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Olímpicos: David Burnett, o fotógrafo analógico

“Eu nunca posei para tantas selfies com outros fot√≥grafos.” √Č o que conta o fot√≥grafo americano David Burnett, que viralizou, durante as √ļltimas semanas, involuntariamente nas redes sociais. Ele, que j√° cobriu revolu√ß√Ķes e guerras, presidentes e an√īnimos, esteve em 11 olimp√≠adas. Mas em nenhuma trocou o papel de observador para observado como na Rio 2016.

Ele aparece em uma foto que rodou a internet¬†nas semanas dos Jogos. √Č um registro de bastidores, da zona dos fot√≥grafos em uma das competi√ß√Ķes. N√£o √© poss√≠vel saber qual a modalidade, mas uma coisa logo se destaca: um fot√≥grafo de cabelos brancos aparece no centro da imagem, compenetrado no seu trabalho e munido apenas de uma c√Ęmera antiga, destoando totalmente de seus colegas que carregam c√Ęmeras ultramodernas.

N√£o √© de hoje que David aposta em m√°quinas fotogr√°ficas anal√≥gicas para registrar as Olimp√≠adas. Ele tem utilizado uma sexagen√°ria c√Ęmera Speed Graphic desde os jogos de Atenas, em 2004. E tamb√©m para registrar outro emblem√°tico evento que acontece de quatro em quatro anos: as elei√ß√Ķes presidenciais dos Estados Unidos.

Disputa do salto com vara em 1996 registrada por David Burnett
Disputa do salto com vara em 1996 registrada por David Burnett

“H√° uma sensa√ß√£o especial que se passa com as imagens que voc√™ tira com essa c√Ęmera. √Č bem diferente da sensa√ß√£o passada pelas c√Ęmeras digitais menores, e √© o que eu gosto, pois remete a uma √©poca mais antiga e tamb√©m a uma interpreta√ß√£o pessoal minha”, conta, em entrevista ao Risca Faca.

√Č visivelmente pessoal a abordagem das fotografias de David em sua cobertura esportiva. S√£o registros de etapas quase diametralmente opostas: os momentos de extrema a√ß√£o e os de calmaria antes dos eventos. Ambos comp√Ķem um de seus livros ‚Äď “Man Without Gravity” ‚Äste podem ser vistos nas fotos dos jogos do Rio 2016 em seu Instagram.

David diz apreciar os instantes de alta tensão, mas que também acha que os de silenciosa reflexão são talvez tão importantes quanto. Para ele, nenhum atleta passa 100% do tempo correndo. Eles pensam em um plano de como vão atuar e são nesses pontos em que surgem as possibilidades de fotos que estão além dos simples registros de ação.

“Eu n√£o sei se isso √© aplic√°vel para todos, mas eu procuro por fotos que v√£o trazer uma rea√ß√£o humana. Algo com personalidade, mo√ß√£o, drama ou at√© mesmo uma bela composi√ß√£o. S√£o coisas que podem trazer ao espectador a um novo n√≠vel de aprecia√ß√£o.”

Nas horas entre seus cliques, David tem observado os jogos no Rio. Ele, que j√° esteve no Brasil antes, conta que sua maior decep√ß√£o com a organiza√ß√£o foi com a comida das arenas e centros de competi√ß√£o. “Sei o qu√£o gostosa e vibrante √© a culin√°ria brasileira, at√© com pratos simples. Ent√£o s√≥ ver p√£o e queijos √© um pouco desapontador. A boa not√≠cia √© que ainda existem centenas de √≥timos restaurantes na cidade.”

No √ļltimo dia das Olimp√≠adas no Rio de Janeiro, a repercuss√£o dos jogos come√ßa ser evidente. As obras bilion√°rias foram entregues e a organiza√ß√£o foi posta √† prova. A cidade viveu momentos de gl√≥rias e tens√£o. Mais do que isso, foram escritas hist√≥rias: as consagra√ß√Ķes e decep√ß√Ķes dos atletas. De Isaquias, Rafaela, Thiago, Phelps e Bolt. Mas tamb√©m de Lochte e Lavillenie. David e sua Speed Graphic estiveram l√° para registr√°-las.

As Olimp√≠adas do Rio de Janeiro seguiram a mesma tend√™ncia que David observou nos √ļltimos trinta anos. Para ele, √© normal que quest√Ķes organizacionais comecem um pouco complicadas e acabem por se resolver no decorrer das semanas.

Prova de mergulho nas Olimpíadas de 1996 registrada por David Burnett
Prova de mergulho nas Olimpíadas de 1996 registrada por David Burnett

E apesar da cobertura alarmante da imprensa internacional e de casos de roubo de equipamentos de outros fot√≥grafos ‚Äď que basicamente os impossibilita de cobrir os jogos ‚ÄstDavid disse ter aproveitado ao m√°ximo sua estadia. “Eu certamente n√£o me senti em perigo ou preocupado e s√≥ tive experi√™ncias positivas, uma atr√°s da outra. Fossem elas nas cafeterias ou √īnibus da imprensa. No Brasil voc√™ pode ir bem longe com um j√≥ia e bom dia, e eu acho que isso ficou evidente nas √ļltimas semanas”, opina.

As d√©cadas de fotorreportagens ol√≠mpicas tamb√©m permitiram que David presenciasse as transforma√ß√Ķes ocorridas nas cidades-sede. O fot√≥grafo explica que √© dif√≠cil saber qual ser√° o impacto em longo prazo. Mas algo que quase sempre acontece √© “que h√° um senso de autoria e propriedade [sobre a realiza√ß√£o dos jogos na popula√ß√£o local] que acaba sendo positivo, mesmo que apenas em um n√≠vel psicol√≥gico. E isso √© o mais importante.”

Pedimos uma foto recente para David. Ele mandou essa selfie olímpica
Pedimos uma foto recente para David. Ele mandou essa selfie olímpica

Levando em conta a situa√ß√£o pol√≠tica da cidade ‚Ästque, para al√©m da crise nacional, encara um estado que decretou fal√™ncia ‚Ästisso se torna ainda mais essencial. “No fim das contas, eu vi muita positividade entre os cariocas e os visitantes, e em um tempo politicamente t√£o dif√≠cil, eu espero que isso traga um pouco de esperan√ßa no futuro para os brasileiros”, diz.

Agora, quase se despedindo do Rio de Janeiro, David continua sendo alvo de muita aten√ß√£o dos colegas. Um dos poucos fot√≥grafos a usar c√Ęmeras antigas, ele recebe cumprimentos e tapinhas no ombro de outros profissionais da imprensa. “Acho que isso indica que apesar de obrigados a usar c√Ęmeras digitais, eles [os colegas] acham √≥timo algu√©m tentar conseguir um visual fotogr√°fico old school. Isso foi muito gratificante.”

Imagem do topo: foto de David Burnett da prova de mergulho em Barcelona, 1992.

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As mil frutas de Helton

Repousando sobre a relva fofa na sombra do que parece ser uma mangueira apinhada de enormes p√™ras verdes, Helton Josu√© Teodoro Muniz toma um punhado de folhas secas na m√£o como se estivesse erguendo uma batuta. ‚ÄúA natureza funciona como uma orquestra‚ÄĚ, ele diz. ‚ÄúTudo deve ter seu tempo para que o equil√≠brio seja alcan√ßado. Se todos os instrumentos tocarem juntos sem harmonia, vira uma zorra.‚ÄĚ

Da mesma forma, cada √°rvore em sua fazenda espera pregui√ßosamente por sua √©poca de frutar. A variedade √© palavra de ordem. Helton caminha por seu pomar como quem dubla Alceu Valen√ßa em uma estrofe de ‚ÄúMorena Tropicana‚ÄĚ. Sapoti, ju√°, jaboticaba‚Ķ Mais de 1.200 esp√©cies de frut√≠feras convivem pacificamente pelos tr√™s¬†hectares. O n√ļmero deve aumentar com mais 150 variedades que ele planeja semear. Sentado em seu trono forrado de grama-amendoim, ele √© o maior frut√≥logo do Brasil.

As estradas de terra que levam ao S√≠tio Frutas Raras, em Campina do Monte Alegre, s√£o de um tom ocre-avermelhado. Os pneus voltam de viagem tingidos de uma cor quase de urucum. Se as √°rvores de Helton s√£o frondosas e fecundas, √© muito por causa deste ch√£o chamado latossolo, com tra√ßos de areia e argila. A combina√ß√£o √© altamente f√©rtil, e foi uma das respons√°veis pela bonan√ßa dos bar√Ķes do caf√© do oeste paulista no s√©culo 19. A vegeta√ß√£o que recobre as terras de Helton, dando-lhes um aspecto almofadado, tamb√©m √© grande respons√°vel pelo vigor das mudas livres de agrot√≥xicos e adubos qu√≠micos. A grama-amendoim fixa o nitrog√™nio no solo, colaborando para a nutri√ß√£o das ra√≠zes, e ret√©m umidade sob suas min√ļsculas folhas. Na √©poca da ro√ßa, a cada tr√™s ou quatro meses, pode chegar a 40 cent√≠metros, formando um espesso carpete esverdeado que se estende pela propriedade.

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Helton exibindo uma cabaça. Foto: Luisa Dörr/Risca Faca

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Helton n√£o nasceu ali¬†‚Äď √© de¬†Piracicaba. Quando veio ao mundo, o oxig√™nio demorou a chegar em seu c√©rebro e lhe causou uma disfun√ß√£o neuromotora. O que os m√©dicos chamam de hip√≥xia neonatal s√≥ lhe permitiu andar ao cinco anos, com a ajuda da fisioterapia. Em sua vida adulta, o quadro compromete alguns movimentos minuciosos e lhe confere certa dislalia, dificuldade em articular s√≠labas, mas n√£o causa outros impedimentos, n√£o √© degenerativo e n√£o afeta seu tempo de vida. Junto √† natureza, ele encontrou um estilo de vida que n√£o o limita. ‚ÄúAt√© quem n√£o tem problema de sa√ļde se sente melhor perto da natureza. Ela √© a maior express√£o do amor de Deus. Se voc√™ trata uma planta com amor, ela vai te retribuir. Da mesma maneira, se voc√™ a trata com desleixo, ela vai murchar.‚ÄĚ

Helton tem 36 anos. Ap√≥s viver 14 anos na vizinha Angatuba, mudou-se para o s√≠tio dos av√≥s em 1995, onde permaneceu. Na cidade √†s margens do rio Paranapanema, os pescadores se embromavam nos cip√≥s que pendiam sobre a correnteza para colher perinhas-do-mato. Era o saput√°, como Helton viria a descobrir em sua adolesc√™ncia, exasperado com o novo mundo de sabores que se descortinava a sua frente. ‚ÄúComo √© poss√≠vel existir tanta fruta e eu s√≥ comer laranja e banana?‚ÄĚ, ele se inquietava enquanto folheava dicion√°rios em busca de novos nomes ou conversava com senhores sabidos sobre a flora local.

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Algumas das frutas de inverno do sítio. Foto: Luisa Dörr/Risca Faca

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A primeira semente que plantou veio do saput√°. E vingou de primeira? ‚ÄúClaro!‚ÄĚ, ele replica em tom de obviedade, com o olhar sereno de quem nunca esqueceu de aguar um vasinho de suculentas. O Viveiro Saput√°, erguido ao lado de sua casa, foi batizado a partir daquela que lhe deu o gosto pela fruta. As mudas crescem sob o olhar atento de Helton e de sua esposa Emilene Muniz, que o conheceu em um congresso de Testemunhas de Jeov√°. A equipe conta ainda com dois funcion√°rios. Os pais s√£o vizinhos de poucos metros. Os habitantes mais recentes s√£o Billy, Polly e Nina, cachorros que recebem os visitantes distribuindo lambidas em troca de c√≥cegas na barriga.

H√° alguns meses, Helton n√£o agenda mais os tours de tr√™s horas que oferecia a R$ 20, normalmente terminando com degusta√ß√Ķes das frutas da temporada. O s√≠tio se mant√©m agora atrav√©s da venda de mudas, que custam em m√©dia R$ 25, e de seus dois livros, ‚ÄúFrutas do Mato‚ÄĚ e ‚ÄúColecionando Frutas‚ÄĚ, onde d√° instru√ß√Ķes de plantio e cataloga suas esp√©cies. Uma terceira publica√ß√£o est√° sendo escrita em sua biblioteca, que fica anexa √† cozinha da casa, onde uma estante de metal guarda diversos potes transparentes cheios de gr√£os.

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Crédito: Luisa Dörr/Risca Faca

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‚ÄúVoc√™ coloca dinheiro em banco para render. Da mesma forma, meu banco de sementes tem a finalidade de produzir mais plantas.‚ÄĚ Para ele, sementes s√£o mais valiosas que tesouros ‚Äď afinal, cem gramas de ouro n√£o conseguem gerar mais metal precioso. ‚ÄúIsso faz com que eu tenha filhos, netos e bisnetos aqui no pomar. Essas grandes empresas que armazenam sementes t√™m de pensar tamb√©m na reprodu√ß√£o. Mas talvez seu interesse n√£o seja guardar, mas ter o monop√≥lio de uma esp√©cie.‚ÄĚ

Seus embri√Ķes vegetais chegam por correio de colaboradores que possui pelo Brasil afora. A maioria das plantas s√£o nativas do Brasil. S√≥ da regi√£o, s√£o 250 esp√©cies. As estrangeiras contam 300, fazendo com que, no pomar, cactos frut√≠feros encontrados na caatinga brasileira fiquem a poucos passos de um p√© de santol, fruta nativa da Mal√°sia. A oferta f√°cil de sementes, polpas e baga√ßos atrai quatis, tatus, cotias, capivaras e 120 esp√©cies de aves ‚ÄĒ Helton afirma que, quando come√ßou o cultivo h√° dezoito anos, n√£o somavam nem 40.

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Helton e a simpática Nina na calmaria do sítio. Foto: Luísa Dörr/Risca Faca

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O agricultor tamb√©m aproveita at√© o caro√ßo o banquete do qual √© dono. Como nem toda fruta √© boa para comer do p√©, algumas s√£o destinadas a ch√°s, geleias, sucos e doces. Sua preferida √© o guaimb√©, de origem mexicana, cujo gosto ele jura lembrar uma mistura de banana e abacaxi. Helton reivindica para si a cria√ß√£o do doce de azeitona, que, note, n√£o √© doce de oliva. ‚ÄúQual o fruto da oliveira?‚ÄĚ Ao se deparar com uma resposta t√≠mida, ele dispara. ‚Äú√Č a oliva! Azeitona n√£o √© oliva, √© o fruto do azeitoneiro!‚ÄĚ, diz ele quase irritado, emendando √† constata√ß√£o uma aula sobre as diferen√ßas entre leguminosas, frutas e gr√£os.

Sua vontade de tornar conhecidas as mais de 4 mil esp√©cies de frutos comest√≠veis do Brasil lhe atribui um tom ativista. Junto √† esta√ß√£o ecol√≥gica de Angatuba, ele agora procura patrocinadores para um projeto de cadastramento e instru√ß√£o de fam√≠lia agricultoras. A inten√ß√£o √© ensinar o cultivo e venda de produtos de origem vegetal, semeando o conhecimento adquirido em uma vida de pesquisa, pr√°tica e observa√ß√£o. O t√≠tulo de bot√Ęnico, para Helton, √© mais honor√°rio que acad√™mico. ‚ÄúEu n√£o tenho diploma. Diploma √© gostar do que se faz, √© se dedicar‚ÄĚ, conclui. ‚ÄúQuando alguma pesquisa minha d√° resultados, as pessoas me pedem para citar fontes. A fonte √© o que eu observei da natureza. A fonte sou eu!‚ÄĚ

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Crédito: Luisa Dörr/Risca Faca

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História

A √ļltima fam√≠lia dos √≠ndios Juma

De semblante fechado, respostas curtas e simples, pobres de detalhes, mas extremamente ricas em sentimentos, Aruk√° reflete sobre o que poderia ter feito para n√£o estar na situa√ß√£o em que se encontra hoje. ‚ÄúMeu pensamento √© que o Juma aumentasse mais. Como que n√£o tem mais Juma?‚ÄĚ, questiona.

Aruk√° √© o √ļltimo homem do povo Juma. No s√©culo 18 eram cerca de 15 mil √≠ndios desta etnia, mas hoje s√≥ restaram o senhor de 82 anos e suas filhas Mait√°, 31 anos, Boreh√°, 35 anos, e Mande√≠, a mais nova, hoje com 28 anos. Como s√£o patrilinear, ou seja, seguem a linhagem paterna, e como n√£o existem mais homens, o futuro dos Juma j√° est√° condenado. Esta √© a fam√≠lia final.

Os Juma n√£o t√™m paj√©, mas t√™m cacique ‚Äď algo raro, um mulher: Mande√≠. Assim como as irm√£s, √© uma pessoa simp√°tica mas de postura firme. Em 2014 ela estava ca√ßando na floresta e foi picada no p√© por uma cobra jararaca, cujo veneno pode ser fatal. A cacique aguentou e s√≥ foi atendida dois dias depois, sem necroses ou perda de membros. Mande√≠ √©, sem d√ļvidas, uma mulher forte. Pela organiza√ß√£o e rotina da aldeia √© claro notar que s√£o as tr√™s Juma que tomam a frente e comandam o lugar – afinal, a terra √© delas.

A hist√≥ria segue o mesmo triste roteiro de outros povos ind√≠genas do Brasil. Inicialmente dizimados pelos portugueses, os Juma foram arrasados pelas doen√ßas trazidas pelo homem branco e em seguida por seringueiros, garimpeiros e ladr√Ķes de terra. Foi um massacre constante, com relatos de chacinas, mas nenhuma condena√ß√£o. No final da d√©cada de 70, um grupo invadiu a aldeia para roubar e matou mais de 60 √≠ndios. O caso apareceu no jornal local, mas n√£o apareceram culpados. Ser ind√≠gena no Brasil √© como ser jovem, negro e favelado, mas com ainda menos programas sociais e menor visibilidade da imprensa ou de organiza√ß√Ķes de direitos humanos.

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A cacique Mandeí. Crédito: Gabriel Uchida

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Não bastasse todo o sofrimento histórico, em 1998 os poucos Juma restantes foram transferidos pela Funai de sua terra para uma aldeia de outra etnia, a Jamari dos Uru-eu-wau-wau Рapesar de a Constituição Brasileira proibir a remoção de indígenas de sua área original. Segundo a Funai, eles estavam à mercê de invasores e correndo perigo de vida e já estavam muito reduzidos.

Ap√≥s perder seus familiares e tamb√©m sua terra, o que sobrou aos poucos restantes foi a melancolia. Ivaneide Bandeira, de 57 anos, √© indigenista da ONG Kanind√© e trabalha h√° mais de 30 anos na Amaz√īnia. Ela acompanha de perto a hist√≥ria dos Juma. ‚ÄúQuando eles viviam com os Jupa√ļ, conhecidos como Uru-eu-wau-wau, estavam tristes sem poder exercer sua pr√≥pria identidade porque estavam na terra de outro povo, ent√£o acabavam tendo que obedecer outras normas e c√≥digos sociais. O Aruk√° era muito triste porque sempre foi o l√≠der do povo dele e l√° n√£o se sentia respeitado como estava acostumado.‚ÄĚ

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Aruk√° e suas tr√™s filhas: a √ļltima fam√≠lia. Cr√©dito: Gabriel Uchida

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Somente em 2013, e com um n√ļmero ainda mais reduzido, os Juma voltaram para a sua terra – de mais de 38 mil hectares e demarcada e homologada desde 2004. Ivaneide acompanhou o processo: ‚ÄúQuando o Aruk√° retornou para a sua √°rea, ficou orgulhoso de voltar a liderar o seu povo e de ter sua cultura e identidade Juma valorizadas, ele estava super feliz em construir suas pr√≥prias moradias com as filhas‚ÄĚ.

Os pais de Aruk√° morreram h√° tempos. A m√£e padeceu por conta da mal√°ria, enquanto o pai foi assassinado por um seringueiro. Aruk√° sonhava em construir uma nova maloca para seu povo, mas o n√ļmero reduzido de √≠ndios impediu que isso se torna-se realidade. Agora pr√≥ximos de uma unidade da Funai, o √ļltimo Juma ainda reluta em sair de sua regi√£o. ‚ÄúN√£o gosto muito da cidade porque tenho rancor do branco. Ele matou meus parentes.‚ÄĚ

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O acesso at√© o local √© dif√≠cil. Do munic√≠pio de Humait√°, que fica a 11 horas de carro de Manaus, segue-se pela Transamaz√īnica em uma intermin√°vel reta sem asfalto. Dependendo do tempo, os buracos e a terra viram lama que mais parece sab√£o sob os pneus. Mesmo com uma caminhonete com tra√ß√£o nas quatro rodas √© extremamente dif√≠cil completar este trecho que leva em torno de 3 horas, dependendo das condi√ß√Ķes clim√°ticas. Depois disso ainda falta uma hora de barco at√© a aldeia, que est√° √†s margens do rio Assu√£. Um pequeno porto √© a entrada das embarca√ß√Ķes e tamb√©m o local para o banho. Dali ainda √© puxada a √°gua para algumas torneiras improvisadas.

O sofrimento hist√≥rico dos Juma √© refletido em sua aldeia: diferentemente do que √© encontrado em outras terras, ali n√£o tem posto de sa√ļde, nem igreja, nem paj√© e nem campo de futebol. Tamb√©m n√£o tem eletricidade e o √ļnico gerador a¬†gasolina est√° quebrado. S√£o apenas cinco casas, uma constru√ß√£o para a escola que foi montada mas nunca funcionou e um pequeno tapiri tradicional onde os habitantes se re√ļnem para as refei√ß√Ķes. Al√©m dos quatro sobreviventes, tamb√©m moram no local alguns ind√≠genas de outras etnias ou j√° misturados. No entorno da aldeia encontra-se mandioca, castanha e milho. Eles mant√™m a tradi√ß√£o de ca√ßar e pescar, principal fonte de alimento e tamb√©m divers√£o para as crian√ßas.

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Apesar da idade, o senhor Aruká tem um corpo imponente, anda com firmeza e caça sozinho. Ele fala pouco e quando o faz é breve e apenas na língua indígena Рnão entende o português. Mas seus olhares são poderosos e ele está sempre atento. Enquanto todos comem, conversam, fazem piadas e fumam tabaco, ele se senta na ponta da mesa e fica calado observando como se estivesse tomando conta de tudo. Aruká não gosta muito de ter sua rotina incomodada.

Aruk√° sente o peso de ser o √ļltimo dos seus. ‚ÄúHoje em dia sinto sozinho e penso muito em antigamente, que tinha muita gente‚ÄĚ, desabafa. ‚ÄúA gente era muitos e depois vieram o seringueiro e o garimpeiro para matar o povo Juma todinho.‚ÄĚ Enquanto acompanha a vida de suas filhas e toma rem√©dios para dores nas costas, o derradeiro Juma pensa no que j√° se foi. ‚ÄúAntigamente o Juma era mais feliz‚Ķ e hoje s√≥ tem eu.‚ÄĚ


 

Mais fotos da visita de Gabriel Uchida a tribo Jumá:

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Perfil

Um fot√≥grafo contra as remo√ß√Ķes

Em uma quarta-feira de novembro, o fot√≥grafo Maur√≠cio Hora recebia, no amplo sal√£o do Zona Imagin√°ria, uma cooperativa de artes visuais criada por ele na Zona Portu√°ria do Rio de Janeiro, a artista alem√£ transg√™nera Tobi M√∂ring, adepta de instala√ß√Ķes com materiais descartados. Tobi — ou Miss Tobi, como √© conhecida — voltava de um ferro velho da redondeza, os bra√ßos repletos de res√≠duos. Ela foi depositando a mat√©ria prima no ch√£o da sala, ao lado de tr√™s esbo√ßos de esculturas feitas em papel√£o, que dias depois seriam revestidas de metal e instaladas ali perto, no alto do Morro da Provid√™ncia, para festejar o anivers√°rio da mais importante favela da regi√£o. Explicitamente contestadoras, as formas desenhavam, com tra√ßos quase infantis, um pol√≠tico engravatado falando no microfone, um policial com um fuzil, e um trator – s√≠mbolo m√°ximo das remo√ß√Ķes que amea√ßam a favela.

Em um espanhol um tanto enferrujado, Tobi me explicou que usa os espa√ßos p√ļblicos para fazer perguntas pertinentes. No caso da Provid√™ncia, as esculturas indagavam: para quem s√£o as Olimp√≠adas do Rio de Janeiro? Quais s√£o as consequ√™ncias para as pessoas que moram na favela? Quem se beneficia com os Jogos?

Era uma tarde quente. Colocando-se em frente a um velho ventilador de metal, cujas hélices enferrujadas giravam ruidosamente, Maurício observou por um instante a obra de sua colega estrangeira. Depois, balançou a cabeça de leve e soltou uma risadinha. Sua expressão era muito mais de ironia resignada do que de reprovação.

“Acho que isso n√£o vai durar muito l√° em cima, n√£o…”, lamentou. “√Č uma cr√≠tica √†s Olimp√≠adas. Ele quer fazer um p√≥dio com esses tr√™s elementos [o trator, o pol√≠tico e o policial], cada um em uma marcha.”

Perguntei por que a instala√ß√£o n√£o iria durar. Ele respondeu com naturalidade. “Ah, porque √© uma cr√≠tica… A prefeitura certamente vai criar um argumento: ‘Isso n√£o pode estar aqui, est√° atrapalhando um lugar p√ļblico’.”

Maurício Hora. Crédito: Divulgação
Maurício Hora. Crédito: Divulgação

Maur√≠cio sabe do que est√° falando. Nascido e criado na favela da Provid√™ncia, onde ainda reside, o fot√≥grafo sempre negociou seu trabalho com os agentes dominantes do morro: o tr√°fico, a pol√≠cia e o poder p√ļblico, todos muito sens√≠veis a qualquer tipo de cr√≠tica. Homem baixo, de cabelo preto encaracolado e olhos estreitos, escondidos atr√°s de √≥culos de aros enormes, Maur√≠cio √© descendente de escravos, filho do primeiro chefe de boca de fumo do Rio. Fot√≥grafo autodidata, foi pioneiro ao retratar o cotidiano cordial e pouco conhecido da favela, longe do clich√™ da viol√™ncia: crian√ßas brincando, fam√≠lias em seus momentos dom√©sticos, pessoas tentando viver normalmente em meio √† pobreza e √† vulnerabilidade.

Ao colocar as ruas e as casas da Provid√™ncia em primeiro plano, suas fotos chamaram a aten√ß√£o das universidades de arquitetura em todo mundo. Artistas e fot√≥grafos de outros pa√≠ses passaram a visitar Maur√≠cio com regularidade. Em 2005, ele ajudou a criar o projeto Favelit√©, que colocou o cen√°rio da favela no metr√ī parisiense. Em 2009, o artista multim√≠dia franc√™s JR, que havia descoberto suas fotos em Paris, viajou ao Rio para conhec√™-lo e lhe prop√īs a parceria em um projeto internacional de interven√ß√£o em √°reas de conflito. O resultado foi exposto no Centro Cultural da Casa Fran√ßa Brasil no ano seguinte.

[olho]Maurício depende da autorização dos traficantes para fotografar o morro noite adentro[/olho]

Aos 47 anos, Maur√≠cio √© hoje um verdadeiro embaixador da Provid√™ncia, com ra√≠zes fincadas em sua comunidade e uma abertura invej√°vel fora dela. Mas a perman√™ncia em um lugar t√£o problem√°tico tem seu pre√ßo. Conhecido por seu trabalho com longa exposi√ß√£o, que captura cenas noturnas de uma favela et√©rea e fantasmag√≥rica, Maur√≠cio depende da autoriza√ß√£o dos traficantes para fotografar o morro noite adentro. H√° lugares onde ele simplesmente n√£o pode puxar a c√Ęmera — e in√ļmeras fotos j√° foram perdidas pela falta de liberdade.

“Atrav√©s da fotografia, consegui identificar o territ√≥rio: andei por tudo, fotografei o morro todo, conhe√ßo muito bem as pessoas”, diz. “Isso me deu uma no√ß√£o e uma capacidade de discutir o territ√≥rio. Agora, me frustra porque, no fim, vale o que o tr√°fico determina. Por causa do descaso das administra√ß√Ķes, √© ele que tem for√ßa. O tr√°fico consegue transformar e fazer a√ß√Ķes, √†s vezes sem pensar, e a comunidade aceita, e at√© gosta. E eu, que estou ali, n√£o consigo fazer nada. J√° aprendi que n√£o posso brigar contra isso.”

O tr√°fico, contudo, n√£o √© o √ļnico a impor obst√°culos. Apesar de discordar dos novos planos da prefeitura para a favela, Maur√≠cio precisa maneirar suas cr√≠ticas e contar com a boa vontade dos √≥rg√£os p√ļblicos em patrocinar alguns de seus projetos. Seja no Estado paralelo ou no oficial, a diplomacia √© uma quest√£o de sobreviv√™ncia.

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Morro da Providência. Crédito: Maurício Hora
Morro da Providência. Crédito: Maurício Hora

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O momento é especialmente delicado para Maurício e os residentes da Providência, que, dentro do plano de revitalização da Zona Portuária da cidade, vive um intenso processo de gentrificação. Em junho de 2012, uma quantidade impressionante de obras foi iniciada. Em função do Projeto Porto Maravilha e da megatransformação da região, moradias foram deslocadas e os alugueis inflacionaram, afetando a permanência de alguns dos moradores mais antigos.

Segundo dados da pr√≥pria prefeitura, at√© este ano mais de 80 mil pessoas foram tiradas de suas casas em todo o Rio de Janeiro. A urg√™ncia das obras das Olimp√≠adas de 2016 impulsionaram a especula√ß√£o imobili√°ria na Zona Portu√°ria, apontam os pesquisadores Lena Azevedo e Lucas Faulhaber, que publicaram este ano o livro “SMH 2016: Remo√ß√Ķes no Rio e Janeiro Ol√≠mpico” (M√≥rula Editorial). N√£o foi diferente com a Provid√™ncia, que inicialmente previa o reassentamento de 760 fam√≠lias. Em 2012, cinquenta e cinco delas j√° haviam sido deslocadas para empreendimentos em √°reas pr√≥ximas √† favela. Segundo os moradores, a Secretaria Municipal de Habita√ß√£o (SMH) comunicava as desapropria√ß√Ķes atrav√©s de picha√ß√Ķes nas paredes das casas.

Originalmente conhecida como Morro da Favela – o nome deu origem ao termo mundialmente difundido – a Provid√™ncia √© o primeiro assentamento urbano informal da cidade. Situado entre os bairros do Santo Cristo e da Gamboa, foi ocupado em 1897 por soldados veteranos da Guerra de Canudos, que regressaram ao Rio para receber casas prometidas pelo governo. Como a promessa n√£o foi cumprida, instalaram-se em constru√ß√Ķes provis√≥rias no local. Machado de Assis nasceu em um im√≥vel ao p√© do morro, que ainda abriga uma escadaria do s√©culo 19 e um capela constru√≠da em 1905.

[olho]”A transforma√ß√£o tem que ser pensada pela pr√≥pria comunidade. N√£o adianta colocar um telef√©rico se ele n√£o atinge 5% dos moradores”[/olho]

Mesmo sem o apelo das favelas do Vidigal ou do Chap√©u Mangueira, a Provid√™ncia interessa por seu valor hist√≥rico e cultural, somado √† espetacular vista para o porto e para o Centro. Muitos moradores se dizem descontentes com os rumos das obras, que estariam mais focadas no futuro potencial comercial e tur√≠stico do morro do que com o bem estar dos que vivem l√°. Um s√≠mbolo do novo projeto √© o telef√©rico inaugurado em julho do ano passado, que liga a Pra√ßa Am√©rico Brum, no alto do morro, √† Central do Brasil e √† Gamboa. Al√©m da pouca utilidade para os moradores – a maioria dos seus usu√°rios, explica Maur√≠cio, s√£o pessoas de outros lugares que o utilizam para evitar a travessia a p√© do t√ļnel da Central – sua constru√ß√£o eliminou uma quadra de esportes, at√© ent√£o o √ļnico espa√ßo recreativo da favela.

“As remo√ß√Ķes s√£o cru√©is porque n√£o est√£o sendo pensadas pelos moradores, e sim pelo poder p√ļblico, que n√£o tem nada a ver com aquilo ali, que n√£o participa, n√£o sabe o que √© um tiroteio, n√£o sabe o que √© a a√ß√£o da pol√≠cia dentro do morro. √Č injusto”, desabafa. “A transforma√ß√£o tem que ser pensada pela pr√≥pria comunidade. N√£o adianta colocar um telef√©rico se ele n√£o atinge 5%¬†dos moradores.”

A questão, porém, é complexa. As melhorias da prefeitura foram aprovadas por muitos moradores. Quem tem título de propriedade, por exemplo, anseia em vender sua casa recém-valorizada e se mudar do morro.

“Acho que tudo √© uma grande armadilha”, argumenta Maur√≠cio. “As pessoas vivem numa ideia de ascens√£o de vida, de melhorar, de sair de l√°. Mas por que n√£o transformar aquilo em um lugar melhor para as pessoas que j√° est√£o l√°? Se j√° √© uma expectativa da cidade de que isso vire um lugar melhor, por que n√£o transformar para essas pessoas, que seguraram essa onda at√© agora? √Č digno que elas permane√ßam de uma forma melhor, n√£o que sejam removidas.”

Os artistas locais e visitantes que desejam denunciar essa realidade se apoiam em Maur√≠cio. Com seu bom tr√Ęnsito e conhecimento do local, seu nome sempre pipoca quando pessoas de fora trocam ideias sobre a Provid√™ncia. Foi assim com Tobi — que ouviu pela primeira vez sobre o fot√≥grafo ao conversar com uma amiga sobre seu projeto — e com Cec√≠lia Cipriano, autora de uma cr√≠tica contundente sobre as remo√ß√Ķes na favela. Em seu projeto “O corte”, a artista fez uma interven√ß√£o em uma das casas marcadas para demoli√ß√£o pela SMH — da constru√ß√£o original, restam hoje apenas as ru√≠nas, mas as fotos da iniciativa estiveram¬†em exposi√ß√£o no Ita√ļ Cultural, em S√£o Paulo. Coube a Maur√≠cio fazer a ponte entre Cec√≠lia e os moradores.

“Maur√≠cio √© um l√≠der de grande atua√ß√£o na luta de melhorias de vida da comunidade do Morro da Provid√™ncia”, disse-me dias depois Cec√≠lia, em entrevista por e-mail. “Participou ativamente na tentativa de criar uma pol√≠tica alternativa de moradia e faz parte da terceira gera√ß√£o de moradores na comunidade, o que o faculta a contribuir intensamente na preserva√ß√£o da mem√≥ria da toda a Regi√£o Portu√°ria. Recebe cordialmente in√ļmeros visitantes, geralmente cr√≠ticos do projeto urban√≠stico da Regi√£o Portu√°ria, inclusive eu.”

Os dois conversaram pela primeira vez em 2012. Com a ajuda de Maur√≠cio, Cec√≠lia foi conhecendo os moradores das casas marcadas pela SMH para a constru√ß√£o de uma suposta ‚Äúmoto-via‚ÄĚ, que ligaria a Vila Portu√°ria √† pra√ßa do telef√©rico, e tamb√©m os moradores do topo do morro, no Cruzeiro, onde est√° localizado o orat√≥rio constru√≠do em 1902 e tombado pelo Patrim√īnio Hist√≥rico Municipal.

“Nesse local, apesar das marca√ß√Ķes das casas, e da demoli√ß√£o de uma delas, o objetivo da desocupa√ß√£o n√£o ficou claro para os moradores e nada foi constru√≠do”, diz Cec√≠lia. “Alguns moradores acreditavam, inclusive, que seria constru√≠do um grande hotel do empres√°rio Eike Batista.”

Localizado em um im√≥vel de 400 metros quadrados da Rua Pedro Ernesto, no cora√ß√£o do bairro da Gamboa, a pr√≥pria¬†Zona Imagin√°ria – o espa√ßo criado por Maur√≠cio para que artistas urbanos e visuais desenvolvessem seus trabalhos – tem sofrido com os ataques do Rio Ol√≠mpico. Com as obras a todo vapor, demolindo e martelando ao longo do dia, a rua mais parece uma zona de guerra ou um cen√°rio de filme apocal√≠ptico. √Č como se a regi√£o¬†sofresse uma aut√≥psia: asfalto aberto como veias e esgoto correndo como sangue. O barulho de obras √© constante.

“E olha que agora est√° bem melhor”, disse Maur√≠cio. “Voc√™ tinha que ver antes…”

A poeira das obras invadia o sal√£o do im√≥vel, que Maur√≠cio transformou em ateli√™. Pelo vidros quebrados das janelas, de frente para a Pedro Ernesto, v√™-se a favela da Provid√™ncia erguer-se desordenadamente por tr√°s dos pr√©dios e uma pequena ponta do Museu Jos√© Bonif√°cio, que sempre exp√Ķe obras do fot√≥grafo. No ateli√™ improvisado espalham-se sof√°s e poltronas e uma mesa de trabalho. Encostada em uma das paredes, um amontoado de portas soltas formam uma obra do portugu√™s Alexandre Farto, o Vhils, que recentemente cravou retratos de moradores nas ru√≠nas das casas demolidas da Provid√™ncia. Na parede do outro lado, telas da carioca Vanessa Rosa, que transformou fotos de Maur√≠cio em pintura.

Zona Imaginária e sua janela quebrada. Crédito: Bolívar Torres
Zona Imaginária e sua janela quebrada. Crédito: Bolívar Torres

Vanessa chegou no espa√ßo logo depois de Tobi. √Č uma jovem de cabelo preto ondulado e pele branca. Protegia-se do sol da tarde com um largo chap√©u. Sua figura contrastava com a de Tobi, germ√Ęnica esguia e desengon√ßada, de cabelo loiro longo amarrado em um rabo de cavalo. Tobi vestia uma bermuda masculina estilo tenista. Ao encontrar qualquer pessoa, soltava instintivamente uma risada amistosa e desarmada. Vanessa, que j√° morou e exp√īs em Berlim, foi apresentada a Tobi e trocou algumas palavras com ela em alem√£o.

Maur√≠cio interrompeu a conversa em tom de brincadeira. “Quantas l√≠nguas voc√™ fala, Vanessa?” Ao descobrir que ela tamb√©m se virava em franc√™s, ingl√™s e espanhol, ele se voltou para mim: “A√≠ √© outra coisa. Classe m√©dia…”

Vanessa escolheu recriar fotos bastante representativas do universo de Maur√≠cio. Pendurada em cima da entrada do est√ļdio, aos fundos do espa√ßo, uma tela mostrava duas crian√ßas negras – uma menina de vestido e um menino de bico na boca e m√£o dentro da bermuda – posando em frente a um barraco. Um vira lata passa faceiro na rua ao lado deles, como se quisesse voluntariamente ser registrado na cena.

Dias antes, Vanessa levara o quadro debaixo do braço até a Providência para mostrá-lo aos moradores. Os pedestres a olharam com curiosidade ao longo do trajeto entre o Zona Imaginária e a favela, e alguns até a pararam para perguntar sobre a obra. Daí veio a ideia de um futuro projeto: trazer as telas para a Providência e fotografá-las nos espaços que elas retratam, evidenciando a passagem do tempo e possibilitando um novo enquadramento.

“Toda minha rela√ß√£o com a Provid√™ncia √© atrav√©s do Maur√≠cio”, contou-me Vanessa. “Como algu√©m que vem de fora, acho dif√≠cil se inteirar completamente com a regi√£o, interpretar todos os seus c√≥digos. √Č um pouco como se eu passasse a entender a regi√£o pelos olhos do Maur√≠cio. N√£o fosse assim, a gente [os artistas de fora] fica muito invasivo.”

Ela v√™ Maur√≠cio como um grande articulador, que n√£o apenas consegue se comunicar com grupos diferentes, como tamb√©m sabe “valorizar a est√©tica al√©m do entendimento social”.

[olho]”Eu sou o primeiro favelado, em 116 anos, a ir a Canudos”[/olho]

“Acho dif√≠cil para algu√©m de fora ter uma compreens√£o das dificuldades que esta regi√£o passou nesses anos todos”, continua Vanessa. “O Maur√≠cio tem um olhar particular da pol√≠tica interna, de saber o posicionamento de pessoas ligadas ao tr√°fico, pessoas que conviveram com ele desde pequeno, ou de ter que negociar com a associa√ß√£o de moradores, com o policial, com a prefeitura… Mas ele tamb√©m tem uma vis√£o do externo, do mundo da fotografia, do contexto art√≠stico, tendo contato com artistas de fora da Provid√™ncia e com eventos de movimentos sociais do mundo todo.”

Nascida em uma fam√≠lia de editores, Vanessa est√° ajudando Maur√≠cio na prepara√ß√£o editorial de seu mais novo livro, “Morro da Favela √† Provid√™ncia de Canudos”, um ensaio fotogr√°fico que mostra as rela√ß√Ķes entre Canudos e a Provid√™ncia. Com patroc√≠nio master da Funda√ß√£o Ford, Maur√≠cio viajou ao Nordeste Baiano e fotografou as ru√≠nas da antiga Canudos, que apareceram ap√≥s a seca.

“Eu sou o primeiro favelado, em 116 anos, a ir a Canudos”, observou Maur√≠cio, sem esconder seu orgulho. “Voc√™ imagina que os primeiros ocupantes da Provid√™ncia foram soldados de Canudos. Os caras passaram os maiores massacres. Degolar pessoas era uma pr√°tica comum. Foram essas pessoas que vieram para c√°… √Č algo interessante quando se pensa a origem da viol√™ncia na favela.”

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Um dos cenários de Canudos. Crédito: Maurício Hora
Um dos cenários de Canudos. Crédito: Maurício Hora

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Na Provid√™ncia, Maur√≠cio foi testemunha privilegiada de uma hist√≥ria de extremos: viu de perto a g√™nese do tr√°fico nos anos 60 e teve um papel ativo, a partir dos anos 90, na forma√ß√£o de uma cena cultural e art√≠stica no morro. A at√≠pica trajet√≥ria pessoal fascinou o desenhista Andr√© Diniz, que publicou uma biografia em quadrinhos do fot√≥grafo. Lan√ßada em 2011, a graphic novel “Morro da favela” (Barba Negra) √© uma esp√©cie de romance de forma√ß√£o de um morador da favela. Atrav√©s das mem√≥rias de Maur√≠cio, retrata as dificuldades de se viver no morro, desde a falta de recursos aos abusos da pol√≠cia e √† proximidade com os grupos criminosos. Mas tamb√©m tenta, assim como as fotos de Maur√≠cio, divulgar uma outra favela: a dos afetos familiares, da solidariedade e da joie de vivre.

A obra responde a uma pergunta que o biografado j√° est√° cansado de ouvir: por que n√£o ir embora da favela e de seus perigos? Porque ele n√£o v√™ nada de diferente l√° embaixo, porque ele √© e sempre ser√° um fot√≥grafo favelado, e porque nem todo favelado √© “bagunceiro e ladr√£o”, responde Maur√≠cio logo na abertura do livro. Embora essa vis√£o generosa seja apenas uma entre as milh√Ķes poss√≠veis de cada morador, Diniz acredita que ela ajuda a desmistificar as certezas criadas a partir das manchetes de jornais – o retrato monocrom√°tico que a popula√ß√£o do “asfalto” j√° se habituou a ver na m√≠dia.

“Ao longo de alguns meses, encontrei com Maur√≠cio diversas vezes no alto da Provid√™ncia”, contou-me Diniz, alguns dias antes, por email. “Sou carioca e morei no Rio at√© os meus 28 anos e, no entanto, foi minha primeira vez em uma favela. Entrei l√° a primeira vez zerando qualquer expectativa ou ideia pr√©-concebida, dentro do que me era poss√≠vel. Eu queria que o livro fosse de fato a vis√£o de Maur√≠cio e s√≥ dele. Ao longo dos meses e das visitas, claro, fui formando tamb√©m a minha vis√£o, que de fato me fez crescer muito e a entender que falarmos “o favelado” √© t√£o impreciso como falarmos “o europeu”. N√£o h√° “o favelado”, h√° o Maur√≠cio, h√° o Antonio, h√° a Maria, h√° a Daniele. Cada um √© um, cada pessoa √© diferente, tem a sua pr√≥pria hist√≥ria.”

[olho]”Antes, as pessoas vendiam em casa. O meu pai tamb√©m vendia em casa, mas foi preso porque um dos fregueses era policial e denunciou ele.”[/olho]

Publicado na Fran√ßa e em Portugal, o livro tamb√©m joga luz sobre a evolu√ß√£o do tr√°fico na cidade. Na d√©cada de 60, o pai de Maur√≠cio, Seu Luizinho, inaugurou, segundo o fot√≥grafo, a primeira boca de fumo do Rio. Era ainda o tempo rom√Ęntico do tr√°fico: pouca fiscaliza√ß√£o da pol√≠cia e bandidos malandros.

“O tr√°fico mais antigo √© o da Provid√™ncia”, afirmou Maur√≠cio. “Antes, as pessoas vendiam em casa. O meu pai tamb√©m vendia em casa, mas foi preso porque um dos fregueses era policial e denunciou ele. O que tamb√©m acontecia muito era o fregu√™s ser preso e contar onde comprou. Ent√£o, quando o meu pai sai da pris√£o, ele decide vender na rua. Fixaram um ponto para vender. Mas marginal na √©poca n√£o era o tr√°fico, era o jogo de ronda. Pol√≠cia subia o morro por causa do jogo.”

Aos poucos, o cen√°rio come√ßou a mudar. Seu Luizinho foi preso pela segunda vez e, ao sair da pris√£o nove meses depois, decidiu abandonar o crime. Dedicou-se √† pacata vida de estivador, enquanto o tr√°fico tomava outros caminhos, com a ado√ß√£o da artilharia pesada e a forma√ß√£o do crime organizado. Um rumo que Luizinho lamentou at√© a sua morte, em 2014, de c√Ęncer.

“Na segunda vez que o meu pai foi preso ia ser uma pena pesada”, lembrou ele. “Mas como os policiais roubaram o que ele tinha, o promotor acreditou na hist√≥ria dele e, na acusa√ß√£o, incriminou os policiais tamb√©m. Dos quinze policiais, s√≥ cinco apareceram no tribunal e meu pai foi absolvido por falta de provas. Eu tinha dez anos e aquilo me fez entender como funcionava um tribunal. Antes do julgamento o promotor foi l√°, cumprimentou meu pai, desejou boa sorte… Durante o julgamento, n√£o parou de malhar ele.”
Maur√≠cio nunca se meteu com tr√°fico. Her√≥i de inf√Ęncia, seu irm√£o, Jorge, come√ßou praticando crimes leves e logo entrou no pesado neg√≥cio do assalto a bancos. Aos 27 anos, desapareceu. A fam√≠lia descobriu que ele havia sido preso em Botafogo, mas n√£o o encontrou por l√°. Tempos depois, uma ossada com 19 corpos foi descoberta em Sumar√©. Maur√≠cio acredita que um deles era o do irm√£o, mas nunca conseguiu comprovar.

Formado em um ambiente em que traficantes n√£o raro ajudam a comunidade e em que os policiais muitas vezes roubam e forjam flagrantes, Maur√≠cio aprendeu desde cedo que a no√ß√£o de ‚Äúbandido‚ÄĚ podia ter muitas nuances. Ele, por√©m, nunca se meteu com crime. Na adolesc√™ncia, arranjou um emprego como ourives. Na oficina com 21 funcion√°rios, ele era o √ļnico que n√£o usava drogas. Um dia, ao visitar um cliente, bateu o olho em uma c√Ęmera Pentax. Comprou a m√°quina com o dinheiro das joias e nunca mais parou de fotografar.

“Meu pai tinha uma vida muito tranquila na adolesc√™ncia, era um cara que estudou legal. Mas [a Provid√™ncia] era um lugar muito marginal. Imagina se voc√™ tiver que morar hoje na Central do Brasil. Cara, voc√™ vai se marginalizar. Talvez voc√™ n√£o mude o seu car√°ter, mas voc√™ vai ter que ser malandro.”

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Um clique noturno do Morro da Providência. Crédito: Maurício Hora
Um clique noturno do Morro da Providência. Crédito: Maurício Hora

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Ao mesmo tempo em que ajuda artistas de fora a se localizar e se familiarizar com a comunidade, Maur√≠cio tamb√©m ajuda os jovens moradores a entrar em contato com o mundo cultural fora dela. Mistura de antrop√≥logo, historiador e assistente social, ele ministra oficinas e coordena uma cooperativa de fot√≥grafos, que usa o est√ļdio montado nos fundos do im√≥vel do Zona Imagin√°ria. Composta principalmente de aspirantes da periferia que n√£o conseguem evoluir na carreira por falta de dinheiro, a organiza√ß√£o permite o compartilhamento de equipamentos caros. Al√©m do Zona Imagin√°ria, Maur√≠cio tamb√©m toca a Casa Amarela, um espa√ßo cultural e de aprendizado situado no alto da Provid√™ncia.

Todas as a√ß√Ķes est√£o ligadas ao Instituto Favelarte, criado em 2010 por Maur√≠cio e por seu s√≥cio Renato Barbosa para fomentar uma pol√≠tica de progresso nas comunidades carentes e superar a exclus√£o social. Na graphic novel de Andr√© Diniz, uma cena chama aten√ß√£o: √© quando um garoto problem√°tico, que tinha muita vergonha de sua casa humilde, se emociona ao v√™-la fotografada por Maur√≠cio. A transforma√ß√£o pela arte foi t√£o forte, que a sua vergonha sumiu instantaneamente.

Maurício me levou até a Casa Amarela, uma construção de dois andares em frente à praça em que Tobi iria instalar suas esculturas. Com todas as portas e janelas fechadas, ela parecia estar abandonada. Na verdade, o espaço vinha sendo pouco utilizado desde que o Zona Imaginário passou a monopolizar as energias do Favelarte. Atrás do portão da entrada, resíduos jogados em uma caixa exalavam um cheiro forte. Havia lixo espalhado por todo pátio. Lá dentro, algumas das peças estavam sem luz. Maurício foi me mostrando o espaço de leitura, no segundo andar. Os livros estavam jogados pelos cantos, como se alguém tivesse feito uma varredura.

De fato, a polícia invadiu o local recentemente. Em uma de suas batidas na favela, arrombou portas e foi embora sem deixar aviso. Durante três dias, a casa ficou abandonada, toda aberta. A garotada do morro aproveitou para invadir. Comeram os biscoitos da provisão, roubaram lápis e caneta e bagunçaram o espaço.

“Nesse tempo em que a casa ficou aberta, ningu√©m tocou em nenhum objeto de valor” ressaltou Maur√≠cio. “Eu tinha m√°quina fotogr√°fica, tinha equipamentos caros, e eles deixaram tudo l√°, direitinho.”

Ex-aluno da Casa Amarela, Diego de Deus da Concei√ß√£o, conheceu Maur√≠cio aos 15 anos. Hoje com 27 anos, ele trabalha como office boy no Museu de Arte do Rio – um dos mais ambiciosos investimentos culturais na Zona Portu√°ria. Durante uma folga em seu trabalho no museu, ele me encontrou na esquina da rua Sacadura Cabral com a Pedra do Sal, n√ļcleo simb√≥lico da antiga Pequena √Āfrica do Rio. Diego foi iniciado por Maur√≠cio na fotografia, ganhou pr√™mios com um trabalho sobre as Unidades Pacificadoras, e agora est√° tentando trabalhar com v√≠deo. Seu projeto √© fazer um document√°rio centrado na figura do morador Eron C√©sar dos Santos, que vive h√° mais de 40 anos na Provid√™ncia.

Respons√°vel pela igreja de Nossa Senhora da Concei√ß√£o, no alto do morro, Eron re√ļne contos e lendas sobre a favela, estudando, atrav√©s do pouco conhecido folclore local, outras vis√Ķes da hist√≥ria dela.

“Voc√™ ouve muitos coletivos art√≠sticos baseados na favela dizendo muita coisa, mas fazendo pouco”, lamentou Diego. “Tem muito mais para ser trabalhado e muito mais gente a ser atingida. No pr√≥prio morro onde fico, no ponto mais alto, ali no Largo do Cruzeiro e na Pra√ßa Am√©rico Brum, tem uma quantidade significativa de crian√ßas que n√£o est√£o fazendo nada. Maur√≠cio mudou muito meu olhar sobre a comunidade, e agora quero mudar o olhar dessas crian√ßas. Quero traz√™-las para os nossos projetos, mas nem todo mundo tem a mesma curiosidade, o mesmo olhar. Acho que falta uma maior uni√£o. Vejo muita gente trabalhando fechada em si pr√≥prio, levando o nome da Provid√™ncia para fora, mas nunca para dentro.”

Crédito: Maurício Hora
Crédito: Maurício Hora

Menos de uma semana depois, com o p√≥dio de Miss Tobi j√° instalado na Provid√™ncia e imune — at√© o momento — a qualquer restri√ß√£o da prefeitura (“Acho que o pessoal n√£o entendeu”, brincou Maur√≠cio), descubro que o Zona Imagin√°ria foi assaltado. No dia em que as esculturas foram inauguradas, ladr√Ķes entraram no espa√ßo, roubaram equipamentos e o dinheiro do patroc√≠nio do livro sobre Canudos. “Levaram muita coisa, mas tudo bem”, me disse Maur√≠cio por telefone, em uma voz conformada.

Dias antes, Maur√≠cio havia me confidenciado: “Sempre briguei pela favela, porque acho que tenho uma divida com a comunidade. Eu tenho uma divida por conta do meu pai. A coisa do tr√°fico √© t√£o importante na favela… N√£o que eu seja importante aqui dentro, n√£o √© nada disso. E talvez nem seja tanto uma quest√£o de culpa, talvez seja de pertencimento. Aquilo ali, o morro, tamb√©m √© meu. Eu me sinto t√£o parte daquilo que tenho uma pretens√£o, talvez idiota, de achar que eu possa ajudar. Tento unir os jovens, fazer eles entenderem o territ√≥rio, desloc√°-los por diferentes partes da comunidade… Acho que isso √© importante para eles.”