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O fim do silêncio na Indonésia

Joshua Oppenheimer foi √† Indon√©sia em 2001 para ajudar a contar uma hist√≥ria dif√≠cil. Numa planta√ß√£o de palma para produ√ß√£o de √≥leo, propriedade de uma empresa belga, trabalhadoras espirravam pesticidas e herbicidas sem ganharem roupas de prote√ß√£o. Muitas ficaram doentes e morreram por problemas no f√≠gado perto dos 40 anos de idade. Joshua foi ali ensinar o grupo de trabalhadores a fazer seu pr√≥prio document√°rio sobre as tentativas de formar um sindicato para lutar por melhores condi√ß√Ķes. O que descobriu por l√° foi uma hist√≥ria ainda pior, sobre um massacre que desconhecia.

A empresa respondeu √†s demandas de seus empregados contratando o grupo paramilitar Pancasila Youth para amea√ß√°-los. As demandas foram retiradas imediatamente. ‚ÄúEles me disseram: ‚ÄėApesar de ser uma quest√£o de vida e morte para a gente, nossos pais e av√≥s morreram em um assassinato em massa em 1965 simplesmente por serem membros do sindicato nacional de trabalhadores de planta√ß√Ķes‚Äô‚ÄĚ, conta Joshua.

Naquele ano, pelo menos¬†500 mil pessoas (o n√ļmero pode chegar a um milh√£o) foram assassinadas por supostamente serem comunistas. Artistas, ativistas, intelectuais e jornalistas foram mortos em um ataque coordenado pelo ex√©rcito — que derrubou o presidente Sukarno — e realizado por grupos como o Pancasila Youth. A desculpa foi o assassinato de seis generais, atribu√≠do na √©poca aos comunistas, que cresceram durante o governo Sukarno. Hoje acredita-se que os militares usaram isso como desculpa para dar um golpe no presidente.

Na √©poca, os trabalhadores sindicalizados, considerados amea√ßa ao regime, foram colocados em campos de concentra√ß√£o ou mortos. ‚ÄúEles estavam com medo de que isso pudesse acontecer de novo, j√° que o Pancasila Youth estava mais poderoso que nunca.‚ÄĚ Joshua viu ali uma oportunidade de falar sobre o massacre em um filme seu. A hist√≥ria acabou rendendo dois document√°rios: ‚ÄúThe Act of Killing‚ÄĚ, indicado ao Oscar em 2014, e ‚ÄúThe Look of Silence‚ÄĚ, que disputa o pr√™mio neste ano.

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Cena de 'The Act of Killing'
Cena de ‘The Act of Killing’

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‚ÄúPercebi naquele momento que o que estava matando aquelas mulheres n√£o era s√≥ veneno, mas tamb√©m o medo. Encontrei l√° o tema dos meus filmes: n√£o o que aconteceu em 1965. Eles n√£o s√£o sobre o passado, nenhum dos dois √© um document√°rio hist√≥rico. S√£o filmes sobre um regime de medo, sil√™ncio e impunidade que permanece at√© hoje. √Č sobre um estado presente‚ÄĚ, afirma.

‚ÄúThe Act of Killing‚ÄĚ √© o menos convencional da dupla — um document√°rio n√£o √© continua√ß√£o do outro, s√£o duas metades de um todo. Para o filme, Joshua conversou com todos os assassinos que conseguiu encontrar durante anos, tentando entender o que havia acontecido. Surpreendentemente, seus entrevistados estavam abertos falar. E mais: eles pareciam se gabar do que tinha acontecido. N√£o s√≥ contavam a hist√≥ria como se ofereciam para levar Joshua at√© os locais onde tinham matado e at√© encenar os assassinatos.

Assim nasceu ‚ÄúThe Act of Killing‚ÄĚ. Em vez de mostrar as v√≠timas, o cineasta joga luz sobre os assassinos e d√° a eles meios para fazer seu pr√≥prio filme sobre o massacre. Inspirados por Hollywood, os autointitulados g√Ęngsteres transformam a hist√≥ria real numa trama surrealista: meio musical, meio western, inteiramente bizarro. A morte vira um espet√°culo e o resultado √© aterrorizante — ver o filme uma vez √© necess√°rio, ver duas √© tortura. ‚Äú√Č um filme sobre as mentiras, as fantasias por tr√°s da ostenta√ß√£o dos assassinos, e sobre como isso manteve uma sociedade inteira nas r√©deas do medo e possibilitou que eles se safassem com uma corrup√ß√£o imensa‚ÄĚ, diz Joshua.

As primeiras imagens do estranho experimento foram respons√°veis por trazer Werner Herzog (“Encontros no Fim do Mundo”) ao projeto, como produtor-executivo. Herzog¬†estava no aeroporto, tomando um caf√© antes de embarcar em seu voo, quando um colega disse que um rapaz queria desesperadamente falar com ele sobre um trabalho. Joshua tinha dez minutos para atrair o cineasta e utilizou-os para mostrar imagens aleat√≥rias que tinha captado. A apresenta√ß√£o foi convincente. Naquela √©poca, Joshua, hoje com 41 anos, tinha um curr√≠culo curto: formado em Harvard, tinha s√≥ dois document√°rios no portf√≥lio, um de 1997 e outro de 2003. Foi com¬†‚ÄúThe Act of Killing‚ÄĚ que fez seu nome, e em 2014 ganhou uma “bolsa para g√™nios” da Funda√ß√£o MacArthur, para qual as pessoas n√£o se candidatam — s√£o escolhidas.

Mas estamos nos adiantando na hist√≥ria, porque embora ‚ÄúThe Look of Silence‚ÄĚ tenha sido lan√ßado depois, sua origem antecede ‚ÄúThe Act of Killing‚ÄĚ. Voltemos a 2003, quando Joshua, ainda um documentarista iniciante, viajou novamente¬†√† Indon√©sia ap√≥s o trabalho inicial. Assim que chegou ao pa√≠s, o cineasta foi apresentado √† fam√≠lia de Ramli Rukun, cuja hist√≥ria era conhecida no pa√≠s. Capturado e esfaqueado, Ramli havia conseguido voltar para sua casa, at√© que dois homens bateram √† porta e disseram a sua m√£e que o levariam ao hospital. Ramli foi amarrado nu, for√ßado a andar enquanto pedia por piedade e chorava, at√© ser castrado e jogado num rio.

Um dos irmãos de Ramli, na época com oito anos de idade, ouviu na escola o professor comentando que naquela noite eles matariam o irmão. Quando chegou em casa, contou o que tinha ouvido, mas não houve nada que a família pudesse fazer. Ramli de fato morreu naquele dia e o menino voltou à escola, onde tinha como mestre um dos membros do esquadrão da morte que havia matado o irmão mais velho.

ESCAPISMO E CULPA

Adi Rukun n√£o era vivo quando Ramli, seu irm√£o, morreu, mas √© ele a figura central de ‚ÄúThe Look of Silence‚ÄĚ. Foi ele quem convocou um grupo de sobreviventes do massacre e seus familiares para ajudar Joshua com o document√°rio, antes mesmo de ‚ÄúThe Act of Killing‚ÄĚ ser um projeto. Tr√™s semanas depois, militares amea√ßaram todos que participassem do filme. Eles desistiram, mas pediram para que Joshua n√£o engavetasse o projeto e que fosse atr√°s dos assassinos. Foi o que ele fez. Quando terminou as primeiras filmagens, mostrou as imagens ao grupo. ‚ÄúE eles me disseram: ‚ÄėVoc√™ deve continuar filmando os assassinos. Isso est√° levando a algo terrivelmente importante, porque qualquer um que veja como eles est√£o falando vai ser for√ßado a entender que o genoc√≠dio n√£o terminou. Apesar de as mortes terem parado, os assassinos ainda est√£o no poder. O p√ļblico vai entender que milh√Ķes de sobreviventes vivem com medo, porque est√£o rodeados por assassinos‚Äô‚ÄĚ, relembra o cineasta.

Depois de dois anos de pesquisa, Joshua encontrou Anwar Congo, seu 41¬ļ entrevistado e personagem principal de ‚ÄúThe Act of Killing‚ÄĚ. Congo √© uma figura curiosa: embora se vanglorie de ter matado comunistas, confessa que tem pesadelos √† noite e parece ter alguma crise de consci√™ncia. ‚ÄúFiquei com ele porque conseguia ver que sua dor estava perto da superf√≠cie. Ele n√£o conseguia esconder completamente a dor de suas mem√≥rias. Comecei a entender, por meio de¬†Anwar, que talvez a ostenta√ß√£o n√£o fosse realmente orgulho, e sim o oposto: uma tentativa desesperada dos assassinos de se convencer de que fizeram a coisa certa. Porque eles sabem que foi errado. Passei os cinco anos seguintes explorando essa rela√ß√£o entre escapismo e fantasia, de um lado, e a culpa, de outro.‚ÄĚ

Em 2012, ap√≥s dois anos de edi√ß√£o, Joshua voltou a Adi, que havia acompanhado o processo durante todo aquele tempo e ouviu um pedido. ‚ÄúEle disse para mim: ‚ÄėPassei anos vendo suas imagens dos assassinos e algo mudou em mim. Preciso conhecer os homens que mataram meu irm√£o. Preciso ver se eles assumem a responsabilidade pelo que fizeram. Preciso confront√°-los‚Äô.‚ÄĚ Joshua negou. Era perigoso demais que Adi se expusesse daquela forma, ele dizia. ‚ÄúNingu√©m tinha feito um filme em que sobreviventes confrontam assassinos que ainda est√£o no poder‚ÄĚ, afirma. Mas Adi o convenceu, mostrando uma imagem que tinha filmado naquele per√≠odo. Na cena, que faz parte¬†do filme, o pai de Adi, j√° com mais de cem anos e cego, se arrasta pelo ch√£o, achando que est√° na casa de um estranho e pedindo ajuda sem que ningu√©m o acuda. √Č uma imagem pesada, que parece desconectada do filme.

Aquele foi o primeiro dia, contou Adi, em que o pai n√£o havia reconhecido ningu√©m da fam√≠lia. Sempre que algu√©m tentava ajud√°-lo o pai se desesperava ainda mais. ‚ÄúFoi insuport√°vel para Adi n√£o poder confortar seu pai. Ent√£o ele pegou a c√Ęmera e come√ßou a filmar, usando-a como um escudo para se proteger emocionalmente ao ver o pai se arrastando, com medo‚ÄĚ, diz Joshua. Naquele momento, Adi viu que era tarde demais para as feridas do pai cicatrizarem. Ele tinha se esquecido da morte de Ramli, mas n√£o do medo. ‚ÄúDepois de me mostrar a cena, Adi me disse: ‚ÄėN√£o quero que meus filhos herdem essa pris√£o de medo. Acho que se eu chegar gentilmente nos assassinos, mostrando que os vejo como seres humanos e que estou disposto a perdo√°-los caso eles admitam que aquilo foi errado, talvez eles parem de se gabar. Eu devo aos meus filhos essa tentativa de estabelecer a paz com meus vizinhos para que eles n√£o cres√ßam com medo‚Äô. Fiquei muito tocado com isso.‚ÄĚ

Joshua Oppenheimer.
Joshua Oppenheimer.

O OLHAR DO SILÊNCIO

‚ÄúThe Look of Silence‚ÄĚ √© um retrato desses confrontos, cada um com resultados diferentes. Como oculista, Adi chegava √† casa dos assassinos sem revelar sua verdadeira identidade e o que estava fazendo ali. Come√ßava uma conversa fazendo um exame de vista, enquanto a c√Ęmera de Joshua registrava tudo. N√£o era uma tarefa simples, mas Joshua se aproveitou do fato de que ‚ÄúThe Act of Killing‚ÄĚ n√£o tinha sido lan√ßado ainda. A comunidade sabia que ele estava filmando l√≠deres paramilitares nacionais. Como Adi s√≥ queria falar com gente da regi√£o, acharam que esses peixes menores tivessem medo de agredi-los, pensando¬†que a equipe de Joshua era amiga de seus chefes.

Mesmo assim, tomaram medidas de seguran√ßa. Durante cada conversa, a fam√≠lia de Adi o esperava no aeroporto, pronta para fugir. Um carro tamb√©m estava sempre a postos para lev√°-lo — todos tinham vistos para a Dinamarca, caso precisassem sair do pa√≠s. Uma equipe de cinco pessoas acompanhava a fam√≠lia o tempo todo e todos eles se mudaram para uma outra regi√£o do pa√≠s. As crian√ßas foram transferidas para uma escola melhor, Adi ganhou um consult√≥rio pr√≥prio para n√£o ter que bater de porta em porta vendendo √≥culos. ‚ÄúMas desde o lan√ßamento Adi tem sido visto como um her√≥i nacional na Indon√©sia. Ele tem um papel central no movimento por verdade, justi√ßa e reconcilia√ß√£o. N√£o s√≥ ele n√£o foi amea√ßado como parece que sua fam√≠lia est√° segura e muito, muito bem.‚ÄĚ

Como pode-se esperar a partir dessa premissa, as conversas de Adi com os respons√°veis pela morte de seu irm√£o n√£o s√£o de f√°cil digest√£o. O primeiro entrevistado conta como bebia o sangue das v√≠timas para ‚Äún√£o enlouquecer‚ÄĚ ap√≥s os assassinatos. Ele n√£o reage bem aos questionamentos e acusa Adi de politizar a conversa — que n√£o poderia ser mais pol√≠tica. Adi √© estoico e aguenta todos os confrontos com uma calma impressionante mesmo quando √© pego de surpresa. Ao aparecer na casa do tio para uma consulta, come√ßa a falar sobre o irm√£o e descobre que o tio havia sido guarda na pris√£o de Ramli e que n√£o fez nada para impedir sua morte. ‚ÄúEle fica bravo, defensivo, e usa a propaganda anticomunista para justificar o genoc√≠dio. Meio que diz que Ramli mereceu a morte e que se Adi continuasse a investigar tamb√©m mereceria. √Č um momento horr√≠vel em que um relacionamento amoroso se despeda√ßa. A cena revela como essa ferida aberta corta a fam√≠lia toda‚ÄĚ, lembra Joshua.

Em outra cena, Adi visita um assassino que est√° surdo e cuja filha, que cuidava dele, descobre pela primeira vez o que o pai fez. ‚ÄúEla percebe, de uma forma horr√≠vel, que o pai √© um estranho para ela e que fez coisas terr√≠veis. Vemos a cara dela entrar em colapso‚ÄĚ, diz o cineasta. ‚ÄúMas em vez de fazer o que eu teria feito, que √© entrar em p√Ęnico e botar a equipe para fora para poder pensar, ela fica muito quieta, escuta sua consci√™ncia e pede perd√£o. Ela for√ßa Adi a perdoar, algo que ele disse no in√≠cio que faria e que nunca tinha feito, j√° que at√© ali ningu√©m havia reconhecido o que fez de errado. Foi uma das coisas mais delicadas e bonitas que j√° vi.‚ÄĚ

MURO INVIS√ćVEL

Essa foi a √ļnica conversa que n√£o terminou num impasse. Quando a discuss√£o ficava tensa demais, Joshua agia como um mediador. ‚ÄúEu acalmava a situa√ß√£o dizendo que estava ali para filmar uma discuss√£o entre duas pessoas com perspectivas diferentes. Entendia a irrita√ß√£o, era uma hist√≥ria pessoal para os dois, mas eles deviam tentar se escutar. N√£o fiz isso porque me sentia neutro em rela√ß√£o √† situa√ß√£o, mas porque n√£o queria que sa√≠ssemos feridos‚ÄĚ, afirma. Do lado de fora, muitos dos assassinos tinha capangas prontos para colocar pra fora quem incomodasse seus patr√Ķes.

‚ÄúEm todas as cenas cheg√°vamos a um muro que n√£o consegu√≠amos ultrapassar. O t√≠tulo ‚ÄėThe Look of Silence‚Äô [em portugu√™s, ‘O Peso do Sil√™ncio’] se refere a essa parede. O que ela √©? Como √© viver com ela?‚ÄĚ Os vilarejos da Indon√©sia, diz o cineasta, podem parecer buc√≥licos e ador√°veis porque a tens√£o n√£o se v√™. Como torn√°-la vis√≠vel?

‚ÄúPercebi que isso podia ser feito pelos confrontos. Disse a Adi que n√£o acreditava que ele teria o pedido de desculpas que queria. Falei: ‚ÄėAcho o contr√°rio. Voc√™ os v√™ como seres humanos e eles v√£o reciprocar seu olhar gentil e te ver como um ser humano tamb√©m. Eles v√£o ver Ramli como um ser humano e todas as v√≠timas como humanas, e nesse momento as mentiras que eles se contaram v√£o entrar em colapso. Tudo aquilo a que eles se ativeram se baseia em tirar a humanidade das v√≠timas. Voc√™ as est√° humanizando s√≥ pela sua presen√ßa. Eles v√£o entrar em p√Ęnico, v√£o ficar defensivos, bravos, e vamos falhar. Mas acho que se conseguirmos mostrar esse impasse, esse muro, quem assistir ao filme vai sentir a press√£o incr√≠vel que os sobreviventes sentem‚Äô‚ÄĚ, lembra.

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A m√£e de Adi em 'The Look of Silence'
A m√£e de Adi em ‘The Look of Silence’

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RESPOSTA

Os filmes, diz Joshua, trouxeram a discuss√£o do passado √† tona na Indon√©sia. “A m√≠dia era silenciosa a respeito e agora fala do que aconteceu como um genoc√≠dio, como um crime contra a humanidade. Mais importante: fala do regime criminoso que est√° no poder desde o genoc√≠dio”, diz. Quando “The Act of Killing” foi indicado ao Oscar, o presidente tamb√©m se manifestou e disse que sabia que o que aconteceu em 1965 foi um crime e que em algum momento uma reconcilia√ß√£o seria necess√°ria, mas que eles n√£o precisavam de um filme para for√ß√°-los a isso. “Eles meio que menosprezaram o filme, mas foi maravilhoso porque foi a primeira vez que o governo reconheceu que aquilo era errado”, diz Joshua.

Dois √≥rg√£os governamentais, inclusive, se ofereceram para distribuir o filme. Com a ajuda da Comiss√£o Nacional de Direitos Humanos e do Conselho de Arte de Jacarta, “The Look of Silence” foi exibido no maior cinema do pa√≠s, com capacidade para mil pessoas. Dois mil espectadores foram √† abertura e o cinema teve de fazer duas sess√Ķes — depois das quais Adi foi aplaudido de p√©. Depois disso, foram feitas mais de 500 exibi√ß√Ķes p√ļblicas e agora o filme est√° dispon√≠vel na internet no pa√≠s.

Mas nem tudo s√£o flores. G√Ęngsteres foram contratados para atacar exibi√ß√Ķes e 30 sess√Ķes tiveram de ser canceladas por quest√Ķes de seguran√ßa. Como o √≥rg√£o censor de filmes est√° no guarda-chuva do comit√™ de defesa do parlamento e √© dominado pelo ex√©rcito (“Parece louco, mas √© s√≥ autorit√°rio”), o document√°rio foi proibido de passar nos cinemas. “√Č uma situa√ß√£o peculiar. ‘The Look of Silence’ √© o primeiro filme da Indon√©sia a ser indicado ao Oscar — ‘The Act of Killing’ n√£o era uma produ√ß√£o formalmente indon√©sia — e est√° banido dos cinemas”, diz.

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Adi vê imagens captadas por Joshua Oppenheimer

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DEDO AMERICANO

O filme de Joshua n√£o aponta s√≥ o dedo para o governo indon√©sio, mas tamb√©m para os Estados Unidos. O diretor inclui um trecho de uma reportagem na TV americana exaltando o ocorrido como a maior batalha vencida contra o comunismo. Tem tamb√©m imagens de um grupo de trabalhadores num campo de concentra√ß√£o para extrair l√°tex para a empresa americana de pneus Goodyear. A cr√≠tica √© ainda mais clara: em um momento, um dos assassinos olha para a c√Ęmera e diz que merecia um pr√™mio dos americanos, porque foram eles que os ensinaram a odiar e a matar os comunistas.

“Para os americanos √© um momento muito doloroso, porque ele olha direto para o p√ļblico. Ele est√° implicando a gente, dizendo que n√£o √© s√≥ a hist√≥ria da Indon√©sia, mas tamb√©m a nossa. Essa √© uma das muitas vezes em que os Estados Unidos apoiaram atrocidades em outros lugares”, critica.

“E a Goodyear usava escravos de campos de concentra√ß√£o, a mesma coisa que as empresas alem√£s faziam perto de Auschwitz 20 anos antes. √Č uma crise de consci√™ncia para os americanos, nos faz pensar que talvez a ideologia anticomunista da Guerra Fria n√£o seja a raz√£o real para nossas interven√ß√Ķes. Talvez fosse uma desculpa, como a que os assassinos que vemos nos meus filmes usam. Talvez seja uma desculpa oficial para fazer aquilo que as corpora√ß√Ķes queriam”, continua. “Isso faz com que fa√ßamos perguntas dif√≠ceis sobre nossa pol√≠tica externa.”

O senador americano Tom Udall levou¬†no ano passado, aos 50 anos do massacre, um projeto ao Senado para que o selo de sigiloso seja tirado de documentos que falam do papel dos Estados Unidos no que aconteceu na Indon√©sia. “Nosso governo continuou o apoio militar e financeiro √† Indon√©sia naquela √©poca. Ao chegarmos ao anivers√°rio desse per√≠odo horr√≠vel, h√° apenas 50 anos, os Estados Unidos e a Indon√©sia devem trabalhar para fechar esse cap√≠tulo horr√≠vel liberando informa√ß√Ķes e reconhecendo oficialmente as atrocidades que aconteceram. Muitos dos assassinos ainda est√£o vivos e soltos, e sua impunidade impede a Indon√©sia de verdadeiramente realizar seu potencial democr√°tico”, diz o texto de Udall.

Joshua apoia a iniciativa. “Sabemos de ouvir por a√≠¬†que os Estados Unidos deram dinheiro, armas e treinamento a eles. Tamb√©m sabemos que eles fizeram uma lista com 5 mil nomes de figuras p√ļblicas da Indon√©sia — jornalistas, ativistas, artistas, intelectuais — e a entregaram¬†ao Ex√©rcito pedindo para devolverem os nomes quando tivessem se livrado de todos. Uma lista de morte. Essa √© uma mancha grande na afirma√ß√£o americana de que √© uma for√ßa para a liberdade e a democracia no mundo p√≥s-guerra”, diz.

Para o documentarista, enquanto esses documentos n√£o forem p√ļblicos e os Estados Unidos n√£o reconhecerem sua responsabilidade, tudo o que o pa√≠s diz sobre direitos humanos √© ret√≥rica e “ser√° visto, corretamente, pelas pessoas do mundo como um disfarce hip√≥crita para avan√ßar os interesses estrat√©gicos e corporativos do pa√≠s”. Circulam agora peti√ß√Ķes de americanos para que senadores de seus Estados apoiem a proposta de Udall. “Estamos tentando fazer agora com que isso passe pelo Senado e vire lei.” A discuss√£o da hist√≥ria, diz ele, √© fundamental. ‚ÄúN√£o haver√° democracia genu√≠na at√© que se lide com essa quest√£o. N√£o h√° democracia sem comunidade e n√£o h√° comunidade quando uns t√™m medo dos outros.‚ÄĚ