Jaloo tem suas razões para confiar no acaso. Em sua vida, a sucessão de acontecimentos imprevistos já lhe rendeu resultados positivos. Foi em uma dessas eventualidades que veio para São Paulo, chamado para trabalhar em estúdios nas regiões da Vila Curuçá e do Belém. Ali, neste mesmo bairro alguns meses depois, conseguiu conhecer seus ídolos da banda colombiana Bomba Estéreo ao chegar cedo para um show no Sesc Belenzinho. O encontro resultou em uma parceria ainda não divulgada nos estúdios da Red Bull Station.

Hoje, é ele a subir no palco. Antes da apresentação a convite da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, ele se esconde do frio de uma noite de São João na comedoria do local. Sua silhueta esguia se encorpa com um casaco azul da Adidas e se alonga sobre um sapato creepers. A touca não deixa ver, mas os cabelos são longos, fartos, negríssimos e levam um corte que remete a índios amazônicos, cantoras pop, e Judy, a irmã beatnik de Doug Funnie.

“Isso aqui que é inverno. Lá no Pará, a gente só finge que passa frio”, ele recorda com bom humor da época em que lhe chamavam de Jaime Melo pelas ruas de Castanhal. Foi ali, a poucos quilômetros de Belém, que ele viveu a maior parte de seus 28 anos. O restante de sua vida se divide entre as viagens de ônibus para Ananindeua, aonde ia estudar Publicidade e Propaganda, e a vinda para a capital paulista, há quatro anos sua casa.

A biografia de Jaloo não segue um roteiro clichê. Se hoje trabalha com música, ele não a conhecia até o fim da adolescência. Ouvia de rabo de orelha o brega que agradava seus pais e os sons de aparelhagem que a irmã punha para varrer a casa. Da mesma maneira, quem vê sua figura no palco hoje, transitando entre masculino e feminino, não imagina que sua sexualidade era reprimida a ponto de quase não existir. Seu primeiro beijo foi acontecer aos 18 anos.

A alegria era encontrada nas existências virtuais: os videogames. Até hoje, Jaloo sabe enumerá-los por ordem de processador: “Tinha o NES de 8 bits. Aqui no Brasil, o piratão dele era o Dynavision versões 1, 2, 3 e 4… No final, era tudo a mesma coisa. De 16 bits, eu tinha o Super Nintendo. Jogava tudo o que tinha para jogar, mas era louco por RPG, tipo Final Fantasy”. Os chiptunes, sons característicos dos games de primeira geração, hoje fazem parte de suas músicas. Faixas como “Last Dance”, “Ah! Dor!” e “Tanto Faz”, de seu primeiro álbum, trazem batidas que parecem saídas de consoles dos anos 1990.

A estreia de seu disco autoral leva o título de #1, lido como “primeiro”. A cifra foi escolhida por sua internacionalidade, já que o ordinal “1º” não é reconhecido mundo afora. Quem deu a dica foi Carlos Eduardo Miranda, diretor do selo Stereomono e definido por Jaloo como alguém que “está sempre um passo à frente”. O álbum sucede trabalhos que já haviam lhe garantido certa notoriedade pela internet, como o “Female & Brega”, lançado em 2012 com divas pop remixadas em tecnobrega; e o “Couve”, batizado com uma corruptela de “cover” em 2013.

Antes com status de DJ e produtor, agora recebe novos títulos. “Nunca me considerei um cantor”, ele rebate. “Eu acho ‘artista’ melhor, porque abraça todo o cuidado que eu tenho em diversos sentidos, inclusive na voz.” No gogó, diz não fazer nem firula. É dono de um sotaque leve e um vocal suave, do qual tem raiva pela falta de intensidade. Para isso, tem tentado aprender o melisma sozinho. A técnica consiste em imprimir diversas notas em uma mesma sílaba. Sabe a Mariah Carey? Então.

Sem autodidatismo, aliás, não existiria Jaloo. Na faculdade, depois de assistir no documentário “Brega S/A”, sobre como as festas de aparelhagens eram produzidas, baixou o software Fruity Loops pirateado e se dedicou a fazer versões de suas músicas preferidas. “É um programa que eu não largo de jeito nenhum. Todo mundo tem preconceito, ficam com essa coisa de Mac. E aí eu faço um disco rodando o Fruity Loops craqueado no Windows e a Apple Music vai lá e me considera o melhor novo artista de 2015”, ironiza.

Jaloo pede para a entrevista continuar no camarim. Lançava olhares inquietos ao salão movimentado. Nervosismo, talvez, já que dali a poucas horas ele se apresentaria. Não era. “Sou virgem com ascendente em capricórnio. É tenso. Virgem é ordeiro, chato”, ele explica. Após nos realocarmos, ele se incomoda novamente com um espelho.

Com seu trabalho não é diferente. “Não deixo ninguém encostar nas minhas coisas. A Grimes, uma das minhas cantoras preferidas, diz uma coisa que eu peguei para mim: ‘Eu não estou pedindo ajuda’. Ser autossuficiente é algo pelo que eu prezo”, afirma. “Eu dirigi meus três clipes. Mas o que mais aparece é gente querendo dirigir vídeo, produzir música para eu cantar. Se você quer minha voz, vai levar todo o pacote também.”

Já o ascendente em capricórnio ele responsabiliza por seu planejamento a longuíssimo prazo — que o faz ter até seu quarto álbum já pensado. “A ideia é lançar um por ano. No começo de 2017 sai o próximo.” E o que ele adianta? “Vai ser bem mais agressivo que o primeiro, principalmente na sonoridade. Quero que seja bem bate-coco.” Comparo com Die Antwoord, ele aprova.

“No segundo disco, eu pretendo definir mais o gênero da persona e quero que seja muito mais cru”

“Outra coisa é que o primeiro disco segue a estética plástica. É um ser que acabou de vir ao mundo, novinho, polido, e que transita entre os gêneros. No segundo, eu pretendo definir mais o gênero da persona e quero que seja muito mais cru”, revela. “Zero Photoshop. Se duvidar, ainda vou puxar mais os defeitos: espinhas, oleosidade de pele, do cabelo. Quero que tudo apareça.”

Assucena Assucena, uma d’as Bahias, irrompe pela sala. Da bolsa, tira peças do figurino que usará no palco. Pergunto sobre o tamanho do salto. Quem responde é Jaloo: “Você acostuma. Quando laceia, não machuca mais”. Sua relação com a moda é próxima e tem se estreitado, com apelo de revistas femininas e figuras como Alexandre Herchcovitch. “Eu não me levo a sério nessa coisa de ícone fashion. Por exemplo, eu adoro repetir roupa. Acho que eles me dão essa atenção pela descontrução que eu faço da próprio moda: ao mesmo tempo que uso figurinos legais, uso moletom surrado no meu dia a dia.”

Sua inspiração artística para as roupas e a música vem de diversos canais, em um exercício de captar algo que ele chama de “tendência invisível”: padrões que se repetem na cultura popular e são identificados antes mesmo de virem à tona. A internet é um campo fértil, descoberto só depois de ganhar seu primeiro computador com 18 anos. Hoje, Jaloo declara paixão a memes em sua profusão de perfis pelas redes sociais, cada vez mais difíceis de administrar sozinho — o Facebook já é responsabilidade de sua assessoria. No visual de sua persona, a paleta de cores rosa e azul e os 3D mal acabados tem referência à onda do vaporwave, originária dos submundos virtuais.

“Gosto de ser esquisito e parecer um ET”

Na música, é apaixonado pelo pop e vidrado em Björk. “Mas escuto muito mais os clássicos do que os trabalhos atuais. Se você for ver, eu ouço mais Ariana Grande”, ele responde em menção a uma fase mais experimental da islandesa. As comparações que tem recebido da imprensa com ela, David Bowie ou Lady Gaga, porém, ele dispensa: “É errado achar que os brasileiros estão chupinhando tudo o que os estrangeiros fazem”.

Da mesma forma em que usa referências populares para criar, Jaloo pretende que suas criações caiam em domínio público em uma espécie de ciclo energético da criatividade. Em apelo aos fãs, pede para que eles postem seus clipes e remixes em seus canais do YouTube. Isso porque o site costuma barrar obras que não possuem direitos autorais, como seu cover de “Baby”, escrita por Caetano Veloso. Afinal, é a partir desse desprendimento inventivo, da pirataria e do sample, que floresceram ritmos como seu tecnobrega nativo.

“O kuduro em Angola, o funk no Rio, o tecnobrega na Amazônia, o bhangra na Índia… São todos feitos com software piratas, são todos distribuídos e consumidos pela periferia, e não se comunicam um com o outro. Eu chamo isso de ‘elo invisível’ entre as periferias e comparo com as pirâmides, que existiam nas civilizações maia e egípcia sem elas nunca terem se encontrado. E aí dizem que os extraterrestres são mediadores disso e eu adoro essa coisa de alienígena. Gosto de ser esquisito e parecer um ET. Eu chamava minha música de sci-fi brega.”

O termo já não é mais usado por Jaloo por receio de que ele engesse sua vontade de estar em constante mudança. Talvez por esse desprendimento de rótulos, ele consiga se aproximar naturalmente de temas que exigem tanto engajamento: maconha, androginia, homossexualidade. “Isso é minha natureza. Não gosto de falar que levanto bandeiras porque não tenho essa pretensão. Ser comparado a uma mulher na juventude me deixava triste. Hoje me fortalece. No fim das contas, é o que sou. Não quero ser uma pauta de programa de TV.”

Jaloo sai apressado sem se despedir. Ainda precisava se maquiar e aprontar o figurino. Quando entra em cena, ele é uma visão em branco com um collant que marca suas costelas. Minutos antes, ainda no camarim, ele dizia que já fora muito julgado por sua origem, sua sexualidade e seu trabalho com batidas eletrônicas e referências populares. Atualmente, ele diz não se incomodar mais por haver encontrado seu público, que neste momento acompanhava-o nos refrões embalados pelos instrumentos da Cozinha Mineira e por sua mesa de som futurística.