Reportagens sobre crimes pipocam diariamente em jornais e sites pelo mundo. Se há bastante repercussão, acompanha-se por algum tempo as investigações, depois o julgamento e a história geralmente morre por aí. O crime começa quando é cometido e termina quando alguém é declarado culpado. É a concepção mais comum, com a qual o jornalista Eli Sanders, que escreve para o jornal semanal gratuito de Seattle The Stranger, não concorda. Quando, no verão de 2009, seu editor lhe pediu para escrever sobre um crime no bairro de South Park, no sul da cidade, ele não tinha muitos detalhes sobre a história, mas foi a fundo nela. Fez uma matéria. Depois outra. Dois anos depois, outra — pela qual ganhou, em 2012, o Pulitzer de reportagem. E depois, neste ano, um livro, chamado “While the City Slept”, no qual investiga as origens do crime, deixando de lado os detalhes mais horripilantes do crime em si.

Em 2009, um homem com uma faca invadiu a casa em que Jennifer Hopper e sua noiva, Teresa Butz, moravam e durante mais de uma hora as estuprou repetidas vezes. Jennifer foi esfaqueada, mas conseguiu fugir da casa, nua, para pedir socorro aos vizinhos. Ela sobreviveu. Teresa, não. A história chocou as pessoas do bairro, com quem Teresa e Jennifer eram bastante ligadas e era esse luto o foco da primeira reportagem de Sanders. “Enquanto eu trabalhava naquele texto estava acontecendo uma caça à pessoa que tinha atacado elas. Quando eu terminei a matéria, Isaiah Kalebu tinha sido preso pelos crimes. Foi assim que comecei. Olhei para o luto, o choque, o alarme no bairro e fiz um retrato breve, da melhor forma que pude, de quem eram Jennifer e Teresa. Depois descrevi a prisão do homem que era suspeito de ter atacado as duas”, conta o jornalista pelo telefone, dos Estados Unidos.

Continuou seguindo o caso de perto depois da prisão, e a reportagem seguinte narrava os meses anteriores ao crime na vida de Isaiah Kalebu, sob o título “The Mind of Kalebu – What the Alleged South Park Killer Was Thinking” (a mente de Kalebu – o que o suposto assassino de South Park estava pensando). O texto tenta entender como ele chegou àquele ponto, passando pelas condições sociais em que ele cresceu e também pela sua saúde mental, humanizando o assassino. É um texto difícil de ler, porque ao tentar decifrar quem era o assassino de Teresa, o que o tinha levado a cometer os crimes, Sanders mostra que se os sistemas de saúde mental e judicial dos Estados Unidos fossem melhores, o estupro das duas e a morte de Teresa poderia ter sido evitados, descoberta que desenvolveu no livro. “Tracei um retrato das fendas pelas quais Kalebu escapou, e hoje as entendo melhor. Acho que no livro tentei demonstrar isso com mais profundidade.”

Os sinais de que Isaiah Kalebu precisava de ajuda começaram na infância, quando um professor percebeu que ele tinha dificuldades na escola, apesar de ser inteligente, e recomendou que ele procurasse um psicólogo. Os pais não só se recusaram a levá-lo como o matricularam numa escola religiosa, que era contra intervenção médica nesses casos. Para a família de Kalebu a solução para problemas mentais não era buscar ajuda. Tudo se resolveria se ele se esforçasse mais, pedir ajuda seria um sinal de fraqueza.

Nos anos seguintes, intensificaram-se os sinais de que ele precisava de tratamento. Em 2008, Kalebu entrou em um prédio comercial com um pitbull, disse que havia comprado o imóvel com dinheiro ganho com comércio de açúcar, “demitiu” várias pessoas e se instalou por lá até ser levado a um hospital psiquiátrico para avaliação, onde deu declarações como “eu sou o rei”. Saiu dali com o diagnóstico de que era bipolar e maníaco. Entre essa primeira avaliação e a morte de Teresa, Kalebu foi preso diversas vezes. Ameaçou matar a mãe, brigou com policiais, aterrorizou uma funcionária de um hospital e a tia, que o expulsou de casa — na semana seguinte o imóvel pegou fogo e ela morreu (ele era um dos suspeitos). Duas vezes um psicólogo do Estado afirmou que ele representava um risco para a sociedade e mesmo assim, menos de uma semana antes da morte de Teresa, um juiz permitiu que ele saísse do hospital e cuidasse do próprio tratamento psicológico, sem acompanhamento.

Isaiah Kalebu com sua advogada no julgamento pela morte de Teresa Butz. Crédito: Mike Siegel/AP Photo
Isaiah Kalebu com sua advogada no julgamento pela morte de Teresa Butz. Crédito: Mike Siegel/AP Photo

O sistema de saúde mental americano, escreveu Sanders no Stranger, é tão criticado quanto mal financiado. “Permitiu que Kalebu seguisse sua vida normal quando deveria ter sido contido, como fica aparente em quase cem páginas de documentos da polícia e de tribunais que ele gerou nos 16 meses seguintes ao seu exame em Harborview, assim como em vídeos de suas numerosas aparições no tribunal naquele período”, diz sua matéria. Em um julgamento dias antes da morte de Teresa, o promotor não levou em consideração passagens mais recentes de Kalebu pela polícia porque não havia um sistema unificado nos computadores que permitisse que se checasse tudo relacionado a uma determinada pessoa. Se o sistema fosse melhor, ele talvez estivesse preso no dia em que entrou na casa de Jennifer e Teresa.

Tudo isso estava na mente do jornalista quando, em 2011, foi ao julgamento de Kalebu, sem saber ainda se escreveria algo a respeito. “Eu me sentia conectado à história e queria ver no que ia dar. E quando Jennifer deu seu depoimento ficou muito, muito claro para mim que algo precisava ser escrito. Me senti compelido a escrever algo sobre a clareza e a coragem do seu depoimento. Esse texto ganhou o Pulitzer um ano depois”, conta. No relato, Sanders deixa as partes mais escabrosas daquela noite de lado, para colocar os holofotes na coragem da mulher em contar sua história. Segundo o texto, Jennifer sentou no banco das testemunhas para dizer: “Isso aconteceu comigo. Vocês precisam ouvir. Isso aconteceu com a gente. Vocês precisam ouvir quem foi perdido. Vocês precisam ouvir o que ele fez. Vocês precisam ouvir como Teresa lutou contra ele. Vocês precisam ouvir o que eu amava nela. Vocês precisam ouvir o que ele tirou de nós. Isso aconteceu”. O texto foi publicado com o título “The Bravest Woman in Seattle” (a mulher mais corajosa de Seattle).

O autor não achava que os pormenores da violência fossem necessários à narrativa. Pelo contrário, tinham o potencial de distrair o leitor de seu objetivo, que era contar a história de Jennifer. Seu relato é poderoso, sem sensacionalismo. “Você tem que entender o horror do crime para compreender o poder de seu testemunho. Mas é sobre seu testemunho. Sua coragem, o amor que ela e Teresa tinham, a forma como elas tentaram apelar para a humanidade de Isaiah Kalebu. O custo e as constequências das ações. Não achei que precisasse colocar mais horror em algo que já era horrível.”

“Eu já achava que talvez tivesse um livro ali, porque para todo canto que eu olhava na história tinha indivíduos — Jennifer, Teresa, Kalebu, suas famílias — cujas vidas tinham lições importantes. Depois que ganhei o Pulitzer tive a oportunidade de realmente escrever o livro”, lembra o autor. “Senti uma responsabilidade de tirar lições úteis do que foi uma tragédia terrível. Não vi um motivo para seguir com isso a não ser que tivesse um propósito. Espero que tenha alcançado isso.”

whilethecity

Depois do julgamento, em que Kalebu foi condenado à prisão perpétua, Jennifer se aproximou de Sanders, escrevendo com a ajuda dele um texto para o Stranger. Quando a oportunidade de escrever um livro se concretizou, buscou também as famílias de Teresa e Kalebu. “Normalmente, como jornalista, tenho prazos muito definidos. Nesse caso eu tinha muito tempo para dizer, ok, agora não é uma boa hora para a gente falar disso, talvez a gente possa se falar em uma semana, ou um mês. Podemos falar um pouco agora e um pouco depois. Essa questão do tempo foi fundamental para minha habilidade de trabalhar com todas as pessoas envolvidas.”

Essa falta de tempo na vida de um jornalista explica, em sua opinião, por que a cobertura de crimes na imprensa não explora as causas do crime. “Mas é importante que façamos isso quando podemos. É importante que empresas de mídia coloquem recursos nesse tipo de trabalho quando podem. É caro, em termos do tempo de um repórter, mas acho que é mais esclarecedor do que só cobrir os detalhes do crime, o julgamento e o veredito e pronto”, opina. “É como se falássemos pras pessoas que o crime começa quando é cometido e termina com o veredito. Isso é um episódio da série ‘Law & Order’, não é a vida. Acho que o crime começa antes e suas consequências permanecem muito tempo após o julgamento.”

Segundo Sanders, os Estados Unidos gastam muito mais dinheiro construindo presídios do que investindo em saúde mental. “Chegamos num ponto em que há dez vezes mais pessoas com doenças mentais em cadeias do que em hospitais no país. Está de ponta-cabeça, é um uso muito ruim de recursos”, afirma. “Há décadas falhamos em prestar atenção na saúde mental das pessoas, no sistema criminal e nas necessidades individuais das pessoas.” O sistema criminal, diz, não está na pauta de nenhum dos candidatos à eleição presidencial americana, que será realizada neste ano. “Políticos às vezes falam disso logo que crimes acontecem. Mas mesmo assim não é uma conversa muito esclarecedora”, diz. “Quem está seguindo as eleições deste ano vê que falam de um carnaval de outras questões. Mas disso, não.”

Ele ressalta que a grande maioria das pessoas que vivem com doenças mentais não são violentas. Pelo contrário, há mais chances de que elas sejam vítimas de crimes do que responsáveis por eles. “Não acho que um leitor cuidadoso vá ler meu livro e terminar pensando que pessoas com doenças mentais sejam todas violentas e criminosas em potencial. Se você pensar um pouco, vê que isso é um pouco ridículo. ‘Doenças mentais’, em primeiro lugar, é um termo casual muito amplo sobre o qual nem há um consenso. Engloba tudo desde uma ansiedade leve à esquizofrenia. Acho que qualquer um que parar pra pensar vai perceber o quão louco é dizer que qualquer um que viva algo que chamamos de doença mental seja violento.”

É só importante que para casos como os de Isaiah Kalebu, que tinha um histórico de violência, o tratamento correto seja dado o quanto antes. Contar histórias como essa e aprofundar-se nas raízes do crime, em sua opinião, ajuda as pessoas a prestar mais atenção na origem da violência e a entender que o problema não se resolve só com presídios. “Esse é nosso trabalho como jornalistas. As pessoas não estão ouvindo dos políticos. Temos que tentar fazer nossa parte.” Não era seu sonho, quando começou a carreira, escrever sobre crimes. “Mas minha trajetória me levou até aqui. Desenvolvi com o tempo o sentimento de que há mais coisas em histórias de crimes do que dá pra contar nas matérias pequenas que escrevia. Vi nesse livro uma oportunidade de contar uma história mais abrangente e, espero, oferecer algum significado e lições.”