A poucos metros um do outro, dois restaurantes na Faria Lima, em São Paulo, fazem um uso curioso de aspas em seus letreiros. “Por uma alimentação mais saudável”, diz um. “Grande variedade” de lanches, diz o outro. O uso de aspas em contextos esquisitos está em todos os cantos: nas placas nas ruas, em comunicados de condomínio nas paredes de elevadores, em posts nas redes sociais (como aquele do Neymar, desejando “parabéns” para o filho), em textos no jornal (Pergunta Delfim Netto em sua coluna: “Alguém duvida da importância da ‘cultura’ na construção de uma sociedade civilizada?”). Erros de aspas são comuns, mas há mais usos para a pontuação do que mostrar ironia – esse sentido, aliás, é recente se considerarmos a longa vida das aspas.

A história do sinal de pontuação começa antes de Cristo, na Grécia — pelo menos até onde se tem registro e pode-se afirmar com certeza. “Eles usavam aquela marquinha como uma flecha na margem dos manuscritos da Grécia antiga para chamar a atenção para algo (como uma flecha faz), às vezes como um sinal de que algo era corrupto, duvidoso, ou que precisava de algum tipo de atenção”, conta Ruth Finnegan, autora do livro “Why Do We Quote? The Culture and History of Quotation”, em que revê a origem das aspas.

Aspas em um papiro grego do segundo ou terceiro século. Fonte: Universidade de Michigan
Aspas em um papiro grego do século I ou II. Fonte: Universidade de Michigan

Desde então, as aspas ganharam um monte de usos. Alguns deles, enumerados por Ruth: destacar, dar dignidade, conferir autoridade, ligar quem escreve a algo, afastar o autor do que ele está dizendo (“não sou eu quem estou falando, só estou passando adiante”), marcar diálogos (um uso mais recente, de dois séculos para cá) e citações de outras pessoas (muito utilizado na academia) e mostrar ironia.

Em inglês existe, inclusive, um termo específico para as aspas irônicas: são as scare quotes, definidas pelo dicionário Merriam-Webster como “aspas usadas para expressar ceticismo ou escárnio a respeito do uso da palavra ou frase dentro delas”. Nem todas as aspas seriam do tipo scare. Escreve Merrill Perlman, que trabalhou 25 anos no jornal The New York Times, onde chefiava os redatores: “Nem toda aspa que contém uma ou duas palavras é uma ‘scare quote’, claro. Às vezes essas aspas curtas são utilizadas para destacar um termo em discussão. Às vezes são usadas para apresentar um termo não muito familiar”. Aspas podem, por exemplo, destacar uma palavra usada fora do contexto, um neologismo, um estrangeirismo.

Para entender o significado da aspa, contexto é importante, diz Merill, que hoje trabalha no departamento de jornalismo da Universidade de Columbia, em Nova York. Exemplo: se em uma reportagem um jornalista escreve que Fulano ficou “embasbacado” com algo, há duas interpretações possíveis. O autor pode ter colocado a palavra entre aspas para mostrar que aquele foi exatamente o termo usado pelo entrevistado ou para mostrar um estranhamento com a palavra — como se Fulano não estivesse ou não devesse estar embasbacado. “Se o contexto não é claro, a mensagem não vai ser clara. Uma razão para evitar aspas para uma só palavra é que há uma possível confusão”, diz Merill. “Na maior parte das vezes, na minha visão, autores usam aspas em uma palavra para resolver um problema, quando não conseguem pensar numa forma de usar mais palavras. É resolver um problema às custas do leitor.”

Se um restaurante diz que serve comida “saudável”, então, o contexto diz que é pouco provável que haja alguma ironia aí — o restaurante quer enfatizar que sua comida faz bem à saúde. Não quer dizer que não seja esquisito. “A Sociedade Americana de Redatores mostra um slide no seu treinamento de uma placa que oferece comida ‘fresca’. Não sei se é uma falta de compreensão do que uma aspa de uma palavra só deva ser, ou uma tentativa de destacar algo quando nenhuma outra fonte está disponível, mas é muito irritante pra mim”, afirma Merill.

"Grandes variedades" de lanches
“Grande variedade” de lanches

Segundo Merill, o uso de scare quotes é relativamente recente, rastreado a partir da metade do século 20, “apesar da ideia de mostrar ao leitor que você não quer dizer aquilo que está dizendo seja muito mais velha que isso”. Em suas pesquisas, constatou que a popularidade das aspas irônicas aumentou muito no final do século, em 1995, assim como aquelas aspas feitas com os dedos, no ar, quando alguém está falando (em “Friends”, série clássica dos anos 90/início dos 2000, Joey é zoado por não saber usar as aspas irônicas quando fala).

“Também acho que essas aspas estão sendo usadas mais politicamente hoje também. Por exemplo, quando o Affordable Care Act passou nos Estados Unidos, os republicanos o chamaram de Obamacare para mostrar seu desgosto com ele. Quando os repórteres citavam os republicanos, colocavam Obamacare entre aspas para indicar que o termo era usado como forma de ridicularização, zombaria, como se fosse um nome falso. Depois os democratas começaram a usar Obamacare também, tentando eliminar a conotação negativa. A Associated Press continua usando ‘Obamacare’, entre aspas, como usam para apelidos. O problema, pra mim, é que não fica claro para o leitor se eles usam as aspas ironicamente, ou se é para mostrar que é um apelido, ou outra coisa.”

O uso de aspas em textos noticiosos pode gerar outras situações desconfortáveis. Até 2008, por exemplo, o jornal Washington Times utilizava aspas em casamento gay (“casamento” gay), e neste ano o New York Times se referiu à “ocupação” da faixa de Gaza por Israel. Na dúvida, Merill diz para usar aspas irônicas com moderação. “Escritores devem pensar em como usam as scare quotes e se um bom leitor pode interpretar errado.”