Marcus Elias não fala sobre o assunto. Sua defesa alega, no entanto, que todos os procedimentos eram legais, e que a culpa da queda do preço das BDRs não foi das centenas de novas emissões de ações, mas dos próprios minoritários, que teriam especulado na bolsa e gerado más notícias contra a companhia. Em uma conversa com um alto executivo da LAEP, ele me mostrou uma série de documentos que considera “provas de que os minoritários estariam mancomunados com um fundo inglês chamado GLG, que quer falir a LAEP e vender tudo”.

Uma das maiores dívidas da LAEP estava com o banco Morgan Stanley. Em 2008, a empresa tentou protelar o pagamento, mas se disse surpreendida quando chegou nos Estados Unidos para negociar: a dívida, em forma de debêntures — papéis que davam direito a juros quando quitados —, teria sido vendida ilegalmente ao fundo inglês GLG Partners. “Só poderiam vender essa dívida com autorização da Parmalat”, me disse o executivo da LAEP.

O GLG entrou nessa história como o grande vilão, no entendimento desse mesmo executivo. “Eles são um fundo abutre, desses que compram dívidas de empresas apertadas e que tenham ativos que possam ser vendidos.” O objetivo do GLG seria, segundo a versão do executivo, quebrar a companhia e pegar os ativos para venda. “Os caras vêm com armas de grosso calibre!”

Ele me mostra uma mensagem de um fórum especializado em mercado financeiro publicada em 10 de abril de 2012, 17:56: “Dou 250 mil reais pela captura de Marcus Elias, vivo ou morto. Quero que me entregue ele na fronteira Brasil-Colômbia para um senhor chamado Ramirez”. Mais tarde, outra mensagem: “Por falta de matador, xxxxxx.xxx@gmail.com aumenta a oferta para 350 mil.”

O executivo me mostrou também um e-mail privado trocado entre uma pessoa chamada Nícolas e outro funcionário da GLG, não-identificado na mensagem. Nícolas, o negociador do fundo, escreveu: “Ideia de fazer contato com a Abrimec”. Em outro e-mail interno do GLG, um dos funcionários cita a empresa de espionagem Kroll, sem dizer se ela seria contratada e com que objetivo. A mensagem é vaga mas, para o executivo, os dois e-mails são provas de que Abrimec e GLG são sócios em uma cruzada para quebrar a LAEP. “Nós é que somos vítimas de um golpe”, defende.

Quando eu contei sobre meu encontro com o executivo da LAEP para Valdemir João de Melo ele se levantou da cadeira e bateu com as duas mãos na mesa. “Meu amigo, eu nasci em uma cidade no sertão nordestino na qual o símbolo municipal é um jegue. Um jegue! Você acha que eu tenho capacidade de falar alguma coisa com tal de fundo inglês?” Valdemir é um dos minoritários que se sente enganado por Marcus Elias — foram 200 mil reais investidos em BDRs que viraram nada. “Ainda por cima a gente sofrendo com a LAEP e ele fazendo festa.”

“Dou 250 mil reais pela captura de Marcus Elias, vivo ou morto. Quero que me entregue ele na fronteira Brasil-Colômbia para um senhor chamado Ramirez”

Se a CVM e os tribunais são as melhores fontes de pesquisa sobre a vida empresarial de Marcus Elias, o site de mexericos Glamurama rouba a cena quando se trata de sua vida social. Em 2010, de fato, o empresário foi personagem de diversas notas sobre festas e convescotes badalados em São Paulo. Na inauguração do Bar Número, da amiga Fernanda Barbosa, ele apareceu “em plena segunda-feira, com frio intenso e garoa típica de São Paulo” para curtir “o espaço charmoso, de atmosfera superelegante e extremamente acolhedora, com sofás de couro marrom, luz baixa e cortinas de veludo”.

Em outra inauguração, desta vez da Brasserie Kosebasi, Elias foi citado ao lado de Teresa Fitipaldi, Letícia Brikheuer, Marcos Faria, Ricardinho Goldfard, Eliza Joenck e Gloria Coelho. A festa, “em clima de véspera de jogo do Brasil” — lotada com mais de mil “bacanas” — teve seu buchicho principal em torno do controlador da LAEP: “o assunto mais comentado da noite? A compra da Daslu por Marcus Elias, que comemora seu aniversário na próxima quarta-feira, no bar Número”.

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A empresa não se limitou a emitir ações apenas para quitar dívidas — ela também fez emissões para captar dinheiro novo, mais uma vez derramando ações no mercado e corroendo os preços. O caso que mais chama atenção é o relacionado ao fundo de investimentos Global Emerging Markets, o GEM.

Em 15 de janeiro de 2010, a LAEP comunicou ao mercado, em nota oficial, que o GEM faria um aporte de 120 milhões de reais ao caixa da companhia. O título do comunicado era “LAEP obtém nova capitalização de R$120 milhões junto a investidor institucional norte-americano”. No rodapé do documento, a empresa reforçava a importância do acordo assinado com os investidores: “A administração da Companhia considera esta transação determinante para o seu fortalecimento”.

A nota foi replicada na imprensa, soprando ventos positivos à conturbada Parmalat. Em 15 de julho daquele mesmo ano, outro comunicado informava que o GEM aportaria mais 75 milhões de reais no caixa da LAEP. Valdemir viu as notícias e se animou. “Com 195 milhões na conta a LAEP poderia se capitalizar e, enfim, aproveitar o mercado. A ação dela ta muito barata, vai se valorizar. Vou comprar”, pensou.

Valdemir investiu 200 mil reais em BDRs da LAEP sem saber que seria ele próprio, e não o GEM, que iria capitalizar a empresa.

Conclusões imprestáveis

O Global Emerging Markets (GEM) se apresenta como um fundo alternativo de investimentos com 3,4 bilhões de dólares em caixa focado em mercados emergentes. Ele e seus parceiros dizem ter investido em 305 companhias de 65 países. Mas o GEM não tira dinheiro dos seus declarados 3,4 bilhões de dólares para fazer seus investimentos. A operação é complexa, e diferente do que as notícias fazem pensar.

Para aportar dinheiro na LAEP, o GEM pegou emprestadas ações do próprio laticínio, e as vendeu na Bovespa ao longo de semanas. Investidores como Valdemir compraram os BDRs, empolgados com a notícia de que um “investidor institucional norte-americano” estaria financiando a companhia. O GEM, de fato, não colocou um centavo na LAEP. Foi com o dinheiro de Valdemir que o fundo bombou o caixa da empresa, derramando mais ações no mercado e diluindo ainda mais a participação de quem já tinha papéis da LAEP. Os preços dos BDRs, como era de esperar, caíram ainda mais.

O Inquérito Administrativo “13” aberto pela CVM em 2013 chama a operação de “irregular”, “captação de poupança pública travestida de subscrição privada”, utilizando de “artifícios fraudulentos para induzir o mercado ao erro”, fazendo com que “investidores incautos e desinformados” participassem sem saber do aumento de capital. Um “comportamento malicioso”.

O inquérito ainda mostra que o GEM teve, por 10 vezes, fatia maior do que 5% da LAEP, e que deveria, por lei, ter comunicado isso ao mercado — só não o fez porque a informação poderia chamar atenção dos acionistas e mostrar que o fundo não era um investidor com interesses em ser sócio da LAEP, mas um especulador que jorrava novos BDRs na bolsa.

A CVM pediu punição ao GEM e a LAEP, e também a Marcus Alberto Elias, que assinou toda a documentação.

O envolvimento do empresário foi além das assinaturas de autorização: um e-mail enviado à CVM pelo departamento jurídico do banco Santander e obtido por esta reportagem garante que Elias é o representante legal no Brasil de um fundo chamado Brightness Investments LLC, sediado no número 874 da Walker Road, em Delaware, Estados Unidos. O fundo era o único cotista de outra empresa, a Central Veredas Fundo de Investimento em Participações. Foi a Central Veredas que atuou na Bovespa para vender os BDRs que o GEM pegou emprestado da LAEP. No e-mail, o Santander explica que o dinheiro arrecadado pela Central Veredas no mercado não ficou na conta da empresa — foi reinvestido em outra companhia, a Kewalam Empreendimentos e Participações S/A. Fundada meio ano antes da operação do GEM, a Kewalan viu seu capital social explodir do dia para noite, saltando de 1.000 reais para 92,7 milhões com o investimento da Central Veredas. Os sócios da Kewalan, segundo documentos da Junta Comercial de São Paulo, eram Marcelo Duarte e Diego Carrero Mesa. Os dois atuavam como uma espécie de criadores seriais de empresas, e já haviam prestado serviços para LAEP e Marcus Elias antes da operação financeira do GEM.

Marcus Elias se defendeu na CVM. Para ele, a operação foi legal, e a LAEP precisava de dinheiro por conta da crise internacional de 2008. Marcus Elias observou, em sua defesa, que a própria CVM não havia encontrado irregularidades na operação com o GEM diante de uma reclamação de um investidor, em 2011. De fato, à época, a CVM achou a operação normal, tendo dado atenção a ela somente em 2013, quando o dinheiro captado e os papéis já tinham virado história.

Em sua defesa, Marcus Elias apresentou o parecer de quatro professores de direito comercial. O mais fundamentado é o de Eliseu Martins, contabilista do Piauí e membro da diretoria da própria CVM entre outubro de 2008 a dezembro de 2009. Martins declarou que não havia nenhum erro na operação com o GEM, onde reinaria a mais pura legalidade. A CVM não deixou margem para interpretações em sua resposta: “Com todo o devido e mais do que merecido respeito ao professor Eliseu Martins, as suas conclusões são absolutamente imprestáveis”.

Estava escrito

Investir em papéis da LAEP era um negócio arriscado desde o início. No prospecto que norteou os investidores antes da abertura de capital a empresa listava, em 13 páginas, uma série de fatores que poderiam tornar o negócio perigoso, capaz de transformar qualquer real gasto em pó. “Investir nas nossas Ações ou BDRs envolve riscos significativos”, abria o primeiro parágrafo da página 62 do documento, que começa com uma série de alertas sobre a possível incapacidade da empresa de colocar seu plano de recuperação em marcha, citando, inclusive, eventuais mortes de seus executivos. “Nosso sucesso futuro depende, em grande parte, do trabalho e dedicação contínuos de nossa equipe de executivos. A perda de alguns deles pode nos afetar adversamente.”

Em outro trecho, a companhia parece antever a operação Ouro Branco, que detectou substâncias ilegais no leite e afetou a venda dos produtos Parmalat. “Mesmo que nossos próprios produtos não sejam afetados por contaminação, nosso setor poderá sofrer publicidade negativa se os produtos de terceiros forem contaminados, e isso poderia resultar na queda de demanda do consumidor por nossos produtos da categoria afetada.”

A parte que descreve os fatores de risco no prospecto da LAEP dá particular atenção aos BDRs. “Os detentores de BDRs não são e não serão considerados detentores das nossas Ações e não têm o direito de comparecer ou votar nas assembléias gerais de acionistas”, esclarece a página 68. Nos poucos casos em que os compradores dos papéis no Brasil teriam voz, a companhia não garantia que avisaria a tempo os investidores sobre data e horário das reuniões.

Os títulos vendidos pela companhia no Brasil davam direitos extremamente limitados a seus donos. De fato, a empresa seria controlada pela “Ações Classe B”, jamais negociadas em bolsa, e detidas inteiramente pela LAEP —  quase todas por Marcus Elias. Ele controlava a empresa com apenas 11% das ações totais. Para terem poder de voto, os donos dos BDRs deveriam ter quórum de ao menos 30% entre todos os detentores dos papéis, e comparecer no dia e hora marcada para a votação, em Bermudas.

“Eu liguei para um dos diretores da empresa e disse que queria participar de uma reunião. Ele me respondeu, irônico: ‘Você sabe que a empresa fica nas Bermudas, não sabe?’ Eu disse que sabia, e que iria de qualquer modo. Mal termino de falar ele já me replica: ‘Mas você pode ir no dia marcado e nós podemos mudar a data, jogar para 15 dias na frente, conforme permite nosso estatuto’. Ali eu entendi com que eu estava lidando”, me contou um investidor da LAEP que prefere permanecer anônimo. “Nesse mercado ninguém é santo, a gente não espera que as pessoas sejam puras. Mas aquilo era outra coisa, era uma gangue.”

O controle da empresa estava na mão apenas de seus diretores, e isso poderia confrontar os interesses dos demais acionistas.

O prospecto era ainda mais enfático em outras questões envolvendo as Ações Classe A, chamadas de BDRs no Brasil. “Podemos alterar o Contrato de Depósito e alterar os direitos dos titulares de BDRs de acordo com os termos do referido contrato, sem o consentimento dos titulares de BDR.”

“Nesse mercado ninguém é santo, a gente não espera que as pessoas sejam puras. Mas aquilo era outra coisa, era uma gangue”

A história da LAEP não seria possível sem a regulamentação que permite que empresas listadas em outros países operem no Brasil através de BDRs. O sistema é comum em outras bolsas do mundo — a Petrobras, por exemplo, opera de modo semelhante nos Estados Unidos — , mas na Bovespa a norma não especificava o que, exatamente, era uma empresa estrangeira. No caso da LAEP, sequer um copo de leite jamais foi envasado fora do Brasil.

Após o escândalo da LAEP, a CVM decidiu mudar a norma dos BDRs: hoje, uma empresa precisa ter ao menos 50% de seus ativos no exterior para negociar recibos de ações no Brasil. Caso contrário, deve negociar papeis comuns e respeitar a Lei das S.A., que oferece proteções legais aos acionistas  –  muitas das quais poderiam ter evitado que a LAEP operasse como operou.

A mudança aconteceu em dezembro de 2009, e não atingiu companhias como a própria LAEP, já estabelecida no sistema de BDRs.

Os controladores poderiam também abandonar o mercado, sem garantia de que os investidores fossem ressarcidos. “Poderemos decidir deixar de ser uma companhia registrada na CVM para a negociação de BDRs e deixar de ser listados na Bovespa. Nesse caso, não podemos assegurar que nós ou nossos acionistas controladores farão uma oferta pública de aquisição de todos os BDRs em circulação em condições que atendam às expectativas dos titulares de BDRs.”

Mais adiante, a LAEP adverte que poderia não cumprir as leis brasileiras. “Somos uma companhia estrangeira, sujeita à legislação estrangeira, e a CVM pode não ter condições de supervisionar as nossas atividades ou fazer valer suas decisões contra nós.”

Na parte final, a LAEP deixa claro que os investidores em BDRs abririam mão de processar os executivos da empresa caso algo desse errado. “Nosso Estatuto Social contém uma previsão de renúncia por parte de nossos acionistas ao direito de promover qualquer ação ou reclamação, individualmente ou em nosso nome, contra quaisquer de nossos administradores. Tal renúncia aplica-se a qualquer ação ou reclamação envolvendo um administrador ou irregularidade por ele praticada no exercício de seus deveres, exceto com relação a qualquer questão que envolva qualquer fraude ou desonestidade por parte do diretor ou conselheiro.”

E, como gran finale, o prospecto previa que diretores, como Marcus Elias, poderiam ser indenizados pela própria LAEP em casos de “omissões ou atos” praticados por eles próprios. Ou seja: diante de uma avaliação incorreta do mercado feita por Marcus Elias que causasse prejuízos a empresa, o próprio Marcus Elias poderia ser indenizado por sua avaliação incorreta.

O prospecto, no entanto, não trazia a informação completa. O Estatuto Social da empresa, aprovado em 14 de agosto de 2007, é mais claro. O documento atesta que, caso qualquer um dos diretores fossem responsabilizados judicialmente por algum ato ou omissão no comando da empresa, a própria LAEP deveria indenizá-los, se necessário, com os bens da empresa. Eles estariam, assim, não só livres de “todas e quaisquer ações, custos, encargos, prejuízos, perdas e danos e despesas que eles, ou qualquer deles, seus herdeiros, testamenteiros ou inventariantes venham ou possam a vir a incorrer”, mas também poderiam pedir dinheiro por isso. “Tudo ilegal. Não tem nem discussão. Essas cláusulas ferem várias leis brasileiras, não estão acima delas. Não valem nada”, analisa Gisele Menezes, advogada da Abrimec.

O prospecto é um documento que parecia alertar os futuros acionistas que tudo poderia dar errado. E deu.

A mão amiga do BNDES

Em dezembro de 2010, quando a empresa parecia em um beco sem saída, um salvador apareceu no horizonte: o banco público federal BNDES investiu 700 milhões de reais na criação da LBR — Lácteos Brasil, uma fusão de alguns laticínios brasileiros encrencados, entre eles a LAEP. O nome de Marcus Elias não constava entre os 10 conselheiros da companhia. Sem acento, ele perdeu poder, entregou suas fábricas aos novos diretores e foi afastado das decisões.

A nova aposta do banco estatal seria cumprir o plano que o próprio Elias havia proposto para a LAEP: unificar o setor leiteiro e formar uma gigante brasileira capaz de competir no exterior. A dinheirama do BNDES cumpria à risca o discurso político das “campeãs nacionais”, as multinacionais brasileiras bombadas com dinheiro público federal. Jorge Rubez, presidente da LeiteBrasil, associação que representa os produtores de leite, declarou à imprensa na época: “Se for para sanar os problemas, parabéns. Mas, se for para pegar dinheiro do BNDES e falir daqui a pouco, não dá.”

Em 15 de fevereiro de 2013 o juiz da 1ª Vara de Falências aceitou o pedido de Recuperação Judicial da LBR. Era o fim do laticínio do BNDES, e a terceira morte da Parmalat no Brasil.

Em resposta a esta reportagem, o BNDES declarou que fez um estudo de viabilidade que mostrava que investir na LBR seria um bom negócio para o país. O banco declarou que não pode, contudo, divulgar o estudo, alegando sigilo contratual. O BNDES declarou ainda que não sabe qual o valor de mercado da LBR, hoje.

Três dias após o pedido de recuperação judicial da LBR, Marcus Elias tentou fazer uma fusão da LAEP com a companhia Prosperity Overseas, também das Bermudas. Os minoritários temeram que a empresa sumisse com o que restava de ativos e alertaram as autoridades, alegando fraude na operação. Forçada por uma cautelar judicial emitida no Brasil a pedido do Ministério Público Federal de São Paulo e da CVM, a LAEP anunciou desistência da fusão por conta de “incertezas jurídicas”.

Documento emitido em 22 de setembro daquele mesmo ano e obtido por esta reportagem mostra, no entanto, que a Prosperity Overseas se tornou de fato uma das sócias da LAEP —  ao contrário do que a empresa havia declarado — , tendo adquirido mais de 40 milhões de ações Classe A da companhia em 21 de fevereiro daquele ano, se tornando o maior acionista da LAEP. A Prosperity Overseas pertence a outra empresa de nome semelhante, a Prosperity Investments Fund Inc, sediada no Panamá e dissolvida em 3 de dezembro de 2013. Seus diretores são ligados a centenas de outras empresas no país.

Em 23 de setembro daquele mesmo ano, os BDRs da LAEP foram suspensos pela Bovespa. A bolsa tomou essa decisão porque o fundo inglês GLG pediu a liquidação da companhia na Suprema Corte de Bermudas, onde a LAEP se encontra em estado de espera por decisões judiciais no Brasil. Em 19 de agosto de 2014, a LAEP parou de entregar documentos obrigatórios de prestação de contas ao mercado, o que reforçou a suspensão dos BDRs.

Quando abriu seu capital, a LAEP declarou que venderia seus BDRs para “investidores institucionais qualificados”. Logo nos primeiros meses de operação da empresa a maioria desses investidores venderam suas posições, colocando as ações no mercado comum. Cerca de 18 mil investidores minoritários esperam ressarcimento.

Ao longo dos anos, a CVM abriu dezenas de processos contra a companhia, o que não a impediu de atuar no mercado acionário, talvez, por tempo demais até que alguma medida definitiva fosse tomada. Em resposta oficial, a CVM disse que atuou para investigar a LAEP em 2013, mas não respondeu à pergunta que eu fiz: “Dados os diversos sinais de que a LAEP era uma empresa no mínimo problemática, porque a CVM demorou tanto tempo até tomar medidas que afastassem o risco dos acionistas perante os BDRs da LAEP na Bovespa?”.

Em 2010, a LAEP informou ter liquidado dívidas de 48 milhões de reais com credores. A auditoria KPMG vasculhou o livro-caixa da LAEP e diz não ter conseguido confirmar a existência de parte do que chamou de “supostas dívidas”. “Só esse dinheiro poderia nos pagar”, observa Valdemir João de Melo, que investiu 200 mil reais na empresa.

Por conta do parecer da KPMG, a LAEP culpou a auditoria pela queda no preço de suas ações e a processou. E perdeu. Em sua sentença, o juiz Gustavo Coube de Carvalho observou que o processo da LAEP contra a KPMG poderia parecer “estratégia diversionista, buscando desviar ou suspender, ao menos temporariamente, a atenção de acionistas e investidores que tenham sofrido prejuízos com os papeis da empresa”.

Apesar de contestada pela CVM à época, a empresa de Marcus Elias continuou operando, mesmo sob fortes desconfianças.

Em busca de alguma paz

No dia 2 de julho deste ano, a procuradora federal Karen Louise Jeanette Kahn denunciou Marcus Alberto Elias por uma série de crimes. Em sua denúncia, ela chama Marcus Elias de “o grande protagonista de toda a fraude”, mente por trás da “quebra fraudulenta da empresa LAEP, desviando, senão a totalidade, uma relevante parcela dos recursos captados na Bolsa de Valores, em benefício próprio e de familiares”. Para isso, Marcus Elias e os demais diretores da empresa teriam “se utilizado de mais de 100 empresas, para transferência de bens e direitos, supostamente também ao exterior, em clara gestão fraudulenta seguida de lavagem de dinheiro”. Segundo a denúncia, “a LAEP só serviu como veículo indispensável à prática do golpe ao mercado financeiro do Brasil”.

O documento vai além: acusa Marcus Elias — dono de uma “meteórica evolução patrimonial” — de comandar “autêntica formação de bando ou quadrilha”. Para a procuradora, o controlador da LAEP tem, em seu nome ou de familiares, ao menos 150 milhões de reais, incluindo imóveis, um helicóptero e um avião. “A LAEP sempre fez uso de informações falsas e/ou prejudicialmente incompletas, o que permitiu aos controladores e administradores da empresa empreenderem, de forma exitosa, fraudes e golpes contra o sistema financeiro nacional”, completa a denúncia.

 

Acolhendo o pedido da procuradora, naquele mesmo mês a Justiça ordenou que Marcus Elias se afastasse do mercado financeiro. Os magistrados também bloquearam seus bens, inclusive a herança a qual Marcus teria direito após a morte do pai, que seria um dos laranjas do empresário, segundo a acusação. Ela poderá ser usada para pagar os investidores prejudicados pela LAEP caso a Justiça assim determine. “Estamos rastreando o dinheiro”, me disse a procuradora Karen Louise Jeanette Kahn em seu gabinete, ironicamente colado parede a parede com o escritório do advogado Sérgio Bermudes, onde Marcus Elias me recebeu.

A investigação já rastreou mais de 100 empresas de Marcus Elias, ou ligadas a ele, e agora tenta remontar a história. Ao menos um dos bens da LAEP, no entanto, pode ser encontrado sem muito esforço: em um vídeo no Youtube. A fazenda Cruzília, adquirida pela Integralat da empresa RE Partners do Brasil, à época de Marcus Elias, está a venda por 13 milhões de reais, dobro do valor pago pela Integralat. Documentos obtidos por esta reportagem mostram que, em 2010, a Cruzília foi repassada pela Integralat para outra empresa, a Symdogim Empreendimentos e Participações S/A. A Symdogim era comandada por Carlos Enrique Ferraz — que trabalhava para a própria Integralat antes de se aventurar como empreendedor.

O ex-controlador da LAEP se declara inocente de todas as acusações e procura levar sua vida com normalidade. A vida social de Elias não parou nem mesmo nos momentos judiciais mais críticos. Em julho de 2015, na semana em que o MPF oferecia denúncia contra ele, o empresário fez pose ao lado de um ramalhete de flores em um salão iluminado à luz de velas na França — terno bem cortado, mãos unidas em postura quase zen. A manchete do site de celebridades Glamurama dava o tom do momento: ‘Numa boa, Marcus Elias curte show de Caetano e Gil em Paris’.”

Em seu perfil publicado na Folha de S. Paulo, em abril de 2008, o empresário é retratado como dono de uma biblioteca de mais de mil livros. Entre eles, no entanto, conforme a reportagem, “é difícil encontrar um exemplar que trate de negócios”. Elias é mesmo fã de estudos religiosos. “A grande maioria das obras nas suas estantes versa sobre religião oriental e filosofia.”

Nem mesmo a busca pela iluminação consegue trazer paz de espírito a Marcus Elias. Grato ao lama tibetano Gangchen Rimpoche pelos conselhos recebidos, o empresário retribuiu com um presente contestado pelos investidores que se julgam lesados pela LAEP: Elias teria investido mais de 10 milhões de reais na construção de um templo budista em Campos do Jordão, em um terreno de sua propriedade, além de uma sede do Centro de Dharma da Paz, em São Paulo, e outro imóvel na mesma cidade para um centro de reiki.

Reportagem da revista IstoÉ de outubro de 2010 retrata o monje Gangchen como “ex-companheiro de cela do líder chinês Deng Xiao Ping, que sucedeu Mao Tsé-tung na China”. Em sua denúncia à Justiça, a procuradora Karen Louise Jeanette Kahn pediu a prisão preventiva de Marcus Elias, negada pelo juiz. Caso o ex-controlador da LAEP tenha a desfortuna de ser encarcerado, o lama pode ser um ombro experiente a recorrer.

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Leandro Demori, 34, é jornalista investigativo e editor do Medium Brasil. Issao Nakabachi, 28, é designer e ilustrador do Colletivo.