Categorias
Televis√£o

‘Superstore’ v√™ EUA pelos olhos da classe trabalhadora

Sem um grande papel na televis√£o desde o fim de “Ugly Betty”, em 2010, America Ferrera resolveu voltar √†s s√©ries por um motivo que parece um pouco esquisito. O papel que lhe ofereceram era de uma pessoa normal, que vivia no mundo real (n√£o seriam quase todos?). Explica-se: numa √©poca em que a oferta de televis√£o est√° maior do que nunca — mais de 400 seriados foram exibidos no ano passado –, n√£o h√° tantas op√ß√Ķes que retratem pessoas comuns, com trabalhos e vidas comuns. E √© bem isso que √© Amy, sua personagem em “Superstore”, que estreia na segunda (6) na Warner.

A premissa da s√©rie √© t√£o simples que, falando assim, n√£o parece que seja l√° grandes coisas. Todos os epis√≥dios se passam na megaloja Cloud 9, uma esp√©cie de Wal-Mart, com todos os tipos de produtos e funcion√°rios vestindo coletes azuis com seus nomes nos crach√°s circulando pelos corredores. N√£o h√° propriamente uma trama, cada epis√≥dio conta uma hist√≥ria fechada em si, mostrando algumas horas na vida dos empregados, que interagem com os v√°rios tipos de visitantes que passam por l√° diariamente. Foi essa “ideia de ver o clima social e pol√≠tico e o que significa ser americano hoje, pelos olhos da classe trabalhadora” que inspirou America, vencedora de um Globo de Ouro, a voltar √† televis√£o em um papel fixo. “Cresci com s√©ries como ‘Cheers’, ‘Roseanne’ e ‘All in the Family’. Ver pessoas comuns era muito normal na televis√£o e era algo com que eu me identificava muito.” Panorama diferente do de hoje, com tantas s√©ries cheias de glamour e efeitos especiais e menos espa√ßo para com√©dias mais modestas. “Achei que era uma vis√£o muito excitante.”

Amy √© a protagonista da hist√≥ria, ao lado de Jonah (Ben Feldman, de “Mad Men” — descrito com precis√£o na s√©rie como uma mistura de urso panda com princesa da Disney). Ela √© a gerente que trabalha h√° dez anos no mesmo lugar, insatisfeita com a vida que leva, e ele √© o funcion√°rio novo e de uma fam√≠lia com mais dinheiro, que faz quest√£o de ressaltar no primeiro dia que n√£o √© do tipo de pessoa que costuma trabalhar em uma loja daquelas. “Amy n√£o tem a ingenuidade e o idealismo do Jonah. Ela est√° meio que se virando, sobrevivendo. Vi muito valor nessa perspectiva. √Č a forma como a maior parte das pessoas, n√£o s√≥ nos Estados Unidos, mas no mundo, vive. N√£o trabalham por paix√£o e realiza√ß√£o, mas para sobreviver. Mas pode haver intelig√™ncia e humor na vida dessas pessoas.”

“Vai ser divertido ver o show progredindo e ver o relacionamento de Amy e Jonah, pessoas que v√™m de perspectivas de vida t√£o diferentes. N√£o vai demorar muito pra eles come√ßarem a impactar na vida um do outro. Eles n√£o t√™m como evitar de se sentirem desafiados pelas cren√ßas do outro, o que influencia no seu modo de ver o mundo”, diz ela, por telefone a um grupo de jornalistas da Am√©rica Latina. America nem precisava dar essa dica. Conhecendo os mecanismos de s√©ries de com√©dia, fica claro pelas personalidades contrastantes que em algum momento os dois v√£o se apaixonar (ser√° que eles v√£o ficar juntos? Ser√° que n√£o? Aquela coisa de sempre). Mas, pelo menos no in√≠cio, o romance tem um papel menor.

[citacao credito=”” ]Na minha experi√™ncia, quando um personagem n√£o √© definido, ele √© branco. √Č o padr√£o[/citacao]

“Superstore” √© uma s√©rie mais pol√≠tica do que parece pela sinopse. A come√ßar pelo elenco, com latinos, negros, asi√°ticos, mulheres, personagens deficientes. “Fiquei muito impressionada com a forma como os produtores e criadores escolheram o elenco. Quando chegaram a mim j√° tinham escolhido v√°rios atores, e quando li o roteiro fiquei surpresa por que nenhum personagem foi escrito com uma etnia em mente. Eram s√≥ pessoas na p√°gina. E mesmo assim eles estavam contratando pessoas que pareciam com todos os tipos de pessoas”, conta a atriz. “Vieram atr√°s de mim, uma latina, para fazer a protagonista, que n√£o foi escrita como latina. Foi muito interessante. Na minha experi√™ncia, quando um personagem n√£o √© definido, ele √© branco. √Č o padr√£o.”

Com esse elenco, a s√©rie p√īde abordar quest√Ķes pertinentes como ass√©dio sexual e racismo — tema do terceiro epis√≥dio. Nele, o chefe pede √†s funcion√°rias latinas que usem sombrero e carreguem no sotaque mexicano para vender salsa, mas Amy recusa. Quando um colega asi√°tico topa fazer o papel, ela aponta o racismo de sua caracteriza√ß√£o e faz uma imita√ß√£o estereotipada de um asi√°tico para provar sua afirma√ß√£o, o que ele considera racista. √Č uma discuss√£o bem feita, com gra√ßa e sem grosseria. Algo como faz “Black-ish”, outra s√©rie que gira em torno de uma fam√≠lia padr√£o — negra, n√£o branca –, e uma das boas novidades dos √ļltimos anos.

[imagem_full]

America Ferrera e Ben Feldman em 'Superstore'. Crédito: Trae Patton/NBC
America Ferrera e Ben Feldman em ‘Superstore’. Cr√©dito: Trae Patton/NBC

[/imagem_full]

“Fiquei positivamente surpresa porque a escolha do elenco n√£o foi pra preencher caixinhas num formul√°rio ou ter uma diversidade simb√≥lica. Foi genuinamente uma escolha baseada em quem eram essas pessoas e quem era certo para o papel. Como fazer esse elenco parecer real no mundo em que vivemos?”, diz America. “√Č uma abordagem nova √† diversidade, que n√£o √© criada por motivos pol√≠ticos. √Č para entender que diversidade √© autenticidade, porque nosso mundo √© diverso. No nosso caso, √© uma oportunidade de contar hist√≥rias melhores. Podemos ser mais engra√ßados, abordar quest√Ķes mais ousadas, falar de ra√ßa, g√™nero, preconceito, por que vem da nossa experi√™ncia.”

America √© bastante vocal a respeito da necessidade de mais diversidade, em todos os pontos da ind√ļstria do entretenimento. “O problema n√£o est√° em uma parte de ind√ļstria. Est√° em todos os lugares. Na frente das c√Ęmeras, atr√°s, no financiamento, na promo√ß√£o, nas premia√ß√Ķes. Em todos os pontos da linha de produ√ß√£o falta diversidade de experi√™ncias, g√™nero e etnias. √Č uma conversa que precisamos ter em voz bem alta”, opina. Para isso, diz que todas as minorias devem se unir — atores asi√°ticos, por exemplo, se manifestaram¬†depois de terem sido motivo de piada justamente no Oscar que os negros criticavam por ser branco demais.

“Quando vamos estar dispostos, como ind√ļstria e cultura, a encarar a realidade de que o que vemos na tela n√£o representa o p√ļblico, o mundo? Como algu√©m que cresceu vendo TV e filmes, posso dizer que h√° muito impacto em crescer numa cultura em que voc√™ n√£o se sente visto e refletido”, continua. “Televis√£o √© cultura. √Č o que dizemos que somos, √© o que somos. Fico feliz por estarmos falando disso. Talvez estejamos chegando num ponto em que a conversa n√£o ser√° superficial e que a√ß√Ķes de verdade sejam tomadas. Que levemos a ind√ļstria para o mundo real, para o s√©culo 21.”

[citacao credito=”” ]Quando vamos estar dispostos, como ind√ļstria e cultura, a encarar a realidade de que o que vemos na tela n√£o representa o p√ļblico, o mundo? Como algu√©m que cresceu vendo TV e filmes, posso dizer que h√° muito impacto em crescer numa cultura em que voc√™ n√£o se sente visto e refletido[/citacao]

A atriz est√° diz estar contente com o projeto e n√£o se preocupar com audi√™ncia nem com repetir o sucesso de “Ugly Betty”, j√° que isso est√° fora do seu alcance. “Se eu desvendasse essa equa√ß√£o eu seria muito bem-sucedida”, ri. “Tento n√£o me preocupar com o que n√£o posso controlar. Se eu quero que encontremos um p√ļblico? Sim. Mas n√£o tenho ideia. ‘Superstore’ j√° est√° achando um p√ļblico e √© muito legal ver as pessoas encontrarem alegria e significado nisso. Vai ser um p√ļblico diferente de ‘Ugly Betty’. √Č um territ√≥rio novo, n√£o d√° pra comparar.”

Por enquanto, America tem raz√Ķes para ser otimista. A s√©rie foi a estreia com maior audi√™ncia no canal NBC nos √ļltimos anos e vai particularmente bem entre o p√ļblico preferido dos anunciantes: pessoas com idade entre 18 e 49 anos em lares com renda superior a 100 mil d√≥lares anuais. Tanto que, em fevereiro, a produ√ß√£o criada por Justin Spitzer, de “The Office”, foi renovada para uma segunda temporada. “Estou vivendo¬†um per√≠odo incr√≠vel. Rimos o dia todo. Trabalhar com esses roteiristas e atores me faz sentir que estou aprendendo. Me sinto muito apoiada nesse desafio.”