Em 15 de maio de 2006, o filho de Débora Maria, Rogério, passou na casa dela para buscar um remédio e ela pediu: “Não saia hoje”. Naquele dia um policial da família havia ligado pra Débora e dito que as pessoas de bem deveriam ficar em casa, porque quem estivesse na rua era inimigo da polícia. Dias antes, em 11 de maio, a Secretaria de Administração Penitenciária decidiu transferir 765 presos, entre eles o líder do PCC, Marcola. Na noite do dia 12, integrantes da facção iniciaram um atentado contra agentes de segurança pública de São Paulo, gerando uma retaliação por parte da polícia. No confronto, mais de 500 pessoas morreram — entre elas, Rogério.

Com outras mães que perderam filhos naquele episódio conhecido como crimes de maio, Débora Maria formou o grupo Mães de Maio — o nome é inspirado nas argentinas Mães da Praça de Maio –, que pede a desmilitarização da polícia e luta para que os assassinatos de maio de 2006 não sejam esquecidos. É a história dessas mães que inspirou a cineasta Susanna Lira a produzir o documentário “Não Saia Hoje” — palavras de Débora ao filho –, que estreou no canal Futura na quinta (12)  e depois foi disponibilizado na internet.

Susanna é carioca e não estava em São Paulo em maio de 2006. Mas lembra-se de ver, pela televisão, as ruas de São Paulo vazias e os números de mortos crescendo. “Parecia que não era verdade o que estava acontecendo, de tão assustador e tenebroso que era. Como sou do Rio vi só pela televisão, então parecia ainda mais fabuloso — no sentido de fábula mesmo. Como, em duas semanas, morreram 500 pessoas em São Paulo?”, conta ela. “Foi chocante. Tenho uma lembrança traumática desses dias. Ainda mais porque era perto do Dia das Mães, lembro daquelas mães chorando, enterrando os filhos. Tudo muito arrasador.”

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Três anos atrás, a diretora fazia um documentário sobre a ditadura e perguntou a uma de suas entrevistadas, a ex-militante política Rose Nogueira, quem ela considerava a maior ativista do Brasil naquele momento. “O filme era sobre mulheres que lutavam contra a ditadura, mas eu queria mostrar pessoas que estavam lutando hoje e ela disse: é a Débora. Conheci a Débora e fiquei bastante impressionada. Pensei: ‘Nossa, essa história merece um filme’. Não só pela tragédia, mas porque essas mulheres conseguiram formar um coletivo muito forte e estão conseguindo conquistar coisas importantes nessa luta”, diz Susanna.

Quando viu que o Futura abriu um edital para documentários sobre direitos humanos, ela se lembrou da efeméride dos dez anos dos crimes de maio. “Achei importante contar essa história por conta da batalha delas e muito mais ainda porque essas coisas continuam acontecendo todos os dias no Brasil. É muito atual. Os crimes de maio são uma tragédia que é um pretexto para que a gente comece uma narrativa sobre algo que acontece hoje. Era tão necessário lembrar os crimes de maio pra lembrar a opinião pública de que infelizmente isso vem acontecendo de uma maneira frequente no Brasil e a gente não faz nada por isso”, afirma.

Seu filme não é tanto sobre os crimes em si, não há imagens da época, não há muita exploração do que aconteceu em 2006. É sobre a história daquelas mães e sobre o trabalho que elas fazem hoje. Susanna conta que não buscou se distanciar de seus personagens e adotar uma postura fria e impessoal. “Também sou mãe, tenho uma filha, pra mim é impossível não me envolver. Não sou esse tipo de documentarista. Por isso faço documentário, não jornalismo, que tem essa coisa de ser imparcial, de distanciamento da notícia. Eu não tenho isso”, diz. “Só topo fazer o filme quando compro, de certa forma, aquela causa e estou junto com o personagem. E isso não me fazer perder a autocrítica”, continua. “É mais doloroso, mas difícil, mas é importante. Costumo dizer que o filme não é sobre o que eu estou fazendo, é sobre meu encontro com aquele assunto. Ele sempre vai ser parte de mim também.”

A relação de Susanna com as Mães de Maio continua. Na véspera de nossa conversa, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) que a Polícia Federal investigue cinco mortes de maio de 2006 e a cineasta está acompanhando com atenção os desdobramentos. Agora, o filme, que na televisão tem menos de uma de duração, está sendo transformado em um longa-metragem, para ser exibido em festivais. “A Débora tem um trabalho incrível. Elas viajam o mundo falando dessas questões. A gente vai fazer um longa e ampliar ainda mais essa discussão, com imagens que a gente já gravou e não estão no filme”, conta a diretora.

Para ela, essa história mostra que o Brasil é um país que não cuida de seus jovens e, consequentemente, de seu futuro. “O que mais me chamou a atenção nessa história é que a maior parte das vítimas eram jovens de 18 a 29 anos. O Brasil é o país que mais mata sua juventude e isso é de cortar o coração. Como a gente quer ser um país de futuro se a gente não cuida dos nossos jovens?”, questiona. “Pra mim é importante que as pessoas comprem essa causa e sejam contra esse genocídio, esse racismo institucional que tem nas polícias. O Estado é bastante racista. Na verdade, quando a gente mata essa juventude a gente está matando um pouco da gente. Isso não é um assunto da periferia, é um assunto da sociedade brasileira. Essa é a mensagem que eu gostaria de passar com o filme. Essas mães que perderam os filhos… É parte do Brasil que perde sua juventude também. É uma causa própria, não só delas.”