“Malditos filmes! Eles acabam com a gente. Tô falando sério.”

Aos 17 anos de idade, Winona Ryder sublinhou as palavras de Holden Caulfield em uma das duas cópias de “O Apanhador no Campo de Centeio” que carregava consigo. “Holden e eu somos uma espécie de equipe”, disse ela. Desde então, Ryder já se referiu, mais de uma vez, à obra-prima de ansiedade de J.D. Salinger como sua bíblia, e não cansa de repetir que leu o romance cerca de 50 vezes. Quando ela tinha 19 anos, no Natal, seu namorado, Johnny Depp, a presenteou com um cartão assinado por Salinger. Aos 20, ela ainda levava uma cópia do livro aonde quer que fosse. Ela até escreveu uma cartinha para o autor, mas nunca a enviou. “Eu dizia algo como, ah, que o livro significava muito para mim, e agradeci”, ela contou à Premiere. Contudo, ela chegou a enviar, de fato, um recado a ele, em 1994, junto com o cartão de Natal. “Caro Sr. Salinger”, dizia. “Recebi isto de presente pois sou muito sua fã, mas pretendo devolver pois respeito a sua privacidade.” O único deus em que ela acreditava enviou de volta uma notinha de agradecimento. “Foi incrível”, Ryder contou à Esquire. “Digo, se bobear, foi o editor dele que digitou ‘obrigado’ e só pediu para ele assinar, ou algo assim, mas significou muito para mim.”

Aos 27, Ryder ainda se ajoelhava no altar de seu herói colegial. Naquele ano, ela mostrou à revista Vogue um porta-retrato da Tiffany, presente de um amigo. De um lado da moldura, estava uma foto dela em 1990, com 19 anos, vestida de preto, óculos escuros, estatelada em um sofá, mostrando o dedo do meio. Do outro, uma página de “O Apanhador no Campo de Centeio”, na qual Holden lê “Foda-se” no muro da escola de sua irmã de 10 anos de idade (“Acho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemitério, com uma lápide e tudo, vai ter a inscrição ‘Holden Caulfield’, mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, alguém vai escrever ‘Foda-se’”). Dois adolescentes icônicos, com uma diferença de 40 anos de idade, lado a lado. “Eu estava em Paris, promovendo o filme ‘Minha Mãe é uma Sereia’, morrendo de insônia, enlouquecendo. Foi o pior momento da minha vida”, explicou. “É uma versão minha bem adolescente, mas me identifico tanto…”

Para muitos de nós, no entanto, Winona Ryder é uma memória acolhedora. “As pessoas esperam que atores mirins não só interpretem papéis mirins, como representem com afinco os dramas de sua geração, em sintonia”, diz Timothy Shary, crítico de cinema que já publicou inúmeros livros sobre filmes adolescentes, incluindo os títulos “Generation Multiplex: The Image of Youth in American Cinema Since 1980” e “Teen Films: American Youth on Screen”. “Para as garotas excêntricas da minha geração, Winona Ryder era uma semelhante, um ícone aspiracional”, escreveu Alana Massey no BuzzFeed. Embora costumassem descrever Ryder como ingênua, isso implica uma passividade que Ryder evitou em todos os seus filmes adolescentes — em “Ciranda de Ilusões”, ela bate em uma mulher que tira vantagem de um deficiente mental; em “Os Fantasmas se Divertem”, ela se sacrifica para salvar dois fantasmas; em “Atração Mortal”, encoraja o namorado a se explodir (e então usa o corpo dele para acender um cigarro); em “Edward Mãos de Tesoura”, ela se apaixona por um anti-herói gótico; em “A Volta de Roxy Carmichael”,  desdenha do bonitão da cidade; e em “Minha Mãe é uma Sereia”, ela o seduz. Nesses filmes, é como se ela não interpretasse papéis, mas sim atuasse como ela mesma. “Winona é uma atriz que trabalha com seu instinto primitivo, acima de tudo”, disse o diretor de “Alien: A Ressurreição”, Jean-Pierre Jeunet. “Essa maneira instintiva de trabalhar é uma qualidade rara, comum entre crianças.”

A atuação pueril — e sua própria natureza pueril — é bem compreensível, visto que ela reverencia Caulfied, personagem que, por sua vez, reverencia crianças.

Assim como ele, Ryder era uma garota excêntrica, inteligente e ambivalente em busca de um lugar na sociedade contrário a tudo o que está aí. Mesmo com vinte e poucos anos, em “Caindo na Real” e “Garota, Interrompida”, ela atuou mais como uma adolescente tardia do que como adulta de fato. Ryder não conseguia seguir em frente por conta do que seguir em frente significava. Nós também não. Nossa nostalgia até hoje a mantém enclausurada na adolescência, junto ao namorado da época, o Johnny Depp pré-excentricidades. No entanto, apesar das nossas tentativas de ressuscitar o passado — “Os Fantasmas se Divertem 2”, “Atração Mortal: O Musical”, Marc Jacobs —, por mais jovem que Ryder pareça, ela já não é mais aquela garota ingênua dos anos 90. Nesse sentido, ela e Holden formam mesmo um time. “O dilema central [de Caulfield] é que ele quer reter a inocência, o solipsismo e a lucidez de uma criança”, escreveu Harold Bloom, “mas, por conta da biologia, ele precisa seguir em frente, rumo à idade adulta ou à loucura”.

***

A atriz foi batizada em homenagem à Winona, Minnesota — sua cidade natal — que, por sua vez, emprestou o nome de uma lenda do povo Dakota, em que a deusa Winona prefere saltar em um abismo a se casar com um homem que não ama. Os amigos a chamam de Noni, isto é, “no knee” [sem joelhos]. Seu sobrenome é Horowitz (quer dizer, Tomchin na verdade, mas é uma longa história). Ela achava que o nome não soava bem para a carreira, e seu pai escolheu Ryder no lugar (talvez enquanto escutava um disco de Mitch Ryder), depois de considerarem October (seu mês de nascença) e Huxley (um de seus escritores favoritos). Seus pais são intelectuais da contracultura — fundaram a Bilblioteca Fitz Hugh Ludlow, a maior coleção de livros sobre drogas psicoativas do mundo — e a criaram em uma comuna, na Califórnia. Sua infância foi inundada de filmes antigos e livros mais antigos ainda. Com sete anos, ela viu Greer Garson no filme “Na Noite do Passado”. “Queria ser como ela”, Ryder contou à Seventeen. “Não havia nada como o rosto de Garson, as expressões […] Esses filmes antigos mexeram comigo; eu ficava com borboletas no estômago quando assistia. Queria fazer parte deles, mesmo daqueles com fins trágicos.” Mas ela só foi estudar no Teatro do Conservatório Americano (ACT), em São Francisco, quando já tinha 12 anos, depois que um punhado de colegas da escola a viram num terno — ela estava numa fase de filmes de gângster —, chamaram-na de “sapatão” e bateram nela. Ela se matriculou no ACT para conhecer pessoas parecidas com ela, e foi aceita depois de apresentar um monólogo que ela mesma adaptou do livro Franny & Zooey, de J.D. Salinger. “Estou ótima. Nunca, em toda minha vida, me senti tão instável, é fantástico.”

Um ano depois, ela fez um teste para o diretor David Seltzer. Ele estava selecionando atrizes para seu novo filme, “A Inocência do Primeiro Amor”, para o papel de Rina, uma jovem adolescente completamente apaixonada pelo personagem do título (Corey Haim), que por sua vez está completamente apaixonado por uma cheerleader (Kerri Green), que está completamente apaixonada pelo capitão do time de futebol americano (Charlie Sheen). Seltzer elaborou o teste em torno de uma cena em particular, do lado de fora de uma festa da escola, onde Lucas foi rejeitado pela cheerleader. Sentado à beira de um rio, enquanto Lucas contempla uma ninfa de libélula engarrafada, Rina junta-se a ele e observa a feiúra do bicho.

Lucas: Vai virar um belo inseto, Rina.


Rina: Mas isso é possível?


Lucas: Dá para imaginar? Transformar algo feio em algo belo?


Rina: Não, francamente, não dá.

“Li a cena com ela, e ela partiu meu coração, pois parecia falar uma verdade profunda mesmo”, contou Seltzer. “Imaginei que Winona seria relegada ao papel de amiga desajeitada pelo resto de sua carreira.” Ao ver a cena, fica difícil chegar a essa conclusão. Embora tivesse apenas 13 anos, Ryder, com sua quietude, sua entrega serena e a capacidade de encantar em silêncio, era uma ilha de carisma. Talvez tenha sido mérito da direção de Seltzer — “A câmera vai ler os seus pensamentos” —, ou talvez fosse o jeito dela mesmo. De qualquer forma, ela domina as poucas cenas em que aparece, e sua desenvoltura contrabalanceia a juventude agitada de Haim. (Seltzer admite: “não rolou muita química entre os dois, ela parecia tão mais velha que ele”.) No fim dos expedientes de filmagem, os jovens atores discutiam o que haviam aprendido com Seltzer, vangloriavam-se de sua técnica — menos Ryder. “David me ensinou a descascar laranjas de uma só vez”, disse ela, e Seltzer se lembra disso com um sorriso estampado. “Ela estava disposta a jogar o jogo. Isso é Winona pura.”

Seu primeiro papel central foi logo em seu segundo filme. Também foi a primeira de muitas personagens mais novas que sua idade de fato. No drama familiar “Ciranda de Ilusões”, Ryder, com 14 anos, interpreta Gemma, de 13, garota do interior que se apaixonada por um deficiente mental de 21 anos de idade (Rob Lowe) depois de deixar o avô (Jason Robards) para morar na cidade com a mãe (Jane Alexander). Alexander, também coprodutor executivo do filme, conta que o diretor Daniel Petrie avaliou centenas de garotas, “até Winona aparecer”. Ela havia trabalhado em apenas um filme, mas sua presença era retumbante. “Ela tinha uma personalidade forte bem singular — era muito autêntica, observadora, incisiva”, descreve Alexander. “Ela irradiava uma naturalidade, e não só em cena, como fora das telas.” Ryder creditou Alexander por ensiná-la a ter paciência entre tomadas, e Robards, por ensiná-la a ser mais natural. “Se eu não tivesse trabalhado com pessoas como Jane e Jason, provavelmente teria bombado diversos papéis”, disse ela. Ela se referia a Robards e Alexander como seus mentores, embora o segundo negue ter ensinado qualquer coisa a Ryder. “Se tive algum mérito, foi incentivá-la a acatar suas emoções”, conta Alexander. “Ela tirava emoções da manga.”

Tim Burton farejou esse dom logo que a viu em um filme pela primeira vez. E se lembrou dela na hora de selecionar os atores para seu novo projeto, um filme sobre dois fantasmas que assombram uma família e fazem amizade com sua filha, Lydia Deetz, uma espécie de Vandinha. “Perguntei da Winona Ryder porque havia visto ela em ‘A Inocência do Primeiro Amor’, e ela tinha uma presença muito forte”, o diretor explicou no livro “Burton on Burton”. Ela também se parecia com a personagem, fisicamente. “Várias peças de roupa eram minhas mesmo”, Ryder contou à Vogue em 1989. “Minha pele era pálida daquele jeito.” E desde a primeira cena, recostada no sofá, ela emerge como uma Cleópatra anêmica no olho do furacão. “Minha vida é um quarto escuro”, Lydia diz sob um véu negro. E então: “pessoas vivas ignoram tudo que é esquisito e diferente. E eu sou esquisita e diferente.” Ryder sentiu uma afinidade com Burton, que era excêntrico como ela (“estou absolutamente só”, Lydia escreve no diário, em sua primeira narrativa Salingeresca, primeira de muitas). “Tim fala a minha língua, sabe?”, disse ela na época. “Compartilhamos a mesma sensibilidade.”

Aparentemente, o mundo todo compartilhava. “Os Fantasmas se Divertem” estreou no Dia da Mentira, em 1988, e rendeu US$ 32 milhões nas primeiras duas semanas, além de um Oscar por Melhor Maquiagem. Conforme Mark Salisbury escreveu no livro “Burton on Burton”, “ser esquisito era bom, aceitável, um triunfo”. Bem como Winona Ryder.

A esquisitice de Winona Ryder não tinha o mesmo apelo fora das telas. “Ela prestava muita atenção na crueldade das garotas adolescentes”, conta Alexander. “’Atração Mortal’ era uma história real, se pararmos para pensar nas coisas que Noni nos contou sobre sua vida escolar.” Mas esse filme só saiu dois anos depois. O roteirista de primeira viagem Daniel Waters vendeu sua obra de humor negro, repleta de jargões, sobre quatro adolescentes — três Heathers e uma Veronica, grupinho popular do colégio Westerberg —, aos estúdios New World. Com a ajuda de Jason Dean — variação homicida do jovem transviado —, Veronica Sawyer assassina a Heather mais popular do grupo e arma para parecer suicídio, desencadeando uma série de imitadores na escola. Waters escreveu o roteiro inspirado no número crescente de adolescentes que se matavam na América dos anos 80. “O filme veio da canonização do suicídio adolescente, e da adolescência em geral”, disse ele. Segundo o livro de John Ross Bowie, “Heathers”, Waters via Veronica Sawyer como “Travis Bickle revestido de Molly Ringwald”. Ele queria a Jennifer Connelly para o papel. O estúdio queria Justine Bateman. Ninguém queria Winona Ryder.

“Li o roteiro e, pela primeira vez, pensei, ‘preciso desse papel’”, Ryder contou à revista britânica The Face em 1989. “Não era uma questão de querer ou achar que deveria, era que ninguém entenderia aquilo como eu.” O roteirista de “Os Fantasmas se Divertem” deu uma cópia do roteiro a ela, mas seu agente implorou para ela não tentar o papel. Ela não deu ouvidos. A produtora Denise Di Novi se lembra da atriz sentada em seu escritório na New World (com a mãe), dizendo: “eu aceito o papel por um dólar. Faço de tudo, não importa o quanto vou ganhar”. Mas embora Waters considerasse ela uma “grande atriz”, não achava que era “atraente o bastante”. E não era a primeira vez que Ryder, cujos primeiros quatro personagens costumavam ser descritos como “familiares”, ouvia isso.

Então, ela entrou numa loja de departamento, renovou o armário e, segundo Waters, “chegou a ameaçou se matar caso não conseguisse o papel”.

“Estou procurando alguém no mundo com quem possa me identificar”

Ela praticamente era a personagem: Veronica era uma gótica suave, Ryder também. Veronica era menos feminina do que as amigas de cabelo volumoso, Ryder também (ela só não usava um monóculo). E ambas pensavam além da dinâmica das panelinhas, e escreviam sobre isso no diário (“eu queria me aprofundar nessa tradição de diários femininos”, disse Waters). Ryder também tinha uma conexão pessoal com a história: a menina excêntrica, a gótica da escola, passou a ser venerada após o suicídio, pelas mesmas pessoas que a alienaram quando era viva. “A história me pegou de jeito, porque eu ficava enojada com os comportamentos na escola”, disse Ryder. E também tinha uma ligação com J.D. Salinger. No rascunho original do roteiro do filme, Heather Duke escrevia sua nota de despedida em uma cópia de “O Apanhador no Campo de Centeio”. Mas Salinger “titubeou com a ideia”, então trocaram por “Moby Dick”. Holden passou a colorir a história de uma maneira mais sutil e abstrata, através do distanciamento entre Veronica e os pais (e adultos em geral), e da equação adolescência e conflitos: “o que os jovens inflingem uns aos outros no colégio é tão ruim quanto o que os adultos inflingem uns aos outros em guerra”.

No fim das contas, Waters transformou Veronica Sawyer em “o Albert Speer do colégio Westerberg”, isto é, uma nazista arrependida. Ele disse a John Ross Bowie que “suavizou” a personagem por conta da postura “volúvel” de Ryder (palavra que, sem dúvidas, ele aprendeu com a resenha de Pauline Kael na New Yorker: “Winona Ryder tem uma aparência adorável, mas seu papel é volúvel e ‘real’ demais para as atrocidades de mentirinha que acontecem a seu redor”). Ryder e sua personagem eram uma só, e sua atuação transcendeu o mero carisma. Em uma cena em particular, ela gargalha com J.D. no funeral de dois jogadores de futebol americano — Veronica matara ambos a tiros —, até que uma garotinha, provavelmente caçula de um dos falecidos, vira-se para eles com um olhar de reprovação. A maneira como o riso de Ryder se dissolve lentamente, como ela vira o rosto, como um filhotinho de cachorro cheio de amores para dar, arremata a sátira. Ela é o condutor moral da trama. “É como se eu trabalhasse com essas pessoas, e o nosso trabalho fosse ser popular e tal”, Veronica fala para J.D., e nós acreditamos nela. Ela não pretendia matar as Heathers, só queria ser mais madura que elas. Conforme ela mesma diz, “está na hora de crescermos, virarmos adultas e morrermos”.

“Atração Mortal” acatou sua atuação e chafurdou nas bilheterias, recebendo em retorno apenas um terço dos custos de produção. O crítico Timothy Shary observou que o lançamento do filme em 1989, depois de suicídios em série no país, foi como lançar um filme sobre tiroteios em escolas um ano após o episódio de Columbine. Então, surgiu o VHS (e a TV a cabo), e de repente o filme virou um clássico cult. “Acho que ‘Atração Mortal’ mexe com os jovens, faz eles refletirem sobre a hipocrisia”, disse Shary. “Instiga debates sobre as ironias do comportamento colegial e, claro, é um dedo na cara dos círculos sociais e sistema de castas das escolas, formalidades que muitos adolescentes detestam, mas aceitam, de qualquer forma.” Até hoje, Veronica Sawyer é a personagem favorita de Ryder.

Não havia mais outro caminho se não o declínio. No final dos anos 80, Karen Leigh Hopkins escreveu um filme obscuro, mágico e realista sobre iconografia, que ela costuma equiparar a “A Noite Americana”, de François Truffaut. O roteiro original de “A Volta de Roxy Carmichael” não tinha um papel para Winona Ryder, mas Hopkins resolveu criar Dinky Bossetti para ela, uma garota de quinze anos que acredita ser a filha renegada de uma celebridade local desaparecida. Dinky tinge as roupas com carvão, cerca o quarto de arame farpado, escreve poemas ranzinzas e, assim como Ryder, é desprezada pelos colegas da escola, que a usam de alvo. Ela prefere “livros a bonecas, botas a sapatilhas de bailarina”, e proclama “quem é que entende os outros, afinal? Quem quer entender? Já é difícil o bastante entender a si próprio”. Assim Hopkins descreve Ryder: “ela era muito parecida com a personagem. Tão inteligente e diferente e ousada”.

Lançado em outubro de 1990, perto do décimo nono aniversário de Ryder, “Roxy Carmichael” foi vítima de uma direção insossa — salvo o floreio burtonesco — e teve pouco retorno. Mas foi um filme intrigante, sim, a ponto de uma empresa de financiamento sondar Hopkins recentemente sobre uma possível refilmagem. “Acho que precisamos desse filme agora, mais do que precisávamos 20 anos atrás”, disse ela. Hopkins se refere especificamente ao tema intimista do filme, o isolamento. “Para mim, o filme era sobre não se identificar com ninguém”, contou. “Estou procurando alguém no mundo com quem possa me identificar”, Ryder admitiu à Premiere, em 1989. “[Dinky] até que é bem parecida comigo”, embora Hopkins não tivesse se dado conta da semelhança logo de cara. “Acho que ela captou a inteligência de Dinky, e a diferença entre quem era Dinky e o resto do mundo”, disse Hopkins. “Não é que ela queria ser diferente, ela era diferente de fato e merecia o papel.”

O papel seguinte de Ryder foi bem diferente. Em “Edward Mãos de Tesoura”, ela interpreta o tipo de garota que sempre desprezou: a cheerleader loirinha. “Kim era parecida com as garotas que me chamavam de esquisitona e tacavam Cheetos em mim na oitava série”, contou ela. A ideia da sinopse — um homem com tesouras no lugar das mãos aparece em uma comunidade suburbana — surgiu de um desenho antigo de Tim Burton, do alto de sua adolescência. “Na época, imperava a sensação de que a minha imagem e a percepção que os outros tinham de mim divergiam da minha essência”, ele declarou em “Burton on Burton”. O diretor notou que Johnny Depp — ídolo adolescente por dentro, hippie por fora — vivia no mesmo limbo. E embora Ryder não fosse como Kim, ela conseguiu se identificar um pouco com a personagem. “Em termos físicos, meu papel no filme era tudo que eu havia repudiado a vida inteira”, Ryder contou à revista britânica Select em 1991. “Mas ela se apaixonou por Edward porque se sentiu diferente.” A peruca clarinha de Hayley Mills fez os olhos de Ryder — o atributo que todos que a conhecem não param de louvar — se sobressaírem ainda mais, transformando-a em uma obra viva de Margaret Keane. “Ambos os atores têm um quê de cinema mudo, sabe? Ambos dizem muito com os olhos, sem precisar emitir uma palavra”, diz Burton nos comentários do DVD.

Na última vez que Winona Ryder interpretou uma adolescente, ela voltou a ser a boa e velha garota excêntrica. Em “Minha Mãe é uma Sereia”, ela é Charlotte Flax, a filha religiosa de uma mãe solteira e sacrílega. Baseado no romance de Patty Dann, de 1986, é mais um drama nostálgico de formação, passado em 1963. “Sereias sempre me intrigaram, essa coisa de ser meio peixe, meio mulher”, Dann explicou via email. “As mulheres da família Flax parecem sereias — todas elas são meio infantis, meio crescidas.” Ao passo que a mãe usa vestidos de bolinha coladinhos, Charlotte veste uma túnica e um terço, e tenta expurgar, com orações, os pensamentos impuros sobre o zelador do convento local (Michael Schoeffling, famoso por interpretar Jake Ryan, o cara dos sonhos em “Gatinhas e Gatões”, antes de largar Hollywood e seguir carreira como marceneiro). O comportamento dela lembra o velho testamento de Ryder, “O Apanhador no Campo de Centeio”. “A ambivalência, a presença simultânea de sentimentos positivos e negativos em grau equivalente, domina Holden no decorrer do livro”, escreveu Harold Bloom. Era um tema que Ryder ainda revisitaria em “Caindo na Real” e “Garota, Interrompida”, e em “Minha Mãe é uma Sereia”, foi realçado pela narração de Charlotte. “Adoro como ela era completamente inconsistente”, disse Ryder. “Eu sou completamente inconsistente.”

***

Winona Ryder apareceu na hora certa. O crítico de cinema Timothy Shary caracteriza o gênero adolescente como “cíclico”. O primeiro filme de Ryder, “A Inocência do Primeiro Amor”, foi lançado no fim da era super-hormonal de “Porky’s” (a AIDS e a gravidez adolescente acabaram com a festa) e cinco anos antes da estreia de “Os Donos da Rua”. No período entre 1986 e 1990, durante sua carreira adolescente, pipocaram cerca de 250 filmes americanos sobre adolescentes, sendo os mais memoráveis aqueles sobre a nostálgica perda da inocência, como “Dirty Dancing” (1987), “Hairspray” (1988) e “A Sociedade dos Poetas Mortos” (1989). Três filmes de Ryder — “A Fera do Rock”, “1969”, “Minha Mãe é uma Sereia” — aderiram à moda. Ela estava na crista da onda: pós-sexomania, pré-moda da violência — a pista de pouso ideal para uma alienígena de olhos grandões.

“Era difícil dizer qual garota era o rosto dos filmes adolescentes no fim dos anos 80”, conta Shary. Os Brats já tinham ficado para trás, bem como John Hughes (seu último filme adolescente, “Alguém Muito Especial”, saiu em 1987), embora ninguém se esqueça deles. “[Hughes] mostrou que era possível fazer filmes adolescentes sensíveis sem nudez e sem apelar para a ânsia sexual adolescente”, acrescenta. Ele acredita que isso foi “um fator favorável para atrizes como Winona Ryder se estabelecerem, atrizes que deram as caras no fim dos anos 80 e foram levadas a sério enquanto adolescentes.” Mas, enquanto a musa de Hughes, Molly Ringwald, corria atrás de caras ricos, Ryder cuidava da própria vida. “Molly Ringwald era uma espécie de queridinha da América”, explica Shary, “e acho que Winona Ryder, por outro lado, dedicava-se a papéis mais cínicos, mais calejados”. E ela não tinha papas na língua. “Esses filmes são tão piegas”, disse Ryder a respeito do cânone de Hughes. “Como os adolescentes deixam colarem esses rótulos em suas costas?!?” “Atração Mortal” foi um contraponto — Waters disse à Entertainment Weekly que “há toda uma ala colegial que ninguém estava explorando” — e Ryder se orgulhava disso. “Tem uma garotada muito esperta por aí, que não quer ser insultada por John Hughes”, disse ela. Não por acaso, provavelmente, em “Edward Mãos de Tesoura”, Tim Burton transformou o xodó de Hughes, Anthony Michael Hall, em um psicopata, ao passo que, em “Minha Mãe é uma Sereia”, Ryder transou com o modelete dos anos 80 Jake Ryan depois de Molly Ringwald ousar apenas beijá-lo.

“Ela tem o rosto mais perfeito que já vi”

Embora a maioria de seus filmes não tenha sido um estouro, Ryder foi agraciada pela crítica, e chegou a receber um prêmio do Independent Spirit por “Atração Mortal” e um Globo de Ouro por “Minha Mãe é uma Sereia”. “Quando chegou aos vinte anos, no início dos anos 90, ela já era influente o bastante para fazer filmes como ‘Drácula’ e ‘A Época da Inocência’ e ser levada a sério”, conta Shary. Mas não é por isso que ela virou um ícone. De acordo com o livro “Gods Like Us”, de Ty Burr, essa também foi a década das revistas para fãs. Entertainment WeeklyPremiereInStylePeople e Us Weekly “revitalizaram o interesse pelo triângulo mulheres, fama e estilo”, escreveu Burr. “As revistas validavam as personas, criavam narrativas públicas, julgavam os escândalos em nome do povo e dissipavam o mistério em torno dos filmes, substituindo-o por uma ilusão de acessibilidade e conhecimento”. Apesar de admitir que as revistas de fofoca “mantiveram a visibilidade pública [de Winona]”, Shary observa que Ryder recebeu as “melhores críticas de todos os tempos” nos anos 90 (sua primeira indicação ao Oscar aconteceu em 1993, por “A Época da Inocência”, com direito a uma indicação consecutiva no ano seguinte, por “Adoráveis Mulheres”). Mas não é o que costumamos recordar. A maior lembrança da época é a Winona eterna. A “Winona Forever”.

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Johnny Depp e Winona.
Johnny Depp e Winona.

Eles saíram juntos pela primeira vez dois meses após a estreia de “Atração Mortal”, dia 16 de junho de 1989, no Teatro Ziegfeld, em Nova York. Ela tinha 17 anos, e ele, 26. Era a premiere de “A Fera do Rock”, e Winona chegou em um Cadillac cor-de-rosa, vestindo um Giorgio di Sant’angelo colado cor-de-fantasma. Ela mudou do preto rebelde para o branco rebelde (“apesar de ‘Atração Mortal’ não dar muito dinheiro, as pessoas passaram a acreditar que eu poderia interpretar papéis atraentes por causa do filme”). Com um batom cor-de-framboesa e olhos cor-de-pêssego, ela compôs um look suculento. Johnny Depp, protagonista do seriado “21 Jump Street”, apareceu de jaqueta de camurça marrom, jeans e camisa preta (um ano depois, ele ostentou o exato mesmo look no filme “Cry Baby”, de John Waters), igualmente sedutor. Eles tinham cabelos iguais — curtinho, escuro, bagunçado — e eram bem parecidos em outros aspectos. Depp também era pouco convencional, um discípulo dos beatniks e fã do padrinho de Ryder, Timothy Leary, sem falar em Salinger. A beleza dele era atípica, como a dela. “O tipo Johhny Depp de beleza era quase uma afronta a Tom Cruise”, explica Elaine Lui, do blog Lainey Gossip.

No fim de 1989, eles já estavam noivos, e em dezembro do ano seguinte, Depp fez a famosa tatuagem “Winona Forever”. Ryder não era mais a virgem santinha. “Recebi muitos pedidos de casamento ano passado”, disse ela antes de conhecer Depp. “Sou muito ingênua com essas coisas.” Depp, divorciado já aos 22 anos de idade, a iluminou. “Foi uma mudança drástica de identidade”, descreve Lui. “De garota esquisitinha à garota mais linda do mundo com o namorado mais lindo do mundo, vivendo o amor mais lindo do mundo.” E o casal vivia bradando o amor aos quatro ventos. “Amo essa garota. “Amo muito”, declarou Depp na época. “Acho que amo mais ela do que a mim mesmo.” Ryder era menos emotiva, mas não menos franca. “Quando conheci Johnny, era virgem”, disse. “Ele mudou isso. Ele foi o meu primeiro em tudo. Meu primeiro beijo de verdade. Meu primeiro namorado de verdade. Meu primeiro noivo. O primeiro cara com quem transei. Então, ele estará para sempre em meu coração. Para sempre.” A imprensa nunca se fartava. Os paparazzi os cercavam em aeroportos, os tablóides não paravam de falar deles. Em maio de 1991, passaram a morar juntos, e a imprensa ficava de tocaia na vizinhança. “Nós dois éramos muito jovens e bem abertos quanto aos nossos sentimentos”, Ryder contou ao Daily Beast em outubro do ano passado. “Ainda não tínhamos aprendido a não compartilhar tudo com todo mundo.” Mas ela entendeu rápido. “Quando eu era novinha, era a queridinha da imprensa”, ela contou à Harper’s Bazaar em 1990. “Até que noivei o Johnny. Foi de mau a pior.”

Dá para traçar a evolução dela pela Vogue. Em junho de 1989, pela primeira vez, Ryder apareceu na bíblia da moda usando um terno masculino — caracterizada como “meio Annie Hall, meio Holly Golightly”. Seis meses depois, estampou sua segunda edição com fotos topless na cama. Mais ou menos na mesma época, Ryder leu um artigo “nojento” em outra revista, que a listava entre uma série de atrizes que tinham seios surpreendentemente grandes. “Foi a primeira vez que li um texto assim sobre mim, e pensei, ‘nossa, não me veem mais como uma atriz infantil!’”, contou. “Eu me senti violada.” Ainda assim, Ryder, que já fora considerada feia demais para Hollywood, virou hit das capas de revista de moda. Ela, no entanto, não abraçou o papel. Evitava desfiles de moda, não fazia penteados nem maquiagem para os eventos, vestia (e repetia) modelitos vintage no tapete vermelho, e às vezes até combinava o look com Depp — camisetas largonas, jaquetas de couro, jeans.

Ela tinha o estilo perfeito na hora perfeita. O grunge estava fazendo por onde, e a inconformada Noni, miúda apesar das curvas, caiu como uma luva para a década do heroin chic. Mas, oficialmente, ela só se tornou ícone do estilo em 1993 — quando adotou o cabelo pixie. “O novo corte pixie de Winona Ryder lembra a elegância gamine de Audrey Hepburn”, anunciou a Vogue. Para perpetuar a tendência, a revista ainda publicou um artigo sobre a volta do gamine. “O pessoal da moda ama essas coisas”, disse Lui a respeito da chancela da haute couture. “Mas, sério mesmo, é aquele rosto. Aqueles olhos. Aquele rosto ossudo.” Para dar uma ideia, o finado maquiador Kevyn Aucoin contou à Allure em 2000 que nunca gastou mais que 15 minutos na maquiagem de Ryder. “Eu nunca tinha visto um rosto tão perfeito”, disse ele. “Parecia uma boneca de porcelana.”

“Há uma obrigação em comercializar algo quando há uma celebridade envolvida”

Ela, no entanto, não se sentia linda assim. Aos 17, Ryder começou a ter ataques de ansiedade “terríveis”. Um ano depois, largou as filmagens de “O Poderoso Chefão: Parte III”  por conta do furor dos tablóides com a crise aguda de sinusite e bronquite que ela enfrentou no set de “Minha Mãe é uma Sereia”. “Não tirei férias”, ela contou à Vogue. “Quando finalmente tirei, estava muito estressada.” Aos 19, piorou. “Eu agia como se estivesse tudo bem — simplesmente sorria”, disse ela. “Estava sempre sob os holofotes.” Contudo, tinha problemas para dormir de novo (ela sofria com insônia desde criança) e estava bem jururu nas filmagens de “A Casa dos Espíritos”. Ela admitiu que a imprensa “pesou” no relacionamento com Depp, mas não foi o único problema. “Eu vivia uma vida que não me deixava confortável, tentando ser a pessoa que descreviam nas revistas e jornais”, ela contou à Rolling Stone. “Eu era a Winona! Era preciosa! Adorável! Sexy!” Ela descreve o momento como uma crise de identidade. “Quando você passa os principais anos da adolescência sendo observada e criticada por milhões de pessoas que acham que sabem o que é bom ou ruim para você, você perde o senso de identidade”, explicou Ryder. Ela se consultou com uma terapeuta que a diagnosticou com “ansiedade antecipatória” — pavor ao antecipar eventos — e com a bizarra condição denominada “nostalgia antecipatória”. (No New York Times, a psicóloga Constantine Sedikides recentemente descreveu essa “condição” pouco conhecida, que poderia muito bem ser a raison d’être da era atual, dado o ímpeto de “construir memórias para serem nostálgicas”.) A terapeuta prescreveu pílulas para dormir, e ela acabou viciando. Em seguida, ela tentou “bancar a alcoólatra por duas semanas”, mas desencanou depois de dormir com um cigarro aceso. Então, em abril de 1993, dois anos depois de canonizar o romance em um artigo da Vogue, Winona Ryder e Johnny Depp terminaram.

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A certa altura, Winona Ryder tinha 12 guitarras. “Nunca me senti fisicamente bonita, mas sempre senti que era única, e isso importava mais para mim”, ela contou à Vogue em 2007. “Curtir a música que eu curtia era muito mais uma questão de individualidade do que beleza.” A casa dela era repleta de pôsteres das bandas The Clash, Patti Smith, The Runaways e The Replacements, e em 1990 ela contou à Seventeen que Paul Westerberg, líder da última, era seu maior ídolo, declaração que, aparentemente, determinou seus relacionamentos futuros. Os Replacements são considerados um dos pioneiros do rock alternativo, e o histórico de namorados de Ryder é uma enciclopédia do gênero. Era como se, paradoxalmente, estivesse tentando estabelecer uma individualidade através dos relacionamentos.

Em menos de um mês após terminar com Depp, que originalmente queria ser músico, ela começou a sair com Dave Pirner, da banda de grunge Soul Asylum. Além de Pirner (que aparentemente compôs “Just Like Anyone” para ela), Ryder já foi associada aos seguintes músicos (a lista não segue nenhuma ordem específica): Ryan Adams (ao que parece, “Cry on Demand” é sobre ela), Beck (supostamente, “Lost Cause” é sobre ela), Conor Oberst, Pete Yorn, Blake Sennett, do Rilo Kiley, e Dave Grohl. Ela também inspirou a referência a “O Apanhador no Campo de Centeio” na canção “Rollerskate Skinny”, da banda Old ’97s — Rhett Miller contou à Nerve que compôs a faixa quando Ryder terminou com Matt Damon e se apaixonou por ele, com quem ela vivia falando do ex. “Escrevi a canção para mandar um recado do tipo, ‘sério mesmo que você está reclamando da vida? Pelo amor!’”, disse ele. Também tem a música “Winona”, de Matthew Sweet, título sugerido por um amigo porque Sweet adorava o filme “Atração Mortal”.

Não demorou muito para virar piada. Segundo a Rolling Stone, em um show, Courtney Love brincou que “Kurt a trocaria por Winona”, ao ponto de um repórter da Sassy especular que homens passaram a montar bandas alternativas só para conhecer Ryder. Mas a maior chacota de todas foi “Caindo na Real”. O filme de Ryder, de 1994, glamurizou a moda grunge, as referências literárias e o estilo roqueirinho que ela vivia. Foi uma versão adolescente tardia de seus filmes de formação que a tornaram famosa. Ela interpretou Lelaina Pierce, uma oradora da turma da faculdade que, de repente, se vê como uma “garota indie desempregada”, tenta ganhar a vida com documentários independentes e acaba virando mainstream. “É sobre pessoas tentando encontrar a própria identidade sem modelos e ídolos reais”, Lelaina disse sobre o próprio filme, descrição que também define bem “O Apanhador no Campo de Centeio” e a própria Ryder. Não por acaso, Helen Childress escreveu o roteiro com a atriz em mente. “Não havia ninguém como ela”, disse. E Ryder adorou. “Foi a primeira vez que sorri e gargalhei e me diverti de fato com um roteiro engraçado assim desde ‘Atração Mortal’”, disse ela.

Quem diria que o filme concederia a trilha sonora da geração X? Um pastiche com refrigerante de máquina, cabelos oleosos, roupas vintage, referências da cultura pop e cafés esfumaçados! Ryder contou ao The San Francisco Examiner que “o roteiro de ‘Caindo na Real’ era bem diferente do resultado final do filme. Deu a impressão de que o documentário da minha personagem ditava a narrativa”. Ela assumiu a culpa, e declarou à Life: “há uma obrigação em comercializar algo quando há uma celebridade envolvida”.

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Ryder era uma celebridade relutante, mas estava prestes a se tornar amiga de uma estrela e tanto. No começo, a favorita para o papel de Janeane Garofalo em “Caindo na Real” era Gwyneth Paltrow. Contudo, três anos após o lançamento do filme, a revista People relatou que, à época, Paltrow estava se recuperando da separação com Brad Pitt no apartamento de Ryder, em Manhattan. Teoricamente, Veronica detestava toda e qualquer Heather, mas àquela altura, ela ficou muito amiga de uma — Paltrow era a estrela convencional, loirinha, prestes a ganhar um Oscar por “Shakespeare Apaixonado”. Ryder e Paltrow apareceram de mãos dadas na premiere de “Cidade de Tiras” em 1997 e, apesar de já estar saindo com Ben Affleck meses depois, ela foi flagrada de mãos dadas com Ryder mais uma vez durante a cerimônia do Globo de Ouro, em janeiro. Foi ela que apresentou Ryder ao melhor amigo de Affleck.

Matt Damon e Winona Ryder formavam um par esquisito. Às vésperas da vitória do Oscar por “Gênio Indomável”, Damon não fazia muito o tipo de Ryder. Elaine Lui acredita que essa seja justamente a questão. “Foi o único momento em que ela foi mainstream”, disse. “Matt Damon foi a chance dela se tornar uma Heather… Acho que, para uma garota como Winona, que nunca foi normal, e nunca se viu como normal”, explicou Lui, “seria muito tóxico ser normal”.

O relacionamento dela com Damon durou dois anos, e com Paltrow, menos ainda. Como uma mancha de batom persistente no colarinho de uma camisa branca, correram as más línguas que Paltrow roubara o roteiro de Ryder para “Shakespeare Apaixonado”.

“Penso nela como uma atriz do cinema mudo”

Mas a carreira de Paltrow como guru em estilo de vida inevitavelmente levaria o duo à ruptura. Filha do diretor Bruce Paltrow e da atriz Blythe Danner, Paltrow tinha pedigree de Hollywood, assim como Angelina Jolie, que também levaria um Oscar em breve, depois de atuar com Ryder em “Garota, Interrompida”. Jolie hoje é uma das mulheres mais famosas do mundo, mais do que Paltrow, embora ambas sejam igualmente ativas fora das telas, o que as protege do machismo hollywoodiano à medida que envelhecem. “Elas estavam muito mais preparadas para existir diante da fama, e deram um jeito de prosperar”, descreveu Lui. “Winona nunca conseguiu encontrar seu caminho na fama, acho que ela não tem esse dom… Não adianta atuar e produzir, tem que jogar o jogo. E a diferença entre Winona e Gwyneth ou Winona e Angelina é que ela não sabe jogar. Nunca soube e nunca vai saber.”

Foi assim desde o começo. “Fui a algumas festas em Los Angeles e tentei curtir”, Ryder contou à Premiere em 1989, três anos após seu primeiro filme. “Mas fiquei assustada, enojada. Era puro estrelismo, a galera fazendo de tudo para aparecer. É meio triste.” Ela tinha só 17 anos na época e, aos 18, os sentimentos não mudaram. “Agora que tive minha primeira experiência com os tablóides”, ela contou ao New York Times, “tenho receio de conversar com alguém numa limousine por conta do motorista”. Em geral, ela não falava muito. Interagia o mínimo possível com a imprensa — seu primeiro bate-papo com plateia foi com a Oprah, para promover “Minha Mãe é uma Sereia” —, e durante um bom tempo sua única entrevista depois do horário nobre foi com Charlie Rose. Quando abria a boca para falar, reclamavam que ela divagava. Ela estava familiarizada com o “protocolo”, mas achava tudo muito “tosco”, e resolveu priorizar a vida, e não a carreira. “Um artista de verdade não liga para essas coisas de carreira”, disse ela. “Mas é importante para muitas pessoas que se denominam atores e que na verdade são apenas posers.” Essa distinção era importante, estava na bíblia dela. “Se tem uma coisa que detesto, é o cinema. Nem ouse falar disso comigo”, diz Holden. Ryder estava dividida — ambivalente como sempre — entre amar o cinema e amar Salinger. “Por muito tempo, quase tive vergonha de ser atriz”, contou. “Eu achava que era uma profissão superficial.” Não era uma questão de exibicionismo, mas uma asserção. Depois de uma série de patacoadas (“Colcha de Retalhos”, “Boys”, “Celebridades”) e um hit (“Alien: A Ressurreição”), ela declarou à Vogue em 1999: “sou tão famosa quanto sempre serei. Jamais serei mais famosa do que agora”.

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“Estou com o pressentimento de que você está caminhando para uma queda terrível.”  
                                                                                          —O Apanhador no Campo de Centeio

Certa manhã, Winona Ryder acordou — ela tinha uns 21 anos na época — e se sentiu “sensível demais para viver no mundo”, então deu entrada em um hospital psiquiátrico, onde passou uma semana. Ninguém falava com ela (a não ser para medicá-la). Mas, ao menos, ela começou a fazer terapia. E abriu as portas para “Garota, Interrompida”. “Quando atuam como se fossem ‘normais’, fica a questão: qual é a diferença entre essa pessoa e eu? O que leva ainda a outra questão: poderia ser eu no pinéu”, Susanna Kaysen escreveu acerca da própria institucionalização. Esse livro era justamente o que o médico havia receitado (ou deveria ter receitado) para Ryder, que lamentou não saber dele na adolescência. “Percebi que o que aconteceu comigo não era incomum”, ela contou à Vogue. “Foi tipo, ‘Meu Deus, tentei dizer isso a vida inteira e nunca consegui’.”

A adaptação do best-seller, publicado em 1993, demorou seis anos, e Winona interpretou um papel de 18 anos de idade aos 27. Kaysen conversou bastante com o diretor e co-roteirista James Mangold, mas só foi conhecer seu alter ego quando começaram a filmar, em 1998 (30 anos após os eventos descritos no livro). Ela foi até a Pensilvânia assistir a um dia de gravação, e à noite passou duas horas com Ryder, que estava faminta e exausta. A autora achou que o encontro foi muito rápido para despir a estrela da fama. “Não me encontrei com uma pessoa, parecia mais um artefato”, diz Kaysen. “Achei que não passamos tempo o bastante juntas, não consegui abstrair o fato de estar conhecendo alguém que não era exatamente uma pessoa para mim.” Entretanto, ela compreendeu que Ryder não visava “mimetizar” o comportamento de Kaysen, mas atentar para a própria experiência. “Creio que ela fez um excelente trabalho tentando entender como interpretar uma garota confusa e desesperada, e acho que é porque ela havia passado por isso”, disse Kaysen. “Ela não precisou conversar comigo para entender o papel.”

“Para nós, Winona Ryder é um ícone autêntico”

“Garota, Interrompida” costuma ser o último filme associado a Ryder. Também é o último filme em que ela deu vida à persona que a tornou famosa: obscura, inteligente, hermética — persona pela qual foi celebrada na juventude, porém institucionalizada enquanto adulta. Apesar de já ter vivido sua fase de formação há bastante tempo, lá estava ela de novo, nas telas, tentando descobrir onde se encaixava, e compreendendo que, na verdade, encaixava-se em lugar nenhum. Assim como Susanna e Holden, Ryder mais uma vez estava presa em um limbo, algo que Mangold notou no set de filmagens. Ao observar sua inaptidão para tomar decisões, ele a chamou de “ambivalente”, ao que ela respondeu: “sou mesmo, não sou?” Ela sempre estava fora do lugar, tanto em cena quanto fora das telas, mas em 1999, quando o filme foi lançado, todo mundo já tinha seguido em frente. E Mangold sabia disso. “Penso nela como uma atriz do cinema mudo”, disse ele, “e acho que ela é uma raridade, talvez até um anacronismo, no cinema falado de hoje”. No fim das contas, a sociopata de Angelina Jolie eclipsou Ryder e sua fala inicial profética: “alguma vez, você já confundiu um sonho com a vida real e roubou qualquer coisa, mesmo com dinheiro no bolso?”

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Dois anos depois, a resposta foi “sim”. Dia 12 de dezembro de 2001, Ryder foi presa por furto na loja Saks, na Quinta Avenida, em Beverly Hills. Ela havia quebrado ambos os braços dois meses antes e estava sob o efeito de oxicodona. Depois do incidente, ela contou à Vogue que andava “esquisita” e tomava o remédio mesmo sem saber se ainda precisava. “Você já tomou analgésicos?”, perguntou. “É pura confusão.” Ryder achava que as coisas estavam sob controle, visto que muitas pessoas cometiam furtos do tipo e se safavam. Ela chegou a esquecer o cartão de crédito no balcão. “Ela desligou. Foi isso que aconteceu”, disse o pai. “Em vez de barrá-la e simplesmente dizer, ‘olha, você esqueceu de passar o cartão’, quando ela saiu da loja com mais de 5.500 dólares em roupas e acessórios, chamaram a polícia.” Detida no escritório da loja, Ryder concordou em reembolsá-los. Mesmo assim, foi presa. “Eu não disse uma palavra”, contou ela um tempo depois. “Não fiz nenhuma declaração. Não fiz nada. Só queria que aquilo tudo acabasse logo.” Ela buscou refúgio em São Francisco, seu lar, e “conscientemente” optou por largar o trabalho. Um ano depois, em um julgamento coberto pela mídia, ela foi condenada por furto e vandalismo a três anos de liberdade condicional e 480 horas de serviços comunitários. Também foi multada e instruída a fazer terapia.

Mesmo sem “o incidente”, o termo que Ryder se refere ao episódio, Elaine Lui acredita que o declínio da carreira da atriz seria inevitável. E depois do lançamento de “Alien: A Ressurreição”, em 1997, ela mal conseguiu trabalho. “Só me chamavam para interpretar papéis tipo policial novata!” Ryder contou à Vogue. “E eu respondi, ‘Não tenho nada a ver com isso. Não vou fazer papel de polícia!’”

Na época do crime, ela tinha acabado de fazer 30 anos. “Era um momento em que eu estava tentando me entender. Estava tentando entender como levar a vida fora do trabalho e dos relacionamentos”, disse ela. Ninguém deu a mínima. Foi três meses depois do 11 de Setembro, e o mundo só tinha olhos para isso. “Ela encapsulou todos os sentimentos daquele momento”, diz Lui. “Mas é claro que uma celebridade não faz a menor ideia de tudo de bom que tem em mãos e precisa entrar numa loja e levar tudo embora.” Ainda faltavam quatro anos para a TMZ nascer, mas o desenrolar minuto a minuto do julgamento de Ryder foi um estouro na internet.

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Depois do caos, Winona Ryder se reergueu aos poucos, quase que imperceptível (um papel sem graça em “A Herança de Mr. Deeds” aqui, uma ponta não creditada como psicóloga em “Maldito Coração” acolá). Ela recebeu mais atenção por sua primeira grande campanha de moda, em partes porque era uma sátira de sua infração. O designer de moda Marc Jacobs, famoso por fazer mashups de cultura pop em suas peças, estética que domina a internet, curtiu o look do julgamento e optou por ela como um dos rostos da campanha de primavera/verão de 2003. “Convidei a Winona para participar da campanha porque ela estava lindíssima nas fotos recentes”, ele contou à Hello!, “mesmo no tribunal”. Os anúncios retratam uma Ryder histérica, cercada de itens recém-comprados, e um par de tesouras ao lado (uma matéria relatou que ela havia cortado as etiquetas durante o incidente). Ryder figurou mais uma vez na campanha de outono/inverno de Jacobs, em um aparente revival de “Os Fantasmas se Divertem”, com uma franja escorrida e uma saia preta de tartã (o desfile de primavera de 2016 de Wes Gordon também fez alusão ao filme, segundo a Vogue, por meio de uma reprodução “obscura e pantanosa” do estilo de Lydia).

Em dezembro de 2015, Jacobs revelou que a primeira campanha de Ryder no mundo dos cosméticos seria a coleção de primavera de 2016 para a Marc Jacobs Beauty. Ele a anunciou no Instagram, veículo que, nas palavras da New Yorker, destaca a “fotografia como uma arte elegíaca e sombria, uma arte que acelera e falsifica a emoção das fotos antigas ao eliminar o peso da história e aplicar, em dois segundinhos, uma textura de tempo.” É a resposta da internet à nostalgia do presente descrita por Fredric Jameson, em que pautamos as nossas vidas por filtros e molduras para compor uma falsa vida digna de lembrança. Na campanha de Jacobs, os olhos de Ryder foram delineados com uma pincelada monocromática, e ele escreveu: “isto me lembra um dos meus filmes favoritos de todos os tempos: ‘O Ano Passado em Marienbad’. A elegância cool, indefectível, e o glamour atemporal da atriz Delphine Seyrig há tempos são referências para mim”. A homenagem moderna de Alain Resnais à era silenciosa apresenta Seyrig como uma Louise Brooks tardia, uma memória que não passa de um sonho, porque nada está muito claro — nem fato, nem ficção; nem tempo, nem espaço. Tudo isso é tão fluido quanto as imagens que emergem na tela, tão fluido quanto o delineador que contorna os olhos de Ryder. Mas a fluidez de Seyrig não é como a de Ryder. Em 2014, Ryder figurou na campanha de outono/inverno da Rag & Bone, com um cabelinho bagunçado que lembra a época de “Caindo na Real”. “Para nós, Winona Ryder é um ícone autêntico”, disse o designer Marcus Wainwright. “Ela também tem uma beleza atemporal.” E é essa atemporalidade que lhe confere valor — ela é a personificação da nostalgia dos anos 90.

É impossível pensar em Ryder sem pensar na era grunge. Na revista do New York Times, em 2011, Carl Wilson cantou a bola do “ciclo da ressurreição cultural de 20 em 20 anos”, anunciando que finalmente havia chegado à nostalgia da geração X. “Em termos mais suaves, a nostalgia é a cola que reforça os laços da solidariedade e experiência compartilhada”, escreveu. “E é um lembrete de que não nos importamos apenas com a criação de uma ideia ou imagem, mas também com a data — as coisas ganham mais significado quando estão em sintonia e contraponto com outros eventos e conceitos da mesma era.” Conforme Tavi Gevinson contou à Entertainment Weekly em 2014, “o que eu sinto quando vejo as fotos da Winona Ryder adolescente de mãos dadas com Johnny Depp, eles de jaqueta de couro, nossa, não tem nada igual”. A única pessoa que chega perto disso é a Winona Ryder de hoje, porque cravada na Winona Ryder de hoje está a Winona Ryder de outrora. Ela carrega o passado consigo. A atriz adolescente que tentou transformar a própria vida em nostalgia, antes mesmo de chegar ao ápice da carreira e se tornar a mulher que Marc Jacobs hoje enquadra em nostalgia. Ela é uma matrioska de nostalgia. A imagem de Winona Ryder impacta mais do que suas últimas atuações — em “Dez Mandamentos Muito Loucos”, “The Last Word”, “E se o Amor Acontece…” —, e isso apazigua o desejo crônico da nossa cultura por preservar o passado, em vez de aceitar o presente.

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De volta a 1991, quando Ryder sequer havia completado 20 anos, a Rolling Stone a elogiou por selecionar “papéis fortes para mulheres”, coisa que muitas outras atrizes não conseguiam fazer. “Ainda não passei por esse problema, porque ainda não interpretei nenhuma mulher de fato”, ela observou, perspicaz. Além do cânone da angústia adolescente, Ryder enfrentou tantas intempéries quanto todo mundo. Ano passado, um artigo da publicação acadêmica The Journal of Management Inquiry revelou que as celebridades femininas atingem um pico salarial aos 34 anos de idade. Para os homens, é 51. “O semblante vivido dos homens é visado pois transmite maturidade, caráter e sabedoria”, dizia o artigo. “O rosto feminino, em contrapartida, é valorizado pela sua juventude.” Isso explica por que, aos 52 anos, Johnny Depp, antigo par de Winona Ryder, está no leme de uma franquia e ganha US$ 30 milhões por filme, enquanto todos os bens de Winona Ryder, 44, estão estimados em metade disso, e a mídia lhe presenteia com migalhas de elogios por não aparentar a idade que tem. “Ele ainda é um possível candidato a Oscar, aos cinquenta e poucos, e ela provavelmente nunca mais vai concorrer, infelizmente”, diz Shary, lembrando que o papel mais chamativo de Ryder nos últimos anos foi de uma “coroa” em “Cisne Negro”. “É um sintoma da maneira como a indústria trata homens e mulheres.” Há quem culpe “o incidente’, mas seu colega de profissão Robert Downey Jr., nascido em 1969, já foi preso muito mais vezes que ela e hoje é o ator mais bem pago do mundo (ah, e pouco tempo atrás, foi perdoado por uma sentença de posse de drogas, de 1999). As mulheres não podem cometer erros, que dirá as mais velhas.

Não é à toa que J.D. Salinger, celebrado pela descrição realista do inconformismo, quase sempre escrevia sobre “pessoas bem jovens”. Enquanto Johnny Depp lucra com os caprichos de papéis principais mais velhos — “Piratas do Caribe”, “Sweeney Todd”, “Alice no País das Maravilhas” —, Ryder fica para trás. Mulheres não podem errar, não podem ser diferentes, e mulheres mais velhas em geral sequer são toleradas. Cabem às mulheres mais velhas, conforme Ryder já é classificada, os papéis de esposas (“O Homem de Gelo”, “Experimentos”), namoradas (“Homefront”) e mães (“Stranger Things“, nova série do Netflix). Resta a Ryder se conformar com papéis coadjuvantes, fato que nos traz ainda mais saudade de Lydia Deetz, Veronica Sawye e Charlotte Flax. Conforme ela contou à Interview, “você se acostuma com certo rumo das coisas, até que, de repente, cresce”.

Mas nós não nos lembramos dela adulta. “A verdadeira heroína Ryder é uma doce alma bamba, em transição rumo à maturidade”, escreveu Richard Corliss em um artigo de 1994 da revista TIME, sobre a geração vigente de vinte e poucos anos, a “Geração Winona”. E embora ano passado a Vogue tenha proclamado uma Winonascença, a própria atriz reconheceu que era um resgate do passado, que as imagens do Instagram retratavam uma “garota frágil de olhos grandões”. “A nostalgia está agarrada à nossa juventude, ao que curtíamos quando éramos novos, e também às pessoas que viveram essa juventude conosco”, Shary disse. “É preciso ter uma memória real da época para sentir nostalgia. Daqui a uma ou duas gerações, o que os papéis de Winona Ryder do fim dos anos 80 tinham de assertivos e acolhedores se dissipará.”  Nossa memória de Winona Ryder é uma jovem silenciosa, um rosto gentil, uma voz remota, uma atuação paciente. Winona Ryder agora é mais mordaz, com um rosto anguloso, voz penetrante e postura mais agressiva. “Assustados” é como Lui descreve os olhos que a tornaram célebre. É como se, por não conseguir mais papéis semelhantes a ela, ela estivesse encenando tudo. Recentemente, Ryder contou ao Daily Beast que, quando foi convocada para a série “Show Me a Hero”, da HBO, o criador David Simon alertou: “melhor não mostrarmos esses olhos de Winona”. Foi o oposto do que sua bíblia pregava: seja honesto, inocente, puro. Em resposta, Ryder — que jamais conseguiu ser falsa — cortou os cílios. É praticamente impossível não compará-la com Sansão, o herói bíblico cuja fonte de poder eram as madeixas. É como disse Holden: “há coisas que deviam ficar do jeito que estão. A gente devia poder enfiá-las num daqueles mostruários enormes de vidro e deixá-las em paz.”


Publicado originalmente em Fevereiro de 2016 na Hazlitt. Republicado com autorização. Tradução por Stephanie Fernandes.