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‘House of Cards’ volta como novela das boas

Em tempos em que Donald Trump √© o favorito a disputar a presid√™ncia dos Estados Unidos pelo Partido Republicano,¬†‚ÄúHouse of Cards‚ÄĚ n√£o parece t√£o novelona assim. Sim, Frank Underwood, presidente na s√©rie, j√° matou duas pessoas, colocou um jornalista na cadeia por cyberterrrorismo e derrubou um presidente com uma facilidade impressionante. Pelo menos nas prim√°rias disputadas por Frank, diferente da realidade, ningu√©m mencionou o tamanho do seu p√™nis e pregar a supremacia branca √© algo que pode destruir uma candidatura. Mas ‚ÄúHouse of Cards‚ÄĚ abra√ßa cada vez mais a ideia de que √© sim uma novelona, com di√°logos cheios de frases de efeito, vil√Ķes maquiav√©licos e reviravoltas. Se voc√™ tem uma boa hist√≥ria e bons personagens, como √© o caso desta quarta temporada, isso n√£o √© um problema.

Na terceira temporada, ‚ÄúHouse of Cards‚ÄĚ deu uma cambaleada. Nos dois primeiros anos, a trama girava em torno da escalada de Frank Underwood — preterido no cargo de Secret√°rio de Estado e com sangue nos olhos –, que passou de deputado a presidente. Na terceira, com o objetivo inicial atingido, o panorama mudou um pouco. Frank tentou emplacar um projeto pouco popular para aumentar os empregos reduzindo programas de governo e se envolveu em quest√Ķes diplom√°ticas com a R√ļssia, governada por um presidente que lembra bastante Putin. Enquanto isso, o bra√ßo-direito de Frank, Doug, passou a temporada no fundo do po√ßo, recuperando-se lentamente de uma tentativa de assassinato. As hist√≥rias novas n√£o engrenaram, a s√©rie s√≥ esquentou no final e deu saudades das primeiras temporadas.

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Frank (Kevin Spacey) no quarto ano de 'House of Cards'. Crédito: David Giesbrecht/Divulgação
Frank (Kevin Spacey) no quarto ano de ‘House of Cards’. Cr√©dito: David Giesbrecht/Divulga√ß√£o

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N√£o √© o caso dos epis√≥dios novos, que estrearam na sexta (4). As prim√°rias s√£o bem mais interessantes que o dia a dia de Frank como presidente e ele √© muito melhor quando colocado contra a parede. Na quarta temporada, os desafios v√™m de v√°rios lados: Lucas, o rep√≥rter que Frank colocou na cadeia, √© libertado depois de ajudar o governo numa investiga√ß√£o; seu ex-chefe, Tom Hammerschmidt, come√ßa a investigar Frank por conta pr√≥pria; Claire, mulher de Frank, imp√Ķe condi√ß√Ķes dif√≠ceis para ajud√°-lo nas elei√ß√Ķes; Heather Dunbar continua no p√°reo para disputar a presid√™ncia e o candidato republicano e Will Conway faz bastante press√£o sobre os Underwood.

Ajuda o fato de vermos mais da vida dos Conway¬†fora da rela√ß√£o com Frank — Tom Yates, escritor contratado para contar a hist√≥ria do casal na terceira temporada, por exemplo, foi mal constru√≠do desde o in√≠cio e √© dif√≠cil ligar pra ele at√© hoje. Os novos epis√≥dios deixam de lado¬†alguns velhos conhecidos, como Jackie e Remy, mas os novos personagens — como a complicada m√£e de Claire — s√£o melhores que os que apareceram no ano passado.

SURREALISMO

Desde que Frank cometeu o primeiro assassinato com as pr√≥prias m√£os, l√° no primeiro ano, caiu um pouco a aura de ‚Äúrealidade‚ÄĚ da s√©rie. Quando ele matou uma jornalista em p√ļblico, numa esta√ß√£o de metr√ī lotada, a hist√≥ria ficou mais inveross√≠mil ainda. Mas √© justamente nesses momentos que a s√©rie tem seus pontos altos: n√£o quando tenta ser s√©ria e falar de pol√≠tica externa, n√£o quando quer ser um retrato dos bastidores da pol√≠tica americana, mas quando encurrala Frank e Claire (Kevin Spacey e Robin Wright, que seguraram as pontas mesmo na terceira temporada) e os for√ßa a buscar uma sa√≠da, por mais louca ou improv√°vel que seja — at√© porque est√° dif√≠cil competir com a realidade das prim√°rias americanas.

Quando os desafios que eles enfrentam parecem intranspon√≠veis e os advers√°rios dos Underwood est√£o √† altura (a √©tica Heather Dunbar, que apareceu na temporada anterior, n√£o √©), √© dif√≠cil parar de assistir a ‚ÄúHouse of Cards‚ÄĚ. N√£o porque √© um grande drama pol√≠tico, mas porque √© uma novela das boas. E isso a quarta temporada — com menos tramas paralelas, mais focada na busca do casal pela indica√ß√£o √† presid√™ncia, mas ainda totalmente maluca — entrega.