“Você não percebeu, mas naquela mesa as pessoas me olharam de um jeito quando a gente chegou”, me diz Xênia França numa padaria bacana na Vila Madalena, em São Paulo. Na verdade eu tinha reparado que as pessoas olharam. Só não sabia se eles estavam olhando por ela ser bonita, por causa de suas roupas estilosas, de seu lindo cabelo volumoso, ou por ela ser negra.

Xênia é a única mulher da banda Aláfia. Ela divide com Eduardo Brechó e Jairo Pereira os vocais da banda de 11 integrantes que combina diferentes gêneros da música negra com letras sobre negritude de uma forma tão bonita que é fácil dizer que Corpura, lançado em setembro, é um dos melhores discos nacionais do ano. E quando se fala de Xênia, não é possível dizer apenas que é uma cantora. É preciso dizer que ela é negra. É preciso dizer que ela é linda. Porque, em 2015, isso ainda importa.

“A minha cor vai ser dissociada lá na frente. Eu vou deixar de ser uma cantora negra pra ser uma cantora, eu vou deixar de ser uma mulher negra bonita pra ser uma mulher bonita”, me diz. O Aláfia é daquelas bandas que não estão no underground, mas também não pertencem ao mainstream. Mesmo assim, Xênia é uma grande referência, especialmente para mulheres negras, o que a deixa desesperada – “porque eu sou uma pessoa”, e não uma fada como algumas crianças acreditam que ela é.

“Diva”, “linda” e “musa” são palavras que se ouve da plateia quando o Aláfia se apresenta. Mas, quando estava na escola, Xênia não era considerada bonita. Não era da turminha das garotas populares, e não era a mais desejada pelos meninos. Era uma das poucas alunas negras de um colégio particular em Camaçari, na Bahia, e nem sempre participava dos passeios e viagens escolares porque a mãe era muito preocupada. Quando falamos sobre a importância da beleza, ela resgata uma “lembrança triste” da infância. Ela tinha nove ou dez anos, era junho e as crianças se preparavam para o São João. Sua mãe havia comprado um vestido lindo, xadrez e rodado, e ela estava na expectativa de dançar quadrilha, mas não foi escolhida.

“Quando as pessoas falam que eu sou linda e maravilhosa eu aceito, porque eu realmente acho que eu sou linda e maravilhosa. Eu não nego isso, não tenho vergonha disso, porque é importante pra mim, pelas coisas que já passei na infância, e por saber que hoje em dia eu tenho uma responsabilidade”, desabafa. “A beleza pra mim não é uma coisa efêmera, é uma ferramenta de trabalho. Como eu trabalho praticamente com militância, a gente precisa pegar tudo que for positivo e transformar em propaganda pra nós.”

“A minha cor vai ser dissociada lá na frente. Eu vou deixar de ser uma cantora negra pra ser uma cantora, eu vou deixar de ser uma mulher negra bonita pra ser uma mulher bonita”

Quando Xênia conheceu Eduardo Brechó, em 2011, apresentada por um amigo em comum, a ideia era que ele a ajudasse a montar seu disco solo. Ela frequentava a casa dele (“tem muito vinil, ele é pesquisador musical, conheci ele como DJ”), que também era visitada por outras pessoas como Jairo Pereira. Um dia o gaitista Lucas Cirillo chegou e eles ficaram tocando Michael Jackson. As pessoas foram chegando, os encontros viraram semanais, e três meses depois o Aláfia fazia seu primeiro show. “Quando fomos ensaiar com o Fi, que era baterista, chegou o [baixista] Gabiru e falou ‘como assim? Ele é meu primo’. Foi tudo muito sincrônico.”

Foi no dia 11 de junho de 2011, no Bar B, em São Paulo, que o Aláfia fez seu primeiro show. Xênia passou na casa de um amigo para se arrumar e chegou em cima da hora do show. “Quando entrei o bar estava lotado e 80% das pessoas que estavam lá eram negras, achei aquilo foda. Era muita gente preta no lugar, e eu nunca tinha visto aquilo em São Paulo. Eu vinha de outra realidade, trabalhava com moda. Nessas festas de moda não tem negro, era eu e mais um, e os outros negros que estão lá são os cozinheiros, os faxineiros.”

Falar de negritude e de racismo sempre foi a intenção da banda, mas Xênia diz que isso tomou uma proporção maior quando eles perceberam que as pessoas iam aos shows para ouvir o que eles tinham para falar. “A gente não tá falando pra eles, a gente tá se comunicando. Essas pessoas também têm um monte de coisa pra dizer.” O Aláfia é uma banda interracial. “Tem preto e tem branco. As pessoas brancas entraram pra tocar, só que a nossa vivência é muito séria e muito forte. Quem não pensava sobre isso acabou entrando [na militância]. Posso garantir que 100% das pessoas no Aláfia estão indignadas com alguma coisa na sociedade.”

Me encontrei com Xênia França pela primeira vez num restaurante nordestino simplão na Santa Cecília. Acompanhada de cinco belas amigas, o que fazia com que a mesa em que estavam sentadas se destacasse, ela estava levemente bêbada após tomar uma caipirinha. Por sugestão dela, pedi uma também. Estava nervosa e tinha calculado quais perguntas fazer naquela ocasião e em qual ordem, com medo de ser invasiva demais, e esperando que ela pudesse ganhar confiança em mim pra se abrir. A pergunta “qual seu signo?” estava no fim da lista, mas foi a primeira coisa que ela falou, assim que me sentei. “Sou Peixes com ascendente em Leão e Lua em Virgem. Por isso que sou chata”, brincou. Ela disse que era por isso que, apesar de ser essa pessoa expansiva e “pró-ativa na amizade” quando encontra as pessoas, precisa de um tempo sozinha, só pra ela.

Culpa ou não dos astros, Xênia tem realmente essa dualidade. Ela fala bastante, chora de rir, imita Marília Gabriela, se mostra bem à vontade e usa muitas gírias do universo gay na hora de conversar sobre coisas corriqueiras. Mas também fala baixo, é introspectiva, articulada, e sobretudo inteligente. Xênia pensa muito sobre a sociedade e o mundo em sua volta, mas também se dedica bastante ao auto-conhecimento.

“Posso garantir que 100% das pessoas no Aláfia estão indignadas com alguma coisa na sociedade”

Não tem religião, mas sempre foi ligada com o “invisível”. “Sempre tive muita curiosidade mas também muito medo, porque a religião põe medo nas pessoas.” Na infância, foi batizada na Igreja Católica e fez primeira comunhão, mas na adolescência já não se identificava mais com o catolicismo. Ela vem de um estado onde o candomblé é forte, mas foi se aproximar e pesquisar mais sobre o assunto com o Aláfia. “Tem muitas pessoas no Aláfia que são filhas de santo mesmo, e por causa da pesquisa musical, que passa por esse lugar.” Ela é filha de Xangô e Iemanjá, e procura saber a influência dos orixás em sua vida. Frequenta o Terreiro do Bogum quando vai a Salvador. “Faz parte de um lance de identidade, ancestralidade, mas não tenho a cabeça feita e acho que nunca vou ter.”

A cantora frequenta o Templo Sukyo Mahikari Dai Dojo, onde recebe “umas energias pelas mãos” e consegue estabelecer uma conexão com o invisível. Tudo faz parte de sua busca para se achar e “ser uma pessoa mais confortável dentro de mim”. “Todo mundo que me conhece me acha super engraçada. Sou uma pessoa muito expansiva, tô sempre falando. Falando da minha vida, das minhas coisas, e mesmo assim o que é importante mesmo, o que me choca, o que me magoa, eu não falo.” Foi na terapia de florais que ela encontrou a possibilidade de se abrir e falar sobre o que ficava guardado.

Tudo isso ajudou para que ela saiba lidar “relativamente bem com a minha vida”, mas não impede que ela tenha crises, como todos nós. “Eu me sinto tão realizada cantando, sei que é isso que eu deveria estar fazendo, mas tem horas que bate um negócio assim, que acho que deve ser do meu signo, meu ascendente, da mistura que é meu mapa [astral], um número de frustrações.”

Xênia não fez aula quando começou a trabalhar com música; hoje em dia, faz aula de canto e fonoaudiologia. “Quando escutava qualquer coisa [que gravei] eu ficava triste, porque achava que não tava bom. Não gostava da minha voz.” No Aláfia, ela cumpre a função que lhe é dada – “estou ali mais como instrumento do que como cantora, é como se eu fosse uma guitarrista” –, imprimindo um registro de voz de black music que gosta, mas que não encerra suas ambições estéticas. “Não consigo me expressar tanto como se eu fosse uma cantora solo, colocar pra fora quem eu sou de verdade.”

Fora do Aláfia, ela faz participações em shows de amigos e vem apresentando um espetáculo em homenagem ao Gonzaguinha. “É muito diferente poder cantar canção, poder ser mais sereno. E cantar sozinho é muito diferente, você mostra um outro lado artisticamente.” A ideia do álbum solo, que surgiu em 2011, só está tomando forma agora. Na época ela tinha medo de gravar, e não se sentia preparada. “Não tinha nada em mente, só queria cantar”, lembra. Após dois anos pensando no disco, ela começa a se dedicar mais à escolha do repertório e a linguagem que quer passar.

SÃO PAULO, SP, BRASIL, 10-10-2015, 19h: Retrato da cantora Xênia França. (Foto: Lucas Lima/riscafaca).
Crédito: Lucas Lima/Risca Faca

Quando Xênia era adolescente, queria ser jornalista, inspirada pela Glória Maria, repórter da Rede Globo. “Não pensava muito na coisa da negritude nessa época, mas já sentia uma diferença ali, que só existia uma mulher preta ali na televisão que a gente assistia.” Mas seu professor de português, que já havia sido jornalista, recomendou um texto sobre a falta de liberdade de expressão causada pelas famílias que controlam as grandes mídias, e ela desanimou. Fez Comunicação Social, mas com a especialização em Publicidade. “Na escola eu não suportava estudar, mas quando entrei na faculdade achava o máximo estudar e ler coisas que estavam diretamente ligadas à minha personalidade”, recorda. Mesmo assim, viu que a profissão não era pra ela.

Aos 17 anos, Xênia se inscreveu num concurso da revista Raça Brasil. Não ganhou, mas ficou entre as dez primeiras e foi para São Paulo em 2004 trabalhar como modelo em uma agência especializada em negros. A primeira pessoa que conheceu na capital paulista foi Samira Carvalho, a garota que estava na capa da revista Raça quando ela se inscreveu no concurso. “Ela tava sentadinha no chão, fazendo tricô”, conta Xênia. Samira é top model e agora vende suas belíssimas criações em tricô e crochê na marca que criou, a Sambento. Ela também é uma espécie de consultora de estilo de Xênia, emprestando roupas e ajudando no styling. Foi Samira quem fez o vestido sob medida usado por Xênia no show de lançamento de Corpura, no Auditório Ibirapuera. “Assim que a Xênia chegou rolou uma conexão boa entre a gente”, conta Samira.

A vida de modelo não foi fácil. Eram poucas as ofertas para as negras, e o que ela mais fazia era, ironicamente, trabalhos para publicidade. Grande parte do sustento vinha da mãe, e ela diversas vezes fazia as malas, preparada para voltar à Bahia, até que alguma coisa a fazia ficar. “Cheguei aqui [em São Paulo] querendo ser a Gisele Bündchen e tomei um baque.” Mas ela fez amigos, entre eles os integrantes da banda de rock Sorriso Vertical, que costumava tocar no Sarajevo, casa noturna da rua Augusta que ela frequentava.

Em 2007 ela mudou da região da Augusta para o Itaim Bibi, e os amigos do Sorriso Vertical sempre apareciam para encontros na casa dela. Eles se juntavam para cozinhar, assistir filmes, e principalmente tocar violão na cozinha, quando ela cantava despretensiosamente. O guitarrista da banda, Caio Echem, elogiava sua voz, mas ela não dava muita bola. Porém, na metade daquele ano, Caio a convidou para montar uma banda de samba rock (“nessa época estava no auge”), e ela aceitou. Uma semana depois, ela faria sua primeira apresentação como cantora no aniversário de uma amiga do baterista.

Ela ainda trabalhava como modelo, mas momentos importantes foram acontecendo — rápido e aos poucos — em sua carreira musical. Em 2008, ela foi assistir ao VMB e reencontrou Fred Ouro Preto, também do Sorriso Vertical, que concorria pela direção do clipe “Triunfo”, do Emicida. Fred apresentou os dois, passou o telefone da Xênia para o Emicida, e um belo dia, enquanto ela estava em um casting, o rapper ligou perguntando se ela podia aparecer no estúdio, porque ele precisava de uma voz feminina. Ela saiu da prova de roupa, foi encontrá-lo e gravou pela primeira vez em um estúdio.

A vida de modelo/cantora foi sendo levada, com anos de apresentações na noite paulistana na bagagem. Mas só tocar na noite não a satisfazia mais, e ela começou a montar o Aláfia, onde realizaria seus desejos artísticas no momento. E ser modelo também já não era legal. “Sentia que estava insistindo numa coisa que não era pra mim”, diz. A transição de modelo para cantora foi bem difícil, o dinheiro faltava, e ela passou dez meses trabalhando em uma loja na Oscar Freire, para se sustentar enquanto o Aláfia preparava o primeiro disco. “Mas cada vez que eu tava num estúdio, me sentia muito satisfeita. Muito diferente de quando eu era modelo e tava num trabalho já pensando em quando seria o próximo.” Ser cantora não estava nos planos quando Xênia saiu de Camaçari, na Bahia (ela foi criada lá, mas nasceu em Candeias), mas a música foi um canal para ela encontrar o melhor de si.

 

“Ela é uma deusa e vai ganhar o mundo”, me disse a cantora Tássia Reis quando perguntei se ela poderia falar sobre a Xênia. Tássia gravou com o Aláfia, participa dos shows, e acabou “fazendo uma ocupação na casa dela” por alguns meses, quando chegaram a compor juntas. “Ela me chamou pra uma música. Escrevi uma parte, acompanhei de ver ela compondo na sala, ficou incrível. Ainda não gravamos”. A Xênia tinha me dito que “quebra a cabeça para aprender a tocar violão”, e fico surpresa em saber que ela já está compondo com o instrumento. “Ela é muito talentosa e sagaz”, explica Tássia.

A Xênia tem essa aura que encanta, atrai a atenção pra ela. Coisa de deusa mesmo. E ainda essa facilidade de se conectar com as pessoas instantaneamente. “Tenho a imagem daquele dia que, quando olhei pra cara dela e começamos a conversar, foi um tal de dar risada geral. E guardo essa sensação — parece até reencontro, manja?”, recorda Pipo Pegoraro, músico solo e companheiro de Aláfia, sobre o dia em que conheceu a cantora.

Vê-la falar com propriedade sobre política, racismo, ou mesmo os quasares reforça essa impressão de que ela é uma mulher perfeita (e ainda assim acessível). E por mais que Xênia gaste muito tempo falando sobre ter evoluído em sua relação com o mundo e consigo mesma, ela às vezes gosta de lembrar da sua humanidade. “Tenho meus traumas, mas tento resolvê-los, não fico sofrendo. Às vezes fico, porque eu sou uma pessoa.” Se livrar do drama que acompanha todo pisciano é um exercício diário. Ela explica que, no dia anterior, foi dormir às 3h da manhã, em crise, achando que tinha se “comportado de maneira errada com uma pessoa”. Quando acordou, leu um livro (“O Poder do Agora” é sua Bíblia), foi ao templo, e fugiu do limbo do sofrimento. “Pra poder eu ser isso aqui, tenho que me esforçar muito, porque não sou tão calma.”

Xênia tem esse jeito particular de resolver seus conflitos. Seu pai morreu jovem, “acho que com 51 anos”, e chegou a acompanhá-la em um desfile, mas nunca a viu cantar. “Minha mãe é um pouco mais fria com esse lance de música, e acho que meu pai ia pirar. Fico pensando que ele podia ver, e agora não dá mais tempo.” Naquela semana, ela teve um sonho com seu pai. Estava conversando com um amigo – que no momento ela ainda não sabia, mas também era órfão de pai – sobre o assunto, e comentou: “Tanta coisa que a gente tinha pra resolver, né? Como faz pra resolver isso com eles? Acho que só em sonho”.

O pai dela se sentava ao piano e fazia uma música. Ela ouvia com clareza a letra e a melodia. “Acordei arrasada e mandei [uma mensagem de] áudio para o meu amigo na mesma hora. Aí eu cantei a melodia pra ele. Não lembro a letra, mas ele falou que a gente vai fazer essa música.”

Nas duas vezes que nos encontramos, Xênia falou que, se ela estava ali conversando comigo, era por causa de sua mãe. Mais especificamente, por causa de uma professora que se encantou com a dona Dalva Estrela, achou que ela tinha potencial e a levou pra Salvador para estudar. Dalva acabou de se formar em sua segunda faculdade, e pretende cursar a terceira. “O vislumbre que a professora [que ela considera vó postiça] deu à minha mãe, minha mãe passou para mim. Nenhuma outra pessoa na minha família teve o deslumbre de viver de arte, só eu.” Xênia menciona o tempo todo a admiração que tem pela mãe, e como ela é um exemplo de superação.

“Tenho muitas lembranças dela pequenina, nossos passeios no Club da Fábrica onde o pai trabalhava, as peraltices dela, subindo nas árvores, e eu correndo atrás dela para não se machucar. Estava sempre tentando protegê-la”, conta Dalva. Xênia é filha única de mãe solteira, e as duas criaram um laço forte, tornando o impacto da mudança da cantora para São Paulo ainda maior, e bastante sofrido para Dalva.

Os pais de Xênia se conheceram numa festa, “tipo uma quermesse”. Ele era técnico de som, mas tocava violão e cantava. “Era alucinado pelo Emílio Santigao, que é uma das minhas influências musicais por causa dele”, confessa a cantora. O casal se separou, e Xênia cresceu sem muita proximidade do pai, o que tornou a morte ainda mais difícil para ela. E ele pode nunca ter visto a filha cantar, mas com certeza influenciou a veia artística dela. Seus brinquedos de infância eram todos instrumentos, de tecladinho a harpa.

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Ser uma cantora negra, mesmo de boca fechada, já é ser a própria militância. Xênia faz essa observação antes de me dizer que acha importante se posicionar, para poder quebrar os esterótipos. “Nem posso dizer que sou uma militante; sou uma figura que contribui para que essa falta de representatividade seja menor.” E ela faz isso não só por meio de sua arte, mas também pelo jeito como vive, se dando o prazer e o “direito” de frequentar onde quiser, de andar na rua balançando um leque em um dia de calor. “Não me vejo como uma pessoa negra, eu me vejo como uma pessoa.”

Ela acredita que, em 2015, começamos a ter um vislumbre de democracia racial. Mas ainda há um racismo institucionalizado que impede que as pessoas negras se desenvolvam no Brasil, mantendo os negros em subempregos. Além, é claro, do racismo mais óbvio, na forma de agressões. “Não sei se é porque eu imprimo uma consciência muito forte de quem eu sou, esse racismo não me atinge”, diz, explicando que sabe muito bem o que dizer caso alguém tenha o “equívoco de me agredir com essa pobreza de espírito”, mas que isso nem a ocorre. “Mas não posso achar que porque minha vida é boa que a vida de todo mundo tá legal.”

Alguns dias depois da entrevista, Xênia me envia um texto sobre a solidão da mulher negra, para que eu entendesse melhor do que ela estava falando quando disse que “a mulher negra não namora, ela está sempre ficando”. Vem sendo abordado recentemente por ativistas a preterição da mulher negra nos relacionamentos afetivos heterossexuais, tanto por homens brancos quanto por homens negros. É um reflexo do estereótipo da negra como mulher “quente”, que é objeto de fantasias sexuais mas não “serve” para um relacionamento sério.

Xênia tem 27 anos, e teve seu primeiro namorado aos 24. Antes disso, ela só ficava. “Na hora do ‘vamo ver’ os caras não queriam namorar. Ficava pensando ‘será que sou chata, que sou feia, será que é por que eu sou negra?’ Hoje em dia não penso mais nada disso, mas nessa época tinha esses conflitos.” Ela conheceu Lucas Cirillo, gaitista do Aláfia, quando a banda estava se formando, no começo de 2011. Eles se tornaram grandes amigos, mas só foram ficar em outubro – ele já estava encantado por ela, mas Xênia não dava muita bola. “Ficava eu bobão, aí eu desencanei de correr atrás dela, aí inverteu a história. Foi ela que enquadrou”, resume Cirillo. Xênia foi quem pediu o gaitista em namoro, e em março eles completam quatro anos juntos.

“A gente tenta limitar a hora que vai falar de banda e a hora que vai falar de namoro”, explica Cirillo. A parceria, é claro, se estende na música, e um ajuda o outro na hora de avaliar as composições ou opinar no trabalho. “Quando ele me mostrou ‘Cala’, na cozinha de casa, eu falei ‘essa música é a cara do Aláfia’, porque existe um tipo de composição que é para o Aláfia”, tinha me contado Xênia quando falávamos de Corpura.

Os dois demonstram imensa admiração pelo outro. “A gente conversa sobre tudo, traição, ciúme, eu ser preta, ele ser branco”, diz Xênia. Ela elogia bastante o fato de Cirillo não ter ciúme, ainda mais por ela ser uma pessoa expansiva – dessas que beija, abraça e é atenciosa com todo mundo. “Fui eu que escolhi ele. E foi uma ótima escolha.”

Depois de resolver tantos conflitos internos, a vida afetiva de Xênia é uma aspecto que ela “não tem do que reclamar”. E o sentimento parece mútuo: “É claro ver como ela é encantadora onde ela chega, não só pela beleza mas pelo espírito alegre e contagiante. Ela tem um ímpeto, uma garra, um espírito guerreiro que é muito bonito de ver”, elogia Cirillo.

No show de lançamento de Corpura, no Auditório Ibirapuera, Xênia era inevitavelmente o centro das atenções, com seu vestido longo com fendas nas pernas e brincos enormes. Mas em dado momento, quando Brechó e Jairo cuidavam dos vocais, ela foi para o canto, como se ninguém tivesse olhando, e conversou por alguns momentos com o gaitista. O brilho que ela tinha nos olhos era algo que não dá pra fingir.

***

Xênia Eric Estrela França ganhou esse nome inspirado na jornalista Xênia Bier. “Achava ela incrível e muitíssimo inteligente. Acho que acertei, pois também acho minha filha incrível e inteligentíssima”, ri Dalva, mãe da cantora. Xênia é um nome de origem grega que significa estrangeira, hospitaleira. “Não sei se o significado é tão impactante quanto o nome, porque acho meu nome muito forte. E acho que sou Xênia mesmo. Não teria outro nome. Acho que é assim que me sinto no mundo também, meio estrangeira. Me sinto muito de passagem aqui. Vim aqui pra aprender, muitas vezes fico bastante chocada. Não consigo entender direito o porquê das coisas, das injustiças.”

Ela me diz que gosta de dar conselhos. Já tinha reparado: suas respostas, sempre longas e elaboradas, costumam terminar com algum tipo de conselho (“acho que todo mundo tem que fazer terapia”). Mas Xênia também gosta de aprender, de receitas saudáveis a como tomar vinho até ao cosmos, o assunto que ela mais se dedica. Música ela só ouve em casa se tiver fazendo alguma pesquisa.

A padaria chiquezinha da Vila Madalena fecha, e Xênia senta comigo num parklet. Cai uma chuva fina. Ela fala sobre suas grandes amigas, Indira e Samira, que são como irmãs; sobre a magnitude do planeta; sobre energia. “Esses dias o seu Mateus Aleluia descobriu que tem uma pantera na África que chama ‘tchênia’. Ele ficava no palco falando ‘tchênia’, e eu achava o máximo, ficava me sentindo”, lembra, rindo. Suas roupas coloridas ficam ainda mais estilosas em seu corpo de 1,73m de altura. Seu cabelo volumoso continua impecável. Xênia olha no seu olho, pega no seu braço, por poucas vezes parece calcular as palavras, e quase sempre fala com uma espontaneidade de quem é segura de si. Xênia domina o ambiente. Como uma pantera.