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A ressurreição de Augusto Ruschi

Em janeiro de 1986, onze anos depois¬†de ter sido envenenado por um sapo da esp√©cie dendrobata, o naturalista Augusto Ruschi se viu condenado. O veneno, acreditava ele, havia contaminado 95% de seu f√≠gado. Nos √ļltimos meses, o naturalista acelerara o ritmo de trabalho para concluir os dois livros que estava escrevendo, mas suas for√ßas diminu√≠am a cada dia. Ele ofegava, dormia mal, sofria com febres e hemorragias nasais. Depois de uma vida desbravando as florestas e matas do pa√≠s, j√° n√£o conseguia percorrer longas dist√Ęncias.

Temendo pelo pior, chamou um de seus amigos mais pr√≥ximos, o jornalista Rog√©rio Medeiros, e lhe fez um √ļltimo pedido. Queria ser enterrado na Reserva Biol√≥gica de Santa L√ļcia, a mata de 279 hectares cobertas de orqu√≠deas e brom√©lias que ajudou a tombar.

“Mas tem que ser aqui?”, questionou Medeiros, argumentando que, no Brasil, “n√£o se enterra ningu√©m fora do cemit√©rio”. Ruschi foi irredut√≠vel. Era l√°, no para√≠so das plantas e dos p√°ssaros, que havia realizado a maior parte de sua obra. A outro grande amigo, o cronista Rubem Braga, confidenciara: depois da morte, sonhava em ser carregado pelos beija-flores.

O naturalista já não tinha perspectivas de curar sua doença, quando recebeu um telefonema de Brasília. Então repórter do Jornal do Brasil, Medeiros estava com Ruschi no dia da ligação.

“Era um ministro do [ent√£o presidente] Jos√© Sarney, n√£o lembro qual…”, conta o jornalista por telefone, do Esp√≠rito Santo, onde mora atualmente. “Eles falaram: conseguimos a ajuda dos √≠ndios… O Ruschi adorou a ideia e aceitou se tratar com eles.”

A liga√ß√£o apenas oficializou um desejo acalentado pela opini√£o p√ļblica √† √©poca. Diante daquela doen√ßa desconhecida, prestes a matar uma das mais ilustres figuras cient√≠ficas do pa√≠s, o governo e a sociedade brasileira buscaram, na tradi√ß√£o de seus √≠ndios, uma solu√ß√£o m√°gica. Sem outra alternativa, o Brasil recorreu √†s suas pr√≥prias ra√≠zes. E descobriu, entre deslumbramento e desespero, um processo aut√≥ctone, at√© ent√£o desprezado em seu sonho de desenvolvimento.

***

Aos 70 anos, Augusto Ruschi acumulava uma longa lista de servi√ßos prestados para o meio ambiente. Como bot√Ęnico e ornit√≥logo, catalogou¬†centenas de esp√©cies de plantas e animais, em especial orqu√≠deas e beija-flores. Como ativista ecol√≥gico, foi¬†dos poucos a enfrentar a Ditadura Militar contra o desmatamento da Amaz√īnia. Ganhou¬†notoriedade ao amea√ßar com uma espingarda o ex-governador do Esp√≠rito Santo, √Člcio √Ālvares, quando este tentou destruir a esta√ß√£o biol√≥gica de Santa L√ļcia para plantar palmito.

Vision√°rio, Ruschi alertou¬†desde cedo para os perigos dos agrot√≥xicos e da monocultura de eucalipto. Ainda em 1951, previu, em um congresso na ONU, que as reservas ecol√≥gicas se transformariam nos bancos gen√©ticos e habitats do futuro. Seus esfor√ßos tinham sido recompensados com medalhas e condecora√ß√Ķes no Brasil e no exterior, mas s√≥ ent√£o, com os dias contados, o cientista ganhava a merecida aten√ß√£o da imprensa nacional.

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O beija-flor Loddigesia mirabilis, redescoberto por Augusto Ruschi. Ilustração: John Gould
O beija-flor Loddigesia mirabilis, redescoberto por Augusto Ruschi. Ilustração: John Gould

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Em 1975, Ruschi buscava novos exemplares de beija-flores, seu animal fetiche, na Serra do Navio, Amapá, quando se deparou com dezenas de dendrobatas, pequenos sapos coloridos e, consequentemente, venenosos. Pediu ajuda aos índios que o acompanhavam para capturá-los, mas estes se recusaram. O naturalista não os imitou. Um dia depois de apanhar sozinho trinta sapos, foi internado de Macapá com o coração acelerado.

[olho]”Vai morrer. Est√° morrendo a cada hora, a cada palavra aqui escrita ou lida o cientista Augusto Ruschi”[/olho]

Ruschi estava contaminado. Ano ap√≥s ano, silenciosamente, a pe√ßonha foi corroendo sua sa√ļde. O fato permaneceu desconhecido do grande p√ļblico at√© ser revelado pelo Jornal do Brasil, no dia 12 de janeiro de 1986. Assinada por Rog√©rio Medeiros, a reportagem soava como uma esp√©cie de obitu√°rio antecipado. Uma chamada estrondosa na capa daquele edi√ß√£o dominical anunciava que o f√≠gado do “defensor intransigente das florestas” j√° se encontrava “irremediavelmente comprometido”.

Tr√™s dias depois, foi a vez do colunista Affonso Romano de Sant’Anna escrever uma cr√īnica emocionada, que mobilizaria os governantes do pa√≠s.

“Vai morrer. Est√° morrendo a cada hora, a cada palavra aqui escrita ou lida o cientista Augusto Ruschi”, anunciava o poeta e ensa√≠sta.

Sant’Anna foi o primeiro a colocar os √≠ndios na jogada. Seu texto conclamava as autoridades a buscarem uma cura para aquele que ele definia como um “monumento nacional”. Se os laborat√≥rios mais sofisticados n√£o a tivessem, sugeria o colunista, talvez os povos da Amaz√īnia, conhecedores da letalidade dos dendrobatas, encontrassem uma alternativa.

“Mas n√£o podemos assistir a essa trag√©dia tropical achando que √Čdipo tem mesmo que matar seu pai e Ant√≠gona seus filhos”, continuava. “N√£o podemos ler assim impotentes a cr√īnica de uma morte anunciada, como se fosse uma novela de Garc√≠a M√°rquez. Algu√©m tem que ter um rem√©dio.”

O texto sensibilizou a opini√£o p√ļblica. De uma hora para outra, todos queriam ajudar. Homeopatas ofereceram seus servi√ßos e admiradores imploravam por uma interven√ß√£o do Pal√°cio do Planalto. Especializada em retratar a flora amaz√īnica, a pintora inglesa Margaret Mee embarcou aos Estados Unidos para informar bot√Ęnicos americanos sobre o estado de sa√ļde do naturalista.

Augusto Ruschi em Teresa, ES em 1986. Crédito: Rogério Carneiro/Folhapress
Augusto Ruschi em Teresa, ES em 1986. Crédito: Rogério Carneiro/Folhapress

Em Bras√≠lia, o texto caiu nas m√£os do ent√£o presidente Jos√© Sarney, que enxergou uma oportunidade para ganhar simpatia da opini√£o p√ļblica. Em seu segundo ano no cargo, o maranhense sofria para administrar um pa√≠s destro√ßado por 20 anos de Ditadura Militar. Mesmo concorrendo com planos de congelamento de pre√ßos e den√ļncias de corrup√ß√£o, o caso Ruschi dominava r√°dios e jornais. Todos os dias, uma nova not√≠cia sobre o cientista ilustrava a capa do Jornal do Brasil.

Sarney n√£o perdeu tempo: no avi√£o em que voltava de Manaus, pediu ao Ministro do Interior, Ronaldo Costa Couto, que a Funai procurasse a ajuda dos √≠ndios. Em um primeiro momento, o √≥rg√£o indigenista se ofereceu para contatar os Waiapi, povo ind√≠gena da Serra do Navio, onde Ruschi havia sido contaminado, em busca de um ant√≠doto. Finalmente, receberam no Pal√°cio do Planalto o cacique Raoni, j√° internacionalmente reconhecido por sua luta pela preserva√ß√£o da Amaz√īnia, e acordaram uma pajelan√ßa.

“Mas por que ele n√£o avisou antes?”, perguntou o cacique, ao ser informado da doen√ßa que acometia Ruschi. Raoni encomendou o colhimento de uma raiz da selva chamada atorokon, cuja macera√ß√£o e cozimento serviria de ant√≠doto para o veneno. “Primeiro, bate a raiz e p√Ķe na √°gua quente; quando vira √°gua, pinga no olho; depois bebe um pouco; depois toma banho”, explicou. Um avi√£o da FAB saiu de Bras√≠lia com destino ao Parque Nacional de Xingu para buscar o paj√© Sapaim, que iria auxiliar Raoni no tratamento.

Cacique dos Txucarramães, Raoni havia sido tema de um documentário premiado com o Oscar, em 1978, e narrado por Marlon Brando. Nascido em 1930 no Mato Grosso e pertencente a um dos ramos da etnia caiapó, aprendera português aos 20 e poucos anos com os célebres indigenistas Orlando, Claudio e Leonardo Villas-Boas. Um dos irmãos de Raoni também fora envenenado por um sapo dendrobata, e o cacique garantia agora conhecer o seu antítodo. Ele, porém, não era reconhecido como pajé, nem mesmo entre os caiapós. Como o tratamento exigia um pajé, convocaram também Sapaim, um kamayurá do Alto Xingu, considerado um dos maiores xamãs dos povos indígenas, inciado e consagrado pelo espírito Mamaé.

A passagem dos dois √≠ndios pelo Rio de Janeiro, onde iriam tratar Ruschi, foi um prato cheio para a m√≠dia da √©poca. Com seu disco de madeira no l√°bio inferior, Raoni era uma figura f√°cil de marcar. O jeito enigm√°tico de Sapaim, que pela primeira vez sa√≠a de sua aldeia para visitar uma cidade, tamb√©m foi motivo de folclore. A m√≠dia acabou focando nos aspectos mais superficiais da cultura ind√≠gena. Como o interesse de Sapaim pela m√ļsica da banda RPM, cuja fita-cassete levou para o Xingu (“Quero ouvir muito o som dessa fita, muito boa”). Ou o comportamento informal de Raoni, que n√£o se conteve e soltou um estrondoso “grito de Tarzan” durante um encontro no Pal√°cio do Planato, n√£o se sabe bem por qu√™ (ao seu lado, o ministro Costa Couto ficou envergonhado e resolveu sair √†s pressas).

Jornalistas do mundo inteiro vieram cobrir o epis√≥dio. Nas disputadas coletivas, os rep√≥rteres repetiam a mesma pergunta: como homem de ci√™ncia, o naturalista acreditava na f√© dos √≠ndios? N√£o estaria ele se rendendo ao “curanderismo”? Ruschi, que j√° conhecia bem os povos do Xingu, tentou desfazer a oposi√ß√£o ci√™ncia/medicina popular. Em suas respostas, sempre enfatizava o conhecimento dos poderes das plantas pelos √≠ndios, lembrando que a medicina deles tinha dois mil anos, “muito mais tempo do que a nossa”.

“At√© agora enfrentamos problemas com soro antiof√≠dico, com gente morrendo todo dia em decorr√™ncia de picada de cobra. No entanto, nesses 50 anos de vida na Amaz√īnia, vi os √≠ndios ingerirem ch√°s e serem curados de veneno”, afirmou o naturalista em uma entrevista coletiva no Rio de Janeiro, √†s v√©speras da pajelan√ßa.

[olho]Antes mesmo de encontrar Ruschi, Raoni j√° o havia examinado por foto. “Est√° com cara de sapo”[/olho]

“Houve uma cultura sensacionalista, que, ali√°s, ainda √© atual”, lembra o bi√≥logo Andr√© Ruschi, segundo dos tr√™s filhos de Augusto, em entrevista por e-mail. “Uma parte da m√≠dia foi interessante e prestou significativos servi√ßos. Mas ainda muito superficial. Pouco investigativa. Havia alguns interesses comerciais que estavam sendo mobilizados formando-se um jogo comercial no mercado, oculto do p√ļblico, da grande m√≠dia.”

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Augusto Ruschi e o cacique Raoni, da tribo Txucarramãe, no Rio de Janeiro, em 1986. Crédito: Rogério Carneiro/Folhapress
Augusto Ruschi e o cacique Raoni, da tribo Txucarramãe, no Rio de Janeiro, em 1986. Crédito: Rogério Carneiro/Folhapress

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Antes mesmo de encontrar Ruschi, Raoni j√° o havia examinado por foto. “Est√° com cara de sapo”, diagnosticou. Para o cacique, era preciso urgentemente “tirar o sapo” de dentro de seu paciente. A Sarney, contou ter visto Ruschi em sonho, numa lagoa cheia de anf√≠bios: “Ele j√° virou um sapo, mas esse sonho pode ser um bom press√°gio”. Os jornais reproduziram as palavras do cacique sem nenhum contexto, ignorando qualquer cosmologia por tr√°s delas. Tamb√©m pouco falaram do papel dos esp√≠ritos e dos sonhos na cura.

“O paj√© fala com o doente de dia e de noite vai dormir. Quando sonha, sai do corpo e acompanha o esp√≠rito-guia, que no caso de Sapaim se chama Ypotrama√© [mama√© da flor, ‘ipoty + mama√©’]”, explica o m√©dico e antrop√≥logo Wesley Arag√£o, que acompanhou Sapaim em suas pesquisas de campo. “O mama√©-guia do paj√© o leva para uma floresta, em ‘viagem fora do corpo’, e lhe mostra quais ervas deve usar e que procedimento deve tomar, no dia seguinte, com o paciente. O paj√© ao estilo de Sapaim age sempre desta forma. Todos t√™m o seu esp√≠rito guia com quem conversam de dia, em clarivid√™ncia suposta, ou de noite, no sonho. No rito de cura, este sonho terapeutico com o esp√≠rito √© determimante. Inclusive em termos de progn√≥stico”.

Segundo Wesley, o paj√© √© apenas um m√©dium — quem realmente cura √© o esp√≠rito, no caso Mama√©. Da√≠ a import√Ęncia do sonho.

“√Č o Mama√© quem diz tudo: se o doente vai viver, se vai sarar definitivamente ou temporariamente, o que ele deve fazer, o que o paj√© deve fazer como e por quanto tempo. Tudo √© o Mama√© quem diz. E o sonho √© o momento de melhor comunica√ß√£o entre aqui e o al√©m, onde vive o Mama√© [no Mama√©retam, a terra dos esp√≠ritos]”.

***

√Äs 9h da manh√£ do dia 23 de janeiro de 1986, os √≠ndios chegaram pintados com tinta de jenipapo, como manda a tradi√ß√£o. O ritual aconteceria no casar√£o do Parque Lage, na G√°vea, Zona Sul do Rio de Janeiro, e iria durar tr√™s dias e tr√™s noites. De manh√£, durante a primeira sess√£o, os √≠ndios cobriram-se de urucum e sopraram a fuma√ßa de um charuto de folhas de trinta cent√≠metros no corpo do naturalista. Vinte minutos mais tarde, Raoni inclinou-se sobre ele, massageou-o com unguento e foi tirando, a partir de seu pesco√ßo, uma subst√Ęncia escura e mal-cheirosa. Era, segundo Raoni, o veneno do dendrobata.

Na segunda sess√£o, √† tarde, Raoni e Sapaim preparam um ch√° com a raiz de atorokon. A erva foi fervida e espalhada sobre Ruschi. Depois, os √≠ndios fumaram novamente o charuto e retiraram mais uma vez a subst√Ęncia. A cada sess√£o, ela vinha mais clara e em menor quantidade.

Ainda h√° controv√©rsias sobre a s fun√ß√Ķes exercidas por Raoni e Sapaim. Em suas entrevistas mais recentes, este √ļltimo afirma que, por n√£o ser paj√©, Raoni n√£o sabia os procedimentos de paj√©.

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Augusto Ruschi (segundo da esq. para a dir.), o cacique Raoni (quarto da esq. para a dir.) e o pajé Sapaim (à dir.), no Rio de Janeiro, em 1986. Crédito: Rogério Carneiro/Folhapress
Augusto Ruschi (segundo da esq. para a dir.), o cacique Raoni (quarto da esq. para a dir.) e o pajé Sapaim (à dir.), no Rio de Janeiro, em 1986. Crédito: Rogério Carneiro/Folhapress

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“O que Sapaim me disse √© que Raoni s√≥ quis aparecer perante os brancos como paj√© para mostrar sua pessoa, seu povo, impor sua autoridade”, revela Wesley. “Em decorr√™ncia disto, Raoni na ocasi√£o disse muitas coisas sem sentido, e fez algumas ‘performances’ para simular a condi√ß√£o de paj√©”.

[olho]”Olha, acho que eles acabaram me curando mesmo”[/olho]

Entre todos os jornalistas, Rog√©rio Medeiros foi o √ļnico autorizado a presenciar os rituais. No dia 24 de janeiro, ele publicou um relato no qual descrevia a √ļltima sess√£o:

“No encerramento, Sapaim disse que o veneno j√° estava diminuindo muito no corpo de Ruschi. E Ruschi, com a voz mais firme, muito tranquilo, sem dor — o que ressaltou logo — disse para mim, com os olhos muito acesos — o que n√£o fazia h√° meses: ‘Olha, acho que eles acabaram me curando mesmo’.”

Aos rep√≥rteres, Augusto Ruschi afirmava estar totalmente recuperado. Os sangramentos haviam parado e seu intestino voltara a funcionar normalmente, algo que n√£o acontecia h√° anos. Tamb√©m dormia melhor — e at√© sonhava. “Estou sentindo um gosto de vida”, disse a Medeiros. Mas, apesar das manchetes e entrevistas otimistas, o naturalista ainda sofria de insufic√™ncia hep√°tica grave, causada por uma cirrose. A retirada tardia do veneno pela pajelan√ßa lhe ajudou a recuperar for√ßas, mas n√£o trouxe a cura. Ele morreria quatro meses depois, aos 71 anos, em Vit√≥ria, de cirrose viri√≥tica.

A aut√≥psia n√£o revelou nenhum tra√ßo de veneno. Para os m√©dicos, tudo indica que a cirrose foi derivada pelo consumo excessivo de rem√©dios contra a mal√°ria — e n√£o pelos sapos. A morte por hepatite C, inoculada em coleta de sangue normal para exames de rotina, foi confirmada pelo seu m√©dico particular e assessor de pesquisas, o cardiologista Pedro Jos√© de Almeida. Segundo Andr√© Rushi, o √≥bito n√£o foi devidamente esclarecido na √©poca por causa de um desentendimento entre Ruschi e Almeida.

Sapaim, por outro lado, acreditava que o naturalista estava enfraquecido por um c√Ęncer, conta Wesley Arag√£o.

“O que Sapaim me contou √© que o envenenamento de Rushi n√£o teve nada a ver com Mama√©, que √© um envenanamento f√≠sico de fato, que o ‘sapo mijou nele’ e que o ‘veneno entrou nele’ e estava matando ele aos poucos”, relembra o antrop√≥logo. “O que Sapaim diz ter feito foi ‘tirar o veneno do sapo do corpo de Ruschi’. Segundo Sapaim, este se encontrava ‘muito mal’, ‘quase morrendo’, ‘nao tinha voz, n√£o aguentava andar e sangrava pelo nariz’. Quando ele tirou o veneno, Ruschi voltou a andar, a falar normal e parou de sangrar. Perguntei uma vez a Sapaim por que, ent√£o, Ruschi morreu alguns meses depois. Ele me respondeu que ‘a parte dele foi feita, ele tirou o veneno, mas Ruschi morreu de c√Ęncer porque estava j√° enfraquecido’.”

***

Em seu ato final, Ruschi fez o Brasil abrir os olhos para a medicina ind√≠gena. A intensa — e sensacionalista — exposi√ß√£o de seu tratamento trouxe uma visibilidade in√©dita, ainda que fugaz, para a ci√™ncia dos povos do Xingu. Raoni e Sapaim sabiam que o que estava em jogo ia muito al√©m da sa√ļde do cientista: “N√≥s dois temos que curar direito, sen√£o o branco n√£o acredita e brinca com √≠ndio”, declarou o cacique.

Em uma sociedade descrente, paralisada no labirinto da D√©cada Perdida, o termo “pajelan√ßa” ganhou a boca do povo, como uma solu√ß√£o m√°gica para todos os males do momento. Se o xamanismo ind√≠gena podia salvar um dos mais ilustres brasileiros, por que n√£o resolveria os outros problemas do Brasil? O banqueiro Marc√≠lio Marques Moreira chegou a afirmar que o pa√≠s precisa de “uma pajelan√ßa econ√īmica”. E at√© o jogador S√≥crates, que enfrentava uma les√£o aparentemente incur√°vel, cogitou chamar Raoni para dar um jeito em seu tornozelo.

“Curado”, Ruschi fez elogios p√ļblicos aos ind√≠genas, √† “cultura linda” que o havia socorrido. E foi pessoalmente agradecer Jos√© Sarney pela interven√ß√£o. J√° o antrop√≥logo Darcy Ribeiro e o pol√≠tico M√°rio Juruna — primeiro e √ļnico deputado federal ind√≠gena do pa√≠s — acusaram o presidente de usar politicamente os √≠ndios. Ribeiro, ali√°s, tamb√©m temia que o epis√≥dio provocasse uma corrida de brancos a aldeias ind√≠genas, em busca de tratamento.

Sua preocupa√ß√£o tinha fundamento. Gra√ßas ao epis√≥dio, Raoni e Sapaim alcan√ßaram status de celebridade, fazedores de milagre. Durante a pajelan√ßa, pacientes brancos correram ao Parque da Cidade pedindo √† dupla que os examinassem. Houve at√© quem temesse que o local se tornasse um local de romaria: “A fama dos paj√©s est√° se espalhando, come√ßa a aparecer gente pedindo informa√ß√Ķes”, disse um guarda. Assediado enquanto passeava no Centro do Rio, Raoni ouviu de uma senhora: “Esse a√≠ tem que ser ministro da sa√ļde”.

“Durante os dias de pajelan√ßa, Raoni e Sapaim ficaram concentrados no Parque da Cidade, n√£o sa√≠ram de l√°, e os jornalistas se instalaram ali por perto, esperando novidades”, lembra o fot√≥grafo Custodio Coimbra, do jornal¬†“O Globo”, que na √©poca cobriu o epis√≥dio pelo “Jornal do Brasil”. “Quando o tratamento acabou, os √≠ndios sa√≠ram para fazer compras na Casa Turuna [tradicional loja de fantasias do Rio] e toda a imprensa foi atr√°s, porque eles tinham virado uma atra√ß√£o na cidade.”

Em um dos seus plant√Ķes no Parque da Cidade, o fot√≥grafo ganhou um charuto de Sapaim, feito provavelmente com as mesmas ervas usadas na pajelan√ßa.

“Vi ele de longe, e fiz um sinal. Ele me chamou e deu o charuto de presente. O pessoal queria experimentar ali mesmo, mas eu preferi fumar em casa. Na √©poca era comum fazermos proje√ß√Ķes l√° na minha casa, e em duas delas fumamos o charuto. Fazia uma fumaceira danada. E at√© dava um barato.”

[olho]”O caso Ruschi foi um marco para se pensar a tensa rela√ß√£o entre magia, religi√£o e ci√™ncia”[/olho]

Em sua coluna, Affonso Romano de Sant’Anna chegou a sugerir a explora√ß√£o de uma farmacopeia que unisse “a sabedoria ind√≠gena e o que h√° de mais avan√ßado na ind√ļstria qu√≠mica”. Raoni, por√©m, descartou qualquer possibilidade de industrializar a raiz atorokon. “A raiz n√£o pode vender para o branco. Os brancos j√° t√™m seus rem√©dios”, enfatizou.

“O caso Ruschi foi um marco para se pensar a tensa rela√ß√£o entre magia, religi√£o e ci√™ncia”, diz a antrop√≥loga Gisela Macambira Villacorta, especializada em antropologia da religi√£o e da sa√ļde, e professora da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Par√°. “A repercuss√£o na m√≠dia trouxe √† tona algo que j√° estava ocorrendo no cotidiano: a redescoberta, por n√£o-ind√≠genas, dos sistemas de cura tradicionais. Isso acontece em fun√ß√£o da crise da sa√ļde no pa√≠s, mas tamb√©m da crise da medicina ocidental, da rela√ß√£o entre paciente e m√©dico, que era e ainda √© de muita dist√Ęncia. Na rela√ß√£o com o paj√©, o paciente participa mais da cura, ambos s√£o protagonistas, vivem junto o processo.”

No dia 26 de janeiro daquele ano, uma reportagem no “Jornal do Brasil” mostrava que o caso Ruschi havia devolvido o prest√≠gio das ervas medicinais, com a busca de rem√©dios naturais crescendo a cada dia. Um movimento superficial e moment√Ęneo, mas que deixou marcas, acredita Andr√© Ruschi. Ele conta que, quando foi delegado do Conselho Estadual de Sa√ļde do E. ES nas Plen√°rias Nacionais de Sa√ļde, entre 1999 e 2006, conseguiu a aprova√ß√£o do reconhecimento oficial das terapias alternativas, que foram inclu√≠das no SUS e no ensino oficial dos cursos de medicina. A refer√™ncia ao nome ‚ÄúRuschi”, segundo ele, ajudou a fortalecer os argumentos junto aos delegados.

“A ci√™ncia m√©dica √© produto da coleta de informa√ß√Ķes populares que v√£o sendo confirmadas de maneira t√©cnica para que possamos reproduzi-las de maneira consciente”, diz ele. “Portanto, [o caso] trouxe √† luz, de maneira mais evidente, como ocorre este processo de assimila√ß√£o de conhecimentos e desenvolvimento cultural.”

Quase tr√™s d√©cadas ap√≥s a pajelan√ßa, Raoni se tornou um √≠cone da preserva√ß√£o ambiental e da cultura ancestral, mas n√£o deu continuidade a sua experi√™ncia como paj√©. Sapaim se tornou conhecido especialmente entre pessoas brancas, urbanas, ligadas a movimentos new age, e continua atendendo pacientes famosos, como Leonardo DiCaprio e Gisele B√ľnchen. J√° os alertas de Augusto Ruschi, que no dia 12 de dezembro de 2015 completaria 100 anos, nunca estiveram t√£o atuais.

“A aus√™ncia de pol√≠tica florestal leva o pa√≠s a um desastre ambiental permanente com desertifica√ß√£o na maior parte do territ√≥rio nacional. Ele sempre advertiu sobre esta tend√™ncia. O combate aos agrot√≥xicos, a rejei√ß√£o √† monocultura, a pol√≠tica de cria√ß√£o de Unidades de Conserva√ß√£o s√£o legados universais do pensamento de Ruschi, amplamente aceitos e adotados em todas as na√ß√Ķes”, enumera Andr√©, que continua o trabalho do pai na Esta√ß√£o Biologia Marinha Ruschi, uma escola de ecologia dedicada √† pesquisa, educa√ß√£o e cultura. Ele lamenta, no entanto, que a institui√ß√£o continue sofrendo persegui√ß√Ķes pol√≠ticas e lutando contra a falta de apoio governamental.

Ap√≥s a morte de Ruschi, n√£o demorou um m√™s para o que o Esp√≠rito Santo come√ßasse a sofrer uma nova onda de desmatamentos, que atingiu at√© sua terra natal, Santa Teresa, na regi√£o serrana Estado. Rog√©rio Medeiros, que em 1995 escreveu o livro “Ruschi — o agitador ecol√≥gico” (Editora Record), lamenta que o legado do naturalista ainda n√£o seja devidamente reconhecido em sua pr√≥pria regi√£o.

“O mundo respeita Ruschi, mas o Estado inteiro do Esp√≠rito Santo, da Academia aos pol√≠ticos, o odeia. Porque tudo que ele falou que ia acontecer no Estado j√° est√° acontecendo. Os estragos das mineradoras, a natureza se vingando, a situa√ß√£o do Rio Doce… Ele previu tudo isso.”