A nova temporada de Black Mirror chegou na última sexta-feira no Netflix. Para discutir de forma mais detalhada cada um dos episódios do seriado distópico, decidimos fazer uma conversa dedicada a cada um deles. Um episódio por dia, seis dias seguidos.

Leo Martins: Black mirror! Não se fala de outra coisa. Futuro distópico. Crítica social foda. A terceira temporada chegou. Essa primeira conversa é sobre “Nosedive”, o primeiro episódio da nova temporada. Fe, como eu sei que você tem uma certa questão com notas de avaliação, conta um pouco sobre o episódio e suas sensações assistindo.

Fernanda Reis: Acho que muitos episódios de Black Mirror ainda são bem distantes do mundo em que a gente vive — por enquanto não conseguimos rever nossa vida toda como num filme nem fazer uma espécie de clone de alguém que morreu –, e os que mais me assustam, ou me tocam de alguma forma, são esses que têm um pezinho na realidade. Desde que eu descobri que os passageiros também eram avaliados no Uber e que minha nota não era das melhores (não vou revelar o número pra não queimar o filme), trabalhei bastante pra melhorar a minha pontuação, e por isso me senti um pouco (bastante) representada pela trama desse episódio, em que todo o mundo batalha pra melhorar sua nota pessoal com base em todas as interações do dia a dia. E foi meio tenso.

Leo: Foi meio tenso como? Eu também sempre gostei mais dos capítulos que passam mais próximos da realidade — o primeiro de todos, do primeiro ministro britânico, ainda é meu favorito, mas só porque consigo imaginar tudo aquilo acontecendo de verdade. mas no caso do “nosedive”, não sei se você concorda, eu achei que a história ficou muito clara e sem mistérios nos primeiros cinco minutos do capítulo. uma hora de busca por notas melhores, não sei… Achei um pouco demais.

Fernanda: Mas acho que nesse episódio o importante não é tanto o mistério, o que eu acho bom, porque outros episódios dessa temporada tem momentos meio M. Night Shyamalan de “ahá, te peguei, olha aí a surpresa!” que eu achei meio fracos. Nesse eu sabia que a nota dela ia cair e ela ia chegar ao fundo do poço, mas eu queria saber como. Gostei de ver como ela, na tentativa de agradar desconhecidos e ser a pessoa perfeita, foi aos poucos pirando. Vale a pena batalhar pra subir a nota do Uber e forçar a simpatia? Calcular quando postar a foto no Instagram pra ter mais curtidas? Eu pensei bastante sobre essas coisas depois de ver.

Leo: O fundo do poço é realmente bom, e a atuação da Bryce Dallas Howard (gosto demais dela desde “A Vila”) é sensacional, desde aquela cena do começo no espelho até a derrocada completa, a cena do casamento. As cenas de frustração dela são muito boas. Porém achei o formato um pouco exagerado, talvez? Quando ela fala bem do café mas depois toma e faz cara feia, ou até mesmo quando ela cai na lama, num momento meio “Trapalhões”. Mas se o capítulo te causou reflexão, já acho isso bom. No meu caso eu achei um tanto óbvio e sem nenhuma sutileza, e no fim acabei achando um pouco maniqueísta. Acho que eu daria uma nota 2.78. Mas isso de calcular quando postar, se importar com a nota do Uber: você acha isso essencialmente ruim ou só em uma versão distópica como essa?

Fernanda: Não sei! Acho que é bom você ser uma pessoa simpática com quem você não conhece, mas você é verdadeiramente uma pessoa legal se você só é legal porque quer uma nota? Não ter problema você ser falso desde que suas atitudes sejam boas? Não tenho certeza se isso é essencialmente ruim, mas a versão distópica acentua os problemas desse tipo de atitude. Isso às vezes me incomoda em Black Mirror, que a tecnologia seja sempre ruim, que todos os defeitos da internet, dos computadores, da ciência, sejam elevados à enésima potência. Tudo bem, talvez seja a proposta mesmo, mas falta sutileza mesmo. Você já começa um episódio esperando as piores consequências e nove entre dez vezes você está certo. Esse episódio, pelo menos, achei menos pessimista. Tão exagerado quanto os outros, mas um pouco menos pessimista.

Leo: Me incomoda bastante também isso de “a tecnologia é a vilã”. Normalmente eu acho que o problema maior é a humanidade mesmo. E acho que o capítulo só não é muito pessimista por causa daquele final com alívio cômico, extravasado. Fora isso, achei o capítulo bonito em alguns trechos, como quando ela está na estrada a pé, mas no geral esse exagero afeta até as escolhas visuais – é tudo tão exagerado… Mas como um conto quase de terror, podemos dizer que funciona?

Fernanda: Eu acho que funciona, gostei dos contrastes daquele cenário todo pastel, todo feito pro Instagram, em que tudo dá errado. Algo meio “Mulheres Perfeitas”. Costumo ficar mais assustada quando coisas ruins acontecem num cenário que parece perfeito, em que você não espera que algo dê errado, do que quando coisas ruins acontecem numa casa mal assombrada. No caso do segundo episódio eu pensava “eu nunca estaria nessa situação, é óbvio que é uma cilada”. Em “Nosedive” o impacto é maior e eu fiquei mais interessada na derrocada dela, porque me pareceu mais real. Voltando à sua nota 2.78, você acha que foi o pior episódio de Black Mirror até agora?

Leo: Talvez, acho que ele só perde para aquele da segunda temporada, “The Waldo Moment”, que é bem fraco. Sei que você já viu vários dessa temporada nova, mas só vi o “nosedive” e é possível que a fórmula da série tenha se esgotado pra mim: mesmo tendo histórias fechadas em um capítulo de uma hora, o que dá espaço para surpreender e causar espanto, esse formato “distopia para chocar” não me atrai mais tanto, principalmente quando não há nenhuma sutileza — lá vou eu voltar pra esse ponto –, o que diminui meu interesse em ficar refletindo sobre. É tudo tão claro, tão “a tecnologia é do mal, estamos fadados ao caos” que fica complicado. Pra mim, fica parecendo tudo um microuniverso do Vale do Silício, uma coisa meio “o que os fundadores do Google ou o Mark Zuckerberg” gostariam de ver como mundo ideal”.

Fernanda: Concordo com você, e eu senti isso em alguns outros episódios que a gente comenta mais pra frente. Mas com esse não tive essa sensação, porque a tecnologia é, entre muitas aspas, próxima do que a gente já tem. Não é a tecnologia em si o problema, mas o que as pessoas fazem com ela: usar esse status social pra dar vantagens pra alguns e não pra outros, tentar acabar com a vida de quem você não gosta diminuindo o status dela, deixar as amizades e relações reais de lado em nome disso. Nesse caso acho que os vilões somos nós, e por isso achei mais interessante. Colocaria esse episódio bem mais pra cima na minha lista.

Leo: Então qual seria a sua nota precisa dada naquele aparelhinho esquisito para o capítulo?

Fernanda: Quatro estrelas — não é o meu favorito, mas tá acima da média.

Leo: Justo! Amanhã voltamos com “Playtest”.