“Nunca soube o que queria ser quando crescer e, até hoje, não sei”, disse Elke Maravilha aos 70 anos, em 2015, em entrevista ao Extra. Elke, que morreu na madrugada da última terça (16), aos 71 anos, foi um pouco de tudo na vida: tradutora, professora, modelo, atriz e jurada em programas de televisão, como o do Chacrinha. Na vida pessoal tampouco era convencional. Nascida na Rússia com o nome Elke Georgievna Grunnupp (o Maravilha veio de um jornalista), teve a cidadania cassada. Também perdeu a nacionalidade brasileira ao ser enquadrada na Lei de Segurança Nacional, depois de passar seis dias presa por desacato na época da ditadura. Apátrida, viajava com um passaporte da ONU e morreu alemã, como sua mãe.

Elke não tinha problemas em falar de política, drogas ou sexo. Disse em entrevista que fumou crack, contou ao mundo todo que abortou três gestações, casou-se oito vezes e, quando lhe perguntavam se era travesti, respondia que sim e ainda perguntava se queriam ver seu pau. Entendia porque perguntavam se ela era uma drag queen: dizia que mulheres pedem sempre “menos” nos salões de beleza, e travestis pedem “mais”. Mais maquiagem, mais volume, mais tudo. “Então, eles veem uma pessoa que é mais… Tem que ser homem.”

Mesmo quem não sabe detalhes de sua história sabe que Elke era artista — assim mesmo, de forma ampla — e que tinha um visual único, reconhecível à distância. Sua imagem foi eternizada nos anos 70 pelas lentes de David Drew Zingg, fotógrafo de quem ficou amiga quando trabalhava como modelo. “O David enxergava a alma da gente”, disse Elke. “Ele tinha um humor deslumbrante. Viajávamos para Búzios e ficávamos dias enchendo a cara e rindo juntos.” Zingg fotografou Elke como Marilyn Monroe e também com seu visual característico: cabelos loiros volumosos, esvoaçantes e alegre, como ela sempre será lembrada.

As imagens foram cedidas com autorização pelo IMS.