“Esse dinheiro é meu”, disse Mario Chiesa quando percebeu que os três homens com pinta de empresários acomodados na poltrona de seu escritório eram, na verdade, policiais. Chiesa tinha 47 anos e era um dos principais homens do Partido Socialista Italiano (PSI). Comandava o Pio Albergo Trivulzio, um complexo de asilos e orfanatos fundado em Milão em 1771 em torno do qual gravitavam imóveis de compra e venda, aluguéis, obras de construção e restauro, peças de arte e dinheiro, muito dinheiro — caixa forte alimentado pela caridade aos desamparados. “O senhor pode conferir se quiser”, respondeu um dos policiais já com o distintivo em mãos. “Cada nota de 10 liras está assinada pelo procurador da República. Fizemos cópias de todas. Temos ordens para levar tudo, inclusive o senhor.”

O dinheiro não era de Mario Chiesa. Os maços cuidadosamente numerados, fotocopiados e assinados pessoalmente pelo procurador tinham chegado até sua sala em uma maleta 007 de couro marrom minutos antes da discreta batida policial, levada por um pequeno fornecedor de serviços. Sentindo-se extorquido, o fornecedor havia procurado a Justiça meses antes, acusando Chiesa de cobrar 10% sobre cada negócio fechado no Trivulzio. Grampeado por quase um ano, o diretor tinha poucas chances de escapar. O processo era robusto, detalhado com horas de gravações telefônicas que culminavam com a maleta marrom da propina, uma armadilha cuidadosamente preparada no dia em que o fornecedor deveria entregar a Chiesa parte de um suborno negociado.

Era 17 de fevereiro de 1992, seis e meia da tarde de uma segunda-feira e aquela maleta marrom provocaria um terremoto.

Os jornais souberam da notícia por volta das nove da noite e mandaram seus repórteres ao prédio da Procuradoria. A prisão de Mario Chiesa estampou as primeiras páginas nas edições da manhã seguinte encoberta por dúvidas. Teria o membro do PSI se voltado à corrupção? Seria aquele um caso isolado? O partido estaria envolvido? Somente nas semanas seguintes os jornalistas conseguiram decifrar aqueles e outros enigmas. Nos meses e anos que se sucederiam àquela segunda-feira, a Itália seria devastada por uma onda judiciária que passaria à história como operação Mãos Limpas – usada como inspiração na operação Lava Jato, que atualmente provoca terremotos políticos e judiciários no Brasil.

Maleta usada para subornar Mario Chiesa. Ela foi leiloada em 2007. O prefeito da cidade de Senigallia arrematou a relíquia e a expôs na prefeitura. O dinheiro foi doado à caridade.
Maleta usada para subornar Mario Chiesa. Ela foi leiloada em 2007. O prefeito da cidade de Senigallia arrematou a relíquia e a expôs na prefeitura. O dinheiro foi doado à caridade.

A prisão de Mario Chiesa deveria ser apenas uma entre tantas histórias de corrupção italiana: em poucos dias ele estaria solto graças ao trabalho dos melhores advogados do país. Sem dizer uma palavra, o processo terminaria em nada, mesmo sob provas evidentes — algumas vírgulas do ordenamento jurídico o salvariam, talvez até mesmo anulando toda a investigação com alegações banais, desde que juridicamente bem postas. O sistema era conhecido. Aquelas assinaturas nas notas de dinheiro eram previstas em lei, por exemplo? Bastava especular sobre a inexatidão dos códigos e a mágica seria feita.

O final feliz de Mario Chiesa não era o mesmo pretendido por Antonio di Pietro, o procurador da República encarregado do caso. Parcialmente careca aos 41 anos, corpulento e acima do peso, Di Pietro estudava o sistema há tempos. Era um homem interiorano de Molise, uma das regiões mais pobres da Itália, cria de um sul embrutecido onde, diziam o ditado e a história, nem mesmo Cristo havia pisado. A leniência que se atribui à parte mais quente da península não era sua característica.

Lotado na sala 254 da Procuradoria de Milão, Di Pietro era visto como um autêntico outsider: procurador substituto em um mundo cheio de vaidades e compadrios, ocupava a última porta do longo corredor de um prédio que tinha, na outra ponta, o procurador-geral. A distância entre um e outro era um emblema de sua personalidade. Sentado em uma poltrona velha e afastado do coração do poder da magistratura, o procurador estava sempre disposto a enfrentar histórias que poucos se atreviam na Milão daqueles tempos. Quatro anos antes, ele havia colocado uma centena de instrutores de auto-escola atrás das grades para interrogatórios sobre a venda de carteiras de motorista — um sistema paralelo que gerava milhões de velhas liras a dezenas de poderosos locais. O caso lhe rendera algum holofote, mas os anos seguintes apresentaram somente causas de menor expressão. Em 1991, depois de aperfeiçoar seu próprio método de trabalho, Di Pietro estava pronto para o grande salto, e percebeu que o caso de sua vida poderia estar no pedido de ajuda do fornecedor do Trivulzio que lhe contou em detalhes como Mario Chiesa cobrava pedágio de cada prego que entrasse no complexo que dirigia.

Di Pietro conhecia a dimensão de Mario Chiesa, um dos nomes fortes do PSI para a disputa da prefeitura de Milão. Jamais havia encarado alguém de sua estatura política e com suas relações com o poder. Por isso formou uma esquadra de policiais e assistentes leais a seu propósito, convencendo-os de que aquela história poderia ser a ponta de um novelo intrincado de concussões e outros crimes. Aos seus subordinados, o procurador conseguiu passar suas ideias, seu modo de ver uma investigação e também seus próprios trejeitos — ao caminhar, muitos arrastavam os tacos dos sapatos como ele, e balbuciavam em dialeto, como ele, mesmo não sendo de Molise. Eram praticamente seus sacerdotes, mordomos mudos e fiéis como seu plano judiciário requeria.

A maleta marrom foi levada à procuradoria junto com Mario Chiesa. Di Pietro queria que ele confessasse e que entregasse outros membros do partido. Sabia, pelas declarações do fornecedor, que Mario não era um chacal isolado e que o sistema poderia permear parte importante do Partido Socialista Italiano.

Chiesa permanecia calado. Em pouco tempo deveria ser liberado daquele constrangimento. Seus advogados impetraram habeas corpus e tentaram livrar o diretor da prisão, ao menos para responder em liberdade. A batalha entre os advogados e o procurador se arrastou por fevereiro e entrou em março, quando os socialistas já imaginavam que seu dirigente estaria solto, e dia após dia os juízes superiores davam razão a Di Pietro, que defendia a prisão até que Chiesa decidisse colaborar.

A demora preocupou os socialistas. Nos primeiros dias, o partido se limitava a notas burocráticas. Com o passar do tempo e diante de eleições legislativas iminentes, nas quais o PSI depositava grandes esperanças, o secretário-geral do partido decidiu enfim se pronunciar. Bettino Craxi havia sido primeiro-ministro da Itália nos anos 80 e acreditava que o PSI poderia voltar ao poder já em abril, quando o país iria ao voto. Em 3 de março, Craxi tomou uma decisão dramática: dirigiu-se aos estúdios da TV pública RAI e declarou ao vivo em um dos principais telejornais da emissora que Mario Chiesa era “uma marionete” que estava “jogando sombras” na imagem de um partido que “em 50 anos não tivera nenhum administrador condenado por crimes contra a administração pública”. O caso estava desorientando os eleitores, até mesmo os mais fiéis socialistas, surpresos com a corrupção no alto escalão de um partido que acreditavam ser incorruptível. Na TV, Craxi se disse surpreso com a atitude de Chiesa, e se colocou, ele próprio, como “uma das vítimas daquela história”. Mesmo contrariado, o PSI abandonava ao mar seu homem de Milão.

Sem saber, Bettino Craxi dava o primeiro exame de ferro à estratégia montada por Di Pietro. Criticado, o procurador manteria Mario Chiesa — e os futuros envolvidos no caso — presos pelo maior tempo possível, sempre convencendo os juízes de que, soltos, voltariam a cometer crimes e destruiriam provas. Na solidão da cadeia, Chiesa se viu renegado pelo PSI, mas não cedeu. Ainda pensava numa saída quando Di Pietro mandou chamar seu advogado. “Diga a seu cliente que a água mineral acabou.” O procurador não falava sobre os suprimentos da carceragem, mas sobre as contas secretas Levíssima e Fiuggi, descobertas em um banco suíço sob os nomes das mais populares marcas de água vendidas nas gôndolas dos supermercados italianos. Era nelas que Chiesa escondia a maior parte de seu dinheiro.
Em 23 de março, sem saída e diante das insistentes tratativas abertas pelo procurador para que ele colaborasse com a Justiça, Chiesa decidiu contar tudo.

A maleta marrom do Pio Albergo Trivulzio não era caso isolado. Todos os anos, há muito tempo, centenas de maletas como aquela viajavam por toda a Itália para irrigar as contas do Partido Socialista. As propinas eram cobradas em todas as autarquias comandadas pelo PSI e serviam para financiar campanhas eleitorais e enriquecer ilicitamente dirigentes e agregados. Mario Chiesa contou detalhes de algumas operações e revelou ares de organização criminosa. O que para Antonio di Pietro era apenas um ponto no céu, se abriu como uma constelação impossível de alcançar a olho nu. Chiesa contou mais: não era só o PSI a se lambuzar no dinheiro público, mas todos os partidos surgidos na Itália pós-guerra. A chamada Primeira República estava podre.

Chiesa falou por sete dias seguidos. A procuradoria pediu sua soltura sob o manto de colaborador de Justiça, prometeu reduzir sua pena e precisou de um tempo para digerir todas as informações. Nas urnas, Craxi se elegeu deputado, mas o PSI foi derrotado enquanto força política, um abalo provocado pelas seguidas notícias que saíam nos jornais, dia após dia, sopradas de dentro da sala 254.

A imprensa era parte fundamental da estratégia de Di Pietro.

Ele recebia repórteres em sua sala marginal com os pés em cima da mesa enquanto estralava a cervical em movimentos contínuos e barulhentos. A maioria dos jornalistas eram jovens plantonistas em busca de um bom furo na incipiente carreira. Di Pietro, mais velho, chamava-os de “doutores”, um tanto com respeito e outro com ironia. Apenas uma provocação na simbiose entre pequenos burgueses de vida mais ou menos fácil e o filho de agricultores imigrado do sul ao rico norte, formado em direito enquanto fazia mil trabalhos paralelos para comer e viver na civilização acima de Roma. Antonino, como se fazia chamar pelos repórteres mais chegados, sabia que deveria se escorar neles caso quisesse levar seu plano adiante. Contra os mais sorrateiros poderes da Itália, somente a capa dos jornais e revistas e as escaladas dos noticiários de rádio e TV manteriam ao lado dos investigadores o único inimigo que nenhum político em nenhuma parte do mundo deseja ter: o povo.

No mês seguinte à confissão de Chiesa, oito empresários foram presos, provaram o cárcere por mais tempo do que imaginaram, confessaram e saíram como colaboradores de Justiça, abrindo galáxias ainda maiores no universo da corrupção estatal vislumbrada pelo procurador. A técnica se repetiria dezenas de vezes, sob críticas ferozes de partidos e movimentos da sociedade civil que apontavam excessos cometidos pela Procuradoria, que seguia avançando em seu carro-armado.

A confissão de Chiesa criou um clima de instabilidade política. Onde todos se viam como inimigos, Di Pietro surgiu como opção. Sem a confiança do sistema de propinas, o procurador empurrou seu próprio sistema: prender, obter confissões que envolvessem mais e mais nomes, negociar uma pena menor, livrar da prisão. Uma reação em cadeia. Quando o último dos oito empresários prestou o depoimento definitivo, seu advogado, um experiente defensor que já havia visto muitos casos de colarinho branco, foi interpelado por jornalistas que há algum tempo faziam plantão em frente ao presídio de San Vittore, para onde eram levados os investigados. “Esses aí irão em frente por anos e anos. Farão centenas de prisões.”

***

Uma semana depois da confissão dos empresários, o procurador-chefe se arrastou pelo imenso corredor que separava a sala de Di Pietro da sua e lhe ofereceu ajuda. Antonio aceitou e a passou a trabalhar com outros dois procuradores, Gherardo Colombo e Piercamilo Davigo. Juntos, os três dividiram o processo em fases e espalharam o método Di Pietro por todas as fases da operação. Em cada uma delas, um alvo principal deveria ser investigado. Até a metade de 1992, caíram nas redes da Mãos Limpas o prefeito de Milão e seu antecessor, também do PSI. No bar da Procuradoria, os repórteres comentavam que estava aberta a temporada de caça ao secretário-geral do partido, Bettino Craxi, que eles chamavam de “javalizão”. Era sem dúvida a maior cabeça a prêmio do matagal político. Naqueles dias, o próprio Di Pietro confessou a Paolo Colonnelllo, colunista do jornal Il Giorno: “Podemos chegar a Craxi. Mas temos que ir com calma”.

Colombo, Di Pietro e Davigo em 1994.
Colombo, Di Pietro e Davigo em 1994.

Intimidado, Bettino Craxi partiu para o ataque. Acusou os procuradores de tortura, disse que as prisões eram ilegais e que os métodos para obter confissão se configuravam abusos das leis. Em entrevistas e editoriais, apontava a magistratura como fator de instabilização social e política e denunciava os conselhos superiores de compactuar com táticas extremas para levar o processo a um fim político: outros partidos que não o PSI estariam tendo vida fácil enquanto os socialistas eram vistos como únicos culpados diante da opinião pública. Em junho, as denúncias de Craxi tiveram um eco terrível na área rural da cidade de Lodi: Renato Amorese, 49 anos, secretário local do PSI, suicidou-se com um tiro na têmpora. “Eu errei, estou mortificado pelos meus erros”, escreveu na carta de suicídio que deixou para a esposa. “Peço perdão.” A Di Pietro, no entanto, Amorese concedeu o perdão: “Agradeço pela compreensão que demonstrou comigo”. Não teve a mesma compaixão com o procurador o deputado socialista Sergio Moroni, 45 anos, que tirou a própria vida em 2 de setembro depois de enviar uma carta a um líder partidário na qual evidenciava um processo “sumário e violento”.

“Eu errei, estou mortificado pelos meus erros”, escreveu Lodi na carta de suicídio que deixou para a esposa

As tragédias pessoais não pareciam comover a população. A operação tinha forte apelo popular, e os suicídios ou as palavras de Craxi eram sopros de vento diante dos furacões da Procuradoria. Nas ruas, a Itália enlouqueceu. Cartazes com mensagens de apoio a Antonio Di Pietro eram vistos todos os dias. “Salvai-nos do mal.” Foram criados comitês de cidadãos em várias cidades do país para apoiar os trabalhos do procurador. Manifestações tomaram conta da entrada do Palácio da Justiça em Roma pedindo para que Di Pietro não desistisse. Surgiram até mesmo hagiografias baseadas em boatos: numa delas, Di Pietro, um verão antes da Mãos Limpas, havia salvado uma moça que se afogava no mar, levando-a em segurança para a areia diante de centenas de olhares curiosos. No comércio popular, cartazes com os procuradores no lugar dos atores do filme Os Intocáveis eram vendidos aos milhares.

Naquele mesmo ano, quando a mãe de Di Pietro faleceu, o jornalista do Corriere della Sera, Goffredo Buccini, foi à cidade natal do procurador e cedeu carona aos dois novos companheiros de Antonio, Davigo e Colombo. No cemitério, foi como se carregasse duas estrela de cinema — a massa tentando entrar no carro pelas janelas, o jornalista manobrando para evitar uma tragédia. Era como se, depois de décadas votando em lobos sem escrúpulos, aquela gente estivesse abraçando os caçadores que tentavam cortar as cabeças dos animais.

Nomes de políticos de todos os partidos já começavam a aparecer nas anotações dos procuradores, mas o mais em evidência ainda era Bettino Craxi. Cercado, o secretário-geral do PSI pesou a mão. Em um artigo publicado no jornal Avanti, Craxi escreveu: “Nem tudo que reluz é ouro”. Atacando Di Pietro pessoalmente, defendeu que o procurador era parcial, e sugeriu que ele protegia amizades enquanto atacava os socialistas. O artigo não surtiu efeito popular. No descampado da arena política, em 15 de dezembro daquele interminável 1992 Bettino recebeu sua primeira intimação para depor na Mãos Limpas.

A sequência de acontecimentos despertou um enorme sentimento anti-Craxi no país, já visto como culpado aos olhos da opinião pública. Em um editorial publicado em outubro de 2005 no jornal La Repubblica, o jornalista e escritor Filippo Ceccarelli relembrou o clima das ruas. “Foi um autêntico contágio em massa, um mecanismo acusatório” no qual “não passava um dia sem que Craxi encontrasse nas ruas jovens que lhe gritavam ‘Ladrão!’ mostrando os punhos cerrados. Nasceu uma espécie de rito cotidiano, tanto que um dia o sósia televisivo de Craxi, Pier Luigi Zerbinati, precisou se esconder em um carro com medo de ser confundido com o Craxi verdadeiro”.

Em fevereiro de 1993, um ano após a prisão de Mario Chiesa que desencadearia um inferno político na Itália, Bettino Craxi se demitiu do cargo de secretário-geral do PSI. Em 30 de abril, após receber quase duas dezenas de intimações da Justiça, Craxi fez seu último discurso no Parlamento, no qual acusou todos os líderes de partidos de hipócritas, defendendo que todos eram beneficiários do mesmo esquema que estava erodindo o PSI. “Não sou culpado nem mais e nem menos que ninguém”, declarou. Mesmo diante da ira de alguns de seus colegas deputados, Craxi foi blindado pelo Parlamento, que não autorizou que a Justiça fizesse investigações relevantes sobre seu nome e seus contatos, dando a ele uma espécie de foro especial.

“Não sou culpado nem mais e nem menos que ninguém”, declarou Craxi

A proteção da Câmara ao ex-secretário do PSI gerou revolta popular. Naquela mesma noite de 30 de abril, praças em toda a Itália foram tomadas por cidadãos exaltados. Líderes populares e até mesmo outros juízes e procuradores — que haviam se manifestado contra o voto do Congresso para salvar Craxi — fizeram discursos e reuniram multidões. A noite terminou com uma massa diante do hotel em que o político estava hospedado. Ao tentar sair, foi recebido por uma chuva de moedas ao som de Guantanamera, com a letra do refrão trocada pelas frases “vuoi pure queste? Bettino vuoi pure queste?” (“quer também essas? Bettino quer também essas?”). Anos mais tarde, em uma entrevista, Craxi definiria aquela noite como o fim de sua carreira política.

***

A operação Mãos Limpas não parou no PSI. Nos meses seguintes, todos os principais partidos italianos seriam investigados. O escândalo envolveria boa parte das maiores empresas italianas, Olivetti e Fiat na primeira fila — todas sempre dispostas a pagar enormes propinas para ver seus negócios decolarem. O desfecho midiático aconteceu em outubro de 1993, pouco mais de um ano e meio após o início das investigações. Antonio di Pietro conduziu na TV, ao vivo para toda a Itália via RAI, o principal julgamento do caso, que tinha ao centro o empresário Sergio Cusani, uma das principais cabeças da Enimont, petrolífera de economia estatal e privada. As transmissões tinham índices de audiência clamorosos. Todos os principais líderes de partidos do país, até então senhores intocáveis, chegavam às casas dos italianos direto do banco dos réus. Aqueles que se negavam a colaborar eram intimados por Di Pietro na condição de testemunhas. Nesses casos, processualmente, o efeito era zero. Midiaticamente, um cataclisma. Os milaneses faziam fila todos os dias nos corredores do Tribunal de Milão para assistir aos interrogatórios. Quase todos os réus e testemunhas saíam de lá com os ossos triturados por um procurador que conhecia cada centavo de lira pública que cada um tinha nos bolsos. Expressões do dialeto interiorano do procurador-estrela entraram no léxico popular de todo o país, como a curiosa “che c’azzecca?”, algo como “que’nteressa?”.

Com Craxi fora do jogo, a política reagiu. Entre o final de 1993 e os primeiros meses de 1994, vários procedimentos foram à votação no Congresso para tentar salvar reputações políticas. Duas delas eram mais evidentes: uma queria despenalizar o financiamento ilícito de campanhas; outra, reduzir o tempo de prisão cautelar para acabar com a influência que os procuradores faziam em busca das delações premiadas. Por pressão popular, nenhum deles foi aprovado.

A investida da Procuradoria resultou na implosão total dos partidos. Todas as siglas foram abandonadas em nome de novos e lustrosos nomes. Os principais partidos, entre eles o Socialista Italiano e a Democracia Cristã, desapareceram. Em seu lugar, agremiações com ares de modernidade arrastaram para a arena nomes ainda limpos diante do mar de lama dos políticos tradicionais. Um deles era um empreiteiro de Milão que há anos tentava implantar uma rede de televisão privada na Itália. Como era proibido por lei de usar satélites para formar a rede — somente a TV pública RAI tinha a permissão — o empreiteiro decidiu usar a imaginação: comprou pequenos canais de TV regionais e despachou a todos eles fitas com os mesmos programas gravados: todos os dias, na mesma hora, rodava as fitas simultaneamente, criando uma rede sem satélites.

O empreiteiro teria a vida facilitada depois que o amigo e testemunha de seu segundo casamento, Bettino Craxi, conseguiu aprovar no Parlamento, antes de sua derrocada, a liberalização das redes de TV privadas na Itália.

Em 27 de março de 1994, com os partidos esfacelados, o empreiteiro que se vendia como um símbolo de renovação no país saiu vitorioso das eleições nacionais e assumiu o cargo de primeiro-ministro: Silvio Berlusconi chegava ao poder pela primeira vez, derrotando forças históricas, sobretudo com o voto de Milão e das regiões do norte, coração da Mãos Limpas.

***

A eleição pareceu acalmar a opinião pública, já cansada do imobilismo político e econômico. Do lado de fora dos tribunais, notícias pesadas enchiam as casas dos italianos todos os dias. Um levantamento feito pelo sociólogo Nando Dalla Chiesa contabilizou mais de 40 suicídios por conta da operação judiciária.

Um levantamento contabilizou mais de 40 suicídios por conta da operação judiciária

O sucesso das transmissões da Mãos Limpas pela RAI também respingou nas outras redes de TV, sobretudo na Fininvest, nome da financeira de Berlusconi que seria o embrião de seu conglomerado televisivo poucos anos depois. Os programas da Fininvest adoravam Di Pietro, o chamavam de “anjo do bem”, elevavam sua imagem ao culto das massas como modelo de homem que os italianos deveriam copiar. O cortejo a Di Pietro tinha um propósito claro: Berlusconi sabia que o procurador não pararia de investigar, e ele próprio, Berlusconi, recém-eleito primeiro-ministro, era o alvo mais provável após a saída de cena de Bettino Craxi. Ainda em 1994, Berlusconi convidou Di Pietro para uma reunião. O procurador estava disposto a aceitar o jantar em um escritório de advocacia ligado a Berlusconi em Roma quando foi demovido da ideia por seus colegas de Procuradoria. Eles sabiam do que a reunião trataria. Besrlusconi queria dar a Di Pietro um dos mais prestigiosos cargos da Itália, o Ministério do Interior.

Berlusconi não engoliu a desfeita. Em maio, tentou passar mais uma vez, agora por decreto, o projeto que limitava o tempo de prisão preventiva, instrumento largamente usado pela Mãos Limpas para obter delações premiadas. A magistratura de Milão se uniu e protestou — inclusive ameaçando demissões em massa em programas de TV —, barrando o projeto que enterraria a operação. Em outubro, com os ânimos quentes, uma entrevista de um dos procuradores do grupo de Di Pietro, Francesco Borrelli, ateou gasolina em um fogo já altíssimo: Borrelli garantiu que em poucos meses a Mãos Limpas “chegaria em um nível político muito alto”. Todos sabiam que ele falava de Silvio Berlusconi.

O recado de Borrelli se fez sentir de modo inesperado: em 21 de novembro, o jornal Corriere della Sera dava a notícia em primeira mão: “Amanhã Berlusconi será convidado a depor”. A notícia dava detalhes da operação, mostrando que as informações teriam sido vazadas pela Procuradoria. “O presidente do Conselho está inscrito no registro de pessoas sob investigação, por corrupção. Pesam sobre ele investigações que envolvem seu irmão, Paolo Berlusconi, e sobre Salvatore Sciascia, responsável pelos serviços fiscais da Fininvest.” Berlusconi estava em Nápoles como anfitrião de uma conferência mundial sobre segurança. Jornalistas do mundo todo se debruçaram sobre ele como moscas.

Usando o Ministério da Justiça como arma, Berlusconi ordenou uma investigação interna sobre os membros e procedimentos da Mãos Limpas. Fascículos foram devassados e pessoas foram interrogadas. As acusações que pesavam sobre o grupo diziam respeito a possíveis atentados à Constituição. Fora do governo, pessoas implicadas no escândalo de corrupção foram incentivadas a processar os procuradores. Vários o fizeram. Enquanto se esquivava das ações do premier, Di Pietro conseguiu documentos de uma off shore que ligavam Berlusconi a Craxi, com somas milionárias provenientes de corrupção escondidas no exterior. Alguns diretores da Fininvest foram presos para interrogatório, inclusive o irmão de Silvio, Paolo Berlusconi.

As emissoras que antes louvavam Di Pietro passaram a demonizá-lo

Berlusconi não deu trégua. Suas emissoras que antes louvavam Di Pietro passaram a demonizá-lo. Em 23 de novembro, apenas dois dias após a notícia do depoimento do primeiro-ministro aos procuradores, Giancarlo Gorrini, um dos investigados da Mãos Limpas, denunciou Di Pietro: dizia ter pago propina ao procurador — empréstimos sem juros e uma Mercedes. No dia seguinte, o ministro da Justiça começou uma investigação paralela e secreta contra Di Pietro. O procurador foi informado por um de seus colegas e começou a sentir o peso das retaliações. Outro procedimento pretendia culpar Di Pietro por dois dos inúmeros suicídios relacionados à Mãos Limpas. No dia 26, o procurador ouviu pelos corredores do Palácio de Justiça que, em Roma, estavam preparando um golpe para tirá-lo do cargo.

Enquanto aguardava para ouvir Berlusconi — que ainda não havia se apresentado à Procuradoria após várias intimações — Antonio di Pietro se via cada vez mais cercado por dossiês, inimigos e ameaças. Sem dar sinais de cansaço, o procurador marcou para o dia 6 de dezembro de 1994 a última sessão do júri do caso Enimont, o maior e mais midiático da Mãos Limpas. Após o último interrogatório do dia, Di Pietro caminhou até um canto da sala, pediu ajuda a uma funcionária do tribunal e começou a tirar a toga. De camisa azul-clara, o magistrado colocou uma gravata com o nó já pronto, dirigiu-se ao juiz do caso e declarou: “Não quero ser usado. Saio com dor no coração”. As poucas palavras eram seu adeus. Ao vivo para todo o país, o herói nacional anunciou que estava deixando os tribunais para sempre.

***

Apesar do choque, a operação Mãos Limpas continuaria sem Di Pietro por ainda muitos anos, interrogando, prendendo e condenando personagens do cenário político e empresarial italiano. Seu principal alvo, Bettino Craxi, fugiu da Itália em 1994, quando percebeu que seria definitivamente preso. Amigo do então ditador Zine El Abidine Ben Ali, Craxi voou para Hammamet, na Tunísia, e de lá nunca mais saiu, até morrer em 19 de janeiro de 2000, de infarto.

Berlusconi seria primeiro-ministro do país, de modo alternado, por duas décadas. Sua primeira condenação definitiva e consequente afastamento da política só viria em 2013. Durante todos esses anos, uma de suas principais algozes foi a procuradora Ilda Boccassini, formada nas fileiras da força-tarefa da Mãos Limpas de Antonio di Pietro.

Em 1996, longe da magistratura, Di Pietro fez sua estreia na política: aceitou ser ministro do Trabalho da coalisão de centro-esquerda liderada por Romano Prodi. Depois da experiência no governo, ele fundou seu próprio partido, a Italia Dei Valori, tornando-se um dos principais líderes da política italiana. Seus reais motivos para ter deixado a operação que havia começado em 1991 nunca foram totalmente esclarecidos.

No dia 31 de março de 2009, um grupo de policiais do núcleo ecológico dos carabinieri meteu o pé na porta de duas casas na província de Treviso. Era o Dia D da operação “Rewind”, que investigava um esquema de tratamento e despejo ilegal de lixo. Um dos principais alvos dos policiais era um homem de 65 anos, cabelos esbranquiçados e barba bem aparada, apontado pelos investigadores como o coletor das propinas do esquema. Era Mario Chiesa, estopim inicial da Mãos Limpas. Sem qualquer reforma de peso para barrar a corrupção no sistema político italiano, a “marionete” acusada por Bettino Craxi de “jogar sombras” sobre o Partido Socialista Italiano nos anos 90 voltara às ruas e ao jogo que tão bem conhecia.

Leandro Demori é jornalista especializado em investigações e diretor da Abraji. Seu primeiro livro, uma história da Cosa Nostra no Brasil, será lançado pela Companhia das Letras nos próximos meses. No Risca Faca, Demori assinou a investigação sobre o Lobo da Bovespa.