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As mil frutas de Helton

Repousando sobre a relva fofa na sombra do que parece ser uma mangueira apinhada de enormes p√™ras verdes, Helton Josu√© Teodoro Muniz toma um punhado de folhas secas na m√£o como se estivesse erguendo uma batuta. ‚ÄúA natureza funciona como uma orquestra‚ÄĚ, ele diz. ‚ÄúTudo deve ter seu tempo para que o equil√≠brio seja alcan√ßado. Se todos os instrumentos tocarem juntos sem harmonia, vira uma zorra.‚ÄĚ

Da mesma forma, cada √°rvore em sua fazenda espera pregui√ßosamente por sua √©poca de frutar. A variedade √© palavra de ordem. Helton caminha por seu pomar como quem dubla Alceu Valen√ßa em uma estrofe de ‚ÄúMorena Tropicana‚ÄĚ. Sapoti, ju√°, jaboticaba‚Ķ Mais de 1.200 esp√©cies de frut√≠feras convivem pacificamente pelos tr√™s¬†hectares. O n√ļmero deve aumentar com mais 150 variedades que ele planeja semear. Sentado em seu trono forrado de grama-amendoim, ele √© o maior frut√≥logo do Brasil.

As estradas de terra que levam ao S√≠tio Frutas Raras, em Campina do Monte Alegre, s√£o de um tom ocre-avermelhado. Os pneus voltam de viagem tingidos de uma cor quase de urucum. Se as √°rvores de Helton s√£o frondosas e fecundas, √© muito por causa deste ch√£o chamado latossolo, com tra√ßos de areia e argila. A combina√ß√£o √© altamente f√©rtil, e foi uma das respons√°veis pela bonan√ßa dos bar√Ķes do caf√© do oeste paulista no s√©culo 19. A vegeta√ß√£o que recobre as terras de Helton, dando-lhes um aspecto almofadado, tamb√©m √© grande respons√°vel pelo vigor das mudas livres de agrot√≥xicos e adubos qu√≠micos. A grama-amendoim fixa o nitrog√™nio no solo, colaborando para a nutri√ß√£o das ra√≠zes, e ret√©m umidade sob suas min√ļsculas folhas. Na √©poca da ro√ßa, a cada tr√™s ou quatro meses, pode chegar a 40 cent√≠metros, formando um espesso carpete esverdeado que se estende pela propriedade.

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Helton exibindo uma cabaça. Foto: Luisa Dörr/Risca Faca

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Helton n√£o nasceu ali¬†‚Äď √© de¬†Piracicaba. Quando veio ao mundo, o oxig√™nio demorou a chegar em seu c√©rebro e lhe causou uma disfun√ß√£o neuromotora. O que os m√©dicos chamam de hip√≥xia neonatal s√≥ lhe permitiu andar ao cinco anos, com a ajuda da fisioterapia. Em sua vida adulta, o quadro compromete alguns movimentos minuciosos e lhe confere certa dislalia, dificuldade em articular s√≠labas, mas n√£o causa outros impedimentos, n√£o √© degenerativo e n√£o afeta seu tempo de vida. Junto √† natureza, ele encontrou um estilo de vida que n√£o o limita. ‚ÄúAt√© quem n√£o tem problema de sa√ļde se sente melhor perto da natureza. Ela √© a maior express√£o do amor de Deus. Se voc√™ trata uma planta com amor, ela vai te retribuir. Da mesma maneira, se voc√™ a trata com desleixo, ela vai murchar.‚ÄĚ

Helton tem 36 anos. Ap√≥s viver 14 anos na vizinha Angatuba, mudou-se para o s√≠tio dos av√≥s em 1995, onde permaneceu. Na cidade √†s margens do rio Paranapanema, os pescadores se embromavam nos cip√≥s que pendiam sobre a correnteza para colher perinhas-do-mato. Era o saput√°, como Helton viria a descobrir em sua adolesc√™ncia, exasperado com o novo mundo de sabores que se descortinava a sua frente. ‚ÄúComo √© poss√≠vel existir tanta fruta e eu s√≥ comer laranja e banana?‚ÄĚ, ele se inquietava enquanto folheava dicion√°rios em busca de novos nomes ou conversava com senhores sabidos sobre a flora local.

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Algumas das frutas de inverno do sítio. Foto: Luisa Dörr/Risca Faca

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A primeira semente que plantou veio do saput√°. E vingou de primeira? ‚ÄúClaro!‚ÄĚ, ele replica em tom de obviedade, com o olhar sereno de quem nunca esqueceu de aguar um vasinho de suculentas. O Viveiro Saput√°, erguido ao lado de sua casa, foi batizado a partir daquela que lhe deu o gosto pela fruta. As mudas crescem sob o olhar atento de Helton e de sua esposa Emilene Muniz, que o conheceu em um congresso de Testemunhas de Jeov√°. A equipe conta ainda com dois funcion√°rios. Os pais s√£o vizinhos de poucos metros. Os habitantes mais recentes s√£o Billy, Polly e Nina, cachorros que recebem os visitantes distribuindo lambidas em troca de c√≥cegas na barriga.

H√° alguns meses, Helton n√£o agenda mais os tours de tr√™s horas que oferecia a R$ 20, normalmente terminando com degusta√ß√Ķes das frutas da temporada. O s√≠tio se mant√©m agora atrav√©s da venda de mudas, que custam em m√©dia R$ 25, e de seus dois livros, ‚ÄúFrutas do Mato‚ÄĚ e ‚ÄúColecionando Frutas‚ÄĚ, onde d√° instru√ß√Ķes de plantio e cataloga suas esp√©cies. Uma terceira publica√ß√£o est√° sendo escrita em sua biblioteca, que fica anexa √† cozinha da casa, onde uma estante de metal guarda diversos potes transparentes cheios de gr√£os.

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Crédito: Luisa Dörr/Risca Faca

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‚ÄúVoc√™ coloca dinheiro em banco para render. Da mesma forma, meu banco de sementes tem a finalidade de produzir mais plantas.‚ÄĚ Para ele, sementes s√£o mais valiosas que tesouros ‚Äď afinal, cem gramas de ouro n√£o conseguem gerar mais metal precioso. ‚ÄúIsso faz com que eu tenha filhos, netos e bisnetos aqui no pomar. Essas grandes empresas que armazenam sementes t√™m de pensar tamb√©m na reprodu√ß√£o. Mas talvez seu interesse n√£o seja guardar, mas ter o monop√≥lio de uma esp√©cie.‚ÄĚ

Seus embri√Ķes vegetais chegam por correio de colaboradores que possui pelo Brasil afora. A maioria das plantas s√£o nativas do Brasil. S√≥ da regi√£o, s√£o 250 esp√©cies. As estrangeiras contam 300, fazendo com que, no pomar, cactos frut√≠feros encontrados na caatinga brasileira fiquem a poucos passos de um p√© de santol, fruta nativa da Mal√°sia. A oferta f√°cil de sementes, polpas e baga√ßos atrai quatis, tatus, cotias, capivaras e 120 esp√©cies de aves ‚ÄĒ Helton afirma que, quando come√ßou o cultivo h√° dezoito anos, n√£o somavam nem 40.

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Helton e a simpática Nina na calmaria do sítio. Foto: Luísa Dörr/Risca Faca

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O agricultor tamb√©m aproveita at√© o caro√ßo o banquete do qual √© dono. Como nem toda fruta √© boa para comer do p√©, algumas s√£o destinadas a ch√°s, geleias, sucos e doces. Sua preferida √© o guaimb√©, de origem mexicana, cujo gosto ele jura lembrar uma mistura de banana e abacaxi. Helton reivindica para si a cria√ß√£o do doce de azeitona, que, note, n√£o √© doce de oliva. ‚ÄúQual o fruto da oliveira?‚ÄĚ Ao se deparar com uma resposta t√≠mida, ele dispara. ‚Äú√Č a oliva! Azeitona n√£o √© oliva, √© o fruto do azeitoneiro!‚ÄĚ, diz ele quase irritado, emendando √† constata√ß√£o uma aula sobre as diferen√ßas entre leguminosas, frutas e gr√£os.

Sua vontade de tornar conhecidas as mais de 4 mil esp√©cies de frutos comest√≠veis do Brasil lhe atribui um tom ativista. Junto √† esta√ß√£o ecol√≥gica de Angatuba, ele agora procura patrocinadores para um projeto de cadastramento e instru√ß√£o de fam√≠lia agricultoras. A inten√ß√£o √© ensinar o cultivo e venda de produtos de origem vegetal, semeando o conhecimento adquirido em uma vida de pesquisa, pr√°tica e observa√ß√£o. O t√≠tulo de bot√Ęnico, para Helton, √© mais honor√°rio que acad√™mico. ‚ÄúEu n√£o tenho diploma. Diploma √© gostar do que se faz, √© se dedicar‚ÄĚ, conclui. ‚ÄúQuando alguma pesquisa minha d√° resultados, as pessoas me pedem para citar fontes. A fonte √© o que eu observei da natureza. A fonte sou eu!‚ÄĚ

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Crédito: Luisa Dörr/Risca Faca

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