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História

A √ļltima fam√≠lia dos √≠ndios Juma

De semblante fechado, respostas curtas e simples, pobres de detalhes, mas extremamente ricas em sentimentos, Aruk√° reflete sobre o que poderia ter feito para n√£o estar na situa√ß√£o em que se encontra hoje. ‚ÄúMeu pensamento √© que o Juma aumentasse mais. Como que n√£o tem mais Juma?‚ÄĚ, questiona.

Aruk√° √© o √ļltimo homem do povo Juma. No s√©culo 18 eram cerca de 15 mil √≠ndios desta etnia, mas hoje s√≥ restaram o senhor de 82 anos e suas filhas Mait√°, 31 anos, Boreh√°, 35 anos, e Mande√≠, a mais nova, hoje com 28 anos. Como s√£o patrilinear, ou seja, seguem a linhagem paterna, e como n√£o existem mais homens, o futuro dos Juma j√° est√° condenado. Esta √© a fam√≠lia final.

Os Juma n√£o t√™m paj√©, mas t√™m cacique ‚Äď algo raro, um mulher: Mande√≠. Assim como as irm√£s, √© uma pessoa simp√°tica mas de postura firme. Em 2014 ela estava ca√ßando na floresta e foi picada no p√© por uma cobra jararaca, cujo veneno pode ser fatal. A cacique aguentou e s√≥ foi atendida dois dias depois, sem necroses ou perda de membros. Mande√≠ √©, sem d√ļvidas, uma mulher forte. Pela organiza√ß√£o e rotina da aldeia √© claro notar que s√£o as tr√™s Juma que tomam a frente e comandam o lugar – afinal, a terra √© delas.

A hist√≥ria segue o mesmo triste roteiro de outros povos ind√≠genas do Brasil. Inicialmente dizimados pelos portugueses, os Juma foram arrasados pelas doen√ßas trazidas pelo homem branco e em seguida por seringueiros, garimpeiros e ladr√Ķes de terra. Foi um massacre constante, com relatos de chacinas, mas nenhuma condena√ß√£o. No final da d√©cada de 70, um grupo invadiu a aldeia para roubar e matou mais de 60 √≠ndios. O caso apareceu no jornal local, mas n√£o apareceram culpados. Ser ind√≠gena no Brasil √© como ser jovem, negro e favelado, mas com ainda menos programas sociais e menor visibilidade da imprensa ou de organiza√ß√Ķes de direitos humanos.

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A cacique Mandeí. Crédito: Gabriel Uchida

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Não bastasse todo o sofrimento histórico, em 1998 os poucos Juma restantes foram transferidos pela Funai de sua terra para uma aldeia de outra etnia, a Jamari dos Uru-eu-wau-wau Рapesar de a Constituição Brasileira proibir a remoção de indígenas de sua área original. Segundo a Funai, eles estavam à mercê de invasores e correndo perigo de vida e já estavam muito reduzidos.

Ap√≥s perder seus familiares e tamb√©m sua terra, o que sobrou aos poucos restantes foi a melancolia. Ivaneide Bandeira, de 57 anos, √© indigenista da ONG Kanind√© e trabalha h√° mais de 30 anos na Amaz√īnia. Ela acompanha de perto a hist√≥ria dos Juma. ‚ÄúQuando eles viviam com os Jupa√ļ, conhecidos como Uru-eu-wau-wau, estavam tristes sem poder exercer sua pr√≥pria identidade porque estavam na terra de outro povo, ent√£o acabavam tendo que obedecer outras normas e c√≥digos sociais. O Aruk√° era muito triste porque sempre foi o l√≠der do povo dele e l√° n√£o se sentia respeitado como estava acostumado.‚ÄĚ

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Aruk√° e suas tr√™s filhas: a √ļltima fam√≠lia. Cr√©dito: Gabriel Uchida

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Somente em 2013, e com um n√ļmero ainda mais reduzido, os Juma voltaram para a sua terra – de mais de 38 mil hectares e demarcada e homologada desde 2004. Ivaneide acompanhou o processo: ‚ÄúQuando o Aruk√° retornou para a sua √°rea, ficou orgulhoso de voltar a liderar o seu povo e de ter sua cultura e identidade Juma valorizadas, ele estava super feliz em construir suas pr√≥prias moradias com as filhas‚ÄĚ.

Os pais de Aruk√° morreram h√° tempos. A m√£e padeceu por conta da mal√°ria, enquanto o pai foi assassinado por um seringueiro. Aruk√° sonhava em construir uma nova maloca para seu povo, mas o n√ļmero reduzido de √≠ndios impediu que isso se torna-se realidade. Agora pr√≥ximos de uma unidade da Funai, o √ļltimo Juma ainda reluta em sair de sua regi√£o. ‚ÄúN√£o gosto muito da cidade porque tenho rancor do branco. Ele matou meus parentes.‚ÄĚ

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O acesso at√© o local √© dif√≠cil. Do munic√≠pio de Humait√°, que fica a 11 horas de carro de Manaus, segue-se pela Transamaz√īnica em uma intermin√°vel reta sem asfalto. Dependendo do tempo, os buracos e a terra viram lama que mais parece sab√£o sob os pneus. Mesmo com uma caminhonete com tra√ß√£o nas quatro rodas √© extremamente dif√≠cil completar este trecho que leva em torno de 3 horas, dependendo das condi√ß√Ķes clim√°ticas. Depois disso ainda falta uma hora de barco at√© a aldeia, que est√° √†s margens do rio Assu√£. Um pequeno porto √© a entrada das embarca√ß√Ķes e tamb√©m o local para o banho. Dali ainda √© puxada a √°gua para algumas torneiras improvisadas.

O sofrimento hist√≥rico dos Juma √© refletido em sua aldeia: diferentemente do que √© encontrado em outras terras, ali n√£o tem posto de sa√ļde, nem igreja, nem paj√© e nem campo de futebol. Tamb√©m n√£o tem eletricidade e o √ļnico gerador a¬†gasolina est√° quebrado. S√£o apenas cinco casas, uma constru√ß√£o para a escola que foi montada mas nunca funcionou e um pequeno tapiri tradicional onde os habitantes se re√ļnem para as refei√ß√Ķes. Al√©m dos quatro sobreviventes, tamb√©m moram no local alguns ind√≠genas de outras etnias ou j√° misturados. No entorno da aldeia encontra-se mandioca, castanha e milho. Eles mant√™m a tradi√ß√£o de ca√ßar e pescar, principal fonte de alimento e tamb√©m divers√£o para as crian√ßas.

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Apesar da idade, o senhor Aruká tem um corpo imponente, anda com firmeza e caça sozinho. Ele fala pouco e quando o faz é breve e apenas na língua indígena Рnão entende o português. Mas seus olhares são poderosos e ele está sempre atento. Enquanto todos comem, conversam, fazem piadas e fumam tabaco, ele se senta na ponta da mesa e fica calado observando como se estivesse tomando conta de tudo. Aruká não gosta muito de ter sua rotina incomodada.

Aruk√° sente o peso de ser o √ļltimo dos seus. ‚ÄúHoje em dia sinto sozinho e penso muito em antigamente, que tinha muita gente‚ÄĚ, desabafa. ‚ÄúA gente era muitos e depois vieram o seringueiro e o garimpeiro para matar o povo Juma todinho.‚ÄĚ Enquanto acompanha a vida de suas filhas e toma rem√©dios para dores nas costas, o derradeiro Juma pensa no que j√° se foi. ‚ÄúAntigamente o Juma era mais feliz‚Ķ e hoje s√≥ tem eu.‚ÄĚ


 

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