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‘Gilmore Girls’ e a melancolia

Dizer que “Gilmore Girls” √© uma s√©rie super realista seria um exagero. Da m√°gica Stars Hollow, com seus mil festivais e habitantes malucos a velocidade em que as pessoas falam, passando pela quantidade de besteira que as protagonistas comem sem engordar um grama, h√° muito de fantasia ali. Mas poucas s√©ries conseguem captar como “Gilmore Girls” as complexidades das rela√ß√Ķes, principalmente familiares. Quando Lorelai, Rory e Emily brigam, trazem √† tona d√©cada de ressentimentos e v√£o direto na jugular. Quando se divertem, √© com piadas internas cultivadas ao longo de toda uma vida. As dificuldades, as decep√ß√Ķes da vida, est√£o todas l√°.

Quando a s√©rie terminou na televis√£o, com a s√©tima temporada — a √ļnica sem a criadora, Amy Sherman-Palladino, no comando –, seu final foi bem aberto. Rory conseguiu um emprego num site pequeno para cobrir a campanha de Barack Obama, Lorelai deu um beijo em Luke, Emily e Richard foram prestigiar a filha e a neta numa grande festa em Stars Hollow. A partir disso, cada um podia imaginar o final que queria. O site de Rory podia ter estourado, ela podia ter conseguido emprego num jornal, poderia estar morando em Nova York ou na Europa, poderia ter voltado com um dos ex-namorados, ou ter conhecido algu√©m novo, ou estar sozinha. Poderia ter casado, poderia ter tido filhos, ou nada disso. Lorelai podia ter se reconciliado com Luke, casado com ele, tido mais filhos. Ou o beijo poderia ser s√≥ uma reca√≠da. Havia uma s√©rie de finais felizes poss√≠veis.

Mas n√£o seria “Gilmore Girls” se houvesse um final feliz. Ent√£o nos quatro novos epis√≥dios, lan√ßados no Netflix, vemos que para Rory, Lorelai e Emily tudo continua complicado como sempre. (Aten√ß√£o, spoilers a partir daqui!) N√£o, Rory n√£o voltou com Jess nem estourou como jornalista — nem com um curr√≠culo como o de Rory est√° f√°cil. Quando a temporada come√ßa, ela acaba de publicar um artigo na New Yorker e acha que com isso muitas portas ir√£o se abrir. Desdenha de uma vaga num site menor e vive viajando o mundo com seus tr√™s celulares atr√°s de frilas, at√© que termina sem emprego, sem dinheiro e sem perspectivas na casa da m√£e, no quarto onde cresceu. Na vida amorosa, tamb√©m √© um desastre: tem um namorado h√° dois anos, mas vive se esquecendo dele, e o trai com desconhecidos e com Logan, que est√° noivo de outra.

Lorelai parece mais estável, mas também está desmoronando. Sookie abandonou a pousada que abriram juntas, Michel também quer partir, Luke nunca a pediu em casamento e a ausência do papel assinado começa a incomodar. A relação com a mãe, Emily, também não vai muito bem desde a morte do pai, Richard. Emily, então, perde completamente o chão depois que o companheiro de 50 anos morre. Como viver sozinha depois de tanto tempo? O resto dos personagens também não vai muito bem: Paris e Doyle estão se divorciando, Zack tem um emprego que odeia, Michel se sente sem perspectivas de crescimento, Jess continua apaixonado por Rory, e Lane agora toma conta do antiquário da mãe e não realizou seu sonho de ser roqueira. Dean vai bem, finalmente realizando o sonho de formar uma família cheia de filhos.

Do ponto de vista de f√£, √© frustrante ver Rory seguir o caminho que segue. A piada sobre Paul, o namorado de quem ela n√£o se lembra apesar do relacionamento ter dois anos, perde a gra√ßa logo e se torna cruel — embarcar num namoro desses n√£o parece algo que Rory faria. Apesar de sua rela√ß√£o com a monogamia n√£o ser das mais s√≥lidas desde o in√≠cio (ela beija Jess quando est√° com Dean e transa com Dean quando ele est√° casado), tamb√©m irrita o fato de ela ser amante do ex-namorado e de trair Paul com Logan e com um cara avulso que ela conhece na rua sem sentir nenhum tipo de culpa. D√° pena dela tamb√©m pensar que dez anos depois ela ainda est√° apaixonada por Logan, um namorado que s√≥ fazia sentido quando ela tinha acabado de sair da adolesc√™ncia perfeita e que lembrava seu pai, com quem ela tem quest√Ķes para resolver.

Rory, Luke, Emily e Lorelai em episódio novo de 'Gilmore Girls'. Crédito: Saeed Adyani/Netflix
Rory, Luke, Emily e Lorelai em epis√≥dio novo de ‘Gilmore Girls’. Cr√©dito: Saeed Adyani/Netflix

Mas “Gilmore Girls” nunca quis que Rory e Lorelai fossem perfeitas e esperar que Rory fosse ter a vida resolvida aos 32 anos era uma aposta arriscada de qualquer forma. Podemos n√£o gostar do desenrolar das coisas, mas essa parte √© coerente com aquilo que a s√©rie construiu ao longo de sete temporadas — “Gilmore Girls” nunca fez quest√£o de que suas personagens fossem perfeitas.

Perfei√ß√£o, ali√°s, passa longe desses novos epis√≥dios. Podemos perdoar o fato de Rory ter se tornado uma pessoa pior com o tempo, mas outros defeitos n√£o e, no fim das contas, “Gilmore Girls: Um Ano para Recordar” √© um fantasma daquilo que foi “Gilmore Girls”. Com a liberdade do Netflix, Sherman-Palladino e seu marido, Daniel Palladino, roteiristas e diretores da temporada, resolveram fazer quatro cap√≠tulos de uma hora e meia de dura√ß√£o (originalmente os cap√≠tulos tinham em torno de 40 minutos), representando cada um uma esta√ß√£o de um ano. A dura√ß√£o maior n√£o foi bem aproveitada pela dupla e h√° cenas longu√≠ssimas sem muito prop√≥sito e/ou cansativas, como a apura√ß√£o de Rory para uma mat√©ria sobre filas, as cenas do musical sobre Stars Hollow, os preparativos de Lorelai para sua caminhada e a aventura de Rory com Logan e seus amigos.

Essas cenas tomam espa√ßo que poderia ser ocupado com as tr√™s garotas Gilmore juntas, j√° que a rela√ß√£o delas √© o cora√ß√£o da s√©rie. Emily e Lorelai interagem um pouco — t√™m umas duas cenas memor√°veis –, s√≥ √© uma pena que as cenas de terapia que elas fazem juntas, que tanto prometia, n√£o rendam tanto. Lorelai e Rory tamb√©m, embora Rory passe praticamente mais tempo viajando pra Londres do que com a m√£e (ali√°s: quem faz um bate-volta Estados Unidos/Londres como Rory, que ainda por cima est√° supostamente falida?). Raras s√£o as cenas com as tr√™s juntas.

Juntar todo o elenco original para esses quatro epis√≥dios foi uma conquista e tanto e √© reconfortante ver todos seus personagens queridos de novo. Mas os Palladino gastam tempo demais mostrando “ah, como Stars Hollow √© esquisito!”, com cenas que pouco acrescentam, do que com a hist√≥ria dos personagens que amamos. Seria mil vezes melhor saber mais sobre Lane, para quem eu esperava justi√ßa ap√≥s o final terr√≠vel que foi terminar gr√°vida de g√™meos aos 21 anos, do que ver as cenas na piscina de Stars Hollow (horr√≠vel da parte das Gilmore ficar julgando os corpos das pessoas em 2016). Mais Paris e menos Kirk. Mais intera√ß√Ķes de Jess e Rory. Poxa, at√© mais Dean seria bem-vindo.

Isso não significa que a temporada não tenha seus bons momentos. Rever Paris é uma alegria, com diplomas de medicina e direito e uma casa de cinco andares em Nova York, como deveria ser. Lauren Graham parece não ter deixado nunca de interpretar Lorelai e revê-la no papel é pura nostalgia mesmo nas cenas meio sem graça. Emily, particularmente, é um destaque. Sem chão após a morte de Richard, ela finalmente fica com uma empregada mais do que um episódio e meio que adota a família imigrante de Berta, com quem ela nem consegue se comunicar direito. Aos poucos, ela aprende a viver sozinha, vendendo a casa e largando tudo para morar na praia, onde passa as noites bebendo vinho e os dias ensinando crianças num museu.

No processo, solta alguns palavr√Ķes (no Netflix √© liberado) ao deixar o esnobe grupo DAR de maneira memor√°vel. A briga com Lorelai ap√≥s o vel√≥rio de Richard tamb√©m √© brutal, numa excelente atua√ß√£o das duas. O arco de Emily √© uma boa s√≠ntese daquilo que “Gilmore Girls” consegue ser nos seus melhores momentos: triste, engra√ßado, complicado, √†s vezes tudo ao mesmo tempo. Se a s√©rie mostra algo, √© que a vida n√£o √© f√°cil, mas pode ser muito boa.

Rory e Lorelai na cozinha das Gilmore. Crédito: Saeed Adyani/Netflix
Rory e Lorelai na cozinha das Gilmore. Crédito: Saeed Adyani/Netflix

Nesse sentido, o final √© particularmente desapontador: n√£o combina com “Gilmore Girls”. O mais frustrante √© que h√° muitos anos Amy Sherman-Palladino diz que sabia quais seriam as quatro √ļltimas palavras ditas na s√©rie. Como ela n√£o trabalhou na s√©tima temporada, os f√£s nunca souberam qual era o final imaginado por sua criadora. Durante a campanha publicit√°ria dos novos epis√≥dios, Sherman-Palladino colocou os holofotes repetidas vezes sobre as tais quatro palavras. A expectativa era alta, o que nunca ajuda, mas nem nos meus devaneios mais loucos pensei que pudesse ser t√£o ruim. Rory diz a Lorelai que est√° gr√°vida e h√° um corte.

N√£o sabemos a rea√ß√£o de Lorelai. N√£o temos nem certeza sobre quem √© o pai. Tudo leva a crer que seja Logan, que a pr√≥pria criadora disse que representa a figura do pai ausente na vida de Rory. Mas como Logan casou-se com outra, Rory repetiria a experi√™ncia da m√£e e criaria sozinha a crian√ßa. Faria sentido, assim, a conversa que tem com o pai no √ļltimo epis√≥dio: sabendo que estava gr√°vida de Logan, perguntou para ele se ele se arrependia de ter deixado Lorelai cri√°-la sozinha — para ajudar a se decidir se incluiria ou n√£o Logan na vida de seu filho. Como Christopher, Logan √© um homem rico que ama Rory, mas n√£o pode dar a ela aquilo que ela precisa. Alguns f√£s de Jess especulam na internet que ele seria o Luke de Rory, o cara que a entende, que est√° ali pro que ela precisar, e que, no fim das contas, eles terminariam juntos. Mas meio triste pensar que Rory — a t√£o ambiciosa e estudiosa Rory, que queria ser jornalista pra viajar o mundo e “ver as coisas acontecendo” — terminou¬†naquela cidadezinha, deixando a carreira de lado.

D√° muita alegria pensar que Sherman-Palladino n√£o escreveu a s√©tima temporada, pois ver Rory como m√£e solteira aos 22 anos, rec√©m-formada, seria terr√≠vel. O que ela quis dizer com esse final? Que estamos fadados a repetir a trajet√≥ria dos nossos pais? Por que fazer Rory repetir a experi√™ncia da m√£e, que foi t√£o dif√≠cil? Era essa a ideia desde o come√ßo, fazer um final melanc√≥lico que mostre que a vida √© c√≠clica e inescap√°vel? Quando Lorelai pede um empr√©stimo √† m√£e, como no primeiro cap√≠tulo, percebe-se a ideia de “ciclo se fechando”. Se depois de tudo que elas viveram seu final √© voltar pro in√≠cio, √© melanc√≥lico demais.

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Aqueles “3%”

Pedro Aguilera estava numa fase meio dist√≥pica, nove anos atr√°s, quando cursava cinema na USP. Na lista de leitura estavam “1984”, de George Orwell, e “Admir√°vel Mundo Novo”, de Aldous Huxley. Quando viu um edital do Minist√©rio da Cultura para criar uma s√©rie, a ideia lhe veio √† cabe√ßa: fazer uma distopia brasileira. O resultado, “3%”, √© uma esp√©cie de mistura de “Jogos Vorazes” com vestibular, uma receita bem atrativa para adolescentes (ou jovens adultos, como esse p√ļblico √© chamado). Talvez por isso a produ√ß√£o, que virou uma webs√©rie na √©poca, tenha chamado a aten√ß√£o do Netflix na hora de escolher seu primeiro seriado brasileiro.

Durante esses anos, a webs√©rie ficou no ar, ganhando lentamente legendas em diversas l√≠nguas, feitas por f√£s, e novos espectadores. Um deles era um executivo do Netflix, que se empolgou com o projeto e o levou para o servi√ßo. A s√©rie, que estreou na sexta (25), competindo com “Gilmore Girls”, n√£o √© id√™ntica √† webs√©rie. Mas ambas tem a mesma premissa. Nelas, o Brasil do futuro, numa √©poca n√£o especificada, virou uma terra devastada. N√£o h√° comida, pessoas vivem em barracos, vestidas em trapos. A √ļnica chance de escapar da mis√©ria √© passar, aos 20 anos, por um processo seletivo. Os 3% selecionados ganham a chance de viver num o√°sis chamado Maralto, onde n√£o h√° escassez e todos vivem confortavelmente e em paz. Quem n√£o conseguir passar pelo processo seletivo, altamente subjetivo, est√° fadado a viver “do lado de c√°” para sempre, sem segundas chances. Pelo menos por enquanto: no primeiro epis√≥dio √© revelado que h√° um grupo revolucion√°rio que tenta acabar com a injusti√ßa e que infiltra um jovem no processo.

O grupo de protagonistas é variado: há a mocinha com cara de frágil (Bianca Comparato, um dos poucos nomes conhecidos do elenco), o cadeirante que não quer ajuda de ninguém, o rapaz confiante cuja família sempre passa no processo, a jovem marrenta e esperta, o malandro que tenta burlar as regras. Todos observados por Ezequiel (João Miguel), o misterioso chefe do processo que carrega um passado difícil.

Jo√£o Miguel, figura comum em miniss√©ries da Globo, disse em encontro com jornalistas que recebeu o convite um ano e pouco antes da s√©rie acontecer. “Fiquei interessado por fazer um personagem que nunca tinha feito. Me interessa muito descobrir personagens novos. O Ezequiel √© muito estranho de cara”, afirmou. “No in√≠cio, pensando muito num personagem sistem√°tico, que traz essa coisa corporativa, de poder, e acho que um personagem muito contundente hoje e muito diferente do que eu tinha feito at√© ent√£o. Isso me atraiu bastante.”

J√° Bianca, um dos primeiros nomes a fazer parte do projeto, diz que topou fazer “3%” pela mensagem, sem nem ter lido um roteiro. “A primeira coisa que me atraiu foi a ideia do Aguilera dessa segrega√ß√£o. 3% versus 97%. O teor pol√≠tico e a mensagem que a s√©rie passa”, contou. “Eu falei: ‘Essa mensagem eu quero passar’. N√£o sabia como, mas isso estava claro.” Para atriz, n√£o precisa nem de muita imagina√ß√£o para ver as liga√ß√Ķes entre o Brasil real e o Brasil da s√©rie. “Costumo dizer que o Brasil √© uma distopia”, brincou. “Intelectualmente faz muito sentido o conceito.”

Mas embora os criadores digam que as quest√Ķes propostas pela s√©rie tenham respaldo na realidade brasileira (“√© uma alegoria para a discutir a meritocracia”, diz Bianca), trata-se de uma fic√ß√£o que segue a f√≥rmula dos filmes do g√™nero feitos em Hollywood, mas menos criativo. Pense em “Jogos Vorazes” ou “Divergente”. As pessoas que aplicam o processo s√£o malvados e/ou cegos para a desigualdade como os moradores da capital nos filmes protagonizados por Jennifer Lawrence. H√° at√© algo que se assemelha com os hologramas com o nome e o rosto de cada participante. Quando √© anunciado que h√° uma rebeli√£o, √© pouco surpreendente, n√£o vai muito al√©m daquela velha hist√≥ria dos jovens adultos contra um regime totalit√°rio. As reviravoltas — que existem — n√£o t√™m a mesma for√ßa, pois o roteiro √© pouco profundo na cr√≠tica.

Ao roteiro pouco especial junta-se performances bem abaixo da m√©dia, inclusive de Jo√£o Miguel, que costuma escolher bons pap√©is em boas produ√ß√Ķes. O elenco jovem parece se esfor√ßar, mas parecem estar lendo um roteiro ‚Äď e n√£o falando. Da dic√ß√£o super correta ao vocabul√°rio que ningu√©m usa, parece tudo um pouco artificial. H√° epis√≥dios melhores que outros — no quarto, por exemplo, o foco sai das provas n√£o muito interessante do processo (como montar cubos em poucos minutos) e a s√©rie joga luz sobre os efeitos que a competi√ß√£o tem nos participantes, revelando o pior em cada um deles.

Para dirigir a s√©rie, foi chamado C√©sar Charlone, indicado ao Oscar de fotografia por “Cidade de Deus”. Coube a ele trazer um pouco de brasilidade para o cen√°rio dist√≥pico, afirmou¬†Bianca. “O Charlone d√° esse conceito colorido. √Č um futuro quase que presente, como ‘Black Mirror’ faz. Parece que √© l√° na frente, mas na verdade estamos falando de n√≥s mesmos”, disse. Mas mesmo com o curr√≠culo de Charlone, o visual n√£o √© particularmente incr√≠vel. Os cen√°rios do “lado de l√°” s√£o gen√©ricos, com grandes espa√ßos brancos e design clean. “Do lado de c√°”, h√° realmente mais cores, mas os figurinos s√£o esquisitos, com trapos coloridos sobrepostos uns sobre os outros.

Segundo Pedro, que tem 27 anos, a equipe tentou argumentar a favor dos dois lados do processo de sele√ß√£o, sem julgar o pessoal do lado de l√°. “A gente se esfor√ßou pra tentar pintar um quadro n√£o unilateral, com personagens com pontos de vistas diferentes, indicando levemente nosso ponto de vista, pra deixar o p√ļblico ter uma opini√£o sobre essa sociedade e como ela t√° montada.”¬†A ideia √© boa, tanto que o piloto, disponibilizado no YouTube, fez bastante sucesso. Mas mesmo com toda a infraestrutura do Netflix, a s√©rie tem um pouco de cara de produ√ß√£o estudantil. Entret√©m, mas n√£o espanta muito.

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Cinema

A sensível ficção científica de
‘A Chegada’

Quer dizer que “A Chegada” estreia na quinta (24)? Mais um ano, mais um grande filme de fic√ß√£o cient√≠fica sobre o espa√ßo.
Verdade, mas n√£o d√° pra gente reclamar muito, n√©. No ano passado, “Perdido em Marte” foi uma √≥tima surpresa e conseguiu at√© se infiltrar no Oscar deste ano. D√° pra dizer o mesmo de “A Chegada”, do Denis Villeneuve: √© um dos melhores filmes do ano e n√£o lembra em nada os √ļltimos filmes com uma tem√°tica parecida. Ali√°s, dizer que esse √© um filme sobre o espa√ßo n√£o √© certo. Sim, uma parte fundamental do enredo √© a chegada de alien√≠genas na Terra, mas √© mais um filme sobre comunica√ß√£o, sobre entendimento.

E quem é esse diretor mesmo, o Denis Villeneuve?
Villeneuve √© um diretor canadense que tem ganhado cada vez mais fama por fazer filmes de suspense com uma velocidade reduzida, trilhas sonoras potentes misturadas com sil√™ncios marcantes, criando um ambiente tenso em todas as suas obras. Um de seus primeiros filmes, ‚ÄúInc√™ndios‚ÄĚ, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Assim como em ‚ÄúA Chegada‚ÄĚ, √© dif√≠cil detalhar os filmes de Villeneuve sem entregar pontos-chave de cada um deles: √© prazeroso v√™-los sem ter muitos detalhes sobre a hist√≥ria e se surpreender com o roteiro. Isso funciona muito bem em ‚ÄúOs Suspeitos‚ÄĚ e ‚ÄúSicario: Terra de Ningu√©m‚ÄĚ. E espere ouvir mais ainda o nome dele no ano que vem, j√° que o diretor est√° filmando a sequ√™ncia do cl√°ssico ‚ÄúBlade Runner‚ÄĚ.

Ok, vamos voltar para “A Chegada”, ent√£o. Qual √© a hist√≥ria?
O filme come√ßa com a chegada de 12 naves de extraterrestres, que pousam em diferentes pontos da Terra: na China, nos Estados Unidos, em Serra Leoa‚Ķ As naves s√£o habitadas por criaturas que em nada lembram a imagem cl√°ssica que temos de ETs. N√£o s√£o humanos verdes, e sim enormes criaturas escuras, sem rosto, com m√ļltiplas pernas. Para descobrir o que esses alien√≠genas querem — se vieram em paz, ou se s√£o uma amea√ßa –, cada pa√≠s recruta uma equipe de cientistas respons√°vel por tentar estabelecer um di√°logo com eles. Nos Estados Unidos, eles chamam a linguista Louise Banks.

√Č o papel da Amy Adams, certo?
Isso mesmo. Ela e o físico Ian Donnelly, papel do Jeremy Renner, encabeçam uma missão para tentar se comunicar com os visitantes e conseguir a resposta para uma pergunta: qual é o seu propósito na Terra? O filme mostra o processo de Louise para conseguir decifrar aquilo que os aliens querem dizer. Como fazer para entender alguém que não fala sua língua, não escreve como você, não pensa da mesma forma e não tem as mesmas referências?

Mas eu vou me interessar por esse filme se eu não tiver nenhum conhecimento ou interesse por linguística?
Sim. Conhecimento de lingu√≠stica √© completamente dispens√°vel, porque o filme √© bem did√°tico. Como Louise tem que explicar o que est√° fazendo para os militares leigos no assunto, o p√ļblico tamb√©m segue seus passos direitinho. √Č bem legal ver como ela faz para tentar falar com eles, come√ßando por ideias bem b√°sicas, como apresentar seu nome e dizer a eles que √© humana. E apesar de ser um filme baseado em ci√™ncia real, √© uma fic√ß√£o cient√≠fica, bem pouco previs√≠vel. Enquanto Louise tenta concluir sua miss√£o — antes que o desespero dos humanos resulte em um ataque aos aliens e em uma poss√≠vel retalia√ß√£o –, vemos pequenos trechos de sua vida fora dali e a rela√ß√£o com a filha, que ficou doente. N√£o espere um filme de fic√ß√£o cheio de cenas de a√ß√£o, daqueles que s√≥ vale a pena assistir no cinema.

O visual não é grandes coisas, então?
Pelo contr√°rio, √© um filme muito bonito. Desde as naves espaciais, num formato meio ovalado, simples, at√© os reflexos nas roupas espaciais dos protagonistas, passando pelos s√≠mbolos de escrita alien√≠genas, circulares, tudo √© muito bem pensado. S√≥ n√£o √© um filme em que o visual importe mais do que o conte√ļdo. Como eu disse no come√ßo, √© uma hist√≥ria sobre como nos comunicamos, e sobre os riscos que existem na falta de di√°logo — no caso do filme, se todas as na√ß√Ķes n√£o cooperarem, e se os humanos n√£o conseguirem falar com os alien√≠genas, uma grande guerra pode acontecer. √Č uma fic√ß√£o cient√≠fica, sim, voc√™ pode esperar as cl√°ssicas cenas sem gravidade, mas o que interessa √© a hist√≥ria — baseada no conto “Story of your Life”, de Ted Chiang, publicado em 1998 e vencedor de v√°rios pr√™mios de fic√ß√£o. Para adaptar o conto, que parecia inadapt√°vel, com suas varia√ß√Ķes temporais e conceitos cient√≠ficos complexos, foram seis anos de trabalho e um acompanhamento de Chiang. Deu certo.

E as atua√ß√Ķes? J√° est√° na hora de a Amy Adams ganhar um Oscar depois de cinco indica√ß√Ķes, n√©. At√© o Leonardo DiCaprio conseguiu o dele.
Provavelmente n√£o ser√° por esse filme, o que √© uma pena, porque ela foi feita para esse papel. √Č uma atua√ß√£o bem minimalista: ela n√£o tem grandes cenas de choro, mon√≥logos de impacto nem nada do g√™nero. Mas ela consegue transmitir muita coisa com poucas palavras (no outro filme dela que estreia neste ano, “Animais Noturnos”, ela passa boa parte do tempo lendo sozinha). Jeremy Renner tamb√©m est√° bem simp√°tico e faz bem o papel de coadjuvante — o resto dos atores tem menos impacto, o filme √© quase todo de Amy Adams.

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Literatura

Por que ‘O Alquimista’ √© um fen√īmeno nos EUA?

“O Alquimista”, de Paulo Coelho, √© um livro curioso. Quase todo o mundo diz que odeia, pouca gente diz que leu. Mas muita gente comprou e ainda compra o livro — pelo menos nos Estados Unidos. Entra semana, sai semana, o livro de Coelho aparece na lista de mais vendidos do jornal The New York Times. Em outubro, completou oito anos na lista, feito que nenhum outro escritor alcan√ßou. Na vers√£o mais recente, da primeira semana de novembro, “O Alquimista” ainda est√° l√°, rondando o top 10 em exemplares vendidos, como na semana anterior, na anterior, na anterior‚Ķ Paulo Coelho seria o Romero Britto das letras: criticado aqui, sucesso l√°.

Mas “The Alchemist”¬†√© um livro realmente curioso: embora continue vendendo bem nos Estados Unidos, achar algum estudioso de literatura brasileira no pa√≠s que se dispusesse a falar sobre ele foi tarefa dific√≠lima, com zero porcento de aproveitamento. De um professor na Universidade da Fl√≥rida: “Ontem uma estudante do Equador disse que tinha o livro e o havia lido. Posso relatar uma hist√≥ria de quando conheci Paulo Coelho (um jantar na casa dele). Ele me perguntou: ‘Voc√™ n√£o leu meus livros, n√©?’. E eu respondi: ‘N√£o’. Ele continuou: ‘N√£o importa’. N√£o estudo muito fic√ß√£o, muito menos o Senhor Rabbit. E se voc√™ tiver algo a ver com a Rede Globo: n√£o, obrigado”.

Uma professora do Novo M√©xico, indicada pelo professor da Fl√≥rida, tamb√©m n√£o podia falar. “N√£o sou especialista em Paulo Freire”, lamentou. Outro estudioso foi bem sincero: “N√£o tenho muito interesse nem experi√™ncia com a obra do Paulo Coelho. Boa sorte no seu projeto!”. Mais uma negativa na sequ√™ncia, de uma professora tamb√©m da Fl√≥rida, mais detalhada: “N√£o falo sobre Paulo Coelho porque considero que seus livros s√£o de autoajuda, mal escritos e mal traduzidos. Sei que um professor de religi√£o que trabalhava aqui e usava Paulo Coelho como um profeta da sa√ļde e da riqueza individual na ascens√£o da crise econ√īmica e da cultura neoliberal. Como Jonathan Livingston Seagull, acho que o trabalho de Coelho √© popular porque oferece √†s pessoas respostas f√°ceis para as perguntas dif√≠ceis da vida. √Č isso pra mim”.

Em entrevista ao UOL, o pr√≥prio Paulo Coelho tampouco foi muito esclarecedor ao tentar explicar o sucesso do seu livro nos Estados Unidos. “Acho que a hist√≥ria do ‘Alquimista’ √© a hist√≥ria de todos n√≥s. Descontadas as diferen√ßas culturais, somos muito parecidos em nossas emo√ß√Ķes”, disse, sucinto. Para tentar entender o que √© que esse livro tem, a √ļnica alternativa poss√≠vel foi deixar de ser uma pessoa que fala mal de Paulo Coelho sem ter lido seus livros e virar uma pessoa que fala de Paulo Coelho com conhecimento de causa. √Č uma transforma√ß√£o r√°pida: “O Alquimista”, mesmo em ingl√™s, √© daqueles livros que se l√™ em poucas horas.

Como numa f√°bula, a trama √© simples, os personagens — salvo pouqu√≠ssimas exce√ß√Ķes — n√£o t√™m nome pr√≥prio (s√£o “o menino”, “o ingl√™s”…) e o que mais importa √© a mensagem. Santiago √© um pastor que tem um sonho recorrente com as pir√Ęmides do Egito. Um dia, encontra um velho que lhe conta sobre a miss√£o pessoal de cada um, aquilo que sonhamos em fazer, mas que costumamos deixar pra l√° pelas press√Ķes da vida quando crescemos. A miss√£o de Santiago seria encontrar um tesouro nas pir√Ęmides. Ele tem, ent√£o, duas op√ß√Ķes: continuar com seu rebanho e levar uma vida previs√≠vel, cansando-se de tudo em alguns anos, ou jogar tudo pro alto e ir para o Egito atr√°s de sua miss√£o. N√£o parece uma tarefa f√°cil, mas se voc√™ for atr√°s de seus sonhos, diz o livro, o mundo te ajudar√° a chegar l√°.

Para que o livro continue, Santiago, √© claro, escolhe ir para o Egito. √Č nessa jornada que encontra o tal alquimista do t√≠tulo, que o ajudar√° a terminar sua jornada e o ensinar√° li√ß√Ķes sobre o mundo e a vida — mas n√£o sobre como fazer ouro, pois essa n√£o √© a miss√£o de Santiago. Em s√≠ntese: v√° atr√°s dos seus sonhos e tudo aquilo que voc√™ deseja pode se tornar realidade se voc√™ se empenhar e souber ouvir os sinais que o universo te d√°. Paulo Coelho estica a f√°bula por p√°ginas e p√°ginas, mas a moral √© bem conhecida: se voc√™ quiser muito que algo aconte√ßa, o universo vai te ajudar. Com for√ßa de vontade, tudo √© poss√≠vel.

N√£o chega a ser um livro t√£o ruim, mas tanto a forma quanto o conte√ļdo s√£o t√£o, t√£o simples, que “O Alquimista” faz mais sentido para crian√ßas, como historinha para ser lida antes de dormir com uma li√ß√£o de moral otimista. No pref√°cio do livro, numa edi√ß√£o comemorativa, Paulo Coelho diz que “O Alquimista” n√£o vendeu muito no in√≠cio. Lentamente, com o boca a boca, os n√ļmeros come√ßaram a crescer. Nos Estados Unidos, a febre come√ßou quando Bill Clinton foi fotografado segurando um exemplar. Depois, celebridades como Will Smith come√ßaram a cit√°-lo como um de seus livros favoritos.

Escolher “O Alquimista” como livro preferido √© uma resposta de miss, estilo “desejo a paz mundial”. Voc√™ passa uma imagem de quem tem um bom cora√ß√£o. “O Alquimista” √© um incentivo ao sonho americano de “se voc√™ trabalhar voc√™ chega l√°”, uma antecipa√ß√£o de fen√īmenos de autoajuda como “O Segredo”, mas em roupagem de literatura. Ao escrever uma f√°bula, Paulo Coelho fez um livro motivacional com menos estigma do que um “Quem Mexeu no Meu Queijo” e que n√£o fica datado — f√°bulas n√£o envelhecem. N√£o √© um livro estudado por acad√™micos, ou o livro que voc√™ vai deixar em cima da mesa pra impressionar seus convidados, mas √© f√°cil de ler e, se voc√™ estiver nesse esp√≠rito, reconfortante. Respostas f√°ceis para quest√Ķes dif√≠ceis, como disse uma das professoras que n√£o quis dar entrevista. Quem n√£o quer isso? Por isso, semana que vem, pode apostar, “O Alquimista” ainda estar√° na lista dos mais vendidos.

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Cinema

Doutor nem t√£o Estranho assim

Tudo que “Doutor Estranho” tem de esquisito est√° no nome. Se fosse uma comida, o filme, que estreia na quinta (3), estaria mais para um prato que voc√™ comia na inf√Ęncia do que para um de um restaurante de vanguarda. Num ano cheio de filmes cheios de personagens, com v√°rios her√≥is (ou vil√Ķes) eutando juntos ou uns contra os outros, “Doutor Estranho” chama a aten√ß√£o por ser, de certa forma, mais tradicional. √Č um filme sobre as origens de um her√≥i s√≥: o Doutor Estranho do t√≠tulo — sua vers√£o do cl√°ssico “tio Ben + mordida de uma aranha radioativa” que j√° vimos mil vezes.

No in√≠cio da hist√≥ria, Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) √© um cirurgi√£o t√£o brilhante quanto arrogante. Tempos atr√°s, teve um romance com Christine (Rachel McAdams, infelizmente desperdi√ßada), que naufragou por causa de — tudo leva a crer — seu ego inflado. Stephen trata seus colegas como inferiores e seleciona a dedo os casos que pega: t√™m que ser dif√≠ceis, para serem dignos de seu tempo, mas n√£o t√£o dif√≠ceis a ponto de significar uma poss√≠vel mancha em seu curr√≠culo. Sua vida √© operar — e gastar o dinheiro com rel√≥gios, carros, um apartamento incr√≠vel em Nova York –, at√© que ele sofre um acidente de carro que destr√≥i suas m√£os.

Christine, a clássica ex-namorada compreensiva que dá apoio ao herói atormentado, lhe diz que a vida continua. Ele não pode mais salvar vidas com seu bisturi, mas certamente pode arranjar outras formas de fazê-lo, afirma, prevendo o resto da trama. Obcecado, Strange ouve falar que há uma cura possível em Catmandu, no Nepal. Lá, ele conhece a Anciã (Tilda Swinton), uma maga que, com seus discípulos, protege a Terra de forças do mal. Um de seus alunos (Mads Mikkelsen), porém, vai para o lado negro da força, rouba uma página de seu livro secreto de rituais, e tenta colocar o mundo nas garras do supervilão Dormammu.

Stephen quer aprender magia s√≥ para curar as m√£os e, no come√ßo, n√£o liga muito pra essa hist√≥ria de salvar o mundo. Bom, como essa hist√≥ria termina voc√™ j√° deve saber mesmo sem ter visto nenhum filme de super-her√≥i. “Doutor Estranho” √© um filme cl√°ssico desse g√™nero, sem grandes surpresas, mas com muito mais cores e visuais sa√≠dos de uma viagem de √°cido. √Č “A Origem” elevado √† en√©sima pot√™ncia, com muito mais psicodelia. Visualmente, √© interessante — o tipo de filme que fica melhor numa sala de cinema, e no qual o uso de 3D n√£o √© completamente desnecess√°rio.

Depois de ver Apocalipse (dois, igualmente horr√≠veis: o de “Batman vs Superman” e “X-Men”) e Magia (“Esquadr√£o Suicida”), Kaecelius, o vil√£o mais proeminente de “Doutor Estranho”, √© uma alegria. √Č bom ver a cara dele e o ator atuando (parece uma coisa √≥bvia, mas n√£o √©). Tamb√©m √© poss√≠vel entender qual √© seu plano e qual √© sua motiva√ß√£o (novamente: nem todo vil√£o cumpre esses requisitos que parecem b√°sicos). √Č interessante¬†tamb√©m ver a hist√≥ria de Mordo (Chiwetel Ejiofor), um vil√£o nos quadrinhos, mas parte dos disc√≠pulos da Anci√£, lutando pelo bem nesse filme. D√° pra ver que √© um filme constru√≠do com o futuro em mente.

Strange tamb√©m √© bem constru√≠do e tem um bom arco: de m√©dico metido a v√≠tima desesperada, passando por c√©tico que s√≥ acredita na ci√™ncia at√© se tornar um super-her√≥i, disposto a arriscar seu pesco√ßo pela humanidade. Apesar dessa jornada ser meio r√°pida (afinal, o filme n√£o √© t√£o longo), cada etapa do seu percurso faz sentido. Benedict Cumberbatch, acostumado a fazer pap√©is de g√™nios hiper-racionais, mostra aqui seu carisma e chega at√© a fazer umas piadinhas — √© um filme com refer√™ncias bem pop, que chega a citar Beyonc√©.

Mas apesar do visual bonito e de ser um filme competente, “Doutor Estranho” n√£o se diferencia muito de outros filmes de super-her√≥is. Tem a mulher doce e inteligente, mas pouco desenvolvida, a figura s√°bia que ensina tudo o que o her√≥i sabe, o vil√£o todo poderoso, a cidade destru√≠da, um portal no c√©u. O que mudam s√£o os detalhes. N√£o √© um problema, nem todo prato precisa de ser vanguarda — familiar tamb√©m √© bom. “Doutor Estranho” s√≥ n√£o √© l√° muito memor√°vel. No fim das contas, o filme n√£o √© t√£o estranho assim.

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Discutindo ‘Black Mirror’ S03E04: San Junipero

A nova temporada de Black Mirror chegou na √ļltima sexta-feira no Netflix. Para discutir de forma mais detalhada — com spoilers! — cada um dos epis√≥dios do seriado dist√≥pico, decidimos fazer uma conversa dedicada a cada um deles. Um epis√≥dio por dia, seis dias seguidos.

Leo Martins: Estamos de volta! Depois de um breve intervalo (fiquei doente, faz parte), voltamos para discutir mais um cap√≠tulo de “Black Mirror”, o quarto, “San Junipero”. O cap√≠tulo conta a hist√≥ria de duas personagens, Kelly e Yorkie, que se conhecem numa festa, se divertem, sentem um clima rolando… Acompanhamos o desenrolar dessa rela√ß√£o at√© descobrirmos que, na realidade, as personagens s√£o apenas avatares virtuais de duas pessoas vivas, duas senhoras de idade pr√≥ximas da morte. O cap√≠tulo √© cheio de nostalgia, refer√™ncias e consegue discutir diversos assuntos em uma hora. Por esses motivos, eu j√° posso dizer que ele foi meu favorito da temporada ‚Äď enfim, um cap√≠tulo realmente marcante. E voc√™, F√™? Gostou tamb√©m? Podemos entregar a coroa?

Fernanda Reis: Sim, tamb√©m foi meu favorito. Achei a hist√≥ria bem bonita e, talvez pela primeira vez vendo “Black Mirror”, terminei o epis√≥dio contente. A hist√≥ria tamb√©m √© bem bolada, n√£o me lembrou nenhum epis√≥dio antigo (tem uma tem√°tica parecida com “Be Right Back”, falando de como prolongar a vida ou como a tecnologia pode mudar nossa rela√ß√£o com a morte) e foi me surpreendendo. Demorei para entender onde a hist√≥ria queria chegar, apesar de que o epis√≥dio d√° v√°rias dicas, como a escolha da m√ļsica “Heaven Is a Place on Earth” (a Salon fez um guia legal de refer√™ncias assim que n√£o d√° pra pegar na primeira vez assistindo). Do que voc√™ gostou mais no epis√≥dio?

Leo: A lista de motivos para gostar √© longa, mas meus detalhes preferidos: voc√™ s√≥ come√ßa a desvendar de verdade o mist√©rio do cap√≠tulo na metade do cap√≠tulo, apesar de um ou outro sinal. A constru√ß√£o da primeira meia hora, fazendo o espectador se importar com a rela√ß√£o, √© muito bem feita, e quando o elemento futurista/dist√≥pico entra em cena, √© tudo bem natural e funciona muito bem. O apelo nost√°lgico funciona muito bem e achei todas as escolhas ‚Äď trilha sonora, roupas, cores, detalhes de cultura pop ‚Äď muito acertadas. E esse apelo tamb√©m funciona como uma forma de metalinguagem ou at√© mesmo cr√≠tica √† nostalgia: Kelly, no mundo real, chega a falar com desd√©m sobre isso. E √© uma hist√≥ria de uma hora que consegue discutir sexualidade, imortalidade, futuro, legado e v√°rias outras quest√Ķes de forma inteligente e bonita. A atua√ß√£o das duas atrizes, Mackenzie Davis e Gugu Mbatha-Raw, tamb√©m merece destaque. Sobre o final contente, quero voltar ao assunto j√° j√°, porque n√£o sei se ele √© t√£o bondoso quanto parece…

Fernanda: Quando comecei a assistir fiquei com um pouco de medo de que o epis√≥dio fosse ser algum tipo de vers√£o de “A Casa do Lago”, aquele filme com a Sandra Bullock e o Keanu Reeves em que eles dividem a mesma casa em tempos diferentes, sabe? Tenho um pouco de p√© atr√°s com viagem no tempo em hist√≥rias, acho que muitas vezes √© um recurso mal utilizado. Mas achei a ideia muito boa, √© um pouco da tecnologia do especial de Natal, em que voc√™ consegue clonar a consci√™ncia da pessoa e colocar num outro lugar, mas usada para o bem. O dilema da Kelly √© muito bem constru√≠do: ser√° que ela deveria seguir o marido e a filha, apesar de achar que n√£o existe nada ap√≥s a morte, ou quebrar essa promessa antiga e viver esse novo amor? Mas queria voltar logo √† quest√£o do final, porque estou curiosa pra saber o que voc√™ achou. Li umas teorias por a√≠ e quero saber se √© disso que voc√™ est√° falando…

Leo: Bom, a gente já avisou que tem spoilers, né, mas não custa avisar de novo. A partir daqui, muitos spoilers sobre o final.

Minha impress√£o sobre as cenas finais: apesar de parecer um final feliz em que as duas est√£o juntas e felizes em San Junipero, fiquei com a sensa√ß√£o de que a Kelly n√£o foi. O jeito que ela pede a eutan√°sia √© misterioso, mas d√° a entender que ela quer descobrir o que h√° do outro lado — San Junipero ela j√° conhece bem. Em nenhum momento entre a briga feia entre as duas e o retorno inesperado h√° um sinal de que ela mudou de ideia. E quando a Yorkie vai busc√°-la na vers√£o virtual, tudo me pareceu estranho: ela n√£o fala nada, elas saem para curtir, fim. Mas e se o sistema n√£o criou uma Kelly para a Yorkie ser feliz na sua vers√£o de “eternidade”? N√£o seria bom para a empresa que cuida da cidade virtual ter uma pessoa infeliz depois de uma briga feia daquelas do outro lado, imagino. T√ī viajando demais ou faz algum sentido?

Fernanda: Era mais ou menos essa a interpreta√ß√£o que eu tinha visto. Mas eu interpretei o final da maneira mais √≥bvia mesmo. Eu acho que Kelly n√£o acredita que haja alguma coisa depois da morte, mas ela tinha se preparado para n√£o ir para San Junipero com o marido dela porque ele tinha feito essa escolha acreditando que ia se encontrar com a filha deles. Ela n√£o achava isso, mas fez essa escolha por uma quest√£o de lealdade, talvez. Ent√£o n√£o achei que ela queria descobrir o que tem do outro lado. Tamb√©m n√£o sei se o sistema tem essa capacidade de criar pessoas. Porque se fosse assim voc√™ ia poder criar sua pr√≥pria cidade, trazer seus amigos (a Kelly poderia trazer o marido e a filha, por exemplo). Acho que voc√™ vai pra San Junipero e convive s√≥ com quem est√° l√°, por isso a Yorkie insistiu pra Kelly ficar. E bem no fim aparece aquela m√°quina colocando duas luzinhas uma do lado da outra, ou algo assim, dando a entender que tem duas pessoas novas ali juntas em San Junipero. Talvez tenha sido uma pegadinha dos roteiristas… Mas depois do terceiro epis√≥dio e seu final horr√≠vel, acho que prefiro acreditar no final feliz tamb√©m hahaha.

Leo: √Č, talvez seja melhor mesmo acreditar que o final foi assim, apesar de achar que nos dois casos o epis√≥dio continua bonito, cada uma com sua cren√ßa e seus motivos para ir ou n√£o para San Junipero. Uma frase da Kelly, em tom ir√īnico, me marcou bastante: “uploaded to the cloud… sounds like Heaven”. Agora, eu gostei bastante dos detalhes de ambienta√ß√£o de cada ano: o come√ßo, em 1987, mostra o Max Headroom na televis√£o, e essa √© uma das hist√≥rias mais bizarras que eu j√° vi; a Alanis marcando os anos 90; a melhor m√ļsica da Kylie Minogue marcando 2002 ‚Äď e os fliperamas evoluindo junto. Esses detalhes junto com as cores, os neons, as roupas, a fonte mudando em cada “uma semana depois”, tudo isso ajuda na hora de acreditarmos e discutirmos se, bem, se tiv√©ssemos essa op√ß√£o, ser√° que ir√≠amos querer viver nessa vasta eternidade? √Č poss√≠vel n√£o querer ir para San Junipero depois de test√°-la por cinco horas, todo s√°bado?

Fernanda: Achei legal que voc√™ reparou nas fontes, porque s√≥ fui reparar nisso depois que um texto me chamou a aten√ß√£o. Mas gostei muito de todo o cen√°rio mesmo, eles conseguiram marcar a mudan√ßa de tempo sem obviedade — e essas m√ļsicas todas que voc√™ apontou t√™m tanto rela√ß√£o com o ano quanto com a tem√°tica do epis√≥dio (“n√£o consigo tirar voc√™ da cabe√ßa”, por exemplo). Eu acho poss√≠vel, sim, n√£o querer ir para San Junipero, tanto que aquelas pessoas que v√£o no Quagmire piram pra conseguir sentir alguma coisa. Depois de um tempo deve ser bem tedioso viver aquela vida, frequentando aquela mesma boate, encontrando as mesmas pessoas, morando sempre naquela cidade festeira. Tamb√©m acho v√°lido o dilema da Kelly, porque essa vida eterna que prometem pra ela n√£o tem as pessoas que ela mais amava. Vale a pena encarar uma eternidade dessas? Vivendo uma vida que n√£o √© aquela que voc√™ passou sua exist√™ncia toda construindo? Eu acho que n√£o iria pra San Junipero, na verdade. Voc√™ ia querer viver essa eternidade?

Leo: De jeito nenhum! No fim, h√° uma discuss√£o quase religiosa sobre eternidade. √Č importante lembrar que o Eterno √©, na verdade, aquele que n√£o s√≥ existe para sempre, como sempre existiu, sem in√≠cio ou fim. A eternidade oferecida em San Junipero √© um fragmento de realidade, um punhado de doses nost√°lgicas para que voc√™ n√£o se sinta sozinho, nem eliminado no mundo ‚Äď o medo de desaparecer que muitos sentem, sendo que no fim todos viemos ao mundo para morrer e, quem sabe, descobrir que essa eternidade sem in√≠cio ou fim realmente existe. Viver em peda√ßos esparsos de felicidade n√£o me parece uma boa eternidade.

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Discutindo ‘Black Mirror’ S03E03: Shut Up and Dance

A nova temporada de Black Mirror chegou na √ļltima sexta-feira no Netflix. Para discutir de forma mais detalhada — com spoilers! — cada um dos epis√≥dios do seriado dist√≥pico, decidimos fazer uma an√°lise dedicada a cada um deles. Um epis√≥dio por dia, seis dias seguidos.

Contei √† minha m√£e, num dia desses, que era melhor colocar uma fita adesiva sobre a c√Ęmera do seu computador, por quest√Ķes de seguran√ßa. Afinal, √© poss√≠vel que um hacker se aproveite da c√Ęmera descoberta para espionar o que ela anda fazendo pela casa. Ela pensou um pouco e disse: ‚ÄúMas por que um hacker ia querer filmar a minha casa?‚ÄĚ. Certo, talvez nada de especialmente incomum aconte√ßa na sua casa, mas n√£o √© porque a situa√ß√£o n√£o seja particularmente inusitada que voc√™ gostaria que algu√©m a filmasse. Ligado sobre a mesa, na cama, no sof√°, o computador √© um observador √≠ntimo do seu cotidiano. Pensar que algu√©m pode us√°-lo para invadir sua privacidade √© uma ideia aterrorizante. E √© sobre essa ideia horr√≠vel que ‚ÄúBlack Mirror‚ÄĚ se debru√ßa no terceiro epis√≥dio da terceira temporada, ‚ÄúShut Up and Dance‚ÄĚ.

Kenny (Alex Lawther) √© um adolescente comum. Trabalha numa lanchonete e mora com a m√£e e a irm√£ ‚Äď com quem n√£o quer dividir seu computador. Computador √© pessoal, n√©. Mas num dia qualquer, algu√©m (n√£o sabemos quem) o filma se masturbando na frente do computador e lhe manda o v√≠deo num e-mail com uma ordem: passe seu n√ļmero de telefone ou seu v√≠deo ser√° enviado para todos os seus contatos. Como dir√£o mais pra frente, masturbar-se em frente ao computador n√£o √© esquisito. N√£o √© ilegal. Mas a sensa√ß√£o de vergonha de se ver exposto assim frente a seus conhecidos √© suficiente para que Kenny passe o n√ļmero.

‚ÄúShut Up and Dance‚ÄĚ √© uma hist√≥ria de suspense que lembra bastante ‚ÄúWhite Bear‚ÄĚ, epis√≥dio de uma temporada anterior em que uma mulher √© perseguida e, em vez de receber ajuda, √© filmada por todo o mundo que encontra ‚Äď nos sentimos mal at√© que h√° uma revela√ß√£o no final. Durante o epis√≥dio, Kenny vai recebendo dos desconhecidos desafios cada vez mais dif√≠ceis de cumprir: come√ßam pedindo que ele pegue um bolo, entregue por outra v√≠tima de chantagem, e leve a um endere√ßo, e chega a um ponto em que pedem para que ele cometa crimes.

Kenny √© uma figura simp√°tica, muito pela atua√ß√£o de Lawther, com quem √© poss√≠vel se identificar. A situa√ß√£o em que ele √© colocado √© dif√≠cil: qu√£o¬†longe ele deve ir para preservar sua honra? Ser√° que n√£o era melhor ele ceder logo √† chantagem e se ver livre de tudo isso? Ser√° que n√£o √© melhor conviver com a vergonha de ter a intimidade exposta do que com a culpa que esses desafios que lhe imp√Ķem v√£o trazer?

Em tempos em que hackers invadem os computadores de pessoas para expor informa√ß√Ķes pessoais e fotos, por exemplo, s√£o quest√Ķes e medos que est√£o por a√≠. Aconteceu com atrizes brasileiras, como Carolina Dieckmann, que teve fotos em que aparece pelada expostas na internet. Aconteceu com atrizes americanas, como Jennifer Lawrence, que passou pela mesma situa√ß√£o pouco tempo depois. Aconteceu neste ano com a comediante Leslie Jones. Nesta semana mesmo um hacker foi condenado por pedir 300 mil reais √† primeira-dama Marcela Temer para n√£o vazar suas fotos √≠ntimas e √°udios depois de clonar seu celular.

Al√©m de fotos, e-mails e documentos tamb√©m s√£o hackeados com frequ√™ncia ‚Äď de tempos em tempos o Wikileaks solta na internet informa√ß√Ķes que as pessoas queriam esconder (Hillary Clinton que o diga). O assustador √© que poderia ser voc√™ ‚Äď afinal, nesse epis√≥dio, a tecnologia √© bem pr√≥xima da que temos hoje.

O final √© um dos mais pessimistas de ‚ÄúBlack Mirror‚ÄĚ: Kenny, a tal figura simp√°tica, estava se masturbando enquanto via fotos de crian√ßas (uma intera√ß√£o que parecia fofa dele com uma menina, no in√≠cio do epis√≥dio, ganha outra conota√ß√£o no final). E todos os desafios que ele cumpriu foram em v√£o: n√£o importa que ele tenha feito tudo que eles pediram, o v√≠deo foi divulgado mesmo assim. Ele termina o epis√≥dio destru√≠do, arrasado com aquilo que teve que fazer para tentar escapar da vergonha — mesmo que o v√≠deo tivesse sido deletado, j√° n√£o haveria mais final feliz¬†para ele.

N√£o fica claro por que os chantagistas misteriosos fizeram isso com Kenny: foi uma tentativa de justi√ßa com as pr√≥prias m√£os? Foi sadismo? Era justific√°vel punir Kenny dessa forma por aquilo que ele fez (quest√£o proposta por ‚ÄúWhite Bear‚ÄĚ tamb√©m)? Nesse epis√≥dio de ‚ÄúBlack Mirror‚ÄĚ, fica claro que n√£o √© a tecnologia a vil√£ da hist√≥ria ‚Äď somos n√≥s, e o que fazemos com ela.

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N√£o se faz mais com√©dias rom√Ęnticas como antigamente

Saindo da sess√£o de “O Beb√™ de Bridget Jones”, sala cheia em um s√°bado no shopping, um sentimento estranho, meio nost√°lgico pairava no ar. Uma lembran√ßa de 2003, 2004, quando assistir a¬†uma com√©dia rom√Ęntica no domingo √† tarde era um programa comum. Explica-se o estranhamento: as com√©dias rom√Ęnticas est√£o em extin√ß√£o. Pare uns minutos para aceitar esse fato — nem todo o mundo aceita essa afirma√ß√£o de primeira. “Ah, mas eu vi uma com√©dia rom√Ęntica outro dia”, voc√™ pode dizer. Repare na data desse filme. √Č recente mesmo? E depois: tem certeza de que √© uma com√©dia rom√Ęntica e n√£o s√≥ uma com√©dia ou um drama rom√Ęntico? Caso a resposta para as duas perguntas seja “sim”, ok, voc√™ achou uma exce√ß√£o. Afinal, as com√©dias rom√Ęnticas est√£o em extin√ß√£o, n√£o completamente extintas.

Dos anos 1980 aos 2000, as com√©dias rom√Ęnticas viveram uma era de ouro — n√£o s√≥ em quantidade, mas em qualidade. “Harry & Sally: Feitos um para o Outro”, de 1989, concorreu ao Oscar de roteiro original; Ren√©e Zellweger disputou a estatueta de melhor atriz em 2002; atores como Tom Hanks e Sandra Bullock, ambos vencedores do Oscar, eram figurinhas f√°ceis em filmes do g√™nero. Voc√™ sempre podia contar com Meg Ryan ou Hugh Grant, o rei da com√©dia rom√Ęntica, para protagonizar outra hist√≥ria em que garoto conhece garota, garoto e garota enfrentam algum empecilho (um deles est√° num relacionamento, o outro n√£o quer compromisso, os dois n√£o querem arruinar uma amizade), at√© que garoto e garota descobrem que foram feitos um para o outro e vivem felizes para sempre. Com√©dias rom√Ęnticas, com algumas exce√ß√Ķes, costumam seguir um roteiro b√°sico. Mas seu atrativo n√£o √© a previsibilidade, e sim uma sensa√ß√£o confortante de que tudo vai ficar bem.

Tom Hanks e Meg Ryan — que fizeram juntos “Joe Contra o Vulc√£o” (1990), “Sintonia de Amor” (1993) e “Mensagem pra Voc√™” (1998) — passaram o bast√£o para Hugh Grant — de “O Di√°rio de Bridget Jones” (2001), “Amor √† Segunda Vista” (2002), “Simplesmente Amor” (2003), “Letra e M√ļsica” (2007) — e Drew Barrymore , que fez (segura que a lista √© longa): “Afinado no Amor” (1998), “Nunca Fui Beijada” (1999), “Como se Fosse a Primeira Vez” (2004), “Amor em Jogo” (2005), “Letra e M√ļsica”, “Ele N√£o Est√° T√£o a Fim de Voc√™” (2009) e “Amor √† Dist√Ęncia” (2010). A com√©dia rom√Ęntica deu um √ļltimo suspiro com Ashton Kutcher, que tem um curr√≠culo cheio de filmes do g√™nero e Katherine Heigl, cuja √ļltima com√©dia rom√Ęntica no curr√≠culo √© a mesma de Kutcher: “Noite de Ano Novo”, no distante ano de 2011.

Desde o in√≠cio da d√©cada, caiu muito o n√ļmero de estreias de com√©dias rom√Ęnticas. Sim, s√£o lan√ßadas com√©dias em que h√° um qu√™ de romance (“Como Ser Solteira”, deste ano, por exemplo) e s√£o lan√ßados filmes rom√Ęnticos que tenham alguns momentos engra√ßados. Mas um verdadeiro filme do g√™nero √© uma com√©dia em que a principal trama seja rom√Ęntica — “Legalmente Loira”, por exemplo, n√£o entra na lista, j√° que o romance de Reese Witherspoon e Luke Wilson √© secund√°rio. S√£o esses os filmes em extin√ß√£o. Mesmo quando uma com√©dia rom√Ęntica √© feita, ou ela chega sem estardalha√ßo (“Ser√° Que?”, com Daniel Radcliffe, que estreou no Brasil dois anos atr√°s) ou nem estreia por aqui, caso de “Sleeping with Other People”, bom filme com Alison Brie e Jason Sudeikis.

H√° v√°rios fatores jogando contra a com√©dia rom√Ęntica, que talvez possam explicar porque ela foi deixada de lado. Hoje o foco dos grandes est√ļdios √© fazer filmes que possam virar franquias, se desdobrar em outros muitos filmes. Al√©m dos filmes de super-her√≥is, da Marvel e da DC, h√° a franquia de Star Wars, a nova s√©rie de filmes do universo de Harry Potter (ser√£o cinco filmes sobre criaturas m√°gicas), Jason Bourne, 007, Jurassic Park, Jack Reacher‚Ķ At√© “Truque de Mestre” ganhou uma continua√ß√£o neste ano. Com com√©dias rom√Ęnticas, isso n√£o √© t√£o f√°cil: o “felizes para sempre” n√£o √© t√£o legal de ver quanto o caminho at√© ele. Tem exce√ß√Ķes, como Bridget Jones, que chegou ao terceiro filme. Mas s√£o raras.

Hugh Grant e Sandra Bullock em 'Amor à Segunda Vista'
Hugh Grant e Sandra Bullock em ‘Amor √† Segunda Vista’

Al√©m disso, com√©dias rom√Ęnticas — como com√©dias, de modo geral — s√£o mais dif√≠ceis de traduzir, de serem entendidas por outras culturas, que t√™m¬†outro humor. E o mercado internacional, principalmente a China, √© respons√°vel por grande parte dos lucros de um filme. √Č mais f√°cil que um “Mad Max”, com pouqu√≠ssimo di√°logo e muita a√ß√£o, seja um sucesso internacional do que uma hist√≥ria sobre os percal√ßos enfrentados por um casal jovem e branco em Nova York. Tem tamb√©m o mito de que s√≥ mulheres gostam de com√©dias rom√Ęnticas. Para atrair tamb√©m o p√ļblico masculino, coloca-se √†s vezes um elemento de a√ß√£o na trama — caso de “Par Perfeito”, com‚Ķ Ashton Kutcher e Katherine Heigl. Tamb√©m pesa a favor dos filmes com¬†mais efeitos especiais e cenas de a√ß√£o¬†que √©¬†maior o atrativo para que as pessoas os vejam¬†na sala de cinema. Um romance pode ser visto tranquilamente em casa, sem que se perca muita coisa, diferente de um “Gravidade” ou “Avatar”.

Mas talvez tudo isso fosse diferente se a gera√ß√£o de Hugh Grant e Sandra Bullock tivesse passado o bast√£o para atores melhores. Uma com√©dia rom√Ęntica depende 100% de qu√≠mica entre os atores e roteiro. N√£o h√° efeitos especiais e grandes cenas de batalha para distrair o espectador, como em “Batman v. Superman”. Se os atores n√£o tiverem sintonia, o filme n√£o d√° certo. Tom Hanks √© puro carisma, Hugh Grant √© o charmoso canastr√£o, Sandra Bullock era a desengon√ßada mais preocupada com a carreira do que com o amor, Drew Barrymore era a fofa. Ashton Kutcher n√£o tinha essa magia — assista “Sexo sem Compromisso” pra ver. Katherine Heigl tampouco — e ainda foi prejudicada pela fama de antip√°tica. Uma boa com√©dia rom√Ęntica tem algu√©m t√£o famoso quanto simp√°tico, por quem voc√™ tor√ßa, com quem voc√™ sofra junto. N√£o era o caso dessa √ļltima gera√ß√£o, e depois deles ningu√©m mais assumiu o trono. Quem poderia fazer isso? Emma Stone, por exemplo, tem carisma pra tanto. Mas quem poderia ser seu par? Zac Efron n√£o √© nenhum Hugh Grant.

A √ļltima safra de com√©dias rom√Ęnticas foi t√£o fraca, que n√£o √© bem surpresa que as pessoas tenham um p√© atr√°s com o g√™nero — atores, est√ļdios, diretores, p√ļblico. As boas com√©dias rom√Ęnticas ficaram nos anos 1990 e 2000. Mas “O Beb√™ de Bridget Jones” — por mais surpreendente que isso pare√ßa — est√° a√≠ para provar que com bons atores e um roteiro redondo, o g√™nero ainda d√° um caldo. Nada como uma boa com√©dia rom√Ęntica num fim de domingo.

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O mundo bizarro da TV brasileira nos anos 90

Houve uma época em que as famílias se reuniam aos domingos e a televisão ligada mostrava, em plena tarde, mulheres dançando seminuas, crianças requebrando ao som de axé com letras de duplo sentido, homens famosos comendo sushi no corpo de mulheres ou se esfregando contra modelos numa banheira. Parece um pouco surreal hoje, mas não faz tanto tempo assim.

Nos anos 1990, a TV brasileira era outra. Na briga pela audiência, valia qualquer coisa: mostrar mortes ao vivo, ridicularizar pessoas com doenças, colocar crianças para trabalhara e fazer charme. Depois do fim da ditadura nos anos 80 e da expansão rápida da televisão aberta, o horário nobre virou vale-tudo. Os principais envolvidos eram Faustão e Gugu, o rei dos quadros com gente de pouca roupa participando de todos os tipos de prova.

Mas a baixaria rolava solta tamb√©m em outros canais ‚Äď Luciano Huck, que hoje reforma casas e carros em seu programa, apresentou ao mundo a Tiazinha e a Feiticeira, que faziam coisas como depilar rapazes no palco do seu ‚ÄúH‚ÄĚ, na Bandeirantes. O cen√°rio mudou um pouco no in√≠cio dos anos 2000, por volta da √©poca em que Gugu exibiu uma entrevista falsa com membros do PCC. At√© ent√£o, a TV era ‚Äúloucura, loucura, loucura‚ÄĚ ‚Äď pra citar o bord√£o de Huck. Depois, as coisas ficaram (um pouco) mais s√©rias.

O Risca Faca fez uma compilação, ano a ano, dos momentos marcantes mais bizarros da década, para fazer um retrato do que foram os loucos anos 90.


  • Gata molhada no Sabad√£o (SBT)
    V√°rias vers√Ķes da premissa “garotas com pouca roupa s√£o molhadas” j√° passaram pela TV brasileira. No ‚ÄúDomingo Legal‚ÄĚ as garotas molhadas pelo menos tinham uma camiseta por cima. No ‚ÄúSabad√£o Sertanejo‚ÄĚ era outro n√≠vel. As ‚Äúgatas molhadas‚ÄĚ come√ßavam sua participa√ß√£o como as do Gugu: parte de baixo do biqu√≠ni e camiseta. Mas, sob um chuveiro, sozinhas ou acompanhadas de um convidado do programa, como Luciano (da dupla com Zez√© Di Camargo), elas dan√ßavam e chegavam a tirar a parte de cima toda, mostrando os peitos para todo o mundo ver.

  • Chico Xavier no ‚ÄúSabad√£o Sertanejo‚ÄĚ (SBT)
    Mas nem tudo era baixaria no “Sabad√£o”. Depois das mo√ßas seminuas dan√ßando, antes dos intervalos, o programa exibia mensagens edificantes de Chico Xavier.

  • Ratos de Por√£o no Milk Shake (Manchete)
    O programa, “Milk Shake”, era infantil. Mas a letra dos Ratos de Por√£o, nem tanto: “Sinto s√≥ gosto de sangue/ E vontade de fugir/ Viol√™ncia pura agora √© quase um prazer/ N√£o confio em mais ningu√©m”. Apesar da tem√°tica, as crian√ßas da plateia aplaudiam e pulavam no cen√°rio que lembra o filme “Branca de Neve”.


  • Prova dos batimentos card√≠acos (SBT)
    Dif√≠cil precisar quando a prova dos batimentos card√≠acos come√ßou, mas ela era exibida no “Domingo Legal”, de Gugu, que estreou em 1993. Como em outras brincadeiras do programa, essa envolvia pouca roupa: um convidado se sentava numa cadeira ligado a uma m√°quina que monitorava sua frequ√™ncia card√≠aca. O desafio do convidado era manter a calma e o cora√ß√£o pouco acelerado enquanto algu√©m do sexo exposto fazia um strip tease em sua frente. O quadro tinha direito a pacote completo: m√ļsica sensual, lingerie sexy e muita dan√ßa.

  • Prova da camiseta molhada (SBT)
    Gugu Liberato gostava de jogar √°gua sobre mulheres em seu programa. Al√©m da famosa banheira, o ‚ÄúDomingo Legal‚ÄĚ apresentava a prova da camiseta molhada. Como no caso da banheira, as regras eram simples: modelos eram enfileiradas, vestindo parte de baixo de um biqu√≠ni e uma camiseta branca (sem nada por baixo). Quando elas eram molhadas, a camiseta transparente revelava um c√≥digo, utilizado para abrir um cofre. E d√°-lhe closes nos peitos expostos das modelos.


  • aqui-agora-netflix

    Suic√≠dio no ‚ÄúAqui Agora‚ÄĚ (SBT)
    O SBT foi condenado a pagar uma indeniza√ß√£o de R$ 1,05 milh√£o √† fam√≠lia de Daniele Alves Lopes em 1994 por exibir seu suic√≠dio no jornal ‚ÄúAqui Agora‚ÄĚ. Daniele ficou sentada por 15 minutos no beiral de um pr√©dio at√© se atirar de uma altura de 25 metros, em imagens captadas pelo canal, que chegou √† cena com os socorristas. A equipe do programa ainda levou os pais de Daniele, que n√£o sabiam da morte da filha, √† delegacia, exibindo suas imagens enquanto a reportagem afirmava que ela estava envolvida com drogas. A justi√ßa considerou que o SBT teria usado indevidamente imagens da fam√≠lia e que havia causado danos morais a eles.


  • Prova da bexiga (SBT)
    Poderia ser uma prova de gincana em festa infantil, se n√£o fosse um detalhe. Na prova da bexiga, no ‚ÄúDomingo Legal‚ÄĚ, o objetivo era estourar o maior n√ļmero de bexigas com o corpo. Mas em vez de sentar sobre a bexiga no ch√£o, os participantes tinham que apertar a bexiga no corpo de uma modelo — de frente e de p√©, sentando no colo dela de frente e de costas.

  • Short Dick Man na Xuxa (Globo)
    N√£o havia barreiras de l√≠ngua quando se fala de letras inapropriadas em programas para crian√ßa nos anos 1990. Em 1995, Xuxa recebeu em seu programa o grupo 20 Fingers para cantar a m√ļsica “Short Dick Man”. Como se intui pelo t√≠tulo, a mensagem da m√ļsica √© “n√£o quero um homem de pau pequeno”. Mensagem enf√°tica: “Que gra√ßa, um umbigo extra. Voc√™ precisa colocar as cal√ßas de novo, querido”. Pelo menos era em ingl√™s.


  • Banheira do Gugu (SBT)
    Uma banheira, um homem, uma mulher, muitos sabonetes. Uma premissa das mais simples resultou no quadro de maior sucesso do “Domingo Legal”, do SBT. Exibido no hor√°rio mais fam√≠lia da televis√£o — a tarde de domingo — o quadro envolvia uma disputa entre homens e mulheres para ver quem pegava mais sabonetes numa banheira. Famosos como Rodrigo Faro, Daniel e Dinho dos Mamonas Assassinas entravam na √°gua para tentar pegar os sabonetes enquanto mulheres de b√≠quini — como Luiza Ambiel e Nana Gouv√™a — e homens de sunga tentavam impedir o convidado de alcan√ßar seu objetivo, usando todos os recursos poss√≠veis para dificultar a tarefa (rolava muita “m√£o boba”, resumiu Gugu, anos depois). Durante anos, a banheira do Gugu era o destino mais certeiro para quem queria ver closes em bundas e gente seminua ensaboada se esfregando.

  • Boquinha da garrafa (SBT)
    ‚ÄúA cinco √© muito boa‚ÄĚ ou ‚ÄúCapricha, Amanda, capricha!‚ÄĚ, comentava Gugu Liberato enquanto um grupo de mulheres ralava na boquinha da garrafa no palco de seu domingo legal. Vestindo o uniforme cl√°ssico das dan√ßarinas de ax√© (shortinho e top, tudo bem curto e bem colado), as mulheres sambavam sobre uma garrafa numa competi√ß√£o em v√°rias etapas para ver quem dan√ßava melhor.

  • Latininho no Faust√£o (Globo)
    Em 1996, Faust√£o recebeu em seu programa o garoto de 15 anos Rafael Pereira dos Santos, portador da s√≠ndrome de Seckel, dist√ļrbio caracterizado por nanismo, microcefalia e retardo mental. Com 87 cent√≠metros de altura, Rafael — vestido como o cantor Latino, que o acompanhou no palco, e apelidado de Latininho — foi comparado ao ET de Varginha. Durante o programa, Rafael dan√ßou e chegou a se sentar no colo de Ca√ßulinha. Anos mais tarde, a Globo foi condenada a lhe pagar 1 milh√£o de reais por ter humilhado o menino, expondo sua imagem ‚Äúcom n√≠tida inten√ß√£o de ridiculariz√°-lo, destacando suas restri√ß√Ķes f√≠sicas e mentais atrav√©s de lament√°veis e reprov√°veis coment√°rios despidos do que se pode tolerar como admiss√≠veis com um m√≠nimo de bom senso”.


  • Ratinho descobre ET (SBT)
    Cl√°udio Chirinian ficou conhecido como ET, da dupla ET e Rodolfo, no programa do Ratinho. Durante minutos, o apresentador rodeou uma caixa, fazendo mist√©rio antes de abri-la, dizendo que iria apresentar ao Brasil o extraterrestre de Olaria, depois de o rep√≥rter Rodolfo Carlos anunciar por dias que exibiria um ET ao vivo na TV. Pequeno e estr√°bico, Chirinian surgiu de dentro da caixa sem camisa, falando palavr√Ķes. O apelido de ET pegou e, com Rodolfo, foi contratado pelo SBT para participar do ‚ÄúDomingo Legal‚ÄĚ e gravou um CD humor√≠stico. Cl√°udio morreu em 2010.

  • Dani Boy (SBT)
    Ter crian√ßas no palco n√£o era empecilho para o ‚ÄúSabad√£o Sertanejo‚ÄĚ mostrar mulheres tomando banho. Enquanto Dani Boy — que ganhou o apelido por cantar m√ļsicas do Daniel — cantava rebolando a m√ļsica ‚ÄúCumade e Cumpade‚ÄĚ, uma mulher dan√ßava no chuveiro vestindo uma camiseta branca sem nada por baixo, com direito a closes em sua bunda. Do seu lado, uma mo√ßa de lingerie de oncinha fazia uma apresenta√ß√£o de pole dance. Mas foi no programa do Gugu, o ‚ÄúDomingo Legal‚ÄĚ, que Dani Boy ficou famoso, trabalhando como assistente de palco depois de pedir emprego ao vivo.

  • Fantasia (SBT)
    Outra boa alternativa no SBT para ver modelos jogando jogos era o “Fantasia”, com quadros para crian√ßas como o jogo da mem√≥ria e palavras cruzadas — nos intervalos dos jogos, as modelos do programa cantavam karaok√™. Era um programa com tanto apelo infantil, que a apresentadora Jackeline Petkovic, na √©poca com 17 anos, foi apresentar o “Bom Dia & Cia” depois. Era tamb√©m uma boa oportunidade de ver mulheres dan√ßando de sainha e barriga de fora ou mesmo de b√≠quini. Em um dos momentos cl√°ssicos do programa, Carla Perez, de roupa de banho, pergunta a uma espectadora que joga uma esp√©cie de forca se ela quis dizer “i de escola”. N√£o, “i de isqueiro”, responde ela. “E de esqueiro?”, pergunta Carla, inabal√°vel.

  • Sushi Er√≥tico (Globo)
    O nome √© autoexplicativo. Em 1997, Faust√£o exibiu um quadro em que Oscar Magrini e Marcio Garcia comiam sushi (“o arroz √© para conservar o peixe”, diziam ao explicar a diferen√ßa de sushi e sashimi) exposto no corpo de uma mulher nua em um restaurante. Discutindo o pre√ßo de um almo√ßo desses, Ca√ßulinha responde que pagaria 500 reais. Por mil d√≥lares, diz Faust√£o, voc√™ pode ficar um ano com a mulher em casa servindo de bandeja. “√Č uma mesa especial”, define o apresentador. Entre as perguntas √†s mulheres com sushi no corpo: “Voc√™ n√£o tem medo de uma mulher invejosa ir a√≠ e te espetar com um garfo?”. O quadro, claro, terminou em ax√©.

  • Tiazinha no “H” (Bandeirantes)
    O programa “H”, apresentado por Luciano Huck, estreou na Bandeirantes em 1996 como uma alternativa para os jovens, como as s√©ries “Anos Incr√≠veis” e “Confiss√Ķes de Adolescentes”. Em vez disso o “H” deu ao mundo a Tiazinha, uma dominatrix vestida com uma m√°scara, calcinha preta, corpete e meias sete oitavos que, munida de um chicote, depilava homens com cera quente no palco do programa. O “H” mudou depois pro hor√°rio da noite, mas dava ver pela plateia que seu p√ļblico continuava adolescente (“quem a√≠ comprou a Playboy da Tiazinha levanta a m√£o direita!”, gritou Luciano Huck enquanto ela rebolava em um dos programas).


  • Mulekada no SOS Nordeste (Record)
    Crian√ßas tamb√©m cantavam m√ļsicas de conte√ļdo pouco infantil sem causar estranhamento. Nos anos 1990, todo o mundo segurava o tchan e requebrava at√© o ch√£o e isso inclu√≠a crian√ßas. Criado em 1998, o grupo Mulekada, que se apresentava em v√°rios programas de audit√≥rio, imitava o √Č o Tchan nos movimentos de dan√ßa e figurinos. “Na hora da dan√ßa requebra gostoso, rebola a bundinha, vai at√© o ch√£o”, cantava um menino e duas meninas, devidamente vestidas em shortinhos, sacudindo cabelos e a p√©lvis sobre gritos de “requebra, loirinha!”.

  • “O Pinto” na Eliana (Record)
    No programa “Eliana no Parque”, em 1998, ficou provado que o ax√© era realmente um fen√īmeno infantil: a maioria das crian√ßas sabia letra e coreografia de todo o tipo de ax√© com duplo sentido. “O pinto!”, grita Eliana, empolgada, antevendo o que vem por a√≠. “Esse pinto n√£o √© mole, esse pinto √© safado”, canta o grupo enquanto duas dan√ßarinas de biqu√≠ni mostram a dan√ßa √† plateia de crian√ßas, todas empolgad√≠ssimas, num cen√°rio hiper infantil, com direito a bal√Ķes e roda gigante.

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A hist√≥ria oral da ‘TV Colosso’

Quando o “Xou da Xuxa” deixou a Globo em 1993, Boni precisava tapar um buraco na programa√ß√£o. Para isso, chamou o grupo ga√ļcho de teatro de bonecos 100 Modos para bolar alguma coisa curta. Eram s√≥ alguns meses no ar at√© Ang√©lica assumir o hor√°rio. Luiz Ferr√© teve uma ideia: fazer um programa de TV sobre um programa de TV todo feito por cachorros.

A “TV Colosso”, que inicialmente ficaria s√≥ quatro meses no ar, acabou por ocupar as manh√£s da Globo por quatro anos — por volta do meio-dia, quando o programa acabava, um cachorro com chap√©u de chef de cozinha anunciava, com sotaque franc√™s, “atenci√≥n, t√° na hora de matar a fome, t√° na mesa, pessoal!” Quase mil epis√≥dios, um filme e dois discos depois, a “TV Colosso” acabou em 1997, dando lugar ao “Angel Mix”, de Ang√©lica. Mas at√© hoje a sheepdog Priscila saracuteia por a√≠, aparecendo em programas de televis√£o ou eventos.

Quase 20 anos ap√≥s seu fim, quem fez a “TV Colosso” conta ao Risca Faca as hist√≥rias por tr√°s do programa.

As entrevistas foram levemente editadas para facilitar a compreens√£o.

AS ORIGENS

Luiz Ferr√©, criador do programa: Quando trabalhava como artista gr√°fico, queria fazer anima√ß√£o. A gente n√£o tinha recursos, n√£o tinha como fazer. Comecei a fazer bonecos de massinha e fotografar. Fazia esse tipo de ilustra√ß√£o, caricaturas de personagens pol√≠ticos, m√ļsicos, fotografava e publicava no jornal. Mas eu queria animar. Encontrei com alguns amigos e a gente come√ßou a fazer coisas de anima√ß√£o. A gente n√£o sabia o que que era, mas era teatro de anima√ß√£o. Eu usava bonecos. Eram espet√°culos de esquetes. A gente criou um grupo chamado 100 Modos e fez um espet√°culo, sem saber o que era teatro de bonecos, de anima√ß√£o. A gente s√≥ fazia um espet√°culo e sabia que as pessoas estavam curtindo. Nesse ano a gente ganhou todos os pr√™mios de teatro.

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Os moldes. Todas as fotos cedidas por Roberto Dorneles

A gente se apresentava num café muito pequenininho, o palco era do tamanho de uma mesa, os bonecos eram muito pequenos. Era um negócio experimental. Faz 25 anos, foi quatro anos antes da TV Colosso. Foi muito rápido. A gente passou por São Paulo e apareceu na Veja, na Folha, no Estadão. Era um espetáculo muito sem pretensão, era muito pequeno. Mas tinha um texto muito bacana. Foi um trabalho muito notado.

Quando a gente foi pro Rio de Janeiro a Globo fez mat√©rias e a gente virou meio pauta geral, onde a gente passava a Globo fazia mat√©ria. Era cin√©tica, colorido, novidade. A Globo ficou de olho na gente. A gente fez o ‚ÄúClip Clip‚ÄĚ, um programa de clipes, com o Boninho. A gente fez ‚ÄúPlunct, Plact, Zuuum‚ÄĚ com o Raul Seixas, Cazuza. Isso bem no in√≠cio da hist√≥ria do grupo. A√≠ a gente come√ßou a se apresentar um pouco em televis√£o.

O CONVITE

Luiz Ferr√©: Teve um momento em que o Boni e o Boninho j√° conheciam nosso trabalho em televis√£o. A Xuxa estava saindo do projeto Globo e iam entrar com a Ang√©lica. A Ang√©lica fez alguns pilotos do projeto, mas n√£o agradavam muito. N√£o √© que n√£o agradavam, mas n√£o dava muito certo. N√£o era ainda o que o Boni queria. Recebi um telefonema, estava em Porto Alegre, e ele falou: ‚ÄúOlha, Ferr√©, voc√™ me ajuda aqui? Eu t√ī com uma dificuldade de hor√°rio na parte da manh√£, n√£o t√ī conseguindo acertar um projeto que eu quero muito, com a Ang√©lica. Se voc√™ pensar, voc√™ que faz bonecos, fez o ‚ÄėClip Clip‚Äô, tem esse grupo de teatro, voc√™ n√£o quer pensar em alguma coisa?‚ÄĚ. ‚ÄúQual √© a pauta?‚ÄĚ ‚ÄúPensa no que voc√™ bem entender.‚ÄĚ Tinha uma liberdade muito grande de pensar, de propor. Pensei que era um pepino, entrar no hor√°rio da Xuxa. Era pra ficar quatro meses, um tamp√£o. ‚ÄúQuatro meses, faz a√≠, sem compromisso com nada, faz o que voc√™ curtir.‚ÄĚ

[olho]”Pensa no que voc√™ bem entender”[/olho]

Roberto Dorneles, criador do programa: Em 1992 quando o programa infantil da Xuxa saiu pela primeira vez do ar (depois mais tarde voltou na Globo), o Boni precisava colocar algo no lugar que chamasse a aten√ß√£o da audi√™ncia, e assim pensou num programa de bonecos. Mas n√£o simples bonecos, e sim bonecos animatronics. A raz√£o disso foi o seriado americano “A Fam√≠lia Dinossauro”, que na √©poca estava fazendo um super sucesso. At√© onde me contaram, ele abriu o leque com tr√™s op√ß√Ķes: produzir os complexos bonecos dentro da pr√≥pria Globo, trazer bonecos e equipe dos Estados Unidos ou chamar o 100 Modos. Ganhamos a concorr√™ncia com um prot√≥tipo de boneco que produzimos e trouxemos para gravar no Rio. E melhor: nos foi dada liberdade criativa desde que fiz√©ssemos pelo menos alguns animatronics. Pronto! Penso que boneco agrada de cara a quase todo mundo, principalmente se voc√™ juntar a ele a forma de um animal, mais ainda se for de estima√ß√£o e ainda mais se for cachorro.

O IN√ćCIO

Luiz Ferr√©: Pensei, putz, acho que vou fazer uma TV. Uma TV de cachorro. Acho que pode ser meio que uma c√°psula em volta da Terra, uma nave capturando desenhos e filmes e mandando pra Rede Globo. N√£o sei se voc√™ conhece aquele seriado com bonecos, os ‚ÄúThunderbirds‚ÄĚ, um seriado ingl√™s da d√©cada de 60. √Č muito divertido. Tinha um pouco essa est√©tica de um espa√ßo futurista retr√ī. A est√©tica especulava um pouco sobre o que seria o futuro. Desenhei os cen√°rios inspirado um pouco nos ‚ÄúThunderbirds‚ÄĚ, um pouco na fic√ß√£o cient√≠fica B, aquelas coisas de filmes americanos de viagens espaciais.

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J√° queria fazer um neg√≥cio com cachorro, porque cachorro tem uma empatia muito grande. Levei pro Boni o projeto e ele s√≥ mandou aterrissar, n√£o era pra ficar no espa√ßo. Tanto que a abertura da ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ parece uma nave espacial, e √© uma nave, que √© a constru√ß√£o da TV Colosso. Quem batizou o projeto foi o Boni. ‚ÄúTem que chamar TV Colosso.‚ÄĚ Falei: ‚ÄúOk, legal‚ÄĚ. Ele comp√īs a m√ļsica de abertura, a letra √© dele e do Massada, que era o hit maker da √©poca.

MONTANDO O TIME

Monica Rossi, dubladora da Priscila: Mário Jorge de Andrade foi convidado para dirigir a dublagem do programa. Foi ele quem indicou todos os dubladores, que foram aprovados pela direção geral do programa. Eu e todo o elenco ficamos muito contentes com a aprovação, pois a concepção do programa era genial e seria a oportunidade de trabalharmos na construção dos personagens já que era um produto brasileiro, um projeto ousado e diferente de tudo o que estávamos acostumados a fazer na dublagem, onde temos que obedecer com a máxima fidelidade a obra que já está pronta.

Luiz Ferr√©: Pra escrever, roteirizar todos os quadros, eu tinha um briefing inicial, mas precisava de algu√©m, porque era um volume muito grande de texto. A gente fez 998 programas. Quase mil! Sem contar os especiais, com os especiais a gente passou de mil. Eu sou cartunista, gosto de charges, falei: ‚ÄúVamos chamar uns camaradas cartunistas, que tenham uma coisa gr√°fica, que usam grafismo como ferramenta de ideia‚ÄĚ. Chamei Laerte, Luiz G√™, Glauco‚Ķ Conhecia alguns deles, como era cartunista, tive uns trabalhos no Sal√£o do Humor de Piracicaba, cruzei com eles. A gente montou um time de super caras gr√°ficos, com opini√£o, engajados, que n√£o escreviam pra crian√ßa, mas que trabalhavam com humor.

Laerte no cen√°rio da "TV Colosso"
Laerte no cen√°rio da “TV Colosso”

Roberto Dorneles: Um humor sarc√°stico, nonsense, diferente e inesperado era o que busc√°vamos.

Luiz G√™, roteirista: Eu fiquei sabendo porque os cartunistas todos estavam meio dentro da proposta. Eu estava meio atrapalhado, sem emprego, sei l√°. Estava precisando de trabalho. A√≠ falei com o Laerte e ele me p√īs e foi assim que eu entrei.

OS ROTEIROS

Luiz Ferr√©: A gente tinha reuni√Ķes de pauta em que eu participava, em que passava todas as ideias. A√≠ todo o mundo ia pra casa e come√ßava a mandar os textos pro Laerte, que fazia um filtro e mandava pra Globo. Na Globo tinha um pouquinho de calibragem, mas ia muito seco, quase direto. Depois a gente come√ßou a aumentar um pouco o hall de redatores, manipuladores e personagens, na segunda temporada. √Č um processo muito raro pra uma TV que nem a Globo. A gente teve uma liberdade muito grande.

Luiz G√™: A proposta era meio diferente no come√ßo. Era uma TV de cachorros no espa√ßo. Era pra ser uma esp√©cie de esta√ß√£o de orbital em que os cachorros estavam. Mas logo isso caiu e ficou uma esta√ß√£o normal mesmo. A partir dessa ideia que era muito incipiente, ainda muito no come√ßo, a gente come√ßou a se reunir, todo o mundo come√ßou a propor coisas e a gente foi criando todo o universo da coisa. A√≠ ficava uma coisa meio dif√≠cil de estabelecer onde come√ßava e onde terminava certas ideias, mas algumas eram bem claras quem tinha bolado, quem tinha tido a ideia. Essas reuni√Ķes eram muito engra√ßadas, era todo o mundo cartunista, a gente dava muita risada.

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Roberto Dorneles: [A gente tinha] praticamente [carta branca]. O Boni teve todos os m√©ritos nesse aspecto, porque sabia do nosso potencial, entendeu e nos deu total condi√ß√Ķes de realizar uma proposta t√£o arrojada. Uma ou outra ideia ou personagem foi barrado, mas, hoje, pensando bem, tamb√©m agrade√ßo a ele, porque se era dif√≠cil manipular e cuidar de 50 bonecos‚Ķ Aqui tamb√©m fa√ßo uma men√ß√£o ao Boninho que foi nosso diretor e grande parceiro dentro da Globo (ainda √©), desde os tempos do programa ‚ÄúClip Clip‚ÄĚ.

[olho]”Laerte foi uma figura fundamental, era diretor de reda√ß√£o, editor de texto”[/olho]

Luiz G√™: O mais legal era que a gente se via bastante. As reuni√Ķes eram muito engra√ßadas. Tinha pelo menos umas dez pessoas [no roteiro], mas era trabalho pra caramba. E o dinheiro n√£o era l√° essas coisas.

Luiz Ferr√©: Eu tinha uma teoria em rela√ß√£o ao projeto. N√£o precisava ser educativo. Tinha que ser divertido. Se voc√™ √© divertido, voc√™ educa. Nosso briefing para todos era esse. Os redatores entraram com muito afinco, tinham uma liberdade grande. O Luiz G√™ √© um cara muito voltado pra assuntos de militaria. Ele gosta de avi√Ķes, m√°quinas. N√£o que seja um cara b√©lico, mas gosta de militaria. Ele teve liberdade pra criar um quadro chamado ‚Äúna trincheira‚ÄĚ: os cachorros na trincheira. Era in√©dito, era divertido ver isso. Laerte foi uma figura fundamental, era diretor de reda√ß√£o, editor de texto. √Č o Laerte que a gente conhece, maravilhoso. Uma figura generosa, com uma cabe√ßa muito fora do que a gente costuma ter. Foi um cara muito importante pra gente.

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Luiz G√™: Nenhum de n√≥s estava muito preocupado com didatismo, coisa que no “R√°-tim-bum” tinha, toda uma did√°tica. Eu estava fazendo coisa pra crian√ßa, mas quando eu era crian√ßa eu lia Tintim, Pato Donald desenhado por caras bons, que eram curtidos por gente de tudo quanto √© idade. Essa maneira de estar fazendo a hist√≥ria desde que seja legal pode ser muito mais rica do que uma quest√£o did√°tica toda presinha. Como o Tintin era: muito informativo, formativo, que n√£o precisa ser pedag√≥gico. Eu inventava cen√°rios, truques, e desenhava e mandava pra eles. Muita coisa eles fizeram e ficou muito bom. Outras n√£o t√£o boas, outras feitas 50%.

OS PERSONAGENS

Luiz Ferré: Desenhei todos os personagens. Tem que ter um sheepdog, os vira-latas, o cara que é operador de mesa. Eu trabalhava em cinema e lembrei de muitos amigos, de figuras que trabalhavam comigo, produtores. A Priscila é super inspirada em três amigas que são produtoras. JF é inspirado em chefes que eu tive. Capachão é um personagem que a gente vê muito em filmagem. Eu trouxe essas figuras.

Luiz G√™: Eu criei o Capach√£o. Mas a minha ideia era que ele fosse um capacho mesmo, com cara de cachorro [ri]. Mas eles n√£o conseguiram fazer e fizeram um cachorro normal. N√£o era nada dif√≠cil ter conseguido fazer ele dessa forma. [Quando chegamos no projeto] tinha alguns personagens. J√° estava adiantado o JF e a Priscila. Essa quest√£o do Capach√£o mostra uma das coisas que foi um dos maiores problemas do ponto de vista de roteiristas, criadores. Porque a gente tamb√©m era cartunista, normalmente a gente tinha controle total sobre nossa cria√ß√£o e depois [na “TV Colosso”] n√£o tinha mais. Acho que essa coisa de [a produ√ß√£o] estar no Rio e a gente estar aqui [em S√£o Paulo] atrapalhou muito. Se a gente tivesse mais controle, a gente poderia ter feito um neg√≥cio muito mais legal, muito melhor. A gente ficava insatisfeito com muita coisa, porque eles n√£o sabiam interpretar aquilo, n√£o entendiam o humor.

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Monica Rossi: O sucesso da Priscila veio de um conjunto de fatores. √Č uma figura realmente “colossal”, enorme e espa√ßosa, dengosa, charmosa, vaidosa‚Ķ Enfim, uma personagem carism√°tica. Muito menina!

Luiz Ferr√©: No in√≠cio do projeto, quem ensaiou o andar da Priscila foi a Deborah Colker. Olha s√≥, olha s√≥. Era dif√≠cil, porque a Priscila tem uma frequ√™ncia como personagem muito curiosa. √Č um bicho, mas √© uma menina, √© um boneco grande e peludo. √Č super charmosa, ela pesa 200 kg, mas entra voando. Precisava desenvolver a caminhada, como ela andava, como ela rebolava, como ela se movimentava dentro da fantasia. E a Deborah Colker fez esse primeiro trabalho com a Priscila.

Luiz G√™: Tinha dois tipos de texto, basicamente. Um pros cachorr√Ķes grandes, que tinham muito equipamento: Priscila, JF, Capach√£o… E tinha os cachorros pequenininhos, manipulados com a m√£o. Esses dois tipos de textos eram muito diferentes porque a mobilidade que existia pra uns e outros era diferente. Os grand√Ķes tinham que ser muito mais est√°ticos, dentro de um cen√°rio determinado, ao passo que com os pequenos a gente tinha muita mobilidade de mudar a hist√≥ria, de inventar. Ent√£o eu — e outros roteiristas — preferia muito mais os pequenos. Os grandes era meio que uma camisa de for√ßa, tinha que criar pra eles de uma forma muito presa. Nos pequenos, eu desenhava muito: cen√°rios, como que era.

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BRONCA

Luiz Gê: Um dia eu falei pro Laerte: bolei uma história assim, com vários blocos. Contei pra ele os blocos todos e o Laerte pegou minha ideia de roteiro, escreveu. Eu fiz isso porque a gente tinha muito trabalho, era muito trabalhoso. Tinha texto pra caramba. Você não sabe como é ter que escrever uma manhã inteira de televisão todo dia. Muito trabalhoso. Então fiz isso e passei pro Laerte. Ele passou pros caras, fez o maior sucesso com os caras e no fim nunca reconheceram que eu tinha bolado o negócio. Isso eu sempre fiquei meio puto, foi minha ideia. A partir daí começou a se fazer isso, umas histórias grandes, que ocupavam a manhã inteira ou às vezes mais de um dia. E eles chegaram a comercializar isso, colocaram no supermercado os vídeos dessas histórias completas. Bolei muitas dessas histórias. Em geral era um cara só que fazia essas histórias. Eu já tinha começado antes a fazer umas coisas mais longas. No fim das contas houve essa coisa dessas histórias mais compridas, eles chegaram a comercializar. Mas eu não tenho nada, nunca comprei os vídeos.

QUADROS MARCANTES

Luiz G√™: Tinha um que eu fiz que era uma galera, daquelas que ficam uns caras remando dentro, com um monte de cachorrinho segurando os remos. Eu mostrava como era: amarra os bonequinhos assim, a hora que a pessoa fizer o movimento fora vai todo o mundo fazer assim. Tinha o cara que batia aquele tambor pra dar o ritmo, coisa de galera, que era uma esp√©cie de DJ. Tocava v√°rios tipos de m√ļsica e eles tinham que remar conforme a m√ļsica [ri]. Isso era legal voc√™ ver sendo feito. Mas dava uma vontade enorme de mexer, porque a gente manja. Dava vontade de cortar, montar. Essa quest√£o b√°sica de a gente estar em contato com a realiza√ß√£o.

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Eu fazia um personagem chamado Roberval, o ladr√£o de chocolates. Eu fiz uma hist√≥ria em que o Roberval ficava passando uma l√°bia pro cara entregar o chocolate pra ele. Ele passava uma l√°bia, mas estava tendo um caso de um terrorista que estava pondo bomba. Ele achou que era chocolate, mas era uma bomba. Quando chega no final, o cara que est√° fazendo a grava√ß√£o fala “bom, estoura a√≠”. Nesse caso eu estava no Rio, vendo. E eu falei “o que voc√™s acham de fazer assim…”, mas estava no roteiro. Eu falei assim pra ser contemporizador. Quando ele conseguia passar a m√£o no chocolate tocava “chocolate, chocolate” [canta a m√ļsica “Chocolate”]. Quando ele passa a m√£o e sai todo vitorioso, ele sai de cena, toca “chocolate, chocolate”, e a√≠ que explode. Ficava muito mais engra√ßado. Eu tive que chegar e falar “o que voc√™s acham…”. E dessa vez ficou certo. Numa dessas eles destru√≠am o seu humor.

Fiz o doutor Aftasardem [ri]. Um dos que eu mais gostava era o “c√£obate”. Eu fiz v√°rios de “c√£obate”.

Uma das primeiras ideias que tive‚Ķ Sabe quando voc√™ est√° andando na rua e um cachorro come√ßa a “auauau” e voc√™ leva um susto? Era de um cachorro que gostava de fazer isso e o cachorro vizinho era bonzinho e ficava “por favor, n√£o fa√ßa isso, a dona Amelinha sofre do cora√ß√£o” [fala com uma voz fina, de boneco, e d√° risada]. Tinha que ter pelo menos as pernas das pessoas vindo, mas os caras n√£o quiseram fazer isso porque ia sair da coisa do programa, de ser s√≥ cachorro. Mas sei l√°, a dona Amelinha podia ser cachorro.

Eu fazia uma tamb√©m que era uma goza√ß√£o de novela, essa tamb√©m era famosinha. Como chamava mesmo? “Os filhos da Cadela.” [ri] Uma coisa assim. Isso tamb√©m era uma experi√™ncia de linguagem legal. Fiz uma esp√©cie de bloco feito de v√°rias historinhas super curtas. L√° tamb√©m eu inventava bastante, mudava bastante cen√°rio, esse tipo de coisa. Os filhos da cadela acho que eram mais famosos que o “c√£obate”, mas eu preferia o “c√£obate”.

FAZENDO CACHORROS

Luiz Ferr√©: A gente tinha liberdade de encena√ß√£o. Falei que queria explorar todas as possibilidades de boneco: boneco de fantasia, bonecos de luva, bonecos pequenos, animatronics, tinha um robozinho — o buldogue era completamente rob√≥tico, andava pelo cen√°rio. Eles falavam ‚Äúok‚ÄĚ. A Priscila foi feita por quatro caras. Tem o cara que fica dentro da fantasia, dois caras que fazem manipula√ß√£o via r√°dios japoneses de aeromodelismo e a voz, a Monica Rossi, que fica fora. Outra coisa muito legal foi o or√ßamento aberto. A gente podia fazer o que quisesse de produ√ß√£o que a Globo pagava. A gente desenvolveu o pelo da Priscila num lugar chamado National Fur, uma f√°brica em Boston que faz pelo pra bichos pra Hollywood. A gente foi at√© l√° e desenvolveu o pelo. A gente trouxe os melhores motores.

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Roberto Dorneles: Ningu√©m acreditava que a TV Colosso tivesse sido totalmente feita na rua Surup√°, n¬į 225, meu endere√ßo em Porto Alegre, RS, √© do Brasil! Era um misto de espanto e desconfian√ßa. Se foi f√°cil mandar produzir? Sim, muito f√°cil! Falei para mim mesmo: fa√ßa!

CONTROLANDO CACHORROS

Roberto Dorneles: Digo que manipulei todos os bonecos. Calma a√≠, n√£o estou mentindo! Vou explicar: eu sempre testava e criava os trejeitos de cada personagem para depois passar para algum outro manipulador que fizesse daquela forma. Mesmo assim, eu manipulei alguns personagens nas grava√ß√Ķes do come√ßo ao fim, por puro prazer e tamb√©m, confesso, por ci√ļmes. Como eram numerosos bonecos, a equipe tamb√©m era. No auge foram 22 pessoas. Essa equipe era dividida em manipuladores e atores-manipuladores. Manipuladores manipulavam os bonecos pequenos e os r√°dios que produziam as express√Ķes faciais dos bonecos grandes. Bonecos grandes esses que eram vestidos pelos atores-manipuladores.

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Eram fantoches com mãos controladas por varinhas, marotes [técnica de manipulação onde o manipulador empresta parte de seu corpo para o boneco] e fantasias de vestir. Todos esses bonecos tinham algum tipo de mecanismo, dos mais simples como o Gilmar, com um movimento (pálpebras), passando pelos médios com até dez movimentos como o Borges e finalmente os mais complexos como o chefe JF que tinha quase 20 movimentos.

Acho que os mais dif√≠ceis eram os que precisavam de tr√™s manipuladores. Um controlando a cabe√ßa, outro vestindo os bra√ßos e um terceiro de fora produzindo as express√Ķes faciais com o r√°dio. Isso sem contar com o dublador guia de est√ļdio. Total de quatro malucos tentando coordenar um boneco, e conseguindo!

[olho]”No auge, a semana de trabalho era bastante intensa, com apenas um dia de descanso”[/olho]

Eu n√£o era somente respons√°vel pela equipe de manipula√ß√£o. Tamb√©m era respons√°vel pela equipe de manuten√ß√£o dos bonecos porque constru√≠ e coordenei a constru√ß√£o dos mesmos. Como eram quase 50 bonecos e grav√°vamos em m√©dia quatro dias na semana, acontecia muito desgaste e quebra. Para manter tudo funcionando perfeitamente era necess√°rio manter uma equipe de em torno de dez pessoas. A equipe era dividida em formas e l√°tex, manuten√ß√£o pl√°stica e manuten√ß√£o mec√Ęnica e eletr√īnica. Assim como eu, uma parte dessa equipe tamb√©m manipulava no est√ļdio, por isso, no auge, a semana de trabalho era bastante intensa, com apenas um dia de descanso.

Monica Rossi: Foi uma √©poca de muito trabalho, pois durante a elabora√ß√£o da personalidade dos bonecos, n√≥s grav√°vamos no est√ļdio durante a a√ß√£o ‚Äď a nossa interpreta√ß√£o ajudava os bailarinos e manipuladores a fazer o corpo dos bonecos. Depois que j√° estava bem definida a personalidade de cada um, foram contratados dubladores para fazer a “voz guia” e n√≥s coloc√°vamos a voz definitiva na fase de finaliza√ß√£o do programa. No in√≠cio n√≥s j√° acredit√°vamos no projeto mas n√£o t√≠nhamos a no√ß√£o exata do sucesso que seria.

RECEPÇÃO

Luiz Ferr√©: Foi rolando, n√£o teve o acerto de outro projeto e o nosso projeto foi ficando mais interessante comercialmente tamb√©m. A Globo nunca teve tanto patroc√≠nio dentro da janela‚Ķ Quer dizer, a Xuxa tinha um merchand violento, mas a gente n√£o tinha dentro do programa, s√≥ em break. A gente virou um neg√≥cio muito interessante. A gente come√ßou a ser notado fora do pa√≠s. O grupo Jim Henson, que trabalha com Vila S√©samo e Muppets, eles vieram pro Brasil e viram a gente em cena. A gente foi convidado pra fazer um est√°gio em Nova York, fui eu e o Betinho [Dorneles], acompanhou todo o processo deles. Eles ficaram pasmos com o n√ļmero de cenas que a gente filmava, era muita coisa. Acharam a t√©cnica incr√≠vel. A√≠ a Globo falou ‚Äúa gente pode dar mais um ano‚ÄĚ.

SUCESSO

Roberto Dorneles: Desde o in√≠cio est√°vamos bastante confiantes no sucesso do programa, mas eu, que ficava mais tempo dentro do est√ļdio, n√£o percebia bem a dimens√£o do que estava acontecendo. Foi ent√£o que o Luiz Ferr√© montou o “Show Colosso”. A estreia foi em S√£o Paulo e por estar sempre em est√ļdio no Rio, n√£o tinha nem como assistir a algum ensaio. Mas na estreia eu estava, e naquele dia assistindo e sentindo a incr√≠vel rea√ß√£o da plateia, me bateu uma forte emo√ß√£o, um tremendo orgulho pelo trabalho t√≠nhamos produzido, um prazer por estar em sintonia com todas aquelas pessoas. Pensei: poxa, as pessoas gostam exatamente do eu gosto, e fiz. Inesquec√≠vel!

[olho]”A gente tinha uma m√°gica de encena√ß√£o”[/olho]

Luiz Ferr√©: A gente n√£o sabe qual √© o segredo. Trabalhei um tempo em Los Angeles e fui com projetos super legais, conversei com o produtor dos Simpsons e ele falou: ‚ÄúCara, a gente fez os ‚ÄėSimpsons‚Äô, a√≠ a gente falou que tinha a f√≥rmula. Vamos fazer ‚ÄėFuturama‚Äô, era tudo igual, mesmo humor, mesma pegada, s√≥ uma diferente cenografia, e foi um fiasco. A gente nunca sabe o segredo‚ÄĚ. Eu tenho algumas teorias sobre o sucesso da ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ. Acho que a liberdade criativa, esse n√£o compromisso com regras estabelecidas, o n√£o compromisso de ser educativo e a encena√ß√£o. Acho que a gente tinha¬†uma m√°gica de encena√ß√£o, a gente trazia isso do teatro. A Priscila tem m√°gica. A sorte de acertar em personagens legais, de encontrar profissionais legais. Foi um momento ali. A gente fez outras coisas legais que n√£o foi no momento. N√£o tenho o segredo. Essas coisas voc√™ n√£o sabe.

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Roberto Dorneles: A risada n√£o tem idade, ela s√≥ n√£o est√° na boca dos muito mal-humorados. A ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ n√£o era um programa apenas direcionado √†s crian√ßas. Os bonecos agradavam muito √†s crian√ßas, mas n√£o s√≥ a elas, e a faixa alargou com o enredo, a tem√°tica e as piadas, atingindo assim os adolescentes e at√© adultos. Sim, j√° t√≠nhamos feito espet√°culos infantis, mas tamb√©m t√≠nhamos feito espet√°culos √† noite, abertos a qualquer idade. A linguagem que sempre buscamos √© a linguagem que nos faz rir, dessa forma acreditamos que algumas pessoas rir√£o junto conosco.

Luiz Ferr√©: S√≥ tem dois projetos na Globo que tiveram essa amplitude de p√ļblico bem grande: ‚ÄúTrapalh√Ķes‚ÄĚ e ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ. Amplitude de classe A, B e C e idade, do p√ļblico escolar at√© os 60 anos. O boneco surgiu na humanidade pra fazer tudo aquilo que n√≥s, atores, pessoas normais, n√£o podem fazer. O boneco vem pra isso. Voc√™ n√£o podia sair na rua e falar ‚Äúo rei tem o nariz grande‚ÄĚ, mas o boneco podia e at√© o rei aplaudia.

O FIM

Luiz Ferré: Tinha uma força grande da Xuxa ainda dentro do projeto comercial. Ela tinha uma força muito forte, muito forte. E também a gente estava muito cansado. A gente achou que era quatro meses, ia pro Rio e tirava férias. Que nada, a gente enlouqueceu. Teve um desgaste criativo muito grande também. Foi bom, porque parou, o projeto continuou lá fora, tava em 36 países. A gente gravava todo dia, isso cansou muito. Era uma rotina muito difícil.

[olho]”Teve um desgaste criativo muito grande tamb√©m”[/olho]

Monica Rossi: Todo projeto tem um tempo de vida. Por mais sucesso que fa√ßa o produto, tem uma hora que chega ao fim. No caso da ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ, acabou o programa, mas ficou o legado. Todos que viveram aquela √©poca tem guardado no cora√ß√£o cada personagem. Quem tem a oportunidade de rever os programas fica feliz. J√° vi gente chorando ao ver a Priscila ao vivo. Sem d√ļvida, √© sempre uma grande emo√ß√£o.

FUTURO

Luiz Ferr√©: A gente vai ser o primeiro grupo a criar conte√ļdo original pro portal Play Kids. √Č ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ, a Priscila e o Gilmar. O legado nunca sumiu. Saiu da Globo, mas ficou transitando, a gente nunca deixou de trabalhar. Ficou muito presente no imagin√°rio de muita gente, ent√£o a gente est√° sempre fazendo. Esse √© um projeto novo, pra crian√ßa pequena, pra crian√ßa um pouquinho maior e pros antigos f√£s. √Č um projeto super pop, eu fa√ßo em portugu√™s e espanhol, mas vai ser dublado em franc√™s, ingl√™s e mandarim. Vai pro mundo inteiro.

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‘Divorce’, ‘Insecure’ e relacionamentos

Com ‚ÄúGame of Thrones‚ÄĚ a dois anos de terminar e ‚ÄúGirls‚ÄĚ entrando na √ļltima temporada, a HBO preparou para este m√™s algumas apostas de substitutas — j√° que ‚ÄúTrue Detective‚ÄĚ afundou no segundo ano e a car√≠ssima ‚ÄúVinyl‚ÄĚ nem passou da primeira temporada. No √ļltimo domingo foi a vez de ‚ÄúWestworld‚ÄĚ, o drama complexo de fic√ß√£o cient√≠fica candidato a substituir ‚ÄúGame of Thrones‚ÄĚ como s√©rie de prest√≠gio. Neste fim de semana (9) o canal apresenta suas novas com√©dias: ‚ÄúDivorce‚ÄĚ, com Sarah Jessica Parker, e ‚ÄúInsecure‚ÄĚ, de Issa Rae.

Quando Sarah Jessica Parker apareceu pela √ļltima vez em uma s√©rie, sua Carrie Bradshaw rumava ao felizes para sempre com Mr. Big, em ‚ÄúSex and the City‚ÄĚ. Mais de dez anos depois, a atriz volta √† HBO para mostrar o que acontece quando o para sempre acaba e um casamento chega ao fim. Em ‚ÄúDivorce‚ÄĚ, a atriz √© Frances, que nos √© apresentada de toalha, passando lentamente um creme no rosto no espelho do banheiro, em um momento bem √≠ntimo. Robert, o marido (Thomas Haden Church), entra com uma lata na m√£o e reclama: ela passou tanto tempo no banheiro, sem abrir a porta para ele, que ele teve que fazer as necessidades na lata. Ela reage com desinteresse, sem parar o que est√° fazendo.

Nas palavras de Frances, a vida do casal consiste apenas em conversar sobre assuntos banais como o alarme da casa — o que seria toler√°vel se ainda houvesse algum amor entre os dois ou alguma felicidade naquela rotina. Depois de um acontecimento traum√°tico, Frances comunica a Robert que o amor acabou e que quer o div√≥rcio. De in√≠cio, ele quer conversar a respeito: sugere mais sexo, sess√Ķes com um terapeuta. Mas ela diz que n√£o tem solu√ß√£o. Depois, ela muda de ideia e quer voltar atr√°s, dar uma segunda chance ao relacionamento. Mas ele diz que n√£o tem solu√ß√£o. Com base na sinopse oficial da s√©rie (‚Äúum casal passa por um longo e arrastado div√≥rcio‚ÄĚ), sup√Ķe-se que a dissolu√ß√£o do casamento ser√° t√£o dif√≠cil quanto o namoro de Carrie e Mr. Big.

Apesar da premissa dram√°tica, ‚ÄúDivorce‚ÄĚ √©, oficialmente, como dito no in√≠cio do texto, uma com√©dia. Criada por Sharon Horgan, de ‚ÄúCatastrophe‚ÄĚ, da Amazon, sobre duas pessoas dif√≠ceis unidas por uma gravidez inesperada, a s√©rie tem muitas notas de humor negro — do cachorro que se sufoca intencionalmente por n√£o aguentar mais o clima da casa √† escalada surreal de uma briga entre um casal na festa de anivers√°rio da mulher (bem, a¬†primeira cena ‚ÄúDivorce‚ÄĚ fala de defecar em uma lata). S√≥ n√£o √© uma com√©dia pura, daquelas reconfortantes que voc√™ p√Ķe para n√£o ter que pensar muito no fim do dia. √Č mais uma daquelas s√©ries que causam controv√©rsia quando s√£o classificadas como ‚Äúdrama‚ÄĚ ou ‚Äúcom√©dia‚ÄĚ em premia√ß√Ķes, porque s√£o um pouco das duas coisas. Definitivamente n√£o conforta ningu√©m.

Julgar uma s√©rie pelo primeiro epis√≥dio n√£o s√≥ √© dif√≠cil como √© temer√°rio — tem algumas que precisam de uma meia temporada para finalmente pegar no tranco. O que d√° para dizer de ‚ÄúDivorce‚ÄĚ tendo visto s√≥ um cap√≠tulo, √© que a s√©rie tem um bom come√ßo. Sem ter um enredo muito complexo ou precisar explicar muita coisa, como ‚ÄúWestworld‚ÄĚ, a s√©rie pode se concentrar em apresentar os personagens. Sarah Jessica Parker, bem distante de Carrie, tem a oportunidade de mostrar seu lado mais dram√°tico e carrega bem os mon√≥logos sobre a infelicidade de sua vida nos sub√ļrbios de Nova York. Haden Church tem menos o que fazer nesse in√≠cio, mas coloca humor num personagem que tem tudo pra ser uma pessoa bem sem gra√ßa. Como vemos no in√≠cio mais os dois separados do que juntos, n√£o d√° para saber ainda se os dois t√™m muita qu√≠mica, o que √© essencial numa s√©rie sobre (o fim de) uma rela√ß√£o. Pelo menos Sarah Jessica tem uma boa din√Ęmica com Molly Shannon, a amiga √† beira de um ataque de nervos que tamb√©m est√° num casamento problem√°tico.

Apesar de Sarah Jessica Parker estar em ‚ÄúDivorce‚ÄĚ, quem se aproxima mais de ‚ÄúSex and the City‚ÄĚ e de seu olhar sobre amizade feminina e relacionamentos √© ‚ÄúInsecure‚ÄĚ, a alternativa mais leve e, pelo primeiro cap√≠tulo, melhor entre as duas estreias. Issa Rae, criadora e protagonista da s√©rie, n√£o √© conhecida na televis√£o, mas j√° tinha experi√™ncia em s√©ries com ‚ÄúAwkward Black Girl‚ÄĚ, criada para a internet num momento de t√©dio na faculdade. Se ‚ÄúDivorce‚ÄĚ pode ser definida como ‚Äúcasal rico de meia idade se separa em Nova York‚ÄĚ, ‚ÄúInsecure‚ÄĚ √© ‚Äúmulher negra chegando nos 30 vive sua vida em Los Angeles ao lado de sua melhor amiga‚ÄĚ. S√£o duas s√©ries sobre relacionamentos, mas em tempos diferentes: “Divorce” √© um retrato do fim, “Insecure” √© tanto sobre a busca pelo romance¬†quanto sobre as amizades.

Ao som de ‚ÄúAlright‚ÄĚ, de Kendrick Lamar, somos apresentados a Issa em seu anivers√°rio de 29 anos, em mais um dia comum em seu trabalho, como a √ļnica mulher negra em uma ONG com projetos educacionais para crian√ßas. Na sala de aula, ouve dos alunos ‚Äúpor que voc√™ fala como uma mulher branca?‚ÄĚ e ‚Äúmeu pai diz que mulheres negras s√£o amargas‚ÄĚ. No escrit√≥rio, √© ‚Äúagressivamente passiva‚ÄĚ com os colegas que lhe perguntam o significado das g√≠rias do momento, como se ela estivesse por dentro de tudo que acontece nas ruas. Em casa, sustenta o namorado, que est√° h√° anos desempregado. Ela quer terminar, acha que chegando aos 30 n√£o tem mais tempo a perder, mas n√£o tem exatamente certeza.

Enquanto Issa n√£o sabe se √© melhor ficar num namoro pouco empolgante ou ficar solteira, sua melhor amiga, Molly (Yvonne Orji) tem certeza: escolha o namoro. Molly, uma advogada, √© um sucesso profissional — segundo Issa, ela √© o ‚ÄúWill Smith do mundo empresarial‚ÄĚ, amada por brancos e negros –, mas n√£o tem um namorado e sofre com isso enquanto usa aplicativos de encontro. Issa e Molly nem sempre concordam, mas est√£o sempre dispon√≠veis para dar um ombro amigo uma para a outra mesmo quando brigam com a ferocidade de quem se conhece muito bem e sabe exatamente o que dizer para machucar.

Com base no primeiro cap√≠tulo, pelo menos, d√° pra dizer que ‚ÄúInsecure‚ÄĚ tem uma qualidade que falta a muitas das s√©ries voltadas ao p√ļblico dos vinte e poucos/tantos anos: parece realista sem ter personagens dif√≠ceis vivendo vidas horr√≠veis. Issa e Molly s√£o mais legais que qualquer personagem de ‚ÄúGirls‚ÄĚ ou ‚ÄúLove‚ÄĚ e suas vidas n√£o s√£o nem surrealmente boas (como Carrie, de ‚ÄúSex and the City‚ÄĚ, conseguia comprar tantos sapatos escrevendo uma coluna em um jornal √© o mist√©rio do s√©culo) nem ruins. S√£o normais.

Se a HBO vai conseguir ou não encontrar novos sucessos para sua grade, não dá pra dizer só com base nessa semana. Mas dá pra ficar otimista.

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Cinema

Restaurando ‘Star Wars’

Seis anos atr√°s, Petr “Harmy” Harm√°ńćek assistiu a uma reconstru√ß√£o da vers√£o original de ‚ÄúO Imp√©rio Contra-Ataca‚ÄĚ, feita por um f√£, sem as altera√ß√Ķes que George Lucas fez em¬†seus filmes ao¬†longo dos anos. Harmy pediu ao criador¬†que lan√ßasse uma vers√£o do v√≠deo numa resolu√ß√£o melhor, em alta defini√ß√£o. ‚ÄúE ele me disse: ‚ÄėSe voc√™ quer tanto, por que n√£o faz voc√™ mesmo?‚Äô‚ÄĚ, conta ele. Sem experi√™ncia alguma com edi√ß√£o de v√≠deo, Harmy resolveu tentar mesmo assim. A primeira vez que tinha assistido a ‚ÄúStar Wars‚ÄĚ foi aos cinco anos, e durante a inf√Ęncia teve batalhas de sabre de luz √©picas com os amigos. ‚ÄúEu tinha a c√≥pia de uma c√≥pia de um VHS velho da vers√£o original de ‚ÄėStar Wars‚Äô, que vi tanto quando crian√ßa que gastou. Nos casos de ‚ÄėO Imp√©rio Contra-Ataca‚Äô e ‚ÄėO Retorno de Jedi‚Äô, vi as vers√Ķes especiais antes e tive muita dificuldade para achar as originais em VHS aqui na Rep√ļblica Tcheca‚ÄĚ, diz.

Para quem n√£o √© particularmente f√£ da obra de George Lucas, o par√°grafo acima talvez n√£o fa√ßa muito sentido. Uma explica√ß√£o, nas palavras de Harmy. ‚ÄúEm 1997, a chamada Edi√ß√£o Especial de ‚ÄėStar Wars‚Äô foi lan√ßada,¬†com muitas altera√ß√Ķes de √°udio e v√≠deo, e todo o mundo achou que seria s√≥ uma vers√£o alternativa divertida. Mas George Lucas disse: ‚ÄėEssa √© minha vis√£o original. Era isso que eu queria e agora ser√° a √ļnica vers√£o dispon√≠vel‚Äô. Mas em 2004 saiu um DVD com mais altera√ß√Ķes. Ent√£o onde estava a ‚Äėvis√£o original‚Äô de 1997? E ent√£o, em 2011, o Blu-ray saiu com mais mudan√ßas e at√© hoje a vers√£o original n√£o foi lan√ßada numa qualidade decente.‚ÄĚ Para quem¬†n√£o viu “Star Wars” quando os filmes foram lan√ßados no cinema,¬†ver as vers√Ķes originais ficou muito dif√≠cil. Por vias oficiais, imposs√≠vel.

O problema, para Harmy¬†e muitos f√£s de ‚ÄúStar Wars‚ÄĚ, n√£o √© a exist√™ncia de v√°rias vers√Ķes. Muitos filmes t√™m vers√Ķes diferentes, cortes do diretor. ‚ÄúO problema real √© a supress√£o intencional da vers√£o original, historicamente importante e que ganhou sete estatuetas do Oscar — e que teve boa parte de seus aspectos que o fizeram levar tantos pr√™mios¬†alterados depois‚ÄĚ, afirma. Harmy conta que viu palestras em que os t√©cnicos de efeitos especiais falavam sobre as t√©cnicas utilizadas, os modelos de naves espaciais, o trabalho de c√Ęmera e os efeitos de √≥ptica, enquanto uma tela atr√°s mostrava os efeitos computadorizados de 1997. ‚ÄúIsso √© simplesmente errado.‚ÄĚ

Com apenas uma experi√™ncia limitada com Photoshop no¬†curr√≠culo, Harmy resolveu tentar fazer sua vers√£o mesmo assim, assistindo a tutoriais na internet para fazer as coisas que precisava. Lan√ßou, ao final, a vers√£o ‚Äúanti-especial‚ÄĚ, chamada de ‚ÄúPartly Despecialized Edition‚ÄĚ, da trilogia original de George Lucas. ‚ÄúChamei assim porque peguei as Edi√ß√Ķes Especiais e tirei s√≥ as piores altera√ß√Ķes‚ÄĚ, lembra. Quando lan√ßou a primeira vers√£o, tinha aprendido tanto sobre edi√ß√£o de v√≠deo que quis recome√ßar o processo, porque achava que j√° conseguiria fazer algo melhor. ‚ÄúConsegui remover a maioria das mudan√ßas. Ent√£o tirei o ‚ÄėPartly‚Äô do t√≠tulo e virou s√≥ ‚ÄėDespecialized Edition‚Äô.‚ÄĚ

Antes de pensar em editar ‚ÄúStar Wars‚ÄĚ, Harmy era fascinado por efeitos especiais, principalmente sobre como eles eram feitos antes dos computadores. ‚ÄúEu s√≥ tinha as edi√ß√Ķes especiais de ‚ÄėStar Wars‚Äô em VHS e queria muito ver os efeitos originais. Ent√£o fui atr√°s das vers√Ķes originais ainda quando crian√ßa. Quando comecei a faculdade, em 2008, descobri o HD e achei as vers√Ķes em HDTV da edi√ß√£o em DVD de 2004 na internet. De repente, ver ‘Star Wars’ na qualidade do laserdisc n√£o bastava. Como eu queria ver o original, comecei a procurar uma vers√£o em HD disso‚ÄĚ, conta. F√£s antes dele j√° haviam tentado chegar √†s vers√Ķes originais de “Star Wars”.¬†“Mas acho que fui o primeiro a fazer isso em alta defini√ß√£o.‚ÄĚ

Foi um processo trabalhoso. Como base, ele utilizou as vers√Ķes da edi√ß√£o especial em Blu-ray, com imagens em alta defini√ß√£o. Para tirar as partes alteradas por George Lucas, utilizou ‚Äúas melhores fontes com qualidade‚ÄĚ que encontrou. ‚ÄúQuando dava, n√£o trocava a cena inteira, porque os materiais dispon√≠veis sem altera√ß√Ķes t√™m qualidade t√£o ruim que voc√™ n√£o pode colocar num v√≠deo em HD sem ficar muito esquisito. Ent√£o quando as altera√ß√Ķes eram pequenas, eu trocava s√≥ um peda√ßo pequeno da imagem por aquilo que tirei de uma fonte de menor¬†qualidade.‚ÄĚ Para isso,¬†utilizou imagens da vers√£o original gravadas por f√£s de exibi√ß√Ķes antigas na¬†televis√£o, que algumas pessoas do site originaltrilogy.com lhe forneceram.

Para vers√Ķes mais recentes — o trabalho continua –, contou com a ajuda de entusiastas de ‚ÄúStar Wars‚ÄĚ, que compraram rolos de filme original no eBay e os escanearam em equipamentos caseiros — as imagens foram depois tratadas por Harmy. ‚ÄúAlguns desses rolos estavam com uma colora√ß√£o rosada, ent√£o tive que restaurar as cores originais.‚ÄĚ H√° outros projetos de f√£s que buscam a vers√£o perfeita de ‚ÄúStar Wars‚ÄĚ tal qual a vista nos cinemas, como a Silver Screen Edition, que restaurou uma vers√£o em pel√≠cula de 35mm comprada na Espanha, e Harmy acompanha as novidades. ‚ÄúEssa vers√£o tem alguns¬†problemas, mas √© brilhante pelo que √© — uma restaura√ß√£o de 35mm‚ÄĚ, diz. Ele cita o projeto ‚ÄúRevisited‚ÄĚ do f√£ Adywan, que j√° lan√ßou uma vers√£o de ‚ÄúUma Nova Esperan√ßa‚ÄĚ com novos efeitos, mudan√ßas no som, corre√ß√Ķes de cor e centenas de pequenas altera√ß√Ķes — Adywan se incomodava, por exemplo, com o fato de que os famosos letreiros no in√≠cio dos filmes passavam pela tela em velocidades diferentes e, em uma cena, tirou um fio do pesco√ßo de C-3PO. ‚ÄúEstou muito ansioso pra vers√£o dele de ‚ÄėO Imp√©rio Contra-Ataca‚Äô, que √© basicamente uma Edi√ß√£o Especial feita direito.‚ÄĚ

At√© agora, a Lucasfilm est√° ‚Äúgraciosamente tolerando a pequena comunidade‚ÄĚ de f√£s de ‚ÄúStar Wars‚ÄĚ e Harmy nunca teve nenhum problema legal por disponibilizar na internet uma vers√£o dos filmes de George Lucas. ‚Äú√Č uma √°rea legal cinzenta‚ÄĚ, diz ele. De qualquer forma, ele pede no site para que s√≥ fa√ßa o download quem tiver uma vers√£o oficial do filme — um DVD, um Blu-ray. ‚ÄúClaro que n√£o tem um jeito de impor essa regra, mas tenho a convic√ß√£o de que 99% das pessoas que fazem o download tenham uma vers√£o oficial, ent√£o o est√ļdio n√£o est√° perdendo dinheiro‚ÄĚ, afirma. Segundo ele, a maior parte das pessoas que baixa “Star Wars” na internet faz o download da¬†vers√£o oficial do Blu-ray, e que as vers√Ķes de f√£s representam perto de 5% de total de downloads. As restaura√ß√Ķes de f√£s, ali√°s, ajudam o est√ļdio, ele opina. ‚ÄúAjudam a base descontente de f√£s a ficar razoavelmente contente e disposta a comprar mais produtos de ‚ÄėStar Wars‚Äô.‚ÄĚ