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Discutindo ‘Black Mirror’ S03E02: Playtest

A nova temporada de Black Mirror chegou na √ļltima sexta-feira no Netflix. Para discutir de forma mais detalhada — com spoilers! — cada um dos epis√≥dios do seriado dist√≥pico, decidimos fazer uma conversa dedicada a cada um deles. Um epis√≥dio por dia, seis dias seguidos.

Fernanda Reis: Depois de um primeiro epis√≥dio todo em tons pastel e mais engra√ßado e otimista que a m√©dia, “Black Mirror” engatou uma f√°bula de terror, com um tom bem diferente. Em “Playtest”, a s√©rie nos apresenta a uma figura assustadora com corpo de aranha e cara de p√™nis — uma representa√ß√£o daquilo que o protagonista, que testa um jogo de realidade virtual, mais teme na vida. Talvez porque eu n√£o seja muito f√£ de terror, pra mim, o epis√≥dio foi um pouco esquisito. Tanto a premissa quanto a execu√ß√£o n√£o me animaram muito. O que voc√™ achou, Leo?

Leo Martins: Olha, eu gosto de algumas ideias do epis√≥dio: o conto de terror que tem in√≠cio, meio e fim, a mistura de videogame futurista com elementos de terror cl√°ssico (casa abandonada, criaturas bizarras etc) e simpatizei com o personagem. H√° outros detalhes interessantes, como o “g√™nio dos games” que aparece e lembra, em alguns momentos, o personagem do Oscar Isaac em “Ex Machina” e uma boa discuss√£o sobre fugir dos seus problemas, doen√ßa, fam√≠lia etc. Mas, no fim, a escolha de diversos plot twists me incomodou. Por que ele foi esquisito pra voc√™?

Fernanda: Eu gosto mais de “Black Mirror” quando sinto alguma conex√£o com as quest√Ķes que ele prop√Ķe — do tipo “o que eu faria se eu tivesse a possibilidade de trazer algu√©m de volta dos mortos” ou “o que eu faria se eu pudesse saber a verdade sobre o que aquela pessoa est√° me falando”. Nesse caso, n√£o senti isso nenhum momento. Desde que o Cooper v√™ uma oferta de uma empresa de games para testar um jogo por muita grana, num aplicativo de “trabalhos estranhos”, eu soube que algo ia dar muito errado e que eu, com certeza, n√£o iria. A cada decis√£o que ele tomou eu pensei “p√©ssima ideia”, a escalada foi bem previs√≠vel pra mim at√© aquela sequ√™ncia de viradas na hist√≥ria bem no fim. Esse epis√≥dio n√£o me fez refletir em nada, n√£o acho que tem muito p√© na realidade — e isso pra mim √© a melhor parte de “Black Mirror”. Voc√™ tirou alguma coisa dessa hist√≥ria ou foi entretenimento puro?

Leo: Entretenimento puro, certeza. E, √© verdade, mesmo eu n√£o tendo gostado tanto do primeiro cap√≠tulo por diversas quest√Ķes que j√° discutimos, ele me fez questionar e refletir — ou pelo menos debater com outras pessoas — quest√Ķes muito mais ligadas ao nosso cotidiano. Nesse sentido, e pensando em tudo que “Black Mirror” j√° produziu, “Playtest” foge um pouco da regra de causar aquela ang√ļstia, o sentimento de que estamos caminhando para um precip√≠cio t√£o comum em outros epis√≥dios. Ele funciona como entretenimento sem grandes mist√©rios. E √© t√£o entretenimento puro que, oras, aquele jogo nem faz muito sentido, n√©? N√£o h√° objetivos, n√£o h√° nada nele que me lembre um jogo de verdade.

Em v√°rios momentos na parte da casa eu lembrava do “P.T.”, o jogo da franquia “Silent Hill” que nunca vai existir: h√° o elemento de n√£o saber de nada, de ter que explorar, mas no jogo, voc√™ ia aos poucos descobrindo detalhes, repetindo movimentos, tudo de forma muito misteriosa e assustadora. Esse jogo que o Cooper jogou n√£o tem nada disso, coitado. Talvez isso tenha dificultado qualquer grau de reflex√£o tamb√©m: os elementos mais sens√≠veis do cap√≠tulo — a morte do pai, a fuga da m√£e — s√£o tratados em pequenas p√≠lulas, em breves momentos, enquanto aranhas gigantes e truques da mente ocupam boa parte do cap√≠tulo.

Fernanda: N√£o acho que seja um problema ser s√≥ entretenimento, apesar de que acho que “Black Mirror” √© melhor quando critica alguma coisa ou coloca uma sacada nova sobre uma tecnologia que a gente usa hoje. Mas “Playtest” me pareceu mal constru√≠do. Aquela introdu√ß√£o antes de ele chegar ao jogo me pareceu muito longa e pouco necess√°ria pra hist√≥ria. A cena dele no avi√£o, toda a hist√≥ria dele com o aplicativo de encontros… Demora muito tempo pra chegar ao momento de terror da hist√≥ria e n√£o acrescenta muito √† hist√≥ria, n√£o vi muito desenvolvimento do personagem. Tudo acontece muito lentamente, mesmo o come√ßo da experi√™ncia dele com o jogo de realidade virtual, e de repente √© acontecimento atr√°s de acontecimento de um jeito que parece um pouco “vamos surpreender a galera a√≠” mais do que um plot twist inteligente, bem feito.

Leo: E tem o agravante de que, a partir do momento em que ele entra no jogo, na realidade virtual que tudo pode n√£o ser real, eu passei o resto do cap√≠tulo esperando a “sacada”. Fica aquele clima de que vai ter algum plot twist usando a diverg√™ncia entre virtual e real. E realmente tem, s√≥ que tem tanto, de tantas formas, que perde o sentido. N√£o √© um tipo de plot twist bem constru√≠do e amarrado como, por exemplo, em “Primer”. O que voc√™ achou da sequ√™ncia do final, at√© o final mais m√≥rbido poss√≠vel?

Fernanda: N√£o gostei, n√£o. Pra mim, o final teria sido mais forte se fosse aquele segundo, quando ele consegue escapar do jogo meio traumatizado, entendendo os riscos de misturar realidade com fic√ß√£o, e vai atr√°s da m√£e, quando descobre que chegou tarde demais e que ela est√° vivendo o pesadelo dele. Descobrir que isso tudo n√£o era verdade e que ele tinha morrido por causa da interfer√™ncia do celular me pareceu um truque meio barato. O tempo todo era o celular o vil√£o? E depois que eu descobri isso comecei a ver umas coisas estranhas na hist√≥ria. Ele nem chegou a participar da experi√™ncia na casa assombrada? Quando foi exatamente que o celular tocou e ele morreu? O que significa aquela cena de ele encontrando a m√£e se n√£o era parte do jogo? Comecei a ficar com v√°rias d√ļvidas, mas n√£o de um jeito bom. Voc√™ gostou do fim?

Leo: Pelo que eu entendi, tudo o que aconteceu a partir do momento em que o telefone toca √© inven√ß√£o da cabe√ßa dele. Ou seja, a mente dele “inventou” a casa (que ele mesmo diz que fazia parte do jogo antigo da empresa, ou seja, ele tinha a refer√™ncia), a mente dele inventou tudo, at√© os dois plot twists: ele sendo carregado sem mem√≥ria e ele encontrando a m√£e dele. Entendi assim porque a Kelly, a funcion√°ria, disse que tudo durou menos de um segundo, anotando at√© que a experi√™ncia durou 0,4 segundo no final. Ou seja, metade do epis√≥dio foi uma inven√ß√£o da cabe√ßa dele, um clima meio “Lost”, o que n√£o √© um bom sinal. Eu tamb√©m n√£o gostei do fim, e √© curioso perceber que qualquer um dos outros finais seria mais impactante para mim: se o “jogo” comesse a mem√≥ria dele e ele tivesse uma esp√©cie de s√≠ndrome de Alzheimer, uma ironia macabra relacionada ao pai dele, ou se ele voltasse para a casa da m√£e e tiv√©ssemos um final mais misterioso, no estilo “A Origem”, sem saber ao certo se aquilo era o jogo ou n√£o. O roteiro preferiu um final mais bruto e impactante, como se precisasse a qualquer custo fechar a hist√≥ria.

Fernanda: Mas ent√£o metade do epis√≥dio foi um filme que passou na cabe√ßa dele um segundo antes de ele morrer? Nesse caso tudo fica ainda mais sem for√ßa. Se n√£o fosse o sinal do celular, ou se ele n√£o fosse ganancioso a ponto de querer ganhar mais dinheiro com a experi√™ncia vendendo fotos do lugar, tudo teria terminado bem? Acho bem mais assustador pensar nos perigos da realidade virtual, nos usos que podemos fazer dessa tecnologia, do que pensar que a culpa foi do celular e que o epis√≥dio inteiro foi uma alucina√ß√£o. Se o final era pra ser chocante, o que aconteceu comigo foi o contr√°rio: uma sensa√ß√£o de “fuen fuen fuen”. “Black Mirror” j√° foi mais inteligente.

Leo: Isso me faz pensar que as duas primeiras temporadas de “Black Mirror” (e o especial de Natal) deixaram o patamar muito alto: sinto que muita gente, incluindo n√≥s dois, esperamos muito dessa temporada, por diversos motivos: a liberdade criativa dentro do Netflix, o n√ļmero de epis√≥dios, o estado atual da tecnologia e da pol√≠tica no mundo todo… √Č como se precis√°ssemos que “Black Mirror” fosse muito forte e nos desse um chacoalh√£o. Isso, de alguma forma, acontece no primeiro epis√≥dio. No segundo, a s√©rie fica mais pr√≥xima de entretenimento sem grande reflex√£o. Ser√° que estamos esperando demais?

Fernanda: Nunca sei muito o que esperar de “Black Mirror”. Pra mim, a s√©rie √© oito ou oitenta. N√£o gosto, por exemplo, do segundo epis√≥dio — aquele do show de talentos, que √© a chance para voc√™ ser libertado de uma vida que √© s√≥ pedalar para gerar energia — nem daquele em que um personagem de desenho animado se candidata a uma elei√ß√£o. Em compensa√ß√£o, fiquei meses passada depois do primeiro epis√≥dio, com a hist√≥ria do primeiro-ministro brit√Ęnico e o porco. Nessa temporada mais nova sinto a mesma coisa. Gostei bastante de uns, e outros — como “Playtest” — achei fracos. Mas √© normal isso acontecer numa s√©rie em que cada epis√≥dio √© independente e quase longo como um filme. N√£o d√° pra acertar todas.

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Discutindo ‘Black Mirror’ S03E01: Nosedive

A nova temporada de Black Mirror chegou na √ļltima sexta-feira no Netflix. Para discutir de forma mais detalhada cada um dos epis√≥dios do seriado dist√≥pico, decidimos fazer uma conversa dedicada a cada um deles. Um epis√≥dio por dia, seis dias seguidos.

Leo Martins: Black mirror! N√£o se fala de outra coisa. Futuro dist√≥pico. Cr√≠tica social foda. A terceira temporada chegou. Essa primeira conversa √© sobre “Nosedive”, o primeiro epis√≥dio da nova temporada. Fe, como eu sei que voc√™ tem uma certa quest√£o com notas de avalia√ß√£o, conta um pouco sobre o epis√≥dio e suas sensa√ß√Ķes assistindo.

Fernanda Reis: Acho que muitos epis√≥dios de Black Mirror ainda s√£o bem distantes do mundo em que a gente vive — por enquanto n√£o conseguimos rever nossa vida toda como num filme nem fazer uma esp√©cie de clone de algu√©m que morreu –, e os que mais me assustam, ou me tocam de alguma forma, s√£o esses que t√™m um pezinho na realidade. Desde que eu descobri que os passageiros tamb√©m eram avaliados no Uber e que minha nota n√£o era das melhores (n√£o vou revelar o n√ļmero pra n√£o queimar o filme), trabalhei bastante pra melhorar a minha pontua√ß√£o, e por isso me senti um pouco (bastante) representada pela trama desse epis√≥dio, em que todo o mundo batalha pra melhorar sua nota pessoal com base em todas as intera√ß√Ķes do dia a dia. E foi meio tenso.

Leo: Foi meio tenso como? Eu tamb√©m sempre gostei mais dos cap√≠tulos que passam mais pr√≥ximos da realidade — o primeiro de todos, do primeiro ministro brit√Ęnico, ainda √© meu favorito, mas s√≥ porque consigo imaginar tudo aquilo acontecendo de verdade. mas no caso do “nosedive”, n√£o sei se voc√™ concorda, eu achei que a hist√≥ria ficou muito clara e sem mist√©rios nos primeiros cinco minutos do cap√≠tulo. uma hora de busca por notas melhores, n√£o sei… Achei um pouco demais.

Fernanda: Mas acho que nesse epis√≥dio o importante n√£o √© tanto o mist√©rio, o que eu acho bom, porque outros epis√≥dios dessa temporada tem momentos meio M. Night Shyamalan de “ah√°, te peguei, olha a√≠ a surpresa!” que eu achei meio fracos. Nesse eu sabia que a nota dela ia cair e ela ia chegar ao fundo do po√ßo, mas eu queria saber como. Gostei de ver como ela, na tentativa de agradar desconhecidos e ser a pessoa perfeita, foi aos poucos pirando. Vale a pena batalhar pra subir a nota do Uber e for√ßar a simpatia? Calcular quando postar a foto no Instagram pra ter mais curtidas? Eu pensei bastante sobre essas coisas depois de ver.

Leo: O fundo do po√ßo √© realmente bom, e a atua√ß√£o da Bryce Dallas Howard (gosto demais dela desde “A Vila”) √© sensacional, desde aquela cena do come√ßo no espelho at√© a derrocada completa, a cena do casamento. As cenas de frustra√ß√£o dela s√£o muito boas. Por√©m achei o formato um pouco exagerado, talvez? Quando ela fala bem do caf√© mas depois toma e faz cara feia, ou at√© mesmo quando ela cai na lama, num momento meio “Trapalh√Ķes”. Mas se o cap√≠tulo te causou reflex√£o, j√° acho isso bom. No meu caso eu achei um tanto √≥bvio e sem nenhuma sutileza, e no fim acabei achando um pouco manique√≠sta. Acho que eu daria uma nota 2.78. Mas isso de calcular quando postar, se importar com a nota do Uber: voc√™ acha isso essencialmente ruim ou s√≥ em uma vers√£o dist√≥pica como essa?

Fernanda: Não sei! Acho que é bom você ser uma pessoa simpática com quem você não conhece, mas você é verdadeiramente uma pessoa legal se você só é legal porque quer uma nota? Não ter problema você ser falso desde que suas atitudes sejam boas? Não tenho certeza se isso é essencialmente ruim, mas a versão distópica acentua os problemas desse tipo de atitude. Isso às vezes me incomoda em Black Mirror, que a tecnologia seja sempre ruim, que todos os defeitos da internet, dos computadores, da ciência, sejam elevados à enésima potência. Tudo bem, talvez seja a proposta mesmo, mas falta sutileza mesmo. Você já começa um episódio esperando as piores consequências e nove entre dez vezes você está certo. Esse episódio, pelo menos, achei menos pessimista. Tão exagerado quanto os outros, mas um pouco menos pessimista.

Leo: Me incomoda bastante tamb√©m isso de “a tecnologia √© a vil√£”. Normalmente eu acho que o problema maior √© a humanidade mesmo. E acho que o cap√≠tulo s√≥ n√£o √© muito pessimista por causa daquele final com al√≠vio c√īmico, extravasado. Fora isso, achei o cap√≠tulo bonito em alguns trechos, como quando ela est√° na estrada a p√©, mas no geral esse exagero afeta at√© as escolhas visuais ‚Äď √© tudo t√£o exagerado… Mas como um conto quase de terror, podemos dizer que funciona?

Fernanda: Eu acho que funciona, gostei dos contrastes daquele cen√°rio todo pastel, todo feito pro Instagram, em que tudo d√° errado. Algo meio “Mulheres Perfeitas”. Costumo ficar mais assustada quando coisas ruins acontecem num cen√°rio que parece perfeito, em que voc√™ n√£o espera que algo d√™ errado, do que quando coisas ruins acontecem numa casa mal assombrada. No caso do segundo epis√≥dio eu pensava “eu nunca estaria nessa situa√ß√£o, √© √≥bvio que √© uma cilada”. Em “Nosedive” o impacto √© maior e eu fiquei mais interessada na derrocada dela, porque me pareceu mais real. Voltando √† sua nota 2.78, voc√™ acha que foi o pior epis√≥dio de Black Mirror at√© agora?

Leo: Talvez, acho que ele s√≥ perde para aquele da segunda temporada, “The Waldo Moment”, que √© bem fraco. Sei que voc√™ j√° viu v√°rios dessa temporada nova, mas s√≥ vi o “nosedive” e √© poss√≠vel que a f√≥rmula da s√©rie tenha se esgotado pra mim: mesmo tendo hist√≥rias fechadas em um cap√≠tulo de uma hora, o que d√° espa√ßo para surpreender e causar espanto, esse formato “distopia para chocar” n√£o me atrai mais tanto, principalmente quando n√£o h√° nenhuma sutileza — l√° vou eu voltar pra esse ponto –, o que diminui meu interesse em ficar refletindo sobre. √Č tudo t√£o claro, t√£o “a tecnologia √© do mal, estamos fadados ao caos” que fica complicado. Pra mim, fica parecendo tudo um microuniverso do Vale do Sil√≠cio, uma coisa meio “o que os fundadores do Google ou o Mark Zuckerberg” gostariam de ver como mundo ideal”.

Fernanda: Concordo com voc√™, e eu senti isso em alguns outros epis√≥dios que a gente comenta mais pra frente. Mas com esse n√£o tive essa sensa√ß√£o, porque a tecnologia √©, entre muitas aspas, pr√≥xima do que a gente j√° tem. N√£o √© a tecnologia em si o problema, mas o que as pessoas fazem com ela: usar esse status social pra dar vantagens pra alguns e n√£o pra outros, tentar acabar com a vida de quem voc√™ n√£o gosta diminuindo o status dela, deixar as amizades e rela√ß√Ķes reais de lado em nome disso. Nesse caso acho que os vil√Ķes somos n√≥s, e por isso achei mais interessante. Colocaria esse epis√≥dio bem mais pra cima na minha lista.

Leo: Então qual seria a sua nota precisa dada naquele aparelhinho esquisito para o capítulo?

Fernanda: Quatro estrelas — n√£o √© o meu favorito, mas t√° acima da m√©dia.

Leo: Justo! Amanh√£ voltamos com “Playtest”.