“Frates Sumus Omnes”
(Todos somos irmãos)
— Lema do município de Barretos

Minha incapacidade de dizer não já me levou a muitos lugares: um namoro de dois anos, o batizado de um bebê cujo nome eu sequer sabia e, agora, a 61ª Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos.

O sol duro do meio dia distorce a Rodovia Washington Luiz, transformando o asfalto no horizonte em uma lava escaldante que poderia engolir um automóvel inteiro, uma ilusão de óptica corroborada pelas elevações da estrada que faziam o carro à nossa frente desaparecer a cada nova ladeirinha que descia. Mesmo em agosto, o calor vence o vidro fumê e o ar condicionado da Hyundai Tucson de Henrique, desconhecido abordado via BlaBlaCar para fazer a viagem da capital paulista até Barretos. BlaBlaCar é um site especializado em caronas que dosa a compatibilidade entre caroneiros através de um “blablaômetro”, onde você indica se conversa pouco, normal ou muito. Coloquei muito e eu e Henrique demos match. Ele perguntou o que eu sabia sobre a Festa e, por ansiedade e como técnica de defesa, tirei a trava da besta verborrágica que se esconde em mim e compilei um monólogo com tudo que havia lido nos últimos dias sobre o evento.

No site oficial de Barretos, a história do evento é contada em pequenos capítulos encabeçados pelo presidente em vigor em cada edição da Festa. Ou seja, a história começa com Juscelino Kubitschek, passa por Itamar Franco, FHC, Lula e culmina em Michel Temer. Tirando essa maneira sui generis de separar os eventos, a história do release é um blablabla padrão capaz de explodir qualquer blablaômetro, a história sobre como 20 rapazes autossuficientes e orgulhosos de suas origens fundaram em uma mesa de bar “Os Independentes”, organização responsável até hoje pela festa, para celebrar a cultura e o folclore local. Também era a primeira vez de Henrique na festa e ele me interrompeu com uma dúvida bem mais sincera: será que rola muita putaria?

Henrique é o turista primo da capital recorrente na Festa: indo para Barretos com o solene objetivo de pegar mulherzinha. Musculoso, loiro, com bons traços faciais e uma prosódia tradicionalmente paulista, ele exibe um quê de Nick dos Backstreet Boys — caso fosse um herdeiro da dinastia Matarazzo Suplicy. A dúvida de Henrique é legítima: os boatos que correm à boca miúda no imaginário popular são de que Barretos durante a Festa vira uma Sodoma & Gomorra com motivos country, um município inteiro movido a álcool e libido. A própria dinâmica dos campings dentro do evento, divididos em dois setores: o Casados e o Solteiros, implica uma sexualidade, digamos, expansiva.

Mas nem tudo é impulso sexual: Barretos é um dos maiores festivais sertanejos do Brasil e, também, um dos maiores rodeios do mundo. Jovens peões e duplas de cantores ascendentes tremem de ansiedade e agradecem eloquentemente a oportunidade de fazer parte da história da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, um monumento inabalável na história barretense: nem o temporal nas vésperas da inauguração destruindo a estrutura principal afetaria o evento que, nos dias seguintes, receberia 900 mil pessoas, ofereceria 120 atrações musicais ao decorrer de 11 dias e, conforme as expectativas, movimentaria mais de 200 milhões de reais.

O fato é que a pequena cidade com uma população de pouco mais de 100 mil habitantes muda completamente seu cotidiano durante os dias de Festa: pipi-móveis são espalhados pela avenida principal da cidade (a Av. 43 – em Barretos todas as ruas e avenidas são batizadas com números), dois postos de gasolina decidem não vender combustível e viram bar (“até o fim da festa o único álcool que vamos vender é cerveja”, explica o frentista) e uma inflação lunática ocorre na comunidade hoteleira da região: no Airbnb, um cativeiro com persiana quebrada, parede descascada exibindo padronagens de infiltração e um colchão sem lençol malemal encaixado em uma cama de solteiro coberta de adesivos de princesas das Disney custava 600 reais a diária.

Henrique e eu vamos construindo as pontes da nossa amizade por conveniência — não necessariamente algo pejorativo, uma amizade construída pela circunstância, pelo contexto de uma situação pontual, sem anticorpos para sobreviver no ambiente não-controlado da vida cotidiana; enfim, uma amizade que, embora envelopada por empatia, tem data de validade — enquanto o carro acelera para o interior paulista. Cada paradouro, posto de gasolina e pedágio nos lembra nosso destino por meio de outdoors e banners com uma foto aérea da arena de Barretos, o logo da Festa e o slogan: “Viva esta experiência”. Hora de viver esta experiência, então.

DIA I

Quinta-feira, 18 de Agosto de 2016

O calor sufocante de Barretos dá a sensação de estar andando dentro de uma lasanha: as fatias quentes de queijo segurando seus passos como uma areia movediça ou teia de aranha. Uma breve conversa com a recepcionista de óculos grande e porte pequeno me informa que Barretos é um empreendimento caro para quem não dirige: um táxi do centro até o Parque do Peão custa 60 reais, enquanto um mototáxi fica na casa dos 40. Logo vi que me locomoveria com membros do proletário e locais, usando a linha de ônibus municipal Viasa (quatro reais). Durante a semana e fora dos horários de pico, o ônibus é utilizado somente por funcionários do evento — cozinheiros, garçons, seguranças etc. O ônibus abafado usa o plástico que separa o motorista como um pequeno mural de eventos, noticiando festas paralelas durante os dias de Barretos: da Festa do Patrão, uma rave de 24h frequentada pela juventude endinheirada (nos dias que se seguiriam, cinco pessoas diferentes me fofocaram sobre o ano em que o Neymar Jr. foi expulso por tumultuar a festa) ao Segura, Cristão!, uma celebração católica de três dias.

Após duas horas de turbulência, consigo me credenciar e finalmente pisar dentro da labiríntica estrutura da Festa de Barretos. É um parque enorme, por enquanto ainda ocupado apenas por funcionários construindo as estruturas metálicas e arquibancadas, as banquinhas de comidas testando geradores e alimentando os freezers com um estoque infinito de Brahma — algumas geladas já cumprem seu papel na mão de uns peões que andam a cavalo com um latão na mão e o nome de sua comitiva bordado nas costas da camisa. Além dos cavalos, motos cinquentinha aceleram pra lá e pra cá locomovendo funcionários — às vezes três, empoleirados sem camisa — para as extremidades distantes do parque.

No fim da tarde, com uma lua cheia laranja, inchada e suculenta iluminando o céu, um homem passa o som do palco dedilhando o Hino Nacional na viola caipira enquanto uma comitiva desfila a cavalo, estreando a areia da arena. As únicas pessoas nas arquibancadas são funcionários descansando, pés descalços esticados após horas de trabalho enquanto os sapatos e chinelos repousam numa montanha encardida no último degrau. Eles se divertem com o rodeio e gritam girando o chapéu no ar. Anoitece. Casais e famílias começam a chegar.

Começa assim a Sexagésima Primeira Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos.

A Festa é gigantesca: há umas quatro praças de alimentação e bancas espalhadas por todo o parque (do esperado churrasco ao surpreendemente popular yakissoba), todas as banquinhas ignorando qualquer respeito ao conceito de direito autoral: Altas Horas Lanches, Cachorro Quente Sai de Baixo, Fantástico Lanches; Roberto Marinho teria um faniquito dando uma curta caminhada por lá. Um das barracas tinha adesivado apenas as palavras CERVEJA NA BUNDINHA, mas não tive o ímpeto de jornalismo investigativo necessário para desvendar esse mistério. O parque contém três palcos: o principal se encontra na beirada da arena onde acontecem os rodeios. Ou seja, após o fim dos duelos entre homem e touro, as entradas da arquibancada são abertas e o público desce até a arena para assistir aos shows e aproveitar a festa na mesma areia onde os rodeios aconteceram. Compreendi que a unanimidade da bota de cowboy não é um fetichismo estético ao imaginar como seria o momento em que eu pisasse naquela caixa de areia colossal com um tênis de camurça. Aliás, logo no primeiro dia, foi possível notar a diferença entre o cosplay e o respeito ao tema: as pessoas não estão se fantasiando, tampouco é ironia. Aquele é o dress code da Festa e as pessoas obedecem ao dress code. 90% das pessoas respeitam e vão vestidos a rigor: mulheres de short, bota até o joelho e fivelão; homens de camisa xadrez, calça jeans justa e bota de cowboy. O chapéu, mesmo muito recorrente, é opcional. É como usar smoking em uma festa de debutante ou branco no Ano Novo: há uma joie de vivre honesta em se vestir para o evento, uma ambição real de comemorar e fazer parte da celebração.

Com fogos de artifício e um discurso sobre como o “agronegócio paga as contas do Brasil e ser caipira deixou de ser uma vergonha”, começa oficialmente o evento. Mesmo com um público tímido de dia de semana, a festa anima de vez com o show de Simone e Simaria. Na duração de três músicas no olho do furacão da plateia, contabilizei 15 beijos de casais diferentes: uma dinâmica de micareta, olha, beija, segue a vida. Vi um menino implorar por um beijo para uma menina que negava com veemência. Como em um documentário do Discovery Channel, assistir às amigas dela se aproximando por trás do rapaz. “É hoje que vejo uma fanfic de esquerda ao vivo!”, esfreguei as mãos empolgado pensando naqueles textões virais que corriam soltos pelo Facebook. Mas o que aconteceu foi a amiga exclamando “ô, só beija o cara!”. “Beija, vai!”, insiste outra amiga. “Beija logo!”, sentencia uma terceira amiga, mais baixinha e impaciente. Logo, suas oito amigas em uníssono ordenavam um beijo com argumentos que iam do “ele não é tão feio” até “ele faz cursinho com minha irmã”. Ela beijou rápido, se desvencilhou do abraço e fugiu com as amigas aos risos enquanto o sujeito comemorava e era ovacionado entre a multidão.

Contei essa história para Laura, a recepcionista matinal de 56 anos que alimentava uma relação de amor e ódio com Barretos, e fui informado que ultimamente estavam bem mais sob controle as coisas: há uns 10, 15 anos, era comum os rapazes laçarem as mulheres, arrastarem pra lá e pra cá, “casal trepando na rua mesmo”. Ao conversar sobre o potencial ameaçador da festa, mulheres, de adolescentes até donas de casa, abordavam as investidas como um dano colateral, um obstáculo natural que se evita não bebendo demais sozinha, não andando sem amigas pelo meio de multidões, raramente (uma vez, para ser exato) sendo chamado de machismo. Em tempo de eloquência sobre o tema em redes sociais, pareceu extraterrestre tamanha complacência com o comportamento masculino: um misto de tem-quem-goste com eu-não-vou-deixar-estragar-minha-festa pontuou as respostas. Barretos abria uma fenda no espaço-tempo onde as pautas contemporâneas se dissolviam qual açúcar na chuva? O Brasil profundo pouco se afeta com as microrrevoluções protagonizadas pelos membros da quasi-intelligentsia das redes sociais? As mulheres não deixariam essas circunstâncias estragarem sua festa e existe uma lição aí sobre sobrevivência e eficácia pragmática e a diferença entre discurso e prática?

Na noite seguinte, no show Cabaré, Eduardo Costa provocaria um urro de celebração ao afirmar que “quem caça Pokémon não caça buceta” para uma arena lotada, confirmando a onipresença opressora de uma aura sexual autoimposta pelo imaginário popular da Festa. Isso atrai muitos empreendedores sexuais para a cidade: conversei com uma prostituta catarinense que, a convite de um “amigo”, veio para cá trabalhar numa casa no centro, um bordel improvisado em um sobrado para os dias de Barretos. Mesmo com os preços inflacionados, ela afirmou haver movimento constante. Sobre essa abordagem itinerante à prostituição, ela afirmou ser comum e há anos faz turnês pelas festas populares do Brasil.

A mensagem “Meu… tá rolando uma putaria BIZARRA no camping dos solteiros…” fez vibrar meu celular. Era Henrique. Logo abaixo uma foto de uma mulher virando cerveja entre suas nádegas, na caçamba de uma caminhonete. Meninas diferentes rebolando seminuas ou nuas para uma plateia de homens de bermuda e chapéu, quase todos com o celular em punho rindo e hiper-registrando a festinha. Como a entrada no camping era restrita, decidi ir para o hotel.

Voltei em um ônibus lotado de funcionários cansados que, por precisarem esperar um segundo ônibus chegar para esse sair, começaram um pequeno motim com gritos de “VAMO, MOTORA” e “EU TÔ CANSADO, MOTORA” e “RESPEITA OS CABELO BRANCO DESSA SENHORA, MOTORA”; todas as frases respondidas pelo silêncio inabalável do motora. Depois de 45 minutos, o ônibus finalmente acelerou e foi recebido com um brasileiríssimo “AEEEEE” e uma salva de palmas. Chegando no conforto do quarto de hotel, uma rápida pesquisa por “barretos” no XVideos (motivo: jornalismo investigativo) revela que a prática não é nova: é um ritual anual do camping dos solteiros a contratação de prostitutas para animar as cervejadas e churrascos. Pego no sono vendo um homem cambaleante sem camisa sofrendo para subir em uma mesa plástica de bar para dançar ao lado de uma prostituta de biquíni em um vídeo pixelado na tela do meu computador.

DIA II

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

A música sertaneja é onipresente em Barretos. Ela te acorda e te nina. No sistema de som da recepção do hotel, explodindo na caixa de som dos carros, no celular do jovem no ônibus: em todos os lugares, fazendo uma trilha sonora constante, às vezes metalinguística (na noite anterior me peguei tentando conectar no wi-fi no Parque do Peão após a morte súbita do meu 3G e, fracassando, ouvi uma música que dizia “eu quero falar com ela mas o wi-fi não deixa”). Isso é crucial. Existe uma coragem e uma urgência na música sertaneja em absorver o agora. Em “O Pintor da Vida Moderna”, Baudelaire fala que a função do, bem, pintor da vida moderna é registrar a cidade. Não como paisagem, mas suas relações, seus cruzamentos, suas exclusões, suas novíssimas funções e seus novos valores. É assim que se compreende o espírito de um tempo: sendo atemporal ao dar um mortal de costas no lamaçal do zeitgeist. É isso que a música sertaneja faz: fala de mensagem visualizada, promoção em passagem aérea, celular sem bateria; inclui todos os signos do que é ser uma pessoa existindo nesse espaço-tempo. Quando Munhoz & Mariano cantam “no shopping, no bar, até no motel você pede wi-fi”, eles fazem exatamente o que Baudelaire quer dizer quando martela no aforismo que todas as modas são encantadoras.

Segui o som sertanejo até a piscina, onde encontrei três irmãos muito parecidos mergulhando seus corpos na água. Além do mesmo biótipo, também compartilhavam o senso fashion: os três usavam óculos e boné; um deles usava um boné com os adjetivos “Bruto, rústico e sistemático” bordados na frente. Moradores de Campinas, o trio veio movido pelo seu poliamor por música sertaneja e por beber; só paravam de cantar para fazer fazer algum comentário sobre a alquimia da embriaguez através de uma bebeção especulatória, marcadas por comentários “o cara fica mais bêbado com uma dose de uísque ou de vodka?”. Eles não estavam satisfeitos em ficar bêbados, mas sim almejavam a maneira mais eficaz de fazê-lo. Tirei a camisa, aceitei a oferta de um copo de uísque e energético e me juntei a eles, nós quatro quebrando todas as regras escritas em letras garrafais ao lado da piscina:

– Proibido entrar com bebida alcoólica
– Proibido entrar de bermuda
– Proibido ouvir som alto

Conversamos sobre nossas expectativas com shows enquanto flutuávamos na água gelada da piscina: os irmãos queriam ver a apresentação conceitual de Paula Fernandes, dividida em noite, madrugada e amanhecer; eu estava ansioso para o show de Marília Mendonça e ainda ruminava o carisma e sucesso de Wesley Safadão, um paradoxo indecifrável: como um ser pode ser tão doce ao mesmo tempo que atende pela alcunha de Safadão? Chegada a hora, fomos juntos ao shows da noite no Parque do Peão, a versão funknejo de “Bumbum Granada” chiando alto para fora das caixas de som do carro.

Já no Parque do Peão, Maiara & Maraísa sobem ao palco munidas de microfones dourados, vestidos justos, um violão branco e todo o empoderamento que a soma desses elementos pode acarretar. Depois do obrigatório “Boa noite, Barretão”, a dupla dispensa a diplomacia e pergunta de cara, em dicção perfeita, para uma arena lotada, a pergunta mais (para seguir “empoderamento” no dialeto contemporâneo) triggering que milhares de casados e solteiros poderiam ouvir:

— QUEM AÍ JÁ FOI CORNO?

O sonoro “corno” ecoa em todo o Parque do Peão, talvez em toda cidade. Até onde eu sei, ecoou no Brasil inteiro, até a casa da ex-namorada que uns meses antes havia se aventurado em relações extraconjugais com um homem mais velho que, por levar sobre os ombros o mesmo nome do genitor, mesmo na meia idade era chamado pelos amigos de “Júnior”. Na base do ventre, senti todo o peso de ser traído por um homem 15 anos mais velho que eu chamado Júnior. Usando uma camisetinha genérica do “Unknown Pleasures” do Joy Division na foto de avatar. Um homem velho chamado Júnior vestindo a camisetinha dos risquinho do Joy Division. Mas antes que eu afundasse em autopiedade, Maraísa (ou Maiara) me tirou da minha digressão com um complementar:

— E QUEM AQUI JÁ CORNEOU ALGUÉM?

Novamente ensurdecido pelo urro que a plateia dava em resposta quase unânime, exceto um e outro casal que se limitava a trocar olhares de eu-não-esqueci e me-desculpa-mesmo, fui transportado ao meu histórico de dissimulações, mentiras, chats de WhatsApp deletados, pacotes de camisinha comprados para repor as do criado-mudo usadas na noite anterior. Traições impulsionadas por insegurança e egoísmo, um misto de adolescência tardia com crise de meia-idade precoce. O mundo de Maiara & Maraísa tem uma qualidade bíblica, um quê fatalista de Velho Testamento, apontando a verdade ululante que existe sob platitudes como “aqui se faz, aqui se paga”.

É impossível não se entregar à indulgência confessional quando o fio condutor do show e a essência das letras de Marília Mendonça e Maiara & Maraísa é a catarse da exposição da intimidade. Uma gigantesca terapia coletiva, bem mais acessível financeiramente e menos eficaz que a convencional, mas, Jesus, muito bonita. Dezenas de milhares de pessoas fazendo qualquer coisa em sincronia já causa um otimismo, mas dezenas de milhares de pessoas em uníssono exorcizando demônios através de fábulas sobre beber para esquecer alguém e ainda ter que pagar os 10% do garçom confirma que o sublime e o crescimento estão na força feroz da vulnerabilidade.

DIA III

Sábado, 20 de Agosto de 2016

No sábado, além da festa no Parque do Peão, ocorre uma grande celebração de rua na supracitada Avenida 43, a principal da cidade e logradouro do hotel em que eu me hospedava. Fui acordado de maneira eficaz por um remix de funknejo histriônico e esquizofrênico que parecia tocar dentro do meu próprio lóbulo frontal. O calor justificava a fama do clima quente de Barretos: lençóis amanheciam encharcados e camisetas umedeciam em breves caminhadas até o restaurante onde já se encontravam os primeiros bêbados da manhã.

Na Avenida 43, os cowboys já montavam suas bolsas térmicas entupidas de latões trajando apenas cueca samba-canção, chapéu e bota. Se na festa oficial as roupas eram respeitadas, no centro o traje era carnavalesco: grupos de amigos sinalizavam sua unidade como “bloquinho” através de um BREJA NA BOKA bordado na parte traseira da cueca. A avenida lota muito rápido e, sob o sol do meio-dia, casais recém-formados já se beijam, turistas atiçam louquinhos de bairro que espiam empolgados o movimento e garrafas de energético e uísque começam a redecorar os canteiros. Depois de décadas de festa incontrolável que invadia a madrugada e também estacionamentos de estabelecimentos, homicídios e outras ilegalidades menos letais fizeram com que uma lei obrigasse a festa a acabar às 20h. “Mas como confiar na pontualidade e no bom senso de uma turba embriagada?”, pergunto e me apontam para a força policial rigorosa que vigia austera da outra extremidade da avenida. “Manda todo o mundo embora mesmo, spray de pimenta, bomba já tiveram que usar, mas mandam embora tudo”, sorri um garçom de uns 60 anos, uma cicatriz atravessando seus lábios. Mais tarde, eu mesmo assistiria a dois policiais dando uns tapões (o famigerado “telefone”) em um bêbado desagradável que saiu do encontro cambaleante, choroso e, definitivamente, menos desagradável. Os meios podem ser questionáveis, mas a eficácia, não. Pelas 21h a avenida já estaria vazia, só os pipi-móveis, centenas de garrafas jogadas pelo chão e quatro viaturas que circulavam a avenida como se uma guerra civil estivesse prestes a romper.

O laço da amizade de conveniência se mostrou mais forte que o esperado no momento em que recebi uma mensagem de Henrique me convidando para um churrasco no Rancho Pau Impé (confesso não ter notado o trocadilho por escrito e só notar o trocadilho ao pedir para o taxista me levar até o “Rancho Pau em Pé”). O taxista, como muitos outros barretenses, não era taxista, mas fazia o bico na temporada pra tirar um dinheiro além da sua renda normal de agrônomo. Como quem recebe uma visita, parecia bem orgulhoso da cidade, relatando os tempos passados em engarrafamento com a boca cheia, como um capricho da capital a que agora ele tinha direito.

No Rancho Pau Impé, fui recebido por Seu Benê, um empresário de 67 anos. Sem camisa, o torso truncado exibindo uma cicatriz cirúrgica do centro do peito até o umbigo, um bafo de cerveja e um óculos pendendo da ponta do nariz. Seu Benê era o anfitrião ideal: me falou sobre seu amor por Barretos, sobre seu tino comercial e sobre sua paixão pela bebida, tudo através de trocadilhos (“Vinícius, você sabe por que eu bebo?”, ele perguntava me fitando nos olhos; “Por que, seu Benê?”, eu respondia com voz de Dedé Santana, o encarando nos olhos também como se jogássemos um Jogo do Sério; “Porque é líquido”, ele respondia). Não havia ficado realmente bêbado até esse dia, então aceitei o conselho do Seu Benê de que beber era fundamental (jornalismo investigativo) para mergulhar de cabeça no modus operandi da Festa.

Devidamente entorpecidos, partimos para o Parque do Peão (o Seu Benê fez uma gambiarra para Henrique entrar de graça: colocou a pulseira na circunferência da mão e prendeu, criando uma livre locomoção que podia passar de mão em mão — lembro de marejar os olhos de embriaguez e admiração). Entre tropeços e gargalhadas, nos dirigimos à arena lotada em que alguma dupla sertaneja se apresentava com a promessa de ser o show mais “bruto e divino desse país”. O cantor pediu para desligarem todas as luzes e as pessoas ligarem as luzes dos seus celulares, compondo uma constelação, uma extensão do céu estrelado que se misturava com as pessoas. Toda essa beleza embalada por um hit sobre uma multidão não ser uma companhia, um olha-quanta-gente-e você-segue-sozinho. Impossível de descrever com adjetivos melhores que: bruto e divino.

Henrique me cutuca o ombro e me alcança um copo de energético e uísque, brindamos, sorrisos, abraços, tudo parece mágico. Vejo que, embora existam portões para entrar da arquibancada para arenas, os jovens locais, barretenses de 16 ou 17 anos, escalam a cerca de três metros até o outro lado, alguns sentam lá em cima e assistem ao show. Isso é Barretos! Eu preciso fazer isso! Tomando um gole grande para diminuir o peso e segurando o copo plástico com os dentes, escalo e sento no topo da arquibancada, uma perna para cada lado. A vista é realmente bonita e aqueles milhares de pessoas parecem ter um motivo sincero para celebrar. Sou contagiado pelo otimismo. Corro o risco de desabar meu corpo alcoolizado ao embarcar em uma expedição para tirar o celular do bolso e mandar um áudio de WhatsApp do qual iria me arrepender dias depois.

Doses insalubres de bebida alcoólica são empurradas goela abaixo enquanto a cerveja de milho esquenta no latão que passa de mão em mão dos estranhos empoleirados na cerca. Isso é Barretos! Isso é bom! Divino! Bruto! O divino e o bruto coexistindo! É isso que é o ser humano! O meio-termo entre o divino e o bruto! Estou gesticulando sozinho equilibrado na cerca de três metros de altura e decido que é melhor dar uma volta.

Faço amizade com um grupo de meninas e, como o slogan da Festa ordena, vivo aquela experiência. Chutava areia pra lá e pra cá dançando com uma garota, minha mão na cintura dela, a mão dela no meu pescoço, nossos hálitos quentes com alto teor alcóolico embaçando o olhar um do outro. Qual não foi nossa surpresa quando um relâmpago explodiu no céu e uma chuva torrencial nos atacou sem pudor, mulheres escondendo os celulares dentro de suas botas, blusas ficando transparentes e a areia da arena virando um barro. Se até então eu apenas arranhava a superfície de Barretos, esse foi o momento de comunhão: uma das minhas recém-feitas amigas arrancou um pequeno outdoor de patrocínio, uma estrutura de metal e lona de 3mx10m, e improvisou uma cabana pra gente. De braços em riste, segurávamos aquela proteção da chuva enquanto, a cada segundo, mais pessoas se aproximavam, uma chuva torrencial caindo. Mais umas pessoas arrancaram as lonas de patrocínio e quando vi éramos umas 40 pessoas esticando os braços para manter nosso abrigo, rindo e divindo cerveja quente. Todavia, o show seguia e achamos injusto com nosso momento especial assistir a ele de longe, alienados. Decidimos aproveitar o show de perto e caminhamos para perto do palco, todos os 40 juntos, num trenzinho, carregando as lonas com a mão esticada. Seguranças chegaram e nos privaram do nosso casquinho de tartaruga improvisado.

O temporal crescia cada vez mais, o vento cada vez mais forte e as gotas de chuva cada vez maiores. É quando ocorre uma evacuação em massa. Milhares de pessoas indo embora ao mesmo tempo. A fila do ônibus, até então sempre vazia, era quilométrica agora. Entrei — completamente encharcado, a chuva forçando minhas pálpebras a se fecharem — para a fila com famílias, casais e bêbados. Um primeiro ônibus estacionou e as pessoas do começo da fila começaram a entrar. Então um segundo ônibus parou na frente, no meio da estrada, abrindo a porta como quem diz “chegaí, fura fila”. Todo o ser vibe errada presente saiu da fila (inclusive eu): os amorais, antiéticos, sem rigor, fomos todos para o ônibus fácil. Enquanto o para-brisa embaçava e o ônibus chacoalhava pela estrada, fiquei conversando com um barretense como esse era o ônibus do Juízo Final levando quem não presta embora, aquela tropa de pessoas ensopando o chão do ônibus com suas roupas pingando. Ele ria e concordava com um “Nós vai morrer tudo!”. Que divino, que bruto.

DIA IV

Domingo, 21 de Agosto de 2016

O quarto dia de Barretos começou com a inauguração do cobertor que até então sobrevivia imaculado no armário. O temporal da noite anterior baixou a temperatura e o município, mesmo sem chuva, amanheceu aos 19°. A ressaca, o cheiro de roupa úmida, o único tênis encharcado, o frio inesperado: Barretos está tentando me ensinar uma lição? Mesmo com o clima lúgubre, alguns guerreiros mantinham viva sua epopeia e arrumavam sua bolsa térmica cheia de latões em uma esquina.

Encaminhei-me cedo até o Parque do Peão, pois aquele melancólico domingo seria também a final da competição de montaria de touro da PBR, a Professional Bull Riders, organização responsável pela premiação em dinheiro de 100 mil reais e a ida de um peão para competir em Las Vegas. Além disso, seria revelado o nome do mascote oficial da PBR, um homem vestido de peão, porém com cabeça de touro, um minotauro antropofágico que todo dia se apresentava fazendo danças e palhaçadinhas em geral ao som de riffs de guitarra e à luz de pirotecnias como lança-chamas e fogos de artifício — vamos terminar logo aqui com isso, o nome escolhido foi Pibibull, ok? Seguimos.

Mesmo sendo final, a arquibancada recebia um quórum tímido de casais entusiastas de montada de touro. A maior parte do público se dividia entre duas atividades: ou estavam no palco infantil Barretinho assistindo a uma peça de teatro — que, pelo que entendi, era a Peppa Pig e sua turma recontando a Arca de Noé — ou na fila para montar no touro mecânico. A porquinha Peppa e o touro robótico que levantava o vestido das mulheres praticamente lado a lado, criando uma dicotomia um pouco assustadora.

A areia molhada na arena dificultava a montaria e permitia que os touros jogassem os peões pra lá e pra cá como bonecas de pano. A dinâmica, independente do peão, era a mesma: ao som de “Rockstar” do Nickelback, a porteira era aberta e o peão surgia no lombo de algum touro musculoso e imponente que relinchava em um breakdance infernal. Três ou quatros segundos depois o peão já se encontrava no chão e um corte seco oscilava de “Rockstar” para o dedilhado de alguma canção do The Calling. A trilha, vez em quando, mudava para “American Idiot”, do Green Day, ou “Master of Puppets”, do Metallica. A noite era dos touros, criaturas quase mitológicas de semblante apático como se ruminassem os horrores que viram e corpos inflados, como se usassem anabolizante, cada músculo do corpo pulsando no ápice de sua funcionalidade. E os nomes! Touros batizados de: Bipolar, Assédio Moral, Pikachu, WhatsApp, Playboy, Samurai, Vegetariano, Miss Cancun, Blindex, Hard Rock, Artista, Vingador, Escuridão.

Da arquibancada, eu comia um espetinho de churrasco e praticava a hipocrisia ao julgar a violência animal. Ao indagar qualquer profissional no evento, o que você recebe é um discurso pronto sobre como o boi é bem tratado, todos animais são tratados com respeito e cuidado (“melhor que muito peão”, riu um dos tratadores). No site d’Os Independentes, associação organizadora do evento, há uma página chamada Mentiras & Verdades sobre o Rodeio em que, agora por escrito, dão mais ou menos os mesmos argumentos. Ainda assim, no começo do ano, a Justiça proibiu a prova do laço e a vaquejada, limitando o Rodeio apenas à monta do boi. As visitas guiadas ao breta, oferecidas aos membros da imprensa, insinuam um cuidado e profissionalismo com o animal, mas uma breve pesquisa de Google aponta dezenas de denúncias e vídeos de maus-tratos.

Fiz a única coisa que minha preguiça e indulgência permitiam: torci para o touro em todas provas da final. Existe uma definição clara entre quem torce para o peão (pra minha surpresa, a maioria) e quem torce para o touro. Existe uma beleza em um animal acuado, assustado e atucanado querendo se livrar de um ser humano. Cada tombo era uma pequena comemoração minha, corroborada apenas pela gargalhada senil de um senhor sozinho que sentava a uns metros de mim. É como ver “Godzilla” e não torcer para o monstro. As crianças que torciam para os cientistas e prédios hoje torcem para o peão ou trabalham no RH de empresas. Por fim, o peão Dener Barbosa montou com destreza o touro Tempo Ruim na noite fria e chuvosa de domingo e se consagrou campeão.

Exibindo a fivela de ouro do PBR, conversei com o peão. Humilde e genuinamente empolgado, contou sobre seus ossos quebrados, sobre o medo que nunca se dissolve por completo, sobre a energia da arena. Perguntei se, aos olhos dele, as pessoas torciam mais para o peão ou para o touro. “Olha, eu prefiro achar que para o peão, mas entendo quem gosta do touro.”

DIA V

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2016

Segunda-feira toma Barretos impondo seu pragmatismo de dia útil. Trabalhadores caminham pelas calçadas; os latões somem e as mãos agora desfilam pelo centro segurando contas para pagar. Na rádio, a notícia de que um boi havia sido alvejado até a morte na noite anterior, com um tiro fatal na cabeça,dias antes de ser leiloado em prol do Hospital de Câncer de Barretos — no resto do ano, o que movimenta a cidade são os milhares de pessoas que peregrinam até a cidade em busca do seu tratamento oncológico sofisticado e inovador. É como se a realidade voltasse de férias.

A recepcionista do hotel, Ana Lúcia, conta sobre as amizades que fez ao decorrer de anos e anos de Barretos: políticos, artistas em busca da fama, pequenos comerciantes. Lista interações, parafraseia frases; é como se anualmente colasse novas figurinhas em seu álbum de visitantes. Mesmo voltando ao normal, a cidade segue com o que pode ser chamado de “uma atmosfera”.

No ônibus de volta para São Paulo, sento ao lado de Volnei, 50 anos, recém-divorciado, barretense que ia para a capital visitar o irmão. Batemos nossas impressões sobre a festa, ele como local, eu como intruso. Ele mia uma mágoa teatral sobre como o patrocínio, os camarotes e as novas gerações destruíram a essência de Barretos; esmurra o ar e critica a lei proibindo técnicas de montaria no Rodeio, enchendo a boca para pronunciar “vergonha!” várias vezes, os fios grisalhos espetando para fora do seu bigode preto.

Penso nas dezenas de particularidades que deixei passar, que sensibilidade aguçada alguma seria capaz de absorver a essência de uma festa sexagenária. Penso no peão Dener, no Henrique, no Seu Benê, na recepcionista e até na banca de “cerveja na bundinha”. O quanto conscientemente não ceder ao moralismo e ao julgamento e forçar a alteridade não é uma manifestação ainda mais condescendente de moralismo. O quanto de mim foi projetado em tudo que vi; o quanto foi distorcido, mutilado e cozinhado na panela da minha percepção.

A Festa de Barretos é uma celebração de uma cultura, um evento de autoafirmação do povo caipira, onde trejeitos e roupas frequentemente pejorativos são ressignificados. Ao mesmo tempo, é uma festa violenta em que o consumo abismal de álcool nos deixa cegos pelo cabresto do hedonismo. Mas também é o Brasil em toda sua glória sertaneja, colocando uma lente de aumento em toda ambiguidade moral do amor romântico. A Festa de Barretos é a festa que ocorre na sua cidade desde que você nasceu e é como um primo que te visita todo ano para vocês darem uma volta; é a viagem que você faz com seus amigos para fugir da rotina; é, enfim, uma grande mancha de teste de Rorschach em que cada um enxerga o que quer — ou precisa, ou prefere.

Uns quilômetros depois, o silêncio da estrada vencendo minha conversa com Seu Volnei, me peguei fitando a paisagem do interior paulista pela janela do ônibus e imaginando um homenzinho correndo ao lado do veículo, veloz e ágil saltitando entre os topos das árvores. Desde sempre resvalo para essa fantasia em toda viagem que faço. Comento com Seu Volnei, descrevendo a brincadeira como um ritual alienígena. Ele sorri e diz que também faz, desde sempre. “Acho que todo mundo é meio parecido nesse aspecto.”