Categorias
Televis√£o

As heroínas estão chegando

Em meio aos e-mails sigilosos da Sony Pictures vazados no ano passado, um datado de 7 de agosto listava tr√™s exemplos de filmes de super-hero√≠nas que haviam sido um fracasso: “Elektra” (“p√©ssima ideia com resultado muito, muito ruim”), “Mulher-Gato” (“desastre”) e “Supergirl” (“outro desastre”). Com o assunto “filmes femininos”, o e-mail de um executivo para outro procurava provar que, no mundo dos super-her√≥is, mulheres devem se limitar a pap√©is coadjuvantes.

Pouco mais de um ano depois, por√©m, o jogo virou. Este m√™s, em que o feminismo √© o tema do momento no Brasil, marcou a estreia de duas s√©ries praticamente opostas protagonizadas por super-hero√≠nas: “Supergirl”, no ar na Warner, e “Marvel’s Jessica Jones”, que estreou recentemente no¬†Netflix.

Em comum, as duas produ√ß√Ķes t√™m uma caracter√≠stica: embora as mulheres se apaixonem (Supergirl) e fa√ßam muito sexo (Jessica Jones), seus mundos n√£o giram em torno de homens. H√° romance, mas elas est√£o bem longe de ser com√©dias rom√Ęnticas. De resto, as duas produ√ß√Ķes atendem a diferentes tipos de p√ļblico. Enquanto “Supergirl” √© solar, feita para ser vista comendo pipoca num domingo √† tarde (algo como “The Flash”, tamb√©m da Warner), “Jessica Jones” √© soturna e super tensa (n√£o por acaso, mais parecida com “Demolidor”, tamb√©m do Netflix).

Das duas, “Supergirl” √© quem faz mais quest√£o de explicitar seu feminismo. Kara (Melissa Benoist) √© prima de Clark Kent, o Super-Homem, e foi enviada √† Terra com ele para proteg√™-lo quando ele ainda era um beb√™. Sua viagem espacial, no entanto, d√° errado e ela passa 24 anos vagando em uma zona na qual o tempo n√£o passa. Quando ela finalmente chega, Clark j√° √© adulto, enquanto ela ainda tem 13 anos. Os pap√©is se invertem e √© ele quem, para ajud√°-la, a coloca em uma fam√≠lia humana para que ela viva uma vida normal.

Kara arruma um emprego de assistente em uma grande empresa de m√≠dia cuja dona (fato raro na vida real) √© uma mulher: a casca-grossa Cat (Calista Flockhart), uma aprendiz de Meryl Streep em “O Diabo Veste Prada”. “Achei que seria legal trabalhar para uma figura feminina poderosa”, diz Kara logo no in√≠cio, na primeira de v√°rias frases que exaltam o poder de mulheres fortes de influenciar as outras.

Quando Kara vê na televisão que o avião em que viaja sua irmã está prestes a cair, ela resolve usar seus poderes depois de anos para salvá-la. Ao se dar conta do que é capaz de fazer com suas habilidades, ela sorri, legitimamente contente por ter feito o bem. Já é tarde para proteger Clark, pensa ela, mas há um planeta todo cheio de pessoas indefesas a quem ela pode ajudar.

supergirl

Na escolha do uniforme, a s√©rie n√£o deixa de alfinetar as tradicionais produ√ß√Ķes de super-her√≥is e suas mulheres espremidas em roupas just√≠ssimas, pouco funcionais para lutar. “Eu n√£o usaria isso nem para ir pra praia”, responde Kara quando lhe apresentam um uniforme que lembra a cl√°ssica roupa da Mulher Maravilha, mas com mais pele √† mostra. Kara tamb√©m questiona o nome “supergirl” (super menina, vejam bem, e n√£o mulher). Obviamente a s√©rie n√£o poderia trocar o nome da personagem, ent√£o explicam a escolha assim: se voc√™ acha que uma menina √© algo menos que incr√≠vel, o problema √© voc√™.

Outras quest√Ķes feministas s√£o abordadas logo no primeiro cap√≠tulo: a novidade que √© finalmente ter uma super-hero√≠na forte para meninas se espelharem, o fato de mulheres n√£o serem levadas a s√©rio por alguns homens e √†s vezes temerem ser assertivas para n√£o desagradar ningu√©m — como Jennifer Lawrence declarou recentemente em uma carta explicando como se sentiu ap√≥s descobrir que ganhava menos que seus colegas homens.

N√£o se trata, por√©m, de uma s√©rie que bate somente na tecla da desigualdade de g√™neros. De cara Kara se interessa pelo fot√≥grafo James Olsen (Mehcad Brooks), preenchendo o campo “romance” inevit√°vel nessas s√©ries mais leves. H√° tamb√©m boas sequ√™ncias de a√ß√£o, indispens√°veis para uma produ√ß√£o do g√™nero. No epis√≥dio de estreia Kara descobre que uma nave cheia dos alien√≠genas mais perigosos do espa√ßo caiu na Terra quando ela chegou. A s√©rie d√° a entender que seguir√° o esquema “vil√£o da semana”, com a Supergirl enfrentando um antagonista diferente a cada epis√≥dio.

√Č muito cedo para dizer se “Supergirl” ser√° um sucesso, mas os primeiros resultados de audi√™ncia nos Estados Unidos mostram que nada impede que uma s√©rie protagonizada por uma super-hero√≠na d√™ certo. Na primeira semana, foi a s√©rie nova mais vista da temporada, com 12,95 milh√Ķes de espectadores. Na semana seguinte, houve uma queda e 8,86 milh√Ķes a assistiram, mas ainda √© um n√ļmero longe do desastre previsto pelos executivos da Sony.

[imagem_full]

MARVEL'S JESSICA JONES
Jessica Jones e sua amiga Trish Walker. Crédito: Divulgação

[/imagem_full]

FORÇA BRUTA

Enquanto “Supergirl” afima com todas as letras que est√° ali, sim, para discutir quest√Ķes de g√™nero, “Jessica Jones” adota uma abordagem menos literal. “Supergirl” √© o primeiro passo. Precisa ser t√£o did√°tica e refor√ßar o tempo todo como √© pouco usual ter uma super-hero√≠na? O ideal √© que no futuro isso seja t√£o normal que n√£o seja mais uma quest√£o e que esse “quer que eu desenhe” seja desnecess√°rio. Mas por enquanto, a s√©rie tem suas raz√Ķes.

Jessica Jones” √© o pr√≥ximo passo. Em nenhum momento algu√©m estranha o fato de Jessica conseguir parar um carro em movimento ou alcan√ßar a varanda de um pr√©dio com um pulo. Ningu√©m se espanta por ela ser mulher, ela n√£o refor√ßa sua feminilidade e seu g√™nero n√£o √© mencionado uma s√≥ vez. Mas √© imposs√≠vel ver a s√©rie e n√£o ter certeza de que mulheres podem ser t√£o fortes, em todos os sentidos, quanto homens.

LEIA MAIS: Jessica Jones, a anti-heroína que merecemos

Nos quadrinhos da Marvel, Jessica Jones √© uma personagem que atuou como a hero√≠na Safira, fazendo uma pequena participa√ß√£o no grupo dos Vingadores. Depois de atacar a Feiticeira Escarlate a mando de Kilgrave (o Homem-P√ļrpura), que a controlava mentalmente, ela √© agredida ¬†e entra em coma. Ap√≥s despertar, ela larga a vida de hero√≠na e abre uma ag√™ncia de investiga√ß√Ķes e procura levar uma vida normal.

A série traz algumas mudanças em relação aos quadrinhos e acompanha a rotina de Jessica (Krysten Ritter) após seu período como super-heroína. Ela toca seu negócio de investigação sofrendo de transtorno do estresse pós-traumático depois de Kilgrave ter feito com que ela cometesse atos horríveis. Depois de descobrir, no episódio de estreia, que ele não está morto como ela pensava, Jessica resolve que sua missão será encontrá-lo e acabar com ele.

Diferente da Supergirl, que √© doce e s√≥ quer fazer o bem, Jessica √© perturbada pelo passado, enche a cara, transa com desconhecidos, e se pudesse cairia fora dali para levar uma vida normal. Jessica √© uma mulher como outra qualquer, cheia de defeitos, mas calhou de ter super-poderes. O fato de n√£o ser perfeita a torna ainda mais interessante. Se √© comum vermos homens complexos como Don Draper (“Mad Men”) e Walter White (“Breaking Bad”), o mesmo n√£o se podia dizer, at√© pouco tempo, das mulheres. Jessica √© um refresco.

As cenas de luta tamb√©m diferem bastante das de “Supergirl”. L√°, a hero√≠na voa, enxerga atrav√©s de portas, ouve tudo, solta raios pelos olhos, tem uma for√ßa descomunal. Tudo nela √© “super”. As batalhas s√£o cheias de efeitos e fica claro que aquilo nunca, nunca aconteceria no mundo real. Jessica √© mais vulner√°vel. Ela √© extremamente forte, mas basta uma bala para par√°-la. Suas brigas s√£o no corpo a corpo e embora a gente saiba que a vantagem dela, h√° uma sensa√ß√£o de que tudo pode acontecer.

Basicamente, as duas s√©ries t√™m pouco em comum. “Supergirl” √© daquelas que voc√™ pode passar um m√™s sem ver e retomar depois, tranquilamente, quando quiser se divertir um pouco. J√° “Jessica Jones” √© t√£o eletrizante que d√° para ser vista toda num fim de semana. S√£o s√©ries para p√ļblicos e momentos distintos, o que √© bom. Tanto uma quanto outra provam que a Sony se equivocou. Desde que seja bem feita, n√£o importa se a produ√ß√£o tem um super-her√≥i ou uma super-hero√≠na.

Categorias
Crítica Televisão

Jessica Jones, a anti-heroína

Das s√©ries inspiradas em personagens da Marvel e da DC Comics, “Jessica Jones” √© a com¬†menos cara de s√©rie de super-her√≥is que existe. Jessica √© a mais humana das hero√≠nas. N√£o tem uniforme, n√£o quer salvar ningu√©m, n√£o usa um codinome e n√£o explica direito como ganhou seus superpoderes. Seus poderes, ali√°s, nem s√£o t√£o super assim. Ela √© forte o suficiente para parar um carro em movimento (em baixa velocidade, ela ressalta) e pula bem alto. E √© meio que isso. Sem ofensa √†s produ√ß√Ķes de her√≥is, talvez por esse motivo ‚ÄúJessica Jones‚ÄĚ, que estreia na sexta (20) no Netflix, seja uma das melhores do g√™nero.

A pr√≥pria escolha de Jessica para protagonizar uma s√©rie √© interessante. Diferente do Demolidor, que tamb√©m ganhou uma s√©rie do Netflix neste ano, ela √© pouco conhecida pelo p√ļblico n√£o iniciado nos quadrinhos. Criada por Brian Michael Bendis em 2001, ela aparece pela primeira vez na hist√≥ria ‚ÄúAlias‚ÄĚ j√° como uma hero√≠na aposentada, que trabalha como investigadora particular, em um dos quadrinhos mais adultos que a Marvel j√° fez.

Nas p√°ginas dos quadrinhos, aos poucos, sua hist√≥ria sombria foi¬†revelada. Colega de Peter Parker — o Homem-Aranha — na escola e apaixonada por um dos membros do Quarteto Fant√°stico, ela fez parte dos Vingadores usando o nome Safira durante um tempo. Sua trajet√≥ria mudou quando ela conheceu o vil√£o Zebediah Kilgrave — o Homem-P√ļrpura –, capaz de controlar a mente das pessoas e fazer com que elas obede√ßam a todas as suas ordens, mesmo as mais macabras. Quando ele ordena¬†que Jessica assassine o Demolidor, ela quase √© morta pelos Vingadores e, depois disso, decide aposentar o uniforme e tentar levar uma vida normal.

[imagem_full]

Marvel's Jessica Jones
Jessica Jones dando o famoso enquadro. Crédito: Divulgação

[/imagem_full]

Na s√©rie (ou pelo menos em seus sete primeiros epis√≥dios, que o Netflix liberou para a imprensa), n√£o h√° nada desse pre√Ęmbulo. No primeiro cap√≠tulo Jessica (Krysten Ritter) j√° aparece como investigadora e seu passado como super-hero√≠na quase n√£o √© mencionado. Sabemos de cara que ela s√≥ se veste de preto, vive em seu escrit√≥rio mal-ajambrado, bebe muito e tenta afastar os poucos amigos que tem. Como nos quadrinhos, sua trajet√≥ria √© tr√°gica e tem o dedo de Kilgrave (David Tennant).

Em seu primeiro caso na s√©rie, um casal a procura para pedir que encontre a filha, uma atleta universit√°ria que desapareceu. Durante a investiga√ß√£o, Jessica acaba chegando a Killgrave, que ela acreditava estar morto. Diferente da HQ, Kilgrave n√£o tem a pele roxa. No in√≠cio, inclusive, ele mal aparece e fica sempre encoberto por sombras. Mesmo assim, sua simples presen√ßa assusta bem mais do que qualquer vil√£o fort√£o de s√©ries como ‚ÄúThe Flash‚ÄĚ ou ‚ÄúSupergirl‚ÄĚ.

Se o embate com Kilgrave fosse f√≠sico, Jessica teria chances. Mas √© psicol√≥gico e, fora a for√ßa, Jessica √© uma pessoa normal, vulner√°vel, suscet√≠vel a esse tipo de abuso, sobre o qual ganhamos mais detalhes a conta-gotas. O que Kilgrave consegue fazer com suas v√≠timas √© aterrorizante. Ver o Super-Homem em a√ß√£o √© previs√≠vel. Ver Jessica Jones, nem um pouco. Tanto pelo fato de ela n√£o ser invenc√≠vel como pelo fato de n√£o ter s√≥ bondade no cora√ß√£o e tomar decis√Ķes question√°veis. Ela √© uma mistura curiosa de her√≥i com anti-her√≥i. Em vez de tentar salvar Nova York ou o mundo, Jessica quer salvar a si mesma.

Uma boa produ√ß√£o de super-her√≥i precisa de um bom vil√£o. O de ‚ÄúJessica Jones‚ÄĚ √© excelente. Durante a temporada, Jessica enfrenta s√≥ um inimigo, mas √© um inimigo t√£o poderoso, que fez t√£o mal a ela, que voc√™ quase torce para que ela n√£o chegue perto dele. √Č como ver o mocinho procurar o monstro num filme de terror. Sem saber quem est√° dominado por Kilgrave ou onde ele est√°, paira um clima de filme de terror na s√©rie. O impulso √© gritar toda hora para que Jessica n√£o abra a porta ou n√£o vire aquela esquina. Da trilha sonora √† paranoia da protagonista e √† pouca luz, tudo contribui para deixar a s√©rie mais tensa a cada epis√≥dio.