A nova temporada de Black Mirror chegou na última sexta-feira no Netflix. Para discutir de forma mais detalhada — com spoilers! — cada um dos episódios do seriado distópico, decidimos fazer uma análise dedicada a cada um deles. Um episódio por dia, seis dias seguidos.

Contei à minha mãe, num dia desses, que era melhor colocar uma fita adesiva sobre a câmera do seu computador, por questões de segurança. Afinal, é possível que um hacker se aproveite da câmera descoberta para espionar o que ela anda fazendo pela casa. Ela pensou um pouco e disse: “Mas por que um hacker ia querer filmar a minha casa?”. Certo, talvez nada de especialmente incomum aconteça na sua casa, mas não é porque a situação não seja particularmente inusitada que você gostaria que alguém a filmasse. Ligado sobre a mesa, na cama, no sofá, o computador é um observador íntimo do seu cotidiano. Pensar que alguém pode usá-lo para invadir sua privacidade é uma ideia aterrorizante. E é sobre essa ideia horrível que “Black Mirror” se debruça no terceiro episódio da terceira temporada, “Shut Up and Dance”.

Kenny (Alex Lawther) é um adolescente comum. Trabalha numa lanchonete e mora com a mãe e a irmã – com quem não quer dividir seu computador. Computador é pessoal, né. Mas num dia qualquer, alguém (não sabemos quem) o filma se masturbando na frente do computador e lhe manda o vídeo num e-mail com uma ordem: passe seu número de telefone ou seu vídeo será enviado para todos os seus contatos. Como dirão mais pra frente, masturbar-se em frente ao computador não é esquisito. Não é ilegal. Mas a sensação de vergonha de se ver exposto assim frente a seus conhecidos é suficiente para que Kenny passe o número.

“Shut Up and Dance” é uma história de suspense que lembra bastante “White Bear”, episódio de uma temporada anterior em que uma mulher é perseguida e, em vez de receber ajuda, é filmada por todo o mundo que encontra – nos sentimos mal até que há uma revelação no final. Durante o episódio, Kenny vai recebendo dos desconhecidos desafios cada vez mais difíceis de cumprir: começam pedindo que ele pegue um bolo, entregue por outra vítima de chantagem, e leve a um endereço, e chega a um ponto em que pedem para que ele cometa crimes.

Kenny é uma figura simpática, muito pela atuação de Lawther, com quem é possível se identificar. A situação em que ele é colocado é difícil: quão longe ele deve ir para preservar sua honra? Será que não era melhor ele ceder logo à chantagem e se ver livre de tudo isso? Será que não é melhor conviver com a vergonha de ter a intimidade exposta do que com a culpa que esses desafios que lhe impõem vão trazer?

Em tempos em que hackers invadem os computadores de pessoas para expor informações pessoais e fotos, por exemplo, são questões e medos que estão por aí. Aconteceu com atrizes brasileiras, como Carolina Dieckmann, que teve fotos em que aparece pelada expostas na internet. Aconteceu com atrizes americanas, como Jennifer Lawrence, que passou pela mesma situação pouco tempo depois. Aconteceu neste ano com a comediante Leslie Jones. Nesta semana mesmo um hacker foi condenado por pedir 300 mil reais à primeira-dama Marcela Temer para não vazar suas fotos íntimas e áudios depois de clonar seu celular.

Além de fotos, e-mails e documentos também são hackeados com frequência – de tempos em tempos o Wikileaks solta na internet informações que as pessoas queriam esconder (Hillary Clinton que o diga). O assustador é que poderia ser você – afinal, nesse episódio, a tecnologia é bem próxima da que temos hoje.

O final é um dos mais pessimistas de “Black Mirror”: Kenny, a tal figura simpática, estava se masturbando enquanto via fotos de crianças (uma interação que parecia fofa dele com uma menina, no início do episódio, ganha outra conotação no final). E todos os desafios que ele cumpriu foram em vão: não importa que ele tenha feito tudo que eles pediram, o vídeo foi divulgado mesmo assim. Ele termina o episódio destruído, arrasado com aquilo que teve que fazer para tentar escapar da vergonha — mesmo que o vídeo tivesse sido deletado, já não haveria mais final feliz para ele.

Não fica claro por que os chantagistas misteriosos fizeram isso com Kenny: foi uma tentativa de justiça com as próprias mãos? Foi sadismo? Era justificável punir Kenny dessa forma por aquilo que ele fez (questão proposta por “White Bear” também)? Nesse episódio de “Black Mirror”, fica claro que não é a tecnologia a vilã da história – somos nós, e o que fazemos com ela.