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A invas√£o do K-Pop

 

‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!‚ÄĚ

Se tem uma coisa que voc√™ precisa saber sobre K-pop, a m√ļsica pop produzida na Coreia do Sul, √© que o fanatismo obcecado dos f√£s se expressa em gritos. √Č in√≠cio de noite da quinta-feira, 21 de julho, e o Teatro Gazeta, na avenida Paulista, est√° lotado de adolescentes, sobretudo meninas, segurando um mar de varinhas de neon.

No palco, sucedem-se 17 grupos covers de dan√ßa e canto selecionados para o 3¬ļ Korean Pop Festival. O pr√™mio geral √© cinco mil reais e o de cada categoria, tr√™s mil. Mais importante: os vencedores poder√£o disputar uma vaga para competir na final mundial na Coreia do Sul.

Cada artista que pisa no palco, ‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!‚ÄĚ, cada grupo, ‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAA!‚ÄĚ, cada mensagem dos apresentadores ‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!‚ÄĚ, √© respondida com uma manifesta√ß√£o ululante das f√£s.

No palco tem uma menina que, meu Deus!, o que √© isso? √Č a Pammie interpretando Arirang Alone, da cantora So Hyang, com uma voz t√£o imponente que se imp√Ķe sobre¬†o grito da plateia, atingindo uns agudos l√° pra cima na escala. Gente, ela √© tudo! Canta em coreano, apesar de n√£o ter completado nem o primeiro m√≥dulo do idioma. Ela¬†n√£o¬†√© nem¬†cantora profissional, mas auxiliar administrativa em uma empresa que vende doces e salgados. Se n√£o fosse o K-pop, o nome dado ao fen√īmeno cultural coreano, ela n√£o estaria cantando. E esse pr√™mio √© importante, porque ela ganhou o geral do ano passado, mas n√£o foi pra Coreia, embora merecesse muito!¬†Todos ali sabem quem √© Pamella Raihally.

Sabia que o¬†Brasil j√° teve uma banda que tentou imitar o pop coreano? Era a Champs, que apareceu na Ana Maria Braga (ela chamou de Champers, ai…), ganhou 600 mil likes no Facebook, mas acabou e um integrantes do grupo virou YouTuber e j√° tem 70 mil seguidores. O Iago, lindo!, virou ex-Champs, seguiu dan√ßando e tem uma banda cover chamada Allyance, que est√° agora reunida nas coxias de teatro. A apresenta√ß√£o da cantora M√īnica Neo, que veio depois da Pammie, est√° acabando. Eles est√£o ali h√° um minuto abra√ßados e, de repente… o ‚ÄúAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA‚ÄĚ invade¬†as coxias. O nome da banda est√° no tel√£o. Todos sabem que √© a banda de Iago Aleixo.

O grito, aqui, n√£o √© o s√≠mbolo do desespero, mas da tomada de assalto da cultura coreana em segmentos dos jovens brasileiros, num fen√īmeno chamado Hallyu ‚ÄĒ a nova onda avassaladora que veio da √Āsia e abocanhou os jovens da classe C.

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Crédito: Anna Mascarenhas

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A infiltra√ß√£o do K-pop no Brasil pode estar √† margem da sua rede de contatos e at√© da sua timeline, mas ela √© a parte mais expressiva do soft power sul-coreano por aqui. Pelo leste da √Āsia, os produtos culturais do pa√≠s se espalharam com a for√ßa de uma pol√≠tica de Estado que deu certo. O termo Hallyu precisou ser criado por jornalistas chineses para explicar a influ√™ncia cultural do Estado vizinho.

Por falta de acesso aos mercados dominados pelas grandes gravadoras e incapazes de enfrentar a pirataria na China, as empresas coreanas abdicaram do CD e apostaram no que acabou por se tornar a MTV dos anos 2010, o YouTube. Deu certo? Bom, lembra do Psy? A m√ļsica Gangnam Style, que explodiu em 2012, n√£o passava de uma piada interna, uma ironia a uma cultura musical bem estabelecida ‚ÄĒ at√© hoje nenhum v√≠deo superou sua marca de dois bilh√Ķes de visualiza√ß√Ķes.

Os clipes das bandas mais famosas entre os f√£s costumam ter um ar mais rom√Ęntico, a um s√≥ tempo atrativo e infantil, no qual a beleza dos artistas parece ter sa√≠do de um anime. Existe um grau de sexualidade latente, mas sublimada nas atitudes dos m√ļsicos jovens: sempre educadinhos e fofos; nunca machos alfa pegadores.

Pouco a pouco, via YouTube e bordas da cultura anime, o K-pop começou a fincar raízes bem no momento em que a classe C se expandia no Brasil e procurava novas referências culturais. Mesmo exóticas, elas se acomodaram a valores mais conservadores, evangélicos, acompanhadas por sonhos de luxo e glamour. Alessandra Vinco começou como fã em 2011 e agora pesquisa o tema pela Universidade Federal Fluminense. Para ela, K-pop é um gênero híbrido: se apropria de elementos globais, mas preserva valores confuncionistas, como a preservação da família, o respeito ao próximo e o resguardo da vida sexual.

Uma pesquisa do centro cultural coreano apontou que o n√ļmero de f√£s no Brasil era 220 mil pessoas. A sensa√ß√£o √© que o n√ļmero √© bem maior. A maior prova, para al√©m dos diversos sites e festivais que cultivam o nicho, √© que o programa do Raul Gil vai estrear um quadro chamado ‚ÄúQuem sabe, dan√ßa K-pop‚ÄĚ no dia 13 de agosto. ‚ÄúNesta nova atra√ß√£o‚ÄĚ, diz o locutor do v√≠deo promocional, ‚Äúatravessamos o planeta para trazer um g√™nero musical repleto de batidas emocionantes e coreografias absolutamente viciantes‚ÄĚ. Grupos cover podem se inscrever no site do SBT. O pr√™mio ser√° de 10 mil reais.

Já os aspectos demográficos têm dados um pouco melhores. Em 2015, Tiago Canário, um doutorando no departamento de Cultura Visual da Korea University, fez uma pesquisa online na qual 2.764 pessoas responderam a um questionário sobre o cultura corena no Brasil. Dessas, 91,3% se identificaram como mulheres, 8,36% como homens. No total, 95% dos fãs de K-pop tinham entre 10 e 29 anos. Apenas 18 pessoas se identificaram como descendentes de coreanos.

Ricardo Pagliuso Regatieri, um pesquisador brasileiro do departamento de sociologia da Korea University, escreveu em artigo ainda n√£o publicado que os f√£s paulistas v√™m de regi√Ķes perif√©ricas e semiperif√©ricas da cidade e arredores. Resultados preliminares de outra pesquisa online feita com 635 pessoas mostra que 37% dos f√£s t√™m renda familiar entre R$1.751 e R$3.500 por m√™s e 26% t√™m renda familiar mensal de at√© R$1.750. Ou seja, boa parte se enquadra dentro da nova classe C brasileira.

No artigo, Regatieri oferece uma interpreta√ß√£o do fen√īmeno: o K-pop se conecta ao processo de mobilidade social, usando a popularidade da internet no pa√≠s como principal combust√≠vel. No processo, os f√£s do estilo no pa√≠s buscam¬†uma ruptura com os modelos culturais de seus pais e av√≥s. A f√°brica de sonhos do K-pop, ele escreve, oferece um repert√≥rio de modernidade centrado nos prazeres do consumo, da moda e do glamour da vida na cidade.

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Pammie em ação. Crédito: Anna Mascarenhas

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Pammie e Iago ‚ÄĒ a cantora e o youtuber ‚ÄĒ s√£o parte dos dois mundos. Moradora do limite entre S√£o Paulo e Diadema, ela come√ßou a cantar pequena, nos cultos da Igreja Universal do Reino de Deus. Logo, o talento foi reconhecido e come√ßou a ser chamada para se apresentar, de gra√ßa, em casamentos dos fi√©is. Em 2010, no √ļltimo ano da escola, viu o primeiro clipe de K-pop pela internet ‚ÄĒ era GARAGARA GO!!, da BIGBANG.

‚ÄúO K-pop foi natural pra mim. Cheguei a mostrar para algumas amigas, mas elas n√£o ficaram t√£o f√£s como eu. A gente ensaiava numa sala vazia para se apresentar nas festas da escola‚ÄĚ, me disse por telefone durante o seu intervalo do almo√ßo na empresa onde trabalha como auxiliar administrativa, no Morumbi.

Pamella, 23, √© um tipo de talento natural. Chegou a fazer aulas de canto depois que alguns professores elogiaram sua performance ao interpretar uma m√ļsica da Rihanna em coreano. N√£o chegou a concluir o curso, contudo. Eram tempos de IPI reduzido. ‚ÄúNa √©poca, meu pai queria comprar um carro. Como era ele que pagava pra mim, e a escola era muito boa e cara, eu sacrifiquei a minha aula para podermos comprar. Depois, n√£o voltei mais.‚ÄĚ

Uma das juradas do 3¬ļ K-pop Festival, a cantora l√≠rica Cec√≠lia Massa, acha que Pammie tem potencial para ser uma cantora de jazz. ‚ÄúVejo nela um alt√≠ssimo n√≠vel vocal, capaz de fazer varia√ß√Ķes muito r√°pidas na voz. A primeira vez que a escutei ela me lembrou da Whitney Houston‚ÄĚ, me disse numa tarde do final de julho em um caf√© em Santa Cec√≠lia.

Para ela, Pamella est√° escutando um repert√≥rio com melodias simples e harmonia b√°sica. ‚ÄúEla tem um material maravilhoso, mas √© uma escolha dela‚ÄĚ, disse sem nenhum tom professoral. ‚ÄúSeguir cantando √© uma felicidade que ela pode ter e dar ao outros‚ÄĚ.

Acontece que Pammie fica num cruzamento em termos de mercado e talento. √Č boa demais para o que faz sucesso na televis√£o, mas tem poucas refer√™ncias de caminhos a seguir e cantoras em quem se inspirar. ‚ÄúVoc√™ n√£o consegue viver da m√ļsica aqui no Brasil”, me disse Pammie. “J√° pensei em seguir mas √© dif√≠cil. Acho que se eu n√£o tivesse conhecido o K-pop, hoje n√£o estaria cantando.‚ÄĚ Uma vit√≥ria no concurso √© o est√≠mulo para faz√™-la seguir o que lhe d√° mais prazer.

As empresas coreanas conseguiram criar uma tecnologia cultural capaz de criar boys e girls bands em uma sequ√™ncia quase industrial. Os futuros artistas entram como trainees por volta dos 15 anos e saem capazes de atuar, cantar, dan√ßar etc. Existe o V-pop (Vietn√£), o T-pop (Tail√Ęndia) e J-pop (Jap√£o). E por pouco n√£o vingou por aqui um B-pop.

Iago Aleixo, hoje com 20 anos, foi uma cobaia da tentativa de reproduzir o modelo no Brasil. Aos 17, foi selecionado por um produtor coreano e passou a morar com mais cinco pessoas no centro de S√£o Paulo. Nascido no Rio, hoje ele mora com a m√£e em Osasco.

Nos encontramos no café do Centro Cultural São Paulo, que se tornou o ponto de encontro dos k-poppers, um pouco antes de um ensaio da sua banda, a Allyance, para o festival que ocorreria na semana seguinte. Antes da conversa, ele entrou no bar e saiu com uma garrafa de 600ml de refrigerante. Tentou abri-la; não conseguiu. Deixou-a sobre a mesa e contou sobre sua experiência no processo de se tornar um b-popper em 2013.

[olho]”As meninas t√™m que te querer e os meninos t√™m que querer ser voc√™”[/olho]

‚ÄúEra um projeto da JS Entertainment, empresa coreana com foco no Brasil. Depois da sele√ß√£o, tive que deletar as redes sociais e criar novas como se eu fosse uma nova pessoa. Praticamente, nascer de novo. Eu tinha muitos tweets antigos, ent√£o, tipo, se a pessoa fosse nos arquivos poderia ver alguma poss√≠vel besteira que falei quando era pequeno. Da√≠ isso pesaria agora. Eles excluem toda nossa vida passada, s√≥ deixam a mostra o que querem.‚ÄĚ Tentou abrir novamente a garrafa. N√£o conseguiu.

‚ÄúNa Champs, eu era o mais novo, por isso tinha que mostrar uma pureza. Tinha que ser um fofinho, sem barba, meu cabelo tinha que ser liso, jogado √† Justin Bieber. N√£o podia usar √≥culos, pra visualmente ficar mais bonito, e tinha que ser um corpo definido pra criar mais interesse. Ou seja, tinha que ser um menino perfeito. A empresa cria a ideia do desejo. Eu fiz parte disso, desse meio. Nosso empres√°rio falava ‚Äėvoc√™s t√™m que fazer a menina desejar voc√™s para se elas se tornarem f√£s. As meninas t√™m que te querer e os meninos t√™m que querer ser voc√™‚Äô‚ÄĚ. Mais uma tentativa com a garrafa. Nada.

De √≥culos, com uma barba ruiva de poucos dias, ele fala com empolga√ß√£o do treinamento. De seus l√°bios saem palavras que relembram a antiga rotina com um leve sotaque carioca: de segunda a domingo, da manh√£ √† noite, muscula√ß√£o, canto, coreografias, aulas de hip-hop, ballet e jazz. S√°bado era dia de treino livre e teatro. Domingo o ensaio era at√© as 15h, depois vinha a folga. Fora moradia, n√£o recebia nada. ‚ÄúQuerendo ou n√£o, ele [o empres√°io] tava gastando bastante dinheiro.‚ÄĚ

Por fim, gravaram o clipe na Coreia e estrearam no Brasil. Receberam boa cobertura da imprensa, mas a Champs n√£o deu certo naquele momento. Iago acha que foi m√° administra√ß√£o. Por√©m, o sistema do K-pop se baseia em baixas margens de lucro. Como a m√ļsica √© distribu√≠da de gra√ßa pelo YouTube, o sistema de v√≠deos do Google fica com a maior parte do dinheiro da publicidade online. Se a base de f√£s n√£o dispara, os shows e outros produtos n√£o compensam o investimento.

Quando viu que não daria certo, fez o que boa parte dos jovens deseja hoje em dia: criou um canal no YouTube. Começou com duas mil pessoas e agora tem 70 mil seguidores. Espera acabar o ano com 100 mil. Diz que não está mais vendendo um personagem, mas o Iago real.

‚ÄúO Iago do Champs era uma pessoa para ser desej√°vel e eu n√£o quero ser desej√°vel. Quero ser admirado. Quero que as pessoas olhem pra mim e falem ‚Äėcaraca, olha o que ele t√° fazendo com estilo que eu gosto’. N√£o quero ser o estrelinha, o famosinho. Quero ser uma pessoa que √© parada na rua por algu√©m dizendo que gosta do meu trabalho.‚ÄĚ Ele pega a garrafa, crava os dentes molares na tampa verde. Contrai os olhos, gira a garrafinha com as m√£os e tssssss. Consegue abri-la. Toma um gole e vai encontrar os colegas para o ensaio da m√ļsica Fly, da banda GOT7.

Para ele, vencer o festival significa, além do gosto do prazer de se sentir um k-popper e do prêmio para pagar os custos figurino, faz parte de uma estratégia para voltar à Coreia do Sul e ajudar a turbinar seu canal no YouTube.

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Iago (à frente, de óculos) e sua trupe do Allyance. Crédito: Anna Mascarenhas

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Na longa fila que se forma nos arredores do Teatro Gazeta, centenas de adolescentes aguardam para entrar no festival de covers de K-pop. Um dos poucos adultos, o guarda civil H√©lio Marques, 52, acompanha as tr√™s filhas. ‚ÄúVim por causa da minha menina, que escuta muito, muito. Ela sabe at√© o que o menino come”, diz sem brincar.

Antes do show, encontro com Pamella e Iago. Ela, bem maquiada, de vestido longo floreado e Havaianas, est√° insegura, com um pouco de medo por causa da dificuldade da m√ļsica. Ele, mais profissional, ainda est√° sem o figurino. Conta que no √ļltimo ensaio, dois dias antes, repetiram toda a dan√ßa 25 vezes. Eles tiram fotos e voltam para acabar de se arrumar.

O teatro está lotado. Os cerca de 50 competidores ficam no mezanino, à esquerda de quem encara o palco. Dá pra sentir a expectativa e a tensão. Iago, já com o figurino, fica filmando e tirando fotos com os amigos. Há grupo de cinco meninas vestidas com o que parece ser um uniforme das paquitas. Duas delas ensaiam alguns passos juntas. Pamella está sentada com o celular na mão, de cabelo solto. Está ao lado de outra cantora, com a qual troca algumas palavras. Fala com outras pessoas, mas a vida de cantora parece mais solitária.

N√£o s√≥ pela m√ļsica, mas todos est√£o agitados, afinal √© o principal momento pelo qual esperaram e treinaram. A recompensa √© grande. Pelas regras do evento, h√° duas vagas para disputar a chance de ir pra Coreia. Se, por exemplo, o canto vencer o pr√™mio principal, a outra vaga √© de quem vencer na dan√ßa.

Os participantes têm camarins, garrafas de 1,5 litro de água e esfihas do Habibs à vontade.

O primeiro competidor, Davi Nogueira, senta num banquinho e com viol√£o em m√£os, apresentada uma m√ļsica de Roy Kim.

‚ÄúBoa noite‚ÄĚ, diz. A plateia responde: ‚ÄúAAAAAAAAAA!‚ÄĚ

Antes de come√ßar a tocar, uma menina atr√°s de mim grita: ‚ÄúArrasa, viado!‚ÄĚ

Na sequ√™ncia, v√°rias bandas e competidores tomam o palco. Os momentos mais sexualizados das coreografias s√£o os que arrancam mais gritos. Por vezes, os berros s√£o t√£o fortes, constantes e esgani√ßados que se sobrep√Ķem √† voz das apresentadoras.

Os artistas se sucedem até que às 20h14 chega a vez de Pammie.

Perto dos demais, ela parece uma cantora de √≥pera. Das coxias, d√° pra ver que ela transpira presen√ßa de palco, segura o microfone com uma m√£o e despeja toda sua pot√™ncia sonora. √Č uma apresenta√ß√£o elegante ‚ÄĒ recebe mais aplausos do que gritos. Ao sair, bebe tr√™s copos d’√°gua. As m√£os tremem. N√£o consegue dizer muito al√©m de ‚Äút√ī nervosa‚ÄĚ.

Em seguida, h√° outra apresenta√ß√£o. O grupo de Iago fica na lateral do palco e se prepara para entrar. Todos os membros se abra√ßam e formam um c√≠rculo. Iago fala algumas palavras de motiva√ß√£o. Ficam assim por mais ou menos um minuto. A cantora que est√° no palco, M√īnica Neo, encerra a apresenta√ß√£o. Iago est√° sem √≥culos. O c√≠rculo se desfaz e eles se d√£o uns tapinhas de apoio. O nome do grupo aparece no tel√£o e eles entram no palco para atender ao chamado da orquestra de berros. Do backstage, de uma vis√£o lateral, a coreografia parece perfeita. Ao final, os gritos, sempre eles, invadem a coxia. Os integrantes saem em duplas em sil√™ncio. Recebem elogios dos grupos que esperam para se apresentar. Iago p√Ķe os √≥culos.

Longe do palco, depois de um longa escadaria que leva a um espa√ßo atr√°s no mezanino, um dos dan√ßarinos, Paulo Fraga, chora muito. Toma √°gua tremendo. Iago re√ļne todos, formam um novo c√≠rculo e ele diz: ‚ÄúA galera n√£o parou de gritar! N√£o importa quem errou. T√ī muito orgulhoso desses quatro meses de trabalho‚ÄĚ.

Crédito: Anna Mascarenhas
Allyance no palco. Crédito: Anna Mascarenhas

Eu volto para a plateia e sento em outro lugar. A menina ao meu lado, de blusa e meia calça preta, saia rosa um palco acima do joelho, usa óculos redondo de acetato. Ela pula na cadeira, chacoalha a varinha de neon, grita com força, descansa e se abana.

O an√ļncio dos pr√™mios sai pouco tempo depois da √ļltima apresenta√ß√£o. No palco, est√£o reunidos todos os competidores. Das coxias, o √°udio fica abafado, mas descubro que a Pammie √© a n√ļmero um do canto. O Allyance ganha na dan√ßa. Venus, um cover de dan√ßa de 10 meninas, √© o primeiro geral. Iago ganha o dinheiro, mas n√£o ter√° a chance de competir na Coreia. Todos se abra√ßam, perdedores e vencedores. Mas quem fica para a foto s√£o s√≥ os vencedores.

Mais calma, Pammie diz que o retorno do √°udio estava distante e por isso n√£o conseguia saber se tinha ido bem. No olho escuro, negro, quase sem diferen√ßa entre √≠ris e pupila, s√≥ se v√™ o brilho do reflexo das luzes. V√°rias pessoas a parabenizam. Algu√©m comenta: ‚ÄúAgora tem que deixar as amiguinhas ganharem‚ÄĚ. Ela sorri amarelo ‚ÄĒ √© uma menina t√≠mida, n√£o uma artista.

Conversa com Cec√≠lia Massa, uma das quatro juradas. Ela est√° dizendo que a m√ļsica √© muito dif√≠cil, mas que existem caminhos profissionais, com mais consci√™ncia vocal. Fala de um jeito educado, preocupado.

‚ÄúVoc√™ faz aula?‚ÄĚ, pergunta a jurada.

‚ÄúN√£o.‚ÄĚ

‚ÄúVoc√™ canta m√ļsica brasileira?‚ÄĚ

‚ÄúN√£o, mais internacional.‚ÄĚ

‚ÄúVoc√™ tem presen√ßa, mas tem que ouvir grandes int√©rpretes internacionais e nacionais.‚ÄĚ

‚ÄúSe n√£o fosse o K-pop, eu n√£o estaria cantando.‚ÄĚ

‚ÄúMas tem um mercado, sim. N√£o √© o da TV ou que aparece na grande imprensa, mas existe um outro mercado. Na internet, em editais…‚ÄĚ

A seguir, encontro com Iago. Est√° s√©rio, mas age como um profissional. Elogia as concorrentes, fala do esfor√ßo do grupo do pr√™mio, mas sabe que n√£o ganhou o que queria. Assim que para de falar comigo diz a um colega: ‚ÄúNossa!, que raiva, velho. V√≠deo filho da puta!‚ÄĚ Ele atribui a derrota ao v√≠deo enviado na pr√©-sele√ß√£o dos competidores.

Os demais integrantes do Allyance refor√ßam que ficaram felizes pelas concorrentes da Venus, o que parece sincero. Mas h√° uma melancolia no ar. Iago est√° com o esp√≠rito desinflado, o olho abaixou, o sorriso ficou mais profissional. √Č uma vit√≥ria manca.

Todos saem do mezanino e v√£o para o sagu√£o do teatro, onde artistas e p√ļblico se misturam. Dezenas de jovens est√£o chupando Melona, aquele picol√© retangular verde, que √© coreano, vendido na Liberdade, e que foi distribu√≠do de gra√ßa no final do evento. No sagu√£o, Iago tira fotos com v√°rias f√£s sempre da mesma maneira. Sem sorrir, faz um gesto comum entre coreanos ‚ÄĒ um V lateral com a m√£o esquerda, a mesma que segura um pacote de salgadinhos.