Na calçada, no meio de uma pequena multidão, três sósias do Michael Jackson rodopiavam ao som de “Bad”. Dois Michaels adultos de regata branca dominavam a coreografia característica, mas era um terceiro Michael, de cerca de 6 anos, que roubava a cena com movimentos ainda mais enérgicos. A poucos metros da performance, ônibus passavam correndo e pedestres andavam mais devagar que o habitual, olhando atentamente para a telinha brilhante de seus celulares. Anoitecia na Avenida Paulista. “Olha, acabei de pegar um Grimer de CP 240 ali na frente da Renner” — uma voz desconhecida interrompeu o tumulto, se gabando da conquista e ao mesmo tempo alertando a reportagem, que, por sua vez, tinha acabado de capturar um monstro idêntico, só que com mais CP – “combat power”. Pokémon Go chegou ao Brasil.

Quem começou a se familiarizar com o jogo entende a situação do jovem que se empolgou com o tal do Grimer, esse monstrengo imenso, provavelmente feito de chorume e piche. Não custa nada avisar quando um aparece. É que no dia 3 de agosto, quando Pokémon Go finalmente foi lançado aqui, sua produtora, a Niantic, revelou outra novidade incrível: uma enorme infestação de Zubat, o pokémon em forma de morcego. Ele está em todos os lugares, ele está no meio de nós, corações ao alto! Desde então, a rotina dos caçadores consiste em andar pelas ruas com expectativa, reagir à vibração do smartphone e encarar quase chorando o nonagésimo sétimo voo de um Zubat selvagem. E, se não é Zubat, é Pidgey — uma pombinha —, se não é Pidgey, é Weedle — aquela lagarta não tão simpática quanto o Caterpie.

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Zubats à parte, Pokémon Go entrega mais ou menos o que a internet tinha encomendado: tira o jogador de casa e o convida para uma gincana imprevisível pelo mapa do mundo real, agora povoado pelos simpáticos monstrinhos de bolso — desde que seu plano de dados colabore. Se a inovação da realidade aumentada já deixa qualquer um meio perdido, a interface com poucas instruções e os recursos inacabados ajudam, mesmo que por acidente, a criar um clima de história em construção, uma mistura de futuro caricato com o passado em que os videogames não vinham com tutorial ou setinha de “vá por aqui”. A sensação é de desbravar um terreno em que tudo pode acontecer, mas talvez você esteja no transporte público e acabe perdendo o PokéStop.

Os PokéStops, aliás, são as estruturas mais importantes no mapa da dimensão paralela. Representados por ícones azuis espalhados pela cidade, oferecem pokébolas, poções e outros acessórios necessários para a jornada. Já os PokéGyms são os ginásios em que treinadores mais experientes enfrentam outros times. O segredo fitness é que não adianta escolher apenas uma dessas áreas. Cada região de uma cidade guarda tipos específicos de pokémons, alguns gerados de acordo com seu terreno. Em São Paulo, dizem que a valiosa Eevee anda pelos arredores de Pinheiros e o clássico Pikachu tem aparecido com mais frequência na Barra Funda. Pokémons de água, como o pato Psyduck, a tartaruguinha Squirtle e o Magikarp — uma carpinha aparentemente inútil que evolui e vira Gyarados, um dos pokémons mais fortes —, se escondem em áreas como as margens do lago do Parque do Ibirapuera.

Piquenique de Pokémon

O famoso parque paulistano foi um dos locais visitados pela reportagem do Risca Faca no primeiro fim de semana de Pokémon Go no Brasil. Na manhã do sábado, o Planetário era uma das áreas mais povoadas: normalmente vazia, a pequena praça de 50 m² em frente ao prédio — inaugurado em 1957, trata-se do primeiro planetário da América Latina, mas ninguém dava uma pokébola para isso — concentrava mais ou menos 300 jogadores. Alguns preferiam ficar sentados em grupo no gramado, como em um pátio de escola, ignorando qualquer proposta de atividade física.

Por algum motivo que só a Niantic sabe, calhou de essa área contar com quatro PokéStops grudados um no outro, o que garante aparições e munição infinitas. Para dar uma dimensão, há municípios inteiros com a mesma oferta: “Lá na cidade da minha família, Santa Isabel, a 50 minutos de São Paulo, quase não tem PokéStops. Tem um numa praça cheia de moradores de rua que agora dividem o espaço com um monte de nerd com celular; tem outro na frente de um lava-rápido e um no topo de um morro altíssimo. O pessoal lá já criou até uma hashtag para pedir mais no Facebook”, conta o consultor em saúde coletiva Augusto Mathias, de 33 anos, que tinha acabado de capturar um Magmar.

O assunto no Planetário do Ibirapuera deixou de ser a Via Láctea, os pulsares ou as constelações: agora, os frequentadores só querem saber “onde diabos está esse Tangela que não apareceu para mim?”. Nesse tipo de ambiente, um monstro mais poderoso costuma ser recebido com gritinhos irracionais como “tem um Jigglypuff aqui!”, “Pinsir! Pinsir”, “Weepinbell!” e por aí vai. Pode parecer um fenômeno meio idiota para quem não conheceu os pokémons do desenho ou do jogo de Game Boy da década de 90, mas as interjeições adolescentes do passado voltaram ao vocabulário de crianças e adultos. E não pega mal.

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Já o Parque Trianon, na frente do MASP, agora rima com Parque Pokémon. O restinho de área verde na região da Paulista foi agraciado com seis PokéStops bem próximos uns dos outros. No domingo, quando a Avenida Paulista fica aberta aos pedestres, a maioria dos transeuntes — possivelmente mais que o dobro do usual — se reunia por lá em busca de uma boa safra. Pena que ali, ao contrário do Parque do Ibirapuera, só tinha “Zubat, filho da puta”, nas palavras dos envolvidos. Entre centenas de jogadores que se enervavam com a invasão de morcegos, deu para observar um casal de meia idade protagonizando uma cena “pokémônica”: enquanto ela contava que o Trianon era um dos únicos remanescentes de Mata Atlântica virgem na cidade, ele segurava o celular com uma mão e usava o dedo indicador da outra para tentar arremessar uma pokébola e capturar um… Zubat, claro.

Como sugerem a tela inicial do app e outros avisos, a desatenção pode ser um efeito colateral da novidade. Conversas ficam para depois. Belezas naturais, produtos à venda e caminhões cruzando a avenida são perigosamente ignorados. É nesse cenário que surge a lenda urbana brasileira com direito a trocadilho, o “bulbassalto”. E faz sentido: com tanta gente circulando pelos mesmos pontos azuis e perdendo o medo de andar com o celular nas mãos, já que o jogo precisa estar sempre aberto para computar qualquer coisa, um assaltante em potencial (e talvez jogador de Pokémon Go, como todos nós) ganha várias oportunidades. Mas os treinadores não se preocupam e seguem viagem. Perto da galeria Top Center, uma Clefairy virtual dividia espaço com um Pikachu guitarrista, ou melhor, um artista de rua que usava uma roupinha do personagem para surfar no zeitgeist.

Otaku de boné

“O jogo é medíocre. Como game mesmo, eu daria nota cinco. No modo de realidade aumentada, os pokémons ficam grudados na tela como um adesivo. Os caras da Niantic poderiam ter mais cuidado com esses detalhes. Outra coisa: não duvido que vai ter PokéStops em lugares como Auschwitz, por exemplo. Eles vão ter que resolver esses problemas enquanto o jogo estiver no ar”, diz Gustavo Petró, editor do portal de games IGN Brasil. De fato, exceto pelas telas dos personagens, o design de Pokémon Go não chama a atenção. Desde o momento em que o jogador monta seu avatar, todo mundo usa boné e fica com jeitão de otaku (termo que define os fãs de anime). Uma vez que seu bonequinho avança pelo mapa, a tela do celular mostra uma espécie de “mundo invertido” da série Stranger Things, da Netflix: um lugar idêntico ao mundo real, mas um pouco mais feio.

No canto inferior direito, há um radar que supostamente indica os monstrinhos mais próximos. Há poucos dias, se você resolvesse se guiar por essa bússola desmagnetizada, poderia acabar andando quilômetros e quilômetros atrás “daquele Alakazam” e terminar sua jornada caçando três Spearows e 20 Zubats. No dia 9 de agosto, porém, a primeira atualização lançada no Brasil introduziu o que parece ser o início de um novo sistema, a seção “sightings”. Será que agora vai?

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Nos Estados Unidos e na Austrália, meses atrás, esse recurso funcionou de forma mais ou menos eficiente, mas a Niantic resolveu dificultar um pouco a jornada de caça aos pokémons e descalibrou o radar — a ponto de torná-lo um item decorativo — e baniu apps de terceiros que ajudavam na caçada, como o Pokévision, uma tipo de Google Maps que escaneava todos os pokémons próximos. Desde então, o público estrangeiro tem reclamado bastante. Na página oficial do jogo no Facebook, há relatos dramáticos: “Não tenho mais vontade de jogar Pokémon Go. Minha cidade é pequena, e o radar era a única chance de eu pegar um monstro que não fosse um maldito Pidgey”. Tudo indica que os Pidgey são os Zubats dos EUA.

Os brasileiros, no entanto, já aprenderam a jogar no “level hard” e têm se virado bem sem esses mimos. Aqui, é preciso caminhar em áreas com muitos PokéStops perfumados com as tais das “lures”, que atraem os monstrengos, e esperar, com muita paciência, pela aparição de algum pokémon um pouco mais raro, como, por que não, um Grimer de Combat Power 240. E justiça seja feita: quem jogou no Game Boy sabe quão repetitiva pode ser a vida de um mestre pokémon.

Coliseu de monstrinhos

Na Paulista, à noite, a jogatina se intensifica e pequenos grupos se aglomeram nas áreas em que a Niantic escolheu para instalar os ginásios — talvez o elemento mais social do game, que ainda não possibilita outras interações entre os usuários. Enquanto um telão no outro lado da avenida mostrava os Jogos Olímpicos do Rio, um trio de jovens concentrava-se em matar um Exeggcutor do time azul, que guardava o ginásio na frente da loja de eletrônicos FNAC. Um dos jogadores, com jeito de líder, falava para o outro: “Fica na contenção para quando o ginásio cair. Esse Seaking está me dando trabalho”. A princípio pode ser complicado entender a lógica dos ginásios, por isso Vinicius Matos Aguiar, de 26 anos, dá uma pequena aula: “Quando você derruba um ginásio, pode colocar um pokémon seu para guardar lá. Conforme outros jogadores do seu time vão brigando com o seu pokémon e ganhando, seu ginásio ganha prestígio e vai aumentando de level, e aí pode ter mais pokémons para defender. Você perde o domínio do ginásio se alguém de outra equipe vence de todos os pokémons guardiões, entendeu?”.

Vinicius, que aprendeu essas táticas em uma viagem para os Estados Unidos, estava perdendo a batalha: “Achei estranho que os brasileiros já têm pokémons muito fortes em pouco tempo. Tem um pessoal que diz que tá rolando um cheat (trapaça no jogo)”. Sim, alguém deve estar trapaceando, mas também tem outra explicação que se apresentou para nós num encontro fortuito a caminho do Parque do Ibirapuera. Em um dos gramados da rua Abílio Soares, em uma PokéGym pouco concorrida, nossos pokémons foram derrotados — ao lado, a wild Luis Felipe appeared. “Fui eu, sim. Sou do time amarelo”, comemorava discretamente o amigo de 12 anos, talvez por saber que a própria Niantic só recomenda o jogo para maiores de 13.

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Embora Luis Felipe seja um forte concorrente com seu Scyther e suas tardes livres, Pokémon Go parece se encaixar muito bem na vida de quem tem de 20 a 35 anos. Primeiro por razões óbvias, como a ausência de pais e o que chamam de maturidade para atravessar as ruas com a mínima segurança e saber quando é hora de parar — ou, pelo contrário, não parar nunca e perder o emprego, solucionando o problema da falta de tempo. Por coincidência, também é essa geração que sabe de cor o nome dos personagens, seus poderes e peculiaridades. Além disso tudo, é difícil pensar em outra faixa etária que possa sucumbir à aquisição de pokébolas e acessórios virtuais com dinheiro real, já que o game não escapa da maldição dos joguinhos de celular: vantagens gratuitas são oferecidas só para seduzir, mas o sistema espera que mais cedo ou mais tarde você compre alguma coisinha.

Ingresso pra diversão

Uma das maiores dificuldades no desenvolvimento de Pokémon Go deve ter sido distribuir PokéStops e PokéGyms no mapa do mundo inteiro. Para piorar a trabalheira, cada um desses checkpoints tem nome, foto e uma pequena descrição. No Brasil, foram encontradas várias paradas batizadas de maneira criativa, como “Mário Maconha” — com uma imagem de um grafite em que o Super Mario está, cof cof, fumando um baseado —, “Sereia Mono-teta”, “Toquei e Saí Correndo” e “Gato Louco por Música” e toda a sorte de PokéStops em lápides de cemitérios.

O cemitério São Paulo, em Pinheiros, é um capítulo à parte. Com nada menos do que 17 PokéStops — cada um devidamente nomeado em homenagem às tumbas, como “Túmulo da Família Issa” —, esse talvez seja o espaço mais relaxante da cidade para uma sessão com os amigos. Na segunda-feira estivemos lá e encontramos um Haunter — pokémon do tipo fantasma — em cima de uma lápide, no que foi a experiência mais mórbida de realidade aumentada misturada com a vida real. Por lá também atraímos, com uma lure aplicada num PokéStop, um casal que estava faltando no trabalho para jogar um pouco. Anda se sentindo sozinho? Jogue uma lure em um PokéStop vazio e sinta-se com um poder de atração digno de um Flautista de Hamelin.

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Há uma razão para essa distribuição caótica e imprópria para menores. Pokémon Go é o herdeiro direto do primeiro jogo de realidade aumentada da Niantic, o Ingress, lançado no começo de 2013. Nele, o mundo se divide entre duas equipes, a azul (“Resistance”) e a verde (“Enlightened”), e a missão do herói é capturar portais distribuídos pelo mundo para o seu time. Te lembra alguma coisa? Os portais são os PokéStops, sem tirar nem por. É como se Ingress tivesse sido criado para que os jogadores fizessem o trabalho sujo de distribuir, nomear e fotografar áreas do mundo, tudo para que a Niantic lançasse depois o jogo que realmente importava. “Pokémon Go é muito melhor. O Ingress era bem mais complicado, era preciso entrar em contato com os jogadores de seu time a toda hora e o objetivo não parecia muito claro. Pokémon Go é mais lúdico, dá para jogar mais sozinho e a interface é bem mais convidativa”, diz Bianca Castanho, jornalista que escreveu uma matéria sobre o Ingress e já se rendeu aos monstrinhos de bolso.

Os assinantes daqueles planos de dados mais humildes podem pensar que ficaram de fora da “febre do momento”, mas Pokémon Go é democrático e gasta menos 3G do que aplicativos como o Facebook ou o Instagram. Com mais ou menos 50 MB, dá para caçar pokémons por mais de quatro horas sem se desesperar. A bateria dos celulares, no entanto, não aguenta tanto tempo. Pode observar: os jogadores que ficam perto dos PokéGyms em geral têm o aparelho conectado a um fiozinho na mochila — é a bateria portátil. Agora, até os vendedores ambulantes perceberam o mercado emergente e estão vendendo “baterias com carga completa por R$ 15”. Ou você acha que é fácil conseguir um Dragonite com CP 2000?

O dia ensolarado de inverno vai chegando ao fim e a mochila virtual de Pokémon Go vai ficando cheia. A solução é jogar no lixo as frutas que os pokémons adoram. Caminhadas de dez quilômetros parecem mais acessíveis do que nunca, mas o conteúdo dos ovos, incubados à medida que o jogador anda, quase sempre decepciona — o que inspirou um meme em que os personagens de O Senhor dos Anéis andam bastante e o Frodo olha chocado para o Rattata que nasceu. De vez em quando, os PokéStops desaparecem e o mapa se esvazia, num bug que alguns usuários vinculam a uma operadora de telefonia móvel.

Além de todas as mudanças de comportamento nas calçadas da cidade, os primeiros dias de Pokémon Go no Brasil foram marcados por outras inevitáveis manifestações virtuais. O morceguinho do momento ocupa o posto que foi de Glória Pires no Oscar 2016 e o Pikachu, coitado, virou garoto propaganda de anúncios sensuais. Muita gente garante que a realidade aumentada vai mesmo mudar o mundo e as redes sociais noticiam casos em que o jogo virou aliado contra a obesidade, a depressão e o autismo. Por outro lado, a imagem de um garoto corcunda com um pokémon montado no pescoço se transformou em ícone da alienação crescente a que essas invenções podem nos sujeitar. Seja o começo de uma revolução cultural ou só o meme da semana — ou uma evolução das duas coisas misturadas —, Pokémon Go conseguiu a proeza de trazer verdadeiras interferências de diversão ao caminho diário para o trabalho. Nem que seja para que todas as suas pokébolas acabem desperdiçadas naquele Zubat.