Quem chegou primeiro: o presépio do menino Jesus ou as listas de fim de ano? Difícil dizer, mas chegou aquele momento em que todo mundo dá aquela olhada pra trás e vê o que de melhor (e pior) aconteceu.

Já falamos das séries, músicas, discos, atuações e filmes de que mais gostamos no ano. Aqui listamos os livros e HQs de 2015 que nos marcaram, fora de ordem mesmo. Segura:

zero

“Zero” (Ales Kot)
Eu queria dar um abraço no Ales Kot. O roteirista de “Zero” sabe como poucos transformar uma história batida – um espião de uma agência secreta que começa a desconfiar das missões e objetivos de seus patrões – em uma obra-prima sobre a desgraça humana, pessoas deploráveis, morais nebulosas. Tudo feito com uma inteligência fora do normal para histórias do tipo. A escolha dos artistas, que muda a cada edição, também é digna de nota: cada um deles conseguiu absorver o tipo de sofrimento da história. Para ler e reler e reler. [Leo Martins]

saga

“Saga” (Brian K. Vaughan e Fiona Staples)
“Saga”, publicado pela Image Comics e traduzido no Brasil pela Devir, é provavelmente o quadrinho mais interessante dos últimos tempos. O roteiro de Brian K. Vaughan conta a história de um casal estilo Romeu e Julieta em um universo distópico que parece uma mistura de “Star Wars” e “Game of Thrones”. Tudo isso casa perfeitamente com os desenhos de Fiona Staples, com criaturas incríveis que parecem saídas de um sonho que, lá pro fim do dia, você percebe que foi um pesadelo. A facilidade de adicionar pequenas tramas, personagens fugazes e conversas brutalmente sinceras fazem com que seja impossível ler só um pouquinho. [LM]

wicked

“The Wicked + The Divine” (Kieron Gillen e Jamie McKelvie)
Já deu pra sacar que o ano foi bom demais pra Image Comics, né? E foi mesmo. “The Wicked + The Divine”, com roteiro de Kieron Gillen e arte de Jamie McKelvie, conta a história de divindades que a cada 90 anos voltam para a Terra e são tratados como popstars. O roteiro é impressionante, os traços são incríveis e a vontade é de viver um pouco, mas só um pouquinho, nesse mundo maluco. [LM]

tanehisi

“Entre o Mundo e Eu” (Ta-Nehisi Coates)
O jornalista Ta-Nehisi Coates é, faz alguns bons anos, uma das vozes negras mais importantes dos EUA. Ultimamente, por causa dos abusos policiais contra adolescentes negros no país, sua coesão de discurso e bom senso aumentaram ainda mais a potência dessa voz. Em “Entre o Mundo e Eu”, Coates mistura histórias de sua difícil infância em Baltimore com reflexões sobre o estado atual da sociedade americana, do racismo e do futuro do país. Muito bem escrito, o livro é uma rápida aula de 150 páginas para qualquer um que queira entender mais sobre alguns dos maiores problemas do nosso mundo. [LM]

moon

“Dois Irmãos” (Fábio Moon e Gabriel Bá)
Transformar obras de literaturas em HQs é uma certa moda recente. Desde os clássicos até livros atuais, tudo ganha versão em quadrinho. Isso nem sempre é bom, mas no caso de “Dois Irmãos”, dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, deu certo. Ficou mais fácil para os irmãos porque o livro de Milton Hatoum, lançado em 2000, é realmente muito bom. Coube a eles transformar a narrativa, e o resultado é digno de nota: os traços preto e branco, o jogo de sombra, o cenário de Manaus durante décadas de mudança, tudo isso conversou muito bem com a história de dois irmãos separados pela guerra, pela família e pelo amor. [LM]

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“São Paulo, a Capital da Vertigem” (Roberto Pompeu de Toledo)
“São Paulo, a Capital da Vertigem”, de Roberto Pompeu de Toledo, narra a história paulistana de 1900 a 1954 e mostra por que a cidade é a mais brasileira das nossas capitais – inclusive quando nega a sua brasilidade (o Brasil consegue ser uma coisa e seu oposto ao mesmo tempo). Continuação do grande “São Paulo, a Capital da Solidão”, que vai de 1554 até o fim do século 19, “A capital da Vertigem” mostra como transformarmos um vilarejo marrento em uma metrópole fulgurante. Também relembra o bombardeio aéreo de 1924 e explica, até, por que o metrô demorou tanto tempo para sair do papel nessa cidade de vales sufocados e rios aterrados, de gente local e gente de tudo quanto é lugar do mundo – e que se sente local. É um clássico para amar e odiar São Paulo – ao mesmo tempo!” [Leandro Beguoci]

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“Humilhado” (Jon Ronson)
O livro de Jon Ronson é daqueles que se lê numa sentada. A leitura é bem fácil, mas nada leve. Centrado em alguns personagens que, por motivos diversos, foram humilhados publicamente pelas redes sociais, faz refletir sobre o poder que posts aparentemente inofensivos no Facebook ou no Twitter têm na vida das pessoas. As histórias são boas: Jonah Lehrer, jornalista da New Yorker que caiu em desgraça quando descobriram que ele havia inventado aspas de Bob Dylan em um best-seller, Justine Sacco, demitida depois de fazer um tweet racista, Lindsey Stone, que ficou deprimida com as consequências de uma foto desrespeitosa num cemitério de militares, entre outros. Quando alguém faz ou fala algo considerado absurdo, muita gente não hesita em apontar o dedo na internet sem pensar nas consequências. Mas, Ronson questiona, será que a pena corresponde ao crime? [Fernanda Reis]

karl ove

“Ilha da Infância” (Karl Ove Knausgaard)
Colocar Karl Ove Knausgaard na lista de melhores do ano já é clichê, mas fazer o que se ele manteve a regularidade no terceiro livro de sua série autobiográfica “Minha Luta”? O tema é tão banal que é difícil fazer uma sinopse: no volume, ele discorre em detalhes sobre sua infância em uma ilha na Noruega. Mas ele escreve tão bem que até um passeio dele com um amigo ou seu prazer por adiar o máximo que podia as idas ao banheiro ficam interessantes. É o mais fraco entre os três volumes publicados no Brasil, sim, mas mesmo o pior Karl Ove é melhor do que boa parte dos lançamentos por aí. [FR]

doerr

“Toda Luz que Não Podemos Ver” (Anthony Doerr)
Vencedor do prêmio Pulitzer de ficção, Anthony Doerr realiza uma façanha: escrever um livro original sobre a Segunda Guerra. Doerr não fala de Hitler, Churchill ou Roosevelt, deixa de lado as grandes batalhas e foca em duas histórias, a de uma menina cega francesa e de um menino alemão que sabe tudo sobre rádios. É uma história sem maniqueísmo, que não retrata todos os alemães como vilões nem todos americanos e franceses como heróis. “Toda Luz que Não Podemos Ver” é uma história sobre pessoas. Às vezes triste, mas sempre bonita. [FR]