Pedro Aguilera estava numa fase meio distópica, nove anos atrás, quando cursava cinema na USP. Na lista de leitura estavam “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. Quando viu um edital do Ministério da Cultura para criar uma série, a ideia lhe veio à cabeça: fazer uma distopia brasileira. O resultado, “3%”, é uma espécie de mistura de “Jogos Vorazes” com vestibular, uma receita bem atrativa para adolescentes (ou jovens adultos, como esse público é chamado). Talvez por isso a produção, que virou uma websérie na época, tenha chamado a atenção do Netflix na hora de escolher seu primeiro seriado brasileiro.

Durante esses anos, a websérie ficou no ar, ganhando lentamente legendas em diversas línguas, feitas por fãs, e novos espectadores. Um deles era um executivo do Netflix, que se empolgou com o projeto e o levou para o serviço. A série, que estreou na sexta (25), competindo com “Gilmore Girls”, não é idêntica à websérie. Mas ambas tem a mesma premissa. Nelas, o Brasil do futuro, numa época não especificada, virou uma terra devastada. Não há comida, pessoas vivem em barracos, vestidas em trapos. A única chance de escapar da miséria é passar, aos 20 anos, por um processo seletivo. Os 3% selecionados ganham a chance de viver num oásis chamado Maralto, onde não há escassez e todos vivem confortavelmente e em paz. Quem não conseguir passar pelo processo seletivo, altamente subjetivo, está fadado a viver “do lado de cá” para sempre, sem segundas chances. Pelo menos por enquanto: no primeiro episódio é revelado que há um grupo revolucionário que tenta acabar com a injustiça e que infiltra um jovem no processo.

O grupo de protagonistas é variado: há a mocinha com cara de frágil (Bianca Comparato, um dos poucos nomes conhecidos do elenco), o cadeirante que não quer ajuda de ninguém, o rapaz confiante cuja família sempre passa no processo, a jovem marrenta e esperta, o malandro que tenta burlar as regras. Todos observados por Ezequiel (João Miguel), o misterioso chefe do processo que carrega um passado difícil.

João Miguel, figura comum em minisséries da Globo, disse em encontro com jornalistas que recebeu o convite um ano e pouco antes da série acontecer. “Fiquei interessado por fazer um personagem que nunca tinha feito. Me interessa muito descobrir personagens novos. O Ezequiel é muito estranho de cara”, afirmou. “No início, pensando muito num personagem sistemático, que traz essa coisa corporativa, de poder, e acho que um personagem muito contundente hoje e muito diferente do que eu tinha feito até então. Isso me atraiu bastante.”

Já Bianca, um dos primeiros nomes a fazer parte do projeto, diz que topou fazer “3%” pela mensagem, sem nem ter lido um roteiro. “A primeira coisa que me atraiu foi a ideia do Aguilera dessa segregação. 3% versus 97%. O teor político e a mensagem que a série passa”, contou. “Eu falei: ‘Essa mensagem eu quero passar’. Não sabia como, mas isso estava claro.” Para atriz, não precisa nem de muita imaginação para ver as ligações entre o Brasil real e o Brasil da série. “Costumo dizer que o Brasil é uma distopia”, brincou. “Intelectualmente faz muito sentido o conceito.”

Mas embora os criadores digam que as questões propostas pela série tenham respaldo na realidade brasileira (“é uma alegoria para a discutir a meritocracia”, diz Bianca), trata-se de uma ficção que segue a fórmula dos filmes do gênero feitos em Hollywood, mas menos criativo. Pense em “Jogos Vorazes” ou “Divergente”. As pessoas que aplicam o processo são malvados e/ou cegos para a desigualdade como os moradores da capital nos filmes protagonizados por Jennifer Lawrence. Há até algo que se assemelha com os hologramas com o nome e o rosto de cada participante. Quando é anunciado que há uma rebelião, é pouco surpreendente, não vai muito além daquela velha história dos jovens adultos contra um regime totalitário. As reviravoltas — que existem — não têm a mesma força, pois o roteiro é pouco profundo na crítica.

Ao roteiro pouco especial junta-se performances bem abaixo da média, inclusive de João Miguel, que costuma escolher bons papéis em boas produções. O elenco jovem parece se esforçar, mas parecem estar lendo um roteiro – e não falando. Da dicção super correta ao vocabulário que ninguém usa, parece tudo um pouco artificial. Há episódios melhores que outros — no quarto, por exemplo, o foco sai das provas não muito interessante do processo (como montar cubos em poucos minutos) e a série joga luz sobre os efeitos que a competição tem nos participantes, revelando o pior em cada um deles.

Para dirigir a série, foi chamado César Charlone, indicado ao Oscar de fotografia por “Cidade de Deus”. Coube a ele trazer um pouco de brasilidade para o cenário distópico, afirmou Bianca. “O Charlone dá esse conceito colorido. É um futuro quase que presente, como ‘Black Mirror’ faz. Parece que é lá na frente, mas na verdade estamos falando de nós mesmos”, disse. Mas mesmo com o currículo de Charlone, o visual não é particularmente incrível. Os cenários do “lado de lá” são genéricos, com grandes espaços brancos e design clean. “Do lado de cá”, há realmente mais cores, mas os figurinos são esquisitos, com trapos coloridos sobrepostos uns sobre os outros.

Segundo Pedro, que tem 27 anos, a equipe tentou argumentar a favor dos dois lados do processo de seleção, sem julgar o pessoal do lado de lá. “A gente se esforçou pra tentar pintar um quadro não unilateral, com personagens com pontos de vistas diferentes, indicando levemente nosso ponto de vista, pra deixar o público ter uma opinião sobre essa sociedade e como ela tá montada.” A ideia é boa, tanto que o piloto, disponibilizado no YouTube, fez bastante sucesso. Mas mesmo com toda a infraestrutura do Netflix, a série tem um pouco de cara de produção estudantil. Entretém, mas não espanta muito.