No momento em que a presidente afastada Dilma Rousseff apresentava sua defesa ao Senado, o diretor Kleber Mendonça Filho, de “O Som ao Redor”, apresentava seu filme “Aquarius” à imprensa. Desde o dia 17 de maio, quando a equipe do filme levantou placas que diziam, entre outras coisas, “o Brasil está passando por um golpe de Estado” no Festival de Cannes, a história do filme se interligou com o impeachment. As polêmicas em torno do filme, intensificadas na última semana, culminaram numa acusação de censura prévia a “Aquarius”, que recebeu uma classificação indicativa de 18 anos.

Um pequeno resumo do entrevero: cerca de duas semanas atrás o jornalista Marcos Petruccelli anunciou em redes sociais que havia sido convidado pelo secretário do Audiovisual do governo interino de Michel Temer, Alfredo Bertini, para fazer parte da comissão que vai escolher o representante brasileiro para a disputa do Oscar. Petruccelli, porém, sem ter visto “Aquarius” já havia tecido críticas ao filme e ao diretor nas redes sociais.

“O posicionamento estridente do senhor Petruccelli em relação a esse filme parece ter como base a sua insatisfação pessoal com o protesto democrático e que terminou sendo divulgado em mídia mundial, realizado por dezenas de trabalhadores do audiovisual brasileiro e pela equipe de ‘Aquarius’ no Festival de Cannes (…) Foi naquele momento do mês de maio que, vale lembrar, o MinC passou alguns dias extinto –decisão do governo interino que, depois, voltou atrás, ressuscitando a pasta”, escreveu Mendonça Filho no jornal Folha de S.Paulo sobre a escolha do jornalista.

Depois disso, outros membros da comissão, como Ingra Lyberato e Guilherme Fiúza Zenha, desligaram-se dela e cineastas como Anna Muylaert, Aly Muritiba e Gabriel Mascaro retiraram seus filmes (respectivamente “Mãe Só Há Uma”, “Para Minha Amada Morta” e “Boi Neon”) da disputa por uma indicação ao Oscar. No dia 12, também foi determinada pelo Ministério da Justiça que a classificação de “Aquarius”, que estreia na próxima quinta, seria de 18 anos, por conter cenas de sexo explícito e drogas. A distribuidora do filme, Vitrine, recorreu da decisão, mas teve o pedido negado. Pelo Facebook, Mendonça Filho compartilhou publicação que dizia: “Esperar completar 18 anos para assistir ao filme Aquarius é muito fácil. Difícil é ter que esperar 16 anos para tentar vencer uma eleição nas urnas”.

Não à toa, a primeira resposta do diretor na coletiva de imprensa realizada num hotel em São Paulo, pouco depois de o filme ter sido exibido a jornalistas, relembrou Cannes. Falando sobre a imprensa, Mendonça Filho disse que algumas mentiras já foram contadas sobre seu filme. “O jornalismo pode existir num blog, num site, por menor que esse blog ou site seja, ou pode estar na grande mídia. Ele pode estar, inclusive, numa rede social, que tem informação compartilhável que começa a circular um pouco como um vírus e passa a ser informação. Eu diria que a [mentira] que mais me chamou a atenção foi a acusação de que fomos a Cannes pagos pelo governo”, disse. “Estávamos de férias. No chute, cada um de nós, numa equipe de 30 pessoas, estaria recebendo cerca de 500 euros por dia. É uma das coisas mais estapafúrdias, absurdas e nojentas que poderiam escrever. Isso virou assunto, e bizarramente virou informação, por mais equivocada que seja.”

“Aquarius”, que estreou em Cannes, onde participou da competição oficial, conta a história de Clara (Sonia Braga), última moradora do edifício Aquarius, em Boa Viagem, em Recife. Todos os outros apartamentos foram comprados por uma construtora, representada pelo herdeiro Diego (Humberto Carrão), que acaba de voltar dos Estados Unidos e tem como primeiro projeto demolir o velho Aquarius para construir um prédio novo. Clara, porém, não quer nem ouvir a proposta de compra, causando um problema para a construtora e as famílias que já saíram de lá. Ela não precisa ficar, mas quer ficar, lutando sozinha contra a especulação imobiliária.

“Quando recebi esse roteiro do Kleber fiquei muito impressionada, porque realmente foi o melhor roteiro que recebi na vida. Imediatamente se juntou com a minha alma, com meu corpo. Na realidade, ele me deu uma voz novamente. Todas as palavras que estavam naquele roteiro eram uma voz pra cidadã Sonia Braga. Eu estava precisando dessas palavras, desse posicionamento, que eu já estava tendo como cidadã, mas sem plataforma”, disse ela.

Sonia é o centro do filme: a câmera não desgruda enquanto ela nada no mar, passeia com o neto, vai para a balada com as amigas, transa. Os outros personagens apenas giram em torno de Clara: os filhos aparecem para discutir a venda do apartamento numa conversa tensa, o salva-vidas da praia aparece como ombro amigo, o grupo de amigas está ali para tentar estimulá-la a aproveitar a vida.

É um filme completamente de Sonia, um papel raro para uma mulher de 65 anos de idade, ressalta a atriz, hoje com 66. “Acho que a mídia ainda trata as mulheres como nos anos 1940. Nos anos 1940 uma mulher de 60 anos era uma velhinha”, diz. “Mas as coisas mudaram muito, o mundo mudou muito, o ser humano se desenvolveu. Dentro da sociedade a mulher tomou uma posição mais forte, mais presente. A indústria não acompanhou muito isso.” Maeve Jinkings, que interpreta a filha de Clara, completa: “Historicamente, o cinema é predominantemente um ambiente feito pro olhar — não só feito por — masculino, hétero, obcecado pela juventude e pela mulher objetificada. Hoje a gente está num tempo em que as mulheres, como outras minorias, estão chamando a atenção para sua representatividade”.

É um filme crítico, atual, que tem uma temática recorrente do cinema de Mendonça Filho. “Dá muito trabalho fazer um filme em que você esterilize o Brasil ou os problemas de viver em sociedade. Filmes, que a gente vê, eles existem, parece que a casa das pessoas é um mostruário da Tok & Stok”, diz o cineasta. “Não consigo pensar que daqui pra frente vou mudar o discurso de alguma maneira. A tendência é piorar, porque se forem colocados obstáculos para a produção de filmes no Brasil…”

Humberto Carrão, dono do segundo maior papel de destaque, o do antagonista de Clara, é uma caricatura desse mercado. Recém-chegado dos Estados Unidos, onde fez um curso de “business”, pensa que vai convencer Clara a sair dali mudando o nome do novo prédio, em inglês, para Aquarius, como homenagem ao antigo edifício (Clara ressalta que o edifício, na verdade, ainda está de pé). Seu Diego representa a visão de que para que o progresso aconteça o velho deve ir abaixo, discussão também abordada na relação de Clara, jornalista e escritora, com os discos de vinil e o MP3: dá para gostar dos dois?

O filme propõe mais reflexões que respostas. Para Carrão, essa discussão sobre progresso versus destruição do passado é fundamental. “Eu venho de uma cidade em que isso acontece o tempo inteiro. Nas Olimpíadas, pessoas foram tiradas do morro da Providência pra passar um teleférico, que a organização disse que não queria. Oitocentas famílias foram retiradas. O problema é esse, quando em nome do progresso, entre muitas aspas, você ignora o espaço, o afeto, a memória. Isso continua acontecendo. Estelita, em Recife, a praça Onze, no Rio de Janeiro. É um discurso que tem que ser repensado.”

Sobre a classificação indicativa, o diretor diz que sabe o filme que fez. “Tinha em mente questões de tabu de imagem relacionada a sexo. ‘Aquarius’ não tem uma cena de violência física, sangue, facada, tiros. Tem três momentos de sexualidade que foram filmados corretamente, com a lente correta, na distância correta, costurados na narrativa. São imagens fortes da narrativa, mas não acredito que elas mereçam, no todo, uma classificação de 18 anos”, avalia.

Nenhuma das cenas de sexo é particularmente longa, mas há nudez frontal tanto de homens quanto mulheres — um pênis aparece ereto numa orgia, ainda que não em primeiro plano. Segundo um guia do Ministério da Justiça, filmes com classificação de 18 anos são aqueles com sexo explícito (“com reações realistas dos personagens participantes do ato sexual, com visualização dos órgãos sexuais”) ou com situações sexuais complexas (como incesto). Não é bem o caso de “Aquarius”, que não é um filme sobre sexo ou mesmo com muito sexo — e o diretor argumenta que um pênis ereto em segundo plano não transforma o filme em “Ninfomaníaca”.

“Se você pega uma safra recente de cinema brasileiro, ‘Boi Neon’, ‘Para Minha Amada Morta’, ‘Bruna Surfistinha’, ‘Tatuagem’, são filmes que encaram a sexualidade de uma forma franca. Não acho que ‘Aquarius’ seja mais chocante. Não acho que mereça estar na mesma prateleira de ‘Ninfomaníaca’, ‘Love’ ou ‘Calígula'”, afirma.

Pênis à parte, “Aquarius” não era pra ser um filme do tipo que polariza. É a história de uma mulher e a história da luta contra um tipo de progresso, bem contada, mas não exatamente polêmica. Segundo o cineasta, sua maior surpresa no processo foi justamente descobrir que fez um filme controverso — mas que isso não é negativo. “Isso faz parte do cinema, às vezes filmes chegam com muita expectativa, às vezes pelos motivos errados. Conversa sobre censura, possíveis perseguições políticas e coisas assim. Mas a melhor parte disso é que toda vez que ele passa ele gera energia como filme. Pelo que percebi, o filme está muito quente e é bom a gente estar estreando logo, na quinta. É bom pro filme esse debate. E a melhor coisa é que as pessoas vão poder discutir tendo visto o filme”, reflete o diretor.

“Daqui pra frente ninguém sabe. Hoje é um dia histórico, decisivo na nossa história recente, e realmente não sei como ficarão as políticas de incentivo. Não sei. O que eu sei é que momentos de tensão no país geram reações artísticas. Imagino que a gente pode ter daqui pra frente, talvez, filmes mais combativos. É uma teoria.”