Categorias
Televis√£o

A hist√≥ria oral da ‘TV Colosso’

Quando o “Xou da Xuxa” deixou a Globo em 1993, Boni precisava tapar um buraco na programa√ß√£o. Para isso, chamou o grupo ga√ļcho de teatro de bonecos 100 Modos para bolar alguma coisa curta. Eram s√≥ alguns meses no ar at√© Ang√©lica assumir o hor√°rio. Luiz Ferr√© teve uma ideia: fazer um programa de TV sobre um programa de TV todo feito por cachorros.

A “TV Colosso”, que inicialmente ficaria s√≥ quatro meses no ar, acabou por ocupar as manh√£s da Globo por quatro anos — por volta do meio-dia, quando o programa acabava, um cachorro com chap√©u de chef de cozinha anunciava, com sotaque franc√™s, “atenci√≥n, t√° na hora de matar a fome, t√° na mesa, pessoal!” Quase mil epis√≥dios, um filme e dois discos depois, a “TV Colosso” acabou em 1997, dando lugar ao “Angel Mix”, de Ang√©lica. Mas at√© hoje a sheepdog Priscila saracuteia por a√≠, aparecendo em programas de televis√£o ou eventos.

Quase 20 anos ap√≥s seu fim, quem fez a “TV Colosso” conta ao Risca Faca as hist√≥rias por tr√°s do programa.

As entrevistas foram levemente editadas para facilitar a compreens√£o.

AS ORIGENS

Luiz Ferr√©, criador do programa: Quando trabalhava como artista gr√°fico, queria fazer anima√ß√£o. A gente n√£o tinha recursos, n√£o tinha como fazer. Comecei a fazer bonecos de massinha e fotografar. Fazia esse tipo de ilustra√ß√£o, caricaturas de personagens pol√≠ticos, m√ļsicos, fotografava e publicava no jornal. Mas eu queria animar. Encontrei com alguns amigos e a gente come√ßou a fazer coisas de anima√ß√£o. A gente n√£o sabia o que que era, mas era teatro de anima√ß√£o. Eu usava bonecos. Eram espet√°culos de esquetes. A gente criou um grupo chamado 100 Modos e fez um espet√°culo, sem saber o que era teatro de bonecos, de anima√ß√£o. A gente s√≥ fazia um espet√°culo e sabia que as pessoas estavam curtindo. Nesse ano a gente ganhou todos os pr√™mios de teatro.

colosso-oficina4
Os moldes. Todas as fotos cedidas por Roberto Dorneles

A gente se apresentava num café muito pequenininho, o palco era do tamanho de uma mesa, os bonecos eram muito pequenos. Era um negócio experimental. Faz 25 anos, foi quatro anos antes da TV Colosso. Foi muito rápido. A gente passou por São Paulo e apareceu na Veja, na Folha, no Estadão. Era um espetáculo muito sem pretensão, era muito pequeno. Mas tinha um texto muito bacana. Foi um trabalho muito notado.

Quando a gente foi pro Rio de Janeiro a Globo fez mat√©rias e a gente virou meio pauta geral, onde a gente passava a Globo fazia mat√©ria. Era cin√©tica, colorido, novidade. A Globo ficou de olho na gente. A gente fez o ‚ÄúClip Clip‚ÄĚ, um programa de clipes, com o Boninho. A gente fez ‚ÄúPlunct, Plact, Zuuum‚ÄĚ com o Raul Seixas, Cazuza. Isso bem no in√≠cio da hist√≥ria do grupo. A√≠ a gente come√ßou a se apresentar um pouco em televis√£o.

O CONVITE

Luiz Ferr√©: Teve um momento em que o Boni e o Boninho j√° conheciam nosso trabalho em televis√£o. A Xuxa estava saindo do projeto Globo e iam entrar com a Ang√©lica. A Ang√©lica fez alguns pilotos do projeto, mas n√£o agradavam muito. N√£o √© que n√£o agradavam, mas n√£o dava muito certo. N√£o era ainda o que o Boni queria. Recebi um telefonema, estava em Porto Alegre, e ele falou: ‚ÄúOlha, Ferr√©, voc√™ me ajuda aqui? Eu t√ī com uma dificuldade de hor√°rio na parte da manh√£, n√£o t√ī conseguindo acertar um projeto que eu quero muito, com a Ang√©lica. Se voc√™ pensar, voc√™ que faz bonecos, fez o ‚ÄėClip Clip‚Äô, tem esse grupo de teatro, voc√™ n√£o quer pensar em alguma coisa?‚ÄĚ. ‚ÄúQual √© a pauta?‚ÄĚ ‚ÄúPensa no que voc√™ bem entender.‚ÄĚ Tinha uma liberdade muito grande de pensar, de propor. Pensei que era um pepino, entrar no hor√°rio da Xuxa. Era pra ficar quatro meses, um tamp√£o. ‚ÄúQuatro meses, faz a√≠, sem compromisso com nada, faz o que voc√™ curtir.‚ÄĚ

[olho]”Pensa no que voc√™ bem entender”[/olho]

Roberto Dorneles, criador do programa: Em 1992 quando o programa infantil da Xuxa saiu pela primeira vez do ar (depois mais tarde voltou na Globo), o Boni precisava colocar algo no lugar que chamasse a aten√ß√£o da audi√™ncia, e assim pensou num programa de bonecos. Mas n√£o simples bonecos, e sim bonecos animatronics. A raz√£o disso foi o seriado americano “A Fam√≠lia Dinossauro”, que na √©poca estava fazendo um super sucesso. At√© onde me contaram, ele abriu o leque com tr√™s op√ß√Ķes: produzir os complexos bonecos dentro da pr√≥pria Globo, trazer bonecos e equipe dos Estados Unidos ou chamar o 100 Modos. Ganhamos a concorr√™ncia com um prot√≥tipo de boneco que produzimos e trouxemos para gravar no Rio. E melhor: nos foi dada liberdade criativa desde que fiz√©ssemos pelo menos alguns animatronics. Pronto! Penso que boneco agrada de cara a quase todo mundo, principalmente se voc√™ juntar a ele a forma de um animal, mais ainda se for de estima√ß√£o e ainda mais se for cachorro.

O IN√ćCIO

Luiz Ferr√©: Pensei, putz, acho que vou fazer uma TV. Uma TV de cachorro. Acho que pode ser meio que uma c√°psula em volta da Terra, uma nave capturando desenhos e filmes e mandando pra Rede Globo. N√£o sei se voc√™ conhece aquele seriado com bonecos, os ‚ÄúThunderbirds‚ÄĚ, um seriado ingl√™s da d√©cada de 60. √Č muito divertido. Tinha um pouco essa est√©tica de um espa√ßo futurista retr√ī. A est√©tica especulava um pouco sobre o que seria o futuro. Desenhei os cen√°rios inspirado um pouco nos ‚ÄúThunderbirds‚ÄĚ, um pouco na fic√ß√£o cient√≠fica B, aquelas coisas de filmes americanos de viagens espaciais.

colosso-oficina7

J√° queria fazer um neg√≥cio com cachorro, porque cachorro tem uma empatia muito grande. Levei pro Boni o projeto e ele s√≥ mandou aterrissar, n√£o era pra ficar no espa√ßo. Tanto que a abertura da ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ parece uma nave espacial, e √© uma nave, que √© a constru√ß√£o da TV Colosso. Quem batizou o projeto foi o Boni. ‚ÄúTem que chamar TV Colosso.‚ÄĚ Falei: ‚ÄúOk, legal‚ÄĚ. Ele comp√īs a m√ļsica de abertura, a letra √© dele e do Massada, que era o hit maker da √©poca.

MONTANDO O TIME

Monica Rossi, dubladora da Priscila: Mário Jorge de Andrade foi convidado para dirigir a dublagem do programa. Foi ele quem indicou todos os dubladores, que foram aprovados pela direção geral do programa. Eu e todo o elenco ficamos muito contentes com a aprovação, pois a concepção do programa era genial e seria a oportunidade de trabalharmos na construção dos personagens já que era um produto brasileiro, um projeto ousado e diferente de tudo o que estávamos acostumados a fazer na dublagem, onde temos que obedecer com a máxima fidelidade a obra que já está pronta.

Luiz Ferr√©: Pra escrever, roteirizar todos os quadros, eu tinha um briefing inicial, mas precisava de algu√©m, porque era um volume muito grande de texto. A gente fez 998 programas. Quase mil! Sem contar os especiais, com os especiais a gente passou de mil. Eu sou cartunista, gosto de charges, falei: ‚ÄúVamos chamar uns camaradas cartunistas, que tenham uma coisa gr√°fica, que usam grafismo como ferramenta de ideia‚ÄĚ. Chamei Laerte, Luiz G√™, Glauco‚Ķ Conhecia alguns deles, como era cartunista, tive uns trabalhos no Sal√£o do Humor de Piracicaba, cruzei com eles. A gente montou um time de super caras gr√°ficos, com opini√£o, engajados, que n√£o escreviam pra crian√ßa, mas que trabalhavam com humor.

Laerte no cen√°rio da "TV Colosso"
Laerte no cen√°rio da “TV Colosso”

Roberto Dorneles: Um humor sarc√°stico, nonsense, diferente e inesperado era o que busc√°vamos.

Luiz G√™, roteirista: Eu fiquei sabendo porque os cartunistas todos estavam meio dentro da proposta. Eu estava meio atrapalhado, sem emprego, sei l√°. Estava precisando de trabalho. A√≠ falei com o Laerte e ele me p√īs e foi assim que eu entrei.

OS ROTEIROS

Luiz Ferr√©: A gente tinha reuni√Ķes de pauta em que eu participava, em que passava todas as ideias. A√≠ todo o mundo ia pra casa e come√ßava a mandar os textos pro Laerte, que fazia um filtro e mandava pra Globo. Na Globo tinha um pouquinho de calibragem, mas ia muito seco, quase direto. Depois a gente come√ßou a aumentar um pouco o hall de redatores, manipuladores e personagens, na segunda temporada. √Č um processo muito raro pra uma TV que nem a Globo. A gente teve uma liberdade muito grande.

Luiz G√™: A proposta era meio diferente no come√ßo. Era uma TV de cachorros no espa√ßo. Era pra ser uma esp√©cie de esta√ß√£o de orbital em que os cachorros estavam. Mas logo isso caiu e ficou uma esta√ß√£o normal mesmo. A partir dessa ideia que era muito incipiente, ainda muito no come√ßo, a gente come√ßou a se reunir, todo o mundo come√ßou a propor coisas e a gente foi criando todo o universo da coisa. A√≠ ficava uma coisa meio dif√≠cil de estabelecer onde come√ßava e onde terminava certas ideias, mas algumas eram bem claras quem tinha bolado, quem tinha tido a ideia. Essas reuni√Ķes eram muito engra√ßadas, era todo o mundo cartunista, a gente dava muita risada.

colosso-gravacoes7

Roberto Dorneles: [A gente tinha] praticamente [carta branca]. O Boni teve todos os m√©ritos nesse aspecto, porque sabia do nosso potencial, entendeu e nos deu total condi√ß√Ķes de realizar uma proposta t√£o arrojada. Uma ou outra ideia ou personagem foi barrado, mas, hoje, pensando bem, tamb√©m agrade√ßo a ele, porque se era dif√≠cil manipular e cuidar de 50 bonecos‚Ķ Aqui tamb√©m fa√ßo uma men√ß√£o ao Boninho que foi nosso diretor e grande parceiro dentro da Globo (ainda √©), desde os tempos do programa ‚ÄúClip Clip‚ÄĚ.

[olho]”Laerte foi uma figura fundamental, era diretor de reda√ß√£o, editor de texto”[/olho]

Luiz G√™: O mais legal era que a gente se via bastante. As reuni√Ķes eram muito engra√ßadas. Tinha pelo menos umas dez pessoas [no roteiro], mas era trabalho pra caramba. E o dinheiro n√£o era l√° essas coisas.

Luiz Ferr√©: Eu tinha uma teoria em rela√ß√£o ao projeto. N√£o precisava ser educativo. Tinha que ser divertido. Se voc√™ √© divertido, voc√™ educa. Nosso briefing para todos era esse. Os redatores entraram com muito afinco, tinham uma liberdade grande. O Luiz G√™ √© um cara muito voltado pra assuntos de militaria. Ele gosta de avi√Ķes, m√°quinas. N√£o que seja um cara b√©lico, mas gosta de militaria. Ele teve liberdade pra criar um quadro chamado ‚Äúna trincheira‚ÄĚ: os cachorros na trincheira. Era in√©dito, era divertido ver isso. Laerte foi uma figura fundamental, era diretor de reda√ß√£o, editor de texto. √Č o Laerte que a gente conhece, maravilhoso. Uma figura generosa, com uma cabe√ßa muito fora do que a gente costuma ter. Foi um cara muito importante pra gente.

colosso-oficina5

Luiz G√™: Nenhum de n√≥s estava muito preocupado com didatismo, coisa que no “R√°-tim-bum” tinha, toda uma did√°tica. Eu estava fazendo coisa pra crian√ßa, mas quando eu era crian√ßa eu lia Tintim, Pato Donald desenhado por caras bons, que eram curtidos por gente de tudo quanto √© idade. Essa maneira de estar fazendo a hist√≥ria desde que seja legal pode ser muito mais rica do que uma quest√£o did√°tica toda presinha. Como o Tintin era: muito informativo, formativo, que n√£o precisa ser pedag√≥gico. Eu inventava cen√°rios, truques, e desenhava e mandava pra eles. Muita coisa eles fizeram e ficou muito bom. Outras n√£o t√£o boas, outras feitas 50%.

OS PERSONAGENS

Luiz Ferré: Desenhei todos os personagens. Tem que ter um sheepdog, os vira-latas, o cara que é operador de mesa. Eu trabalhava em cinema e lembrei de muitos amigos, de figuras que trabalhavam comigo, produtores. A Priscila é super inspirada em três amigas que são produtoras. JF é inspirado em chefes que eu tive. Capachão é um personagem que a gente vê muito em filmagem. Eu trouxe essas figuras.

Luiz G√™: Eu criei o Capach√£o. Mas a minha ideia era que ele fosse um capacho mesmo, com cara de cachorro [ri]. Mas eles n√£o conseguiram fazer e fizeram um cachorro normal. N√£o era nada dif√≠cil ter conseguido fazer ele dessa forma. [Quando chegamos no projeto] tinha alguns personagens. J√° estava adiantado o JF e a Priscila. Essa quest√£o do Capach√£o mostra uma das coisas que foi um dos maiores problemas do ponto de vista de roteiristas, criadores. Porque a gente tamb√©m era cartunista, normalmente a gente tinha controle total sobre nossa cria√ß√£o e depois [na “TV Colosso”] n√£o tinha mais. Acho que essa coisa de [a produ√ß√£o] estar no Rio e a gente estar aqui [em S√£o Paulo] atrapalhou muito. Se a gente tivesse mais controle, a gente poderia ter feito um neg√≥cio muito mais legal, muito melhor. A gente ficava insatisfeito com muita coisa, porque eles n√£o sabiam interpretar aquilo, n√£o entendiam o humor.

colosso-oficina6

Monica Rossi: O sucesso da Priscila veio de um conjunto de fatores. √Č uma figura realmente “colossal”, enorme e espa√ßosa, dengosa, charmosa, vaidosa‚Ķ Enfim, uma personagem carism√°tica. Muito menina!

Luiz Ferr√©: No in√≠cio do projeto, quem ensaiou o andar da Priscila foi a Deborah Colker. Olha s√≥, olha s√≥. Era dif√≠cil, porque a Priscila tem uma frequ√™ncia como personagem muito curiosa. √Č um bicho, mas √© uma menina, √© um boneco grande e peludo. √Č super charmosa, ela pesa 200 kg, mas entra voando. Precisava desenvolver a caminhada, como ela andava, como ela rebolava, como ela se movimentava dentro da fantasia. E a Deborah Colker fez esse primeiro trabalho com a Priscila.

Luiz G√™: Tinha dois tipos de texto, basicamente. Um pros cachorr√Ķes grandes, que tinham muito equipamento: Priscila, JF, Capach√£o… E tinha os cachorros pequenininhos, manipulados com a m√£o. Esses dois tipos de textos eram muito diferentes porque a mobilidade que existia pra uns e outros era diferente. Os grand√Ķes tinham que ser muito mais est√°ticos, dentro de um cen√°rio determinado, ao passo que com os pequenos a gente tinha muita mobilidade de mudar a hist√≥ria, de inventar. Ent√£o eu — e outros roteiristas — preferia muito mais os pequenos. Os grandes era meio que uma camisa de for√ßa, tinha que criar pra eles de uma forma muito presa. Nos pequenos, eu desenhava muito: cen√°rios, como que era.

colosso-gravacoes6

BRONCA

Luiz Gê: Um dia eu falei pro Laerte: bolei uma história assim, com vários blocos. Contei pra ele os blocos todos e o Laerte pegou minha ideia de roteiro, escreveu. Eu fiz isso porque a gente tinha muito trabalho, era muito trabalhoso. Tinha texto pra caramba. Você não sabe como é ter que escrever uma manhã inteira de televisão todo dia. Muito trabalhoso. Então fiz isso e passei pro Laerte. Ele passou pros caras, fez o maior sucesso com os caras e no fim nunca reconheceram que eu tinha bolado o negócio. Isso eu sempre fiquei meio puto, foi minha ideia. A partir daí começou a se fazer isso, umas histórias grandes, que ocupavam a manhã inteira ou às vezes mais de um dia. E eles chegaram a comercializar isso, colocaram no supermercado os vídeos dessas histórias completas. Bolei muitas dessas histórias. Em geral era um cara só que fazia essas histórias. Eu já tinha começado antes a fazer umas coisas mais longas. No fim das contas houve essa coisa dessas histórias mais compridas, eles chegaram a comercializar. Mas eu não tenho nada, nunca comprei os vídeos.

QUADROS MARCANTES

Luiz G√™: Tinha um que eu fiz que era uma galera, daquelas que ficam uns caras remando dentro, com um monte de cachorrinho segurando os remos. Eu mostrava como era: amarra os bonequinhos assim, a hora que a pessoa fizer o movimento fora vai todo o mundo fazer assim. Tinha o cara que batia aquele tambor pra dar o ritmo, coisa de galera, que era uma esp√©cie de DJ. Tocava v√°rios tipos de m√ļsica e eles tinham que remar conforme a m√ļsica [ri]. Isso era legal voc√™ ver sendo feito. Mas dava uma vontade enorme de mexer, porque a gente manja. Dava vontade de cortar, montar. Essa quest√£o b√°sica de a gente estar em contato com a realiza√ß√£o.

colosso-gravacoes3

Eu fazia um personagem chamado Roberval, o ladr√£o de chocolates. Eu fiz uma hist√≥ria em que o Roberval ficava passando uma l√°bia pro cara entregar o chocolate pra ele. Ele passava uma l√°bia, mas estava tendo um caso de um terrorista que estava pondo bomba. Ele achou que era chocolate, mas era uma bomba. Quando chega no final, o cara que est√° fazendo a grava√ß√£o fala “bom, estoura a√≠”. Nesse caso eu estava no Rio, vendo. E eu falei “o que voc√™s acham de fazer assim…”, mas estava no roteiro. Eu falei assim pra ser contemporizador. Quando ele conseguia passar a m√£o no chocolate tocava “chocolate, chocolate” [canta a m√ļsica “Chocolate”]. Quando ele passa a m√£o e sai todo vitorioso, ele sai de cena, toca “chocolate, chocolate”, e a√≠ que explode. Ficava muito mais engra√ßado. Eu tive que chegar e falar “o que voc√™s acham…”. E dessa vez ficou certo. Numa dessas eles destru√≠am o seu humor.

Fiz o doutor Aftasardem [ri]. Um dos que eu mais gostava era o “c√£obate”. Eu fiz v√°rios de “c√£obate”.

Uma das primeiras ideias que tive‚Ķ Sabe quando voc√™ est√° andando na rua e um cachorro come√ßa a “auauau” e voc√™ leva um susto? Era de um cachorro que gostava de fazer isso e o cachorro vizinho era bonzinho e ficava “por favor, n√£o fa√ßa isso, a dona Amelinha sofre do cora√ß√£o” [fala com uma voz fina, de boneco, e d√° risada]. Tinha que ter pelo menos as pernas das pessoas vindo, mas os caras n√£o quiseram fazer isso porque ia sair da coisa do programa, de ser s√≥ cachorro. Mas sei l√°, a dona Amelinha podia ser cachorro.

Eu fazia uma tamb√©m que era uma goza√ß√£o de novela, essa tamb√©m era famosinha. Como chamava mesmo? “Os filhos da Cadela.” [ri] Uma coisa assim. Isso tamb√©m era uma experi√™ncia de linguagem legal. Fiz uma esp√©cie de bloco feito de v√°rias historinhas super curtas. L√° tamb√©m eu inventava bastante, mudava bastante cen√°rio, esse tipo de coisa. Os filhos da cadela acho que eram mais famosos que o “c√£obate”, mas eu preferia o “c√£obate”.

FAZENDO CACHORROS

Luiz Ferr√©: A gente tinha liberdade de encena√ß√£o. Falei que queria explorar todas as possibilidades de boneco: boneco de fantasia, bonecos de luva, bonecos pequenos, animatronics, tinha um robozinho — o buldogue era completamente rob√≥tico, andava pelo cen√°rio. Eles falavam ‚Äúok‚ÄĚ. A Priscila foi feita por quatro caras. Tem o cara que fica dentro da fantasia, dois caras que fazem manipula√ß√£o via r√°dios japoneses de aeromodelismo e a voz, a Monica Rossi, que fica fora. Outra coisa muito legal foi o or√ßamento aberto. A gente podia fazer o que quisesse de produ√ß√£o que a Globo pagava. A gente desenvolveu o pelo da Priscila num lugar chamado National Fur, uma f√°brica em Boston que faz pelo pra bichos pra Hollywood. A gente foi at√© l√° e desenvolveu o pelo. A gente trouxe os melhores motores.

colosso-oficina2

Roberto Dorneles: Ningu√©m acreditava que a TV Colosso tivesse sido totalmente feita na rua Surup√°, n¬į 225, meu endere√ßo em Porto Alegre, RS, √© do Brasil! Era um misto de espanto e desconfian√ßa. Se foi f√°cil mandar produzir? Sim, muito f√°cil! Falei para mim mesmo: fa√ßa!

CONTROLANDO CACHORROS

Roberto Dorneles: Digo que manipulei todos os bonecos. Calma a√≠, n√£o estou mentindo! Vou explicar: eu sempre testava e criava os trejeitos de cada personagem para depois passar para algum outro manipulador que fizesse daquela forma. Mesmo assim, eu manipulei alguns personagens nas grava√ß√Ķes do come√ßo ao fim, por puro prazer e tamb√©m, confesso, por ci√ļmes. Como eram numerosos bonecos, a equipe tamb√©m era. No auge foram 22 pessoas. Essa equipe era dividida em manipuladores e atores-manipuladores. Manipuladores manipulavam os bonecos pequenos e os r√°dios que produziam as express√Ķes faciais dos bonecos grandes. Bonecos grandes esses que eram vestidos pelos atores-manipuladores.

colosso-gravacoes9

Eram fantoches com mãos controladas por varinhas, marotes [técnica de manipulação onde o manipulador empresta parte de seu corpo para o boneco] e fantasias de vestir. Todos esses bonecos tinham algum tipo de mecanismo, dos mais simples como o Gilmar, com um movimento (pálpebras), passando pelos médios com até dez movimentos como o Borges e finalmente os mais complexos como o chefe JF que tinha quase 20 movimentos.

Acho que os mais dif√≠ceis eram os que precisavam de tr√™s manipuladores. Um controlando a cabe√ßa, outro vestindo os bra√ßos e um terceiro de fora produzindo as express√Ķes faciais com o r√°dio. Isso sem contar com o dublador guia de est√ļdio. Total de quatro malucos tentando coordenar um boneco, e conseguindo!

[olho]”No auge, a semana de trabalho era bastante intensa, com apenas um dia de descanso”[/olho]

Eu n√£o era somente respons√°vel pela equipe de manipula√ß√£o. Tamb√©m era respons√°vel pela equipe de manuten√ß√£o dos bonecos porque constru√≠ e coordenei a constru√ß√£o dos mesmos. Como eram quase 50 bonecos e grav√°vamos em m√©dia quatro dias na semana, acontecia muito desgaste e quebra. Para manter tudo funcionando perfeitamente era necess√°rio manter uma equipe de em torno de dez pessoas. A equipe era dividida em formas e l√°tex, manuten√ß√£o pl√°stica e manuten√ß√£o mec√Ęnica e eletr√īnica. Assim como eu, uma parte dessa equipe tamb√©m manipulava no est√ļdio, por isso, no auge, a semana de trabalho era bastante intensa, com apenas um dia de descanso.

Monica Rossi: Foi uma √©poca de muito trabalho, pois durante a elabora√ß√£o da personalidade dos bonecos, n√≥s grav√°vamos no est√ļdio durante a a√ß√£o ‚Äď a nossa interpreta√ß√£o ajudava os bailarinos e manipuladores a fazer o corpo dos bonecos. Depois que j√° estava bem definida a personalidade de cada um, foram contratados dubladores para fazer a “voz guia” e n√≥s coloc√°vamos a voz definitiva na fase de finaliza√ß√£o do programa. No in√≠cio n√≥s j√° acredit√°vamos no projeto mas n√£o t√≠nhamos a no√ß√£o exata do sucesso que seria.

RECEPÇÃO

Luiz Ferr√©: Foi rolando, n√£o teve o acerto de outro projeto e o nosso projeto foi ficando mais interessante comercialmente tamb√©m. A Globo nunca teve tanto patroc√≠nio dentro da janela‚Ķ Quer dizer, a Xuxa tinha um merchand violento, mas a gente n√£o tinha dentro do programa, s√≥ em break. A gente virou um neg√≥cio muito interessante. A gente come√ßou a ser notado fora do pa√≠s. O grupo Jim Henson, que trabalha com Vila S√©samo e Muppets, eles vieram pro Brasil e viram a gente em cena. A gente foi convidado pra fazer um est√°gio em Nova York, fui eu e o Betinho [Dorneles], acompanhou todo o processo deles. Eles ficaram pasmos com o n√ļmero de cenas que a gente filmava, era muita coisa. Acharam a t√©cnica incr√≠vel. A√≠ a Globo falou ‚Äúa gente pode dar mais um ano‚ÄĚ.

SUCESSO

Roberto Dorneles: Desde o in√≠cio est√°vamos bastante confiantes no sucesso do programa, mas eu, que ficava mais tempo dentro do est√ļdio, n√£o percebia bem a dimens√£o do que estava acontecendo. Foi ent√£o que o Luiz Ferr√© montou o “Show Colosso”. A estreia foi em S√£o Paulo e por estar sempre em est√ļdio no Rio, n√£o tinha nem como assistir a algum ensaio. Mas na estreia eu estava, e naquele dia assistindo e sentindo a incr√≠vel rea√ß√£o da plateia, me bateu uma forte emo√ß√£o, um tremendo orgulho pelo trabalho t√≠nhamos produzido, um prazer por estar em sintonia com todas aquelas pessoas. Pensei: poxa, as pessoas gostam exatamente do eu gosto, e fiz. Inesquec√≠vel!

[olho]”A gente tinha uma m√°gica de encena√ß√£o”[/olho]

Luiz Ferr√©: A gente n√£o sabe qual √© o segredo. Trabalhei um tempo em Los Angeles e fui com projetos super legais, conversei com o produtor dos Simpsons e ele falou: ‚ÄúCara, a gente fez os ‚ÄėSimpsons‚Äô, a√≠ a gente falou que tinha a f√≥rmula. Vamos fazer ‚ÄėFuturama‚Äô, era tudo igual, mesmo humor, mesma pegada, s√≥ uma diferente cenografia, e foi um fiasco. A gente nunca sabe o segredo‚ÄĚ. Eu tenho algumas teorias sobre o sucesso da ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ. Acho que a liberdade criativa, esse n√£o compromisso com regras estabelecidas, o n√£o compromisso de ser educativo e a encena√ß√£o. Acho que a gente tinha¬†uma m√°gica de encena√ß√£o, a gente trazia isso do teatro. A Priscila tem m√°gica. A sorte de acertar em personagens legais, de encontrar profissionais legais. Foi um momento ali. A gente fez outras coisas legais que n√£o foi no momento. N√£o tenho o segredo. Essas coisas voc√™ n√£o sabe.

colosso-gravacoes2

Roberto Dorneles: A risada n√£o tem idade, ela s√≥ n√£o est√° na boca dos muito mal-humorados. A ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ n√£o era um programa apenas direcionado √†s crian√ßas. Os bonecos agradavam muito √†s crian√ßas, mas n√£o s√≥ a elas, e a faixa alargou com o enredo, a tem√°tica e as piadas, atingindo assim os adolescentes e at√© adultos. Sim, j√° t√≠nhamos feito espet√°culos infantis, mas tamb√©m t√≠nhamos feito espet√°culos √† noite, abertos a qualquer idade. A linguagem que sempre buscamos √© a linguagem que nos faz rir, dessa forma acreditamos que algumas pessoas rir√£o junto conosco.

Luiz Ferr√©: S√≥ tem dois projetos na Globo que tiveram essa amplitude de p√ļblico bem grande: ‚ÄúTrapalh√Ķes‚ÄĚ e ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ. Amplitude de classe A, B e C e idade, do p√ļblico escolar at√© os 60 anos. O boneco surgiu na humanidade pra fazer tudo aquilo que n√≥s, atores, pessoas normais, n√£o podem fazer. O boneco vem pra isso. Voc√™ n√£o podia sair na rua e falar ‚Äúo rei tem o nariz grande‚ÄĚ, mas o boneco podia e at√© o rei aplaudia.

O FIM

Luiz Ferré: Tinha uma força grande da Xuxa ainda dentro do projeto comercial. Ela tinha uma força muito forte, muito forte. E também a gente estava muito cansado. A gente achou que era quatro meses, ia pro Rio e tirava férias. Que nada, a gente enlouqueceu. Teve um desgaste criativo muito grande também. Foi bom, porque parou, o projeto continuou lá fora, tava em 36 países. A gente gravava todo dia, isso cansou muito. Era uma rotina muito difícil.

[olho]”Teve um desgaste criativo muito grande tamb√©m”[/olho]

Monica Rossi: Todo projeto tem um tempo de vida. Por mais sucesso que fa√ßa o produto, tem uma hora que chega ao fim. No caso da ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ, acabou o programa, mas ficou o legado. Todos que viveram aquela √©poca tem guardado no cora√ß√£o cada personagem. Quem tem a oportunidade de rever os programas fica feliz. J√° vi gente chorando ao ver a Priscila ao vivo. Sem d√ļvida, √© sempre uma grande emo√ß√£o.

FUTURO

Luiz Ferr√©: A gente vai ser o primeiro grupo a criar conte√ļdo original pro portal Play Kids. √Č ‚ÄúTV Colosso‚ÄĚ, a Priscila e o Gilmar. O legado nunca sumiu. Saiu da Globo, mas ficou transitando, a gente nunca deixou de trabalhar. Ficou muito presente no imagin√°rio de muita gente, ent√£o a gente est√° sempre fazendo. Esse √© um projeto novo, pra crian√ßa pequena, pra crian√ßa um pouquinho maior e pros antigos f√£s. √Č um projeto super pop, eu fa√ßo em portugu√™s e espanhol, mas vai ser dublado em franc√™s, ingl√™s e mandarim. Vai pro mundo inteiro.