Nem o frio nem a garoa fininha diminuíram o entusiasmo do público na segunda noite de Flip, em Paraty, numa conversa sobre um tema que foge da literatura: a neurociência. Durante a mesa do meio-dia, sobre “a dimensão simbólica e a experiência estética de caminhar pela cidade e seus espaços construídos”, segundo descrição do site do festival, sob sol forte, sobravam metade das cadeiras em frente ao telão que exibe as conversas para quem não tem ingressos. Às 19h30, cenário diferente, e o público aplaudia o engraçado neurocirurgião inglês Henry Marsh e a neurocientista sem meias palavras Suzana Herculano-Houzel.

Marsh, 66, que lança na Flip o livro “Sem Causar Mal”, colocou por terra presunções de fãs inverterados de séries médicas como “Grey’s Anatomy” (não há vergonha em admitir, apesar de o próprio Marsh dizer que não vê). “Cirurgia cerebral não depende de mãos firmes. Depende de tomar decisões, e você aprende mais com seus erros”, afirmou. O problema, complementou, é que quando o médico erra quem paga o pato é o paciente, que pode sofrer danos irreversíveis. Outro mito que caiu por terra: que cirurgiões são ególatras sem sentimentos que ficam mais convencidos a cada sucesso. Marsh contou que, depois de uma operação bem-sucedida, o que sente é alívio e não algum tipo de euforia egoísta. “Porque sei que sou falível. Você fica mais modesto com o tempo”, disse.

E mais: cirurgia é uma atividade em equipe, não um lugar para “Michelangelos e Beethovens da medicina”. Amigos conhecem melhor que você as suas limitações. “Quando penso em meus erros, se eu tivesse perguntado para alguém o que fazer não teria errado.” Até hoje o médico diz sentir medo antes de uma cirurgia e essa sensação que, no fim das contas, é responsável pelo prazer da cirurgia. “Você fica eufórico porque, no fundo, está muito preocupado. Dizem que cirurgiões são psicopatas, mas se fossem eles não ligariam pro paciente e, se não ligassem, não sentiriam prazer ao final.”

Mesmo para quem não tem interesse particular em medicina — é um festival de literatura, afinal — ouvir os dois cientistas foi uma agradável surpresa. Boa parte da conversa, afinal, foi filosófica, com referências a literatura e cultura. Por exemplo: qual a posição dos dois sobre inteligência artificial? Marsh é da opinião de que nem chegaremos a um ponto em que as máquinas ficarão mais inteligentes que os humanos e que isso é papo de ficção científica. “Ciência se baseia na experimentação e há um limite nos experimentos que podemos fazer em um cérebro humano. Por mais que saibamos bastante sobre o cérebro, há muito que não sabemos”, afirmou. Computadores, em sua opinião, não são tão inteligentes quando parecem. No plano teórico, entende que você pode ser contra essas máquinas filosoficamente, e há um impacto econômico se elas começam a substituir os homens.

Suzana concordou. “Há um abismo entre um cérebro e um cérebro desenvolvido”, disse. O de laboratório não tem capacidade de auto-organização, de se adaptar à sua existência. As habilidades que cada pessoa tem e que as diferenciam dos outros são resultado dessa capacidade somada à experiência de cada um. Um cérebro de laboratório pode fazer conexões. Ok, mas não é grande coisa.

“Queremos escapar da morte e dos impostos, mas não conseguimos”

E sobre a vida eterna? Lembraram uma mesa do ano passado em que se discutiu a possibilidade de que pessoas naquela tenda conseguissem chegar não à imortalidade, mas pelo menos a uma vida de uns bons 400 anos. “Improvável”, rejeitou Marsh. “Mesmo que seja possível, é uma ideia péssima. Seria muito custoso, é ruim socialmente. Uma ideia terrível. E por que alguém iria querer viver pra sempre?” Quanto mais velha a população, mais caro fica tratar suas doenças. São maiores os riscos de câncer, demência, etc. O Estado simplesmente não teria condições de bancar. “Queremos escapar da morte e dos impostos, mas não conseguimos.”

O argumento de Suzana é um pouco mais poético. “Morrer é consequência de estar vivo. Você pode atrasar um pouco, envelhecer bem, mas o final dessa história é inevitável. A morte é o estado de equilíbrio”, disse. Pessoalmente, também é contra e cita o livro “As Intermitências da Morte”, de José Saramago, em que ninguém mais morre, como sugestão de leitura – “deveria ser obrigatória!”. A morte tem várias funções, como permitir que novas gerações venham e o mundo siga em frente. Temos que fazer as pazes com o fato de que a vida tem prazo de validade e seguir em frente também.

Sobre sua muito discutida saída do Brasil, Suzana, que em fevereiro deste ano recebeu um convite para lecionar e fazer pesquisas na Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, disse não só não ter arrependimentos como estar feliz da vida. “Você está falando do fato de que agora eu posso fazer meu trabalho?”, questionou, sob palmas do público. Lá, ela conta, a administração é feita por administradores, a informática é gerida por técnicos de informática e ela não é sua própria agente de viagens. “Essa deveria ser a norma.” Suzana não esperava a repercussão de sua decisão, já que é normal um cientista receber proposta para trabalhar em outra instituição. “Uma brasileira ser convidada e ser motivo de comoção é absurdo. Embora continue achando que não é da conta de ninguém, achei uma boa oportunidade de mostrar como funciona a ciência no Brasil.”

“Fui muito criticada por colegas por desestimular jovens cientistas. O que queriam, que eu mentisse?” Ela contou que sai do trabalho todos os dias se sentindo contente, e acha uma pena que os cientistas que não trabalhem no Brasil não possam viver isso num futuro próximo. Depois veio mais paulada, dessa vez no fato de que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação foi fundido com o Ministério das Comunicações pelo presidente interino Michel Temer. O orçamento, disse, já era curto e agora é uma fração do que era. “Acho que a população, em geral, não tem noção de como nossa vida depende de ciência e tecnologia. Deixar isso na mão dos outros é uma decisão que eu não tomaria pro meu país.”

“Fui muito criticada por colegas por desestimular jovens cientistas. O que queriam, que eu mentisse?”

Perguntaram se ela acha certo que o Estado invista em pesquisas sem aplicação prática e ela não hesitou. “A pesquisa científica sem aplicação é a ciência.” A única condição necessária para fazer ciência é reconhecer sua ignorância a respeito de algo. “O que se ganha com isso é conhecimento. Quando ele vai ser útil? Só Deus sabe. Se soubesse seria meio para atingir fim e isso é engenharia, não ciência.” Mais aplausos. “E sem ciência não existe engenharia.”

Já para o fim da conversa, o assunto voltou a ser o cérebro e Marsh se derreteu: “O cérebro vivo é lindo, como olhar para a Terra do espaço”. Suzana complementou: os cérebros dos primatas são “uma gracinha”, cérebros de cavalos e zebras são os mais feios e os mais bonitos são os dos guaxininis — “tem três vezes mais neurônios do que deveria. O guaxinim é um primata e não sabe”.

Para quem acha que o povo de biológicas e exatas quer tirar a poesia e a magia da vida, Suzana deu uma resposta, bem, de biológicas e exatas – mas com algum apelo para as humanas, vai. “Pensar que as moléculas se reorganizam para formar um ser, para mim, é poesia suprema. Ver que você é um arranjo de moléculas muito particular…”, diz. “Isso nos dá uma noção mais natural do nosso lugar, da nossa condição. A gente é só mais uma espécie.”