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O encontro de Jango com um mafioso italiano

 

O Risca Faca publica orgulhosamente um trecho do livro “Cosa Nostra no Brasil: a hist√≥ria do mafioso que derrubou um imp√©rio”, escrito por Leandro Demori e publicado pela Companhia das Letras. O livro conta a hist√≥ria de Tommaso “Masino” Buscetta, mafioso italiano que se envolveu com a hist√≥ria brasileira. Demori √© jornalista, editor do Medium Brasil e assinou, no Risca Faca, a investiga√ß√£o sobre “o Lobo da Bovespa” e a hist√≥ria da opera√ß√£o que influenciou a Lava Jato. Voc√™ pode comprar o livro, que chega √†s livrarias¬†nesta semana, clicando aqui.

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Homero n√£o tinha dinheiro suficiente para topar a proposta que Tommaso acabara de fazer, mas seria dif√≠cil recus√°‚Äźla. Ap√≥s sanar as d√≠vidas da Satec e da Staf, Masino tinha derramado mais 35 mil cruzeiros para tapar outros rombos na empresa. Como neg√≥cios legalizados, as consultorias eram uma furada. A parceria se mostrava lucrativa para Buscetta, Homero e seus s√≥cios por outras vias. ‚ÄúQuem sabe botamos no nome do Homerinho?‚ÄĚ, sugeriu Masino. Homero de Almeida Guimar√£es J√ļnior tinha 26 anos e trabalhava com o pai. Tommaso o adorava, e aos poucos os dois se tornaram verdadeiros amigos. Casado h√° pouco tempo, n√£o tinha dinheiro, mas sua esposa recebeu, como heran√ßa, uma casa e um pr√©dio de apartamentos em S√£o Paulo. ‚ÄúEles podem vender os im√≥veis…‚ÄĚ Homero aceitou. Comprou a metade de uma fazenda de cria√ß√£o de gado em sociedade com o genro Roberto, que entrou com o restante do dinheiro. As terras foram colocadas em nome de Homero J√ļnior e Benedetto Buscetta, o Bene.

Enquanto Sarti e David viajavam para o Uruguai para continuar as opera√ß√Ķes do tr√°fico, Masino recebia por telefone propostas de vendedores de √°reas agr√≠colas. Homero tinha ativado todos os seus contatos, inclusive o general Ernesto Bandeira Coelho, chef√£o da Superintend√™ncia do Desenvolvimento da Amaz√īnia, a Sudam. Al√©m de procurar por terras dispon√≠veis, esperava conseguir do militar o r√°pido andamento do processo para descontos no Imposto de Renda, concedidos pelo governo a projetos agropecu√°rios.

Homerinho e Bene tamb√©m tinham se tornado amigos. Com a ideia de adquirir as terras, Masino ordenou que os rapazes rodassem o Brasil em busca de uma oportunidade. Amazonas, Goi√°s e Mato Grosso foram os estados escolhidos. Antonio, o Toni, terceiro filho de Tommaso com Melchiorra, os acompanhou ‚ÄĒ havia chegado ao Brasil havia pouco, vindo de Nova York.

Homero ficou encarregado de analisar as propostas que chegavam por telefone entre dezembro de 1971 e fevereiro de 1972, per√≠odo em que Tommaso e Maria Cristina viajaram, em alegadas f√©rias, pela Am√©rica Latina. Estiveram na Venezuela, onde Salvatore ‚ÄúPassarinho‚ÄĚ Greco morava desde que a bomba de Ciaculli matara sete policiais, em 1963. Embora corresse o risco de ser preso, Masino ainda iria para os Estados Unidos e para a It√°lia em viagens cujos objetivos at√© hoje s√£o desconhecidos. De volta ao Brasil pouco antes do Carnaval de 1972, o italiano recebe uma boa not√≠cia: Homero havia localizado uma grande √°rea para neg√≥cio no Mato Grosso ‚ÄĒ com pista de pouso em boas condi√ß√Ķes. O italiano ficou empolgado quando soube que o dono era um velho amigo do sogro, um personagem p√ļblico que traria excelentes garantias ao neg√≥cio, mesmo que exilado do pa√≠s pelos milicos: Jo√£o Belchior Marques Goulart, o Jango, presidente deposto do Brasil.

Jango vivia no Uruguai desde o golpe. Seu rancho em Maldonado, a duas horas da fronteira, era destino de peregrina√ß√£o de amigos, pol√≠ticos e militantes de esquerda. A pouco mais de cem quil√īmetros de Montevid√©u, a cidade litor√Ęnea era escorada de um lado por dunas muito brancas e √°guas muito frias e, do outro, por imensid√Ķes campeiras de ar gelado onde as estradas pareciam pistas de pouso, e as pistas de pouso, estradas de barro. Por aquelas bandas, a presen√ßa de animais de corte era mais apreciada do que a de seres humanos. Os brasileiros que desandavam ao sul buscavam em Jango amparo e conselhos ‚ÄĒ e tentavam convencer o pol√≠tico a voltar ao Brasil e enfrentar o Ex√©rcito.

Tommaso, Homero, Maria Cristina, Bene e Homerinho marcaram de se encontrar com o ga√ļcho no dia 1o de mar√ßo. S√£o recepcionados com um churrasco, oferecido aos cinco e a outros convidados, em comemora√ß√£o aos 53 anos de Jango. Card√≠aco, Jango bebe u√≠sque e fuma um de seus quarenta cigarros di√°rios ‚ÄĒ misturados com rem√©dios vasodilatadores que ajudam suas veias a sustentar o cora√ß√£o, maltratado por um infarto que o acometeu tr√™s anos antes. Sentia faltas de ar constantes. Abria um vidro e sacava do algod√£o um Isordil. O comprimido derretia sob a l√≠ngua, invadia a corrente sangu√≠nea e obrigava a press√£o sobre as veias a arrefecer; os pulm√Ķes voltavam a se encher de ar.

Jango, Maria Cristina e Tommaso, na fazenda uruguaia
Jango, Maria Cristina e Tommaso, na fazenda uruguaia

Amigo de Homero havia mais de uma d√©cada, Jo√£o Goulart explica a localiza√ß√£o exata da fazenda Tr√™s Marias ‚ÄĒ 10 mil hectares situados √† margem norte do Pantanal mato‚Äźgrossense. As terras abrigavam um naco de rio, cabe√ßas de gado, uma floresta particular e um peda√ßo de hist√≥ria. Na sede ‚ÄĒ uma simples mas acolhedora casa de est√Ęncia ‚ÄĒ, Jango, ainda presidente do Brasil, havia se reunido secretamente com o ent√£o ditador do Paraguai, Alfredo Stroessner, para assinar o tratado que daria origem √† constru√ß√£o da hidrel√©trica de Itaipu. Ele conta aos convidados que costumava visitar a √°rea partindo de avi√£o de S√£o Borja, no Rio Grande do Sul, e esclarece que as terras estavam sendo administradas por seu piloto particular e homem de confian√ßa. A localiza√ß√£o da fazenda era perfeita: poucas horas de voo da Bol√≠via e do Paraguai ‚ÄĒ ponto de reabastecimento adequado para o tipo de empreitada que Tommaso buscava secretamente levantar. Jango acerta os olhos em Homero e estabelece suas condi√ß√Ķes. O homem era tido como grande negociador. Sua dedica√ß√£o √†s atividades agropecu√°rias vinha desde a adolesc√™ncia, nas terras da fam√≠lia em S√£o Borja. Deposto, passou a negociar fazendas e tudo o que elas poderiam produzir: bois, arroz, ovelhas, l√£. Comprou √°reas no Uruguai, no Paraguai e na Argentina. Organizou empresas de exporta√ß√£o de carnes e gr√£os ‚ÄĒ e se tornaria t√£o reconhecido que teria ajudado o presidente da Argentina, Juan Domingo Per√≥n, a desatar n√≥s de exporta√ß√£o bovina entre aquele pa√≠s e a L√≠bia. Como os tempos eram incertos, o ex‚Äźpresidente, precavido, ofereceu a Homero, em vez da venda, o arrendamento da propriedade. Masino aceitou, sob a condi√ß√£o de que o piloto fosse dispensado. N√£o queria gente de fora troteando por l√°. Neg√≥cio fechado.

De volta ao Brasil, Homero procurou o general Bandeira Coelho para apressar a documenta√ß√£o junto √† Sudam. Tinha √Ęnsia em tomar posse da fazenda do ex‚Äźpresidente, sobretudo pela press√£o de Masino. O militar o atendeu amistosamente na pr√≥pria resid√™ncia. Homero acreditava que tudo andaria bem antes de ouvir do general que o neg√≥cio n√£o poderia ser concretizado. Ao notar que a fazenda era de Jo√£o Goulart ‚ÄĒ que se beneficiaria financeiramente com o arrendamento ‚ÄĒ, Bandeira Coelho se negou a assinar a papelada e mandou Homero procurar outras terras. Ao saber da not√≠cia, Masino ficou desapontado.

O esfriamento do neg√≥cio trouxe um problema maior. Os anivers√°rios de Jo√£o Goulart no Uruguai eram vigiados pelos √≥rg√£os repressores do Brasil. Nos anos 1970, fotos das confraterniza√ß√Ķes em Maldonado seriam anexadas aos arquivos contra Jango, montados pelos servi√ßos de intelig√™ncia. Os militares tinham medo de que o ex‚Äźpresidente retornasse ao pa√≠s. Sua lideran√ßa ainda era respeitada por boa parte da popula√ß√£o.

Com o fim do regime, os arquivos secretos da ditadura correspondentes ao ano de 1972 desapareceram da pasta de Jo√£o Goulart organizada pelos √≥rg√£os de repress√£o. Seu paradeiro √© um mist√©rio. √Č imposs√≠vel afirmar se os militares tiveram acesso a uma imagem clandestina daquela criatura cabeluda, estranha ao conv√≠vio de Jango. Sem documentos contundentes que esclare√ßam a hist√≥ria, h√° apenas um depoimento‚Äźchave de um personagem diretamente envolvido na quest√£o.

Mesmo que os arquivos da ditadura tenham sido destru√≠dos, uma foto familiar sobreviveu ao tempo e foi capaz de desencadear uma tormenta na vida de Tommaso. Orpheu dos Santos Salles, s√≥cio de Homero, teria entregado ao Dops a foto na qual Masino, Homero, Cristina, Bene e Homerinho aparecem abra√ßados ao ex‚Äźpresidente. A imagem enfeitava um m√≥vel na sala do apartamento de Buscetta em S√£o Paulo. Orpheu e os generais ligados a Homero tentariam, assim, se livrar do italiano ‚ÄĒ e mostrar aos militares que n√£o tinham nada a ver com ele. √Äquela altura, eles j√° desconfiavam de Tommaso, que passava os dias recebendo gente estranha e despachando pelo telefone dos escrit√≥rios da firma sem jamais dizer o que realmente fazia.

A foto foi parar direto nas m√£os do delegado S√©rgio Fernando Paranhos Fleury, um dos mais implac√°veis agentes do Dops, reportado como persistente torturador por dezenas de prisioneiros que passaram por sua delegacia. Fleury e a c√ļpula da repress√£o n√£o tinham nada contra Tommaso Buscetta. Nem mesmo sabiam quem ele era. Ligados em tudo o que era relacionado a Jango, acreditaram que o italiano pudesse fazer parte de algum grupo comunista disposto a financiar a volta do ex‚Äźpresidente ao Brasil ‚ÄĒ movimento que a ditadura n√£o poderia permitir. Fleury come√ßou a buscar informa√ß√Ķes sobre ‚ÄúRoberto‚ÄĚ sem saber seu verdadeiro nome, muito menos sobre seu passado mafioso e o presente no mercado internacional de hero√≠na. Acreditou estar levantando a ficha de um subversivo europeu. Mirou no que viu, acertou o que n√£o viu.

A frustra√ß√£o provocada pelo distrato do neg√≥cio da fazenda pressionou Masino a encontrar uma solu√ß√£o. Ele intu√≠a que Homero entraria em qualquer neg√≥cio que propusesse, e tudo indica que tenha for√ßado o sogro a enfrentar uma nova tentativa. Sabendo que Homero havia recebido a visita de um corretor que lhe oferecera uma fazenda em Echapor√£, no interior de S√£o Paulo, Tommaso apelou para o instinto paterno: disse que estava desgostoso com o Brasil e que levaria Cristina para morar com ele no exterior. O velho foi tomado pelo pavor. Em um final de semana, levou Masino, Bene e Homerinho para conhecer o rancho em Echapor√£. Masino e o filho ficaram encantados com a fazenda Santo Ant√īnio e seus 4,4 mil hectares, 360 cabe√ßas de gado e diversos animais de montaria. Sem pensar muito, Homero desembolsou 300 mil cruzeiros para dar entrada na papelada das terras ‚ÄĒ que custariam mais de 1 milh√£o de cruzeiros ‚ÄĒ, penhorando a pr√≥pria casa. Com a promessa de Masino de que cobriria parte da d√≠vida, outros 300 mil, esperava conquistar Bene, que convenceria o pai a ficar no pa√≠s.

Parecia ter dado certo. Bene e Homerinho tomaram posse da fazenda Santo Ant√īnio e Tommaso visitaria a fazenda diversas vezes ao longo dos meses seguintes. Para ficar mais pr√≥ximo, saiu da mans√£o em que morava na avenida Indian√°polis, 595, em S√£o Paulo, e alugou dois apartamentos ‚ÄĒ um para ele e Cristina, outro para Bene e sua esposa, que acabara de chegar de Nova York ‚ÄĒ em Mar√≠lia, a quarenta quil√īmetros de Echapor√£. Estava decidido a investir tempo na nova empreitada.

O transporte a√©reo de hero√≠na era uma novidade no Brasil, mas j√° funcionava havia alguns anos em outros pa√≠ses. Um ano antes, em outubro de 1971, Lucien Sarti convidou Helena para mais uma de suas viagens. Juntos, viajaram para S√£o Paulo, Montevid√©u, Lima e Cidade do M√©xico. Na capital do Peru, o franc√™s se encontrou com Housep Caramian, um correio respons√°vel por fazer a droga voar da Am√©rica Latina para os Estados Unidos. L√°, combinaram que Caramian colocaria 120 quilos de hero√≠na rec√©m‚Äźchegada da Europa em um avi√£o particular de Sarti. Caramian e um piloto rumaram de Lima com destino a uma pista militar abandonada no deserto mexicano, onde Lucien Sarti, Michel Nicoli e outro homem recepcionaram a carga e a levaram de carro para a Cidade do M√©xico. O neg√≥cio teria sido feito ali mesmo, com Carlo Zippo, que teria pagado pela droga 840 mil d√≥lares ‚ÄĒ 7 mil d√≥lares o quilo, valor mais baixo do que se fosse entregue diretamente nos Estados Unidos. Sarti voltou ao Brasil em um voo via Panam√°, onde provavelmente depositou o dinheiro.

A ideia de usar o interior do Brasil como entreposto de carga e abastecimento parecia firme. Depois de tomar posse da fazenda em Echapor√£, Masino se encontrou com Michel Nicoli no terra√ßo do Edif√≠cio It√°lia, em S√£o Paulo. Tommaso e Nicoli j√° se conheciam. O franc√™s, nascido em Marselha em dezembro de 1930, era um dos homens de maior confian√ßa de Auguste Ricord. Carteiro desde a adolesc√™ncia, enveredou para o crime nos anos 1960, dirigindo carros de fuga para uma quadrilha de assaltantes na Fran√ßa. Em 1963, j√° clandestino em Buenos Aires, importava roupas falsificadas da Europa para revender na Argentina. Sua entrada no tr√°fico ocorreu aproximadamente em 1966, quando conheceu Lucien Sarti no restaurante El Sol, ponto de encontro de desterrados franceses na capital. Nicoli vivia no Brasil desde 1969 sob o nome de Carlos Collucci da Silveira, um cidad√£o brasileiro fict√≠cio nascido no Rio Grande do Sul. Com o dinheiro que tinha levantado fazendo viagens de leva e traz de hero√≠na, Michel fundou no n√ļmero 255 da rua Acre, na Mooca, em S√£o Paulo, a empresa Delga Alum√≠nio e Pl√°stico Ltda. As investiga√ß√Ķes policiais da √©poca n√£o foram a fundo na contabilidade da companhia, mas √© prov√°vel que a Delga fizesse lavagem de dinheiro. Ao menos dois malotes com d√≥lares sujos viajaram do Rio de Janeiro para Nova York, onde foram depositados na conta da empresa nos Estados Unidos e depois retransferidos para o Brasil como ‚Äúinvestimentos externos‚ÄĚ.

Tommaso contava com Nicoli para sua nova empreitada. Ele j√° havia participado da reuni√£o no Copacabana Palace, em agosto de 1971, onde tamb√©m estavam Carlo Zippo, Lucien Sarti e Christian Jacques David. Sabia trabalhar e estava pronto. Em um depoimento dado ao Dops tempos depois, Nicoli confessaria que conhecia todos os integrantes do grupo, inclusive Buscetta, ‚Äúelemento de proje√ß√£o da c√ļpula da m√°fia‚ÄĚ, e que o havia encontrado ‚Äúumas quatro ou cinco vezes‚ÄĚ no Brasil. Juraria, no entanto, que em nenhuma delas por motivos escusos. Admitia conhecer Tommaso, mas n√£o imputava a ele nenhum crime.

O distrato do neg√≥cio com Jango parecia ter trazido mau agouro ao supersticioso Tommaso. Mar√ßo, m√™s em que estivera com o ex‚Äźpresidente brasileiro no Uruguai, era per√≠odo de embara√ßo na hist√≥ria siciliana. Por duas vezes, em s√©culos distintos, o povo da ilha tentou uma revolu√ß√£o pela independ√™ncia contra estrangeiros dominantes. Fracassara em ambas. O m√™s que marcava o come√ßo das guerras para os povos europeus antigos faria seus estragos naquele ano bissexto de 1972.

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Por que ‘O Alquimista’ √© um fen√īmeno nos EUA?

“O Alquimista”, de Paulo Coelho, √© um livro curioso. Quase todo o mundo diz que odeia, pouca gente diz que leu. Mas muita gente comprou e ainda compra o livro — pelo menos nos Estados Unidos. Entra semana, sai semana, o livro de Coelho aparece na lista de mais vendidos do jornal The New York Times. Em outubro, completou oito anos na lista, feito que nenhum outro escritor alcan√ßou. Na vers√£o mais recente, da primeira semana de novembro, “O Alquimista” ainda est√° l√°, rondando o top 10 em exemplares vendidos, como na semana anterior, na anterior, na anterior‚Ķ Paulo Coelho seria o Romero Britto das letras: criticado aqui, sucesso l√°.

Mas “The Alchemist”¬†√© um livro realmente curioso: embora continue vendendo bem nos Estados Unidos, achar algum estudioso de literatura brasileira no pa√≠s que se dispusesse a falar sobre ele foi tarefa dific√≠lima, com zero porcento de aproveitamento. De um professor na Universidade da Fl√≥rida: “Ontem uma estudante do Equador disse que tinha o livro e o havia lido. Posso relatar uma hist√≥ria de quando conheci Paulo Coelho (um jantar na casa dele). Ele me perguntou: ‘Voc√™ n√£o leu meus livros, n√©?’. E eu respondi: ‘N√£o’. Ele continuou: ‘N√£o importa’. N√£o estudo muito fic√ß√£o, muito menos o Senhor Rabbit. E se voc√™ tiver algo a ver com a Rede Globo: n√£o, obrigado”.

Uma professora do Novo M√©xico, indicada pelo professor da Fl√≥rida, tamb√©m n√£o podia falar. “N√£o sou especialista em Paulo Freire”, lamentou. Outro estudioso foi bem sincero: “N√£o tenho muito interesse nem experi√™ncia com a obra do Paulo Coelho. Boa sorte no seu projeto!”. Mais uma negativa na sequ√™ncia, de uma professora tamb√©m da Fl√≥rida, mais detalhada: “N√£o falo sobre Paulo Coelho porque considero que seus livros s√£o de autoajuda, mal escritos e mal traduzidos. Sei que um professor de religi√£o que trabalhava aqui e usava Paulo Coelho como um profeta da sa√ļde e da riqueza individual na ascens√£o da crise econ√īmica e da cultura neoliberal. Como Jonathan Livingston Seagull, acho que o trabalho de Coelho √© popular porque oferece √†s pessoas respostas f√°ceis para as perguntas dif√≠ceis da vida. √Č isso pra mim”.

Em entrevista ao UOL, o pr√≥prio Paulo Coelho tampouco foi muito esclarecedor ao tentar explicar o sucesso do seu livro nos Estados Unidos. “Acho que a hist√≥ria do ‘Alquimista’ √© a hist√≥ria de todos n√≥s. Descontadas as diferen√ßas culturais, somos muito parecidos em nossas emo√ß√Ķes”, disse, sucinto. Para tentar entender o que √© que esse livro tem, a √ļnica alternativa poss√≠vel foi deixar de ser uma pessoa que fala mal de Paulo Coelho sem ter lido seus livros e virar uma pessoa que fala de Paulo Coelho com conhecimento de causa. √Č uma transforma√ß√£o r√°pida: “O Alquimista”, mesmo em ingl√™s, √© daqueles livros que se l√™ em poucas horas.

Como numa f√°bula, a trama √© simples, os personagens — salvo pouqu√≠ssimas exce√ß√Ķes — n√£o t√™m nome pr√≥prio (s√£o “o menino”, “o ingl√™s”…) e o que mais importa √© a mensagem. Santiago √© um pastor que tem um sonho recorrente com as pir√Ęmides do Egito. Um dia, encontra um velho que lhe conta sobre a miss√£o pessoal de cada um, aquilo que sonhamos em fazer, mas que costumamos deixar pra l√° pelas press√Ķes da vida quando crescemos. A miss√£o de Santiago seria encontrar um tesouro nas pir√Ęmides. Ele tem, ent√£o, duas op√ß√Ķes: continuar com seu rebanho e levar uma vida previs√≠vel, cansando-se de tudo em alguns anos, ou jogar tudo pro alto e ir para o Egito atr√°s de sua miss√£o. N√£o parece uma tarefa f√°cil, mas se voc√™ for atr√°s de seus sonhos, diz o livro, o mundo te ajudar√° a chegar l√°.

Para que o livro continue, Santiago, √© claro, escolhe ir para o Egito. √Č nessa jornada que encontra o tal alquimista do t√≠tulo, que o ajudar√° a terminar sua jornada e o ensinar√° li√ß√Ķes sobre o mundo e a vida — mas n√£o sobre como fazer ouro, pois essa n√£o √© a miss√£o de Santiago. Em s√≠ntese: v√° atr√°s dos seus sonhos e tudo aquilo que voc√™ deseja pode se tornar realidade se voc√™ se empenhar e souber ouvir os sinais que o universo te d√°. Paulo Coelho estica a f√°bula por p√°ginas e p√°ginas, mas a moral √© bem conhecida: se voc√™ quiser muito que algo aconte√ßa, o universo vai te ajudar. Com for√ßa de vontade, tudo √© poss√≠vel.

N√£o chega a ser um livro t√£o ruim, mas tanto a forma quanto o conte√ļdo s√£o t√£o, t√£o simples, que “O Alquimista” faz mais sentido para crian√ßas, como historinha para ser lida antes de dormir com uma li√ß√£o de moral otimista. No pref√°cio do livro, numa edi√ß√£o comemorativa, Paulo Coelho diz que “O Alquimista” n√£o vendeu muito no in√≠cio. Lentamente, com o boca a boca, os n√ļmeros come√ßaram a crescer. Nos Estados Unidos, a febre come√ßou quando Bill Clinton foi fotografado segurando um exemplar. Depois, celebridades como Will Smith come√ßaram a cit√°-lo como um de seus livros favoritos.

Escolher “O Alquimista” como livro preferido √© uma resposta de miss, estilo “desejo a paz mundial”. Voc√™ passa uma imagem de quem tem um bom cora√ß√£o. “O Alquimista” √© um incentivo ao sonho americano de “se voc√™ trabalhar voc√™ chega l√°”, uma antecipa√ß√£o de fen√īmenos de autoajuda como “O Segredo”, mas em roupagem de literatura. Ao escrever uma f√°bula, Paulo Coelho fez um livro motivacional com menos estigma do que um “Quem Mexeu no Meu Queijo” e que n√£o fica datado — f√°bulas n√£o envelhecem. N√£o √© um livro estudado por acad√™micos, ou o livro que voc√™ vai deixar em cima da mesa pra impressionar seus convidados, mas √© f√°cil de ler e, se voc√™ estiver nesse esp√≠rito, reconfortante. Respostas f√°ceis para quest√Ķes dif√≠ceis, como disse uma das professoras que n√£o quis dar entrevista. Quem n√£o quer isso? Por isso, semana que vem, pode apostar, “O Alquimista” ainda estar√° na lista dos mais vendidos.

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O homem que sabia norueguês

Essa fam√≠lia comum em todos os aspectos, com pais jovens, como eram quase todos os pais naquela √©poca, e dois filhos, como quase todos os pais tinham naquela √©poca, havia se mudado de Oslo, onde tinha morado na Thereses Gate, perto do Bislett Stadion, durante cinco anos, para Trom√łya, onde uma casa fora constru√≠da para eles num loteamento. Enquanto aguardavam que a casa ficasse pronta, alugariam uma outra, mais velha, no acampamento Hove. Em Oslo o pai tinha estudado durante o dia, ingl√™s e noruegu√™s, e trabalhado como guarda-noturno durante a noite, enquanto a m√£e havia frequentado a escola de enfermagem em Ullev√•l. Mesmo que ainda n√£o houvesse terminado a forma√ß√£o, o pai tinha procurado e conseguido um emprego como professor no gin√°sio de Roligheden, enquanto ela trabalharia no hospital psiqui√°trico de Kokkeplassen. Os dois haviam se conhecido em Kristiansand quando ela tinha dezessete anos, ela engravidara aos dezenove, e os dois se casaram aos vinte, na pequena fazenda em Vestlandet onde ela havia crescido. Ningu√©m da fam√≠lia do noivo compareceu ao casamento, e mesmo que aparecesse sorrindo em todas as fotografias, nota-se uma zona de solid√£o ao redor dele, percebe-se que n√£o est√° no pr√≥prio ambiente em meio aos irm√£os e irm√£s, aos tios e √†s tias, aos primos e √†s primas da noiva.

Hoje os dois têm vinte e cinco anos, e têm a vida inteira pela frente. Trabalho próprio, casa própria, filhos próprios. Os dois estão juntos, e o futuro que almejam pertence a eles.

Ser√° mesmo?

(Trecho de a “Ilha da Inf√Ęncia, Minha Luta 3”, de Karl Ove Knausgard)

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S√£o 3.500 p√°ginas distribu√≠das em seis volumes carregados de mem√≥rias e reflex√Ķes sobre a inf√Ęncia em um lugar remoto da Noruega, sobre trocar a fralda dos filhos e sobre faxinar meticulosamente a casa onde o pai alco√≥latra acabara de morrer; relatos minuciosos sobre a √°gua esquentando para preparar um ch√°, que evoluem para ensaios sobre Dostoi√©vski e Deus, e ent√£o a prosa volta a falar sobre papinha de beb√™, Talking Heads, a vida de escritor e a hist√≥ria tr√°gica ‚Äď aos olhos do menino ‚Äď de uma meia perdida na aula de nata√ß√£o. A s√©rie “Minha Luta“, do noruegu√™s Karl Ove Knausgard, leva ao extremo o esfor√ßo de lembran√ßa e apaga as linhas entre autobiografia e fic√ß√£o. Publicada entre 2009 e 2011 na Noruega, onde se tornou um fen√īmeno de p√ļblico e despertou intensos debates pela exposi√ß√£o crua de pessoas pr√≥ximas ao autor, a obra chega aos leitores brasileiros traduzida diretamente do idioma original pelo ga√ļcho Guilherme da Silva Braga, 34 anos, respons√°vel pela tradu√ß√£o a partir do volume dois ‚Äď o quarto tomo, ‚ÄúUma Temporada no Escuro‚ÄĚ, foi lan√ßado em junho no Brasil pela Companhia das Letras.

Apenas nas √ļltimas duas d√©cadas, e gra√ßas a escolhas bancadas por editoras como a 34 e a pr√≥pria Companhia das Letras, tradu√ß√Ķes diretas de l√≠nguas ‚Äúdistantes‚ÄĚ, como o russo, se tornaram poss√≠veis no Brasil. Antes disso, Dostoi√©vski e outros russos, por exemplo, s√≥ chegavam ao Brasil intermediados pela tradu√ß√£o francesa ‚Äď o que, de certa maneira, ‚Äúcontaminava‚ÄĚ o texto final. Mesmo Franz Kafka s√≥ teve suas obras completas traduzidas diretamente do alem√£o a partir do trabalho de Modesto Carone, que iniciou na d√©cada de 1980 a monumental tarefa de traduzir toda a obra do escritor tcheco (que escrevia em alem√£o).

No caso de Guilherme Braga, doutor em Literaturas Inglesas e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o seu encontro com a l√≠ngua norueguesa n√£o partiu de um interesse acad√™mico, mas pessoal. ‚ÄúEssa √© uma hist√≥ria tortuosa que levou quase dez anos para se completar. Meu interesse pelo noruegu√™s surgiu no meio dos anos 1990, junto com o meu interesse por bandas norueguesas de black metal ‚Äď um dos principais itens de exporta√ß√£o cultural da Noruega‚ÄĚ, conta. No in√≠cio dos anos 2000, resolveu procurar algum professor de noruegu√™s em Porto Alegre. N√£o encontrou nenhum, mas descobriu a professora Margareta Berg e o Instituto Brasileiro-Escandinavo de Interc√Ęmbio Cultural, onde era poss√≠vel estudar sueco. ‚ÄúResolvi entrar no curso, pois eu sabia que o sueco e o noruegu√™s s√£o l√≠nguas extremamente parecidas e que, sabendo uma delas, entender a outra seria relativamente f√°cil‚ÄĚ, lembra.

Depois de um ano de estudos, fez uma viagem √† Su√©cia e, de volta ao Brasil, continuou os estudos do idioma enquanto traduzia pe√ßas do dramaturgo sueco August Strindberg ‚Äúcomo exerc√≠cio‚ÄĚ. Em 2005, passou a trabalhar profissionalmente com tradu√ß√£o liter√°ria a partir do ingl√™s, e dois anos mais tarde pediu demiss√£o do emprego de professor de ingl√™s para se dedicar √† tradu√ß√£o em tempo integral. As vers√Ķes engavetadas de Strindberg acabaram saindo em 2010 pela editora Hedra, no volume “Senhorita J√ļlia e Outras Pe√ßas“. Outras tradu√ß√Ķes liter√°rias do sueco se seguiram, como o romance “A Traidora Honrada“, lan√ßado pela Bolha/Aut√™ntica, e “Doutor Glas“, um dos romances favoritos de Braga, que saiu pela Arte &¬†Letra.

‚ÄúO pessoal da L&PM ‚Äď para quem a essa altura eu j√° havia traduzido dezenas de obras liter√°rias em ingl√™s ‚Äď me escreveu perguntando se com o meu sueco eu n√£o poderia ler um livro noruegu√™s que a editora estava pensando em lan√ßar e escrever um parecer a respeito. Aceitei o convite e n√£o apenas escrevi o parecer como tamb√©m me ofereci para fazer a tradu√ß√£o desse excelente romance, chamado ‘Antes que Eu Queime‘, baseado nos meus conhecimentos de sueco e usando v√°rios materiais de apoio que comprei especialmente para a ocasi√£o‚ÄĚ, conta Braga.

Enquanto ele traduzia o livro, a NORLA, um importante √≥rg√£o de divulga√ß√£o de literatura norueguesa no exterior, concedeu ao tradutor uma bolsa de viagem √† Noruega. Ainda sem encontrar professores de noruegu√™s em Porto Alegre, estudou o idioma sozinho em casa por cerca de quarenta dias antes de embarcar para encontrar Gaute Heivoll, o autor do romance. ‚ÄúLogo depois de voltar fui convidado a participar de um evento para tradutores no festival liter√°rio de Lillehammer, tamb√©m na Noruega, e na esteira disso tudo a Companhia das Letras me convidou a traduzir a s√©rie de romances ‘Minha Luta’, do Karl Ove Knausgard‚ÄĚ, recorda-se.

Vendo que a tradu√ß√£o do noruegu√™s estava come√ßando a se tornar uma coisa s√©ria em sua carreira, Braga voltou √† Noruega outras vezes para estudar o idioma e participar de cursos e semin√°rios para tradutores. ‚ÄúNo meio disso tudo, li uns quantos romances noruegueses para me familiarizar melhor com a cena liter√°ria do pa√≠s, ao mesmo tempo em que eu traduzia o Knausgard. Foi um ciclo muito estranho, muito inesperado e ao mesmo tempo muito interessante para mim‚ÄĚ, diz Braga.

As visitas √† Noruega ajudaram Braga a entender melhor o fen√īmeno Knausgard ‚Äď foram 500 mil exemplares do primeiro volume vendidos em um pa√≠s de cinco milh√Ķes de habitantes e exaustivas discuss√Ķes na imprensa sobre os limites de sua obra, que, afinal, se baseia tamb√©m na vida √≠ntima de outras pessoas. ‚ÄúNa Noruega n√£o existem grandes desigualdades sociais, n√£o existem grandes desigualdades de g√™nero e assim por diante ‚Äď e essa igualdade generalizada chega a tal ponto que voc√™ nem ao menos v√™ pessoas com roupas muito diferentes umas das outras quando anda pela rua. Talvez por isso os noruegueses tamb√©m vivam vidas mais parecidas entre si, o que a meu ver possibilita a praticamente qualquer noruegu√™s se identificar com os aspectos da vida cotidiana e trivial que √© narrada nos romances do Knausgard‚ÄĚ, analisa. Junto ao ineg√°vel talento liter√°rio do escritor e √†s quest√Ķes morais e √©ticas que a s√©rie pode suscitar, o tradutor tamb√©m atribui o sucesso de p√ļblico de “Minha Luta” na Noruega, ao menos em parte, √† “histeria dos jornalistas para transformar tudo em pol√™mica o tempo inteiro‚ÄĚ.

***

O processo de tradu√ß√£o de Braga geralmente passa por uma primeira vers√£o mais apressada, ao mesmo tempo em que toma um contato inicial com a obra. Depois, ele rel√™ o material com calma para fazer os acertos necess√°rios e deixar o texto redondo. Durante o trabalho com “Minha Luta”, tradutor e autor nunca se comunicaram para conversar sobre as vers√Ķes. ‚ÄúEu vi o Knausgard em dois eventos liter√°rios na Noruega. Em um deles, n√£o cheguei nem perto. Costumo ficar meio sem jeito nessas situa√ß√Ķes, e pelos romances eu sabia que o encontro com o tradutor de um pa√≠s distante teria o potencial de se transformar em uma situa√ß√£o infinitamente constrangedora e sofrida para o Knausgard, a dizer por outras experi√™ncias similares que ele narra nos romances‚ÄĚ, observa.

O segundo encontro foi em uma sess√£o de aut√≥grafos. Braga comentou com ele que estava traduzindo a s√©rie e gostaria de fazer uma entrevista a ser publicada no Brasil. Na ocasi√£o, Knausgard pareceu receptivo √† ideia e disse que topava, mas o tradutor nunca mais teve resposta da agente dele sobre o pedido. ‚ÄúN√£o sei se ela n√£o repassou o pedido ou se ele n√£o respondeu, mas o fato √© que a entrevista n√£o foi feita porque nunca recebi uma resposta. Em todo caso, eu estaria mentindo se dissesse que estou surpreso, a dizer pela opini√£o que tenho sobre a personalidade do Knausgard pela maneira como ele se apresenta em suas obras‚ÄĚ, diz.

O estilo narrativo de Knausgard, alternando descri√ß√Ķes simples e coloquiais com trechos ensa√≠sticos complexos, pode parecer um desafio a mais para o tradutor; √© como se no mesmo universo habitassem dois ou mais n√≠veis de prosa diferentes. ‚ÄúEmbora essa mudan√ßa seja de fato marcante no Knausgard ‚Äď o contraste entre a simplicidade e a concis√£o dos di√°logos e a complexidade quase barroca das frases intermin√°veis nos trechos ensa√≠sticos √© brutal ‚Äď, n√£o tive muitas dificuldades com as transi√ß√Ķes porque eu j√° tinha experi√™ncia com os di√°logos simples das hist√≥rias em quadrinhos e com a prosa rebuscada do s√©culo XIX‚ÄĚ, conta Braga.

As dificuldades maiores est√£o nas sutilezas entre o noruegu√™s e o sueco, que o autor faz quest√£o de enfatizar ‚Äď √†s vezes de maneira jocosa. O segundo volume, ‚ÄúUm Outro¬†Amor‚ÄĚ, √© ambientado em grande parte na Su√©cia. ‚ÄúUma parte significativa desse livro √© um esfor√ßo da parte do Knausgard para convencer o leitor de que, apesar de serem pa√≠ses supostamente parecidos, a Noruega e a Su√©cia t√™m na verdade uma cultura muito diferente‚ÄĚ, observa. Para Braga, traduzir tudo iria contra a inten√ß√£o do texto original. Um noruegu√™s consegue ler em sueco do mesmo modo que um falante de portugu√™s consegue ler trechos em espanhol, mas o resultado final seria incompreens√≠vel para o leitor brasileiro. ‚ÄúO jeito foi, na maioria dos casos, manter as partes em sueco no idioma original, para deixar claro que os personagens estavam falando idiomas diferentes e, por meio de acr√©scimos extremamente breves e discretos, sugerir ou dar a entender ao leitor brasileiro o que estava acontecendo. O mesmo se aplica em menor grau para os trechos em dialeto‚ÄĚ, diz.

Uma conversa entre o tradutor e Knausgard, que est√° em visita a Am√©rica do Sul pela primeira vez na Flip 2016, n√£o deve acontecer agora. Escaldado pelo fracasso da tentativa anterior, Braga n√£o se animou a procur√°-lo novamente. Por enquanto, continua a trabalhar no quinto volume de “Minha Luta”. ‚ÄúPessoalmente, gosto da s√©rie especialmente pelo talento que o Knausgard tem para escrever sobre coisas banais e insignificantes. Tamb√©m me agrada muito a forma como, mesmo no meio de um grande arroubo filos√≥fico, Knausgard muitas vezes acaba constatando que √© apenas mais um cara como qualquer outro e que todas as teorias mirabolantes dele podem ser completamente furadas. Tenho me divertido bastante com esses livros.‚ÄĚ

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As origens do crime

Reportagens sobre crimes pipocam diariamente em jornais e sites pelo mundo. Se h√° bastante repercuss√£o, acompanha-se por algum tempo as investiga√ß√Ķes, depois o julgamento e a hist√≥ria geralmente morre por a√≠. O crime come√ßa quando √© cometido e termina quando algu√©m √© declarado culpado. √Č a concep√ß√£o mais comum, com a qual o jornalista Eli Sanders, que escreve para o jornal semanal gratuito de Seattle The Stranger, n√£o concorda. Quando, no ver√£o de 2009, seu editor lhe pediu para escrever sobre um crime no bairro de South Park, no sul da cidade, ele n√£o tinha muitos detalhes sobre a hist√≥ria, mas foi a fundo nela. Fez uma mat√©ria. Depois outra. Dois anos depois, outra — pela qual ganhou, em 2012, o Pulitzer de reportagem. E depois, neste ano, um livro, chamado ‚ÄúWhile the City Slept‚ÄĚ, no qual investiga as origens do crime, deixando de lado os detalhes mais horripilantes do crime em si.

Em 2009, um homem com uma faca invadiu a casa em que Jennifer Hopper e sua noiva, Teresa Butz, moravam e durante mais de uma hora as estuprou repetidas vezes. Jennifer foi esfaqueada, mas conseguiu fugir da casa, nua, para pedir socorro aos vizinhos. Ela sobreviveu. Teresa, n√£o. A hist√≥ria chocou as pessoas do bairro, com quem Teresa e Jennifer eram bastante ligadas e era esse luto o foco da primeira reportagem de Sanders. ‚ÄúEnquanto eu trabalhava naquele texto estava acontecendo uma ca√ßa √† pessoa que tinha atacado elas. Quando eu terminei a mat√©ria, Isaiah Kalebu tinha sido preso pelos crimes. Foi assim que comecei. Olhei para o luto, o choque, o alarme no bairro e fiz um retrato breve, da melhor forma que pude, de quem eram Jennifer e Teresa. Depois descrevi a pris√£o do homem que era suspeito de ter atacado as duas‚ÄĚ, conta o jornalista pelo telefone, dos Estados Unidos.

Continuou seguindo o caso de perto depois da pris√£o, e a reportagem seguinte narrava os meses anteriores ao crime na vida de Isaiah Kalebu, sob o t√≠tulo ‚ÄúThe Mind of Kalebu – What the Alleged South Park Killer Was Thinking‚ÄĚ (a mente de Kalebu – o que o suposto assassino de South Park estava pensando). O texto tenta entender como ele chegou √†quele ponto, passando pelas condi√ß√Ķes sociais em que ele cresceu e tamb√©m pela sua sa√ļde mental, humanizando o assassino. √Č um texto dif√≠cil de ler, porque ao tentar decifrar quem era o assassino de Teresa, o que o tinha levado a cometer os crimes, Sanders mostra que se os sistemas de sa√ļde mental e judicial dos Estados Unidos fossem melhores, o estupro das duas e a morte de Teresa poderia ter sido evitados, descoberta que desenvolveu no livro. ‚ÄúTracei um retrato das fendas pelas quais Kalebu escapou, e hoje as entendo melhor. Acho que no livro tentei demonstrar isso com mais profundidade.‚ÄĚ

Os sinais de que Isaiah Kalebu precisava de ajuda come√ßaram na inf√Ęncia, quando um professor percebeu que ele tinha dificuldades na escola, apesar de ser inteligente, e recomendou que ele procurasse um psic√≥logo. Os pais n√£o s√≥ se recusaram a lev√°-lo como o matricularam numa escola religiosa, que era contra interven√ß√£o m√©dica nesses casos. Para a fam√≠lia de Kalebu a solu√ß√£o para problemas mentais n√£o era buscar ajuda. Tudo se resolveria se ele se esfor√ßasse mais, pedir ajuda seria um sinal de fraqueza.

Nos anos seguintes, intensificaram-se os sinais de que ele precisava de tratamento. Em 2008, Kalebu entrou em um pr√©dio comercial com um pitbull, disse que havia comprado o im√≥vel com dinheiro ganho com com√©rcio de a√ß√ļcar, ‚Äúdemitiu‚ÄĚ v√°rias pessoas e se instalou por l√° at√© ser levado a um hospital psiqui√°trico para avalia√ß√£o, onde deu declara√ß√Ķes como ‚Äúeu sou o rei‚ÄĚ. Saiu dali com o diagn√≥stico de que era bipolar e man√≠aco. Entre essa primeira avalia√ß√£o e a morte de Teresa, Kalebu foi preso diversas vezes. Amea√ßou matar a m√£e, brigou com policiais, aterrorizou uma funcion√°ria de um hospital e a tia, que o expulsou de casa — na semana seguinte o im√≥vel pegou fogo e ela morreu (ele era um dos suspeitos). Duas vezes um psic√≥logo do Estado afirmou que ele representava um risco para a sociedade e mesmo assim, menos de uma semana antes da morte de Teresa, um juiz permitiu que ele sa√≠sse do hospital e cuidasse do pr√≥prio tratamento psicol√≥gico, sem acompanhamento.

Isaiah Kalebu com sua advogada no julgamento pela morte de Teresa Butz. Crédito: Mike Siegel/AP Photo
Isaiah Kalebu com sua advogada no julgamento pela morte de Teresa Butz. Crédito: Mike Siegel/AP Photo

O sistema de sa√ļde mental americano, escreveu Sanders no Stranger, √© t√£o criticado quanto mal financiado. ‚ÄúPermitiu que Kalebu seguisse sua vida normal quando deveria ter sido contido, como fica aparente em quase cem p√°ginas de documentos da pol√≠cia e de tribunais que ele gerou nos 16 meses seguintes ao seu exame em Harborview, assim como em v√≠deos de suas numerosas apari√ß√Ķes no tribunal naquele per√≠odo‚ÄĚ, diz sua mat√©ria. Em um julgamento dias antes da morte de Teresa, o promotor n√£o levou em considera√ß√£o passagens mais recentes de Kalebu pela pol√≠cia porque n√£o havia um sistema unificado nos computadores que permitisse que se checasse tudo relacionado a uma determinada pessoa. Se o sistema fosse melhor, ele talvez estivesse preso no dia em que entrou na casa de Jennifer e Teresa.

Tudo isso estava na mente do jornalista quando, em 2011, foi ao julgamento de Kalebu, sem saber ainda se escreveria algo a respeito. ‚ÄúEu me sentia conectado √† hist√≥ria e queria ver no que ia dar. E quando Jennifer deu seu depoimento ficou muito, muito claro para mim que algo precisava ser escrito. Me senti compelido a escrever algo sobre a clareza e a coragem do seu depoimento. Esse texto ganhou o Pulitzer um ano depois‚ÄĚ, conta. No relato, Sanders deixa as partes mais escabrosas daquela noite de lado, para colocar os holofotes na coragem da mulher em contar sua hist√≥ria. Segundo o texto, Jennifer sentou no banco das testemunhas para dizer: ‚ÄúIsso aconteceu comigo. Voc√™s precisam ouvir. Isso aconteceu com a gente. Voc√™s precisam ouvir quem foi perdido. Voc√™s precisam ouvir o que ele fez. Voc√™s precisam ouvir como Teresa lutou contra ele. Voc√™s precisam ouvir o que eu amava nela. Voc√™s precisam ouvir o que ele tirou de n√≥s. Isso aconteceu‚ÄĚ. O texto foi publicado com o t√≠tulo ‚ÄúThe Bravest Woman in Seattle‚ÄĚ (a mulher mais corajosa de Seattle).

O autor n√£o achava que os pormenores da viol√™ncia fossem necess√°rios √† narrativa. Pelo contr√°rio, tinham o potencial de distrair o leitor de seu objetivo, que era contar a hist√≥ria de Jennifer. Seu relato √© poderoso, sem sensacionalismo. ‚ÄúVoc√™ tem que entender o horror do crime para compreender o poder de seu testemunho. Mas √© sobre seu testemunho. Sua coragem, o amor que ela e Teresa tinham, a forma como elas tentaram apelar para a humanidade de Isaiah Kalebu. O custo e as constequ√™ncias das a√ß√Ķes. N√£o achei que precisasse colocar mais horror em algo que j√° era horr√≠vel.‚ÄĚ

‚ÄúEu j√° achava que talvez tivesse um livro ali, porque para todo canto que eu olhava na hist√≥ria tinha indiv√≠duos — Jennifer, Teresa, Kalebu, suas fam√≠lias — cujas vidas tinham li√ß√Ķes importantes. Depois que ganhei o Pulitzer tive a oportunidade de realmente escrever o livro‚ÄĚ, lembra o autor. ‚ÄúSenti uma responsabilidade de tirar li√ß√Ķes √ļteis do que foi uma trag√©dia terr√≠vel. N√£o vi um motivo para seguir com isso a n√£o ser que tivesse um prop√≥sito. Espero que tenha alcan√ßado isso.‚ÄĚ

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Depois do julgamento, em que Kalebu foi condenado √† pris√£o perp√©tua, Jennifer se aproximou de Sanders, escrevendo com a ajuda dele um texto para o Stranger. Quando a oportunidade de escrever um livro se concretizou, buscou tamb√©m as fam√≠lias de Teresa e Kalebu. ‚ÄúNormalmente, como jornalista, tenho prazos muito definidos. Nesse caso eu tinha muito tempo para dizer, ok, agora n√£o √© uma boa hora para a gente falar disso, talvez a gente possa se falar em uma semana, ou um m√™s. Podemos falar um pouco agora e um pouco depois. Essa quest√£o do tempo foi fundamental para minha habilidade de trabalhar com todas as pessoas envolvidas.‚ÄĚ

Essa falta de tempo na vida de um jornalista explica, em sua opini√£o, por que a cobertura de crimes na imprensa n√£o explora as causas do crime. ‚ÄúMas √© importante que fa√ßamos isso quando podemos. √Č importante que empresas de m√≠dia coloquem recursos nesse tipo de trabalho quando podem. √Č caro, em termos do tempo de um rep√≥rter, mas acho que √© mais esclarecedor do que s√≥ cobrir os detalhes do crime, o julgamento e o veredito e pronto‚ÄĚ, opina. ‚Äú√Č como se fal√°ssemos pras pessoas que o crime come√ßa quando √© cometido e termina com o veredito. Isso √© um epis√≥dio da s√©rie ‚ÄėLaw & Order‚Äô, n√£o √© a vida. Acho que o crime come√ßa antes e suas consequ√™ncias permanecem muito tempo ap√≥s o julgamento.‚ÄĚ

Segundo Sanders, os Estados Unidos gastam muito mais dinheiro construindo pres√≠dios do que investindo em sa√ļde mental. ‚ÄúChegamos num ponto em que h√° dez vezes mais pessoas com doen√ßas mentais em cadeias do que em hospitais no pa√≠s. Est√° de ponta-cabe√ßa, √© um uso muito ruim de recursos‚ÄĚ, afirma. ‚ÄúH√° d√©cadas falhamos em prestar aten√ß√£o na sa√ļde mental das pessoas, no sistema criminal e nas necessidades individuais das pessoas.‚ÄĚ O sistema criminal, diz, n√£o est√° na pauta de nenhum dos candidatos √† elei√ß√£o presidencial americana, que ser√° realizada neste ano. ‚ÄúPol√≠ticos √†s vezes falam disso logo que crimes acontecem. Mas mesmo assim n√£o √© uma conversa muito esclarecedora‚ÄĚ, diz. ‚ÄúQuem est√° seguindo as elei√ß√Ķes deste ano v√™ que falam de um carnaval de outras quest√Ķes. Mas disso, n√£o.‚ÄĚ

Ele ressalta que a grande maioria das pessoas que vivem com doen√ßas mentais n√£o s√£o violentas. Pelo contr√°rio, h√° mais chances de que elas sejam v√≠timas de crimes do que respons√°veis por eles. ‚ÄúN√£o acho que um leitor cuidadoso v√° ler meu livro e terminar pensando que pessoas com doen√ßas mentais sejam todas violentas e criminosas em potencial. Se voc√™ pensar um pouco, v√™ que isso √© um pouco rid√≠culo. ‚ÄėDoen√ßas mentais‚Äô, em primeiro lugar, √© um termo casual muito amplo sobre o qual nem h√° um consenso. Engloba tudo desde uma ansiedade leve √† esquizofrenia. Acho que qualquer um que parar pra pensar vai perceber o qu√£o louco √© dizer que qualquer um que viva algo que chamamos de doen√ßa mental seja violento.‚ÄĚ

√Č s√≥ importante que para casos como os de Isaiah Kalebu, que tinha um hist√≥rico de viol√™ncia, o tratamento correto seja dado o quanto antes. Contar hist√≥rias como essa e aprofundar-se nas ra√≠zes do crime, em sua opini√£o, ajuda as pessoas a prestar mais aten√ß√£o na origem da viol√™ncia e a entender que o problema n√£o se resolve s√≥ com pres√≠dios. ‚ÄúEsse √© nosso trabalho como jornalistas. As pessoas n√£o est√£o ouvindo dos pol√≠ticos. Temos que tentar fazer nossa parte.‚ÄĚ N√£o era seu sonho, quando come√ßou a carreira, escrever sobre crimes. ‚ÄúMas minha trajet√≥ria me levou at√© aqui. Desenvolvi com o tempo o sentimento de que h√° mais coisas em hist√≥rias de crimes do que d√° pra contar nas mat√©rias pequenas que escrevia. Vi nesse livro uma oportunidade de contar uma hist√≥ria mais abrangente e, espero, oferecer algum significado e li√ß√Ķes.‚ÄĚ

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‘Missoula’: quest√Ķes essenciais sobre o estupro

Mesmo depois da circula√ß√£o de um v√≠deo em que uma adolescente de 16 anos est√° nua e desacordada enquanto um grupo de homens no Rio de Janeiro diz que ela foi estuprada por mais de 30, o delegado que comandava as investiga√ß√Ķes afirmou que a pol√≠cia n√£o podia ‚Äúser leviana de comprar a ideia de estupro coletivo‚ÄĚ quando, na verdade, n√£o se sabia realmente o que tinha acontecido. O caso √© ilustrativo de como √© dif√≠cil acusar algu√©m de estupro — nem um v√≠deo √© suficiente para que a v√≠tima conven√ßa o mundo de que est√° falando a verdade. O caso √© da semana passada, no Brasil, mas encontra paralelo nas v√°rias hist√≥rias contadas por Jon Krakauer, autor de ‚ÄúNa Natureza Selvagem‚ÄĚ, em ‚ÄúMissoula‚ÄĚ, livro americano do ano passado lan√ßado h√° um m√™s aqui. O tempo passa, o cen√°rio muda, mas as hist√≥rias contadas por Krakauer poderiam muito bem estar acontecendo aqui e agora.

Segundo o autor, o livro nasceu de seu choque com a descoberta de que uma amiga sua havia sido estuprada duas vezes durante a adolesc√™ncia — uma delas por um amigo da fam√≠lia. Envergonhado por saber t√£o pouco sobre o trauma provocado por esse tipo de viol√™ncia, come√ßou a pesquisar. Deparou-se, ent√£o, com o caso de Allison Huguet, estuprada pelo amigo de inf√Ęncia Beau Donaldson na cidade americana Missoula, no Estado de Montana. Como no caso de sua amiga, Allison n√£o havia sido atacada por um psicopata escondido nos arbustos numa rua deserta: quem a violentou foi algu√©m pr√≥ximo, que ela considerava como da fam√≠lia. As duas n√£o s√£o exce√ß√£o. Pelo contr√°rio: segundo dados do Departamento de Justi√ßa dos Estados Unidos, a cada cinco estupros, quatro s√£o cometidos por conhecidos da v√≠tima.

Krakauer comprovou isso empiricamente. S√≥ em Missoula, sede da Universidade de Montana, encontrou v√°rios outros casos de estudantes universit√°rias estupradas por colegas, amigos pr√≥ximos ou aqueles caras que voc√™ conhece numa festa e que parecem super legais e esclarecidos at√© n√£o serem mais. Ainda sem saber que aquilo seria um livro, o escritor foi at√© a cidade acompanhar o julgamento de Beau. ‚ÄúO que foi interessante a respeito de Allison foi que era um caso que era uma barbada e ela teve que lutar tanto. Foi t√£o traumatizante para ela fazer com que os promotores levassem o caso a s√©rio e n√£o dessem apenas uma palmadinha no cara‚ÄĚ, disse ele em uma conversa com blogueiras feministas em Nova York. ‚ÄúPensei que era uma das partes mais interessantes do livro, ver como era dif√≠cil at√© em um caso desses conseguir presta√ß√£o de contas, justi√ßa, retribui√ß√£o, como voc√™ quiser chamar. Pareceu √≥bvio, ent√£o, que uma vez que eu fiquei sabendo de Allison eu deveria escrever sobre essa s√©rie de ataques.‚ÄĚ

missoula capa

Com base em entrevistas com os envolvidos, documentos judiciais e gerados por processos disciplinares universit√°rios, e-mails, boletins de ocorr√™ncia e transcri√ß√Ķes de audi√™ncias, Krakauer faz um retrato bastante representativo das dificuldades enfrentadas por quem denuncia um estupro. A hist√≥ria come√ßa e termina com Allison, que foi a uma festa na casa de um amigo, bebeu e caiu no sono no sof√° da sala, pensando estar segura. Acordou com Beau, seu melhor amigo, penetrando sua vagina por tr√°s com o p√™nis. Com medo de ser mais machucada caso se debatesse — jogador de futebol americano, Beau pesava mais de cem quilos ante os menos de 60 de Allison –, fingiu continuar dormindo. Quando o ataque terminou, ela fugiu correndo, descal√ßa e com a cal√ßa aberta (ele havia arrancado o bot√£o e destru√≠do o z√≠per). A m√£e a resgatou e a levou¬†a um hospital coletar um kit de estupro — quando foi ‚Äúpraticamente estuprada de novo‚ÄĚ, com todas as √°reas √≠ntimas vasculhadas por estranhos durante horas.

As consequências daquela noite foram sentidas por muito tempo. Allison ouviu boatos maldosos a seu respeito, teve dificuldades em retomar os estudos e foi hostilizada pela cidade, que idolatrava o time de futebol, quando decidiu denunciá-lo para a polícia, mais de um ano depois. Até seus amigos a chamaram de puta mentirosa e disseram que ela só queria chamar a atenção, como se ganhar a fama de mulher estuprada fosse algo a ser almejado.

Com a ajuda de um detetive, ela conseguiu gravar uma confiss√£o de Beau, mas mesmo assim o promotor encarregado do caso disse que iria brigar por uma pena branda, que poderia nem ter tempo de pris√£o. O fato de que ele n√£o tinha antecedentes criminais e de que tinha um futuro promissor pela frente, por exemplo, contariam a favor de Beau — afinal, ele era¬†estuprador arrependido da casa ao lado, n√£o o psicopata com uma faca. O¬†melhor a fazer, segundo o promotor, era n√£o brigar muito e se contentar com a pena que o r√©u estivesse disposto a aceitar.

Allison representa boa parte das dificuldades encontradas por quem √© v√≠tima de estupro: a dificuldade que √© passar pela coleta do kit de estupro e fazer a den√ļncia, as consequ√™ncias psicol√≥gicas n√£o superadas (‚Äúa senten√ßa dele √© de anos, a minha √© para a vida inteira‚ÄĚ, diz ela em um ponto do julgamento), a desconfian√ßa de todos — da pol√≠cia aos amigos –, a culpabiliza√ß√£o pela viol√™ncia que sofreu, os xingamentos recebidos. √Č particularmente triste que o seu seja o caso ‚Äúfeliz‚ÄĚ do livro: Beau foi preso, mas quase escapou, mesmo que tenha confessado o crime. Outros ataques narrados no livro sa√≠ram impunes, em relatos t√£o pesados quanto importantes.

O autor Jon Krakauer. Crédito: Linda Moore/Divulgação
O autor Jon Krakauer em foto de divulgação de 2003. Crédito: Linda Moore

Outra estudante, por exemplo, foi estuprada por cinco jogadores de futebol americano da universidade depois de beber numa festa, perdendo e recobrando a consci√™ncia repetidas vezes enquanto eles se revezavam para fazer sexo com ela durante duas horas. Assim como Allison, ela realizou exames que atestaram seus machucados e fez a den√ļncia √† pol√≠cia. Os detetives, por√©m, duvidaram de seu relato com os motivos cl√°ssicos para questionar a v√≠tima. Ela n√£o teria tra√≠do o namorado e inventado que tinha sido estuprada por ter se arrependido depois? Ser√° que os homens n√£o tinham achado, por algum motivo, que aquilo era consensual? Ser√° que ela n√£o se enganou sobre o que aconteceu? No fim das contas, o detetive respons√°vel concluiu que n√£o havia ‚Äúcausa prov√°vel para oferecer den√ļncia contra nenhum dos envolvidos no incidente‚ÄĚ. Afinal, era a palavra dela contra a de cinco.

Qualquer semelhan√ßa com o caso da adolescente estuprada por 30 homens no Rio n√£o √© mera coincid√™ncia. Segundo ‚ÄúMissoula‚ÄĚ, pelo menos 80% dos estupros n√£o s√£o denunciados e uma pequena parcela dessas den√ļncias resulta em condena√ß√£o. ‚ÄúH√° uma mitologia de que mulheres mentem sobre terem sido estupradas. Algumas mulheres mentem — entre dois e 10% segundo pesquisas. Muitos estudos dizem isso. √Č um n√ļmero pequeno, n√£o muito diferente dos outros crimes‚ÄĚ, disse Krakauer em entrevista √† NPR. ‚ÄúA diferen√ßa √© que nos outros crimes n√£o se assume que a v√≠tima est√° mentindo. Voc√™ acredita na palavra da v√≠tima. As v√≠timas de estupro s√£o tratadas de um jeito diferente do que as de outros crimes. O livro √© um olhar de perto sobre o que √© ser v√≠tima de estupro: a dor e os obst√°culos pelos quais voc√™ passa para conseguir qualquer tipo de justi√ßa.‚ÄĚ

‚ÄúMissoula‚ÄĚ tem o nome de uma pequena cidade americana, mas √© sobre muito mais do que ela. Vem √† mem√≥ria, por exemplo, a den√ļncia de alunas da USP de estupros em festas promovidas na faculdade de medicina e a exist√™ncia de uma cultura machista nos trotes universit√°rios. Segundo elas, n√£o s√≥ as den√ļncias n√£o eram investigadas pela faculdade como elas ainda eram perseguidas pelos colegas, que as chamavam de mentirosas — como v√°rias personagens do livro.

‚Äú√Č sist√™mico pra caramba. Missoula √©, infelizmente, um caso t√≠pico. Tem bons policiais e promotores, mas at√© mulheres detetives t√™m essa sensa√ß√£o de resigna√ß√£o, tipo‚Ķ Voc√™ sabe que os promotores n√£o v√£o atr√°s desse cara, por que vamos gastar nosso tempo? Literalmente, se eles n√£o t√™m uma confiss√£o nem levam √† justi√ßa. Temos um longo, longo caminho pela frente‚ÄĚ, disse Krakauer no ano passado.

Meticuloso, ‚ÄúMissoula‚ÄĚ √© uma leitura importante, n√£o s√≥ nesta semana, em que houve grande repercuss√£o de um caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro. √Č importante porque acontece sempre, uma vez a cada 11 minutos no Brasil — como a maioria dos casos n√£o √© registrado, o n√ļmero deve ser ainda maior. Enquanto 30 homens violentarem uma mulher sem que um s√≥ se manifeste, enquanto as pessoas duvidarem das v√≠timas, enquanto disserem “ningu√©m merece ser estuprado, mas…”, precisaremos discutir o estupro. Precisamos discutir o estupro. E as quest√Ķes que “Missoula” levanta s√£o fundamentais.

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Um livro, mil p√°ginas e 2 milh√Ķes de d√≥lares

O ponto de partida da hist√≥ria de Garth Risk Hallberg √© razoavelmente comum. Rapaz de 20 e poucos anos pega um √īnibus para Nova York, tem uma ideia, resolve transform√°-la num livro, que escreve nas horas vagas enquanto ganha a vida com um trabalho mais tradicional. O desfecho, por√©m, √© inusitado. Em vez de parar na gaveta, o livro, um calhama√ßo de mais de mil p√°ginas (na edi√ß√£o em portugu√™s — a americana tem ainda impressionantes 900 e muitas p√°ginas), foi disputado por v√°rias editoras num leil√£o que terminou em 2 milh√Ķes de d√≥lares. Para um autor que nunca tinha publicado um romance. E que ainda vendeu os direitos para o cinema. Para Scott Rudin, produtor de filmes como ‚ÄúA Rede Social‚ÄĚ e ‚ÄúOnde os Fracos N√£o T√™m Vez‚ÄĚ.

‚ÄúCidade em Chamas‚ÄĚ, lan√ßado no Brasil neste m√™s pela Companhia das Letras, apresenta uma cole√ß√£o variada de personagens, com diferentes cap√≠tulos mostrando os pontos de vista de cada um ao longo de v√°rios anos, com pequenos interl√ļdios (cartas, trechos de revistas, e-mails e escritos dos personagens). No centro da hist√≥ria est√£o William e Regan Hamilton-Sweeney, irm√£os que fazem parte de uma rica fam√≠lia cuja vida muda ap√≥s o pai se casar¬†com uma mulher ruim que tem um irm√£o ainda pior — como indica o apelido ‚Äúirm√£o demon√≠aco‚ÄĚ, pelo qual ele √© chamado em boa parte da hist√≥ria. Em torno deles gira uma lista extensa de personagens, como um professor negro e gay, uma jovem fot√≥grafa e o amigo apaixonado por ela, um grupo de punks adeptos do ‚Äúp√≥s-humanismo‚ÄĚ, um jornalista, a funcion√°ria de uma galeria e por a√≠ vai.

Com uma grande rela√ß√£o de personagens vem uma grande rela√ß√£o de temas e tramas, passando pela cena da m√ļsica punk em Nova York no fim dos anos 1970, o ativismo da esquerda, quase todos os tipos de problemas familiares imagin√°veis e uma hist√≥ria policial que culmina no blecaute que atingiu a cidade americana entre 13 e 14 de julho de 1977. Hallberg mostra que seus interesses s√£o variados assim que atende ao telefone, no escrit√≥rio da editora Penguin em Barcelona, onde est√° h√° alguns meses. ‚ÄúEstava lendo agora sobre o seu pa√≠s!‚ÄĚ, diz, empolgado, dois dias depois de a C√Ęmara brasileira ter autorizado a abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Sobre a situa√ß√£o pol√≠tica? ‚Äú√Č claro. Fico feliz que voc√™ tenha um minuto para conversar sobre cultura‚ÄĚ, diz ele (meia hora adiante na entrevista ele far√° uma rela√ß√£o inesperada entre a situa√ß√£o do Brasil e seu livro). ‚ÄúCidade em Chamas‚ÄĚ j√° nasceu assim, conta ele: n√£o como uma ideia simples, e sim com pol√≠tica, cultura e hist√≥ria entrela√ßados.

Capa do livro 'Cidade em Chamas'
Capa do livro ‘Cidade em Chamas’

PR√ďLOGO

‚ÄúPor mais estranho que pare√ßa, todas as coisas que voc√™ mencionou [uma lista que inclu√≠a diversos personagens, o real blecaute em Nova York e os tiros que um dos personagens recebe na primeira parte do livro] chegaram at√© mim fundidas no ver√£o de 2003 no espa√ßo de tr√™s minutos‚ÄĚ, conta ele. Mas essa trama tem um pr√≥logo e, como mostra no livro, Hallberg √© um contador de hist√≥rias que n√£o poupa detalhes em nome da concis√£o e volta ainda mais no tempo para tentar explicar as ideias por tr√°s da ideia. Tudo come√ßa em Nova York, que (com o perd√£o do clich√™) √© quase um personagem da hist√≥ria. Desde os 17, em meados dos anos 90, Hallberg, nascido na Carolina do Norte, sonhava em morar l√°. Mas as circunst√Ęncias nunca permitiam. Antes de ir para l√°, foi morar em Washington DC, onde sua ent√£o namorada, com quem se casou mais tarde, foi estudar, j√° que n√£o conseguia bancar a universidade em Nova York.

[olho]”Quem poderia dizer que Nova York esperaria pra sempre? A cidade estava l√° agora, precis√°vamos ir”[/olho]

Era l√° que eles estavam no 11 de Setembro. ‚ÄúFoi, para tanta gente, um acontecimento muito traum√°tico. A escala daquilo. A vis√£o do assassinato em massa e da destrui√ß√£o da cidade que sempre prometeu tanto pra mim e pra tantas pessoas, por diferentes motivos. Houve um momento naquele dia, quando Washington estava sob ataque, em que voc√™ simplesmente n√£o sabia o que estaria de p√© no final‚ÄĚ, lembra. Embora traumatizantes, os atentados de 2001 tamb√©m foram esclarecedores para ele. Nos 18 meses seguintes, notou como uma solidariedade tomou conta de Washington e passou, enquanto o sentimento persistiu em Nova York. Logo ele voltou a fazer viagens para a cidade, a poucas horas de onde morava, assim como fazia no colegial. ‚ÄúEra uma √©poca estranha. Tinha uma grande vulnerabilidade e tamb√©m uma grande sensa√ß√£o de possibilidade, de claridade machucada. No ver√£o de 2003 minha mulher e eu decidimos que t√≠nhamos que nos mudar. Era a hora. Quem poderia dizer que Nova York esperaria pra sempre? A cidade estava l√° agora, precis√°vamos ir.‚ÄĚ

Chegando a Nova York de √īnibus para procurar um apartamento, reviveu a sensa√ß√£o que tinha quando adolescente ao ver a cidade no horizonte, em que seu cora√ß√£o ‚Äúmeio que se iluminava‚ÄĚ — experi√™ncia que deu a Mercer, um dos personagens do livro. ‚ÄúSenti que a cidade estava falando comigo e dizendo ‚Äėvoc√™ conseguiu, est√° aqui. √Č a aqui que voc√™ pertence, com todas essas pessoas que n√£o encontram uma sensa√ß√£o de pertencimento em nenhum outro lugar‚Äô.‚ÄĚ Mas algo tinha mudado: as Torres G√™meas j√° n√£o estavam ali e a paisagem era diferente. Naquela hora, o iPod em modo aleat√≥rio tocou a m√ļsica ‚ÄėMiami 2017‚Äô, de Billy Joel, sobre uma Nova York em chamas durante um blecaute, escrita no meio dos anos 70, ‚Äú√©poca dos discos da Patti Smith, poesia de vanguarda, filmes de Scorsese e milh√Ķes de outras coisas‚ÄĚ.

‚Äú[A m√ļsica √©] sobre uma sensa√ß√£o de uma sociedade na beira do abismo. Imagino que voc√™ entenda isso neste momento‚ÄĚ, diz ele, na primeira refer√™ncia ao Brasil. Billy Joel canta do ponto de vista de algu√©m do futuro, que se mudou para a Fl√≥rida para fugir da destrui√ß√£o de Nova York nos anos 1970. ‚ÄúMas ele canta com uma estranha tristeza, como se algo tivesse se perdido na vontade das pessoas de fugir do risco, da vulnerabilidade, do perigo e do sofrimento invis√≠vel. Elas tamb√©m fugiram de algo que √© necess√°rio para uma vida com significado. Eu estava olhando para a cidade no horizonte, ouvindo essa m√ļsica, e pensei: ‚ÄėAquela √©poca √©, de alguma forma, essa √©poca‚Äô. A gente tamb√©m estava num momento de escolha entre, de um lado, seguran√ßa e ordem, que s√£o coisas √≥timas, e, do outro, liberdade, possibilidade e consci√™ncia.‚ÄĚ

Esse era o livro, pensou. ‚ÄúComecei a visualizar os personagens. Tem esse banqueiro andando, ele est√° com problemas, algu√©m faz uma oferta que ele n√£o pode recusar. Em outro lugar algu√©m levou um tiro e est√° no hospital. Tem esses garotos vindo de Long Island. Met√°foras, imagens, acontecimentos. Provavelmente s√≥ uns 3% do que virou o livro, mas muitas das coisas essenciais‚ÄĚ, afirma. ‚ÄúFoi uma sensa√ß√£o de calor e fus√£o, como o universo um segundo depois do Big Bang, quando ainda n√£o tinha esfriado e se organizado. Foi uma sensa√ß√£o poderosa de possess√£o que eu tive. Pra ser honesto, fiquei com medo.‚ÄĚ

[olho]”Foi uma sensa√ß√£o poderosa de possess√£o que eu tive. Pra ser honesto, fiquei com medo‚ÄĚ[/olho]

Mesmo ambientada nos anos 70, a trama √© atual e n√£o tem uma cara de √©poca. ‚ÄúEra muito importante para mim, por uma raz√£o que n√£o consigo especificar, que n√£o fosse um romance hist√≥rico‚ÄĚ, diz ele. ‚ÄúClaro que voc√™ pode ler Hilary Mantel [autora de uma s√©rie de livros sobre a era do rei Henrique VIII] e aprender muito sobre os dias de hoje, sobre pol√≠tica, entre outras coisas. Mas, para mim, esse livro era um romance contempor√Ęneo. Eu senti que tudo que era urgente pra mim em 2001, e 2003 e 2007 queria se expressar dessa forma. A crise financeira, os ataques terroristas, o retorno da hist√≥ria ao solo americano, de certa forma, e o que parece ser uma era global de ansiedade.‚ÄĚ

Hallberg, nascido em 1978, tamb√©m sentia que conhecia aquela √©poca, mesmo que n√£o a tenha vivido. Em sua cabe√ßa, os anos 70 em Nova York se misturavam com os sinais apagados de delicatessens e o entretenimento na rua que via quando era adolescente, nos anos 90. ‚ÄúTinha algo na textura daquele tempo, um qu√™ de um grande cataclisma no passado que capturou minha imagina√ß√£o. O c√©rebro de um escritor √© uma estranha coisa estranha e danificada que‚Ķ Voc√™ se apega a peda√ßos de coisas e n√£o sabe o porqu√™, mas eles ficam flutuando no fundo da sua cabe√ßa. Dirigindo ouvindo Patti Smith‚Ķ Eu tinha uma sensa√ß√£o poderosa de ‚Äėconhe√ßo esse mundo‚Äô.‚ÄĚ Se fizesse pesquisas e descobrisse que algo que imaginou estava errado, o √≠mpeto de fazer fic√ß√£o poderia se perder. Ou ele poderia se sentir obrigado a usar os fatos coletados. ‚ÄúEu queria espa√ßo para coisas imagin√°rias ou anacr√īnicas‚ÄĚ, diz.

Como pesquisa mais formal, fez duas coisas. A primeira foi conversar com pessoas que tinham vivido os anos 70 e o blecaute em Nova York, bem informalmente, sem contar que ia usar aquilo num livro. ‚ÄúAs pessoas tinham mem√≥rias incrivelmente novelescas, detalhadas. Assim eu soube que minha intui√ß√£o sobre aquele momento estava certa. Ficou preso na cabe√ßa das pessoas. Parte das pessoas n√£o se lembrava de nada dos anos 80, mas sabia onde estava quando as luzes se apagaram.‚ÄĚ E durante um ver√£o, para mergulhar de vez no universo do livro, ia √† biblioteca ler o jornal daquele mesmo dia em 1976 ou 1977 em vez de ler as not√≠cias atuais. ‚ÄúQueria coisas objetivamente verdadeiras, mas queria que elas estivessem l√° a servi√ßo da fic√ß√£o.‚ÄĚ

PRIMEIRO CAP√ćTULO

No dia em que teve a ideia do livro, Hallberg escreveu s√≥ uma p√°gina. Por algum motivo, mesmo que sentisse uma esp√©cie de eletricidade, achou que n√£o conseguiria continuar. ‚ÄúEu tinha 24 anos, era um ningu√©m. N√£o me parecia alguma coisa que as pessoas faziam aos 24. Coloquei a p√°gina na gaveta e pensei que talvez voltasse a ela em dez anos‚ÄĚ, conta. Voltou em quatro, depois do universo do livro n√£o deixar sua cabe√ßa. Foram mais tr√™s anos e meio escrevendo. Boa parte desse tempo foi gasto tentando encontrar as conex√Ķes entre as cenas que tinha imaginado l√° atr√°s. ‚ÄúEu n√£o queria planejar tudo antes, porque achei que ia virar uma m√°quina em vez de uma √°rvore. Queria algo an√°rquico, mas org√Ęnico. Fiquei no escuro, trabalhando com tentativa e erro. A hist√≥ria foi pra muitos lugares que eu n√£o esperava.‚ÄĚ

[olho]”O √ļnico jeito de eu fazer era desencanar da ideia de publicar e s√≥ ouvir o que o livro queria”[/olho]

A √ļnica certeza era de que o cl√≠max seria o blecaute. De qualquer forma, durante a escrita ele sentia que aquilo tudo era impublic√°vel. ‚ÄúPor causa do tamanho e da loucura toda. Ainda acho que √© um livro pouco usual de v√°rias formas. Era um projeto imposs√≠vel. O √ļnico jeito de eu fazer era desencanar da ideia de publicar e s√≥ ouvir o que o livro queria — sempre tem um leitor imagin√°rio no quarto com voc√™. Eu achava que era um cara de 20 e poucos anos sem o talento pra fazer isso e todo o mundo dizia que a aten√ß√£o das pessoas est√° diminuindo. Como isso iria pras livrarias?‚ÄĚ Hallberg procurou n√£o dar ouvidos a quem falava que hoje as pessoas s√≥ querem saber do que d√° pra ler em 140 caracteres. ‚ÄúPensei que, bom, se eu vou passar a vida fazendo isso, devo tentar fazer algo que eu sempre amei.‚ÄĚ No caso: livros que, independente do tamanho e do tema, fa√ßam com que voc√™ leia r√°pido, que te arrastem para seu universo. ‚ÄúComo ‚Äė√Āgua Viva‚Äô, da Clarice Lispector, que √© um tipo¬†de livro¬†bem diferente‚ÄĚ, exemplifica.

Entre as cria√ß√Ķes mais desenvolvidas por Hallberg est√° o grupo que se autodenomina P√≥s-Humanistas. S√£o m√ļsicos e frequentadores da cena punk que moram juntos numa grande rep√ļblica no oeste de Manhattan e colocam fogo em pr√©dios da cidade como ato pol√≠tico. ‚ÄúUma coisa que peguei desse per√≠odo nos Estados Unidos, de modo geral, e em Nova York especificamente, foi essa erup√ß√£o de viol√™ncia, que era uma extens√£o l√≥gica dos sonhos ut√≥picos dos anos 60, com os quais simpatizo profundamente, mas tamb√©m uma trai√ß√£o desses sonhos. Embora d√™ pra entender as frustra√ß√Ķes das pessoas, suas a√ß√Ķes tornaram a pol√≠tica imposs√≠vel‚ÄĚ, diz, citando grupos com o Weather Underground, um grupo militante de esquerda que colocava bombas em pr√©dios do governo e bancos para protestar, entre outras coisas, contra a¬†guerra do Vietn√£.

‚ÄúAs pessoas estavam muito frustradas com o ritmo lento do progresso em dire√ß√£o √† utopia e come√ßaram a fazer coisas que eram profundamente anti-ut√≥picas. Injustas, maldosas. E justificavam isso para elas mesmas. Mas n√£o pode haver conversas at√© que todo o mundo concorde em parar de matar. Esse tipo de a√ß√£o levou aos anos 80, √©poca em que cresci, que afastou as pessoas das demandas justas dos anos 60. Criou-se um tipo de ideologia reacion√°ria‚ÄĚ, afirma. Parte da raz√£o pela qual est√° interessado na situa√ß√£o do Brasil hoje, diz, √© seu interesse pelas lutas ideol√≥gicas. A esquerda reagindo √† direita, que reage √† esquerda, que reage √† direita, num ciclo sem fim. ‚ÄúEstou digredindo. H√° algo no nome p√≥s-humanismo que √© importante pra mim, porque promete ir al√©m do humanismo. Mas tamb√©m implica em dizer que n√£o somos mais humanistas, que n√£o assinamos embaixo das antigas no√ß√Ķes de dignidade humana, de direitos humanos, como se v√≠ssemos isso como coisas ideol√≥gicas.‚ÄĚ

PERSONAGENS E EMPATIA

Em meio aos muitos personagens do livro, n√£o h√° her√≥is. Hallberg diz que em seu trabalho a empatia √© fundamental. ‚ÄúEmpatia n√£o √© o ato f√°cil de identificar algu√©m igual a mim. √Č o ato mais desafiador de ver a outra pessoa com todas suas falhas e particularidades e ainda ver que, nas m√£os de um autor diferente, ela poderia ser eu e eu poderia ser ela. √Č uma luta di√°ria na vida pra se sentir assim em rela√ß√£o √†s pessoas que voc√™ encontra e √© uma luta com os personagens do romance.‚ÄĚ

A figura mais pr√≥xima do vil√£o √© o ‚Äúirm√£o demon√≠aco‚ÄĚ, que aparece menos na hist√≥ria, mas se relaciona com v√°rios dos personagens de alguma forma. ‚ÄúEu queria que houvesse um antagonista no livro‚ÄĚ, diz o autor. ‚ÄúPra ser totalmente honesto, me inspirei no vice-presidente americano Dick Cheney‚ÄĚ, completa, rindo. O personagem n√£o √© nebuloso s√≥ para os leitores, mas tamb√©m para o autor. ‚ÄúEle √© um enigma. Quando eu tentava entrar nele, n√£o conseguia. √Č como tentar abrir uma ostra com a unha‚ÄĚ, diz. ‚ÄúN√£o sei se fico feliz ou n√£o por algo ter escapado do meu controle no livro. √Č uma coisa bem estranha. Conversei com outros escritores e tem algo sobre escrever fic√ß√£o: quando voc√™ est√° realmente fazendo isso, quando est√° no projeto certo, voc√™ quer que pare√ßa um pouco imposs√≠vel. Voc√™ sempre quer que seja algo que voc√™ seja incapaz de fazer.‚ÄĚ

No processo de escrita, Hallberg diz que se sente como todos os personagens, mas ao mesmo tempo n√£o √© nenhum deles. ‚ÄúTodos t√™m partes de mim dentro deles, ent√£o todos s√£o, de algum jeito, autobiogr√°ficos. Mas tamb√©m s√£o todos muito diferentes de mim, desconhecidos correndo no escuro‚ÄĚ, reflete. ‚ÄúH√° momentos em que estamos muito com n√≥s mesmos, mas muito com outras pessoas. Ler poesia √© um desses momentos. Olhar para pinturas. Sexo. Usar alguns tipos de drogas. Um longo casamento. Criar os filhos. Hoje meu filho subiu na minha cama, ainda estava escuro, e por um momento eu senti que poderia ver o mundo pelos olhos dele. Lembrei da experi√™ncia que eu sabia que ele estava tendo‚ÄĚ, diz. O ponto ideal √© atingido quando se misturam numa hist√≥ria as experi√™ncias pessoais do autor com a dos outros. Uma fus√£o de John Lennon e suas can√ß√Ķes pessoais com Paul McCartney e suas letras sobre personagens imagin√°rios. ‚ÄúEles nunca foram t√£o bons s√≥s quanto foram juntos‚ÄĚ, opina. ‚Äú√Äs vezes John Lennon escreve t√£o bem porque fala sobre si como se fosse outra pessoa. √Äs vezes McCartney escreve lindamente sobre outras pessoas porque escreve quase como se elas fossem ele.‚ÄĚ

Essa vis√£o de Hallberg sobre a escrita como forma de empatia est√° enraizada em ‚ÄúCidade em Chamas‚ÄĚ, em que a frase ‚Äúeu te vejo, voc√™ n√£o est√° s√≥‚ÄĚ se repete e funciona como uma esp√©cie de s√≠ntese da hist√≥ria toda. Anos atr√°s, escreveu um artigo para o New York Times no qual tentava entender porque as pessoas escrevem fic√ß√£o. Para alguns autores, escreveu ele, a fic√ß√£o mostra que n√£o estamos sozinhos. ‚ÄúAchei que era uma vis√£o ao mesmo tempo bonita e vaga. Escrever pode ser algo muito altru√≠stico ou muito narcisista. Fic√ß√£o pode ser boa para mim porque faz com que eu me sinta menos sozinho. Ou pode me lembrar de que h√° outras pessoas no mundo e que tenho que olhar para al√©m de mim. Boa fic√ß√£o √© isso, mas tamb√©m √© mais. √Č ganhar a sensa√ß√£o de n√£o estar sozinho ao ser for√ßado a praticar a empatia em vez de demandar empatia dos outros‚ÄĚ, diz.

Ele escreve para explorar o mist√©rio que s√£o os outros, uma das grandes oportunidades que viver em cidades grandes te d√°. Na maior parte do tempo, diz, passamos pelos outros como se fossem obst√°culos, s√≥ queremos que eles saiam da nossa frente na escada do metr√ī. Mas h√° momentos, principalmente em √©pocas de crise, em que voc√™ percebe o quanto cada vida vale. Quando voc√™ v√™, por exemplo, algu√©m chorando falando ao celular. ‚Äú√Č uma experi√™ncia muito urbana, de se sentir sobrecarregado pela preocupa√ß√£o com o outro a ponto de esquecer de si por um momento. Eu queria que o livro tivesse isso. E no fim percebi que tudo me levava para essa frase [‚Äúeu te vejo, voc√™ n√£o est√° sozinho‚ÄĚ]. Eu tentei articular isso no texto para o jornal, mas n√£o consegui expressar isso direito fora da fic√ß√£o‚ÄĚ, afirma.

LUZ E SOMBRA

Al√©m de romancista, Hallberg foi poeta (sem muito talento, afirma) e tamb√©m √© cr√≠tico liter√°rio. Come√ßou escrevendo para o blog de um amigo e chamou a aten√ß√£o de revistas, que passaram a encomendar textos seus. Fic√ß√£o sempre foi o sonho, mas acabou esbarrando na cr√≠tica e precisava pagar o aluguel. Ler resenhas de outros escritores sobre seu pr√≥prio livro, por√©m, √© o caminho pra ficar louco, diz. No final de um livro √© preciso se desapegar. ‚ÄúAcho que para conseguir se desprender do seu livro e abrir espa√ßo emocional para outro projeto, e para manter a habilidade de desaparecer no seu trabalho, ajuda mais n√£o ouvir o que as pessoas est√£o dizendo. Seja bom ou ruim. Quase n√£o importa se falam bem ou mal, no fim o efeito √© o mesmo: ajudar voc√™ a fingir que n√£o tem que se desapegar da sua obra.‚ÄĚ

Tamb√©m n√£o ajuda estar sob os holofotes como esteve no fim do ano passado, quando revistas como Vogue e New York escreveram seu perfil perto¬†da publica√ß√£o do livro, destacando os 2 milh√Ķes de d√≥lares que ele tinha recebido e chamando-o de fen√īmeno liter√°rio. ‚ÄúAcho que nenhum escritor busca isso. E por um bom motivo: nosso trabalho √© muito privado, √© muito mais sobre as sombras do que sobre os holofotes. O trabalho √© jogar a sua luz pra fora. Parece pouco natural ter a luz voltada pra voc√™‚ÄĚ, reflete. ‚ÄúEu tinha uma mesa e um peda√ßo de papel e passei anos assim. Foi muito dif√≠cil, mas foi uma experi√™ncia que me deu algo. Meu trabalho continua sendo sentar nessa mesa e me doar √† p√°gina. Pra fazer isso, me esfor√ßo ao m√°ximo para n√£o pensar onde os holofotes est√£o e no que as pessoas est√£o dizendo. Sentar num quarto sozinho por anos √© uma √≥tima prepara√ß√£o pra isso.‚ÄĚ