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√Č poss√≠vel contar a hist√≥ria do Tarzan sem ser racista?

Refazer ‚ÄúTarzan‚ÄĚ a essa altura do campeonato n√£o parece, a princ√≠pio, a mais s√°bia das decis√Ķes. Na hist√≥ria original de Edgar Rice Burroughs, publicada em 1912, Tarzan (nome que significa ‚Äúhomem branco‚ÄĚ — d√° pra imaginar o que vem por a√≠) √© um filho de ingleses criado por macacos na √Āfrica. Inimigo dos negros que l√° vivem, tratados como b√°rbaros,¬†Tarzan √© o rei (branco) das selvas africanas. √Č uma hist√≥ria espinhosa para um filme, ainda mais em um ano¬†de forte debate racial, principalmente nos EUA ‚Äď do movimento Black Lives Matter ao Oscar com baixa¬†representatividade. ‚ÄúA Lenda de Tarzan‚ÄĚ, que estreia na quinta, dia 21, √© um filme ciente dessas quest√Ķes e cheio de boas inten√ß√Ķes. Mas s√≥ isso.

Sua Jane (Margot Robbie) √© uma mulher com opini√Ķes, destemida, engenhosa, nada submissa. Os vil√Ķes s√£o brancos europeus colonialistas que escravizam e matam congoleses para poder explorar os¬†recursos naturais do pa√≠s. H√° um her√≥i negro, George Washington Williams (Samuel L. Jackson), que encara qualquer perigo para denunciar os horrores que acontecem no Congo e seus nativos n√£o s√£o retratados como inimigos nem como selvagens. Mas, no fim das contas, continua sendo a hist√≥ria de Tarzan, o homem branco respons√°vel por salvar tanto sua mulher — que apesar de dizer com todas as letras que n√£o √© ‚Äúa donzela em perigo‚ÄĚ, √© a donzela em perigo — quanto os africanos, incapazes de se libertar sem ele.

Logo no in√≠cio, um letreiro explica que na Confer√™ncia de Berlim o continente africano foi dividido por pa√≠ses europeus e que o Congo, rico em diamantes, ficou com a B√©lgica. Dado esse contexto, a hist√≥ria come√ßa com Tarzan (o sueco Alexander Skarsg√•rd, cujo abd√īmen faz Chris Evans parecer um cara normal) diferente daquele que conhecemos, descamisado e cruzando a selva por seus cip√≥s. Casado com Jane, vive na mans√£o de sua fam√≠lia na Inglaterra e atende por seu nome de batismo, John — ou por seu t√≠tulo, Lorde Greystoke. Leva uma vida pacata, at√© que recebe um convite do rei da B√©lgica, Leopoldo II, para ir ao Congo numa miss√£o diplom√°tica. Tarzan n√£o quer voltar √†s origens, mas √© convencido por Jane, saudosa da √Āfrica e das aventuras, e por Washington Williams, um americano que quer a ajuda de Tarzan para coletar provas de que a B√©lgica est√° escravizando os congoleses.

O que Tarzan n√£o sabe √© que o convite para ir ao Congo √© uma armadilha arquitetada por Leon Rom (Christopher Waltz, adicionando mais um vil√£o √† sua cole√ß√£o), bra√ßo direito do rei belga. Ele promete entregar Tarzan para o l√≠der de uma tribo no Congo, que quer sua cabe√ßa, em troca de diamantes, dos quais a B√©lgica precisa para sair de uma situa√ß√£o financeira delicada. Como o trailer revela, Jane √© capturada por Rom e cabe a Tarzan tirar a camisa para salvar n√£o s√≥ a √Āfrica como a mulher que ama, com Washington Williams ao seu lado.

A partir da√≠ ‚ÄúA Lenda de Tarzan‚ÄĚ vira um tipo de filme de super-her√≥i. Os poderes de Tarzan s√£o uma for√ßa descomunal (ele luta com um gorila. Crescer com gorilas n√£o torna algu√©m forte como um gorila, √© bom notar), uma capacidade de se mover por cip√≥s que praticamente equivale a voar, e a habilidade de se comunicar com animais. Em vez de salvar Nova York, como os Vingadores, ou outra cidade americana qualquer, Tarzan quer libertar a √Āfrica da escravid√£o e tornar o mundo um lugar melhor. Seu arqui-inimigo, um vil√£o que s√≥ falta torcer o bigode, tamb√©m tem um ou outro truque na manga. E o que n√£o faltam s√£o efeitos especiais e cenas grandiosas.

Mas, se voc√™ quer ver um filme de super-her√≥i, √© melhor alugar um da Marvel em casa. N√£o ajuda que o foco seja colocado no personagem menos interessante entre os protagonistas — tanto Jane quanto George Washington Williams, ou at√© Rom, seriam melhores escolhas, personagens mais interessantes, complexos e divertidos que Tarzan. Skarsg√•rd claramente se preparou horrores para o papel e passou meses em dieta para ficar com aquela barriga, mas seu Tarzan meio soturno, meio atormentado, n√£o gera muita empatia. ‚ÄúA Lenda de Tarzan‚ÄĚ tenta ser um Tarzan moderno, mas √© previs√≠vel do come√ßo ao fim. Da primeira cena ao confronto final, passando pelos flashbacks da origem de Tarzan, que todo o mundo conhece, n√£o h√° surpresas, n√£o h√° emo√ß√£o.

Na tentativa de ser uma vers√£o mais politicamente consciente do que as outras, ‚ÄúA Lenda de Tarzan‚ÄĚ n√£o s√≥ n√£o atinge plenamente seus objetivos (n√£o tem como, enquanto Tarzan for protagonista ele ser√° um ‚Äúbranco salvador‚ÄĚ) como √© pouco original — um pecado grave no cinema. Depois de “Ca√ßa-Fantasmas” e com um novo “King Kong” √† vista, fica o desejo de ver algo novo. Refazer “Tarzan” n√£o √© a mais s√°bia das decis√Ķes.