manutenção dos trenzinhos. Crédito: Felipe Larozza

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“Todo mundo j√° brigou”, me conta Renan, o Palha√ßo do Trio Big Folia. “√Äs vezes algu√©m briga por sentir inveja de outra pessoa que est√° com a mesma fantasia de Palha√ßo ou fantasia de Fof√£o”. Al√©m do ego, rivalidades entre grupos, desentendimentos por namoradas e provoca√ß√Ķes simples podem dar em confus√Ķes perigosas. “Acho que antes de existir Associa√ß√£o a molecada que trabalha com trenzinho era mais unida que agora”, diz Jo√£o. “Tinha menos briga, mas tinha umas que dava at√© morte.”

O clima pesado ficou apenas na amea√ßa naquela noite. Ap√≥s o encontro com o outro trenzinho, o Trio Trem Balada segue em um frenesi dantesco. O volume da m√ļsica √© nocivo ao lado dos alto-falantes, as luzes piscantes confundem os olhos. O alarme de um carro dispara. O Patolino acende um roj√£o que explode a poucos metros do ch√£o. O Patati entra em uma casa, o Patat√° toca a campainha de outra. Mario e Luigi sobem rapidamente em um beiral de tr√™s metros de altura ‚ÄĒ atendendo a pedidos do p√ļblico. Num peda√ßo de terreno baldio, o grupo se espalha dan√ßando numa coreografia feita para levantar poeira.

[olho]”√Äs vezes algu√©m briga por sentir inveja de outra pessoa que est√° com a mesma fantasia de Palha√ßo ou fantasia de Fof√£o”[/olho]

De repente, todos os dan√ßarinos sobem na ca√ßamba de um carro utilit√°rio. A suspens√£o do ve√≠culo sente o peso. O motorista buzina. Ele ri de alegria. Uma pequena que tem a idade do aniversariante da noite est√° no banco de passageiros com cara de quem adora aquela farra mesmo sem entend√™-la. Crian√ßas s√£o prioridade dos personagens. Algumas pessoas saem de suas casas para saudar a bagun√ßa. “A gente gosta, passam v√°rios por dia”, diz uma senhora.

Apenas convidados da festa podem subir no trenzinho ‚ÄĒ nas pra√ßas, basta pagar tr√™s ou quatro reais para embarcar. Al√©m da garotada nas bicicletas, do fot√≥grafo e de mim, outro grupo o acompanha do ch√£o. Como os personagens, eles t√™m m√°scaras, roupas coloridas, muito pique e uma destreza com o corpo que lhes permite fazer o quadradinho de oito do funk, o top rocking do breakdance e at√© o espac√°te do bal√© cl√°ssico. No entanto, √© tudo mais mambembe, malajambrado. E o grupo tem m√©dia de um metro e meio de altura.

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“Os tremedeira”. Cr√©dito: Felipe Larozza

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Eles s√£o os seguidores: garotos com menos de 15 anos que se fantasiam, brincam e atuam como os dan√ßarinos oficiais. Eles aguardam os trenzinhos nas noites de quinta a domingo nas imedia√ß√Ķes de pra√ßas e buffets marcando territ√≥rio como a gangue de menores do filme “Cidade de Deus”. A lei natural que passa de boca a boca os autoriza a ficar ao lado do ve√≠culo oposto ao lado reservado aos dan√ßarinos oficiais. De vez em quando, todos dan√ßam juntos na frente dos trenzinhos. √Č um encontro de gera√ß√Ķes.

Alguns seguidores d√£o nomes para seus grupos. A equipe que dan√ßa ao lado do Trio Trem Balada naquela noite se autodenomina “Os Tremedeira”. “Isso aqui √© uma divers√£o que voc√™ nem imagina”, diz Pedro dos Santos, um dos integrantes do time. Durante o dia, estuda; √† noite, fica em busca de trenzinhos no seu bairro. Ele sonha em ser um dan√ßarino oficial das equipes. Por qu√™? “Estou fazendo uma crian√ßa feliz e fazendo algo que eu gosto: dan√ßar no trenzinho.” Pedro usa a m√°scara do Pica-pau. Ele tem 13 anos.

O garoto reproduz o discurso dos mais velhos que, por sua vez, reproduzem o discurso de √≠dolos: jogadores de futebol, cantores populares e celebridades un√Ęnimes. A grana que os dan√ßarinos de trenzinho ganham, no entanto, est√° bem aqu√©m da remunera√ß√£o nessas categorias. Deydison Santos √© o Mickey no mesmo grupo do Jo√£o. Ele diz que ganha sete reais por festa. Isso d√°, em m√©dia, sessenta reais por fim de semana. Ele trabalha durante o dia e vai ao trenzinho por prazer. “Isso aqui pra mim √© um rol√™”, diz ele.

Tiquinho, como √© apelidado Deydison, tinha desistido da vida de dan√ßarino h√° alguns meses por causa do trabalho na organiza√ß√£o de festas e shows em Ribeir√£o Preto. Ele fez 20 anos em mar√ßo de 2015, mas o fim da linha para a maior parte dos personagens de trenzinho costuma chegar mais tarde, aos vinte e poucos. Al√©m da vida adulta, at√© relacionamentos botam fim √† carreira. “Tem namorada que diz ‘ou eu ou o trenzinho!'”, diz Andr√©, o Fof√£o do Trio Big Folia.

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Uma avalanche de referências desconexas. Crédito: Felipe Larozza

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Um de seus amigos, Gabriel Lopes, √© outro exemplo de quem faz participa√ß√Ķes especiais por causa da saudade. Ele tem 17 anos, mas parou com a vida de dan√ßarino logo cedo porque seu joelho esquerdo n√£o suportava mais a fren√©tica rotina de saltos, correria e passos sensuais que dura at√© cinco horas por noite. Se d√° vontade, ele volta √† ativa. “Quando eu ponho a fantasia n√£o d√° pra ficar parado, a√≠ eu s√≥ sinto o joelho depois”, diz ele. “Isso √© um v√≠cio: se voc√™ entrou, nunca mais quer sair.”

Sem fantasia, os garotos passam despercebidos at√© entre eles mesmos. Eles s√£o apenas jovens com espinhas na cara √†s portas da vida adulta. O bom-humor e o erre retroflexo t√≠pico do interior fazem parte deles tanto quanto as incertezas adequadas √† idade. N√£o fosse por alguma √≥tima oportunidade, Renan diz que n√£o faria as estrepulias que faz desprovido de seu traje super poderoso. O que voc√™ sente quando coloca sua fantasia? “Emo√ß√£o”, diz ele.

[olho]”Isso √© um v√≠cio: se voc√™ entrou, nunca mais quer sair”[/olho]

O fim do encantamento est√° marcado para meia-noite. As festas ou as voltas na pra√ßa terminam por volta de 23h. Os personagens tiram suas fantasias. Uns v√£o gastar o curto soldo em outras festas e outros v√£o descansar para o dia seguinte. Na cidade n√£o h√° rastro da barulheira dos v√°rios alto-falantes, nem sombra das l√Ęmpadas cintilantes dos trenzinhos. Nas ruas por onde passou uma tempestade de gente fantasiada, o dia vai nascer sob a imperativa calmaria do Brasil profundo.

 

Trenzinho para tudo

Todo tipo de evento tem um trenzinho em Ribeirão Preto. Festa de aniversário de senhoras centenárias, festa de aniversário de animais de estimação, casamentos, festas de 15 anos, rodeios, inauguração de supermercado, encontro empresarial, balada universitária, dia das crianças. Das mais impensáveis que ouvi, pude viver a pregação de uma igreja evangélica sobre um trenzinho. A louvação em forma de cortejo neon aconteceu no sábado à noite a pedido da Igreja Batista do Simioni, bairro da periferia da cidade.

O Trio Trem Balada fora contratado para o evento. Ao se aproximar da igreja, o som emitido pelo trenzinho muda de “Farra, Pinga e Foguete” para uma can√ß√£o da cantora gospel Aline Barros. Os dan√ßarinos s√£o dispensados quando o ve√≠culo para. Tr√™s equipes de fi√©is s√£o formadas: enquanto uma embarca, outras duas ficam encarregadas de panfletar com santinhos pelo trajeto. Os times de jovens adultos, homens e mulheres, se revezam a cada 15 minutos entre o ch√£o e o trenzinho.

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Crédito: Felipe Larozza

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“A gente se juntou com outras igrejas para falar de Jesus para outras pessoas”, me explica Nemias Magalh√£es, 26 anos, organizador do evento. “O trenzinho √© s√≥ um meio de chamar aten√ß√£o, a gente quer falar de Jesus Cristo.” √Č a primeira vez que eles chamam um ve√≠culo daquele tipo para pregar os ensinamentos crist√£os pelas ruas da cidade. Isso fica flagrante com o andamento do trenzinho. “Grita quem vai pro c√©u” e “cuidado com o galho!” s√£o duas frases ditas com frequ√™ncia ‚ÄĒ ainda assim, duas √°rvores me acertam.

Nemias volta a falar comigo quando voltamos a ficar de p√©, ultrapassados os obst√°culos. “A gente est√° acostumado com o trenzinho aqui e, por onde ele passa, as pessoas param, olham, acham legal”, diz ele. “Agora a gente uniu o √ļtil ao agrad√°vel: evangelizar e chamar a aten√ß√£o das pessoas.” No ch√£o, seus colegas conversam com transeuntes. No trenzinho, os fi√©is gritam: “Ah! Eu sou de Cristo!” enquanto balan√ßam seus cartazes de cartolina.

Silmara Gon√ßalves √© uma das passageiras da noite. Ela tem 35 anos e afirma sem pestanejar que tem trenzinho em Ribeir√£o Preto desde que era crian√ßa ‚ÄĒ uma √©poca em que eles eram menores, seu p√ļblico era essencialmente infantil e suas can√ß√Ķes falavam de temas l√ļdicos. Silmara tamb√©m n√£o titubeou ao dizer o que pensa das m√ļsicas que geralmente fazem a cabe√ßa da molecada que frequenta o trenzinho: “√Č algo muito imoral para crian√ßas”.

O mec√Ęnico P√©lcio Ferreira refor√ßou o coro: “Hoje em dia tem que tocar esses raio desses funks”. Mineiro de Governador Valadares, ele saiu da cidade a bordo de seu trenzinho em 1983. Foram anos numa vida de circo. “A gente ficava uns seis meses em cada cidade”, diz ele. “A gente alugava uma casa e no fim de semana ficava na pracinha”. A rotina andante chegou ao fim em Ribeir√£o Preto por caprichos do cora√ß√£o: P√©lcio conheceu sua amada, casou-se, fixou pouso e virou o maior mec√Ęnico de trenzinhos na cidade.

Ele abriu sua oficina em 1998 e, hoje, boa parte dos trenzinhos da regi√£o saem de l√°. “O trenzinho come√ßa do zero”, explica ele. “√Äs vezes √© um chassi de caminh√£o pra fazer e √†s vezes √© √īnibus, a√≠ a gente corta e utiliza a estrutura mec√Ęnica.” Diferencial de um, motor de outro, c√Ęmbio daquele e sistema de freio daquele outro d√£o forma a um frankenstein met√°lico sobre rodas. Sem pintura ou acabamento, um trenzinho fica pronto em dois meses por R$ 80 mil. “Voc√™ pensa, n√≥s faz”, diz ele.

O mec√Ęnico tem seu pr√≥prio trenzinho: o carcomido City Bus, constru√≠do em 1992. Al√©m de fabrica√ß√£o, ele tamb√©m faz manuten√ß√£o dos brilhantes ve√≠culos. O trabalho √© preventivo, embora √†s vezes ele tenha de socorrer um ou outro trenzinho que para no meio do trajeto. A demanda de constru√ß√£o e cuidados cresceu desde os anos 90. Hoje, metade do faturamento da sua oficina vem do trabalho com Carretas, Trios, Naves, entre outros, mas os neg√≥cios estagnaram. “Com essa crise, est√° tudo parado.”

 

Dos pés à cabeça

Alguns motoristas de trenzinho sabem lidar com problemas mec√Ęnicos urgentes dado o tempo de dedica√ß√£o. Fabio Jeferson, 29 anos, dirige trenzinhos h√° sete anos. Ele trabalhou como personagem dos 14 aos 25 anos. Hoje, fica atr√°s do volante do Trio Big Folia mantendo o motor entre a primeira e a terceira marcha. “Dou uma volta de 45 minutos e volto pra descarregar o pessoal”, diz ele. “Tem que prestar aten√ß√£o em velocidade, galhos, fios, altura do som, meninos que ficam tumultuando na lateral.”

Quem ajuda Fabio na labuta √© Jo√£o Quaglio, 17 anos. Ele trabalha ao lado dos passageiros como DJ de trenzinho. Suas fun√ß√Ķes s√£o selecionar as melhores m√ļsicas em um aparelho similar a um r√°dio de carro, regular o som em uma mesa de som adaptada e abaixar o volume quando passam em frente a igrejas ou hospitais. Seu naipe bonach√£o, sua voz empostada e o microfone na m√£o denunciam algo mais. “Sou locutor tamb√©m e tenho de agitar a galera”, diz ele. “Sempre foi meu sonho trabalhar com trenzinho.”

Apesar da diferen√ßa de idade, Fabio e Jo√£o frequentam trenzinhos desde moleques. Fabio come√ßou a brincar como seguidor aos 10 anos. A vontade de participar daquilo era tamanha que levou o ent√£o garoto a fazer suas pr√≥prias cabe√ßas de personagem. “Voc√™ faz uma m√°scara com um bloco de isopor, vai fazendo no formato da cabe√ßa”, diz Fabio, esculpindo o ar. “Depois tem a fibra de vidro, o mesmo material usado em capacetes de moto.” Cada m√°scara leva tr√™s dias para ser feita ao pre√ßo m√©dio de R$ 250.

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Crédito: Felipe Larozza

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A identidade dos personagens est√° quase somente no rosto que carregam. Como poucas fantasias s√£o fi√©is aos modelos originais, n√£o √© raro encontrar um Patolino com regata vermelha da Quiksilver ou um Ben 10 com colete de brech√≥ ‚ÄĒ uma colcha de retalhos. Ainda assim, existe um mercado de roupas espec√≠ficas para os dan√ßarinos. “Se eu vejo na rua, eu sei exatamente qual fantasia eu fiz”, diz Tania Cardoso, 52 anos, costureira que confecciona roupas para trenzinhos h√° dez anos.

Seu primeiro molde foi feito em 2005. Ele foi destinado a seu pr√≥prio filho que era personagem de trenzinho. Hoje em dia, ela costura camiseta e macac√£o em apenas um dia cobrando R$ 50 pela m√£o de obra. O trabalho √© constante: como a correria √© grande, as fantasias rasgam com frequ√™ncia. Cabe ao dan√ßarino cuidar do seu uniforme de trabalho, √†s vezes at√© facilitando o reconhecimento do p√ļblico com um detalhe ou uma estampa. “S√£o eles que colocam os nomes dos personagens na fantasia”, diz Tania.

Al√©m do isopor, os materiais mais usados na confec√ß√£o do conjunto s√£o cetim e l√£ para o cabelo e acabamento das m√£os e p√©s. A Palha√ßaria, √ļnica loja especializada da cidade, vende seus melhores trajes por cerca de R$ 420 ‚ÄĒ um baita presente para crian√ßas que se divertem nos trenzinhos. “Os pais que podem d√£o a festa de anivers√°rio e compram a roupa do Fof√£o, mas alguns trocam a festa pela roupa”, diz Sandra Cruz, 42 anos, gerente e copropriet√°ria da loja. “Tem crian√ßas que dizem: ‘eu s√≥ quero ganhar a roupa!'”

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Crédito: Felipe Larozza

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Segundo Sandra, 60% do rendimento da empresa vem de fantasias. Cerca de 60 conjuntos de v√°rios tamanhos e modelos s√£o vendidos mensalmente. “Temos fantasias para outros estilos tamb√©m, mas as fantasias do trenzinho s√£o carro-chefe”, diz ela. Os personagens s√£o v√°rios: Mario, Luigi, Cebolinha, Casc√£o, M√īnica, Magali, Ben 10, M√°scara, e por a√≠ vai. Adivinhe quais os mais procurados? “Fof√£o e Palha√ßo s√£o os personagens que mais vendem.”

[olho]Não é raro encontrar um Patolino com regata vermelha da Quiksilver ou um Ben 10 com colete de brechó[/olho]

Sandra e sua irm√£ fundaram a loja h√° quatro anos. A m√£e delas faz fantasias desde 2008 e a demanda aumentou com o sucesso da confec√ß√£o. Sandra lembra que sua casa vivia cheia de garotos e donos de trenzinho em busca de fantasias. O bico virou emprego em tempo integral quando os rendimentos aumentaram. “Eu e minha irm√£ deixamos nossos trabalhos para investir nisso”, me conta ela. “Hoje n√≥s vivemos da loja, praticamente tr√™s fam√≠lias vivem da loja.”

Que trem é esse?

Como n√£o h√° literatura a respeito, existem poucas informa√ß√Ķes confirmadas sobre a cultura dos trenzinhos no Brasil. Em arquivos da d√©cada de 50 √© poss√≠vel encontrar as primeiras men√ß√Ķes ao termo. Em 1956, um trenzinho dava voltas pelos gramados ainda pelados do Parque do Ibirapuera, em S√£o Paulo. Em 1958, uma loja da falida rede Mappin contratou um trenzinho para comemorar o Natal. Segundo uma carta enviada por um leitor ao Estad√£o, coube a um funcion√°rio empurrar o trambolho pelas ruas no centro de S√£o Paulo.

A Trenzinho Star Tolomelli, de Governador Valadares, √© uma das empresas mais antigas do ramo ainda em atividade. Criada em 1979, ela hoje tem um dos mais famosos trenzinhos da cidade mineira. Seu fundador n√£o revela o nome por receio de se tornar muito conhecido. Ele tampouco confirma a lenda de que construiu seu primeiro trenzinho inspirado ap√≥s uma visita √† Disney nos anos 70 ‚ÄĒ os recorrentes casos de valadarenses que migram para os Estados Unidos d√£o um toque de realidade ao mito fundador.

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Em uma conversa por telefone, contudo, o senhor respons√°vel pela Star Tolomelli conta vantagens de alcance nacional. Apoiando-se em conversas de colegas de trabalho, ele afirma ter sido o primeiro a construir um ve√≠culo de dois andares no Brasil, h√° 30 anos, e ter estreado os tipos de caminh√Ķes usados hoje em trios el√©tricos baianos, tamb√©m h√° tr√™s d√©cadas. Ele arrisca uma cifra. “Os trenzinhos empregam mais de cinco mil pessoas, direta e indiretamente, em todo o Brasil.”

Hoje, o plantel de trenzinhos da Star Tolomelli diminuiu de cinco ve√≠culos espalhados em S√£o Paulo, Minas Gerais e Bahia para um √ļnico representante em Governador Valadares. O modelo √© sofisticado: tem Wi-Fi, banheiro, DJ profissional, palco e, claro, personagens. “O pessoal universit√°rio aderiu ao trenzinho, tem gente que me fala que vinha no trenzinho quando era filho e agora traz o neto e o sonho das crian√ßas aqui √© trabalhar no trenzinho Star Tolomelli”, afirma o an√īnimo empres√°rio. “Passou a ser uma cultura.”

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√Ä exce√ß√£o da alta velocidade dos seus trenzinhos, a cidade mineira repete o esquema de Ribeir√£o Preto: ex√≠mios dan√ßarinos fantasiados, p√ļblico adolescente, m√ļsicas de sucesso, ve√≠culos gigantes e ostensivas turn√™s locais e regionais. A cultura dos trenzinhos ribeir√£o-pretana, no entanto, se apoia na fraqueza do equipamento e do sistema p√ļblicos de lazer, esporte e cultura; no elevado √≠ndice populacional frente a outras cidades do interior; e na relev√Ęncia regional da cidade.

Para 2015, por exemplo, a despesa da prefeitura de Ribeir√£o Preto com as pastas de cultura, lazer e esporte foi or√ßada em cerca de R$ 24 milh√Ķes. Isso corresponde a 1,2% do R$ 1,8 bilh√£o investido ou R$ 36 por ano para cada um dos 666 mil habitantes estimados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat√≠sticas (IBGE). Segundo a mais recente classifica√ß√£o do √≥rg√£o, a cidade apresenta o 28¬ļ maior PIB do pa√≠s, uma pir√Ęmide et√°ria larga nas faixas de 15 a 34 anos e IDH 0,800 ‚ÄĒ √≠ndice muito alto.

A pujan√ßa interiorana se deve parcialmente a s√©culos passados. O campus da Universidade de S√£o Paulo que alimenta a cidade com novos profissionais ocupa o que fora uma fazenda cafeeira at√© meados de 1950. As lavouras da regi√£o agora s√£o lembran√ßas em ruas asfaltadas como a principal via de acesso a USP, a Avenida do Caf√©. Segundo um recente levantamento, a cada quatro habitantes de Ribeir√£o Preto, tr√™s est√£o empregados no setor de com√©rcio e servi√ßos. E eventos como o √ļltimo Agrishow mostram que o agroneg√≥cio diminuiu.

Esse misto de import√Ęncia socio-econ√īmica, desenvolvimento relativo, pol√≠ticas p√ļblicas lenientes, popula√ß√£o jovem e clima de interior criou um cen√°rio favor√°vel ao agigantamento metam√≥rfico dos trenzinhos na cidade. “O pessoal de Ribeir√£o Preto √© festeiro pra caramba tamb√©m”, me explica Wellington Cardoni, 37 anos. Ele e sua esposa, Fabiana Cardoni, 34 anos, s√£o propriet√°rios da Dominium, maior empresa de trenzinhos da regi√£o. Com cinco ve√≠culos e quarenta funcion√°rios, eles chegam a fazer cento e sessenta festas por m√™s.

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Wellington e Fabiana no pátio de trenzinhos da empresa do casal. Crédito: Felipe Larozza

“Quando era crian√ßa, eu andei muito no trenzinho Pancad√£o porque tinha um supermercado que chamava ele toda semana das crian√ßas”, me conta Wellington. “Tinha gente virando a esquina na fila, tinha a Cuca, o Fof√£o‚Ķ Eu n√£o imaginava que esse trenzinho ia ser meu.” Esse foi o terceiro trenzinho comprado pela sua empresa. O primeiro foi o singelo Encantado. O segundo foi o cl√°ssico Carreta Furac√£o. At√© hoje, ele √© a maior locomotiva do sucesso da Dominium.

Quem v√™ o sorridente rosto estampado na frente desse trenzinho mal sabe que ele n√£o passava de tristes ferragens largadas em uma garagem em Franca, cidade do interior de S√£o Paulo, em 2010. O antigo propriet√°rio tinha come√ßado a montar o ve√≠culo havia alguns meses, mas ele n√£o p√īde finalizar obra. Ao saber disso, Wellington e Fabiana arremataram o potencial trenzinho por R$ 50 mil. Ele s√≥ foi √† rua ap√≥s ganhar reforma e nome. Naquele mesmo ano, o Carreta Furac√£o foi ao mundo na filmagem de um seguran√ßa da equipe.

“Quando o cara que vendeu descobriu o sucesso, ele ligou pedindo pra gente vender de volta”, diz Fabiana. No meio da conversa, ela atende √† chamada de algum cliente da capital. O marido lembra de algumas hist√≥rias do trenzinho: a liga√ß√£o feita pelo cantor Leandro Lehart agradecendo a divulga√ß√£o involunt√°ria da sua m√ļsica ou os jovens dan√ßarinos do Guaruj√° que cogitaram pedir emprego na Dominium. “N√£o tem como vender o Carreta Furac√£o”, sentencia Wellington. “Muitos j√° ligaram pedindo, mas n√£o tem como.”

Ainda assim, a menina dos olhos √© estimada pelo empres√°rio em R$ 200 mil. O valor aumentou com a reforma conclu√≠da em outubro. A reestreia do Carreta Furac√£o ser√° no Dia dos Trenzinhos, evento organizado pelo casal junto de outras empresas da cidade. Como todo dono de trenzinhos, Wellington puxa sardinha para seu lado ‚ÄĒ com um fundo de raz√£o. “O Carreta Furac√£o levou o nome dos trenzinhos pro mundo”, diz ele. “Voc√™ veio de S√£o Paulo por causa da Carreta Furac√£o.”

Tamanha fama n√£o viria sem efeitos indesejados. Segundo o casal, h√° trenzinhos que aproveitam a relev√Ęncia conquistada pelo seu trabalho. Eles relatam dois casos em que empresas fecharam contratos em nome do Carreta Furac√£o, mas, na verdade, outros trenzinhos foram usados nas festas. A concorr√™ncia, que chegava a seis ou oito representantes nos anos 90, hoje chega a 40 ve√≠culos em uma √ļnica cidade.”√Č um mercado desleal”, afirma Fabiana.

A competi√ß√£o fica mais acirrada com a presen√ßa de trenzinhos de outros lugares. O contrato para uma festa com trenzinho de Ribeir√£o Preto varia entre R$ 200 e R$ 350, mas trenzinhos forasteiros cobram at√© 100 reais a menos que isso. Embora Wellington tenha excursionado com sua equipe em outras cidades, ele se op√Ķe a essa pr√°tica em sua pr√≥pria terra. “Eles n√£o pagaram o que a gente pagou pra manter advogado, assessoria, os laudos dos ve√≠culos da Associa√ß√£o”, diz ele.

A Associa√ß√£o de Trenzinhos de Ribeir√£o Preto foi formada em 2011 para impedir a presen√ßa de trenzinhos de outras cidades. Desde as primeiras reuni√Ķes ela √© presidida por Tony Leme. Ele construiu seu primeiro trenzinho h√° quarenta anos ‚ÄĒ uma Variant adaptada. Hoje, seu filho comanda o trenzinho Trio Big Folia. Presidente da Associa√ß√£o, o patricarca tamb√©m cuida da empresa com seu nome. “Minha preocupa√ß√£o como presidente √© ajudar os donos de trenzinho que querem ser ajudados”, diz ele.

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Tony Leme. Crédito: Felipe Larozza

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Nem mesmo o neto pequeno balbuciando a palavra trenzinho consegue derrubar o semblante turr√£o do empres√°rio. Para ele, outro problema no mercado √© a crise econ√īmica. Na sua an√°lise, ela reduziu at√© mesmo a procura por atividades de lazer baratas. “A crise cai sobre a popula√ß√£o”, diz ele. “O √ļnico divertimento que uma pessoa pobre tinha at√© ent√£o era o trenzinho: se for ao shopping, ela gasta R$ 150; se for ao parque, ela gasta R$ 20; se for √† pra√ßa, n√£o tem nada porque est√° tudo destru√≠do.”

Os propriet√°rios da Dominium tamb√©m pensam dessa maneira. Fabiana reconhece que a maior parte de seu p√ļblico √© formado pela camada de menor poder aquisitivo da popula√ß√£o. O trenzinho √© o √ļnico divertimento acess√≠vel a crian√ßas e adolescentes dessa parcela. “Ribeir√£o Preto n√£o tem o que fazer, √© uma cidade muito grande e n√£o tem nada”, diz ela. “Se uma pessoa tem quatro, cinco filhos, como ela vai levar todos pra um parque de divers√£o?”

Seu marido afirma que a Associa√ß√£o surge para proteger os trenzinhos, mas que ela n√£o atua nesse sentido. “Hoje, a Associa√ß√£o n√£o exerce o papel dela”, afirma Wellington. Ele tamb√©m diz que h√° queixas de v√°rios associados a gest√£o da entidade, da qual ele mesmo faz parte. Segundo o propriet√°rio da Dominium, chegou ao fim o mandato da chapa atual da Associa√ß√£o, mas n√£o houve novo pleito. “O presidente tem vantagens com trenzinhos, pra ele n√£o √© interessante essa vota√ß√£o”, diz ele.

Segundo o presidente da organiza√ß√£o, nem todos associados pagam a taxa de manuten√ß√£o exigida em estatuto. Tony tamb√©m alega que poucos filiados ajudam nos tr√Ęmites burocr√°ticos. Para ele, vale aquela m√°xima: a uni√£o faz a for√ßa. “N√≥s, da Associa√ß√£o, somos desunidos. Se algu√©m vier aqui, eu passo o cargo porque isso √© s√≥ bucha, dor de cabe√ßa”, afirma ele. “Mas eu n√£o vi ningu√©m que vista a camisa como eu visto.”

 

Cultura pra quem?

A Associa√ß√£o de Trenzinhos de Ribeir√£o Preto tamb√©m nasceu para defender os interesses da classe ante as regula√ß√Ķes do governo. Em 2011 a c√Ęmara legislativa da cidade deu in√≠cio √†s primeiras discuss√Ķes sobre a atividade dos trenzinhos. “A gente percebeu que, de fato, era uma atividade cultural irregular da cidade que estava trazendo uma s√©rie de situa√ß√Ķes de risco para os trabalhadores e para seus pr√≥prios usu√°rios”, afirma Gl√°ucia Berenice, vereadora do PSDB, em seu gabinete no pr√©dio de inspira√ß√£o brutalista que abriga a C√Ęmara Municipal da cidade.

Segundo ela, h√° v√°rios relatos de cidad√£os incomodados com trenzinhos. As reclama√ß√Ķes em geral recaem sobre o comportamento do p√ļblico ou sobre as m√ļsicas dos ve√≠culos ‚ÄĒ n√£o s√≥ o volume. “Tem letras de conota√ß√£o sexual e muita apologia a criminalidade”, diz ela. A vereadora conta a hist√≥ria de uma m√£e que acenava com o filho de colo para o personagem Homem-Aranha em um trenzinho. “Quando levantou a m√°scara, ele tinha um cigarro de maconha enorme na boca!” Acidentes tamb√©m est√£o na lista de problemas.

O aumento da quantidade de trenzinhos acentuou o n√ļmero de den√ļncias. Segundo Glaucia, o Minist√©rio P√ļblico da cidade era favor√°vel √† proibi√ß√£o da atividade, mas o legislativo buscou uma alternativa. Em julho de 2013 foi aprovada a lei n¬ļ 13.030, a “lei dos trenzinhos”, ap√≥s debates entre bombeiros, policiais, engenheiros, fiscais, legisladores e representantes do trenzinhos ‚ÄĒ em um dia de protesto, eles levaram os poderosos ve√≠culos para a frente da C√Ęmara.

A lei, no entanto, criou um limbo jur√≠dico por dois motivos. Ela prev√™ que todos os trenzinhos da cidade recebam um alvar√° da prefeitura para circular e cria um departamento de fiscaliza√ß√£o para atender den√ļncias dos cidad√£os, mas n√£o determinava qual representante da prefeitura desempenharia essas fun√ß√Ķes. Sem documentos, empres√°rios como Tony Leme e o casal Wellington e Fabiana eram clandestinos na pr√≥pria cidade. Sem fiscaliza√ß√£o, qualquer trenzinho agia como bem queria.

No papel, esses problemas foram solucionados com um novo decreto de lei publicado em di√°rio oficial no fim de agosto. O dispositivo legal coloca o Departamento de Fiscaliza√ß√£o Geral da Prefeitura de Ribeir√£o Preto para atuar junto aos trenzinhos. Segundo Osvaldo Braga, diretor do setor, uma quest√£o simples, mas de grande import√Ęncia seria resolvida at√© o fim de outubro. “N√≥s teremos a realidade de quantos trenzinhos existem na cidade porque todos ter√£o de apresentar documenta√ß√£o”, diz ele.

Segundo Osvaldo, houve um grande per√≠odo de debates e revis√Ķes at√© que a lei fosse sancionada pela prefeita. “Coube a n√≥s estudar mais a lei e foram feitas v√°rias reuni√Ķes no Departamento junto aos profissionais dos trenzinhos”, diz ele. Embora o alto volume do som dos ve√≠culos entre 22h30 e meia-noite seja a causa de maior parte das reclama√ß√Ķes, os empres√°rios do setor estavam mais preocupados com o estilo das m√ļsicas: eles queriam funk. “Era uma briga grande dos profissionais, mas prevaleceu que esse tipo de m√ļsica n√£o ser√° executado.”

A atua√ß√£o das empresas de outras cidades em Ribeir√£o Preto tamb√©m ser√° verificada pela fiscaliza√ß√£o. Para Osvaldo, √© preciso que todos os trenzinhos tenham CNPJ e firma aberta no munic√≠pio. “Temos uns tr√™s ou quatro trenzinhos de outras cidades que v√™m atuar aqui e agora vamos agir no rigor da lei”, diz ele. “Ser√° uma fiscaliza√ß√£o √°rdua, principalmente nesse in√≠cio, e daremos prioridade para os casos do pessoal de fora que vem trabalhar aqui.”

A puni√ß√£o para empresas que cometerem infra√ß√Ķes varia de multas entre R$ 501 e R$ 11 mil a cassa√ß√£o do alvar√°. O departamento recebe den√ļncias no 156. Dois funcion√°rios verificam as den√ļncias feitas √† noite, mas eles tamb√©m est√£o encarregados pelos casos de perturba√ß√£o do sossego em toda a cidade. Por isso, Osvaldo pede que as reclama√ß√Ķes sejam realizadas com imagens dos ve√≠culos infratores. “Se eu recebo uma den√ļncia, na hora que o fiscal chega o trenzinho j√° passou e foi embora”, diz ele.

Perto do fim da conversa, Osvaldo me conta de uma recente visita que tinha feito a Caldas Novas, no interior de Goi√°s: “L√° os trenzinhos n√£o t√™m m√ļsica alta, eles ficam andando pela cidade com um sininho.” Estranho. Caldas Novas √© conhecida por dionis√≠acos festivais sertanejos, beberran√ßas hom√©ricas, canh√Ķes de luz t√£o potentes quanto o sinal do Batman, pared√Ķes de alto-falantes que fazem o som da percuss√£o de qualquer arrocha estalar pelos ossos. Seriam os trenzinhos de l√° meros bibel√īs?

Este v√≠deo me mostra que sim. Depois da descoberta no interior de S√£o Paulo, contudo, n√£o deixo de pensar que h√° um potencial, um devir maior em qualquer carro√ßa f√©rrea que circule pelo interior do Brasil. Na sa√≠da de Ribeir√£o Preto, em uma calorenta tarde de domingo, vi uma dessas correndo pela estrada. A pintura opaca do dia, as l√Ęmpadas ofuscadas pelo sol, as cadeiras vazias, o motorista oculto, os personagens ausentes. Tudo isso, mas um nome estampado. Trenzinho da Alegria.

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CHOOSE YOUR DESTINY. Crédito: Felipe Larozza

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