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Flip 2016

Karl Ove e eu

Sinto que Karl Ove Knausgard e eu somos amigos — a rec√≠proca, infelizmente, n√£o √© verdadeira. √Č modo de dizer, claro.¬†Mas sinto como se, de alguma forma, o conhecesse e como se ele fosse me entender tamb√©m caso tom√°ssemos¬†uma cerveja. N√£o √© um tipo de sensa√ß√£o de todo incomum com celebridades: voc√™ v√™ tantas coisas sobre elas, tantas entrevistas, posts em redes sociais, fotos, v√≠deos, que sente como se soubesse de fato como elas s√£o na vida real. Com Karl Ove (sinto que somos √≠ntimos, ent√£o o chamo pelo nome) a ilus√£o √© ainda mais intensa. Em seus livros ele revela coisas sobre si que n√£o se sabe nem sobre os amigos mais pr√≥ximos e que provavelmente poucos assumiriam pra algu√©m, quanto mais pro mundo todo. Um par√°grafo de Karl Ove vale mais que mil selfies ou entrevistas para Jimmy Fallon.

Minha hist√≥ria com ele come√ßa tr√™s Flips atr√°s, em 2013, e ganha novos epis√≥dios todo m√™s de junho, quando um novo livro seu √© lan√ßado no Brasil. Karl Ove era um dos convidados do evento e lan√ßaria aqui “A Morte do Pai”, o primeiro livro de sua s√©rie autobiogr√°fica “Minha Luta”. Chegaram alguns exemplares na reda√ß√£o em que eu trabalhava e uma amiga, com indica√ß√Ķes sempre certeiras, me deu um. “L√™ esse, √© bom.” Abri o livro no metr√ī, voltando para casa e fui fisgada na primeira frase, devidamente anotada num caderno para refer√™ncia: “Para o cora√ß√£o a vida √© simples: ele bate enquanto puder. E ent√£o para”.

Que ele tamb√©m ache esse trecho particularmente bom √© mais uma evid√™ncia de que estamos na mesma sintonia, digo para mim mesma. Numa conversa com James Wood publicada na Paris Review, Karl Ove diz: “O tempo todo em que escrevi esses seis livros senti que n√£o era uma boa escrita. O que √© bom, acho, s√£o as primeiras p√°ginas do primeiro livro, a reflex√£o sobre a morte. Quando est√°vamos publicando aquele primeiro livro meu editor me pediu para remover aquelas p√°ginas, porque elas eram muito diferentes do resto e ele estava certo. Ele est√° certo, seria melhor, mas eu precisava de um trecho do livro em que a escrita fosse boa. Passei semanas e semanas naquele peda√ßo e acho que √© uma prosa modernista, de alta qualidade. O resto do livro n√£o est√° no meu n√≠vel”.

“A Morte do Pai” me acompanhou em bares, pautas, trajetos de metr√ī e √īnibus e desde ent√£o aguardo ansiosamente o dia do ano em que o volume seguinte ser√° lan√ßado — algo como esperar o novo “Harry Potter” quando eu era crian√ßa. Comprei para mim um exemplar autografado de um dos livros, de um sebo americano. Dei os livros do Karl Ove de presente para um monte de gente. Fiz minha parte para ajudar a espalhar sua palavra pelo mundo.¬†Para cada momento da vida h√° um trecho do Karl Ove que cai bem¬†‚Ästele tem bons conselhos. Exemplo pr√°tico, de uma frase de “Um Outro Amor”, que tamb√©m integra meu caderno: “(…) que pecar √© se colocar numa posi√ß√£o onde o pecado se torna poss√≠vel. Encher a cara, quando voc√™ sabe o que est√° pensando e conhece o impulso que existe dentro de voc√™, √© se colocar nessa posi√ß√£o”. S√°bio.

A sinopse de um livro de Karl Ove n√£o faz jus a ele. “Mas‚Ķ √Č um livro sobre a vida do cara?”, perguntou meu irm√£o quando tentei convenc√™-lo de comprar ‚ÄúA Morte do Pai” para ler durante as f√©rias. Se √© pra ser direto e confuso: sim, √© — mas n√£o √©. A vida dele n√£o tem nada de muito especial, no fim das contas. Mas √© como ele disse numa entrevista (vou ter que confiar na minha mem√≥ria nessa, j√° li tantas dele que agora n√£o consigo mais ach√°-las): toda vida merece esse tipo de aten√ß√£o, mesmo que nada de extraordin√°rio te aconte√ßa. O que faz com que os livros de Karl Ove se destaquem n√£o √© o enredo, mas a forma como ele conta as coisas, com uma honestidade brutal sobre si mesmo e todos √† sua volta. Ele n√£o pinta um autorretrato favor√°vel.¬†Coloca na p√°gina as mesquinharias, os defeitos, as humilha√ß√Ķes, passagens vergonhosas que preferir√≠amos esquecer. Todo o mundo pode achar algo em Karl Ove, porque na escrita dele a vida √© como ela √©.

Karl Ove Knausgard em Nova Yprk, em novembro de 2015. Crédito: Charles Sykes/Invision/AP
Karl Ove Knausgard em Nova York, em novembro de 2015. Crédito: Charles Sykes/Invision/AP

***

Um ano depois, em junho de 2014, perto da Copa do Mundo no Brasil, fiz uma entrevista com ele por telefone. Há quem diga que é melhor não conhecer seus ídolos e por alguns dias, enquanto tentava marcar de falar com ele, temi pelo pior. Temi que ele fosse chato e temi que eu fosse perder a compostura. Mandei um e-mail para ele para acertarmos o horário e escrevi tentando ser ao mesmo tempo formal (ele não podia saber que eu o amava) e simpática (eu queria que ele me amasse). Ele respondeu assim:

Hi Fernanda,

Hope this reach you well! I¬īm fine, thank you – as everybody else here occupied with football in your country (hopefully, Chile will beat Holland, for Brazil will beat Holland, but Chile, that¬īs a tough one!) I¬īm honored that you will interview me. Tomorrow between 11 and 13 is fine!

All my best,
Karl Ove

Pura simpatia. Grande uso de exclama√ß√Ķes. Conversamos sobre futebol! Ele estava honrado em ser entrevistado por mim. Marcamos para as 11h no hor√°rio dele, na Su√©cia. Uma escolha estrat√©gica da minha parte: seriam 6¬†horas da manh√£¬†aqui e a reda√ß√£o estaria vazia. N√£o contei com o fato de que no dia anterior a gente sairia de madrugada do jornal e eu praticamente n√£o dormiria. Mas eu queria privacidade.

Karl Ove √© t√£o bom entrevistado quanto escritor. Seu tom de voz, seu sotaque e sua cad√™ncia s√£o reconfortantes e suas respostas s√£o inteligentes e assertivas. Escritores, em geral, s√£o bons de conversa, e Karl Ove n√£o √© exce√ß√£o. Conversamos por pouco menos de uma hora, bem mais do que coube no papel, principalmente sobre a s√©rie “Minha Luta” — na √©poca o segundo volume, “Um Outro Amor”, era lan√ßado no Brasil. Enquanto o primeiro se debru√ßa mais sobre sua complicada rela√ß√£o com o pai, o segundo fala de seus filhos e do segundo casamento. Os dois s√£o igualmente bons — depois, o pr√≥prio Karl Ove admite que segurou um pouco a m√£o, soltando-se de novo no √ļltimo. Consequ√™ncias do bafaf√° gerado pelo lan√ßamento dos livros na Noruega — nem todas as pessoas citadas na obra ficaram contentes.

Novamente conversamos sobre futebol e ele revelou que estava escrevendo com um amigo sobre a Copa do Mundo no Brasil. N√£o me disse, por√©m, para quem estava torcendo (“N√£o d√° pra falar isso pra uma brasileira!”). Chuto que era para a Argentina — pa√≠s que ele sonhava em conhecer e que daria nome √† s√©rie “Minha Luta”. N√£o polemizamos e terminamos a conversa em bons termos. Pensei em dizer que eu gostava muito do trabalho dele, mas uma das primeiras li√ß√Ķes que recebi como trainee de jornalismo foi: “N√£o bata palmas em um jogo de futebol se voc√™ estiver trabalhando”. Transferindo a li√ß√£o para o jornalismo cultural, achei que n√£o era de bom tom eu me revelar assim para a fonte, mesmo que n√£o tivesse ningu√©m ali para presenciar e mesmo que provavelmente eu nunca mais fosse falar com ele de novo. Quando minhas previs√Ķes no futebol se concretizaram e as dele ca√≠ram por terra, pensei em escrever um e-mail. N√£o o fiz.

***

Tr√™s anos depois de ter cancelado sua vinda √† Flip, Karl Ove veio a Paraty. Cruzei com ele a primeira vez no hotel em que ele estava hospedado com seu filho, John. Eu sa√≠a de uma entrevista coletiva com Misha Glenny quando um jornalista √† minha frente esbarrou em um homem alto, de camisa de manga comprida, de cor clara como suas cal√ßas. “Sorry”, disse ele. Levantei os olhos para ver quem era e fiquei em choque: Karl Ove Knausgard, o pr√≥prio. Mais alto do que eu imaginava, bastante imponente. Nos segundos que levei para me recuperar da surpresa e voltar a fazer sinapses, ele j√° tinha desaparecido. Tudo bem, horas mais tarde seria a vez da coletiva dele.

A sala estava bem mais cheia na entrevista de Karl Ove que na de Misha Glenny. Dessa vez vestido de preto, entrou sorrindo, cumprimentando todos que estavam ali. Durante uma hora, interrompida pela organiza√ß√£o do evento, Karl Ove falou sobre literatura, Brexit e, claro, o 7 a 1 que levamos da Alemanha. A bem da verdade, quando voc√™ l√™ todas as entrevistas com Karl Ove que aparecem pela frente as novidades j√° n√£o s√£o muitas. Todo o mundo quer saber de “Minha Luta”, a obra que provavelmente o definir√° para sempre.

Sobre como consegue lembrar de tantos detalhes sobre a sua vida, desde a inf√Ęncia, ele √© sincero: “Quando comecei, a premissa era de que tudo devia ser verdade. Tinha que ter vivido tudo que escrevi, n√£o devia inventar nada. Mas, ao mesmo tempo, n√£o fiz pesquisa alguma. Queria escrever um livro sobre mem√≥ria, sobre o que tinha na minha cabe√ßa. H√° coisas nos livros que tem gente que me disse que nunca aconteceu, ou n√£o aconteceu daquele jeito, e est√£o l√°. Queria explorar a mem√≥ria. H√° detalhes romanceados, que inventei”. Em suma, em suas pr√≥prias palavras, trata-se de um romance n√£o ficcional. Tudo √© verdade, mas uma verdade subjetiva.

Seu principal tema de interesse √© a no√ß√£o de identidade, em todas suas formas: nacional, pessoal, sexual, masculina‚Ķ Criamos imagens de n√≥s mesmos como se estiv√©ssemos contando uma hist√≥ria. Quando falamos de n√≥s para algu√©m, h√° toda uma narrativa por tr√°s. Tudo √© organizado por hist√≥rias, mas ao mesmo tempo a vida √© muito mais complexa que isso. Vida e narrativa: as duas est√£o em constante batalha em sua obra. Durante anos, ali√°s, tentou escrever sem √™xito, sem conseguir colocar para fora aquilo que tinha dentro de si. Foi quando conseguiu desaparecer na escrita, aos 26 anos, que as coisas come√ßaram a dar certo. “N√£o sei como aconteceu, mas era como se eu sumisse na escrita. N√£o percebia a mim mesmo. √Č a experi√™ncia que voc√™ tem quando l√™ um livro muito bom, mergulha nele e desaparece. Voc√™ faz isso mesmo quando escreve sobre si.” Ao mesmo tempo em que conta uma hist√≥ria muito pessoal, fala de algo que vai al√©m dele. “√Č muito estranho, mas √© o mais alto que voc√™ chega como escritor. √Č quase budista. A sensa√ß√£o √© √≥tima.”

Quando come√ßou a escrever “Minha Luta”, achou que ningu√©m — nem seus amigos — teria interesse em ler algo t√£o narcisista. Era s√≥ algo pessoal que ele tinha que escrever. “Mas quando me encontro com leitores eles sempre falam de si, sempre sobre algo que apareceu na leitura que est√° conectado a eles. Percebi que somos muito mais parecidos do que achamos”, afirma. Seus livros, diz, n√£o s√£o sobre sua vida. “√Č uma vida bem comum, n√£o fiz nada de muito espetacular. Os livros s√£o uma forma de explorar, de tentar entender, e isso √© o que um romance faz. Ent√£o os chamo de romances. Posso escrever 20 p√°ginas sobre mascar chiclete, se isso me interessar. Voc√™ n√£o leria isso numa autobiografia de um pol√≠tico”, fala. “Por que ler um livro sobre a vida do cara?”, perguntou meu irm√£o. Karl Ove responde, com mais eloqu√™ncia que eu: “√Č o mesmo que ler Marcel Proust. A vida dele √© um lugar em que todo o tempo e a cultura acontecem. Ele escreve sobre arte, m√ļsica, sociedade. Pra mim, a vida dele √© chata e pouco interessante. Mas seus livros n√£o s√£o”.

Escrever “bonito” n√£o era uma preocupa√ß√£o, afirma. O que importa √© ser livre na escrita, escapar de todas as regras de “isso pode, isso n√£o pode”. A literatura √© o √ļnico lugar onde se pode experimentar de tudo, desafiar as normas, e a pior coisa que ele conhece √© a cr√≠tica moralista. Conta que √†s vezes fica irritado lendo alguma coisa, mas se lembra de que, quando l√™, √© a voz do autor que ecoa em sua cabe√ßa e √© essa voz que ele tem que obedecer. N√£o cabe a ele julgar.

Mesmo afirmando que boa escrita n√£o √© fundamental, repete o que disse √† Paris Review sobre as primeiras p√°ginas do primeiro livro da s√©rie — foram as mais trabalhosas e as melhores. “Trabalhei tanto tempo naquelas dez primeiras p√°ginas. Meses. Polindo, tornando-as grande literatura. E a√≠ falei ‘foda-se’ e s√≥ escrevi. Primeiro cinco p√°ginas por dia, depois dez. Meu editor leu e disse que o come√ßo era t√£o diferente do resto que eu devia cortar. Eu disse que de jeito nenhum, √© a √ļnica parte do livro em que d√° pra ver que eu sei escrever”, diz, rindo. Se voc√™ escreve r√°pido, tem um material mais bruto, mais direto, mas tamb√©m mais cheio de clich√™s. Nos livros tr√™s e cinco ele utilizou estruturas mais primitivas. S√£o volumes mais simples. “Mas n√£o √© esse o ponto, o ponto √© pegar algo do meu cora√ß√£o e levar para o cora√ß√£o dos leitores e √© isso.” Se para isso voc√™ precisa de clich√™s, v√° com os clich√™s.

Hoje, Karl Ove vive com a mulher, Linda, e quatro filhos num vilarejo de 200 pessoas. Sua vida, basicamente, consiste em levar e buscar as crian√ßas na escola e escrever. Como hobby, cuida de sua editora (“mas a√≠ √© literatura tamb√©m”, reflete). Jogava futebol, mas onde vive agora s√≥ adolescentes jogam e ele n√£o aguenta mais o ritmo e a correria. Ent√£o assiste a futebol na TV. Depois de tentar descrever que tipo de homem √© em mais de 3 mil p√°ginas, diz que √© dif√≠cil dar uma defini√ß√£o assim de supet√£o. “Sou um homem de fam√≠lia. Queria fazer algo diferente, tipo ficar b√™bado e fazer coisas. Sou um homem de fam√≠lia e odeio essa ideia. Tenho um jardim e odeio a ideia de ter um jardim. Meu pai tinha um jardim. Queria ser outra coisa, mas n√£o sou. Estou l√° e tenho aquela vida. E eu amo cuidar do jardim e ficar com meus filhos.”

Com sua editora, publica de dez a 12 livros por ano, s√≥ de coisas de que gosta (como Michel Laub, que tentou publicar, mas perdeu os direitos para outra editora). Por enquanto s√≥ gastou dinheiro, mas espera que neste ano finalmente n√£o saia no preju√≠zo. Termina agora uma s√©rie de quatro livros, cada um com o nome de uma esta√ß√£o do ano. Os dois primeiros s√£o de textos curtos, explicando para a filha que ainda n√£o tinha nascido no in√≠cio do projeto v√°rias coisas, numa esp√©cie de enciclop√©dia de objetos e sentimentos. O terceiro √© um romance, “muito sobre o amor”. O quarto, “Ver√£o”, ele ainda est√° escrevendo. A ideia era n√£o falar de si nem de sua fam√≠lia, mas n√£o deu muito certo. “N√£o deu pra evitar, e est√° sendo sofrido de novo. Mas esta √© a √ļltima vez.”

Karl Ove menciona o livro sobre a Copa do Mundo, sobre o qual me falou brevemente dois anos atr√°s. O volume √© resultado de uma troca de correspond√™ncia entre ele e um amigo. Karl Ove escrevia sobre “os times de que voc√™s n√£o gostam: Argentina, It√°lia”, conta, antes de perguntar para que times europeus torcemos no Brasil. Portugal?, chuta. Tamb√©m ficou traumatizado com o 7 a 1. “Eu n√£o queria assistir, do√≠a. Foi uma trag√©dia. Era uma grande hist√≥ria: era aqui, tinha o Neymar, tinha um fantasma do passado. E acontece isso. Nunca tinha visto um time desse tamanho colapsar completamente. Minha mulher at√© saiu¬†da sala. Eu senti quase como se n√£o fosse mais esporte, como se fosse outra coisa. Deve ter sido muito dif√≠cil.” Depois dessa, Karl Ove foi¬†embora.

***

Do intervalo entre sua entrevista coletiva, na tarde de quinta, e sua mesa na Flip, na tarde de sexta, s√≥ soube de peda√ßos daquilo que ele fez. Algu√©m disse que o viu comendo com o filho num restaurante na beira do rio, com o card√°pio bem levantado em frente ao rosto, como que para se esconder. Na fila para a mesa de Henry Marsh — neurocirurgi√£o cujas opera√ß√Ķes Karl Ove viu para escrever um texto — outro amigo o viu passar sozinho e tirou uma selfie com ele. Uma amiga o flagrou de bermuda pela cidade e outra o encontrou a caminho de sua mesa na sexta. Na noite de quinta seu nome estava na lista para uma festa lotada, mas ele n√£o apareceu.

Uma hora antes de sua mesa come√ßar, as cadeiras posicionadas em frente ao tel√£o, nos fundos da tenda dos autores, estavam praticamente todas ocupadas — embora boa parte das pessoas ali n√£o soubesse direito quem ele era. “√Č um holand√™s”, disse algu√©m. “Poxa, n√£o vai dar pra entender nada”, respondeu a mulher ao lado. Assistir √†s mesas do lado de fora, com as pessoas que n√£o compraram ingresso, √© uma experi√™ncia engra√ßada — melhor, em certo sentido, que ver a palestra na √°rea de imprensa, rodeado por outros jornalistas empenhados em registrar o m√°ximo poss√≠vel de frases ditas no computador. Se a mesa √© ruim, as pessoas se distraem, levantam e v√£o embora, ou falam ao celular. Quando a conversa d√° certo, o p√ļblico bate palmas para o tel√£o, o que n√£o faz muito sentido se voc√™ parar pra pensar. Ent√£o d√° para sentir melhor a recep√ß√£o da coisa. Karl Ove esteve na segunda categoria.

Entre algumas perguntas originais (Karl Ove n√£o experimentou cacha√ßa, informa√ß√£o nova pra mim), v√°rias quest√Ķes repetidas, que eu mesma havia feito dois anos atr√°s: como ele se lembra de tudo o que aconteceu?, o quanto daquilo √© fic√ß√£o?, como foi lidar com a repercuss√£o, principalmente na fam√≠lia?, mas ele n√£o tem vergonha de se expor tanto?, o t√≠tulo “Minha Luta”, dividido com o livro de Adolf Hitler, foi uma provoca√ß√£o? D√° pra ter uma ideia.

Mas se voc√™ quiser um resumo do que √© Karl Ove Knausgard, se quiser explicar para algu√©m qual √© a dele, por que algu√©m deveria se dar ao trabalho de ler sobre a vida normal de um noruegu√™s, ouvir o que ele disse na Flip √© uma grande oportunidade — ali√°s, ele revelou dias depois, em S√£o Paulo, que essa √© sua √ļltima turn√™ mundial para promover “Minha Luta”, ent√£o √© bom aproveitar. Como algu√©m que escreve, sempre me intriga ao conversar com escritores sobre aquilo que os leva a escrever, sobre os temas que os interessam, sobre como ter coragem de se expor assim para o mundo em palavras que ficam para sempre, sobre o que constitui uma boa escrita.

“A motiva√ß√£o por tr√°s da escrita √© chegar a algo que voc√™ n√£o sabia antes. Se voc√™ escreve algo e reconhece o que est√° na p√°gina, provavelmente n√£o √© muito bom. Se voc√™ chega a alguma coisa que n√£o tinha visto, a√≠ est√° a escrita, √© por isso que voc√™ escreve. Isso tamb√©m √© leitura, voc√™ n√£o quer ler algo em que j√° pensou. Como √© poss√≠vel, escrever algo e n√£o reconhecer, dizer ‘n√£o sou eu’? √Č um presente dos c√©us? N√£o. Literatura √© isso, linguagem √© isso, fora de n√≥s. Se voc√™ se joga nisso, muda. Voc√™ se v√™ de uma maneira diferente. A√≠ voc√™ est√° escrevendo. √Č estranho, quando voc√™ escreve sobre si acha que n√£o h√° nada que n√£o saiba, mas 90% do que sai √© de coisas sobre voc√™ que voc√™ n√£o sabia”, diz. “No fim, n√£o era eu. Eu estava escrevendo um romance. √Č por isso que pude ser t√£o duro comigo mesmo, revelar meus segredos. O objetivo era o livro.”

Contar as coisas como elas s√£o n√£o √© o motivo mais nobre do mundo e, como escritor, ele sente uma dificuldade em conciliar a vontade de ser uma boa pessoa com a busca pela verdade. “√Č o que torna fazer isso t√£o dif√≠cil. Quando o que voc√™ sacrifica n√£o √© voc√™, e sim pertence a outra pessoa… Voc√™ est√° tomando algo de algu√©m para si. Literatura √© uma das coisas mais importantes que temos, mas n√£o funciona no n√≠vel pessoal. Voc√™ passa por isso todos os dias quando √© escritor. Se voc√™ tem um amigo que passa por alguma coisa muito importante e voc√™ toma isso pra voc√™ e escreve‚Ķ N√£o √© algo que uma pessoa boa faria.”

Ao escrever “Minha Luta”, n√£o pensou nas consequ√™ncias. Nem pensou que fosse ser publicado, na verdade. Mas quando o livro saiu e 10% da popula√ß√£o norueguesa o comprou, viu que tudo tinha mudado. “Fiquei deprimido porque tinha vendido, tinha vendido minha fam√≠lia, minha alma, tudo que eu tinha. A√≠ tentei nunca pensar nisso, fingir que nunca tinha acontecido. Venho aqui e penso que ningu√©m me leu. Fico em nega√ß√£o. E funciona.” Mas o fato √© que houve rea√ß√Ķes, “consequ√™ncias morais”. Seu tio ficou cheio de raiva e quis process√°-lo. “Ele √© o irm√£o do meu pai, era como se ele tivesse voltado. Foi terr√≠vel, mas eu fiz algo para ele.” A press√£o da m√≠dia foi outra consequ√™ncia. Sua mulher teve uma crise e foi internada antes do fim da s√©rie — fato que entrou no √ļltimo volume. “Foi incrivelmente triste, e tive que escrever sobre isso de novo. Por qu√™? Porque sabia que seria bom, foi t√£o terr√≠vel assim.” Por isso, a √ļltima frase da s√©rie diz que ele deixar√° de ser escritor, porque a dor era muito grande. N√£o deu exatamente certo.

Karl Ove sente culpa, mas tenta lidar com ela. Sente culpa por causa dos filhos, que v√£o crescer estando naqueles livros, apesar de n√£o se arrepender de nada que est√° escrito. “√Č, de alguma forma, imoral escrever sobre os outros. Mas se voc√™ vai escrever sobre sua vida, n√£o d√° pra falar s√≥ de voc√™, porque viver √© se relacionar com outros. √Č uma posi√ß√£o dif√≠cil de estar. N√£o posso falar que meu livro √© mais importante que a sua vida, mas de algum jeito eu o fiz”, fala. Foi uma experi√™ncia autodestrutiva, que come√ßou porque ele se sentia frustrado, bravo, como se n√£o tivesse nada a perder. “Eu podia ter deixado minha fam√≠lia, poderia ter feito v√°rias coisas, mas escrevi um livro. Eu n√£o ligava”, diz.

Linda, sua mulher, tamb√©m √© escritora e s√≥ pediu para que ele n√£o a retratasse como uma chata. Quando ele lhe deu um manuscrito, ela estava num trem, e primeiro ligou para dizer que aquilo era terr√≠vel, mas que ela poderia viver com isso. Depois, ligou mais brava. Na terceira vez, estava chorando. “Mas o problema n√£o era o livro, era o relacionamento. Ent√£o conversamos por dias.” Escrever esses livros foi a pior coisa que poderia ter feito, mas ao mesmo tempo foi libertador. “Foi ok, n√£o foi perigoso. As pessoas ficaram bravas, mas ningu√©m morreu, ningu√©m se matou.”

Mais do que expor os outros, Karl Ove exp√īs muito de si, incluindo coisas de que tem vergonha, como o fato de que n√£o tinha se masturbado at√© os 19 anos, que n√£o tinha dividido com ningu√©m. Quando contou a um amigo, ouviu dez minutos de risada e achou que n√£o desse pra ficar pior. “Mas ainda tenho vergonha”, diz, rindo. “Ao escrever voc√™ tem que ser completamente livre e dizer as coisas mais est√ļpidas. Vergonha √© um t√≥pico nos meus romances desde o comecinho. Se voc√™ se interessa por identidade, tem que se interessar pela vergonha.”

Falhar √© importante, parte do processo. “A primeira parte dessa hist√≥ria foi passar dez anos tentando escrever, sem sucesso. Quase todo trabalho envolve falhar, falhar, falhar, falhar. Se voc√™ pensa em m√ļsica, se voc√™ quer improvisar voc√™ tem que ensaiar todos os dias, at√© fazer sem pensar. Tamb√©m √© verdade na literatura. Pensar √© superestimado. Sei coisas intuitivamente porque o fa√ßo h√° muito tempo.”

“O maior desafio √© ser honesto, de verdade, e n√£o se repetir. √Č muito dif√≠cil, especialmente se voc√™ √© bem-sucedido. √Č por isso que admiro tanto David Bowie. Ziggy Stardust foi um sucesso, e a√≠ o que ele faz? Algo completamente diferente. Isso √© muito corajoso”. O importante √© continuar. “√Äs vezes acredito no hype, que fiz algo bom. Depois abro esse livro e penso que n√£o, que tenho que fazer melhor. √Č assim que lido com isso.”

***

Isen√ß√£o √© importante no jornalismo, mas √© imposs√≠vel pedir para qualquer pessoa que n√£o tenha paix√Ķes — por times, ideologias, g√™neros de filmes ou autores. Ent√£o, desde que a paix√£o n√£o seja cega e o senso cr√≠tico permane√ßa, n√£o tem problema escrever sobre algo de que voc√™ gosta. Eventualmente vai acontecer. Mas desde que liguei para Karl Ove pela primeira vez e decidi por n√£o dizer “ei, gosto muito do seu trabalho” e encerrei com o “obrigada pela entrevista” de praxe me perguntei se teria alguma diferen√ßa ou n√£o eu ter falado isso pra ele. Afinal, eu j√° gostava dele e seria imposs√≠vel tirar isso de mim pra escrever. Faria alguma diferen√ßa ele saber?

Mas sem muito tempo para refletir quando tive a oportunidade de dizer alguma coisa para ele em Paraty, segui um de seus conselhos (“pensar √© superestimado”) e disse que, dois anos atr√°s, a gente tinha conversado e eu tinha me arrependido de n√£o ter dito que eu realmente amava os livros dele. Ele deu uma risadinha e disse algo como “poxa, obrigado, isso √© muito legal da sua parte!”. Pensando bem a respeito (agora sim), se h√° uma coisa que a saga¬†de Karl Ove nos ensina √© que¬†escrever de um ponto de vista pessoal, sentindo alguma conex√£o com o seu tema, √© bom.¬†Escrever √© transformar aquilo que √© extremamente pessoal em uma coisa¬†que j√° n√£o √© mais voc√™. No fim das contas, se pudesse dizer algo¬†mais a ele, o agradeceria por essa li√ß√£o. Mas sempre teremos junho do pr√≥ximo ano.

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O homem que sabia norueguês

Essa fam√≠lia comum em todos os aspectos, com pais jovens, como eram quase todos os pais naquela √©poca, e dois filhos, como quase todos os pais tinham naquela √©poca, havia se mudado de Oslo, onde tinha morado na Thereses Gate, perto do Bislett Stadion, durante cinco anos, para Trom√łya, onde uma casa fora constru√≠da para eles num loteamento. Enquanto aguardavam que a casa ficasse pronta, alugariam uma outra, mais velha, no acampamento Hove. Em Oslo o pai tinha estudado durante o dia, ingl√™s e noruegu√™s, e trabalhado como guarda-noturno durante a noite, enquanto a m√£e havia frequentado a escola de enfermagem em Ullev√•l. Mesmo que ainda n√£o houvesse terminado a forma√ß√£o, o pai tinha procurado e conseguido um emprego como professor no gin√°sio de Roligheden, enquanto ela trabalharia no hospital psiqui√°trico de Kokkeplassen. Os dois haviam se conhecido em Kristiansand quando ela tinha dezessete anos, ela engravidara aos dezenove, e os dois se casaram aos vinte, na pequena fazenda em Vestlandet onde ela havia crescido. Ningu√©m da fam√≠lia do noivo compareceu ao casamento, e mesmo que aparecesse sorrindo em todas as fotografias, nota-se uma zona de solid√£o ao redor dele, percebe-se que n√£o est√° no pr√≥prio ambiente em meio aos irm√£os e irm√£s, aos tios e √†s tias, aos primos e √†s primas da noiva.

Hoje os dois têm vinte e cinco anos, e têm a vida inteira pela frente. Trabalho próprio, casa própria, filhos próprios. Os dois estão juntos, e o futuro que almejam pertence a eles.

Ser√° mesmo?

(Trecho de a “Ilha da Inf√Ęncia, Minha Luta 3”, de Karl Ove Knausgard)

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S√£o 3.500 p√°ginas distribu√≠das em seis volumes carregados de mem√≥rias e reflex√Ķes sobre a inf√Ęncia em um lugar remoto da Noruega, sobre trocar a fralda dos filhos e sobre faxinar meticulosamente a casa onde o pai alco√≥latra acabara de morrer; relatos minuciosos sobre a √°gua esquentando para preparar um ch√°, que evoluem para ensaios sobre Dostoi√©vski e Deus, e ent√£o a prosa volta a falar sobre papinha de beb√™, Talking Heads, a vida de escritor e a hist√≥ria tr√°gica ‚Äď aos olhos do menino ‚Äď de uma meia perdida na aula de nata√ß√£o. A s√©rie “Minha Luta“, do noruegu√™s Karl Ove Knausgard, leva ao extremo o esfor√ßo de lembran√ßa e apaga as linhas entre autobiografia e fic√ß√£o. Publicada entre 2009 e 2011 na Noruega, onde se tornou um fen√īmeno de p√ļblico e despertou intensos debates pela exposi√ß√£o crua de pessoas pr√≥ximas ao autor, a obra chega aos leitores brasileiros traduzida diretamente do idioma original pelo ga√ļcho Guilherme da Silva Braga, 34 anos, respons√°vel pela tradu√ß√£o a partir do volume dois ‚Äď o quarto tomo, ‚ÄúUma Temporada no Escuro‚ÄĚ, foi lan√ßado em junho no Brasil pela Companhia das Letras.

Apenas nas √ļltimas duas d√©cadas, e gra√ßas a escolhas bancadas por editoras como a 34 e a pr√≥pria Companhia das Letras, tradu√ß√Ķes diretas de l√≠nguas ‚Äúdistantes‚ÄĚ, como o russo, se tornaram poss√≠veis no Brasil. Antes disso, Dostoi√©vski e outros russos, por exemplo, s√≥ chegavam ao Brasil intermediados pela tradu√ß√£o francesa ‚Äď o que, de certa maneira, ‚Äúcontaminava‚ÄĚ o texto final. Mesmo Franz Kafka s√≥ teve suas obras completas traduzidas diretamente do alem√£o a partir do trabalho de Modesto Carone, que iniciou na d√©cada de 1980 a monumental tarefa de traduzir toda a obra do escritor tcheco (que escrevia em alem√£o).

No caso de Guilherme Braga, doutor em Literaturas Inglesas e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o seu encontro com a l√≠ngua norueguesa n√£o partiu de um interesse acad√™mico, mas pessoal. ‚ÄúEssa √© uma hist√≥ria tortuosa que levou quase dez anos para se completar. Meu interesse pelo noruegu√™s surgiu no meio dos anos 1990, junto com o meu interesse por bandas norueguesas de black metal ‚Äď um dos principais itens de exporta√ß√£o cultural da Noruega‚ÄĚ, conta. No in√≠cio dos anos 2000, resolveu procurar algum professor de noruegu√™s em Porto Alegre. N√£o encontrou nenhum, mas descobriu a professora Margareta Berg e o Instituto Brasileiro-Escandinavo de Interc√Ęmbio Cultural, onde era poss√≠vel estudar sueco. ‚ÄúResolvi entrar no curso, pois eu sabia que o sueco e o noruegu√™s s√£o l√≠nguas extremamente parecidas e que, sabendo uma delas, entender a outra seria relativamente f√°cil‚ÄĚ, lembra.

Depois de um ano de estudos, fez uma viagem √† Su√©cia e, de volta ao Brasil, continuou os estudos do idioma enquanto traduzia pe√ßas do dramaturgo sueco August Strindberg ‚Äúcomo exerc√≠cio‚ÄĚ. Em 2005, passou a trabalhar profissionalmente com tradu√ß√£o liter√°ria a partir do ingl√™s, e dois anos mais tarde pediu demiss√£o do emprego de professor de ingl√™s para se dedicar √† tradu√ß√£o em tempo integral. As vers√Ķes engavetadas de Strindberg acabaram saindo em 2010 pela editora Hedra, no volume “Senhorita J√ļlia e Outras Pe√ßas“. Outras tradu√ß√Ķes liter√°rias do sueco se seguiram, como o romance “A Traidora Honrada“, lan√ßado pela Bolha/Aut√™ntica, e “Doutor Glas“, um dos romances favoritos de Braga, que saiu pela Arte &¬†Letra.

‚ÄúO pessoal da L&PM ‚Äď para quem a essa altura eu j√° havia traduzido dezenas de obras liter√°rias em ingl√™s ‚Äď me escreveu perguntando se com o meu sueco eu n√£o poderia ler um livro noruegu√™s que a editora estava pensando em lan√ßar e escrever um parecer a respeito. Aceitei o convite e n√£o apenas escrevi o parecer como tamb√©m me ofereci para fazer a tradu√ß√£o desse excelente romance, chamado ‘Antes que Eu Queime‘, baseado nos meus conhecimentos de sueco e usando v√°rios materiais de apoio que comprei especialmente para a ocasi√£o‚ÄĚ, conta Braga.

Enquanto ele traduzia o livro, a NORLA, um importante √≥rg√£o de divulga√ß√£o de literatura norueguesa no exterior, concedeu ao tradutor uma bolsa de viagem √† Noruega. Ainda sem encontrar professores de noruegu√™s em Porto Alegre, estudou o idioma sozinho em casa por cerca de quarenta dias antes de embarcar para encontrar Gaute Heivoll, o autor do romance. ‚ÄúLogo depois de voltar fui convidado a participar de um evento para tradutores no festival liter√°rio de Lillehammer, tamb√©m na Noruega, e na esteira disso tudo a Companhia das Letras me convidou a traduzir a s√©rie de romances ‘Minha Luta’, do Karl Ove Knausgard‚ÄĚ, recorda-se.

Vendo que a tradu√ß√£o do noruegu√™s estava come√ßando a se tornar uma coisa s√©ria em sua carreira, Braga voltou √† Noruega outras vezes para estudar o idioma e participar de cursos e semin√°rios para tradutores. ‚ÄúNo meio disso tudo, li uns quantos romances noruegueses para me familiarizar melhor com a cena liter√°ria do pa√≠s, ao mesmo tempo em que eu traduzia o Knausgard. Foi um ciclo muito estranho, muito inesperado e ao mesmo tempo muito interessante para mim‚ÄĚ, diz Braga.

As visitas √† Noruega ajudaram Braga a entender melhor o fen√īmeno Knausgard ‚Äď foram 500 mil exemplares do primeiro volume vendidos em um pa√≠s de cinco milh√Ķes de habitantes e exaustivas discuss√Ķes na imprensa sobre os limites de sua obra, que, afinal, se baseia tamb√©m na vida √≠ntima de outras pessoas. ‚ÄúNa Noruega n√£o existem grandes desigualdades sociais, n√£o existem grandes desigualdades de g√™nero e assim por diante ‚Äď e essa igualdade generalizada chega a tal ponto que voc√™ nem ao menos v√™ pessoas com roupas muito diferentes umas das outras quando anda pela rua. Talvez por isso os noruegueses tamb√©m vivam vidas mais parecidas entre si, o que a meu ver possibilita a praticamente qualquer noruegu√™s se identificar com os aspectos da vida cotidiana e trivial que √© narrada nos romances do Knausgard‚ÄĚ, analisa. Junto ao ineg√°vel talento liter√°rio do escritor e √†s quest√Ķes morais e √©ticas que a s√©rie pode suscitar, o tradutor tamb√©m atribui o sucesso de p√ļblico de “Minha Luta” na Noruega, ao menos em parte, √† “histeria dos jornalistas para transformar tudo em pol√™mica o tempo inteiro‚ÄĚ.

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O processo de tradu√ß√£o de Braga geralmente passa por uma primeira vers√£o mais apressada, ao mesmo tempo em que toma um contato inicial com a obra. Depois, ele rel√™ o material com calma para fazer os acertos necess√°rios e deixar o texto redondo. Durante o trabalho com “Minha Luta”, tradutor e autor nunca se comunicaram para conversar sobre as vers√Ķes. ‚ÄúEu vi o Knausgard em dois eventos liter√°rios na Noruega. Em um deles, n√£o cheguei nem perto. Costumo ficar meio sem jeito nessas situa√ß√Ķes, e pelos romances eu sabia que o encontro com o tradutor de um pa√≠s distante teria o potencial de se transformar em uma situa√ß√£o infinitamente constrangedora e sofrida para o Knausgard, a dizer por outras experi√™ncias similares que ele narra nos romances‚ÄĚ, observa.

O segundo encontro foi em uma sess√£o de aut√≥grafos. Braga comentou com ele que estava traduzindo a s√©rie e gostaria de fazer uma entrevista a ser publicada no Brasil. Na ocasi√£o, Knausgard pareceu receptivo √† ideia e disse que topava, mas o tradutor nunca mais teve resposta da agente dele sobre o pedido. ‚ÄúN√£o sei se ela n√£o repassou o pedido ou se ele n√£o respondeu, mas o fato √© que a entrevista n√£o foi feita porque nunca recebi uma resposta. Em todo caso, eu estaria mentindo se dissesse que estou surpreso, a dizer pela opini√£o que tenho sobre a personalidade do Knausgard pela maneira como ele se apresenta em suas obras‚ÄĚ, diz.

O estilo narrativo de Knausgard, alternando descri√ß√Ķes simples e coloquiais com trechos ensa√≠sticos complexos, pode parecer um desafio a mais para o tradutor; √© como se no mesmo universo habitassem dois ou mais n√≠veis de prosa diferentes. ‚ÄúEmbora essa mudan√ßa seja de fato marcante no Knausgard ‚Äď o contraste entre a simplicidade e a concis√£o dos di√°logos e a complexidade quase barroca das frases intermin√°veis nos trechos ensa√≠sticos √© brutal ‚Äď, n√£o tive muitas dificuldades com as transi√ß√Ķes porque eu j√° tinha experi√™ncia com os di√°logos simples das hist√≥rias em quadrinhos e com a prosa rebuscada do s√©culo XIX‚ÄĚ, conta Braga.

As dificuldades maiores est√£o nas sutilezas entre o noruegu√™s e o sueco, que o autor faz quest√£o de enfatizar ‚Äď √†s vezes de maneira jocosa. O segundo volume, ‚ÄúUm Outro¬†Amor‚ÄĚ, √© ambientado em grande parte na Su√©cia. ‚ÄúUma parte significativa desse livro √© um esfor√ßo da parte do Knausgard para convencer o leitor de que, apesar de serem pa√≠ses supostamente parecidos, a Noruega e a Su√©cia t√™m na verdade uma cultura muito diferente‚ÄĚ, observa. Para Braga, traduzir tudo iria contra a inten√ß√£o do texto original. Um noruegu√™s consegue ler em sueco do mesmo modo que um falante de portugu√™s consegue ler trechos em espanhol, mas o resultado final seria incompreens√≠vel para o leitor brasileiro. ‚ÄúO jeito foi, na maioria dos casos, manter as partes em sueco no idioma original, para deixar claro que os personagens estavam falando idiomas diferentes e, por meio de acr√©scimos extremamente breves e discretos, sugerir ou dar a entender ao leitor brasileiro o que estava acontecendo. O mesmo se aplica em menor grau para os trechos em dialeto‚ÄĚ, diz.

Uma conversa entre o tradutor e Knausgard, que est√° em visita a Am√©rica do Sul pela primeira vez na Flip 2016, n√£o deve acontecer agora. Escaldado pelo fracasso da tentativa anterior, Braga n√£o se animou a procur√°-lo novamente. Por enquanto, continua a trabalhar no quinto volume de “Minha Luta”. ‚ÄúPessoalmente, gosto da s√©rie especialmente pelo talento que o Knausgard tem para escrever sobre coisas banais e insignificantes. Tamb√©m me agrada muito a forma como, mesmo no meio de um grande arroubo filos√≥fico, Knausgard muitas vezes acaba constatando que √© apenas mais um cara como qualquer outro e que todas as teorias mirabolantes dele podem ser completamente furadas. Tenho me divertido bastante com esses livros.‚ÄĚ

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Neurociência para humanas

Nem o frio nem a garoa fininha diminu√≠ram o entusiasmo do p√ļblico na segunda noite de Flip, em Paraty, numa conversa sobre um tema que foge da literatura: a neuroci√™ncia. Durante a mesa do meio-dia, sobre ‚Äúa dimens√£o simb√≥lica e a experi√™ncia est√©tica de caminhar pela cidade e seus espa√ßos constru√≠dos‚ÄĚ, segundo descri√ß√£o do site do festival, sob sol forte, sobravam metade das cadeiras em frente ao tel√£o que exibe as conversas para quem n√£o tem ingressos. √Äs 19h30, cen√°rio diferente, e o p√ļblico aplaudia o engra√ßado neurocirurgi√£o ingl√™s Henry Marsh e a neurocientista sem meias palavras Suzana Herculano-Houzel.

Marsh, 66, que lan√ßa na Flip o livro ‚ÄúSem Causar Mal‚ÄĚ, colocou por terra presun√ß√Ķes de f√£s inverterados de s√©ries m√©dicas como ‚ÄúGrey‚Äôs Anatomy‚ÄĚ (n√£o h√° vergonha em admitir, apesar de o pr√≥prio Marsh dizer que n√£o v√™). ‚ÄúCirurgia cerebral n√£o depende de m√£os firmes. Depende de¬†tomar decis√Ķes, e voc√™ aprende mais com seus erros‚ÄĚ, afirmou. O problema, complementou, √© que quando o m√©dico erra quem paga o pato √© o paciente, que pode sofrer danos irrevers√≠veis. Outro mito que caiu por terra: que cirurgi√Ķes s√£o eg√≥latras sem sentimentos que ficam mais convencidos a cada sucesso. Marsh contou que, depois de uma opera√ß√£o bem-sucedida, o que sente √© al√≠vio e n√£o algum tipo de euforia ego√≠sta. ‚ÄúPorque sei que sou fal√≠vel. Voc√™ fica mais modesto com o tempo‚ÄĚ, disse.

E mais: cirurgia √© uma atividade em equipe, n√£o um lugar para ‚ÄúMichelangelos e Beethovens da medicina‚ÄĚ. Amigos conhecem melhor que voc√™ as suas limita√ß√Ķes. ‚ÄúQuando penso em meus erros, se eu tivesse perguntado para algu√©m o que fazer n√£o teria errado.‚ÄĚ At√© hoje o m√©dico diz sentir medo antes de uma cirurgia e essa sensa√ß√£o que, no fim das contas, √© respons√°vel pelo prazer da cirurgia. ‚ÄúVoc√™ fica euf√≥rico¬†porque, no fundo, est√° muito preocupado. Dizem que cirurgi√Ķes s√£o psicopatas, mas se fossem eles n√£o ligariam pro paciente e, se n√£o ligassem, n√£o sentiriam prazer ao final.‚ÄĚ

Mesmo para quem n√£o tem interesse particular em medicina — √© um festival de literatura, afinal — ouvir os dois cientistas foi uma agrad√°vel surpresa. Boa parte da conversa, afinal, foi filos√≥fica, com refer√™ncias a literatura e cultura. Por exemplo: qual a posi√ß√£o dos dois sobre intelig√™ncia artificial? Marsh √© da opini√£o de que nem chegaremos a um ponto em que as m√°quinas ficar√£o mais inteligentes que os humanos e que isso √© papo de fic√ß√£o cient√≠fica. ‚ÄúCi√™ncia se baseia na experimenta√ß√£o e h√° um limite nos experimentos que podemos fazer em um c√©rebro humano. Por mais que saibamos bastante sobre o c√©rebro, h√° muito que n√£o sabemos‚ÄĚ, afirmou. Computadores, em sua opini√£o, n√£o s√£o t√£o inteligentes quando parecem. No plano te√≥rico, entende que voc√™ pode ser contra essas m√°quinas filosoficamente, e h√° um impacto econ√īmico se elas come√ßam a substituir os homens.

Suzana concordou. ‚ÄúH√° um abismo entre um c√©rebro e um c√©rebro desenvolvido‚ÄĚ, disse. O de laborat√≥rio n√£o tem capacidade de auto-organiza√ß√£o, de se adaptar √† sua exist√™ncia. As habilidades que cada pessoa tem e que as diferenciam dos outros s√£o resultado dessa capacidade somada √† experi√™ncia de cada um. Um c√©rebro de laborat√≥rio pode fazer conex√Ķes. Ok, mas n√£o √© grande coisa.

[olho]‚ÄúQueremos escapar da morte e dos impostos, mas n√£o conseguimos‚ÄĚ[/olho]

E sobre a vida eterna? Lembraram uma mesa do ano passado em que se discutiu a possibilidade de que pessoas naquela tenda conseguissem chegar n√£o √† imortalidade, mas pelo menos a uma vida de uns bons 400 anos. ‚ÄúImprov√°vel‚ÄĚ, rejeitou Marsh. ‚ÄúMesmo que seja poss√≠vel, √© uma ideia p√©ssima. Seria muito custoso, √© ruim socialmente. Uma ideia terr√≠vel. E por que algu√©m iria querer viver pra sempre?‚ÄĚ Quanto mais velha a popula√ß√£o, mais caro fica tratar suas doen√ßas. S√£o maiores os riscos de c√Ęncer, dem√™ncia, etc. O Estado simplesmente n√£o teria condi√ß√Ķes de bancar. ‚ÄúQueremos escapar da morte e dos impostos, mas n√£o conseguimos.‚ÄĚ

O argumento de Suzana √© um pouco mais po√©tico. ‚ÄúMorrer √© consequ√™ncia de estar vivo. Voc√™ pode atrasar um pouco, envelhecer bem, mas o final dessa hist√≥ria √© inevit√°vel. A morte √© o estado de equil√≠brio‚ÄĚ, disse. Pessoalmente, tamb√©m √© contra e cita o livro ‚ÄúAs Intermit√™ncias da Morte‚ÄĚ, de Jos√© Saramago, em que ningu√©m mais morre, como sugest√£o de leitura ‚Äď ‚Äúdeveria ser obrigat√≥ria!‚ÄĚ. A morte tem v√°rias fun√ß√Ķes, como permitir que novas gera√ß√Ķes venham e o mundo siga em frente. Temos que fazer as pazes com o fato de que a vida tem prazo de validade e seguir em frente tamb√©m.

Sobre sua muito discutida sa√≠da do Brasil, Suzana, que em fevereiro deste ano recebeu um convite para lecionar e fazer pesquisas na Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, disse n√£o s√≥ n√£o ter arrependimentos como estar feliz da vida. ‚ÄúVoc√™ est√° falando do fato de que agora eu posso fazer meu trabalho?‚ÄĚ, questionou, sob palmas do p√ļblico. L√°, ela¬†conta, a administra√ß√£o √© feita por administradores, a inform√°tica √© gerida por t√©cnicos de inform√°tica e ela n√£o √© sua pr√≥pria agente de viagens. ‚ÄúEssa deveria ser a norma.‚ÄĚ Suzana¬†n√£o esperava a repercuss√£o de sua decis√£o, j√° que √© normal um cientista receber proposta para trabalhar em outra institui√ß√£o. ‚ÄúUma brasileira ser convidada e ser motivo de como√ß√£o √© absurdo. Embora continue achando que n√£o √© da conta de ningu√©m, achei uma boa oportunidade de mostrar como funciona a ci√™ncia no Brasil.‚ÄĚ

‚ÄúFui muito criticada por colegas por desestimular jovens cientistas. O que queriam, que eu mentisse?‚ÄĚ Ela contou que sai do trabalho todos os dias se sentindo contente, e acha uma pena que os cientistas que n√£o trabalhem no Brasil n√£o possam viver isso num futuro pr√≥ximo. Depois veio mais paulada, dessa vez no fato de que o Minist√©rio da Ci√™ncia, Tecnologia e Inova√ß√£o foi fundido com o Minist√©rio das Comunica√ß√Ķes pelo presidente interino Michel Temer. O or√ßamento, disse, j√° era curto e agora √© uma fra√ß√£o do que era. ‚ÄúAcho que a popula√ß√£o, em geral, n√£o tem no√ß√£o de como nossa vida depende de ci√™ncia e tecnologia. Deixar isso na m√£o dos outros √© uma decis√£o que eu n√£o tomaria pro meu pa√≠s.‚ÄĚ

[olho]‚ÄúFui muito criticada por colegas por desestimular jovens cientistas. O que queriam, que eu mentisse?‚ÄĚ[/olho]

Perguntaram se ela acha certo que o Estado invista em pesquisas sem aplica√ß√£o pr√°tica e ela n√£o hesitou. ‚ÄúA pesquisa cient√≠fica sem aplica√ß√£o √© a ci√™ncia.‚ÄĚ A √ļnica condi√ß√£o necess√°ria para fazer ci√™ncia √© reconhecer sua ignor√Ęncia a respeito de algo. ‚ÄúO que se ganha com isso √© conhecimento. Quando ele vai ser √ļtil? S√≥ Deus sabe. Se soubesse seria meio para atingir fim e isso √© engenharia, n√£o ci√™ncia.‚ÄĚ Mais aplausos. ‚ÄúE sem ci√™ncia n√£o existe engenharia.‚ÄĚ

J√° para o fim da conversa, o assunto voltou a ser o c√©rebro e Marsh se derreteu: ‚ÄúO c√©rebro vivo √© lindo, como olhar para a Terra do espa√ßo‚ÄĚ. Suzana complementou: os c√©rebros dos primatas s√£o ‚Äúuma gracinha‚ÄĚ, c√©rebros de cavalos e zebras s√£o os mais feios e os mais bonitos s√£o os dos guaxininis — ‚Äútem tr√™s vezes mais neur√īnios do que deveria. O guaxinim √© um primata e n√£o sabe‚ÄĚ.

Para quem acha¬†que o povo¬†de biol√≥gicas e exatas quer tirar a poesia e a magia da vida, Suzana deu uma resposta, bem, de biol√≥gicas e exatas ‚Äď mas com algum apelo para as humanas, vai. ‚ÄúPensar que as mol√©culas se reorganizam para formar um ser, para mim, √© poesia suprema. Ver que voc√™ √© um arranjo de mol√©culas muito particular‚Ķ‚ÄĚ, diz. ‚ÄúIsso nos d√° uma no√ß√£o mais natural do nosso lugar, da nossa condi√ß√£o. A gente √© s√≥ mais uma esp√©cie.‚ÄĚ

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Misha Glenny e a história pouco contada da Rocinha

Misha Glenny, jornalista brit√Ęnico que participa da Flip deste ano, recebe um grupo de jornalistas falando portugu√™s na manh√£ de quinta (29), numa pousada em Paraty. ‚ÄúMe coloquei duas condi√ß√Ķes [ao escrever o livro ‚ÄúO Dono do Morro: Um Homem e a Batalha pelo Rio‚ÄĚ, sobre o traficante Nem da Rocinha]. A primeira √© que quis tentar aprender portugu√™s. Isso foi h√° dois anos e meio, tr√™s anos. O in√≠cio foi bem f√°cil. √Č f√°cil ler portugu√™s. Mas falar √© quase imposs√≠vel. Foi um choque‚ÄĚ, diz, rindo. ‚Äú Portugu√™s n√£o √© uma l√≠ngua muito fon√©tica, √© um problema. Mas me empenhei. E quando eu falava com as pessoas na favela elas falavam [o idioma] ‚Äėrocinha‚Äô.‚ÄĚ

Morar pelo menos dois meses na favela carioca era a segunda condi√ß√£o — e foi o que fez dois anos atr√°s. ‚ÄúFoi um desafio, a vida na favela √© muito dif√≠cil. Mas achei que se ia escrever sobre a favela precisava entender as condi√ß√Ķes de l√°. Tinha que entender a condi√ß√£o do Nem.‚ÄĚ A ideia de escrever um livro sobre o traficante nasceu em 2011, quando Nem¬†foi preso. Glenny estava no Rio e, ao ver toda a aten√ß√£o que o acontecimento recebeu por parte da m√≠dia, lembrou-se da pris√£o de O.J. Simpson, que parou os Estados Unidos. ‚ÄúTodas as redes de televis√£o foram [atr√°s]. Foi uma resposta n√£o hist√©rica, mas sensacionalista. Li tudo sobre ele em jornais, vi TV. Metade do Rio achava que o Nem era um dem√īnio e metade achava que era um her√≥i, um tipo de Robin Hood.‚ÄĚ

Mas o que chamou particularmente sua aten√ß√£o foi ver que Nem s√≥ tinha entrado no tr√°fico aos 24 anos, para cuidar da filha, com uma doen√ßa rara. Glenny queria ver as condi√ß√Ķes que o levaram a esse mundo. ‚ÄúEle, pra mim, era um s√≠mbolo da desigualdade da sociedade brasileira e carioca. √Č uma sociedade bem dividida. Estava procurando um assunto para explicar o Brasil para as pessoas de fora. √Č um pa√≠s de quatro ou cinco estere√≥tipos: futebol, samba, Carnaval‚Ķ Pra mim, √© um pa√≠s muito mais complexo, mas a vis√£o de fora √© cronicamente simplista. Buscava um assunto para explicar essa complexidade e Nem me pareceu esse assunto.‚ÄĚ

Escreveu para o traficante na penitenci√°ria e ficou surpreso quando, poucas semanas depois, recebeu um convite para ir at√© l√° discutir o projeto. Foram, ao todo, 24 horas de conversas e, logo de cara, Glenny perguntou a Nem sobre sua fam√≠lia. ‚ÄúEle tinha sido entrevistado dezenas de vezes e nunca tinham perguntado sobre a inf√Ęncia dele. Para mim, essa linha de perguntas rendeu muitos frutos‚ÄĚ, conta o jornalista. Os pais de Nem eram alco√≥latras e desde cedo ele era testemunha de epis√≥dios de viol√™ncia dom√©stica. Tinha uma rela√ß√£o particularmente forte com o pai, que trabalhava em um bar em Copacabana. Foi l√° que ele levou um tiro no joelho, em meio a um assalto. Saiu do hospital sem conseguir andar e Nem, aos 11 anos, foi o respons√°vel por cuidar dele pelos meses que se seguiram e culminaram em sua morte por infarto.
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No dia 10 de novembro de 2011, Nem foi preso. Crédito: Felipe Dana/AP
No dia 10 de novembro de 2011, Nem foi preso. Crédito: Felipe Dana/AP

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‚ÄúSua obsess√£o √© ser um bom pai. E ele tem muitas oportunidades, tem sete filhos, dois adotados‚ÄĚ, diz Glenny. Durante a juventude, Nem n√£o trabalhou com drogas, com as quais se envolveu para ajudar a fam√≠lia: entregava revistas da Net na zona sul do Rio, gerenciando uma equipe. ‚ÄúEra visto por todos como uma pessoa do bem. √Č um diferencial a idade em que entrou pro tr√°fico. Era muito inteligente e gerenciava uma equipe na zona sul. O Lulu, que era o dono do morro, reconheceu seu talento e ele subiu r√°pido.‚ÄĚ Um entrevistado que n√£o quis ser identificado no livro contou ao jornalista que Nem conseguia olhar para um monte de coca√≠na e saber de cara quanto aquilo renderia e para onde a droga deveria ser distribu√≠da para otimizar os resultados.

Nem entendia, por exemplo, a import√Ęncia da informa√ß√£o — f√°cil de vazar — e a amea√ßa que celulares e redes sociais representavam para sua organiza√ß√£o. Falava pouco ao telefone e tinha um assistente respons√°vel por carregar um monte de celulares para ele, cada um para falar com um membro da organiza√ß√£o. A pol√≠cia desvendou toda a hierarquia da quadrilha, mas mesmo assim n√£o conseguia fazer a conex√£o de cada membro com o l√≠der por causa de sua precau√ß√£o.

O livro, lan√ßado aqui pela Companhia das Letras, n√£o √© apenas uma hist√≥ria de Nem, mas tamb√©m a hist√≥ria da Rocinha. ‚Äú√Č parcialmente uma hist√≥ria do desenvolvimento das favelas no Rio e do impacto da coca√≠na na cidade‚ÄĚ, resume o autor. Em 1982, a taxa de homic√≠dios no Rio de Janeiro e em Nova York era igual. Sete anos depois, o n√ļmero era tr√™s vezes maior no Rio. ‚ÄúIsso porque o Brasil se tornou o principal pa√≠s de tr√Ęnsito de coca√≠na da Col√īmbia para a Europa. Quando um pa√≠s se torna tr√Ęnsito principal da droga ele desenvolve o h√°bito local tamb√©m. Isso aconteceu aqui, especialmente no Rio‚ÄĚ, afirma Glenny. Gra√ßas a geografia do Rio, cheia de morros, v√°rias fac√ß√Ķes rivais se formaram para disputar a hegemonia, situa√ß√£o diferente de S√£o Paulo, controlada pelo PCC.

Essas favelas cariocas n√£o t√™m a hist√≥ria contada, diz o jornalista. E ele quis contribuir contando aos leitores sobre acontecimentos que pouca gente conhece. Cada morro √© diferente: na Mar√©, h√° muito medo, medo real. Na Rocinha instaurou-se outro clima, “cool”. ‚ÄúO dono do morro tem tr√™s instrumentos para exercer o poder pol√≠tico na favela: o monop√≥lio da viol√™ncia, o apoio da comunidade e a corrup√ß√£o da pol√≠cia. Nem diz que para ele o mais importante era o apoio.” Ele assumiu o comando da Rocinha em 2005 — em 2004, o Comando Vermelho havia mandado matar o antigo chefe. Sob sua gest√£o, a taxa de homic√≠dios caiu drasticamente, fato constatado por pesquisadores e confirmado pela pol√≠cia.

‚ÄúQuando morei na Rocinha o que me impressionou √© que tem uma atividade econ√īmica feroz‚ÄĚ, conta Glenny. ‚ÄúFoi a primeira favela com bancos. Tem todos os tipos de loja, inclusive o primeiro sex shop numa favela. Tem Bobs. Acho que isso parcialmente foi resultado da pol√≠tica do Nem na favela. Ele percebeu que se a taxa de homic√≠dio cai, o lucro dos neg√≥cios sobe. Ele nega ter feito isso conscientemente, mas levou parte dos lucros do tr√°fico para uma esp√©cie de sistema de bem-estar social embrion√°rio na favela.‚ÄĚ

Mais seguran√ßa na favela impacta o consumo de coca√≠na, que tem como boa parte do p√ļblico gente de classe m√©dia e classe m√©dia alta — fato que Nem logo sacou. ‚ÄúComo era percebido como um lugar seguro, vinha muita gente de fora, que j√° ficava na boate. A Rocinha virou uma marca na √©poca do Nem, todo o mundo queria ir l√°. Artistas faziam shows, pol√≠ticos tiravam fotos, porque sabiam que n√£o teria problema.‚ÄĚ O traficante¬†investiu tamb√©m na corrup√ß√£o policial, e assim ficava sabendo com anteced√™ncia de batidas na favela. ‚ÄúO tr√°fico teve um impacto na economia, mas √© uma intera√ß√£o muito complexa‚ÄĚ, sintetiza Glenny.

Entre os entrevistados do jornalista est√° Jos√© Mariano Beltrame, Secret√°rio de Seguran√ßa do Rio de Janeiro. ‚ÄúEle me disse que a aus√™ncia do Estado nas favelas foi um choque para ele e ele quis mudar. A UPP [Unidade de Pol√≠cia Pacificadora] foi um experimento muito corajoso e s√≥ foi poss√≠vel porque em 2007, quando Cabral assumiu, as for√ßas pol√≠ticas em n√≠vel federal, estadual e municipal estavam prontas para colaborar.‚ÄĚ Para Glenny, Beltrame fez um bom trabalho. ‚ÄúA falha do Estado foi n√£o apoiar a UPP policial com a social. As UPPs diminu√≠ram as taxas de homic√≠dio, mas as taxas de outros crimes, como roubo e estupro, aumentaram‚ÄĚ, diz. O sistema, agora, est√° colapsando, segundo ele, em parte porque Beltrame n√£o tem os recursos para continuar com as UPPs em tempos de crise.

Seu progn√≥stico para o futuro, por√©m, √© bem pouco otimista, n√£o s√≥ para as favelas. ‚ÄúAcho que a situa√ß√£o nas favelas ficar√° mais ou menos est√°vel at√© os Jogos Ol√≠mpicos. Tenho medo de depois a situa√ß√£o piorar no morro e no asfalto. O morro e o asfalto s√£o intimamente interligados, mesmo que as pessoas n√£o percebam.‚ÄĚ