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Introspecção e delírio em Barretos

 

“Frates Sumus Omnes”
(Todos somos irm√£os)
— Lema do munic√≠pio de Barretos

Minha incapacidade de dizer não já me levou a muitos lugares: um namoro de dois anos, o batizado de um bebê cujo nome eu sequer sabia e, agora, a 61ª Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos.

O sol duro do meio dia distorce a Rodovia Washington Luiz, transformando o asfalto no horizonte em uma lava escaldante que poderia engolir um autom√≥vel inteiro, uma ilus√£o de √≥ptica corroborada pelas eleva√ß√Ķes da estrada que faziam o carro √† nossa frente desaparecer a cada nova ladeirinha que descia. Mesmo em agosto, o calor vence o vidro fum√™ e o ar condicionado da Hyundai Tucson de Henrique, desconhecido abordado via BlaBlaCar para fazer a viagem da capital paulista at√© Barretos. BlaBlaCar √© um site especializado em caronas que dosa a compatibilidade entre caroneiros atrav√©s de um ‚Äúblabla√īmetro‚ÄĚ, onde voc√™ indica se conversa pouco, normal ou muito. Coloquei muito e eu e Henrique demos match. Ele perguntou o que eu sabia sobre a Festa e, por ansiedade e como t√©cnica de defesa, tirei a trava da besta verborr√°gica que se esconde em mim e compilei um mon√≥logo com tudo que havia lido nos √ļltimos dias sobre o evento.

No site oficial de Barretos, a hist√≥ria do evento √© contada em pequenos cap√≠tulos encabe√ßados pelo presidente em vigor em cada edi√ß√£o da Festa. Ou seja, a hist√≥ria come√ßa com Juscelino Kubitschek, passa por Itamar Franco, FHC, Lula e culmina em Michel Temer. Tirando essa maneira sui generis de separar os eventos, a hist√≥ria do release √© um blablabla padr√£o capaz de explodir qualquer blabla√īmetro, a hist√≥ria sobre como 20 rapazes autossuficientes e orgulhosos de suas origens fundaram em uma mesa de bar ‚ÄúOs Independentes‚ÄĚ, organiza√ß√£o respons√°vel at√© hoje pela festa, para celebrar a cultura e o folclore local. Tamb√©m era a primeira vez de Henrique na festa e ele me interrompeu com uma d√ļvida bem mais sincera: ser√° que rola muita putaria?

Henrique √© o turista primo da capital recorrente na Festa: indo para Barretos com o solene objetivo de pegar mulherzinha. Musculoso, loiro, com bons tra√ßos faciais e uma pros√≥dia tradicionalmente paulista, ele exibe um qu√™ de Nick dos Backstreet Boys — caso fosse um herdeiro da dinastia Matarazzo Suplicy. A d√ļvida de Henrique √©¬†leg√≠tima: os boatos que correm √† boca mi√ļda no imagin√°rio popular s√£o de que Barretos durante a Festa vira uma Sodoma & Gomorra com motivos country, um munic√≠pio inteiro movido a √°lcool e libido. A pr√≥pria din√Ęmica dos campings dentro do evento, divididos em dois setores: o Casados e o Solteiros, implica uma sexualidade, digamos, expansiva.

Mas nem tudo √© impulso sexual: Barretos √© um dos maiores festivais sertanejos do Brasil e, tamb√©m, um dos maiores rodeios do mundo. Jovens pe√Ķes e duplas de cantores ascendentes tremem de ansiedade e agradecem eloquentemente a oportunidade de fazer parte da hist√≥ria da Festa do Pe√£o de Boiadeiro de Barretos, um monumento inabal√°vel na hist√≥ria barretense: nem o temporal nas v√©speras da inaugura√ß√£o destruindo a estrutura principal afetaria o evento que, nos dias seguintes, receberia 900 mil pessoas, ofereceria 120 atra√ß√Ķes musicais ao decorrer de 11 dias e, conforme as expectativas, movimentaria mais de 200 milh√Ķes de reais.

O fato √© que a pequena cidade com uma popula√ß√£o de pouco mais de 100 mil habitantes muda completamente seu cotidiano durante os dias de Festa: pipi-m√≥veis s√£o espalhados pela avenida principal da cidade (a Av. 43 ‚Äď em Barretos todas as ruas e avenidas s√£o batizadas com n√ļmeros), dois postos de gasolina decidem n√£o vender combust√≠vel e viram bar (“at√© o fim da festa o √ļnico √°lcool que vamos vender √© cerveja”, explica o frentista) e uma infla√ß√£o lun√°tica ocorre na comunidade hoteleira da regi√£o: no Airbnb, um cativeiro com persiana quebrada, parede descascada exibindo padronagens de infiltra√ß√£o e um colch√£o sem len√ßol malemal encaixado em uma cama de solteiro coberta de adesivos de princesas das Disney custava 600 reais a di√°ria.

Henrique e eu vamos construindo as pontes da nossa amizade por conveni√™ncia — n√£o necessariamente algo pejorativo, uma amizade constru√≠da pela circunst√Ęncia, pelo contexto de uma situa√ß√£o pontual, sem anticorpos para sobreviver no ambiente n√£o-controlado da vida cotidiana; enfim, uma amizade que, embora¬†envelopada por empatia, tem data de validade — enquanto o carro acelera para o interior paulista. Cada paradouro, posto de gasolina e ped√°gio nos lembra nosso destino por meio¬†de outdoors e banners com uma foto a√©rea da arena de Barretos, o logo da Festa e o slogan: “Viva esta experi√™ncia”. Hora de viver esta experi√™ncia, ent√£o.

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DIA I

Quinta-feira, 18 de Agosto de 2016

O calor sufocante de Barretos d√° a sensa√ß√£o de estar andando dentro de uma lasanha: as fatias quentes de queijo segurando seus passos como uma areia movedi√ßa ou teia de aranha. Uma breve conversa com a recepcionista de √≥culos grande e porte pequeno me informa que Barretos √© um empreendimento caro para quem n√£o dirige: um t√°xi do centro at√© o Parque do Pe√£o custa 60 reais, enquanto um motot√°xi fica na casa dos 40. Logo vi que me locomoveria com membros do prolet√°rio e locais, usando a linha de √īnibus municipal Viasa (quatro reais). Durante a semana e fora dos hor√°rios de pico, o √īnibus √© utilizado somente por funcion√°rios do evento — cozinheiros, gar√ßons, seguran√ßas etc. O √īnibus abafado usa o pl√°stico que separa o motorista como um pequeno mural de eventos, noticiando festas paralelas durante os dias de Barretos: da Festa do Patr√£o, uma rave de 24h frequentada pela juventude endinheirada (nos dias que se seguiriam, cinco pessoas diferentes me fofocaram sobre o ano em que o Neymar Jr. foi expulso por tumultuar a festa) ao Segura, Crist√£o!, uma celebra√ß√£o cat√≥lica de tr√™s dias.

Ap√≥s duas horas de turbul√™ncia, consigo me credenciar e finalmente pisar dentro da labir√≠ntica estrutura da Festa de Barretos. √Č um parque enorme, por enquanto ainda ocupado apenas por funcion√°rios construindo as estruturas met√°licas e arquibancadas, as banquinhas de comidas testando geradores e alimentando os freezers com um estoque infinito de Brahma — algumas geladas j√° cumprem seu papel na m√£o de uns pe√Ķes que andam a cavalo com um lat√£o na m√£o e o nome de sua comitiva bordado nas costas da camisa. Al√©m dos cavalos, motos cinquentinha aceleram pra l√° e pra c√° locomovendo funcion√°rios — √†s vezes tr√™s, empoleirados sem camisa — para as extremidades distantes do parque.

No fim da tarde, com uma lua cheia laranja, inchada e suculenta iluminando o c√©u, um homem passa o som do palco dedilhando o Hino Nacional na viola caipira enquanto uma comitiva desfila a cavalo, estreando a areia da arena. As √ļnicas pessoas nas arquibancadas s√£o funcion√°rios descansando, p√©s descal√ßos esticados ap√≥s horas de trabalho enquanto os sapatos e chinelos repousam numa montanha encardida no √ļltimo degrau. Eles se divertem com o rodeio e gritam girando o chap√©u no ar. Anoitece. Casais e fam√≠lias come√ßam a chegar.

Começa assim a Sexagésima Primeira Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos.

A Festa √©¬†gigantesca: h√° umas quatro pra√ßas de alimenta√ß√£o e bancas espalhadas por todo o parque (do esperado churrasco ao surpreendemente popular yakissoba), todas as banquinhas¬†ignorando qualquer respeito ao conceito de direito autoral: Altas Horas Lanches, Cachorro Quente Sai de Baixo, Fant√°stico Lanches; Roberto Marinho teria um faniquito dando uma curta caminhada por l√°. Um das barracas tinha adesivado apenas as palavras CERVEJA NA BUNDINHA, mas n√£o tive o √≠mpeto de jornalismo investigativo necess√°rio para desvendar esse mist√©rio. O parque cont√©m tr√™s palcos: o principal se encontra na beirada da arena onde acontecem os rodeios. Ou seja, ap√≥s o fim dos duelos entre homem e touro, as entradas da arquibancada s√£o abertas e o p√ļblico desce at√© a arena para assistir aos shows e aproveitar a festa na mesma areia onde os rodeios aconteceram. Compreendi que a unanimidade da bota de cowboy n√£o √© um fetichismo est√©tico ao imaginar como seria o momento em que eu pisasse naquela caixa de areia colossal com um t√™nis de camur√ßa. Ali√°s, logo no primeiro dia, foi poss√≠vel notar a diferen√ßa entre o cosplay e o respeito ao tema: as pessoas n√£o est√£o se fantasiando, tampouco √© ironia. Aquele √© o dress code da Festa e as pessoas obedecem ao dress code. 90% das pessoas respeitam e v√£o vestidos a rigor: mulheres de short, bota at√© o joelho e fivel√£o; homens de camisa xadrez, cal√ßa jeans justa e bota de cowboy. O chap√©u, mesmo muito recorrente, √© opcional. √Č como usar smoking em uma festa de debutante ou branco no Ano Novo: h√° uma joie de vivre honesta em se vestir para o evento, uma ambi√ß√£o real de comemorar e fazer parte da celebra√ß√£o.

Com fogos de artif√≠cio e um discurso sobre como o “agroneg√≥cio paga as contas do Brasil e ser caipira deixou de ser uma vergonha”, come√ßa oficialmente o evento. Mesmo com um p√ļblico t√≠mido de dia de semana, a festa¬†anima de vez com o show de Simone e Simaria. Na dura√ß√£o de tr√™s m√ļsicas no olho do furac√£o da plateia, contabilizei 15 beijos de casais diferentes: uma din√Ęmica de micareta, olha, beija, segue a vida. Vi um menino implorar por um beijo para uma menina que negava com veem√™ncia. Como em um document√°rio do Discovery Channel, assistir √†s amigas dela se aproximando por tr√°s do rapaz. “√Č hoje que vejo uma fanfic de esquerda ao vivo!”, esfreguei as m√£os empolgado pensando naqueles text√Ķes virais que corriam soltos pelo Facebook. Mas o que aconteceu foi a amiga exclamando “√ī, s√≥ beija o cara!”. “Beija, vai!”, insiste outra amiga. “Beija logo!”, sentencia uma terceira amiga, mais baixinha e impaciente. Logo, suas oito amigas em un√≠ssono ordenavam um beijo com argumentos que iam do “ele n√£o √© t√£o feio” at√© “ele faz cursinho com minha irm√£”. Ela beijou r√°pido, se desvencilhou do abra√ßo e fugiu com as amigas aos risos enquanto o sujeito comemorava e era ovacionado entre a multid√£o.

Contei essa hist√≥ria para Laura, a recepcionista matinal de 56 anos que alimentava uma rela√ß√£o de amor e √≥dio com Barretos, e fui informado que ultimamente estavam bem mais sob controle as coisas: h√° uns 10, 15 anos, era comum os rapazes la√ßarem as mulheres, arrastarem pra l√° e pra c√°, “casal trepando na rua mesmo”. Ao conversar sobre o potencial amea√ßador da festa, mulheres, de adolescentes at√© donas de casa, abordavam as investidas como um dano colateral, um obst√°culo natural que se evita n√£o bebendo demais sozinha, n√£o andando sem amigas pelo meio de multid√Ķes, raramente (uma vez, para ser exato) sendo chamado de machismo. Em tempo de eloqu√™ncia sobre o tema em redes sociais, pareceu extraterrestre tamanha complac√™ncia com o comportamento masculino: um misto de tem-quem-goste com eu-n√£o-vou-deixar-estragar-minha-festa pontuou as respostas. Barretos abria uma fenda no espa√ßo-tempo onde as pautas contempor√Ęneas se dissolviam qual a√ß√ļcar na chuva? O Brasil profundo pouco se afeta com as microrrevolu√ß√Ķes protagonizadas pelos membros da quasi-intelligentsia das redes sociais? As mulheres¬†n√£o deixariam essas circunst√Ęncias estragarem sua festa e existe uma li√ß√£o a√≠ sobre sobreviv√™ncia e efic√°cia pragm√°tica e a diferen√ßa entre discurso e pr√°tica?

Na noite seguinte, no show Cabar√©, Eduardo Costa provocaria um urro de celebra√ß√£o ao afirmar que “quem ca√ßa Pok√©mon n√£o ca√ßa buceta” para uma arena lotada, confirmando a onipresen√ßa opressora de uma aura sexual autoimposta pelo imagin√°rio popular da Festa. Isso atrai muitos empreendedores sexuais para a cidade: conversei com uma prostituta catarinense que, a convite de um “amigo”, veio para c√° trabalhar numa casa no centro, um bordel improvisado em um sobrado para os dias de Barretos. Mesmo com os pre√ßos inflacionados, ela afirmou haver movimento constante. Sobre essa abordagem itinerante √† prostitui√ß√£o, ela afirmou ser comum e h√° anos faz turn√™s pelas festas populares do Brasil.

A mensagem “Meu‚Ķ t√° rolando uma putaria BIZARRA no camping dos solteiros…” fez vibrar meu celular. Era Henrique. Logo abaixo uma foto de uma mulher virando cerveja entre suas n√°degas, na ca√ßamba de uma caminhonete. Meninas diferentes rebolando seminuas ou nuas para uma plateia de homens de bermuda e chap√©u, quase todos com o celular em punho rindo e hiper-registrando a festinha. Como a entrada no camping era restrita, decidi ir para o hotel.

Voltei em um √īnibus lotado de funcion√°rios cansados que, por precisarem esperar um segundo √īnibus chegar para esse sair, come√ßaram um pequeno motim com gritos de “VAMO, MOTORA” e “EU T√Ē CANSADO, MOTORA” e “RESPEITA OS CABELO BRANCO DESSA SENHORA, MOTORA”; todas as frases respondidas pelo sil√™ncio inabal√°vel do motora. Depois de 45 minutos, o √īnibus finalmente acelerou e foi recebido com um brasileir√≠ssimo “AEEEEE” e uma salva de palmas. Chegando no conforto do quarto de hotel, uma r√°pida pesquisa por “barretos” no XVideos (motivo: jornalismo investigativo) revela que a pr√°tica n√£o √© nova: √© um ritual anual do camping dos solteiros a contrata√ß√£o de prostitutas para animar as cervejadas e churrascos. Pego no sono vendo um homem cambaleante sem camisa sofrendo para subir em uma mesa pl√°stica de bar para dan√ßar ao lado de uma prostituta de biqu√≠ni em um v√≠deo pixelado na tela do meu computador.

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DIA II

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

A m√ļsica sertaneja √© onipresente em Barretos. Ela te acorda e te nina. No sistema de som da recep√ß√£o do hotel, explodindo na caixa de som dos carros, no celular do jovem no √īnibus: em todos os lugares, fazendo uma trilha sonora constante, √†s vezes metalingu√≠stica (na noite anterior me peguei tentando conectar no wi-fi no Parque do Pe√£o ap√≥s a morte s√ļbita do meu 3G e, fracassando, ouvi uma m√ļsica que¬†dizia “eu quero falar com ela mas o wi-fi n√£o deixa”). Isso √© crucial. Existe uma coragem e uma urg√™ncia na m√ļsica sertaneja em absorver o agora. Em “O Pintor da Vida Moderna”, Baudelaire fala que a fun√ß√£o do, bem, pintor da vida moderna √© registrar a cidade. N√£o como paisagem, mas suas rela√ß√Ķes, seus cruzamentos, suas exclus√Ķes, suas nov√≠ssimas fun√ß√Ķes e seus novos valores. √Č assim que se compreende o esp√≠rito de um tempo: sendo atemporal ao dar um mortal de costas no lama√ßal do zeitgeist. √Č isso que a m√ļsica sertaneja faz: fala de mensagem visualizada, promo√ß√£o em passagem a√©rea, celular sem bateria; inclui todos os signos do que √© ser uma pessoa existindo nesse espa√ßo-tempo. Quando Munhoz & Mariano cantam “no shopping, no bar, at√© no motel voc√™ pede wi-fi”, eles fazem exatamente o que Baudelaire quer dizer quando martela no aforismo que todas as modas s√£o encantadoras.

Segui o som sertanejo at√© a piscina, onde encontrei tr√™s irm√£os muito parecidos mergulhando seus corpos na √°gua. Al√©m do mesmo bi√≥tipo, tamb√©m compartilhavam o senso fashion: os tr√™s usavam √≥culos e bon√©; um deles usava um bon√© com os adjetivos “Bruto, r√ļstico e sistem√°tico” bordados na frente. Moradores de Campinas, o trio veio movido pelo seu poliamor por m√ļsica sertaneja e por beber; s√≥ paravam de cantar para fazer fazer algum coment√°rio sobre a alquimia da embriaguez atrav√©s de uma bebe√ß√£o especulat√≥ria, marcadas por coment√°rios ‚Äúo cara fica mais b√™bado com uma dose de u√≠sque ou de vodka?‚ÄĚ. Eles n√£o estavam satisfeitos em ficar b√™bados, mas sim almejavam a maneira mais eficaz de faz√™-lo. Tirei a camisa, aceitei a oferta de um copo de u√≠sque e energ√©tico e me juntei a eles, n√≥s quatro quebrando todas as regras escritas em letras garrafais ao lado da piscina:

РProibido entrar com bebida alcoólica
– Proibido entrar de bermuda
– Proibido ouvir som alto

Conversamos sobre nossas expectativas com shows enquanto flutu√°vamos na √°gua gelada da piscina: os irm√£os queriam ver a apresenta√ß√£o conceitual de Paula Fernandes, dividida em noite, madrugada e amanhecer; eu estava ansioso para o show de Mar√≠lia Mendon√ßa e ainda ruminava o carisma e sucesso de Wesley Safad√£o, um paradoxo indecifr√°vel: como um ser pode ser t√£o doce ao mesmo tempo que atende pela alcunha de Safad√£o? Chegada a hora, fomos juntos ao shows da noite no Parque do Pe√£o, a vers√£o funknejo de ‚ÄúBumbum Granada‚ÄĚ chiando alto para fora das caixas de som do carro.

J√° no Parque do Pe√£o, Maiara & Mara√≠sa sobem ao palco munidas de microfones dourados, vestidos justos, um viol√£o branco e todo o empoderamento que a soma desses elementos pode acarretar. Depois do obrigat√≥rio ‚ÄúBoa noite, Barret√£o‚ÄĚ, a dupla dispensa a diplomacia e pergunta de cara, em dic√ß√£o perfeita, para uma arena lotada, a pergunta mais (para seguir ‚Äúempoderamento‚ÄĚ no dialeto contempor√Ęneo) triggering que milhares de casados e solteiros poderiam ouvir:

— QUEM A√ć J√Ā FOI CORNO?

O sonoro ‚Äúcorno‚ÄĚ ecoa em todo o Parque do Pe√£o, talvez em toda cidade. At√© onde eu sei, ecoou no Brasil inteiro, at√© a casa da ex-namorada que uns meses antes havia se aventurado em rela√ß√Ķes extraconjugais com um homem mais velho que, por levar sobre os ombros o mesmo nome do genitor, mesmo na meia idade era chamado pelos amigos de ‚ÄúJ√ļnior‚ÄĚ. Na base do ventre, senti todo o peso de ser tra√≠do por um homem 15¬†anos mais velho que eu chamado J√ļnior. Usando uma camisetinha gen√©rica do ‚ÄúUnknown Pleasures‚ÄĚ do Joy Division na foto de avatar. Um homem velho chamado J√ļnior vestindo a camisetinha dos risquinho do Joy Division. Mas antes que eu afundasse em autopiedade, Mara√≠sa (ou Maiara) me tirou da minha digress√£o com um complementar:

— E QUEM AQUI J√Ā CORNEOU ALGU√ČM?

Novamente ensurdecido pelo urro que a plateia dava em resposta quase un√Ęnime, exceto um e outro casal que se limitava a trocar olhares de eu-n√£o-esqueci e me-desculpa-mesmo, fui transportado ao meu hist√≥rico de dissimula√ß√Ķes, mentiras, chats de WhatsApp deletados, pacotes de camisinha comprados para repor as do criado-mudo usadas na noite anterior. Trai√ß√Ķes impulsionadas por inseguran√ßa e ego√≠smo, um misto de adolesc√™ncia tardia com crise de meia-idade precoce. O mundo de Maiara & Mara√≠sa tem uma qualidade b√≠blica, um qu√™ fatalista de Velho Testamento, apontando a verdade ululante que existe sob platitudes como “aqui se faz, aqui se paga”.

√Č imposs√≠vel n√£o se entregar √† indulg√™ncia confessional quando o fio condutor do show e a ess√™ncia das letras de Mar√≠lia Mendon√ßa e Maiara & Mara√≠sa √©¬†a catarse da exposi√ß√£o da intimidade. Uma gigantesca terapia coletiva, bem mais¬†acess√≠vel financeiramente¬†e¬†menos eficaz que a convencional, mas, Jesus, muito bonita. Dezenas de milhares de pessoas fazendo qualquer coisa em sincronia j√° causa um otimismo, mas dezenas de milhares de pessoas em un√≠ssono exorcizando dem√īnios atrav√©s de f√°bulas sobre beber para esquecer algu√©m e ainda ter que pagar os 10% do gar√ßom confirma que o sublime e o crescimento est√£o na for√ßa feroz da vulnerabilidade.

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DIA III

S√°bado, 20 de Agosto de 2016

No s√°bado, al√©m da festa no Parque do Pe√£o, ocorre uma grande celebra√ß√£o de rua na supracitada Avenida 43, a principal da cidade e logradouro do hotel em que eu me hospedava. Fui acordado de maneira eficaz por um remix de funknejo histri√īnico e esquizofr√™nico que parecia tocar dentro do meu pr√≥prio l√≥bulo frontal. O calor justificava a fama do clima quente de Barretos: len√ß√≥is amanheciam encharcados e camisetas umedeciam em breves caminhadas at√© o restaurante onde j√° se encontravam os primeiros b√™bados da manh√£.

Na Avenida 43, os cowboys j√° montavam suas bolsas t√©rmicas entupidas de lat√Ķes trajando apenas cueca samba-can√ß√£o, chap√©u e bota. Se na festa oficial as roupas eram respeitadas, no centro o traje era carnavalesco: grupos de amigos sinalizavam sua unidade como “bloquinho” atrav√©s de um BREJA NA BOKA bordado na parte traseira da cueca. A avenida lota muito r√°pido e, sob o sol do meio-dia, casais rec√©m-formados j√° se beijam, turistas ati√ßam louquinhos de bairro que espiam empolgados o movimento e garrafas de energ√©tico e u√≠sque come√ßam a redecorar os canteiros. Depois de d√©cadas de festa incontrol√°vel que invadia a madrugada e tamb√©m estacionamentos de estabelecimentos, homic√≠dios e outras ilegalidades menos letais fizeram com que uma lei obrigasse a festa a acabar √†s 20h. “Mas como confiar na pontualidade e no bom senso de uma turba embriagada?”, pergunto e me apontam para a for√ßa policial rigorosa que vigia austera da outra extremidade da avenida. “Manda todo o mundo embora mesmo, spray de pimenta, bomba j√° tiveram que usar, mas mandam embora tudo”, sorri um gar√ßom de uns 60 anos, uma cicatriz atravessando seus l√°bios. Mais tarde, eu mesmo assistiria a dois policiais dando uns tap√Ķes (o famigerado “telefone”) em um b√™bado desagrad√°vel que saiu do encontro cambaleante, choroso e, definitivamente, menos desagrad√°vel. Os meios podem ser question√°veis, mas a efic√°cia, n√£o. Pelas 21h¬†a avenida j√° estaria vazia, s√≥ os pipi-m√≥veis, centenas de garrafas jogadas pelo ch√£o e quatro viaturas que circulavam a avenida como se uma guerra civil estivesse prestes a romper.

O la√ßo da amizade de conveni√™ncia se mostrou mais forte que o esperado no momento em que recebi uma mensagem de Henrique me convidando para um churrasco no Rancho Pau Imp√© (confesso n√£o ter notado o trocadilho por escrito e s√≥ notar o trocadilho ao pedir para o taxista me levar at√© o “Rancho Pau em P√©”). O taxista, como muitos outros barretenses, n√£o era taxista, mas fazia o bico na temporada pra tirar um dinheiro al√©m da sua renda normal de agr√īnomo. Como quem recebe uma visita, parecia bem orgulhoso da cidade, relatando os tempos passados em engarrafamento com a boca cheia, como um capricho da capital a que agora ele tinha direito.

No Rancho Pau Imp√©, fui recebido por Seu Ben√™, um empres√°rio de 67 anos. Sem camisa, o torso truncado exibindo uma cicatriz cir√ļrgica do centro do peito at√© o umbigo, um bafo de cerveja e um √≥culos pendendo da ponta do nariz. Seu Ben√™ era o anfitri√£o ideal: me falou sobre seu amor por Barretos, sobre seu tino comercial e sobre sua paix√£o pela bebida, tudo atrav√©s de trocadilhos (“Vin√≠cius, voc√™ sabe por que eu bebo?”, ele perguntava me fitando nos olhos; “Por que, seu Ben√™?”, eu respondia com voz de Ded√© Santana, o encarando nos olhos tamb√©m como se jog√°ssemos um Jogo do S√©rio; “Porque √© l√≠quido”, ele respondia). N√£o havia ficado realmente b√™bado at√© esse dia, ent√£o aceitei o conselho do Seu Ben√™ de que beber era fundamental (jornalismo investigativo) para mergulhar de cabe√ßa no modus operandi da Festa.

Devidamente entorpecidos, partimos para o Parque do Pe√£o (o Seu Ben√™ fez uma gambiarra para Henrique entrar de gra√ßa: colocou a pulseira na circunfer√™ncia da m√£o e prendeu, criando uma livre locomo√ß√£o que podia passar de m√£o em m√£o — lembro de marejar os olhos de embriaguez e admira√ß√£o). Entre trope√ßos e gargalhadas, nos dirigimos √† arena¬†lotada em que alguma dupla sertaneja se apresentava com a promessa de ser o show mais “bruto e divino desse pa√≠s”. O cantor pediu para desligarem todas as luzes e as pessoas ligarem as luzes dos seus celulares, compondo uma constela√ß√£o, uma extens√£o do c√©u estrelado que se misturava com as pessoas. Toda essa beleza embalada por um hit sobre uma multid√£o n√£o ser uma companhia, um olha-quanta-gente-e voc√™-segue-sozinho. Imposs√≠vel de descrever com adjetivos melhores que: bruto e divino.

Henrique me cutuca o ombro e me alcan√ßa um copo de energ√©tico e u√≠sque, brindamos, sorrisos, abra√ßos, tudo parece m√°gico. Vejo que, embora existam port√Ķes para entrar da arquibancada para arenas, os jovens locais, barretenses de 16 ou 17 anos, escalam a cerca de tr√™s metros at√© o outro lado, alguns sentam l√° em cima e assistem ao show. Isso √© Barretos! Eu preciso fazer isso! Tomando um gole grande para diminuir o peso e segurando o copo pl√°stico com os dentes, escalo e sento no topo da arquibancada, uma perna para cada lado. A vista √© realmente bonita e aqueles milhares de pessoas parecem ter um motivo sincero para celebrar. Sou¬†contagiado pelo otimismo. Corro o risco de desabar meu corpo alcoolizado ao embarcar em uma expedi√ß√£o para tirar o celular do bolso e mandar um √°udio de WhatsApp do qual iria me arrepender dias depois.

Doses insalubres de bebida alco√≥lica s√£o empurradas goela abaixo enquanto a cerveja de milho esquenta no lat√£o que passa de m√£o em m√£o dos estranhos empoleirados na cerca. Isso √© Barretos! Isso √© bom! Divino! Bruto! O divino e o bruto coexistindo! √Č isso que √© o ser humano! O meio-termo entre o divino e o bruto! Estou gesticulando sozinho equilibrado na cerca de tr√™s metros de altura e decido que √© melhor dar uma volta.

Fa√ßo amizade com um grupo de meninas e, como o slogan da Festa ordena, vivo aquela experi√™ncia. Chutava areia pra l√° e pra c√° dan√ßando com uma garota, minha m√£o na cintura dela, a m√£o dela no meu pesco√ßo, nossos h√°litos quentes com alto teor alc√≥olico emba√ßando o olhar um do outro. Qual n√£o foi nossa surpresa quando um rel√Ęmpago explodiu no c√©u e uma chuva torrencial nos atacou sem pudor, mulheres escondendo os celulares dentro de suas botas, blusas ficando transparentes e a areia da arena virando um barro. Se at√© ent√£o eu apenas arranhava a superf√≠cie de Barretos, esse foi o momento de comunh√£o: uma das minhas rec√©m-feitas amigas arrancou um pequeno outdoor de patroc√≠nio, uma estrutura de metal e lona de 3mx10m, e improvisou uma cabana pra gente. De bra√ßos em riste, segur√°vamos aquela prote√ß√£o da chuva enquanto, a cada segundo, mais pessoas se aproximavam, uma chuva torrencial caindo. Mais umas pessoas arrancaram as lonas de patroc√≠nio e quando vi √©ramos umas 40 pessoas esticando os bra√ßos para manter nosso abrigo, rindo e divindo cerveja quente. Todavia, o show seguia e achamos injusto com nosso momento especial assistir a ele¬†de longe, alienados. Decidimos aproveitar o show de perto e caminhamos para perto do palco, todos os 40 juntos, num trenzinho, carregando as lonas com a m√£o esticada. Seguran√ßas chegaram e nos privaram do nosso casquinho de tartaruga improvisado.

O temporal crescia cada vez mais, o vento cada vez mais forte e as gotas de chuva cada vez maiores. √Č quando ocorre uma evacua√ß√£o em massa. Milhares de pessoas indo embora ao mesmo tempo. A fila do √īnibus, at√© ent√£o sempre vazia, era quilom√©trica agora. Entrei — completamente encharcado, a chuva for√ßando minhas p√°lpebras a se fecharem — para a fila com fam√≠lias, casais e b√™bados. Um primeiro √īnibus estacionou e as pessoas do come√ßo da fila come√ßaram a entrar. Ent√£o um segundo √īnibus parou na frente, no meio da estrada, abrindo a porta como quem diz “chega√≠, fura fila”. Todo o ser vibe errada presente saiu da fila (inclusive eu): os amorais, anti√©ticos, sem rigor, fomos todos para o √īnibus f√°cil. Enquanto o para-brisa emba√ßava e o √īnibus chacoalhava pela estrada, fiquei conversando com um barretense como esse era o √īnibus do Ju√≠zo Final levando quem n√£o presta embora, aquela tropa de pessoas ensopando o ch√£o do √īnibus com suas roupas pingando. Ele ria e concordava com um “N√≥s vai morrer tudo!”. Que divino, que bruto.

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DIA IV

Domingo, 21 de Agosto de 2016

O quarto dia de Barretos come√ßou com a inaugura√ß√£o do cobertor que at√© ent√£o sobrevivia imaculado no arm√°rio. O temporal da noite anterior baixou a temperatura e o munic√≠pio, mesmo sem chuva, amanheceu aos 19¬į. A ressaca, o cheiro de roupa √ļmida, o √ļnico t√™nis encharcado, o frio inesperado: Barretos est√° tentando me ensinar uma li√ß√£o? Mesmo com o clima l√ļgubre, alguns guerreiros mantinham viva sua epopeia e arrumavam sua bolsa t√©rmica cheia de lat√Ķes em uma esquina.

Encaminhei-me cedo at√© o Parque do Pe√£o, pois aquele melanc√≥lico domingo seria tamb√©m a final da competi√ß√£o de montaria de touro da PBR, a Professional Bull Riders, organiza√ß√£o respons√°vel pela premia√ß√£o em dinheiro de 100 mil reais e a ida de um pe√£o para competir em Las Vegas. Al√©m disso, seria revelado o nome do mascote oficial da PBR, um homem vestido de pe√£o, por√©m com cabe√ßa de touro, um minotauro antropof√°gico que todo dia se apresentava fazendo dan√ßas e palha√ßadinhas em geral ao som de riffs de guitarra e √† luz de pirotecnias como lan√ßa-chamas e fogos de artif√≠cio — vamos terminar logo aqui com isso, o nome escolhido foi Pibibull, ok? Seguimos.

Mesmo sendo final, a arquibancada recebia um qu√≥rum t√≠mido de casais entusiastas de montada de touro. A maior parte do p√ļblico se dividia entre duas atividades: ou estavam no palco infantil Barretinho assistindo a uma pe√ßa de teatro — que, pelo que entendi, era a Peppa Pig e sua turma recontando a Arca de No√© — ou na fila para montar¬†no touro mec√Ęnico. A porquinha Peppa e o touro rob√≥tico que levantava o vestido das mulheres praticamente lado a lado, criando uma dicotomia um pouco assustadora.

A areia molhada na arena dificultava a montaria e permitia que os touros jogassem os pe√Ķes pra l√° e pra c√° como bonecas de pano. A din√Ęmica, independente do pe√£o, era a mesma: ao som de ‚ÄúRockstar‚ÄĚ do Nickelback, a porteira era aberta e o pe√£o surgia no lombo de algum touro musculoso e imponente que relinchava em um breakdance infernal. Tr√™s ou quatros segundos depois o pe√£o j√° se encontrava no ch√£o e um corte seco oscilava de ‚ÄúRockstar‚ÄĚ para o dedilhado de alguma can√ß√£o do The Calling. A trilha, vez em quando, mudava para ‚ÄúAmerican Idiot‚ÄĚ, do Green Day, ou ‚ÄúMaster of Puppets‚ÄĚ, do Metallica. A noite era dos touros, criaturas quase mitol√≥gicas de semblante ap√°tico como se ruminassem os horrores que viram e corpos inflados, como se usassem anabolizante, cada m√ļsculo do corpo pulsando no √°pice de sua funcionalidade. E os nomes! Touros batizados de: Bipolar, Ass√©dio Moral, Pikachu, WhatsApp, Playboy, Samurai, Vegetariano, Miss Cancun, Blindex, Hard Rock, Artista, Vingador, Escurid√£o.

Da arquibancada, eu comia um espetinho de churrasco e praticava a hipocrisia ao julgar a viol√™ncia animal. Ao indagar qualquer profissional no evento, o que voc√™ recebe √© um discurso pronto sobre como o boi √© bem tratado, todos animais s√£o tratados com respeito e cuidado (“melhor que muito pe√£o”, riu um dos tratadores). No site d‚ÄôOs Independentes, associa√ß√£o organizadora do evento, h√° uma p√°gina chamada Mentiras & Verdades sobre o Rodeio em que, agora por escrito, d√£o mais ou menos os mesmos argumentos. Ainda assim, no come√ßo do ano, a Justi√ßa proibiu a prova do la√ßo e a vaquejada, limitando o Rodeio apenas √† monta do boi. As visitas guiadas ao breta, oferecidas aos membros da imprensa,¬†insinuam um cuidado e profissionalismo com o animal, mas uma breve pesquisa de Google aponta dezenas de den√ļncias e v√≠deos de maus-tratos.

Fiz a √ļnica coisa que minha pregui√ßa e indulg√™ncia permitiam: torci para o touro em todas provas da final. Existe uma defini√ß√£o clara entre quem torce para o pe√£o (pra minha surpresa, a maioria) e quem torce para o touro. Existe uma beleza em um animal acuado, assustado e atucanado querendo se livrar de um ser humano. Cada tombo era uma pequena comemora√ß√£o minha, corroborada apenas pela gargalhada senil de um senhor sozinho que sentava a uns metros de mim. √Č como ver¬†“Godzilla” e n√£o torcer para o monstro. As crian√ßas que torciam para os cientistas e pr√©dios hoje torcem para o pe√£o ou trabalham no RH de empresas. Por fim, o pe√£o Dener Barbosa montou com destreza o touro Tempo Ruim na noite fria e chuvosa de domingo e se consagrou campe√£o.

Exibindo a fivela de ouro do PBR, conversei com o pe√£o. Humilde e genuinamente empolgado, contou sobre seus ossos quebrados, sobre o medo que nunca se dissolve por completo, sobre a energia da arena. Perguntei se, aos olhos dele, as pessoas torciam mais para o pe√£o ou para o touro. ‚ÄúOlha, eu prefiro achar que para o pe√£o, mas entendo quem gosta do touro.‚ÄĚ

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DIA V

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2016

Segunda-feira toma Barretos impondo seu pragmatismo de dia √ļtil. Trabalhadores caminham pelas cal√ßadas; os lat√Ķes somem e as m√£os agora desfilam pelo centro segurando contas para pagar. Na r√°dio, a not√≠cia de que um boi havia sido alvejado at√© a morte na noite anterior, com um tiro fatal na cabe√ßa,dias antes de ser leiloado em prol do Hospital de C√Ęncer de Barretos — no resto do ano, o que movimenta a cidade s√£o os milhares de pessoas que peregrinam at√© a cidade em busca do seu tratamento oncol√≥gico sofisticado e inovador. √Č como se a realidade voltasse de f√©rias.

A recepcionista do hotel, Ana L√ļcia, conta sobre as amizades que fez ao decorrer de anos e anos de Barretos: pol√≠ticos, artistas em busca da fama, pequenos comerciantes. Lista intera√ß√Ķes, parafraseia frases; √© como se anualmente colasse novas figurinhas em seu √°lbum de visitantes. Mesmo voltando ao normal, a cidade segue com o que pode ser chamado de ‚Äúuma atmosfera‚ÄĚ.

No √īnibus de volta para S√£o Paulo, sento ao lado de Volnei, 50 anos, rec√©m-divorciado, barretense que ia para a capital visitar o irm√£o. Batemos nossas impress√Ķes sobre a festa, ele como local, eu como intruso. Ele mia uma m√°goa teatral sobre como o patroc√≠nio, os camarotes e as novas gera√ß√Ķes destru√≠ram a ess√™ncia de Barretos; esmurra o ar e critica a lei proibindo t√©cnicas de montaria no Rodeio, enchendo a boca para pronunciar ‚Äúvergonha!‚ÄĚ v√°rias vezes, os fios grisalhos espetando para fora do seu bigode preto.

Penso nas dezenas de particularidades que deixei passar, que sensibilidade agu√ßada alguma seria capaz de absorver a ess√™ncia de uma festa sexagen√°ria. Penso no pe√£o Dener, no Henrique, no Seu Ben√™, na recepcionista e at√© na banca de ‚Äúcerveja na bundinha‚ÄĚ. O quanto conscientemente n√£o ceder ao moralismo e ao julgamento e for√ßar a alteridade n√£o √© uma manifesta√ß√£o ainda mais condescendente de moralismo. O quanto de mim foi projetado em tudo que vi; o quanto foi distorcido, mutilado e cozinhado na panela da minha percep√ß√£o.

A Festa de Barretos √© uma celebra√ß√£o de uma cultura, um evento de autoafirma√ß√£o do povo caipira, onde trejeitos e roupas frequentemente pejorativos s√£o ressignificados. Ao mesmo tempo, √© uma festa violenta em que¬†o consumo abismal de √°lcool nos deixa cegos pelo cabresto do hedonismo. Mas tamb√©m √© o Brasil em toda sua gl√≥ria sertaneja, colocando¬†uma lente de aumento em toda ambiguidade moral do amor rom√Ęntico. A Festa de Barretos √© a festa que ocorre na sua cidade desde que voc√™ nasceu e √© como um primo que te visita todo ano¬†para voc√™s darem uma volta; √© a viagem que voc√™ faz com seus amigos para fugir da rotina; √©, enfim, uma grande mancha de teste de Rorschach em que¬†cada um enxerga o que quer — ou precisa, ou prefere.

Uns quil√īmetros depois, o sil√™ncio da estrada vencendo minha conversa com Seu Volnei, me peguei fitando a paisagem do interior paulista pela janela do √īnibus e imaginando um homenzinho correndo ao lado do ve√≠culo, veloz e √°gil saltitando entre os topos das √°rvores. Desde sempre resvalo para essa fantasia em toda viagem que fa√ßo. Comento com Seu Volnei, descrevendo a brincadeira como um ritual alien√≠gena. Ele sorri e diz que tamb√©m faz, desde sempre. ‚ÄúAcho que todo mundo √© meio parecido nesse aspecto.‚ÄĚ

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Sociedade

A garota de lugar nenhum

Sentada √† minha frente, comendo um petit gateau, Maha Jean Mamo falava, na tarde de uma sexta-feira de setembro, sobre o pesadelo burocr√°tico de sua vida. Sobre como n√£o teve nenhum tipo de documento at√© os 26 anos, sobre o que teve de fazer para existir e encontrar solu√ß√Ķes que seus pais, advogados, diplomatas e ministros achavam imposs√≠veis. Sobre como tinha abandonado toda sua vida no L√≠bano e vindo para o Brasil sem falar uma palavra em portugu√™s. Sobre como esse pa√≠s tinha dado a ela tanta felicidade e tristeza em uma propor√ß√£o para a qual n√£o h√° c√°lculo poss√≠vel. Sobre como, em resumo, foi sua vida de ap√°trida.

‚ÄúEu tinha oito anos quando comecei a perceber. Participava de corridas na escola, ganhava, mas n√£o podia participar das competi√ß√Ķes de fora. Era escoteira desde pequena e, quando eu tinha 15 anos, nosso grupo todo foi pra Jord√Ęnia. Eu n√£o pude ir. Era um choque atr√°s do outro‚ÄĚ, me disse Maha em uma sorveteria no centro de Ibitinga, munic√≠pio de 50 mil habitantes no noroeste paulista.

Um ap√°trida √© algu√©m que n√£o tem nenhum tipo de vincula√ß√£o a uma nacionalidade, nenhuma prova de reconhecimento oficial pelo Estado. O que aconteceu com Maha tem origem na interfer√™ncia da religi√£o com a lei. O pai √© crist√£o e a m√£e, mu√ßulmana. Ambos nasceram e se conheceram na S√≠ria, onde o casamento inter-religioso √© proibido. Para ficarem juntos, a¬†√ļnica solu√ß√£o deles foi abandonar a cidade em que moravam, a hoje devastada Aleppo, e casar em uma igreja em Beirute em 1984.

Assim, Maha e os irm√£os n√£o podiam ser libaneses, pois o pai era s√≠rio, e tamb√©m n√£o podiam ser s√≠rios, pois o casamento n√£o era reconhecido pelo Estado, muito menos os filhos daquela uni√£o proibida.¬†Foram frutos da paix√£o rom√Ęntica com o amor imposs√≠vel ‚ÄĒ tinha tudo para dar errado.

Por n√£o existir legalmente, a vida dela e dos irm√£os foi complicada em cada epis√≥dio que envolvia um documento. Estudou de favor em uma escola arm√™nia, precisou de uma autoriza√ß√£o especial do governo para prestar o equivalente liban√™s do Enem e s√≥ conseguiu entrar em uma faculdade por insist√™ncia e sorte. ‚ÄúDepois da escola, minha irm√£ mais velha quis ir pra faculdade, mas n√£o foi aceita. Quando isso aconteceu, meu irm√£o abandonou os estudos.‚ÄĚ

Ela decidiu tentar. Fez uma lista com mais de 40 poss√≠veis universidades, entre p√ļblicas e privadas, e conta que tinha nota para entrar em todas. ‚ÄúEu queria fazer medicina. Chegava nos locais e dizia: ‚ÄėQuero estudar, mas n√£o tenho documentos. Voc√™ me aceita?‚Äô. Na primeira a que eu fui, o cara jogou pap√©is na minha cara.‚ÄĚ Todos respondiam a mesma coisa: n√£o. At√© que encontrou a AUL Arts & Science University, na qual o diretor era o pr√≥prio dono e por isso as irm√£s puderam estudar. Cursou o equivalente a Sistemas de Informa√ß√£o e a irm√£, Engenharia da Computa√ß√£o. Mais tarde, fez um MBA.

Trabalhou dentro da faculdade para poder abater os custos do curso e fazia uns bicos onde conseguia que aceitassem um trabalhador ilegal ‚ÄĒ se n√£o tinha identidade, menos ainda carteira de trabalho. ‚ÄúMeu pai era t√£o ‚Äėmachisto‚Äô! N√£o queria que a gente trabalhasse, mas a gente precisava.‚ÄĚ O pai, um motorista de caminh√£o, n√£o tinha condi√ß√Ķes de bancar uma universidade privada. Era a √ļnica op√ß√£o.

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Nacionalidade: Ap√°trida. Foto: Gui Christ/Risca Faca

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√Č dif√≠cil saber como √© n√£o ter documentos. A maior parte das pessoas experimenta essa sensa√ß√£o por uma fra√ß√£o de tempo quando tem a carteira roubada. E mesmo assim a gente sabe que a prova oficial de quem somos est√° em algum lugar. No caso de Maha, essa sensa√ß√£o era permanente em um pa√≠s onde conflitos externos e guerras civis foram constantes depois dos anos 1980. Se ela fosse parada em um checkpoint na cidade, n√£o teria o que mostrar. Poderiam achar que fosse, talvez, uma terrorista e mand√°-la para pris√£o. Uma emerg√™ncia hospitalar tamb√©m poderia ser um grande risco.

‚ÄúEu tenho uma alergia chamada urtic√°ria em um n√≠vel muito alto. Tinha uns 20 anos e nem sabia que tinha isso. Durante o casamento de um amigo, comecei a me co√ßar muito. Fui ao banheiro e n√£o me reconheci no espelho. Me levaram desmaiada ao hospital, mas n√£o queriam me atender. Meus amigos foram em peso, pois sabiam que podiam n√£o me aceitar. Tiveram uma grande briga l√° at√© que uma amiga pegou a identidade e disse: ‚ÄėO nome dela √© esse. Voc√™s v√£o aceit√°-la e nos dizer quanto custa que n√≥s vamos pagar‚Äô.‚ÄĚ Maha foi atendida.

N√£o sei qual a cara que fiz ao ouvir esse epis√≥dio, mas ela me disse: ‚ÄúAgora eu tenho seguro e rem√©dios comigo. N√£o se preocupe‚ÄĚ. E riu.

Naquele momento, ela tinha deixado a sobremesa de lado e eu tinha acabado um capuccino doce demais. O ambiente da sorveteria Slechi parecia colorido e descontraído demais em contraste com a história. Apesar de tudo, Maha é vivaz, enérgica, e narra a própria história sem autocomiseração e sem aquele artificialismo narrativo de uma palestra do TED. Ela se conecta rápido com as pessoas porque transmite sinceridade. Ri, gesticula, bate no gravador e mistura algumas palavras em português no meio do papo. Tem cabelos curtos, escuros, onde se percebe alguns fios brancos, e olhos bem grandes, cujas pálpebras se abrem com força e deixam à mostra a íris escura banhada por todos lados pelo branco do globo ocular. São olhos bem abertos, de quem viu pouco do mundo, mas tem gana de ver tudo o que for possível.

Ela esgotou as possibilidades para ganhar cidadania no Líbano: tentou fazer valer a lei que dá cidadania a quem mora há mais de 10 anos no país, mas a regra nunca funcionou. Tentou alegar que era órfã, ser adotada, adotar, casar. Nada funcionou.

Se no L√≠bano n√£o era poss√≠vel, o pr√≥ximo passo era tentar pela S√≠ria. Foi at√© a embaixada, contou o que estava acontecendo e conseguiu uma advogada. ‚ÄúPassava sempre pela convers√£o do meu pai.‚ÄĚ Mas a guerra civil s√≠ria come√ßou e a solu√ß√£o desapareceu. A pr√≥pria advogada se tornou uma refugiada. Maha n√£o desistiu. Estava decidida a entrar nesse mundo em que n√≥s vivemos, de cartas de propaganda que chegam pelo correio com nosso nome impresso a carimbos de pa√≠ses ex√≥ticos no nosso passaporte.

‚ÄúBusquei no Google todas as embaixadas que existiam em Beirute e fui disparando e-mails contando minha hist√≥ria‚ÄĚ, disse fazendo uma vozinha ir√īnica, como que lembrando da reprodu√ß√£o infinita do porqu√™ ela n√£o tinha nenhum documento. A lista de rejei√ß√Ķes imediatas foi longa, com exce√ß√Ķes. O Canad√° a chamou, adorou seu perfil. Maha tinha um MBA e falava quatro idiomas: √°rabe, franc√™s, ingl√™s e arm√™nio. ‚ÄúDisseram que meu perfil era √≥timo, que me queriam no Canad√°, mas me perguntaram como iriam colocar um visto no meu passaporte se eu n√£o tinha um. Disse que meu maior problema era n√£o ter um passaporte e que estava l√° por isso.‚ÄĚ N√£o adiantou.

A embaixada americana n√£o a chamou, mas respondeu ao e-mail e definiu pela primeira vez para Maha qual era o seu problema: um caso de apatridia. Indicaram contatos na ONU, que tamb√©m n√£o puderam ajudar ‚Äď ‚Äúmas a menina que me entrevistou l√° √© minha amiga at√© hoje‚ÄĚ. Ela tamb√©m passou por¬†uma entrevista de oito horas na embaixada da Su√≠√ßa.¬†Saiu chorando.

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Maha em sua casa, em Ibitinga, com recorda√ß√Ķes e foto de seu irm√£o. Foto: Gui Christ/Risca Faca

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Depois veio o M√©xico. E quase deu certo. Conseguiu um arranjo em que bastava a ela encontrar um trabalho e um lugar para morar para poder ir. ‚ÄúEncontrei um empres√°rio liban√™s dono de uma cadeia de restaurantes cuja mulher tamb√©m tinha sido escoteira. Ele conhecia pessoalmente o pessoal do consulado. ‘No Natal, voc√™ vai estar aqui’, ele me falou.‚ÄĚ Era novembro de 2013 e Maha tinha alcan√ßado a solu√ß√£o suprema: ela havia decifrado¬†um problema imposs√≠vel.

‚ÄúMeus pais sempre foram contra minhas tentativas. Eu sempre dizia que iria viajar um dia e eles me mandavam parar de sonhar. N√£o queriam que eu me frustrasse. Mas quando chegou a hora de contar para minha fam√≠lia, meu pai se ofereceu para pagar minha passagem.‚ÄĚ Ela contou a todos, mas… sempre tem um maldito mas. No final de 2013, algo mudou no M√©xico e Maha precisou esperar. Levaria mais tempo que o esperado, mas era certo que ela conseguiria. Ent√£o, ela relaxou.

Nesse meio tempo, Souad, a irm√£ mais velha, pediu o e-mail que Maha estava mandando para as embaixadas, mudou o nome e os dados e come√ßou a disparar tamb√©m. Era fevereiro de 2014, quando recebeu a liga√ß√£o de um diplomata brasileiro pedindo documentos. Maha a ajudou e o inacredit√°vel aconteceu. O Itamaraty foi eficiente: em duas semanas ligaram e pediram para Souad buscar o passaporte e o visto. Foi t√£o r√°pido que as irm√£s achavam que se tratava de um esquema de prostitui√ß√£o internacional. ‚ÄúQuando ela pegou os documentos, liguei para ela e perguntei se era o nome dela com foto no passaporte. Ela disse que sim.‚ÄĚ

Souad pegou o documento em uma quinta-feira, e seu voo foi marcado para segunda-feira. Maha correu para o Facebook e encontrou uma fam√≠lia brasileira que se disp√īs a aceitar a irm√£. A solidariedade falou mais alto, mas houve uma esp√©cie de troca amena de medo e preconceitos: as libanesas achavam que entrariam para uma rede de prostitui√ß√£o no Brasil e os brasileiros temiam estar abrigando terroristas em casa.

No dia do embarque, mais um problema. ‚ÄúA pol√≠cia me parou. Fa√ßa alguma coisa‚ÄĚ, dizia uma mensagem de Souad para Maha.

Era uma situação não prevista, mas que fazia sentido burocrático: como uma pessoa iria embarcar com um passaporte especial apenas com visto brasileiro, sem o registro de entrada no Líbano? A polícia federal libanesa acabou por liberar Souad, mas estabeleceu que, para sair, ela teria que pagar cinco mil dólares por cada um dos 28 anos que viveu ilegalmente no país. Agora, havia solução, mas não havia dinheiro.

Maha ativou sua rede de contatos e encontrou uma alternativa. Era ruim, mas era o que tinha. Conseguiram diminuir a multa, mas ficariam ‚Äúblack listed‚ÄĚ. Ou seja: proibidas de voltar ‚ÄĒ para sempre. Depois de um m√™s, a irm√£ conseguiu embarcar. ‚ÄúQuando ela chegou no Brasil, meu pai me disse: ‚ÄėEsque√ßa o M√©xico, seus irm√£os v√£o precisar de voc√™ l√°’.‚ÄĚ Ela aceitou.

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Foto: Gui Christ/Risca Faca

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Foi no dia¬†19 de setembro de 2014 que¬†Maha, com o irm√£o, recebeu pela primeira vez na vida um documento que dizia quem ela era. ‚ÄúSenti que existia, que tinha encontrado a ‚Äėsolution‚Äô, que iria viajar antes de morrer. Era fant√°stico! Uma nova vida, novos horizontes, novas oportunidades.‚ÄĚ Ela n√£o sabia nada sobre o pa√≠s que a aceitara, exceto o clich√™ futebol, samba¬†e a qualidade de nossos cirurgi√Ķes pl√°sticos. Nunca tinha ouvido falar de Belo Horizonte nem de Minas Gerais. Mas o Brasil √© o Brasil. Eu sei, voc√™ sabe. Maha descobriria da pior maneira.

Sem falar uma palavra em portugu√™s, quase sem dinheiro para se sustentar, os tr√™s irm√£os passaram a viver juntos na casa da fam√≠lia Fagundes, uma fam√≠lia cat√≥lica de classe m√©dia baixa. M√°rcio, o pai, deixou o segundo andar da casa para o trio estrangeiro. ‚ÄúEles abriram a casa para n√≥s, nos ajudaram muito‚ÄĚ, me disse Maha. Ainda hoje Souad mora com eles.

Distribu√≠ram folhetos, trabalharam em uma padaria, mas a barreira da l√≠ngua se revelou grande demais para conseguirem um trabalho est√°vel. ‚ÄúEu tentei de tudo. Foi muito ruim. Sofremos muito e come√ßamos a nos perguntar o que est√°vamos fazendo aqui.‚ÄĚ Ela tamb√©m se deparou pela primeira vez com moradores de rua, assaltos e assassinatos. Sua programa√ß√£o mental estava preparada para outro tipo de inseguran√ßa, o terrorismo, que era uma amea√ßa, mas n√£o di√°ria.

[olho]”Come√ßamos a nos perguntar o que est√°vamos fazendo aqui”[/olho]

Nos primeiros sete meses, longe do L√≠bano, dos amigos, da fam√≠lia e do pr√≥prio idioma, ela penou. Maha come√ßou a sair do casulo da prote√ß√£o familiar quando recebeu a visita de sua melhor amiga, Nicole Khawand, uma das poucas pessoas que a apoiou nas tentativas de encontrar uma solu√ß√£o para sua n√£o exist√™ncia burocr√°tica. ‚ÄúViajamos juntas e tinha momentos em que precisava falar portugu√™s, que era obrigada a me comunicar com as pessoas. Precisava parecer forte na frente dela.‚ÄĚ O processo fez com que Maha retomasse a antiga confian√ßa, perdida no choque inicial com o Brasil.

Mais confiante, Maha entrou em contato com a Acnur, ag√™ncia de refugiados da ONU, para resolver o problema com o visto. Maha havia entrado no Brasil como ap√°trida, algo que a lei brasileira n√£o est√° preparada para lidar. Na pr√°tica, significa renovar o visto de seis em seis meses. O objetivo era conseguir o estatus de refugiada, o que lhe permitia receber um visto de cinco anos e, mais tarde, obter um Registro Nacional de Estrangeiros (RNE) ‚ÄĒ um n√ļmero no sistema que permitiu a ela ter um passaporte brasileiro especial para estrangeiros, um documento que quase ningu√©m conhece.

Agora, ela era um combo quase √ļnico: ap√°trida e refugiada. Pela for√ßa de sua hist√≥ria e pela coragem de se expor, Maha foi convidada pela ONU para ser a embaixadora jovem do programa de ap√°tridas chamado I Belong. Apesar dos novos documentos, ela seguiu vivendo em uma esp√©cie de apartheid individual. Podia viajar pelo Brasil, mas precisava de uma autoriza√ß√£o do minist√©rio da Justi√ßa para ir para o exterior e de uma carta do pa√≠s que a receberia. Mesmo assim nenhum pa√≠s da Europa aceita o passaporte que ela usa para viajar. Em uma viagem para a Turquia, o agente da imigra√ß√£o do aeroporto olhou o documento e disse: ‚Äú√Č falso‚ÄĚ. S√≥ era diferente.

A maior parte dos seus documentos √© diferente. Na rodovi√°ria de Ibitinga, quando nos encontramos pela primeira vez, ela aproveitou para comprar uma passagem no √īnibus da meia-noite para S√£o Paulo. O funcion√°rio no guich√™ de atendimento, Claudino, segundo o crach√°, pediu o documento. Ela entregou um cart√£o de pl√°stico, cor salm√£o, um pouco maior do que uma carteira de identidade. Claudino tamb√©m parecia estar vendo pela primeira vez. Olhou de um lado, virou, olhou do outro, talvez tenha lido a palavra ‚Äúap√°trida‚ÄĚ, mas n√£o falou nada. Anotou os dados, devolveu o documento e imprimiu a passagem. Na entrada do √īnibus, o processo foi parecido. Voltar√≠amos juntos na madrugada, acompanhados por Guilherme Roger Ven√Ęncio, um estudante de artes de 22 anos que se tornou amigo de Maha. No s√°bado pela manh√£, os dois participariam de uma oficina na sede do Google. O √īnibus estava quase cheio, mas ela pediu para sentar ao lado da janela. ‚ÄúGosto de sentir que estou viajando.”

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O incomum passaporte brasileiro para estrangeiros e outros documentos de Maha. Foto: Gui Christ/Risca Faca

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A vida de Maha √© t√£o singular que ela conseguiu um emprego¬†pelo site Catho. Desde fevereiro, ela se mudou para a fazenda onde funciona a Agro Betel, em Ibitinga. Com a vida nos eixos, ela estava em uma curva ascendente. At√© que o Brasil mostrou os dentes. Na madrugada do dia 30 de junho deste ano, ela foi acordada por uma liga√ß√£o: o irm√£o estava morto. ‚ÄúEddie estava com a namorada no carro, quando pararam em um cruzamento perto de casa. Eles entregaram o carro e sa√≠ram, mas quando meu irm√£o falou, eles atiraram. Foi uma bala s√≥. Pegou no cora√ß√£o. Ele foi morto por tr√™s adolescentes drogados. E por que s√£o adolescentes n√£o h√° justi√ßa. Eu amo o Brasil, mas o Brasil pegou a melhor coisa da minha vida.‚ÄĚ Seus olhos estavam marejados¬†e foram tomados por uma rede crescente de capilares vermelhos. Paramos a¬†entrevista.

O assassinato do irm√£o operou uma mudan√ßa em Maha. Antes, ela estava mais preocupada em conscientizar as pessoas para o problema dos ap√°tridas. Agora, quer se tornar cidad√£ brasileira o mais r√°pido poss√≠vel. Pelo ritmo normal, demoraria entre oito e 15 anos, o que ela n√£o considera mais um op√ß√£o. ‚ÄúN√£o quero mais estar numa pris√£o. Eddie morreu sem realizar os sonhos dele, sem ver meus pais novamente, sem ter uma fam√≠lia, sem poder viajar, sem ser livre. Eu preciso achar outra solu√ß√£o e pressionar para a cria√ß√£o de uma lei que permita aos ap√°tridas receberem a nacionalidade.‚ÄĚ

Maha pagou a conta na sorveteria. Mais tarde, acompanhados por Guilherme, fomos jantar na La Bella Pizzaria, um rod√≠zio de pizza. Ela chamava os gar√ßons de ‚Äúhabibi‚ÄĚ ‚Äď querido, em √°rabe ‚Äď e ela n√£o conseguia entender¬†porque colocavam queijo na pizza de abacaxi. Acabou a refei√ß√£o¬†com uma fatia de chocolate branco.

Ficamos caminhando pela cidade, enquanto esper√°vamos pelo √īnibus da meia-noite. Embarcamos, e cada um se sentou em uma¬†fileira diferente. Maha foi direto para a janela sem ningu√©m ao lado dela. Cerca de 40 minutos depois, paramos em Araraquara onde mais pessoas subiram. Um rapaz¬†de √≥culos parou ao lado dela. N√£o a cumprimentou e disse: ‚ÄúA janela √© minha!‚ÄĚ, com um tom de garoto mimado. Eu queria me levantar e dizer pra ele tudo o que ela j√° tinha passado para conseguir sentar naquela janela e poder gozar do prazer de viajar. Dos documentos, do irm√£o, da S√≠ria, do L√≠bano. Mas n√£o falei nada. Maha foi para o assento do corredor, mexeu um pouco no celular e depois dormiu at√© chegar em S√£o Paulo. Ela s√≥¬†queria sentir que estava viajando.

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Escravid√£o moderna

No in√≠cio era somente uma mensagem curta, um tanto enigm√°tica, que parecia ter sa√≠do de um arquivo do s√©culo 19 e parado ali por engano. Em 15 de fevereiro de 2014, a Folha de S√£o Paulo publicou uma mat√©ria sobre dois bolivianos que, rec√©m-chegados √† maioridade, seriam vendidos como escravos numa feira livre de S√£o Paulo na tarde de segunda. De acordo com testemunhas, os dois rapazes foram oferecidos pelo dono de uma oficina de costura aos transeuntes. Durante¬†o processo as negocia√ß√Ķes esquentaram por diverg√™ncias¬†sobre o pre√ßo, j√° que o propriet√°rio da oficina, tamb√©m boliviano, insistia no valor de US$ 500 por cabe√ßa. A situa√ß√£o ficou ainda mais tensa, pois moradores da regi√£o indignados tentaram libertar os dois jovens.

Ao lado da mat√©ria¬†havia ainda uma s√©rie de informa√ß√Ķes, da qual se extra√≠am alguns n√ļmeros. As autoridades estimam que somente na regi√£o de S√£o Paulo vivem em torno de 300 mil bolivianos, sendo prov√°vel que a maioria, assim como os dois jovens, trabalha ilegalmente em pequenas oficinas de costura. As informa√ß√Ķes s√£o de que nos √ļltimos anos investigadores de uma unidade especial resgataram da condi√ß√£o an√°loga √† escravid√£o v√°rias centenas destes trabalhadores, empregados de fornecedores de grandes marcas da moda como Zara e Gap.

Era como se, naquela tarde, uma cortina tivesse se aberto por um breve período de tempo. Algo que acontece apenas às escondidas, em garagens cheias de mofo ou em oficinas de fundo de quintal, inesperadamente ocorreu diante de todos, no meio da rua.

Em seguida, a cortina se fechou novamente.

Uma semana ap√≥s o incidente, os dois bolivianos mergulharam no anonimato do qual tinham sa√≠do. O que permaneceu foram perguntas. Como √© poss√≠vel que, hoje, 127 anos depois da escravid√£o ser proibida no Brasil, no meio de um centro econ√īmico-financeiro como S√£o Paulo, dois jovens rapazes serem negociados como se fossem cabe√ßas de gado? O que se passa com este mundo bruto, medieval, que aparentemente reside no ponto cego da modernidade? Funciona de acordo com que regras?

A Organiza√ß√£o Internacional do Trabalho (OIT) estima que 20 milh√Ķes de pessoas em todo o mundo est√£o submetidas a condi√ß√Ķes an√°logas √† escravid√£o. Elas trabalham em f√°bricas de tijolos indianas, em minas chinesas e em bord√©is tailandeses. Costuram, cuidam dos campos ou constroem est√°dios para a Copa do Mundo de futebol no Catar. A funda√ß√£o australiana Walk Free, que anualmente publica um √≠ndice de escravid√£o global, prop√īs em seu relat√≥rio de 2013 a cifra de 36 milh√Ķes de escravos modernos ‚Äď al√©m do trabalho for√ßado eles tamb√©m contabilizaram casos de casamentos for√ßados e de escravid√£o por d√≠vida. ‚ÄúOs grilh√Ķes da escravid√£o moderna‚ÄĚ, escrevem os autores, ‚Äúraramente s√£o de natureza f√≠sica‚ÄĚ. Hoje existem maneiras mais sutis de submeter as pessoas ‚Äď d√≠vidas, isolamento e amea√ßas. Da mesma forma, dificilmente se herda essa condi√ß√£o pelo nascimento, como era no passado. Hoje √© principalmente por meio de falsas promessas que elas s√£o atra√≠das a lugares indignos e √© por isso tamb√©m que a escravid√£o moderna √© um crime dif√≠cil de compreender ‚Äď com frequ√™ncia parece que as pessoas agiram por vontade pr√≥pria.

Al√©m disso, embora em quase todos os pa√≠ses as leis pro√≠bam a escravid√£o contempor√Ęnea, somente os casos menores chegam ao judici√°rio. A comprova√ß√£o √© dif√≠cil n√£o s√≥ em raz√£o da frequente escassez de evid√™ncias. Muitas vezes s√£o as pr√≥prias v√≠timas que permanecem em sil√™ncio, seja por um sentimento de culpa ou por receio de vingan√ßa do contratante. Em outros casos, os governos travam as investiga√ß√Ķes, pois atrair muita aten√ß√£o poderia ter um efeito dissuasivo para a economia do pa√≠s.

√Č bem poss√≠vel que essa tenha sido uma das raz√Ķes pelas quais o consulado boliviano em S√£o Paulo, que na semana seguinte √† da venda mal-sucedida providenciou uma silenciosa viagem de volta √† terra natal para os jovens, deixou de responder v√°rios questionamentos. Uma equipe de fiscaliza√ß√£o do Minist√©rio do Trabalho, que na sequ√™ncia procurou elucidar os acontecimentos, solicitou, em v√£o, a coopera√ß√£o do consulado. Como alguns meses depois a fiscaliza√ß√£o obteve uma compensa√ß√£o financeira para os rapazes no valor de US$ 6 mil a ser paga pelo ex-empregador, foi necess√°ria a ajuda de um padre para enviar-lhes o dinheiro. O padre, que recebeu ambos em seu abrigo para refugiados at√© que viajassem, era o √ļnico que ainda mantinha contato com eles.

Esta é a primeira coisa que se nota nesta história estranha e cheia de reviravoltas inesperadas: qualquer pessoa que estiver à procura de Ismael e Juan Carlos precisa ter paciência.

Ismael

Era uma tarde do m√™s de julho. Ismael havia proposto a Pra√ßa 25 de Maio no centro de Sucre como ponto de encontro, em um banco pr√≥ximo √† fonte. “Dane-se o recrutador”, disse ele no primeiro telefonema, “eu n√£o tenho medo”. Mas de repente ele cancelou, alegando que seu novo chefe o havia mandado para um √īnibus noturno rumo ao sul. Ismael subitamente sugeriu pegar uma carona com ele, por√©m acabou voltando ao plano original. Pra√ßa 25 de Maio ent√£o, no banco perto da fonte.

Prédios coloniais brancos contornavam a praça. Meninas gordinhas com tranças grossas no cabelo, talvez com 8 ou 9 anos de idade, corriam de banco em banco. Jornaleiros, de uns 12 anos no máximo, bradavam as manchetes de seus jornais através do rarefeito ar andino, enquanto outros simplesmente mantinham as mãos estiradas, a fim de angariar algumas moedas.

Ismael aparentava estar um pouco sem f√īlego quando finalmente apareceu na pra√ßa; um adolescente pequeno, magro, com o rosto marcado pelas cicatrizes de algu√©m que viveu muito tempo na rua desde muito cedo. Ele se senta no banco e me encara com olhos cerrados e desconfiados.

Est√° vestindo uma camiseta nova com o escudo da Ferrari; seus t√™nis s√£o da Nike. Tem o mesmo corte de cabelo do Neymar e os bra√ßos cobertos por longas e apertadas luvas que se parecem com tatuagens ‚Äď ele diz que s√£o para proteger a pele contra o sol. Em sua m√£o esquerda ele tatuou um cora√ß√£o contendo as palavras “eu e voc√™”, sendo o “voc√™”, conforme explicou, sua namorada Belinda, de 17 anos, m√£e de seu filho Ad√°n, que completara 4 anos na √ļltima semana.

Ismael, nota-se logo, não é uma pessoa muito falante. Ele tem esse jeito monossilábico, meio apreensivo, peculiar a muitos jovens, quando sentem que podem estar sendo imprudentes ou fazendo alguma coisa errada.

‚ÄúDesculpa‚ÄĚ, diz Ismael, ‚Äúmas eu realmente n√£o tenho muito tempo. Faz pouco tempo que sou ajudante no √īnibus noturno e meu novo chefe pressiona bastante. Se voc√™ quiser, venha comigo e conversamos pelo caminho. Caso contr√°rio, volto em dois dias‚ÄĚ.

E o Juan Carlos? Ele est√° pela cidade?

‚ÄúEle j√° foi embora. Est√° na Argentina com o pai dele. Trabalham em constru√ß√Ķes em Buenos Aires.‚ÄĚ

Ismael. Crédito: Eudes de Santana
Juan Carlos. Crédito: Eudes de Santana

Ismael contou que Juan Carlos ficou sumido durante semanas e que depois de tudo por que tinham passado no Brasil, ele fica muito preocupado com seu ‚Äúirm√£ozinho gordo‚ÄĚ, como ele o chama. Os dois cresceram no mesmo bairro, nas √°speras encostas acima de Sucre. Eles jogaram futebol nos mesmos descampados e frequentaram a mesma escola, a qual abandonaram mais ou menos na mesma √©poca, Ismael com 13 anos e Juan Carlos com 11.

Seus pais, disse ele, queriam que eles ganhassem dinheiro para aliviar as finanças familiares. Não tinha como ser diferente. Seu pai frequentou a escola por tão pouco tempo que mal aprendeu a ler corretamente. Ainda quando criança fora trabalhar carregando pedras nos canteiros de obras de Sucre. Quando suas costas não aguentavam mais o peso, ele pegou um empréstimo e comprou uma pilha de tapetes e cobertores. Há sete anos, seu pai senta-se todos os dias numa pequena cabana no Mercado Campesino. Nos dias bons, diz Ismael, ele vende dois cobertores.

Ismael trilhou os passos de seu pai. Ao amanhecer ele e Juan Carlos sa√≠am e visitavam os canteiros de obras de Sucre. Quando precisavam, ele carregava pedras pelos andaimes ou misturava cimento. Quando Juan Carlos, um ano mais tarde, foi enviado por sua m√£e ao Chile por alguns meses para ajudar na oficina de costura de uns conhecidos, Ismael partiu para Santa Cruz. Fatiou frangos na cozinha de um restaurante chin√™s e, em seguida, mudou-se para La Paz, onde costurou roupas tradicionais numa alfaiataria. Ent√£o, novamente Sucre, canteiros de obras, dias sem dinheiro, uma inf√Ęncia sem prop√≥sito. Uma vida cujo horizonte era o dia seguinte.

A Bol√≠via √© o pa√≠s mais pobre da Am√©rica do Sul. Mais da metade da popula√ß√£o vive com menos de um d√≥lar por dia. O pr√≥prio presidente Evo Morales trabalhou nas planta√ß√Ķes de coca quando jovem. Mais tarde, foi cortador de cana na Argentina. Ismael conhece a hist√≥ria. Ele aprendeu com ela que, ao fim de um longo caminho, com alguma sorte as portas de um pal√°cio podem se abrir.

Como seria ir para o Brasil?, perguntavam-se √†s vezes Ismael e Juan Carlos, enquanto estavam sentados no meio-fio por a√≠. Um lugar onde se ganhava em um m√™s o que na Bol√≠via levaria um ano inteiro. Imagina s√≥: trabalhar um pouco e guardar dinheiro para ter um t√°xi. Construir uma casa para Belinda e Ad√°n. ‚ÄúSonh√°vamos acordados‚ÄĚ, conta Ismael. ‚ÄúN√≥s n√£o t√≠nhamos dinheiro nem mesmo para sair daqui.‚ÄĚ Ent√£o chega a hora dele ir. “√Äs seis”, ele diz. ‚ÄúNo terminal. A linha em que eu trabalho se chama 6 de Octubre.‚ÄĚ

Como a maioria dos √īnibus que ali aguardam seus passageiros na madrugada, o de Ismael tamb√©m √© uma geringon√ßa velha e enferrujada. Colado no para-brisa, um adesivo da Virgem Maria ao lado de uma foto de uma mulher nua. Enquanto Ismael desinfeta os assentos com um spray, os passageiros se re√ļnem no port√£o. Crian√ßas perambulam no entorno vendendo cobertores. Quando todos j√° embarcaram, Ismael coloca um filme de Kung Fu no aparelho de DVD e se coloca ao lado do banco do motorista.

‚ÄúVoc√™ viu a garota na fileira 26?‚ÄĚ, diz o motorista, que ainda estala a l√≠ngua. O rosto de Ismael esbo√ßa um breve sorriso.

O √īnibus passa¬†por uma estrada local¬†em dire√ß√£o √† paisagem lunar sem vegeta√ß√£o dos Andes. Ele roda¬†por¬†vilas escuras, iluminadas somente pelos monitores dos cibercaf√©s. Novamente escurid√£o e muitas curvas. Os far√≥is dianteiros iluminam as barreiras de seguran√ßa da estrada, atr√°s dos quais se abrem profundos vales nos quais durante o dia se pode ver os destro√ßos queimados de √īnibus que ca√≠ram. Ismael gosta de trabalhar no √īnibus. √Č mais seguro do que qualquer coisa j√° fez at√© ent√£o, diz ele. O itiner√°rio lhe d√° paz. A sensa√ß√£o de n√£o estar parado.

Ele já não precisa implorar para que alguém lhe dê um trabalho, como no dia em que o recrutador falou com ele, em janeiro de 2014. Ismael conta que ele estava frustrado, pois ninguém mais precisava dele nas obras. Ele foi até seu pai no mercado e emprestou algumas moedas para comer alguma coisa em um restaurante popular quando de repente uma mulher se aproximou. Ela perguntou se poderia se sentar ao lado dele.

Ismael assentiu com a cabe√ßa. Era meio-dia, as outras mesas estavam cheias. “Ela era alta e tinha por volta de 40 anos”, falou. “Ela mexeu em seu caldo de galinha e me mediu de canto de olho por algum tempo. Ent√£o perguntou: voc√™ j√° se imaginou trabalhando no Brasil?”

Ismael olhou diretamente para ela.

“O que eu ganho com isso?”, respondeu.

“Quinhentos por m√™s”, replicou a mulher. “Em d√≥lares.”

“Quinhentos! No duro?”

Era mais do que ele jamais havia imaginado.

A oficina, disse ela, pertencia a um tio em S√£o Paulo. O neg√≥cio estava indo t√£o bem que estavam em busca de m√£o-de-obra. O turno iniciaria √†s 8 horas da manh√£ e terminaria √†s 5 horas da tarde. “Pense nisso”, disse ela. “Um √īnibus com um futuro colega seu sai hoje √† noite.”

Estrelas cadentes ca√≠am no c√©u. Ismael alcan√ßa as folhas de coca do motorista, que previnem a fadiga. Vez ou outra ele salta do √īnibus para pagar o ped√°gio.

O √īnibus em que Ismael agora trabalha. Cr√©dito: Eudes de Santana
O √īnibus em que Ismael agora trabalha. Cr√©dito: Eudes de Santana

[olho]‚ÄúA ida de √īnibus, a volta no pr√≥prio Toyota‚ÄĚ, sorriu Ismael[/olho]

“Eu sei que isso soa ing√™nuo”, diz. “Mas eu n√£o duvidei nem por um segundo.” Ainda do mercado ele telefonou para Juan Carlos, que assim como ele s√≥ pensava no dinheiro. A seguir, foi para casa pegar algumas coisas. Ismael entrou em seu quarto, que n√£o tinha portas ou janelas, e enfiou algumas roupas na mochila. Aproximou-se da cama e levantou o travesseiro, sob o qual mantinha tudo que tinha algum valor num saco pl√°stico. Sua identidade, um pente, uma foto dele com Belinda em frente a um canteiro de flores no parque.

‚ÄúN√£o precisa chorar‚ÄĚ, disse Ismael enquanto abra√ßava em despedida sua irm√£ Sandra, a √ļnica que estava em casa. ‚ÄúEsta √© a minha grande chance‚ÄĚ.

Então ele partiu para a rodoviária, onde Juan Carlos já o esperava. A mulher do mercado apareceu e comprou-lhes passagens para o Paraguai. O terceiro trabalhador, um homem chamado René, deveria subir em Santa Cruz.

Assim, eles se foram. Um pa√≠s que eles nem sequer imaginavam que se falava outra l√≠ngua. Nenhum de seus professores havia mencionado que no Brasil se usava outra moeda, ou talvez at√© tenham dito, mas eles n√£o prestaram aten√ß√£o. ‚ÄúA ida de √īnibus, a volta no pr√≥prio Toyota‚ÄĚ, sorriu Ismael empolgadamente. Ambos riram. O sentimento era de aventura.

As colinas de Sucre, terra de Ismael e Juan Carlos. Crédito: Eudes de Santana
As colinas de Sucre, terra de Ismael e Juan Carlos. Crédito: Eudes de Santana

Bignami

Agora eles faziam parte de um grande movimento migrat√≥rio, um sobre o qual n√£o se sabe muito. Pessoas da Bol√≠via, do Peru e do Paraguai espalham-se por toda a Am√©rica do Sul. Circulam num zigue-zague pelos Andes, sempre atra√≠das por empresas no Brasil, onde se tornou mais complicado devido ao milagre econ√īmico do in√≠cio do mil√™nio¬†encontrar m√£o-de-obra local disposta a fazer o “trabalho sujo” por uma ninharia, especialmente no setor t√™xtil. Desde que o Brasil, em meados da d√©cada de 90, sob press√£o do Fundo Monet√°rio Internacional, abriu seus mercados para mercadorias estrangeiras, os produtores nacionais concorrem com produtores de baixo custo como os de Bangladesh e da China. A fim de reduzir custos, muitas empresas terceirizaram sua produ√ß√£o para pequenos fornecedores. A grave recess√£o que o Brasil enfrenta no momento fez com que a press√£o se tornasse ainda maior.

Somente em S√£o Paulo existem hoje cerca de 8 mil oficinas, mas ‚Äúse apertarmos o cerco‚ÄĚ, diz Renato Bignami, ‚Äúaparecer√° o dobro em outro lugar‚ÄĚ.

Bignami, um inteligente advogado de 43 anos, lidera a pequena unidade especial que investiga os casos de escravid√£o contempor√Ęnea para o Minist√©rio do Trabalho em S√£o Paulo. Seu escrit√≥rio localiza-se no oitavo andar de um edif√≠cio comercial. Pisos de lin√≥leo, luzes de neon. Bignami diz escolher casos que ter√£o grande impacto, como no caso da grife de roupas Zara: em 2011 foram resgatados 56 bolivianos de dois fornecedores que produziam blusas para a cole√ß√£o de primavera da marca.

A Zara foi o maior √™xito de Bignami. Os trabalhadores eram for√ßados a cumprir turnos de at√© 14 horas. V√°rios quartos sem ventila√ß√£o. O local trancado o tempo todo. Dos US$ 65 que a Zara cobrava em suas boutiques por uma blusa, US$ 4 iam para o fornecedor e US$ 1 para cada trabalhador. ‚ÄúEspetacular, mas nada incomum‚ÄĚ, diz Bignami, que manteve algumas pe√ßas no arm√°rio.

Em 2011 o controlador da Zara, o grupo Inditex, foi condenado a pagar uma multa no valor de US$ 1,4 milh√£o. Ao mesmo tempo, o grupo assinou¬†um termo de ajustamento de conduta se obrigando a garantir melhores condi√ß√Ķes de trabalho entre seus fornecedores. Pelo descumprimento do acordo, o Minist√©rio do Trabalho brasileiro aplicou uma nova multa em 2015 no montante aproximado de US$ 300 mil.¬†A Inditex¬†entrou com¬†recurso.

Dezenas de milhares de pessoas por todo o pa√≠s t√™m se unido e cooperado com a pol√≠cia nos √ļltimos anos, que resgatou de condi√ß√Ķes desumanas, de oficinas e frigor√≠ficos, de canteiros de obras e planta√ß√Ķes de cana ‚Äď africanos, haitianos, paraguaios, e especialmente bolivianos, frisa¬†Bignami.

‚ÄúO caso do Ismael e do Juan Carlos‚ÄĚ, continua, ‚Äúapenas nos abriu os olhos para a ponta de um enorme iceberg. Um exemplo fant√°stico que re√ļne muitas coisas: tr√°fico de pessoas, trabalho for√ßado e escravid√£o por d√≠vida. E por tr√°s de tudo isso uma pot√™ncia do mercado da moda!”.

Bignami abre uma pasta e retira um relat√≥rio que ele teve acesso ap√≥s a conclus√£o das investiga√ß√Ķes do Minist√©rio P√ļblico. Ele acredita que o fato do √īnibus em Sucre ter partido na mesma noite n√£o √© coincid√™ncia. Ismael e Juan Carlos n√£o deveriam ter tempo h√°bil para desconfiar. Al√©m disso, diz ele, faz parte da estrat√©gia do recrutador abordar propositalmente pessoas que n√£o t√™m como bancar a viagem at√© o local de trabalho.

Numa caderneta que chegou √†s m√£o de Bignami durante uma opera√ß√£o policial, o dono da pequena oficina, um homem chamado Serapio Maigua, detalha com uma caligrafia simples todos os custos de viagem em que incorreu. A soma total chega aos mil d√≥lares. Isso inclu√≠a as passagens de √īnibus, dois refrigerantes, duas refei√ß√Ķes e uma “ajuda de custo” de US$ 800 a uma mulher que deveria assegurar que a pol√≠cia na fronteira n√£o fizesse muitas perguntas. Segundo Bignami, em seu interrogat√≥rio Maigua esclareceu¬†como tudo era feito.

Ele se inclina para tr√°s.

“Mil d√≥lares”, diz ele. “N√£o √© muita coisa.”

Crédito: Eudes de Santana
Crédito: Eudes de Santana

Foi o dinheiro que Maigua adiantou. Ismael e Juan Carlos aceitaram, pois acreditavam que n√£o levaria muito tempo at√© que pudessem quitar¬†a d√≠vida. Mal sabiam que tinham ca√≠do numa armadilha. “Com estas d√≠vidas, correntes invis√≠veis os prenderam a Maigua”, explica Bignami.

A ideia é simples: quem deve para o empregador não pode simplesmente ir embora quando se cumpre turnos de 14 horas diárias. Quem tem dívidas dificilmente reage mal quando lhe dizem que o pagamento será menor do que o combinado. De acordo com Bignami, a dívida é o padrão que se repete em praticamente todos os casos. Sem isso, tudo o que se segue seria inconcebível.

A escravid√£o por d√≠vida √© um dos crit√©rios para classificar um caso espec√≠fico como escravid√£o contempor√Ęnea. O trabalho for√ßado √© outro, sendo que o constrangimento pode ser praticado de diversas formas. Diferentemente do caso de Ismael e Juan Carlos, que prescindia de port√Ķes trancados. A oficina em que se encontravam ficava em Cabre√ļva, um buraco no interior de S√£o Paulo.

Um lugar do qual é difícil fugir com uma mão na frente e outra atrás.

De acordo com Bignami, fala-se em condi√ß√Ķes an√°logas √† de escravo quando as condi√ß√Ķes materiais no local de trabalho atentam contra a dignidade humana; quando, por exemplo, falta √°gua pot√°vel, n√£o h√° banheiro e cabos el√©tricos ficam expostos podendo causar um curto-circuito. Vale ressaltar ainda que a legisla√ß√£o brasileira prev√™ uma jornada de trabalho m√°xima de 44 horas semanais e um sal√°rio m√≠nimo mensal de R$ 880. Teoricamente, ele acrescenta, o empregador j√° se torna pass√≠vel de puni√ß√£o se violar qualquer um dos crit√©rios. O caso de Maigua era t√£o grave que violava todos.

Ismael

‚ÄúDesde o in√≠cio ele foi um cara estranhamente desagrad√°vel‚ÄĚ, afirma Ismael. ‚ÄúEle nos buscou com seu carro em S√£o Paulo, mas durante todo o caminho para Cabre√ļva n√£o nos dirigiu uma s√≥ palavra.‚ÄĚ

Ismael est√° sentado num banco n√£o muito longe da rodovi√°ria, na cidade de Tarija, no sul da Bol√≠via. Depois da chegada, ele lavou as cortinas do √īnibus em um rio e agora aguardava pela volta √† cidade de Sucre. ‚ÄúEu acho que ele poderia pelo menos ter perguntado como foi a viagem‚ÄĚ, diz Ismael.

Eles viajaram por quase uma semana. Maigua escolheu fazer um desvio pelo Paraguai, porque, atualmente, a fronteira entre o Brasil e a Bolívia está sendo monitorada com mais rigor.

‚ÄúQuanto n√≥s vamos ganhar?‚ÄĚ, perguntou Ismael no carro.

‚ÄúSobre isso n√≥s falamos depois‚ÄĚ, disse Maigua.

A viagem durou cerca de uma hora e meia, at√© que, em Cabre√ļva, eles entraram em uma rua secund√°ria. Maigua estacionou o carro em frente a um sobrado de esquina, cujos muros estavam cobertos por graffitis. Atr√°s das persianas azuis abaixadas, encontrava-se, no andar t√©rreo, a oficina. De suas m√°quinas de costura, uma d√ļzia de jovens rostos bolivianos olharam para eles.

[olho]‚ÄúEu sei, tudo cheirava a arma√ß√£o.¬†Mas o que a gente poderia ter feito? Fugir? Pra onde?‚ÄĚ[/olho]

Maigua conduziu ambos, assim conta Ismael, para o seu quarto no primeiro andar, onde eles colocaram suas mochilas. Depois ele ordenou que eles fossem para uma mesa na oficina, onde começaram logo a cortar com uma tesoura as linhas em excesso dos uniformes prontos, que Maigua produzia para uma empresa chamada Atmosfera. Em seu site, a própria Atmosfera se identifica como líder em locação, higienização e conserto de uniformes. A empresa atua nos segmentos hospitalar, industrial e de hotelaria. Desde 2011 faz parte do grupo multinacional Elis, cujos 180 mil funcionários no mundo todo, incluindo Alemanha e na Suíça, produziram US$ 1,3 bilhão.

Nada disso tinha import√Ęncia para Ismael. Tudo o que lhe interessava era o sal√°rio. ‚ÄúE os US$ 500 prometidos?‚ÄĚ, perguntou ele novamente em uma noite. Maigua, por√©m, esquivou-se. ‚ÄúVoc√™s precisam entender‚ÄĚ, disse ele. ‚ÄúEu tive despesas por causa de voc√™s, a viagem, a passagem da fronteira. Primeiro voc√™s me pagam com trabalho e depois a gente v√™ o resto.‚ÄĚ Para que pudessem comprar algo para comer, Maigua lhes arranjava R$ 50. Isso ele tamb√©m anotava meticulosamente em sua caderneta.

‚ÄúEu sei, tudo cheirava a arma√ß√£o‚ÄĚ, diz Ismael. ‚ÄúMas o que a gente poderia ter feito? Fugir? Pra onde?‚ÄĚ

De certa maneira, eles estavam presos. Ismael pedia emprestado um telefone para ligar para sua irm√£ Sandra. N√£o precisa se preocupar, dizia ele, est√° tudo bem. Todas as manh√£s, √†s 7 horas, eles iam para a oficina, depois cortavam linhas, dobravam uniformes, e os empilhavam no porta-malas do carro de Maigua. Fixada no teto da oficina, diz Ismael, havia uma c√Ęmera de vigil√Ęncia. Quando Maigua achava que eles estavam muito lentos, gritava com eles. Suspendia o hor√°rio de almo√ßo. Parecia que, nesses dias, ele estava sob forte press√£o. A caderneta de Maigua estava repleta de anota√ß√Ķes. ‚ÄúS√≥ Deus est√° conosco‚ÄĚ, rabiscou ele certa vez na margem de uma folha.

À noite, depois de um turno de 12 ou 14 horas de trabalho, Ismael e Juan Carlos se sentavam na cozinha com seus colegas. Eles bebiam cachaça barata e descobriram que ninguém ganhava mais do que US$ 200. Só uma pessoa, um gordão, chegou a US$ 500, diz Ismael, mas ele era sobrinho de Maigua.

Numa dessas noites o celular do sobrinho de Maigua desapareceu e reapareceu apenas na manhã seguinte quando o encontraram na mochila de Ismael. Ele diz não fazer a menor ideia de como o celular foi parar lá e que o devolveu imediatamente, mas o sobrinho de Maigua o ameaçou. A partir desse dia todos passaram a evitá-lo. Durante o dia, na oficina, ninguém mais trocou uma palavra com ele. Maigua, que logo ficou sabendo do acontecido, fazia ainda mais pressão. Alguns dias depois, quando o adiantamento que tinham recebido acabou, eles pediram um adicional. Maigua simplesmente disse que eles deveriam ter planejado melhor as despesas. Eles também passavam fome, pois os outros se negavam a dividir a comida com eles.

‚ÄúCerto dia‚ÄĚ, diz Ismael, ‚Äún√≥s simplesmente decidimos ir embora‚ÄĚ.

Numa segunda-feira pela manh√£, depois de quase tr√™s semanas em Cabre√ļva, eles n√£o apareceram na oficina. Arrumaram suas mochilas e foram em dire√ß√£o √† rua principal, onde, num ponto, esperavam que algum √īnibus passasse. Pouco tempo depois, subitamente, Maigua apareceu diante deles.

‚ÄúAonde voc√™s v√£o?‚ÄĚ, perguntou ele.

Ismael e Juan Carlos disseram que queriam voltar para São Paulo, e lá iriam procurar por algo diferente. De repente, descreve Ismael, Maigua se tornou gentil. Tudo bem, falou. Ele disse conhecer um bairro lá, onde existiam muitos bolivianos, que ficava a poucas horas dali. Ele disse que poderia levá-los até lá.

A rua Coimbra, no Brás, onde Ismael e Juan Carlos foram colocados à venda. Crédito: Eudes de Santana
A rua Coimbra, no Brás, onde Ismael e Juan Carlos foram colocados à venda. Crédito: Eudes de Santana

O Br√°s, uma regi√£o ao norte do centro de S√£o Paulo, sempre foi um local de imigrantes. Em meados do s√©culo passado as fam√≠lias vindas da It√°lia negociavam seu caf√©. Mais tarde chegaram comerciantes de tecidos vindos do L√≠bano¬†‚Ästem suas¬†oficinas de costura, os coreanos se encarregavam dos trabalhos mais f√°ceis. Quando os libaneses se mudaram para bairros melhores, os coreanos assumiram essas lojas. Eles contrataram, ent√£o, bolivianos, que hoje, ap√≥s duas gera√ß√Ķes, ascenderam a propriet√°rios.

No centro do Br√°s existe a rua Coimbra, uma estreita rua, na qual os comerciantes ambulantes oferecem suas mercadorias em espanhol. Nos postes de luz √© poss√≠vel ver um emaranhado de fios, parecendo ninhos, que levam energia √†s oficinas instaladas nos pisos superiores. No com√©rcio local, no piso t√©rreo, pode-se comprar m√°quinas de costura. Existem filiais da Western Union e restaurantes bolivianos, que trazem at√© mesmo viagens de √īnibus em seus card√°pios. A rua Coimbra se assemelha um pouco ao Mercado Campesino, onde tudo come√ßou.

Maigua estacionou seu carro próximo à calçada. Segundo Ismael, suas mochilas com seus passaportes foram colocadas no porta-malas do carro. Alguns minutos depois eles estavam em frente a um salão de beleza. Viram como Maigua se afastou alguns metros deles para conversar com outros homens. Às vezes eles olhavam para os dois, como se os examinassem. Palavras soltas no ar, que nesse momento eles ainda não sabiam o que significavam.

‚ÄúQuinhentos‚ÄĚ, gritou um dos homens.

‚ÄúMuito pouco‚ÄĚ, gritou Maigua.

“Setecentos!”

O que est√° havendo aqui? perguntava-se Ismael. Eles ficaram l√° parados cerca de meia hora, sem que nada se passasse. Ent√£o, veio at√© eles uma mulher que estava passando pela rua. ‚ÄúTenham cuidado‚ÄĚ, murmurou ela, ‚Äúeles est√£o negociando o pre√ßo de voc√™s!‚ÄĚ A todo momento, ela disse, a gente fica sabendo sobre trabalhadores que ficaram doentes e que foram levados para a floresta, em vez de um m√©dico. Sempre saem not√≠cias nos jornais sobre homens cujos cad√°veres s√£o encontrados em valetas, sem os rins, que s√£o vendidos no mercado ilegal de √≥rg√£os. Ismael e Juan Carlos se olharam. Seu irm√£o menor estremeceu.

‚ÄúTenha calma‚ÄĚ, sussurrou Ismael, que nunca em sua vida tinha sentido tanto medo. At√© aquele momento ele pensava que eles¬†podiam vender cobertores de algod√£o. Mas uma pessoa? Algu√©m como ele?

Antonio Andrade

Eram quase cinco e meia quando o celular de Antonio Andrade tocou. Na linha, estava Jorge Mer√ļvia, amigo de Andrade, que h√° muito tempo comandava um restaurante na rua Coimbra. ‚ÄúVoc√™ n√£o vai acreditar, Andrade‚ÄĚ, falou Mer√ļvia. ‚ÄúTem um cara rondando por aqui e perguntando para as pessoas se elas n√£o precisam de dois trabalhadores. Eu chamei a pol√≠cia. Vem pra c√°!‚ÄĚ

Não existem muitas pessoas em São Paulo que conhecem o dia a dia da comunidade boliviana melhor do que Antonio Andrade, que há mais de 20 anos veio de Sucre para o Brasil por meio de uma bolsa de estudos. Andrade, um tipo de muitos amigos, cabelos escuros compridos, estudou design de comunicação. Hoje administra um site que informa sobre a comunidade dos bolivianos em São Paulo. Andrade mesmo se define como um híbrido, meio jornalista, meio ativista. Ele quer informar, mas ao mesmo tempo trata-se de ultrapassar as barreiras que separam os bolivianos da sociedade brasileira.

Foi Andrade quem providenciou uma cama para Ismael e Juan Carlos em um abrigo para imigrantes de uma igreja. ‚ÄúEles estavam totalmente acabados‚ÄĚ, conta,¬†numa manh√£ de agosto do ano passado em seu pequeno escrit√≥rio. Na delegacia, trancaram os dois numa cela, enquanto Maigua tentava negociar algo com os policiais. ‚ÄúComo se fossem eles os criminosos!‚ÄĚ, conta Andrade.

Ele diz que pensou por um momento em traz√™-los consigo para casa, mas depois pensou que n√£o seria conveniente. Andrade tem tr√™s filhas, a mais nova acabara de fazer 9 anos e a mais velha tem 15. Segundo ele, ‚Äúeles n√£o s√£o meninos f√°ceis‚ÄĚ. Nos dias que se seguiram, ele fez uma esp√©cie de pequena entrevista com eles. Foi a√≠ que ele notou as cicatrizes no antebra√ßo de Ismael.

‚ÄúEu perguntei: ‘o que voc√™ tem a√≠?’ Ele respondeu: ‘nada, por qu√™?’ Ent√£o, eu insisti: ‘n√£o tente me esconder nada, eu mesmo usei droga. E as suas tatuagens? Malfeitas assim, as pessoas s√≥ fazem na pris√£o.’‚ÄĚ

Andrade sorriu ironicamente quando ele soube que Ismael usava luvas de couro em Sucre.

‚ÄúAh, claro‚ÄĚ, disse ele. ‚ÄúPor causa do sol.‚ÄĚ

Como Andrade preferia se informar¬†por si mesmo¬†sobre Ismael e Juan Carlos, por volta do meio-dia ele resolveu ir √† Cabre√ļva. Ele queria ver se Maigua falaria com ele.

O problema, afirma ele, √© a falta de conhecimento das pessoas. Elas n√£o fazem ideia que os trabalhadores escravos que se dirigem √†s autoridades recebem do Estado uma autoriza√ß√£o de resid√™ncia. Que lhes cabe como forma de compensa√ß√£o pela injusti√ßa sofrida, direito a cuidados m√©dicos, subs√≠dio para aluguel e um sal√°rio m√≠nimo. Ningu√©m diz isso a eles. Quando um patr√£o ouve que algu√©m quer fugir da ilegalidade, eles come√ßam a amea√ßar a pessoa. Pense nas suas d√≠vidas! Na sua fam√≠lia. Andrade relata que quase todos se conformam. Talvez por medo ou por ignor√Ęncia ou at√© mesmo porque o seu sal√°rio miser√°vel ainda √© melhor do que o que eles ganhariam em seu pa√≠s.

Antonio Andrade. Crédito: Eudes de Santana
Antonio Andrade. Crédito: Eudes de Santana

Maigua

Depois de duas horas, Andrade estacionou seu carro em frente à oficina de costura. Ele desceu do carro e olhou pela porta entreaberta. Um homem veio até ele, talvez 30 anos, pequeno e robusto, de bermuda e chinelos.

‚ÄúSe√Īor Maigua‚ÄĚ, perguntou Andrade.

‚ÄúO que voc√™ quer?‚ÄĚ

“Queria saber se podemos conversar um pouco? Sobre a quest√£o dos dois trabalhadores.”

Maigua veio para fora hesitante.

‚ÄúMas eu j√° disse tudo‚ÄĚ, respondeu ele. Andrade, por√©m, insistiu. Por fim, Maigua consentiu.

L√° dentro da oficina, ouve-se o zumbido das m√°quinas. Uma d√ļzia de trabalhadores com m√°scaras do tipo cir√ļrgicas fogem ao olhar do estranho. Maigua sobe a escada estreita. No primeiro andar ele fecha a porta da cozinha. Em um canto, sobre o fog√£o, est√£o panelas que parecem que n√£o s√£o lavadas h√° semanas. ‚Äú√Äs vezes eu tenho a impress√£o que eu tenho 15 crian√ßas pequenas, que s√≥ me d√£o preocupa√ß√£o‚ÄĚ,¬†disse ele.

[olho]‚Äú√Č como no futebol: um time tem um jogador que n√£o precisa mais. Outro est√° √† procura. Ent√£o a gente precisa negociar a transfer√™ncia. Todo mundo faz assim‚ÄĚ[/olho]

‚ÄúComo Ismael e Juan Carlos‚ÄĚ, comenta Andrade.

Maigua balançou a cabeça.

‚ÄúO dinheiro que eu dei pra eles‚ÄĚ, contou, ‚Äúeles gastaram tudo com bebida. Eles afanaram o celular de um dos empregados. Quando eu os apanhei naquela manh√£ no ponto de √īnibus, eu perguntei: ‘onde voc√™s querem ir?’ Eles falaram: ‘a um lugar onde a gente seja respeitado’. O que eu poderia ter feito? Simplesmente abandon√°-los ali?‚ÄĚ Maigua olhou pela janela. ‚Äú√Č um pouco como no futebol‚ÄĚ, continuou. ‚ÄúUm time tem um jogador que n√£o precisa mais. Outro est√° √† procura. Ent√£o a gente precisa negociar a transfer√™ncia. Todo mundo faz assim. Meu erro foi fazer isso no meio da rua‚ÄĚ.

‚ÄúIsso √© que foi o erro?‚ÄĚ, perguntou Andrade.

‚ÄúO transporte deles me custou um m√™s de aluguel!‚ÄĚ

√Č uma l√≥gica estranha, mas Maigua afirma que queria ajudar Ismael e Juan Carlos. Ao mesmo tempo, ele queria transferir as d√≠vidas que eles tinham com ele a outra pessoa, a fim de n√£o ter perdas. Seus olhos se enchem de l√°grimas.

‚ÄúH√° 30 anos‚ÄĚ, disse ele, ‚Äúeu lutei, e agora sou alvo das pessoas‚ÄĚ.

Trinta anos. A voz embargada de Maigua ao recordar-se. O vilarejo não muito distante da cidade boliviana de Potosí, onde ele ajudava seus pais nos campos secos durante a colheita de trigo. Aos 11 anos, o primeiro trabalho em Santa Cruz, como ajudante na produção de tijolos. O segundo trabalho, em uma loja de material de construção. A pergunta era: sua vida seria assim para sempre?

Maigua tinha 18 anos quando comprou uma passagem de √īnibus para o Brasil, ap√≥s juntar as economias de um ano inteiro. Ainda durante a viagem, disse ele, um boliviano ofereceu a ele uma vaga em uma oficina de costura. Maigua aguentava turnos de 14 ou 16 horas de trabalho, sete dias por semana. √Äs vezes, conta, ele levantava √†s 3 horas da manh√£, porque assim as melhores m√°quinas estavam livres. Por ser econ√īmico e n√£o beber ele conseguiu comprar sua pr√≥pria m√°quina de costura. Assim ele costurava por conta pr√≥pria bermudas de surf, ‚Äúpara Adidas e Nike‚ÄĚ, ressalta.

Depois, em 2006, sua primeira oficina com seis empregados. Em 2009, sua primeira m√°quina eletr√īnica. Em 2012, a primeira casa, pequena, para ele¬†e sua esposa.

A história de Maigua, da maneira como ele contou, é a história de uma autoexploração de anos, que ao final, quase desemboca em um pouco de liberdade. Não é nenhum acaso que tenha muitos pontos de convergência com a história de Ismael e Juan Carlos. São histórias de vida que se repetem, biografias em que conceitos como direito, lei ou moral não têm nenhum significado. Tudo o que importa é a perseverança da vontade, força pura do próprio corpo. Se a pessoa não suporta isso, assim pensa Maigua, ele volta como um homem derrotado ao seu lar.

[olho]Maigua, no fundo, também é uma vítima[/olho]

Maigua não esperava de Ismael e Juan Carlos nada além do que esperava de si mesmo. No momento em que eles não serviram mais para ele, foram trocados como uma máquina defeituosa.

Ele n√£o entende por que est√° sendo investigado por tr√°fico de pessoas pelo Minist√©rio P√ļblico. Conforme ele afirmou, tudo custou dinheiro, seu advogado e a multa, que agora ele precisa pagar. H√° semanas os pagamentos est√£o atrasados, tamb√©m porque a Atmosfera, depois do incidente, cancelou todos os pedidos. A empresa era o √ļnico cliente que Maigua tinha na √©poca.

Para o advogado Renato Bignami este é um ponto crucial. Maigua, segundo ele, no fundo também é uma vítima.

Em seu relatório, ele explica em várias páginas porque Maigua não tinha um negócio independente. A empresa Atmosfera comandava tudo: a produção, os prazos de entrega, o preço por mercadoria e o molde das peças. Nos uniformes eram costuradas etiquetas que identificavam a Atmosfera como proprietária. Se as peças fossem reprovadas no controle de qualidade, bem como se Maigua não respeitasse os prazos de entrega, multas eram aplicadas.

O problema, segundo Bignami, √© a terceiriza√ß√£o, atrav√©s da qual a empresa reduz os custos de produ√ß√£o. As demandas exigidas de Maigua eram t√£o dr√°sticas, que ele s√≥ poderia cumprir explorando, de forma ilegal, seus trabalhadores. ‚ÄúA responsabilidade por isso‚ÄĚ, afirma Bignami, ‚Äúrecai somente sobre a empresa Atmosfera‚ÄĚ.

Quando, depois do t√©rmino de suas pesquisas, ele confrontou o diretor da empresa com os resultados encontrados, este procurou minimiz√°-los. Ele explicou que fornecedores como Maigua trabalham por conta pr√≥pria, por isso n√£o existe nenhum controle interno. A empresa n√£o sabia de nada, n√£o podiam ser responsabilizados. √Č isso o que todos dizem. Entretanto, a empresa concordou em pagar a compensa√ß√£o exigida por Bignami, talvez porque a quantia de US$ 6 mil seja um valor irris√≥rio comparada √†s perdas que um esc√Ęndalo na imprensa poderia gerar.

Atualmente, a Atmosfera n√£o quer mais se pronunciar publicamente sobre o caso. Bignami espera que o diretor seja responsabilizado judicialmente. Al√©m disso, ele quer que a empresa seja inclu√≠da numa lista que apresenta nomes de empresas que t√™m, em sua cadeia de produ√ß√£o, liga√ß√£o com casos de trabalho escravo. Para Bignami, esta lista √© um instrumento muito √ļtil. ‚ÄúSe quisermos mudar algo‚ÄĚ, ele afirma, ‚Äúprecisamos ir atr√°s dos peixes grandes. Eles s√≥ s√£o vulner√°veis quando sua reputa√ß√£o est√° em risco‚ÄĚ.

Juan Carlos

Para Serapio Maigua parece uma piada de mau gosto, que justo os dois jovens que mais lhe causaram problemas, saiam no fim das contas com US$ 6 mil, enquanto ele, ap√≥s tantos anos, provavelmente tenha de encerrar suas opera√ß√Ķes. Antonio Andrade parecia pensativo ao entrar em seu carro depois de mais uma visita. √Č engra√ßado, disse ele, como √†s vezes os limites se tornam confusos. Como √†s vezes √© dif√≠cil distinguir quem s√£o os autores e quem s√£o as v√≠timas. A partir de que ponto termina a explora√ß√£o? Onde, exatamente, come√ßa a escravid√£o?

Durante sua volta de Tarija, quando pegou sua mochila na rodovi√°ria de Sucre, Ismael¬†disse nunca mais querer sair do pa√≠s. Ele tem planos de tirar a carteira de habilita√ß√£o para depois trabalhar como motorista de √īnibus. ‚ÄúContinuamos a conversa amanh√£‚ÄĚ, disse ele ao se despedir. ‚ÄúMantenha contato.”

Um telefonema ao meio-dia. Novamente, surge uma melodia e o verso ‚Äúeu desejaria nunca ter te conhecido‚ÄĚ [uma m√ļsica alem√£]. Ent√£o, de repente, uma voz estranha diz: ‚ÄúAqui √© o Juan Carlos!‚ÄĚ Ele queria saber se era o jornalista e se a gente n√£o poderia se encontrar. Ele disse que era urgente.

Você não está na Argentina com seu pai?

‚ÄúNa Argentina? Eu nunca estive na Argentina, muito menos com meu pai. Meu pai era um b√™bado, que apanhou tanto, que de algum modo desenvolveu um tumor no peito. Ele morreu quando eu tinha dois anos.‚ÄĚ

Pouco depois Juan Carlos apareceu em uma cafeteria na Praça 25 de Maio, um jovem de 18 anos com cabelo partido de lado e um casaco azul da Adidas. Ele tinha ideogramas chineses tatuados no pescoço. Segundo Juan Carlos, os caracteres significam Mariella, o nome da sua nova namorada, que assim como ele é pouco gorda, mas muito simpática. Juan Carlos não contou a ela sobre o pesadelo que vivera há alguns meses. Ele chora toda vez que toca no assunto: como a aventura no Brasil se transformou em puro terror.

A história, da maneira como ele contou, assemelha-se em muitos pontos com aquela contada por Ismael. Apenas algumas coisas foram omitidas por seu amigo.

‚ÄúIsmael‚ÄĚ, disse Juan Carlos, ‚Äú√© um trapaceiro. Pouco me admira que tenha dito que eu estava na Argentina‚ÄĚ.

Conforme ele relatou, quando o padre enviou a indeniza√ß√£o para Sucre por meio da Western Union, a quantia foi transferida em nome de Ismael. Na √©poca, ele era o √ļnico dentre os dois que tinha um n√ļmero. Ele disse que Ismael prometera-lhe pagar a sua parte cabia e ele confiou no amigo.

Ismael trouxe-lhe US$ 1.500. Isso era a metade do que ele esperava, mas Ismael explicou que mandaram menos do que tinham informado.

Juan Carlos n√£o acreditou nele.

‚ÄúEle deve‚ÄĚ, sup√Ķe, ‚Äúter embolsado US$ 4.500. De onde teriam condi√ß√Ķes de construir um novo andar para sua casa?‚ÄĚ

Ele mesmo ficou apenas com uma pequena parte, com o que comprou algumas calças e casacos. Todo o restante ele entregou para sua mãe, que compra roupas para revender em sua barraca no Mercado Campesino.

Os dois não conversam há meses. Segundo Juan Carlos, corre pelo bairro o boato de que Ismael recebeu a visita de um jornalista. Teria se aproximado sob o pretexto de entregar um celular, para que ele pudesse interceptar a próxima ligação. Ele acha que o visitante deve ser Antonio Andrade, já que ele não conhece outro jornalista. Juan Carlos contou que Andrade disse a eles uma vez que Dilma Rousseff, a presidente afastada do Brasil, se encarregaria pessoalmente de enviar a eles alguma ajuda todo mês. Gostaria apenas de lembrá-lo disso.

‚ÄúNo Brasil a experi√™ncia foi ruim, por√©m as coisas com o Ismael foram bem piores.‚ÄĚ Juan Carlos perdeu seu melhor amigo.


Publicado originalmente em Abril de 2016 pela Zeit Magazin. Republicado com permissão. Tradução por Danilo Freire e Yasmim Nimbu.