No banheiro de uma boate em Copacabana, o artista Celso Maciel esfrega o rosto com sabão. Batom, delineador e a cera que usa para encobrir as sobrancelhas por baixo da maquiagem escoam ralo abaixo. Pouco sobra de sua aparência de cinco minutos atrás. O que permanece — e não sai nem com água, nem com a incansável passagem dos anos — são os trejeitos teatrais, a sagacidade e o timing humorístico que fazem de Lorna Washington uma figura marcante na noite carioca desde os anos 1980.

Conversar com Lorna é um show à parte. Mesmo fora do personagem, ou “desmontada” em seu vernáculo, suas frases são proferidas cheias de entonação e, não raro, ela declama afinadamente trechos de músicas ou faz imitações pontuais de amigas célebres, como a cantora Alcione e a atriz Rogéria. Em seu indivíduo, criador e criatura se misturam. “Meu nome é Celso, mas ninguém me chama assim. Todo mundo me conhece como Lorna Washington.”

Sua vida virou narrativa do documentário “Lorna Washington — Sobrevivendo a Supostas Perdas”. A obra dos diretores estreantes Leonardo Menezes e Rian Córdova foi lançada neste mês após quatro anos de pesquisa sobre a carreira do transformista. “Conheci Rian depois de uma apresentação”, ela relembra sobre o amigo, que também é cantor. “Perguntei se alguém queria dizer algo no microfone. Ele subiu e disse estar lá por causa da mãe. Estou pulando gerações, é isso?”

O filme lembra episódios de sua vida, como os shows na boate Papagaio e suas viagens pelo Brasil e Estados Unidos, intercalando-os com depoimentos da colega Isabelita dos Patins, do carnavalesco Milton Cunha e, mais uma vez, da atriz Rogéria. A amizade surgiu nos bastidores do teatro Alaska, na época do espetáculo Rio Gay, dirigido por Jorge Fernando. No começo, eram apenas cumprimentos informais. Quando Lorna perdeu a mãe, Rogéria a chamou em seu camarim. “Sente-se. Soube que você perdeu sua mãe. Essa é uma dor que morro de medo de ter”, imita Lorna com a voz inconfudível da atriz. Viraram amigas. Em sua primeira internação, Rogéria foi visitá-la no hospital. “Ela chegou achando que eu estava nas últimas, me encontrou sentada lendo um livro: ‘Eu achei que ia me deparar com a Dama das Camélias e você está bem!’ O pessoal do hospital ficou doido, queriam tirar fotos. De repente, ela para e diz: ‘A acústica daqui é ótima!’ E foi embora pelo corredor cantando em francês.”

Sentada em uma maca no Hospital Federal de Ipanema enquanto seu pé é examinado pela enfermeira, Lorna relata que a doença que a deixou internada por quatro meses surgiu pela primeira vez há onze anos, quando voltava de uma viagem a Nova York. Um machucado em seu pé direito evoluiu para um edema, piorado pela infecção bacteriana da osteomielite e pela diabetes. Há dois anos, essa junção de fatores quase levou sua perna embora. As quatro cirurgias para recuperá-la fizeram com que ela tivesse de descer do salto. Os curativos precisam ser refeitos todos os dias e, quinzenalmente, ela visita o hospital. Na mais recente visita, a enfermagem lhe entrega gaze e pomadas, que ela guarda em uma sacola junto ao figurino que usará em uma apresentação à noite. Traz sempre em sua bolsa comprimidos de ácido fólico para a pressão, sulfato ferroso para a anemia e faz aplicações diárias de insulina em sua casa nos subúrbios da cidade.

Apesar de morar longe do centro, o título de “face of Rio” muito bem poderia ser seu já não fosse de Narcisa Tamborindeguy. Celso nasceu em Copacabana, um dos cinco filhos de um porteiro. Seu quarto ficava na garagem do edifício, onde “dormia no seco e acordava no molhado” quando a maré subia para além da avenida Atlântica, muitas vezes na companhia de ratazanas. Mas foi naqueles andares que se educou, ora tendo aulas de etiqueta à mesa com uma prima de Santos Dumont, ora frequentando a biblioteca de um intelectual da Academia Brasileira de Letras. “Fazer a pobre coitada não é minha cara. Eu nunca me senti à margem das coisas.”

Lorna circula pela cidade recontando histórias sobre pontos turísticos, apontando casas de famosos e indicando quais caminhos pegar para fugir do trânsito. Seu condutor é um ex-gogo boy que trabalha como motorista de Uber – talvez por isso encare com naturalidade uma drag queen paramentada em seu banco do passageiro. Ele lhe faz descontos nas viagens e, como sua cliente se locomove apenas com o andador, busca-a em domicílio no bairro do Engenho da Rainha. As janelas de Lorna dão vista para o teleférico que sobe o morro do Alemão. A irmã Neide mora nos fundos, enquanto seu quarto fica estrategicamente posicionado à frente para que consiga tomar seu banho de sol da cama. Nas paredes, retratos de suas performances e estatuetas religiosas espíritas e católicas.

Quase despercebida, no canto da sala de estar, há uma porta ao lado de uma Bíblia aberta e encabeçada por um leque chinês. Este é o “quarto de Lorna”. A salinha abafada de poucos metros quadrados é apinhada de vestidos costurados por amigos estilistas, bijuterias da rua 25 de Março e acessórios de cabeça bordados com paetês a uma condição na qual caminhar é impossível. Para escolher o figurino, Lorna se debruça por sobre a bagunça e alcança os cabides com sua bengala. Foi pelo vestuário que assumiu sua homossexualidade para a família, quando uma sobrinha descobriu seu guarda-roupa com trajes femininos. Da mãe Aurora não ouviu sermão, mas conselho: “Tome cuidado e seja feliz”.

Enquanto ajeita uma peruca castanha no espelho, ela ri sozinha: “Estou parecendo uma viúva indo receber o pecúlio do falecido marido”. Sua personagem está no meio-termo entre uma Elizabeth Taylor e aquela tia desbocada no almoço de família. Um equilíbrio entre a elegância midiática, o escracho e a crueza de figuras femininas reais. Seu nome, por exemplo, tem inspiração em Lorna Luft, filha de Judy Garland, mas também em uma amiga norte-americana com quem nunca mais teve contatos. Em busca de um sobrenome, batizou-se com a cidade natal da amiga estrangeira.

Seus números seguem a escola do escárnio e o improviso de Dercy Gonçalves — ela também abandonara os saltos graças a um problema de saúde. É comum que, no palco, repita tiradas bem humoradas que tivera em conversas no camarim poucos minutos antes de subir ao tablado. Lorna dubla músicas e monólogos com perfeição e sua voz canta bem em português e inglês, sem tropeçar nas palavras graças à época em que era professora da língua. Seu propósito, no entanto, não é só a diversão: ao mesmo tempo em que solta palavrões para falar de sexo anal e “trucar a neca” (esconder o pênis para que não marque nas roupas), também critica a bancada evangélica e o Veículo Leve sobre Trilhos implementado pela prefeitura de Eduardo Paes para as Olimpíadas.

“Eu imagino quantas pessoas não deixaram de morrer de AIDS nos anos 1980 só por causa das piadas dela”, diz o diretor Leonardo Menezes. O trabalho de Lorna sempre esteve ligado à conscientização sobre a segurança sexual. Por seu ativismo, já ganhou título de benemérita pela Assembleia Legislativa do estado. Atualmente, faz parte do grupo Pela VIDDA —assim com dois dês mesmo, significando “Valorização, Integração e Dignidade do Doente de Aids”. A organização é fundada por portadores de HIV e se volta a pessoas que convivem com o vírus. “Muita gente acha que sou soropositivo. Chegam a me dizer: ‘Você é uma guerreira por ter aids e estar trabalhando até hoje’. Eu não desminto.”

É mais que natural que sua imagem também desempenhe papel importante na luta contra a homofobia e o preconceito contra travestis e transexuais. “São os paradoxos da vida. Tem eventos de senhoras idosas em que elas não passam sem um número de drag. Mas vai ver se elas querem ter um neto viado.” Diversas vezes, Lorna gosta de lembrar que é uma prestadora de serviço tendo de lidar com o público. “Eu trabalho como qualquer outra pessoa. Não sou estrela: estrela está no céu. Depois que você fica presa em um leito de hospital dependendo de gente até para limpar sua bunda, você tem uma outra visão sobre a vida.”

Extravagâncias à parte, Lorna não leva uma vida desregrada. Não bebe e diz ter horror a cigarro. Suporta com incômodo a barulheira das boates quando seus números se estendem madrugada adentro. Afinal de contas, é de uma época onde os shows de drag queens eram as atrações principais da noite. Hoje, nem todos na plateia entendem os comentários bem humorados que faz enquanto interpreta a canção “Cabaret”, eternizada na voz de Liza Minnelli em filme homônimo de 1972. A canção menciona a amizade da protagonista Sally Bowles com uma amiga festeira de nome Elsie. Era ela quem lhe havia ensinado que a solidão é desnecessária enquanto há música para ouvir e diversões lá fora. Em verso, Sally também canta sobre a morte de Elsie: o defunto mais feliz que ela já vira. Afinal, ela havia aproveitado a vida como em um cabaré.

Apesar de sua perna, Lorna não aparenta a mínima debilitação. Não geme, não reclama de dores, não encara sua condição de saúde com caretice. No entanto, a morte é tema frequente de suas conversas pessoais e monólogos performáticos. “Eu sempre digo: me dê flores em vida, porque depois que eu morrer, só quero oração”, ela declama no palco e na vida. “Mas fiquem tranquilos que eu não vou morrer agora.” O que se pode afirmar com certeza é que, quando Lorna for, ela não irá como Celso. Irá como Elsie.